Jornal Contramão

Por Henrique F Marques

O projeto Mulheres Cabulosas da História foi idealizado no dia 8 de março de 2016, Dia Internacional das Mulheres, por um grupo de mulheres do Movimento Social Levante Popular da Juventude.

Ele é composto por dois ensaios fotográficos realizados por mulheres que recriaram imagens de 100 mulheres importantes na história nacional e internacional que foram apagadas, ou melhor, invisibilidades, por homens que estavam ao seu redor como Dandara dos Palmares, que foi liderança e companheira de Zumbi. A primeira parte do projeto encerrou no último dia 24 de novembro, momento no qual encerrou a campanha de financiamento coletivo via Catarse. A segunda parte do projeto consiste no pensamento e discussão das próximas etapas, como por exemplo, a elaboração e diagramação do Livro “100 MULHERES CABULOSAS DA HISTORIA” que deverá ser publicado primeiro semestre de 2018.

Catarse: catarse.me/mulherescabulosasdahistoria
Email: mulherescabulosasdahistoria@gmail.com
Página: facebook.com/mulherescabulosasdahistoria

Divulgação Prêmio Zumbi

Por Lucas Motta

Com a proposta de valorizar e preservar a cultura de matriz africana, a Companhia Baobá Minas realizou o 8° Prêmio Zumbi de Cultura, na noite da última quarta-Feira (22) no Sesc Paladium, Hipercentro de pelo Horizonte, em comemoração da Consciência Negra (20/11).

Idealizadora do Prêmio, a Diretora e coreógrafa da Cia, Júnia Bertolino explica que a festa contempla pessoas que se destacam no campo artístico da política e cultura negra, um espaço para refletir sobre a resistência e as representatividades negra nas artes.

“Estou emocionada e agradecida a todos parceiros pela realização de mais uma edição do VIII Prêmio porque sabemos como é importante a valorização de nossos mestres populares e artistas da cidade.  Sobretudo neste momento de crise política, crise econômica mundial, onde aumenta as disputas e os preconceitos. É importante ter iniciativa de companheirismo, de eventos que despertem a reflexão e motive os artistas e grupos a unir forças e enfatizar que juntos somos mais fortes, reconhecer iniciativas positivas realizadas por pessoas que convivem conosco, seja na escola, trabalho, na cultural e na política“ diz.

Considerada a maior premiação negra do estado, desde 2010, a festa abriu espaço para apresentações de grandes artistas como Mestre Conga, Coral Brasil African Vozes, Sérgio Pererê, Alameda Musical e a Cia Baobá Minas que tem por missão abordar o cotidiano do negro, sua cultura, valores e artes. A festa celebrou a memória de Zumbi dos Palmares que deixou um legado de identidade Africana muito forte, uma cultura que vai além dos livros de história que preserva a ancestralidade.

 

Nesta edição foram 11 homenageados, dentre elas a aluno de Jornalismo do Centro Universitário UNA Sarah Santos, pessoas guerreiras na cidade de  Belo  Horizonte,  com  ações  que  beneficia todo  estado de  Minas  Gerais. Como é  o  caso  do professor  e   escritor  Anelito de  Oliveira que através da  literatura alcança vários  educadores  do  território  nacional  chamando  atenção  para  valorização  da  escrita, religiosidade e  da  cultura.

 

Homenageados  do  Prêmio  Zumbi de Cultura –   Cia Baobá Minas Mamour Bá (Música), Sarah Santos (Protagonismo Juvenil), Maria Luiza –  Luzia (Menção Honrosa), Associação Cultural Fala Tambor (manifestação Cultural), Júlia  Santos  (Teatro), Tania Cristina – Makota Kizandembu – (Atuação Política), Anelito Oliveira (Literatura), Célia Gonçalves – Makota Celinha (Religiosidade), Marilene Rodrigues (Dança), Macaé Evaristo (Personalidade Negra), Isabel Goes Cupertino (Educação).

