Entretenimento

Filme “Benzinho”/Foto: Divulgação

Por Gabriel Santiago*
(Aluno do 2º período do curso de Cinema e Audiovisual do Centro Universitário UNA)

A realidade é que jovens têm saído da casa de seus responsáveis cada vez mais cedo e, com isso, deixam um dilema que vai além das questões emocionais. O ponto de vista materno ao lidar com a famigerada “síndrome do ninho vazio” é uma premissa bastante empática de se assistir. É bonito, poético e poderoso como o filme é aberto para todo tipo de público já que há uma enorme variedade de obstáculos que podem fazer o espectador mergulhar ainda mais fundo no universo de “Benzinho”.

A trama gira, principalmente, em torno de Irene e seu conflito emocional com a partida do filho mais velho, Fernando, para Alemanha. Porém não é só Irene que está vivenciando esta mudança, todos ao redor são atingidos e transbordam emoções das mais variadas que, quando manifestadas, são expressadas principalmente através de projeções, signos linguísticos e sutilezas. Tanto Irene quanto o pai de Fernando, Klaus, direcionam em conjunto a trama, projetando suas emoções ambíguas sobre a partida do filho e, consequentemente, adiando o que toda desilusão exige: o luto. É nítido que a mudança do filho é mais significante na vida dos pais e por isso que, constantemente, ambos se vêem em situações de conflito com seus sentimentos de zelo com os de apoiá-lo em seguir seus sonhos enquanto jogador.

No rudimento do filme somos apresentados à Irene tentando abrir uma fechadura utilizando inúmeras chaves e até mesmo uma faca para obter sucesso. Posteriormente, somos apresentados a Klaus e em seguida vemos o personagem fechando o lado de dentro da porta com martelo e pregos. Essa incompatibilidade de gestos, brandos, porém relevantes, nos faz entender como cada um deles lidará com seus sentimentos ao longo do filme — além do admirável trabalho exercido pela direção de arte e pela fotografia, que reforçam ainda mais as divergências das personalidades de cada um através de cores que se opõe.

Irene é enérgica, emotiva, quente — como as cores que estão nela e ao seu redor. Klaus se opõe a maioria desses comportamentos; ele é calmo, racional, frio — também repleto de cores desta temperatura ao seu redor. Os filhos misturam ambas as temperaturas e, acompanhado de uma magnífica direção de atores, são capazes de dar uma profunda e natural representação de um amor fraternal entre eles.

Apesar da notícia de Fernando ser o conflito capaz de mover boa parte da história, quando os pais se envolvem em uma forma de auto-engano para se desviarem dos pensamentos desagradáveis que este conflito trás, mesmo que momentâneo, também é um fator de peso para a trama e para o relacionamento dos personagens como indivíduos.

Os personagens projetam suas angústias a algo ou alguém como mecanismo de defesa para se livrarem dessas aflições que, na atmosfera de Benzinho, são claros desde o início.

O filme consegue apresentar uma forma dilatada desses mecanismos em Irene; seus impulsos de limpeza, preocupações intensas e até mesmo quando joga tudo para o alto e dança ao som de “Esôfago”, retratam essa dilatação. Irene chega a cantar para Fernando ao encontrá-lo: “Eu não posso te deixar, te deixar, querida minha”. É nítido a mensagem passada através da música, a forma que Irene usa para parafrasear seus sentimentos sobre a partida do filho, a forma que ela se ausenta das preocupações por um breve momento e repete, inúmeras vezes, o refrão da música para o filho, como se gritasse aquilo todos os dias para si mesma de maneira interna enquanto olha para o Fernando no dia a dia. Apesar de ter uma ascensão dramática absurda nessa cena, que começa com um tom cômico, Irene continua usando dos mecanismos e evitando o confronto direto com todas as emoções que ela considera desagradáveis. Ela prefere repentinamente iniciar uma faxina, canalizar toda a confusão desses sentimentos em assuntos banais e os transformá-los em situações extremamente problemáticas, entre outras calorosas tempestades. Essa auto-enganação que Irene faz consigo mesma é compreensível, mas extremamente nociva para uma saúde mental adequada. Ela não fala de seus sentimentos de forma aberta e dessa forma não dá o espaço para a melancolia necessária.

