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Por Tiago Jamarino – Start – Parceiros Contramão HUB

Em uma entrevista com Fox 5 DC, Henry Cavill discutiu o processo que entrou na remoção digital do bigode enquanto voltou para as refilmagens de  Liga da Justiça:

 

“Não é nada para cobri-lo. O que fazemos é que nós tentamos puxá-lo de volta do lábio superior, tanto quanto possível, de modo que eles o removem, e então eu tenho pontos por todo o rosto. E eles tentam colocar pontos, que são pouco visíveis, em vários pontos no rosto, o que você os veria durante o normal – e não a substituição do rosto -, seja qual for o aspecto CGI que eles possam aplicar a um rosto. E, sim, eu estava coberto de pontos e tinha um grande bigode. Era definitivamente um novo visual para o Superman “.

 

Liga da Justiça possui um elenco que também inclui Ben Affleck como Bruce Wayne (Batman), Henry Cavill como Kal-El / Clark Kent (Superman), Jason Mamoa como Orin / Arthur Curry (Aquaman), Ezra Miller como Barry Allen (The Flash) Ray Fisher como Victor Stone (Cyborg), Ciarán Hinds como Lobo da Estepe, Amy Adams como Lois Lane, Willem Dafoe como Nuidis Vulko, Jesse Eisenberg como Lex Luthor, Jeremy Irons como Alfred Pennyworth, Diane Lane como Martha Kent, Connie Nielsen como Rainha Hippolyta , Robin Wright como General Antiope, JK Simmons como Comissário James ‘Jim’ Gordon, Joe Morton como Dr. Silas Stone, Amber Heard como Mera, Billy Crudup como Dr. Henry Allen e Kiersey Clemons como Iris West. Julian Lewis Jones e Michael McElhatton também estão no filme em papéis não especificados. Aqui está a sinopse oficial do filme:

 

Alimentado por sua fé restaurada na humanidade e inspirado pelo ato altruísta de Superman, Bruce Wayne pede a ajuda de seu novo aliado, Diana Prince, para enfrentar um inimigo ainda maior. Juntos, Batman e Mulher-Maravilha trabalham rapidamente para encontrar e recrutar uma equipe de metahumanos para enfrentar esta ameaça recentemente despertada. Mas, apesar da formação desta liga sem precedentes de heróis – Batman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Cyborg e The Flash – talvez já seja tarde demais para salvar o planeta de um ataque de proporções catastróficas.

 

A Liga da Justiça chega aos cinemas em 16 de novembro de 2017.

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Por Débora Gomes – . as cores dela .  – Parceira Contramão HUB

Salvador, 

aprendi, ainda criança, que certas coisas, quando começam a doer, a gente não tem muito como remediar: carece deixar ao tempo, a Deus dará, como diziam antigamente.

te conto isso porque, de uns tempos pra cá, aconteceu o que eu muito fazia gosto de não acontecer: o jeito d’ocê existir, começou a me doer. eu evitei enxergar porque não queria perder da vida, a minha única chance de amor. mas nem sei como foi. quando percebi, já tava aqui chorando, três dias direto, sem sair de casa, sem falar com os outros, sem me ver no espelho. só pensava na dor. e quanto mais pensava, mais eu sentia. coisa que nunca senti antes, quase que uma falta de vontade de viver.

corri pra Bisa, depois de uma noite em que não vi estrela nenhuma. e então ela me alertou. disse que é bem capaz que a vontade do meu pensamento, prendia meu coração n’ocê e isso desencadeava toda dor. cá no fundo, eu sabia também que metade disso (isso a dor) vinha da minha certeza de que cê não voltava porque não mais queria. e isso, em si, fazia mais cicatriz do que se cê criasse coragem pra me dizer…

é que algumas coisas, Salvador, doem mais quando a gente supõe, do que quando a gente tem certeza. e sabes muito bem que sou dada a suposições e ilusões demais. e vai ver, é por isso que sofro tanto. 

aquelas mesmas cartas que viram nosso destino, já não te enxergam mais em mim. e fiquei pensando se o amor apaga e amarela assim mesmo, como caderno velho escrito à lápis. vai ver, no fundo, nunca foi amor. foi só essa vontade de que as coisas fossem diferentes porque danei de ver no seu jeito de enxergar o mundo, uma maneira mais bonita de se viver. e isso, nem sempre vai ser libertador.

no entanto, não te preocupes. teu lugar sempre prevalecerá nas cartas e nas canções, até quando o tempo carregar tudo…

ainda (e sempre) é com amor,
Alice.

