Especiais

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

Cerca de 80% do Cinema Mudo produzido se perdeu. Ao se discutir sobre patrimônio e preservação, história e memória são questões envolvidas, principalmente na indústria cinematográfica, uma vez que todo projeto ou produção gera um produto. A 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sobre o tema em Seminário | Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Patrimônio no Âmbito Universitário.

Com o seminário a proposta da CineOP é debater e expor estudos de caso universitários, apresentar novas ideias e caminhos que a universidade trabalha para manter o acervo e a cultura do cinema permanente. Foi ressaltado também que produções cinematográficas são uma projeção a partir de películas, mas que existem diversos materiais que compõem este universo, como o roteiro, por exemplo, que ao preservá-lo, ali, pode-se ver as primeiras ideias de uma produção.

O primeiro questionamento ao conversar sobre a temática é por que preservar e, principalmente, o que se deve preservar. Não se sabe o motivo, mas pode-se citar desde a importância que detêm aquela obra ao simples ato de guardar para a posteridade. Já o que se deve preservar é mais complexo, cada instituição pesquisa e escolhe as obras de acordo com o seu perfil. Outra questão também discutida nas salas de aula e na CineOP é o avanço das tecnologias de produção das obras, uma vez que o digital será substituído e não se sabe a próxima evolução. Por isso, ao sair daquela discussão conscientiza-se que mais que formar novos preservadores é prepará-los para o desconhecido.

Por Ana Luísa Arrunátegui e Melina Cattoni
Fotografia: Jackson Romanelli | Universo Produção

 

Uma das temáticas da 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto é a Preservação do Audiovisual. Para ilustrar o tema, além da exibição do longa documental Dawson City – Tempo Congelado, de Bill Morris, a CineOP promoveu uma Coletiva com o diretor para discutir sobre o que torna uma obra ou documento patrimônio.

A obra consiste na reconstituição da história da Corrida do Ouro no Ártico Canadense, por meio de mais de 530 rolos de película produzidos entre as décadas de 1910 e 1920, mas que só foram encontrados, soterrados e congelados, em uma escavação na cidade, em torno dos anos de 1950.

Em nenhum momento do filme Morris fala diretamente sobre a importância e a necessidade da preservação, porém basta olhar para o destino final desses filmes – que, em parte, foram jogados no rio, destruídos em incêndios, viraram combustível de fogueira ou serviram para dar volume e reduzir a quantidade de água necessária para transformar uma piscina em um ringue de hóquei – e sua importância para a desmistificação desse trecho da História. Fica mais do que óbvio que a preservação é necessária e vai muito além dos filmes de Hollywood.

Chegamos então na grande questão: O que deve ser ou não ser preservado? Por qual motivo se deve guardar ou não os Stories que se posto no Instagram? Que fim se deve dar para as gravações de quando criança?

Por mais que não pareça importante, sem a preservação de gravações pessoais e de arquivos familiares, filmes excelentes como Pacific, de Marcelo Pedroso, e La Casa de Los Lúpulos, de Paula Hopf, seriam impossíveis. Hoje em dia, uma filmagem que foi feita há uma semana em uma avenida movimentada da sua cidade não representa nada. Mas, agora imagine se você tivesse uma filmagem dessa mesma avenida, porém feita cem anos atrás?

Ao ser questionado se, mesmo depois de tudo que Bill produziu e trabalhou, ele tinha chegado pelo menos próximo de uma resposta, ele comenta que a primeira barreira é a dificuldade da preservação do digital em relação ao filme e, que a pergunta não é o que deve ser preservado, mas sim, o que é possível ser preservado.

Estima-se que entre 75 e 80% de todo o cinema mudo que já foi produzido, também já foi perdido. E se engana quem acha que isso se deve somente ao descuido ou a falta de espaço físico para o armazenamento apropriado dessas películas. Grandes nomes como George Méliès, considerado um dos pais do cinema, queimou propositalmente grande parte de seu acervo, simplesmente por não ter o que fazer com aquilo e por não acreditar que seu trabalho era bom o suficiente para ser guardado.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

A tendência de exaltar a cultura do exterior também se aplica ao Cinema. Por algum tempo o Brasil tentou basear sua produção em estúdios, formato esse utilizado nos países como Estados Unidos, Índia e Japão. Nessa época, os críticos da sétima arte defendiam a produção de um cinema mais industrial, mas a partir dos anos 1960 o cenário se modifica, ao descobrir formas de imprimir a identidade verdadeiramente brasileira nas telas.

