Literatura

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Por Giovanna Silveira – Métrica Livre – Parceira Contramão HUB

 

Em dias bons não importa

se faz sol ou temporal

lá fora

se há milhões de coisas

para serem feitas

ou apenas uma

em dias bons cada canto

tem sua cor

a água insípida tem sabor

os anéis alcançam as dedos

revelando poder

e pureza

os pés bailam ao invés

de apenas andar

em marcha

lenta

em um dia bom

vinte e quatro horas

 são como sessenta segundos

e da vida é certa

que os dias bons

é um dom atemporal.

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Por Ked Maria

O término nos faz tomar atitudes desesperadas e imediatistas, a tecnologia nestas horas não nos ajuda em nada, e a internet só serve para propagar mais ideias absurdas. Depois de quase dois anos de relacionamento sério, parceiro apresentado aos pais, aquela coisa de almoço em família no domingo, o maldito resolveu formar uma sociedade comigo, ele entrou com o pé e eu com a bunda. Depois da famosa conversa de “o problema não é com você, sou eu” acabou o meu namoro com o meu melhor amigo. Poxa, nós transavámos, sempre estávamos beijando a boca de uma amiga em comum, era tudo que todo mundo quer, não? Chorei por meia hora, fiz textão no Facebook, não entrava na minha cabeça que os 13 anos do PT acabaram juntos com a minha vida amorosa. Nem preciso falar que a minha publicação foi mais ignorada que as Paraolímpiadas. Não, as Paraolímpiadas teve a Cleo Pires para levantar o visibilidade, o meu texto só foi desprezado sem dó e nem piedade.

Estava me sentindo a Dilma, traída pela nação, mas diferente dela eu mandei o “ex” à merda. Fui “impitimada” do cargo de poder que exercia na vida daquele homem, devia aceitar que uma nova Temer tomaria meu lugar, na verdade estava mais pra Marcela, pois a substituta é loira. Entrei para a academia na ideia de ficar A GOSTOSA DO VERÃO 2017 e, em menos de dois meses, estava igual à seleção brasileira depois do famigerado 7×1, ou seja, sem dinheiro, dolorida e pensando que lutar contra padrões de beleza era bem mais fácil e menos trabalhoso.

Continuando a minha saga, descobri que as redes sociais são uma desgraça na vida dos usuários. O Falecido (vou chamar assim o “ex”), vivia postando fotos com a sua “Marcela Temer” usando uma blusa de Game of Thrones, nestes dias eu já me sentia o próprio Jonh Snow esfaqueado na neve. Irritada, lancei o desafio para o Universo: “Já acabou, Jéssica?”. Cheguei em casa, coloquei a melhor roupa, os brincos banhado a ouro comprados na Oiapoque e tirei as melhores 6 fotos para colocar no meu perfil do Tinder. Iria mostrar quem era a Beyoncé no Grammy.

 

Sim, eu baixei o Tinder.

 

Para quem não conhece, o Tinder é um aplicativo que serve para elevar a auto estima das pessoas. O usuário escolhe até 6 fotos, cria um pequeno texto se apresentando e, automaticamente, você está em uma vitrine. As pessoas ao seu redor com seus respectivos celulares visitam seu perfil e avaliam, se houver interesse ela pode te dar um “match”, e se for recíproco, você o devolve. Há um sistema de bate papo, onde a sedução acontece, a auto estima entra nesta história toda quando você recebe vários “matchs” e se sente a Anitta cantando músicas de como ela é demais. Depois de algumas doses de empoderamento você personifica a Grávida de Taubaté e deixa a conversa fluir. Dica para a vida, abra seu aplicativo em locais diferentes dos que o Falecido frequenta, a possibilidade de encontrar um amigo do boy é grande e ele não vai pensar duas vezes antes de virar delator e ir fazer fofoca.