 

Feira da Agricultura Familiar Urbana

Por Hellen Santos 

O Circuito da Praça da Liberdade recebeu no prédio da antiga secretaria de Viação e Obras Públicas (também conhecido como prédio verde), na Praça da Liberdade, a Feira da Agricultura Familiar Urbana – Do Campo pra Cá. A feira que já existe há dois anos na Cidade Administrativa, está em sua 2ª edição no circuito e vem com a intenção de se fixar no espaço. A feira tem como objetivo apoiar e disseminar a agricultura familiar e os pequenos produtores na capital mineira.

Com sua saída da Cidade Administrativa e iniciação de ocupação do circuito, inicialmente a feirinha irá ocorrer no prédio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico -Iepha com 18 barracas, trazendo o campo efetivamente para a região Centro-Sul com produtos orgânicos, naturais, sem agrotóxicos, os organizadores da feira visam trazer para a população produtos saudáveis com valores mais acessível do que o consumidor encontra nas redes de supermercados. “Em grandes supermercados o consumidor vai pagar caríssimo por produtos orgânicos e aqui, na feira, o cliente terá acesso direto ao produtor.”, explica o assessor da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Marco Cordoni, que destaca: “Eles colheram por exemplo, verduras e frutas hoje pela manhã, então esse é a oportunidade que a população terá de se alimentar com produtos frescos, além de estar mais perto do produtor – conversar direto com as pessoas que vem fazer sua feira, é benefício para os dois lados”.

A pretensão principal é sistematizar a feira no circuito em um dia da semana, explica o assessor. De acordo com ele, a primeira edição foi numa quarta-feira, a segunda edição ocorreu nesta segunda, “A gente está ouvindo a população e aos produtores para vermos qual é o dia ideal para fazemos uma vez por semana. Pretendemos ocupar todo espaço aqui, já está acordado com o diretor do Circuito Cultural do Banco do Brasil de ocupar o espaço, continuaremos a ocupar e talvez ir para o outro lado da Praça, usar o espaço da biblioteca e outros espaços do Circuito da Liberdade, completa Cordoni.

Marco Cordoni-Assessor da Secretaria de Desenvolvimento Agrário

Vinicius de Lima Cruz, produtor de Mel, reforça a importância do mel e da feirinha na Praça da Liberdade: “É quase um substituto do açúcar porque ele tem um doce natural e ele é muito bom para a saúde, juntamente com a própolis que a gente também produz. Ele faz com que a sua imunidade melhore bastante”, enfatiza Cruz que destaca “Acho que o evento saindo da Cidade Administrativa, alcança um público maior, além de dar visibilidade para o nosso produto ele ainda faz com que a agricultura familiar cresça. É um evento importante que precisa realmente ser divulgado para mais áreas da cidade, fazer com que o campo fica mais próximos da cidade”.

Vinicius de Lima Cruz-Produtor de Mel

Rosângela Rodrigues de Freitas, produtora de Quitandas de Congonhas ressalta a importância da feira como resgate cultural quando alguém está provando e após a degustação avaliar seu trabalho. Freitas ainda pontua, “A quitanda artesanal é aquela que você pega para fazer e coloca muito amor. É um resgaste cultural passado pelas avós, que  sempre iam para a cozinha fazer essas quitandas com um cafezinho, chegava uma visita e você já oferecia, isso é muito gratificante”, conta Freitas.

Rosângela Rodrigues de Freitas

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Por Daniel Reis 

Alerta: Spoilers!!!!

Uma das maiores surpresas do último ano, Stranger Things retorna com a estreia de sua emocionante segunda temporada, que apresenta evolução de sua mitologia, de seus personagens, e do próprio roteiro que acaba mais acertando do que errando.

Com um primeiro episódio que já define bem como essa temporada vai seguir, a série começa acompanhando a nova vida do garoto Will Byers (Noah Schnapp) que após a pouca presença na primeira temporada, se torna o grande destaque desta. Ele que agora tem que lidar com apelidos como Zumbie Boy (ou Zumbizinho) e a superproteção da família e amigos, tem seu arco aprimorado entre contatos com o Upside Down, e a surpreendente atuação do garoto de 13 anos.

Com o Halloween chegando, mantém-se aquela atmosfera oitentista da primeira temporada, com um plus que é o sétimo episódio desta temporada, chamado “The sister”, que tem ligação direta com a primeira cena do primeiro episódio e funciona quase como um Spin-off. É justamente nesse ponto que a série dá uma derrapada e parece perder um pouco da essência que os fãs tanto gostam. Porém o episódio em questão surpreende por expandir (e muito) a história da Eleven (onze) personagem da nossa queridinha Millie Bobby Brown. Com uma cena incrível, a personagem volta com tudo, sendo dona das melhores cenas da temporada, mas apesar disso o episódio não responde todas as perguntas e deixa pontas soltas para serem desenvolvidas futuramente.