Esta transformação da linha de pensamento do Cinema Novo Brasileiro proporcionou produções que trabalhassem com as histórias nacionais – incluindo mitos e folclores – e complexidades políticas nunca antes trabalhadas dentro das dinâmicas brasileiras. O movimento tropicalista reforçou a ideia ao inserir essas dinâmicas nas músicas e expressões artísticas da época. A 13ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto abre espaço para discussão com o Seminário | Vanguarda Tropical: O Cinema e as Outras Artes.

A conversa apontou a Tropicália como um período de experimentação política e estética e, que a partir disso a linguagem das vanguardas despontaram nas produções cinematográficas, como o longa-metragem Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla. Em suma, o movimento tropicalista foi de extrema importância para início da circulação de produtos com a identidade nacional nos Cinemas e Outras Artes.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui
Imagens: Equipe “Dando Asas à Imaginação” e Haroldo Borges
Agradecimentos: Arthur Felipe Fiel, João Marcos Nascimento e Paula Teixeira Gomes

A 13ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto ocorre entre os dias 13 e 18 de Junho. Um dos destaques deste ano serão às Sessões Cine-Escola, com a exibição de curtas animados e documentários que abordam a infância de forma lúdica e carinhosa, ampliando o debate sobre o tema “Educação, História e Preservação do Cinema e do Audiovisual”.

Um dos pontos fortes de grande parte das narrativas animadas é entender que, no fundo, todos nós somos crianças. Fantasias e inovações são algumas das ferramentas utilizadas para abordar com sutileza diversas questões como, por exemplo, a diversidade humana, tema abordado pelo curta Dando Asas à Imaginação. Os protagonistas representam crianças que nem sempre são vistas no cinema ou na televisão, especialmente crianças negras – representadas pela Carol e pelo Carlinhos. A produção expõe a nova configuração social que compõe a sociedade. A exibição para crianças e adultos é interessante, uma vez que “o filme coloca a escola no centro da narrativa e é apresentada como um lugar divertido, colorido e mágico onde tudo é possível. A escola é o portal de entrada para o mundo da imaginação”, aponta o professor e roteirista, Arthur Felipe Fiel.

 

 

A produção de animações em curta-metragem é um convite à experimentação. Diversas técnicas, como Cut-Out digital, agitam o imaginário do espectador. Apesar do processo de distribuição ser competitivo, existem iniciativas, “como a aquisição de curtas animados por parte da TV Brasil e o lançamento do serviço de streaming do AnimaMundi”, relata o animador e bacharel em cinema, João Marcos Nascimento.

Outra obra que será exibida na CineOP é o documentário Jonas e o Circo Sem Lona. Produzida pela Plano 3 Filmes e dirigido por Paula Gomes, mexe com a emoção do público ao apresentar a história de um menino que constrói um circo e luta para mantê-lo vivo em seu quintal. O longa-metragem não apenas contribui para a temática educacional, mas também, trata a escola como fator inseparável do personagem. Ao discutir sobre o sistema educativo e defender que os alunos sejam tratados como indivíduos diversos, Gomes afirma que “a educação e a cultura têm papel protagonista para definir novos caminhos”.

 

 

Para a realização deste documentário, o grande diferencial é a proposta de imersão que o público terá na vida de personagens reais. Por se tratar de uma produção que fala sobre o fim da infância e para onde vão os sonhos quando crescemos, cria-se uma relação profunda e intensa, tanto para o espectador quanto para os envolvidos.

Em suma, cada discussão apresentada na Mostra faz o público e cineastas, crianças e adultos refletir não apenas sobre educação, mas todas as temáticas que envolvem a nossa sociedade. Curtiu? Então acompanhe as redes sociais do Jornal Contramão e fique por dentro de tudo que vai rolar na cidade de Ouro Preto. Nossa equipe desembarca na CineOP e compartilha o que há de melhor na cidade. #vemcomagente.

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Por Bruna Valentim

Foi comemorado no último dia 12, o dia nacional do enfermeiro. Ofício que sempre esteve presente em nosso cotidiano porém, não é valorizado como deveria. Seja trabalhando em hospitais ou postos de saúde esses profissionais passam por altos e baixos, mas são sempre guiados pelo amor à enfermagem e ao cuidar.