Na primeira conversa no Tinder me senti o Aécio Neves tentando convencer alguém de que ele é honesto. Não sabia lidar, ou seja, não rolou. Na segunda descolei um encontro, afinal eu não era a Fátima Bernardes, mas também estava solteira. Foi um fracasso, esqueci o nome do jovem, ele beijava mal e tinha cheiro de azeitona. Cheguei em casa mais frustrada que o segundo turno das eleições belorizontinas, Kalil e João Leite.

Talvez a abordagem estivesse errada, fui tentar melhorar a minha vida amorosa com um conhecido. Terminou nós dois da cama, ele super cansado, suado e eu lá, mais decepcionada que a Lava Jato.

Resolvi, vou ser piranha, é, vadia mesmo, daquelas que não querem nada com ninguém. Voltei pro Tinder. Encontro um amigo do falecido dando sopa, não perdi tempo e fiz que nem a Netflix, dominei geral. Sai com esse moço e transformei o quarto no Haiti, passei que nem o furacão Matthew, destroçando tudo. O jovem era bem aperfeiçoado, mas eu tinha decidido entrar no mundo da libertinagem. Próximo “match”: design, desenhista, um bigode imitando o Salvador Dalí (ganhou 20 pontos comigo), óculos (soma mais 10), e um convite para ir ao cinema ver um filme. O moço falava um pouco mais que o Leonardo DiCaprio no filme O Regresso, ainda assim fui parar em um bar depois da sessão. A conversa rendeu, passou de feminismo à Marvel em um piscar de olhos, foi tão emocionante que derramei meu copo de chopp nele. Depois dele, resolvi desinstalar o Tinder.

O projeto Piranhona 2016: Esse Ano Ainda Vai, ficou de lado com a chegada do final do semestre.

Minha irmã mais velha e grávida voltou a morar comigo e a grana já estava no fim, ou seja, estava mais perdida que a Dory do Nemo e mais triste que a morte de Carrie Fisher. Já no fundo do poço o Último Match resolve investir pesado. Quando digo pesado estou me referindo à uma viagem maravilhosa, sensacional e romântica para Cabo Frio com suas primas e seus respectivos namorados. Se você pegou a ironia, descarta que foi bem legal. O único ruim foi voltar para Belo Horizonte e encontrar a passagem do ônibus a R$ 4,05 e o Kalil como prefeito.

Entrei em 2017 leve e com um pedido de namoro que demorei mais que a votação da Reforma do Ensino Médio para responder. Ocupei o coração do Último Match, afinal o lema é ocupar e resistir. O Carnaval, trouxe a minha sobrinha que ainda na barriga já sabe que não vai se aposentar.

Depois dessa longa saga à procura de esquecimento, cresci e já consigo me reconhecer de novo. Ainda não posso dizer que me sinto a Viola Davis no Oscar, mas sigo mais agarrada aos meus ideais e às pessoas que se mostraram necessárias durante esse percurso.

Essa é a parte da “Moral da História”, que é a seguinte: baixem o Tinder, talvez se a Dilma tivesse dado “match” no Temer o rumo teria sido diferente.

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Por Giovanna Silveira – Parceira Contramão HUB

Você é um anônimo muito casual, ilustre conhecido do que eu também conheço. Passa por onde quer, procura o que quer e deixa vestígios somente se quiser ser encontrado. Você quer ser encontrado?

A consequência dos dados é saber demais e de menos em proporções desleais, em doses posológicas diárias para aos poucos imergir, você e eu. Abstração. Tarde demais para se desfazer das ligas que te prendem ao todo, cedo demais para se desatar do click-efêmero.

E aos poucos se dar aos prazeres de inflar o ego vazio ou tão somente aliviar a própria cólera, nascida e criada no leito de que todos tem de saber de você, o que você quer, por onde quer passar e o que quer procurar. Materialização.

Estando agora, drasticamente imersos no complexo de fiação imaginária que não vemos e não sabemos como, viajamos em nessas conexões, constante e insistentemente a busca de algo; hora a declaração, hora o anonimato.