Além dos destaques para as atuações mirins de Millie e Noah (Eleven e Will) a grande evolução e destaque fica por conta do Xerife Hopper interpretado por David Harbour (Nosso novo Hellboy) e que desponta nos diálogos e nos momentos mais emocionantes da temporada, é evidente o quanto o ator se entregou ao personagem e gera uma química excelente com praticamente todo o elenco da série. Mas de longe a forma com é abordada a relação dele com a Eleven, e de como os criadores conseguiram em tão pouco tempo construir uma relação tão forte, é o maior dos elogios aqui. Enquanto assistia, ficava ansioso esperando passar alguma cena deles contracenando de novo.

No entanto, nem tudo são flores e um fato que pode incomodar quem estava com saudade da trama, é ver em boa parte do tempo os principais núcleos desmembrados, temos alguns personagens seguindo motivações pessoais e outros que parecem estar ali somente para agradar os fãs da série ou servir de escada para algo no roteiro funcionar, isso não incomoda muito mas pode acabar sendo desgastante para o espectador.

Este é o caso da “vingança” pela morte da Bárbara (Shannon Purser), que era algo muito pedido pelos fãs, mas soa desinteressante perto dos outros núcleos apresentados, e faz um desfavor a personagem de Nancy (Natalia Dyer) que havia terminado a última temporada bem Badass tomando a frente em alguns momentos e partindo para luta, já nessa retorna como se não tivesse evoluído em nada, e buscando a tal vingança pela a morte da amiga somente um ano após o ocorrido, depois de cenas dispensáveis e forçadas dela bêbada chorando em uma festa de Halloween que no fim não serve de ponte para vingança mas sim para o fraco triângulo amoroso entre ela Steve (Joe Keery) e Johnatan (Charlie Heaton) bem melhor se tivessem resolvido logo no início deixando a personagem de Nancy livre para a trama que realmente importa.

Elenco mirim de Stranger Things, Premiere segunda temporada/ Foto: Divulgação

As adições também são vagas, sem ganhar tanto destaque, não pela falta de presença, mas pelas histórias serem realmente desinteressantes. Os irmãos Max (Sadie Sink) e Billy (Dacre Montgomery) são o maior exemplo disso, com um passado que é mantido em segredo quase toda a temporada, com cenas e mais cenas de diálogos misteriosos para no fim ser uma história comum de divórcio que não traz humanidade para os personagens, nem faz você gostar mais ou se importar com eles, fazendo com que estes conflitos soem como pura vergonha alheia em alguns momentos.

A parte boa foram as adições de Dr. Owens (Paul Reiser) que por se tratar de um cientista do misterioso laboratório de Hawkins. Aparentando ser bonzinho demais, traz sempre um ar de desconfiança ao espectador quando está na tela, chegando a ser um desafio a parte para quem assiste descobrir suas reais intenções. Além disso temos a chegada de Bob personagem do Sean Astin que não acrescenta muito, mas é indispensável para o arco emocional de Joyce Byers (Winona Ryder), e que possui algumas das melhores referências dessa temporada, com direito a uma piada referenciando a Goonies (filme que ele participou no anos 80 como ator mirim), quando pergunta se o mapa do Will leva a algum tesouro pirata.

Apesar das derrapadas, a série se mostra muito superior em todos os âmbitos, trazendo cenas marcantes, com diálogos e conflitos inteligentes, e um respeito a si mesma ao manter todo o clima da primeira temporada, evoluindo os principais personagens sem desrespeitar a jornada deles. A maioria das principais perguntas deixadas na primeira temporada são resolvidas rapidamente nesta, o que facilita em manter a trama simples e atrativa.

Stranger Things é hoje uma das maiores séries, e tem tudo para se manter neste posto por mais algumas temporadas, poderia facilmente causar um frisson tão grande quanto o de Game of Thrones se fosse lançada semanalmente, mas mesmo assim várias pessoas estarão discutindo a saga de Eleven e companhia. O que nos resta agora são as teorias, que vão surgir sobre o futuro da série, rever esta excelente temporada, e um especial muito interessante que a própria Netflix lançou chamado Beyond Stranger Things.

Com um roteiro em três atos, e uma direção impecável os Irmão Duffer, fizeram de novo um filme de 9 horas que vai fazer você se importar com a trama, não querer parar de assistir, não sair do sofá nem para ir ao banheiro e no fim ainda pedir por mais, reclamando sobre a demora até a próxima temporada.