A enfermeira Simone Bernardes, 41, sempre gostou de cuidar dos animais e de pessoas. Por um tempo se viu dividida entre optar pelo caminho da veterinária ou da enfermagem, quando sua mãe lhe aconselhou dizendo que deveria direcionar este desejo de cuidar às pessoas, que seria muito mais gratificante. Com a decisão tomada e com o apoio da família cursou a faculdade de enfermagem pela Pontifícia Universidade Católica, e exerce a profissão há 18 anos, trabalhando há 9 na Atenção Básica da Prefeitura de Contagem.

Inserida em ambientes hospitalares há quase duas décadas em ambientes hospitalares, Bernardes diz que sempre foi feliz em seu exercício, mas recorda de um triste episódio no início de sua carreira ocorrido 12 anos atrás “ Certa vez acompanhei uma paciente do posto de saúde até o hospital em que seu marido estava internado, pois ela estava muito abalada emocionalmente. Enquanto fazia a visita, ele teve uma parada cardíaca e faleceu naquele momento e eu acabei dando a notícia para a paciente, apoiando-a e ligando para o restante da família. Foi algo que me marcou muito” lamenta a enfermeira.

Ela diz que apesar das alegrias que a enfermagem lhe proporciona, nem tudo são flores já que a pressão em torno da profissão é alta e um erro pode ser fatal “A área da saúde deveria receber dos mais altos salários. Lidar com vidas, isso não tem preço, um erro, não tem volta. A grande maioria dos profissionais da enfermagem sofre de algum problema de saúde relativo ao estresse, sobrecarga de trabalho, assédio moral, etc… Administramos medicamento errado e matamos um paciente, deixamos sequelas irreparáveis…Se formos processados nem temos dinheiro para pagar a indenização, já o salário dos médicos é bem diferente” conta relatando a diferença no salário do profissional de medicina, uma profissão que de acordo com ela não se compara com a enfermagem. Bernardes classifica que são diferentes como sal e açúcar, embora sempre caminhem de mãos dadas. Segundo a profissional a dica para quem está começando, apesar dos contratempos, é não desanimar “Aos colegas recém formados, digo sempre que sejam bem vindos e que precisamos de gente dedicada e humana acima de tudo. A academia forma, mas é a vida que ensina. Tenham humildade para reconhecer que não sabe, para aprender com os mais experientes” finaliza.

Os conselhos de Bernardes, serão benéficos para Bruno Santos, 20, estudante do segundo ano do curso de enfermagem pela Newton Paiva. Apesar das dificuldades no semestre, o mesmo alega estar satisfeito com o curso “A princípio o que me fez cursar a profissão foi o meu amor pelo ambiente hospitalar e o cuidado às pessoas”. O estudante conta que as coisas saíram um pouco diferente do planejado “Ainda não está cumprindo minhas expectativas. porque eu pensava que nesse momento já teríamos mais atividades práticas e até o momento basicamente só temos teoria”. Pelo fato de ser um homem em meio predominantemente feminino, Santos diz que o machismo sempre existe e já ouviu comentários jocosos, mas nada que chegasse a afetá-lo de maneira pessoal. Sobre a valorização no meio profissional o jovem relata que não chegou a pensar sobre isso, mas é otimista ao dizer que a profissão precisa ser valorizada.

A técnica de enfermagem Vanilda Silva, 61 anos, é aposentada há três,  já vivenciou muitas angústias e alegrias similares as de Simone e Bruno, nos 30 anos que passou apaixonada e dedicada ao ofício. Mas admite que é uma profissão tão árdua quanto gratificante, embora o salário não seja tão bom. “Sempre gostei de cuidar, do processo de ajudar na cura de um paciente, ver a evolução de seu tratamento”. Silva conta que foi muito feliz em todos os seus anos praticando enfermagem e que sempre lembra saudosa os velhos tempos. “Trabalhei em várias áreas, com cirurgia, na central de esterilização e no serviço de urgência. Cada lugar foi um acréscimo ao meu crescimento pessoal e profissional, me fez sentir grande ao cuidar das pessoas, ver as pessoas ficando saudáveis. O que eu digo para todos que estão começando, que estão nessa profissão é para se prepararem pois na enfermagem por vezes você precisa ser um amigo do paciente, um confidente, mas acima de tudo você precisa amar a profissão” finaliza a aposentada.