O prêmio foi distribuído nas seguintes categorias: dança, teatro, música, religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa, protagonismo juvenil e atuação política. Os contemplados receberam um troféu confeccionado pelo artista plástico Jorge dos Anjos.

PROGRAMAÇÃO

No dia 29/11  às  16h no auditório José  de  Alencar da Assembleia Legislativa (R. Rodrigues Caldas, 30 – Santo Agostinho) recebe a “Roda de conversa: Diálogos e reflexão – homenageados do Prêmio Zumbi de Cultura”,  artistas  e  mestres  populares  estarão reunidos no  espaço  de  debate  político para a construção  e  implementação de  políticas  públicas  para  a  comunidade  negra, reforçando  a  importância de  valorização da  cultura e  da  arte  negra do  povo  brasileiro. Participe!

 

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Por Ana Paula Tinoco

Mudei meu endereço a pouco tempo e mesmo estando há uma semana no novo apartamento, demorei aproximadamente cinco dias para perceber que estava ao lado do relógio Itaú. Sim, aquele famoso relógio que tem sua morada no alto do Edifício JK. Ao concretizar a ideia de como somos alheios ao que está a nossa volta, percebi o que é perdido no meio do caminho por não darmos atenção ao nosso redor. Olhamos constantemente para o chão, olhar fixo no concreto que preenche as calçadas quando um universo inteiro se encontra bem a altura de nossos ombros.

Escolhi meu destino, desci a Rua Rio Grande do Sul em direção à Rua Goitacazes. Esquerda ou direita, pensei “há poucos dias segui a direita, o que será que a esquerda me reserva? ”. Lado escolhido comecei minha jornada e a medida em que avançava me permiti olhar para os lados, como alguém que procura um achado, um número na rua, um Fora Temer. Parei, analisei o espaço, não havia nada demais ali.

Tirei o celular do bolso, para registro, de repente senti uma mão pousar em meu ombro. Coração gelado, pernas bambas, olhei devagar para trás e para minha surpresa era um senhor de pouco mais de 1,60 de altura, boné azul, uma blusa social e uma calça bem passada. Ele me fitou nos olhos e com uma voz doce me disse: “Moça, guarda esse celular porque aqui é perigoso! ”. Se virou e ia saindo quando fui atrás dele e a surpresa que era a minha passou a pertencer a ele.

Ao agradecer o gesto e a preocupação, ele sorriu e disse olhando nos meus olhos, Luís, mas meus conhecidos me chamam de Seu Luís. Guardei o celular, vocês sabem o que dizem, “Devemos sempre escutar os mais velhos”. E retribuindo o sorriso, me apresentei e questionei se ele poderia contar sua história. Intrigado, queria saber o porquê do meu interesse, expliquei e categórico ele disse, “A moça, tem muito pra contar não.”. Sorri e disse: me conte como o senhor chegou até aqui.

“Não precisa de muito detalhe não, né? ”, indagou sorrindo. Neguei com a cabeça e falei com a voz firme: “Apenas o que o Senhor quiser contar! ”. Ele sorriu e disse, “Vamos nos sentar! ”. Rindo ele continuou, “Não sou daqui não moça, sou do interior, sou de Três Marias.”. Ele que veio para cá muito jovem, aos 18 anos, encontrou em sua cidade natal dificuldades e como muitos outros veio tentar a vida na capital, a procura de um futuro melhor.

Após alguns anos, trabalhando de servente de pedreiro, conheceu a esposa, Maria da Conceição. Não recordou a idade que ela tinha na época, mas com os olhos marejados disse que ao lado dela viveu os melhores anos de sua vida. “Ela me deu cinco filhos. Hoje são só quatro, mas tem muito orgulho da minha família”, contou emocionado. “Foram pouco mais de 30 anos, mas ela me deixou. ”, disse abatido.