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Por Lucas D’Ambrósio

Belo Horizonte, abril de 2017. Rua da Bahia, onze horas e alguns minutos da manhã.

9105, 12 minutos

Ao meu lado, um homem com aparência de uns 40 anos, aguarda a chegada do seu ônibus. De um lado do ponto, a rua. Do outro, um açougue. Logo, a primeira aproximação: boné, chinelos de dedo, rosto marcado com cicatrizes e manchas escuras sobre a pele, que se aproximou daquele.

– Senhor, bom dia! Não vim pedir dinheiro. Eu só quero dois pés de galinha! Nós vamos cozinhar eles logo ali, debaixo do viaduto. O senhor pode me ajudar?

O homem, com aparência dos seus quarenta e poucos anos, coloca as mãos no bolso. Sacode, puxa a mão das entranhas de tecido e entrega algumas moedas. Logo ouve, de um sorriso desfalcado de alguns dentes, um “muito obrigado”.

9105, 9 minutos

Ele não estava só. Encostado na parede do açougue, outro homem aguardava o resultado das abordagens, na esperança de que o companheiro pudesse recolher algum dinheiro para a carne do dia. Esse, por sua vez, aparentava ter entre 15 a 17 anos, talvez.

9105, 7 minutos

Uma mulher de cabelos brancos, com seu um metro e meio de altura também foi abordada. Balançou a cabeça e seguiu seu caminho. Mais à frente, outra pessoa também recebe o pedido para ajudar na compra dos dois pés de galinha. Recebeu dois braços abertos. Abertos por um questionamento. Negação? Talvez. Conversa vai, conversa vem, mais um balançar de cabeça. E cada um vai pra um canto, outra vez.

9105, 4 minutos

Juntos na parede do açougue, o dois se encontram para reavaliarem suas estratégias. Uma conversa ao pé do ouvido, uma fitada para quem passa entre a loja e o ponto. Outra fitada, para dentro do açougue. Ele insiste. Agora, outra mulher. Vestido longo, com estampas pretas e brancas. Com seu ombro deslocado, se ajeitava entre o pedido da carne e o segurar de sua bolsa. Com o olhar sob um par de óculos, se afasta em dois passos quando percebe a abordagem do homem. Ela aponta o dedo para a porta do açougue e diz que ele não poderia estar ali.

9105, aproximando

Ele não desiste. Chega perto com as mãos para cima e pede para conversar. O burburinho da rua é mais alto do que a conversa que tiveram. Ela retira seus óculos e faz um gesto para ele, dessa vez, esperar. Ele retorna à mesma parede do lado de fora do açougue, mais inquieto do que antes.

9105

Não os vejo mais. Subo as escadas do ônibus e encontro o meu lugar. Pela janela vejo que não estão mais encostados naquela parede, tampouco no interior do açougue. Uma esquina à frente e lá estavam eles. No arrancar do ônibus, algo nas mãos do homem mais novo. Uma sacola. De longe, não tinham dois pés de galinha. Era um saco plástico manchado de vermelho. Pesado. Uns dois quilos de carne? Hoje vai ter rango!

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Por Bianca Rolff – Gauche – Parceira Contramão HUB

