#CRÔNICA: Rosa Amarela

#CRÔNICA: Rosa Amarela

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Por Cássio Leonardo

Eu havia ganhado uma rosa amarela, de um moço qualquer, desses que entregam flores na rua. A rosa nem bonita era, ainda não havia desabrochado completamente, parece que fora colhida cedo demais, tinha um talo verde muito grande, era desajeitada, ela era cedo demais, inclusive para mim, que andava apressado sem motivo real, só para manter minha sensação de fazer tudo rápido e parecer eficaz, ri sem graça para o rapaz e fui andando depressa. Porém a pressa que eu fingia não mascarou a rosa. Que feia existia, pensei que horas antes estava com o coração batendo exangue, pois tinha sido exposto a esperança e o destino com crueldade esmagou na minha frente aquilo que eu tinha sonhado, foi como se eu tivesse me precipitado, e o castigo fora a não realização do que eu queria. Continuei andando e pensando no que quisera Deus me lembrar, sempre soube que era um risco querer, e me achava corajoso por assim mesmo querer, estaria ele me lembrando que ainda não posso, que ainda não sei pedir e que por isso o que almejo não será meu?

Quando dei por mim estava sozinho em uma rua desconhecida e molhada, parece que tinha chovido na madrugada, nem sabia como tinha chegado ali, só sabia que fora rápido, eu havia me enfiado em ruas movimentadas e de repente estava ali, como se em plena cidade grande pudesse existir uma rua de interior. A rua era larga, rodeada de árvores, de longe eu via casas simples de telhados baixos e portões abertos. O sol batia fraco no meu rosto, era de manhã e eu senti uma felicidade indiscreta, logo eu, que nunca fui dado a exageros, essa felicidade toda me fez chorar, chorei muito e nem sabia o motivo, na verdade nem queria entender, mas a maldição dos homens, que é o entendimento esporádico do que se sente, caiu sobre mim.  Foi quando entendi, com teimosia, que aquilo que sentia e machucava não era felicidade era esperança que doía, era a minha falta de prática em ter fé. Mas também não procurei por perdão, percebi que havia um homem parado na esquina e que ele me olhava, ele também já fora machucado por deus, perguntei como faria para sair daquele lugar, e parece que interrompi qualquer coisa, você vira aquela esquina e depois dobre a esquerda. Então era fácil assim, pensei. O destino me quisera preso naquela rua fora de época, eu quisera aquele homem e não queria deus.

Já em casa, aceitei que jamais saberei o que estava fazendo naquela rua ou do que queria Deus me lembrar, coloquei a rosa na água e me esqueci dela, eu ainda sinto calor do sol. Alforriei Deus, é a mim que cabe a mudança ou pelo menos a mim cabe viver, dele eu não sei, agora eu não o quero, eu não o vejo, só aceito a rosa dada, talvez eu tenha que guardar o futuro para o futuro e deixar que deus, se é que ele existe, cuide do resto do mundo que também sou eu.

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