 

Foto: Divulgação do filme “Benzinho”

Na despedida de Fernando, Irene ainda exerce um rígido controle sobre suas emoções enquanto o filho vai embora. A surpresa de que Irene está usando uma blusa do filho (que só é revelada após a partida do mesmo) é condizente com as atitudes acumulativas que a personagem já havia demonstrado antes. Irene não está apenas vestindo a blusa de handball de Fernando, ela se veste com as sensações de Fernando, ela se veste com o cheiro, com o tato, com todos os sentidos que lhe emocionam e lhe fazem lembrar de como tudo começou. Enquanto assiste à marcha de Rodrigo, seu segundo filho, Irene cai em lágrimas, libertando toda a angústia que vinha culminando durante a trama. É aliviante e libertador vê-la dar o devido espaço para suas angústias; todavia esta submissão logo tem um fim. Irene se recompõe antes que os outros filhos a vejam para continuar sustentando a imagem de uma mãe capaz de guiar toda a família sem “fraquejar”, isto é, demonstrar suas tristezas.

Com Klaus é possível enxergarmos certos aspectos de uma masculinidade tóxica que permeia não só ele, mas os demais personagens ao seu redor.

A imagem da figura masculina (contextualizada de forma paterna) que não fala dos seus sentimentos, que não chora porque certamente cresceu ouvindo coisas do tipo “homem não chora”, refletiram na figura do Klaus que é apresentado no filme. Mesmo não sendo um exemplo de projeção como Irene, Klaus aprendeu a não sucumbir às suas angústias e pouco projeta suas aflições, mas, assim como a esposa, há um momento que não é possível controlar toda a emoção reprimida, fazendo o que, para mim, é a cena mais tocante de todo o filme.

Klaus ao longo do filme busca uma nova fonte de renda para família; as vendas em sua livraria não vão tão bem quanto gostaria e, ele vê uma nova oportunidade em um novo comércio. Tudo estava de acordo, como ele mesmo dizia à Irene, porém de um dia para o outro os planos de Klaus vão por água abaixo e ele se vê desolado. Sozinho na kombi, Irene chega e o questiona, Klaus lamenta sem explicar o que aconteceu, ele lamenta constantemente por ter fracassado e, com dificuldade, Irene tenta abrir a fechadura que são as emoções do marido e descobre o ocorrido. Isolado na kombi, fora de casa, longe dos filhos, acompanhado apenas da esposa, ele chora por não conseguir a tão sonhada garantia financeira para a família, Klaus chora por se preocupar com o filho mais velho que em poucos dias viajaria para Alemanha e por ainda não saber como lidar com as questões financeiras que o assombram. Klaus chora longe dos filhos para que, após aquele momento, assim como Irene, ele possa voltar para casa como se nada tivesse acontecido e continuar mantendo a figura do pai invencível que, para ele, seria desestabilizada se seus filhos o vissem naquela situação.

É nítido o trabalho que os pais exercem para se manter como pilares emocionais. Seres inabaláveis, com uma aura quase divina capazes de, visto de um ponto de vista dos filhos, realizar ações impossíveis; como agilizar uma documentação no cartório.

O filme apesar de ter o conflito centrado em torno de Irene a mudança do filho, vai além disso. Apesar de trabalhar com uma jornada dramática dos personagens, o filme não dá a entender que esse comportamento não se repetirá; mas pelo contrário. Tanto Irene quanto Klaus se recompõem e reprimem sua tristeza ao terem contato com algo relacionado aos filhos e, dessa forma, nos induzem a acreditar que a jornada que tanto desgastou os personagens irá acontecer novamente, porém com novas intensidades.