Eram aproximadamente cinco horas de uma tarde enfadonha, na qual tudo o que ela havia feito era tentar recuperar o irrecuperável. Eram consideráveis os volumes de romances que recebia cujos conteúdos ela não entendia como passavam pela triagem de seus superiores na editora, mas aquele em específico estava além de qualquer adjetivo negativo.
Uma história vazia, cheia de clichês mal utilizados e muito, muito sexo. Uma combinação bombástica e completamente estapafúrdia, mas ela nada podia fazer depois que o contrato já havia sido assinado entre o “escritor” e a editora.
Aliás, havia algo que ela podia fazer. Morrer antes que houvesse a publicação, constando seu nome como revisora. Talvez até mesmo nos agradecimentos feitos pelo autor, olha que honra. Sim, ela queria morrer.
Tomou mais um gole do chá de erva doce e suspirou, estalando o pescoço. Levou as mãos à nuca,  de onde geralmente puxava alguns fios de cabelo, mas se lembrou que não havia mais cabelos para puxar. Direcionou os olhos para o espelho e viu a imagem de uma jovem magra, com olheiras e os cabelos raspados como os de quem inicia quimioterapia.
Ela realmente parecia que ia morrer.
Largou o laptop sobre a cama e foi até a janela. Fazia um frio cortante, mas ela vestia apenas uma blusa fina de algodão. Eram tão poucos os dias de frio no ano que ela se recusava a vestir casacos e cachecóis em casa. Gostava da sensação de ver o corpo se arrepiar, a ponto de a coluna doer. Deixou o vento frio balançar as cortinas e atingi-la com força. Todo o seu corpo estremeceu e ela sorriu pela primeira vez naquele dia tão entediante.
Permaneceu ali, sorrindo de olhos fechados por mais alguns instantes, até que num movimento abrupto, fechou a janela e se voltou para o interior do quarto. No exato momento em que ele chegava.
Davi.
– Ou você aprendeu a entrar sem fazer absolutamente nenhum tipo de barulho na tranca da porta, ou eu suponho ter deixado, por relapso, a porta aberta. Diga que foi a primeira opção…?
– A segunda. Eu não conseguiria abrir aquele cadeado sem que você percebesse. Nunca.
Ele se aproximou e lhe deu um beijo gelado no nariz, fazendo-a espirrar. Davi colocou o casaco metodicamente na maçaneta da porta e se sentou sobre a cama, olhando para o laptop.
– Pelo jeito, você recebeu um exemplar e tanto, dessa vez – ele falou, sorrindo de lado.
Não era apenas o nome que tinham em comum, mas Davi era incrível e absurdamente parecido com o seu homônimo camaleão do rock. Isso era o que havia feito com que ela o olhasse pela primeira vez, mas não com olhos de admiração. Ela odiava Bowie. Mas adorava Davi com todas as suas parcas forças, após uma tarde de trabalho inútil.
– Vai ser publicado de todo jeito, com ou sem a minha revisão – disse ela, sentando-se ao lado dele e pegando o laptop de volta – É daquele garoto que venceu o programa da tv. O “príncipe da MPB”, como andam dizendo. Ele devia continuar cantando, ou seja lá o que ele faz. Qualquer coisa é melhor do que isso.
– Está com fome? Aposto que não comeu nada o dia inteiro. Você não pode viver de chá de erva doce.
– Não estou vivendo de chá – ela mentiu, sabendo que ele não acreditaria nela – Mas pode pedir uma comida chinesa. Com certeza vai animar o meu dia.
O delivery demorou três quartos de hora para chegar, tempo gasto com conversas, palpites de Davi sobre a obra inédita (ela devia continuar assim, será que ninguém percebia isso?!) e algumas trocas de carícias delicadas. Quando finalmente chegou, ambos devoraram os pedidos e depois se deixaram cair sobre o tapete da sala, ignorando as sobras de comida que se prendiam a ele.
Os olhos dela ardiam e sua coluna doía mais do que nunca.
Virando-se para o lado, ela encarou o perfil de Davi, que agora estava de olhos fechados. Ele era a reencarnação do Bowie, não havia outra explicação, apesar de eles terem estado concomitantemente vivos na terra durante vários anos, o que dificultava um pouco a teoria espírita. Talvez ele fosse um filho bastardo do artista, porque não? Ela ainda investigaria sobre isso.
Davi abriu os olhos e a encarou. Seus olhos eram ternos e cheios de alguma coisa que ela não conseguia decifrar, mas achava que era amor.
– Vou te deixar sozinha – ele disse, levantando-se lentamente, com um charme inglês que até ela precisava admitir ser considerável – A gente se vê amanhã? Isto é, se você não morrer antes, por causa dessa nova “tragédia”.
– Se eu morrer, faça uma festa. Eu volto pra agradecer.
Ele sorriu aquele sorriso torto de novo e, afagando a nuca dela, despediu-se com um beijo na testa. Quem, em sã consciência e com a aparência de um dos maiores astros da música de todos os tempos, despedir-se-ia de alguém com um beijo na testa?
Ela o amava. Por mais louco que parecesse, ela o amava, sim.
*
A campainha tocou naquela noite, fazendo-a levantar da cama, surpresa. Não esperava que Davi voltasse, ele não costumava mudar de ideia. Quando abriu a porta, viu-a, parada com os olhos esmeralda penetrantes, a encará-la.
– Achei que você pudesse querer companhia.
Sem dizer nada, ela deixou que a jovem entrasse em seu apartamento. Sentou-se no sofá e deixou que ela desabotoasse a sua blusa de algodão e retirasse a sua calcinha. A última imagem que viu antes de fechar os olhos foi aquele par de olhos verdes, um com uma pupila maior que a outra, a observá-la antes de sumir no meio de suas pernas.
E, em sua mente, tocava, incessantemente, “Rebel, Rebel”.

– Bia