A esposa, morreu há alguns anos, mas antes dessa perda, ele conta que foi ela quem o ajudou a melhorar na vida, “Eu ficava indo de um lado pra outro até que ela colocou senso na minha cabeça. De servente, virei pedreiro e tinha meus próprios serventes. Mulher ajuda o marido a se erguer”, falou orgulhoso. Sobre os filhos, ele conta que estão todos encaminhados na vida e afirma que o que ele não teve quando criança ele quis que os filhos tivessem, “Não tinha nem caderno pra estudar, era muitos irmãos”, relembrou. Ele que vem de uma família de nove filhos, narrou uma infância difícil, mas de acordo com ele muito cheia de amor.

As horas fluíram, Luís Amâncio, que preferiu ser chamado de Seu Luís, foi um achado no meio de uma tarde quente de terça feira. Bem-humorado e cauteloso brincou quando questionado sobre sua idade, “Uns 60 e poucos, moça. Pra que falar disso, né? ”. Mas, o melhor ainda estava por vir, ao pedir para tirar uma foto dele, ele sorriu e me olhou da mesma forma que me olhou quando veio me avisar sobre os perigos de andar com o celular na mão, “Moça, você é muito educada, mas não vou tirar foto não. Nesses dias de hoje, com internet, a gente nunca sabe o que podem fazer com a foto nossa! ”.

Continuei meu percurso, pelos muros da cidade vi grafites, calçadas que precisam de reparo e edifícios antigos. A diferença é que desta vez não foram os meus fones de ouvido que me fizeram perder o que está ao redor. Por todo o trajeto, a única coisa que ocupava a cabeça era a conversa com aquele senhor, passando e repassando toda o nosso papo, ficava imaginando como não consegui uma foto? E olhando de tempo em tempo para trás não sei se era minha imaginação ou Seu Luís, mas pude ver ele por todo o caminho. Me protegendo? Não sei. Tentando apurar se de fato estava sozinha? Quem poderá dizer.

O que eu posso afirmar é que devemos nos ater mais ao que acontece a poucos passos da gente, retornar um sorriso para aquela senhora ou senhor que gentilmente se aproxima de você em uma rua movimentada. Você nunca sabe as histórias que irá ouvir o bem que uma situação como essa pode causar a você. Abandone seus fones de ouvido, respire, olhe ao redor, sorria, não há nada demais e tudo que é possível quando você percebe que tudo o que tem que fazer é perceber que você não está sozinho nas ruas pelas quais você transita

Mamana Foto Coletivo | Foto divulgação

Por: Rúbia Cely

Aspirando compartilhar, aprender e ensinar, o coletivo Co-Fluir, dos dias 15 à 19 de novembro, irá contemplar Belo Horizonte com diversas atividades e encontros, que ocorrerão nas praças, parques, dentre outras localidades da cidade. Unindo os amantes das ruas, o evento promete mostrar e manifestar as diversas maneiras de se relacionar com o meio que nos cerca e muitas vezes passa despercebido.

Tércio Teixeira | Foto Divulgação

O coletivo é composto por sete integrantes, Bárbara Ferreira, Gabriel Cabral, Gustavo Marangotus, Lucas D’Ambrosio, Luiza Therezo, Pedro Castro e Pedro Prates, pessoas que atuam, além do coletivo, como jornalistas, fotógrafos, produtores e com audiovisual de maneira geral. A união que se deu pela fotografia como uma paixão em comum, resulta em um evento que vem sendo executado desde agosto de 2017.

“Diria que fomos um pouco loucos. A ideia já vem de algum tempo, acho que o Cabral foi o primeiro a pensar nisso. Mas a execução mesmo começou um mês antes da campanha, mais um mês de campanha.” comenta Bárbara.

Ferreira explica que em meio a conversas e saídas para fotografar, foram chegando  a um interesse comum de compartilhar as formas de olhar paras as ruas. “Aprender entre a gente, experimentar novas coisas. Acho que todos nós do co-fluir já fazíamos um pouco isso entre a gente. Seja saindo juntos para fotografar, ou conversando sobre fotografia. Aos poucos acho que vimos que precisávamos ir além. A rua é imensa, cheia de possibilidades. E é tanta gente capturando momentos nela e de tantas formas diferentes, que porque não um encontro. Porque não debater isso, trocar.” finaliza a fotógrafa.