Analisar desse ponto de fato dá uma visão pessimista do aprendizado que esse conflito trouxe, mas ao mesmo tempo não temos outros indícios de que Irene irá entender que seus filhos não estão sob seu total controle, que Klaus irá conversar sobre seus medos e tristezas ou que até mesmo os filhos aprenderão algo com isso.

Benzinho é uma obra rica em sutilezas capazes de darem profundidade à trama e seus personagens. O filme não depende exclusivamente dos signos para se sustentar, mas cada um deles, sem exceção, é rico e verdadeiramente sensível para qualquer espectador.

Por: Moisés Martins e Marcelo Duarte 
Foto: Dimi Silva

Em 8 de maio comemora-se o Dia Nacional das Artes Plásticas. Convidamos o artista Edmilson Antônio da Silva, conhecido como Dimi Silva, para um bate-papo.  Aos 35 anos, ele vive de seu trabalho como autônomo em Belo Horizonte. Brinca com as cores, possibilitando a quem vê  viajar por mundos divertidos. A inspiração é ampla, vai da beleza da mulher negra aos autorretratos de Frida Kahlo (1907-1954), uma das principais pintoras do século XX. “É muito importante ter um dia do artista plástico, mas deveria ter mais eventos e feiras para que possamos mostrar nosso trabalho”,  afirma o artista plástico Dimi Silva.

Como e quando você iniciou nas artes plásticas?

A ideia de ser artista plástico foi algo que surgiu em minha vida. O gosto pela arte vem desde criança. Desde cedo aprendi a desenhar. O tempo passou e, a cada dia, queria aprender mais. Comecei a ter contato com novas técnicas e estilos de desenhos, que me fizeram chegar onde estou. Mas não quero parar por aqui. A cada dia que passa eu aprendo mais, para que meu trabalho fique cada vez melhor.

Como você se vê dentro do mundo das artes?

Eu me considero grande artista plástico. A grande maioria das pessoas não dá valor às artes. Então, fica difícil para o artista ser reconhecido pelo seu trabalho.

Dentro da arte, como você usa a tecnologia a seu favor?

A tecnologia tem nos ajuda bastante.  Uso as redes sociais para divulgar meu trabalho. Por meio das postagens, alcanço público amplo, o que aumenta o  reconhecimento do meu trabalho.

Como você apresenta suas obras?

Faço pinturas expostas em  muros da cidade, onde o público tem contato direto com a arte e com o meu processo de produção. Também participo de algumas feiras de artes.

Com qual outra área das artes plástica você teve contato?

Basicamente foi só pintura mesmo. Pintura de telas, murais, desenhos papel e arte digital.

O que você espera do seu futuro nas artes plásticas?

Busco evoluir cada vez mais, sempre buscando novos conhecimentos e com isso reconhecimento pelo meu trabalho.

Você tem contato com outros artistas?

Tenho muitos amigos no meio artístico, com trabalhos maravilhosos e de diferentes estilos. Para mim é um contato muito importante desde a  parte do aprendizado artístico até questão do respeito com a arte do colega.

Você vê muitos jovens inseridos nas artes plásticas?

No meu cotidiano vejo alguns, mas faltam oficinas, eventos e projetos voltados à juventude para poder despertar o interesse dos jovens pelas artes plásticas.

Aqui podemos ver um pouco de suas obras e sua descrição sobre elas;


Mural realizado na pista de skate do Barreiro/Belo Horizonte. “Assim como a maioria dos meus trabalhos não tem muita a explicação exata, gosto de compor obras voltadas para psicodelismo surreal com bastante movimento e cores vibrantes e objetos de mundos distintos tudo em um mesmo lugar”


“Trabalho realizado para uma cliente. Tinta acrílica sobre papel, retratando um ícone e referência. A pintura é releitura de uma das obras de Frida Kahlo, com cores, objetos e movimentos sempre presente no meu trabalho”.