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Por Débora Gomes – Parceira Contramão HUB

o tempo é uma janela aberta. e a gente sente tudo [a brisa, o amargo, a fumaça, o frio, as saudades]. aprendemos, de pequenos na escola, que saudade é substantivo que não tem plural. mas, mais velhos, entendemos que nela, em si, cabe todo o infinito sem precisar que qualquer coisa se multiplique. ou se explique.

comecei cedo a saber sobre saudade: sempre a senti cutucando o peito, sem compreender muito bem porque. hoje, sei teu endereço primeiro. aquele que me fez atingir distâncias e silencia-la um pouco, como quando passa o carnaval: na quarta-feira de cinzas, tudo volta ao seu estado de silêncio e vazio, ao qual já estamos tão habituados.

mas hoje… hoje não tem confete, nem serpentina. hoje a minha saudade sente muito. sente os lugares que não viu, os abraços que não deu, os sorrisos que não riu, os desejos que escondeu. sente as palavras que não ouviu, e que também não me encorajou dizer. sente em três ou quatro soluços, as histórias que não viveu, as chances que não se deu, as alegrias que se poupou.

hoje minha saudade mora num porta retrato na sala de casa, em um cheiro que vai sumir da caixinha em que guardei recordações, na voz que ecoa na memória suas canções encantadas tão devagar. hoje minha saudade sabe que vai amarelar como as folhas de caderno antigas, até esfarelar e virar poeira no tempo. hoje, ela (a minha saudade) sabe que eu a sinto, sem ter sequer muita coragem pra sentir. 

e ela sabe também que eu nunca mais serei a mesma, depois que ela se instaurou em meu peito nesse fim de abril, transferindo os agouros de agosto, em uma dor lamento que às vezes me desprende do passo e me flutua por onde nunca vivi.

“é saudade seu moço, é saudade!”. 
e a partir de então, voltei a acreditar nos fins…

.as mãos de vóinha, que desde 27 de abril, não podem mais seguras as minhas.


.as mãos de vóinha, que desde 27 de abril, não podem mais segurar as minhas.

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Por Larissa Ohana – Parceira Contramão HUB

Não, não, não digo como se fosse generalizar algo, estou falando do Universo mesmo. Esse espaço imenso, que mal podemos calcular o poder e influência sobre nossas vidas.

O Universo para mim, é o senhor de tudo, não sei se gosto de chamá-lo de “deus”, ou talvez deusa seria mais pertinente (e interessante). De qualquer forma o universo é quem tem sido meu companheiro há uns belos 3 ou 4 anos.

Gostaria de dizer, mas não sei quando foi que começamos essa relação tão próxima, que não fui ensinada a ter, porém tive a consciência de que desde então estivemos em sintonia e contato, com uma alta intensidade, na maior parte das vezes. Não sinto que eu precise parar para poder ouvi-lo e ser ouvida. Porque estamos em uma eterna conversa, onde as as trocas de energias são tão presentes que as vezes só de pensar “Ai, poxa, o ônibus podia chegar” e vê-lo virando a esquina, é a prova de que essa minha relação com ele é de receber sim, porque eu agradeço, e agradeço muito.

Agradeço por estar viva e nunca me senti tão viva como se sinto agora, agradeço por tudo que acontece em minha vida, até mesmo os momentos mais “inoportunos”, principalmente por todo aprendizado que juntamente vem à estes tais momentos, agradeço também pelas pessoas que comigo convivem e fazem parte do me crescimento e, principalmente por mim, por ser a melhor pessoa que eu poderia conhecer e não querer ser ninguém além de pura, e simplesmente, eu mesma.