Gustavo Minas | Foto Divulgação

A atividades vão começar com o “Rolê da primeira Luz”, em que a equipe apresentará o mapa co-fluir, será na Praça Primeiro de Maio às 7:00h. Toda a programação pode ser vista no site do coletivo, https://www.cofluir.com.br/programacao.

Por Bruna Valentim e Henrique Faria

Quando MV Bill entrou no Sesc Palladium na tarde do último domingo foi possível observar cabeças girando para acompanhar cada passo do rapper de 1,95 metro de altura. Bill chegou sério de jeans, all star, camiseta preta e óculos escuros, dando um ar de rap star que consegue sustentar muito bem.

Quando se reuniu para uma intimista roda de conversa para celebrar o Dia da Favela ao lado de figuras como Eliane Dias, Dexter e Manoel Soares… Bill transmite uma serenidade e um sentimento de admiração pelos colegas e amigos presentes. Mv Bill é um homem de poucas palavras, mas transmite segurança em todas elas. Falou com propriedade sobre os problemas acerca das comunidades brasileiras, sua infância, suas influências e agradeceu mais de uma vez ao povo presente. No fim do bate papo o rapper atendeu o público antes de se retirar para se preparar para o show do início da noite.

O evento que cobrava o valor simbólico de R$2 (dois reais) por pessoa contou com atrações locais, Tamara Franklin, Face 3 Dee Jay, Nos da Sul, Dexter e fechando a noite Bill e sua irmã e parceira de palco, Kamila CDD. O rapper é  uma figura potente no palco, o que em nada lembra a figura centrada e fala mansa de horas mais cedo. O rapper fala diretamente com o público e já começou o show chamando todos para o mais perto possível do palco. Sempre que podia cedia aos pedidos de foto da plateia e dava um firme aperto de mão, como se estivesse reencontrando velhos amigos. Seu show foi longo e Bill pareceu aproveitar cada segundo, deixando clara sua admiração ao registrar imagens da multidão presente e publicar em tempo real em suas redes sociais. Ao fim da apresentação Bill demonstrou amor aos mineiros e prometeu voltar parecendo tão feliz quanto os fãs que cantaram em coro todas as suas canções embaladas de emoção.

Depois do show tivemos acesso com exclusividade ao camarim do cantor ao entrarmos no camarim a sensação era de estar na sala da casa do rapper. Bill estava rodeado por amigos, sua família e fez questão de nos apresentar um por um, fez brincadeiras e em poucos instantes parecia que fazíamos parte da família.

Ao falar sobre sua música “Preto em Movimento” em que o MV diz “Não sou o movimento negro, sou o preto em movimento”, o rapper explica que não é uma forma de diminuir o movimento e exalta sua importância falando que se não fossem seus ancestrais ele não teria forças para fazer o que faz hoje. E diz que é mais importante o negro estar em movimento – não apenas fazer parte do movimento negro: “…Eu participei de muitas reuniões em que eram um grupo pequeno de negros mais intelectualizados, que tinham mais informações e que a gente acabava criando uma elite negra que não distribuía sua informação com outros pretos”, crítica, completando que acha mais importante que ele seja um preto que se movimenta e movimente o que tem ao seu redor, do que apenas fazer parte de do movimento negro.

Ao comentar sobre a atuação da polícia com o negro, Bill diz que após o fortalecimento dos movimentos e dos negros pelo acesso à internet, a polícia ficou mais violenta, ao contrário de terem receio de realizarem abordagens abusivas, as autoridades estão cada vez mais aproveitando de seu poder e cita o caso de Costa Barros, bairro da cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde cinco jovens moradores da região, foram confundidos com traficantes que haviam realizado um roubo nas redondezas, foram alvejados por 111 tiros de fuzil e revólveres. “Em qualquer lugar dos Estados Unidos, isso seria considerado um crime racial, no Brasil não tem crime racial, aquilo foi um crime corriqueiro… quatro policiais brancos, cinco garotos pretos, 111 tiros e um dos policiais ainda tentou alterar a cena do crime”, esclarece.