Por Melina Cattoni
Fotografia: Instituto Brasileiro de Museus e Fauno Cultural
Agradecimentos: Circuito Liberdade, Espaço do Conhecimento Ufmg,  MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, Projeto Museu de Rua.   

 

Fachadas clássicas, arquiteturas antigas e salões espaçosos são características presentes ao pensar em museus. Para reformular esta ideia e mostrar que esses espaços caminham junto ao uso das tecnologias e ao avanço das mídias digitais, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) promove a 16ª Semana Nacional de Museusentre os dias 14 à 20 de Maio.

Com o tema Museus Hiperconectados _ novas abordagens, novos públicos, a décima sexta edição possibilita o diálogo entre público e os espaços culturais. Para Luciana Amormino, jornalista especialista em História da Cultura e da Arte, a temática permite a reflexão sobre a relevância da instituição junto ao público. “Possibilita evidenciar as conexões que fazem um museu acontecer, as parcerias que firmamos para a realização de nossas atividades, com os mais diversos públicos ou até mesmo com outros museus e instituições parceiras”, aponta a coordenadora da programação do Museu das Minas e do Metal.

O diferencial dessa edição está no uso das novas tecnologias e a possibilidade de parcerias. “O Memorial Minas Gerais Vale, por exemplo, em parceria com o Museu Brasileiro do Futebol, sediado no Mineirão, promoverá o intercâmbio de conteúdos como: músicas, vídeos, projeções e ações educativas interativas”, cita a museóloga Maíra Corrêa, coordenadora de programação do Circuito Liberdade. As redes sociais e aplicativos também são recursos utilizados nas oficinas. Como exemplo, o Espaço do Conhecimento da UFMG, oferece a Janela Digital, ferramenta que possibilita ao público conhecer as ações do espaço mesmo com o museu fechado. As pessoas podem assistir a mini vídeos da exposição sem sair de casa. Para a oficina Fotografia imersiva e tecnologias de realidade virtual para museus, ofertada pelo Museu Mineiro, se faz necessário o uso câmeras fotográficas ou smartphones para a experiência.

Quem vai ao Museu?

Das produções cinematográficas às grandes galerias, criatividade, diversão e, principalmente, interatividade são elementos presentes ao entrar em contato com as artes. Presentes nas praças, ruas e becos, o diálogo e a representatividade das artes em todos os locais é importante. Para Laís Flor, estudante do  curso de Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais, os museus cumprem sua função com aqueles que têm acesso. A partir do momento que há uma identificação com o aquele espaço e, com o que ele representa, o lugar será aproveitado.

Ao pensar sobre a revitalização urbana e ressignificar  a ‘ida ao museu’, o Projeto Museu de Rua propõe novo tipo de entretenimento para a cidade, bem como a valorização das artes e dos artistas. O idealizador do projeto, Ivan Neves Bechelane, declara que o local das artes é no espaço público. “Qualquer espaço que seja fechado não é para todos. Qualquer lugar que ‘cobre’ entrada não é democrático. A arte tem que estar na rua. Ela é nosso espaço comum. A arte transgride o padrão e traz reflexões que são importantes de serem discutidas no nosso cotidiano”, diz o artista.

 

 

A principal participação do público nas intervenções se dá na “Batalha do Bomb”. Os integrantes do projeto escolhem as palavras que serão escritas no local e parte do público se voluntaria a escrever. “A arte conversa com a sociedade através da rua. Um museu, normalmente, é ambiente que demanda estudo prévio e que traz mensagens, às vezes, fora de contexto dentro de um ambiente versátil. Já a arte de rua expressa a mensagem local e interage esteticamente com o que está em volta”, declara Ivan.

 

 

Para Laís Flor, ainda sim, o reconhecimento e o acesso das comunidades periféricas à essas instituições não é tão abrangente. “Tanto a divulgação, quanto a forma como o museu se comunica com as minorias, são meios de melhorar esse acesso e essa identificação da população com este espaço de cultura”, afirma.