Mas não, ele não me proporciona apenas essas coisas simples como o caso do ônibus, ele organiza toda a natureza e estrutura para que tudo que aconteça, seja exatamente como deve ser. Sim, as vezes me pego questionando o porquê de várias coisas, mas ah, sou humana, somos mesmo questionadores e curiosos. Porém, tenho a visão clara de que em algum instante, e isso de fato acontece (leve o tempo que levar), chega a hora que a ficha cai e percebo o real motivo de que as coisas tenham sido de determinada maneira.

Religião? Tenho não. Crenças? Muitas. O que me considero? Espiritualista.
E no fim, o que importa mesmo é a evolução, minimamente os rótulos e se compartilhamos de uma mesma fé.

Tenha sua forma de pensar, valorize-a e também a das pessoas à sua volta, respeite o tempo do outro que pode,e provavelmente não vai, funcionar no mesmo ritmo do seu, acredite que todos somos pessoas capazes de ser diariamente melhores, e seja sempre a pessoa a qual você mais admira, porque mesmo que ainda não seja, existe a ocasião deste despertar interno. Confia em mim. Confia no universo, nas estrelas, no sol, na lua e confia que seu propósito de vida está sendo exercido, tenha calma, seja feliz enquanto der, e enquanto não der, acolha a tristeza que não é a outra face da felicidade, mas sim um complemento dela. Afinal, qual seria a motivação de se querer ser feliz? Tudo que chega ao seu limite não pede por mais, pede por comodismo, e este sim é um comportamento evitável.

Em suma, o universo é meu guia, mas mais do que isso é quem sempre me acolheu, sem me dizer uma sequer palavra. É um amor que não precisa ser declarado e uma confiança que resiste à tudo.

Universalmente falando, eu sou uma estrela cadente, que se encontra em constante movimento, abençoada por energias flutuantes e por pensamentos construtivos.

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Por Cássio Leonardo

Domingo de noite e nós esperando o entregador de pizza chegar com nosso pedido, até aqui nada fora do comum, imagino que nesse mesmo prédio mais uma dúzia de pessoas faziam o mesmo. Comer pizza nunca era a nossa primeira opção, eu sempre preferi fazer minha comida em casa, mas nesse domingo em especial não havia clima pra isso, o gato récem resgatado que estava a pouco dias morando conosco havia morrido, e gato morto tira a gente dos trilhos.

Foi pela morte dele que decidimos pedir pizza, cozinhar com o corpo morto ainda em casa parecia desrespeitoso, e pra nós era mesmo. Que já pedimos a pizza com qualquer desconfiança porque também nossa fome era ofensiva, mas havia de se comer, não há o que fazer, era necessário alimentar o corpo vivo que temos.

A nossa falta de ação nos constrangia, o que diabos fazer com aquele corpo tão pequeno que deixava um buraco tão grande? Enterrar parecia demais, não enterrar parecia de menos, sem nos falar nos torturavámos com essas questões, cada um em seu canto, eu fingindo ser forte e ela chorando, assim nossas ignorâncias pelos menos não se machucavam.

O entregador chegou, eu fui atender ela me acompanhou, havia qualquer coisa de grave em nós, de porta aberta esperando ele achar a máquina de cartão o choro nos surpreende, chorei tudo que podia na frente daquele estranho quee preocupado perguntou o porque do choro, enigmatico respondi: A morte. Ela explicou , o entregador sensibilizado se ofereceu para levar o bicho morto e dar fim as nossas questões, aceitamos de bom grado, entreguei a caixa de sapato na qual ele estava, ele sem falar nada pegou. O corpo havia ido embora e no apartamento restava a nossa tristeza e a pizza que ninguém comeu.

O entregador jogou a caixa na primeira lixeira que viu, e a vida continou, machucada, mas insistentemente viva, era até grosseria, nos obrigar a viver. O entregador, que não perguntamos o nome, depois de feita nossas entregas, não quis mais passar de casa em casa todas as noites, a morte poderia estar em alguma porta, e isso era demais, a morte é ditadora e ele não entregaria mais pizzas.