“A sociedade não se comove, a favela não se comove com essas perdas“, desabafa. Essas situações não são noticiadas pela mídia, e assim, os negros do país continuam sendo assassinados todos os dias por quem deveria lhes proteger. Com a polícia ficando cada dia mais violenta, é notável que a falta de representatividade negra na política é atribuída ao fato do genocídio negro ser um problema tão latente no Brasil, visto que mesmo com as informações sendo repassadas​ mais facilmente, menos medidas estão sendo tomadas pelos governantes, tanto nacionais como municipais. Ao ser questionado sobre uma possível candidatura, Bill diz que por causa dessa defasagem os brasileiros querem alguém que tenha alguma alternativa imediatista e diz saber que não é tão simples assim. Ele acredita que ainda não é a hora, mas que fica muito feliz em saber que há pessoas que confiam nele para um cargo político, que se veem sendo bem representadas por suas ideias “Neste momento não penso nisso, eu fico feliz quando as pessoas dizem ‘caraca Bill, eu votaria em você’, mesmo eu não tendo me candidatado a nada, não sendo filiado a nada, ainda sim as pessoas falam ‘eu votaria em você’. Isso pra mim é um acréscimo a minha credibilidade, uma coisa que me deixa feliz,mas não envaidecido, mas muito feliz”, finaliza.

 

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Imagem: Reprodução/Google

Por Bruna Valentim

O movimento “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) surgiu em 2013 depois que um segurança caucasiano usou do seu poder como autoridade e seu armamento para assassinar um adolescente afro americano que estava hospedado no condomínio onde o guarda estava fazendo seu turno. O jovem estava caminhando, não carregava uma arma, não portava drogas, não tinha burlado a lei, não tinha feito nada de errado. O que aconteceu? Ele nasceu negro em uma sociedade racista, e por mais absurdo que seja, morreu exclusivamente por isso. Uma família perdeu seu filho, um garoto perdeu seu futuro e o segurança não perdeu nada, nem mesmo sua liberdade. É absurdo e digno de perplexidade, mas por vezes casos e casos similares passam em branco pelos olhos da população.

O crime supracitado ocorreu nos Estados Unidos, mas poderia muito bem ter acontecido no Brasil. Rio de Janeiro, São Paulo, João Pessoa ou até mesmo aqui, em Belo Horizonte.

Pedro e Mateus são dois jovens com mais do que apenas os nomes bíblicos em comum. Os dois nasceram na capital de Minas Gerais, são estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e frequentam lugares parecidos. Pedro tem 21 anos e Mateus 25. Ambos são de classe média. Pedro canta rap e Mateus tem uma banda de reggae. Pedro faz direito, Mateus estuda gestão pública. Certamente têm conhecidos em comum e caso viessem a se conhecer provavelmente seriam amigos. Pedro é negro e Mateus é branco, e apesar de todas as similaridades que compartilham, no que se trata de experiências com a polícia as vivências divergem.

Pedro Nicácio conta que já foi abordado pela polícia algumas vezes, “Já aconteceram algumas situações. No nosso cotidiano percebemos que grande parte da polícia é racista. A gente sabe que a pessoa negra é mais visada, e muitas vezes sem nenhum motivo aparente é parada.”.

Segundo o jovem, ele já foi abordado em batalhas de rap, andando pela cidade, saindo de lanchonetes e afirma: “Em todas às vezes estava sem nada”.

Abordagem policial

“Em batalhas de rap, que é um lugar com o público majoritariamente negro, como as que acontecem no viaduto de Santa Tereza e em algumas praças, já presenciei revistas e abusos.”, relata Nicácio que completa, “Vejo nessas situações uma tentativa da polícia de calar a juventude negra. Nas abordagens eu me senti impotente, via jovens brancos do meu lado com roupas similares as minhas e eu fui o único revistado, se eu fosse branco não acredito que essas situações teriam acontecido”.