Por Melina Cattoni
Fotografia: Imagem Filmes

 

Liberdade, sonhos e superação. Tudo Que Quero, narra a história de uma jovem diagnosticada com Transtorno de Espectro Autista (TEA). Wendy Welcott, adolescente de vinte um anos, possui uma rotina comum e sistemática. Inteligente e criativa, também possui uma paixão e talento para a escrita. A narrativa é construída em cima das desventuras da adolescente para participar de um concurso para escritores e entregar seu roteiro ao famoso estúdio de cinema Paramount Pictures, em Los Angeles.

Para alcançar o sonho e também a liberdade, Wendy descobre diversos caminhos e reviravoltas do cotidiano. A descoberta começa ao atravessar uma avenida  proibida, percorrer a estrada, enfrentar situações desconhecidas e, principalmente, lidar com diferentes pessoas. Durante as cenas, cada circunstância é acompanhada por uma trilha musical que compõe junto à fotografia os sentimentos daquela jovem. Encantado pela narrativa, o espectador acompanha com o coração na mão e brilho nos olhos toda a caminhada de superação.

 

 

Dirigido por Ben Lewin, o escritor apaixonado por fotografia e escrita narrativa, coleciona em sua carreira documentários, minisséries, programas episódicos e longas-metragens, entre eles, o premiado filme As Sessões em 2012. Já a trilha sonora, assinada por Heitor Pereira, compositor brasileiro que tem em seu currículo algumas faixas do filme Meu Malvado Favorito 2, usa das melodias para transitar entre momentos de apreensão e diversão durante a obra.  

A Imagem Filmes lança nesta quinta-feira, 26 de abril, o filme Tudo Que QueroPreparem o balde de pipoca e os lencinhos, o filme é de emocionar.

Imagem Filmes

Empresa nacional do ramo de entretenimento, atua na distribuição de filmes independentes em todo país. Para mais informações, acessem o site: https://www.imagemfilmes.com.br/ .

Tudo Que Quero

Direção: Ben Lewin
Produção: Lara Alameddine, Daniel Dubiecki Escritores: Michael Golamco, Michael Golamco
Elenco: Dakota Fanning, Toni Collette, Alice Eve, River Alexander, Jessica Rothe, Matt Corboy, Tony Revolori
Música: Heitor Pereira
Direção de Arte: Lindsey Moran

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Por Bruna Valetim

Três anúncios de um crime e o senso dúbio do que é justo

Conquistando êxito nas temporadas de premiações, chegou aos cinemas no último dia 15, o longa “Três anúncios para um crime” que acompanha a história de uma mãe em busca de justiça para o assassinato sem solução de sua filha.

Mildred Hayes é uma mulher que carrega a raiva em seu olhar e meses após o assassinato da sua filha, ela aluga três outdoors em uma estrada de pouco acesso com os dizeres “Estuprada enquanto morria e até agora nenhuma prisão, como é que pode xerife Willoughby?”. A atitude da protagonista gera um efeito dominó na pacata de cidade de Ebbing, Missouri e o filme se desenrola a partir daí, da ação que gera diversas reações e pessoas com opiniões distintas, o filme o tempo todo é moldado pela sensação de injustiça e o senso de justiça que o último seja interpretado de maneiras diferentes pelos personagens. No quesito empatia, os negros, o anão, os pobres, as pessoas geralmente a margem na sociedade e menos privilegiadas estão dos lados de Midred, os policiais, os ricos da cidade estão do lado do Xerife, mais ou menos como o mundo real funciona.

A protagonista é uma mulher fria, desamparada, desiludida pela vida e pela justiça que luta a qualquer custo solucionar o crime que tirou a vida de sua filha. Por mais antipática que Mildred seja, por mais decisões equivocadas que a personagem venha a tomar é impossível não sentir empatia por seus objetivos e torcer para o sucesso de sua saga. Em contraponto a protagonista temos os policiais do distrito, o xerife exposto no cartaz e seu fiel aliado, o ignorante policial Dixon (Sam Rockwell).