Mateus Senna por sua vez teve uma única experiência, mas nada violenta “Eu estava errado, estava fumando maconha e bebendo na rua com meus amigos e na verdade acho que nem iriam me revistar… só deram um susto na gente porque uns caras que estavam lá começaram a xingar a polícia e eu acabei sobrando nessa. Mas como eu não era punk como uns caras que estavam por perto, fiquei assustado e pedi para me liberarem, eles levaram os baseados e me deixaram ir. Mesmo com o desacato da galera não houve nenhuma violência que eu consiga me lembrar”.

O soldado Gil Júnior, de 32 anos, explica que a polícia é instruída a não fazer nenhuma distinção durante a realização do protocolo policial, mas reconhece a existência da violência e o despreparo de alguns colegas “O correto é que exista o mesmo procedimento para todos os suspeitos, mas sabemos que não é isso que acontece. Acredito que há policiais racistas que sujam a imagem da nossa instituição. Eles não deveriam estar exercendo a profissão e sinceramente espero que sejam a minoria”, desabafa Júnior.

De acordo com o soldado, o protocolo e treinamento é que eles devem parar na rua quem eles consideram suspeitos. “Segundo o caderno doutrinado, que é uma espécie de guia para o policial. Estranhamos coisas como blusa de frio (moletom, jaqueta de couro) no sol, alguém que parece dispensar algum material quando nos vê ou mudar de direção bruscamente. Se nos depararmos com alguma conduta criminosa vamos agir de acordo com a lei sempre, e isso deve ser feito independentemente da etnia do cidadão.”, esclarece o soldado.

O massoterapeuta Pedro Lucas, 24, em contrapartida acredita que a polícia existe exclusivamente para oprimir pessoas de cor e não se surpreende mais com as revistas policiais e os casos de racismo. “Nós somos as vítimas dessa sociedade que tenta nos calar o tempo todo, de maneira velada ou explicita. Sofremos sim opressão e não vejo sentido de a polícia existir se não fosse para proteger o poder do branco. Quando eu tinha mais ou menos quatorze anos entraram na minha casa em um bairro da periferia e quebraram tudo, reviraram a casa toda atrás de alguém que não morava lá, confundiram meu primo com um suspeito. Ficamos com medo. Minha avó estava chorando, bateram no meu pai, ficamos desesperados… parecia um filme de terror. Quando perceberam que meu primo não era bandido não pediram desculpas e ainda nos ameaçaram caso nós os denunciássemos e quem fala de ‘mimimi’ não sabe o que está falando, foi uma abordagem extremamente truculenta e que me traumatizou para sempre”, relembra Lucas que pondera, “Branco passa por revistas e ainda sim sem violência uma ou duas vezes na vida, para nós negros isso é rotina. Na Praça Sete policiais fazem diariamente uma

ronda e eu desafio você a ficar lá por algumas horas para ver quantos negros e brancos serão abordados” finaliza.

Histórias como essas de injustiça e desigualdade estão em todos os locais e na nossa capital não é diferente. Para a polícia muitas vezes ser pobre, ser negro, é um crime maior que estar portando entorpecentes. O título que Minas Gerais ostenta com orgulho, de melhor polícia militar do Brasil, é questionável se perguntarmos à população menos favorecida, à parcela sem privilégios que não mora na zona sul ou não segue o padrão estético eurocêntrico. A violência policial é um problema ao redor do Brasil e o genocídio de jovens negros é extremamente preocupante. Segundo a edição de 2014 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre 2009 e 2014 as polícias brasileiras –civil e militar- mataram tanto quanto a americana trinta anos.

De acordo com a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado sobre o Assassinato de Jovens divulgada em junho de dois mil e dezesseis, todo ano 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos. Em 2017 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em uma pesquisa com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que taxa de jovens negros assassinados no Brasil 2015 é duas vezes maior que a taxa de jovens brancos assassinados no mesmo período. É evidente que “All Lives Matter” (todas as vidas importam), mas são as vidas negras que estão sendo exterminadas e precisamos não apenas falar, mas mudar isso com urgência.