Não é um filme bonito é real, é duro, é triste. Você se indigna, sente raiva, angustia, medo, você fica surpreso. É uma transição de sentimentos a todo minuto, uma ação que gera uma reação que vamos de odiar um personagem até ter certa empatia. Mérito claro do time de atores, Frances entrega uma mulher que foge dos clichês de mães sofredoras da cinematurgia, geralmente bondosas, abnegadas, seres de luz. Mildred não é nada disso, não era a mãe do ano nem age diferente com o seu outro filho depois do assassinato que abalou a família, ela não performa nenhuma feminilidade nem muda sua essência acreditando que o perdão salva, ela quer justiça e busca por isso doa a quem doer. Grande favorita ao Oscar, a atriz vem ganhando todos os prêmios de melhor atriz da temporada.

Sam Rockwell pode ser conhecido por papéis com veias mais cômicas como é o caso de seu personagem em “As panteras” está extraordinário, se eu o visse na rua provavelmente teria vontade de socar a cara dele porque Dixon é odioso. Esse tipo de reação só é conquistado perante uma atuação digna. O ator conhecido por comédias é simplesmente muito bom e brilha sem dúvida nenhuma como o melhor personagem de sua carreira. É o personagem com maior evolução ao longo do filme e apesar de atitudes completamente esdruxulamente após um acontecimento traumático e receber um sinal dos céus embarca em uma jornada para se tornar uma pessoa minimamente decente. É a maior aposta para ganhar a estatueta de melhor ator coadjuvante e merece vencer.

Como Rockwell, Woody Harrelson, o xerife Bill Willoughby, também concorre como melhor ator coadjuvante, por um papel que exige um pouco menos, mas o tempo em que aparece em cena convence. O personagem é um homem decente, não provém de uma bondade acima da média, não perde a vida em busca de resolver o assassinato como se fosse um problema seu, mas ao mesmo tempo o xerife se sensibiliza com o caso, faz sua parte, tenta achar o culpado, sem deixar sua vida parar por isso. Em certa parte do filme o personagem tem um monólogo com grande carga dramática, que acredito ter sido o motivo de sua indicação como melhor ator coadjuvante   do personagem é carregada de emoção e interfere de maneira direta na vida de outros personagens e no desfecho do filme.

O filme tem feito sucesso ao redor do mundo e inspirado pessoas a reproduzirem a ideia principal de alugarem três outdoors vermelhos com letras pretas cobrando atitudes de autoridades locais. O filme também não passa batido pela justa problematização. O personagem Dixon é um homem racista, que tem histórico de torturar negros e ser homofóbico. O personagem em uma passagem de total abuso de autoridade joga uma pessoa da janela e destrói um estabelecimento e nada sai basicamente impune. O personagem encontra alguma redenção ao longo do filme com boas ações mas mostra que se você for um homem branco medíocre e de preferência policial, consegue sair impune de qualquer coisa. As piadas racistas dos personagens que o filme aparentemente coloca em forma de crítica só é risível para pessoas brancas, assim como situações que os personagens de Corra passam, outro filme indicado a melhor filme no Oscar desse ano.

O resto do elenco mesmo com participações mais tímidas fazem bom trabalho, alguns como o Lucas Hedges e   Peter Dinklage mereciam mais destaque pois são atores mais que competentes, brilhariam mais se tivessem mais espaço. A trilha sonora lembra os filmes interioranos e independentes e as cores presentes advém de uma paleta em tons neutros, maquiagem não faz parte da caracterização. O longa ao total disputa no próximo dia 4, o prêmio de melhor filme, melhor roteiro original, melhor atriz, ator coadjuvante, melhor trilha sonora e melhor montagem.