Literatura

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Arte retirada do blog .as cores dela .

Por Débora Gomes – . as cores dela . – parceira Contramão HUB

era ainda tardezinha quando cê entrou pela porta dos fundos, com os olhos cheios de adeus. eu tava lá, esquentando a água pro seu ‘thé de camomille’, que cê toma todas as noites e que te faz dormir melhor desde que voltou. 
cê não me olhou nos olhos – achei estranho. 
nunca foi do seu feitio encarar a vida com a cabeça no chão. também não perguntei o que tinha acontecido, um pouco porque tive medo, outro pouco porque tive medo também. 
mas se cê vem e me pergunta agora: “medo de quê, criatura?”, eu não saberia jeito nenhum de te explicar. 
talvez medo de que cê fosse embora ou de que me dissesse que era cedo demais pra ficar. vai ver, medo de que cê nunca mais me olhasse nos olhos ou de que cê me contasse que morreram todos os seus girassóis. medo de que cê tivesse desacreditado na gente e tivesse resolvido cortar o mal pela raiz de uma só vez. mas de tudo, o que dava mais medo, era dos seus olhos de adeus. e de que eles te levassem embora pra longe, antes do amanhecer. seria meu amanhecer mais triste: acordar, procurar por eles no quintal, não encontrar nenhum sinal do caminho que fizeram, te levando embora de mim… 
– não caibo aqui faz tempo – cê me disse baixinho, enquanto Holden cantava “Ce Que Je Suis”
aí eu entendi… que o mesmo tempo que te trouxe, também te levava aos poucos pra esse lugar longe de onde cê veio, mas nunca mais ficou.
“J’oublie, je bois, je bois l’oubli
Mais qu’est c’qui m’arrive”
– voa, passarinha – eu quis te dizer. mas uma parte egoísta do meu coração preferiu te aprisionar mais um pouquinho, até a próxima dança.

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Foto reprodução internet

Por Débora Gomes – .as cores dela. – Parceira Contramão HUB

“repara que o outono é mais estação da alma que da natureza”,
ah querido Drummond,

se soubesses o quão feliz fica meu coração nesses dias de sol-devagar!
não sei… mas uma vez me disseram que é por isso que fiz do outono minha estação preferida: por essa possibilidade de viver como se cada passo pudesse ser pensado e dado sem pressa. eu, por fim, não acho que escolhi o outono em momento algum, mas tenho quase certeza de que foi ele quem me escolheu, me presenteando com suas cores… tiveste a oportunidade de ver o céu em lilás, laranja e amarelo, dos fins de tarde de outono? é uma beleza que faz chorar de alegria.
“quanta melancolia!”, talvez alguém nos dissesse. 
“quanta poesia!”, a gente concordaria.
veja só: verso até sem saber fazer rima!
por essa possibilidade do tempo, fico mesmo mais recolhida. ando preferindo silêncios, tento não me irritar, sou capaz de perder mais de meia hora na janela, só observando as nuvens mudarem de lugar no meio do azul. 
é como se o tempo me dissesse lento: 
‘acalma coração! toma sua dose de esperança e vá ser feliz com (c) alma’.
e ele vai… como se sempre valesse a pena.
e porque ele sabe que vale…

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Arte reproduzida site Hype Science

Por Grégory Almeida

Naquela quinta-feira, 23/03, acordei com muita pretensão de sorrir e admirar o belo. E lá fui, disposto. Como na rotina, meu ônibus, depois o Move e depois outro Move para chegar à rua Paraná, próximo ao ganha pão. Até aí, tudo bem.

O ônibus começa a encher de homo sapiens na Avenida Brasília, em Santa Luzia. Eu, já em pé, naquele equilíbrio que não tenho, me pego observando uma moça. Ela, coitada, com uma bolsa enorme, fone de ouvidos e séria, mas percebi no abrir dos lábios que usava aparelhos. Fiquei lá na minha e ela no equilíbrio dela com aqueles olhos verdes. Lindos!

E o ônibus continuava a encher, até que ficamos lado a lado.

Vejo a “paisagem”, passamos a Linha Verde e chegamos a Pedro I. Ali começara a minha admiração à menina de olhos verdes. Com o celular a mão, a câmera frontal como espelho, a bolsa na frente. E a bolsa era enorme, quase uma mala. Ela me tira uma outra bolsa de dentro e o meu olhar se torna fixo.

Tira um tubinho, no equilíbrio, uma mão com o celular, a outra com a bolsa menor, e entre os dedos o tubinho com o creme. Faz cinco pontinhos no rosto. E eu pedindo a Deus para o motorista não frear bruscamente. E eu ainda a olhava, já com o olhar 43. Esfregou os pontinhos em movimentos circulares. Pensei, será que ela vai se arriscar mais? Arriscou. Meus caros, o ônibus não esvaziados e ela inerte. Linda, “lacrando” que diz, né? Pois estava.

Eu já a admirava pela astúcia, habilidade e indiferença. Indiferente aos meus olhares. E até que nós olhamos num momento que ela virou o celular e me pegou pelo reflexo da câmera. Disfarcei, mas ela me percebeu quase que batendo palmas.

Ela pega um pincel de tinta (não sei o nome correto) e uma esponjinha linda, da cor de salmão e me distraí, mas depois vi um potinho com um pó também salmão. Esponjinha no pó, esponjinha no rosto e o pincel de tinta também foi passado no rosto, tão leve, tão sutil, tão “Xuxa com Monange”. E ela estava lá. Tão, tão… com a bolsinha já dentro da bolsa grande, o celular permanecia em mãos e os olhos verdes? Esses realçavam a beleza da jovem que em pé, no ônibus lotado, equilibrista, se empoderou.  Desceu do ônibus como uma princesa e roubou o coração do plebeu, mas não sabia disso. Até porque, não cantei a moça. Otário que fui.

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Por: Auspicioso Acapela – Parceirxs Contramão

Sempre me gabei e me considerava em um nível acima ao dos humanos – meros mortais – quando se trata das suas “necessidades biológicas naturais”, popularmente conhecidas pelo codinome Amor. Porém ultimamente, em meu íntimo, existe uma verdade que mesmo bem escondida me destrói: eu sempre soube que no jogo do amor, eu tiro meu time de campo e assisto da arquibancada devido as incessantes derrotas, hoje me encontro muito bem acompanhado de uma solidão. Mas calma! Eu não estou me queixando. Pelo contrário, eu considero a solidão uma ótima companheira.
Antes eu me flagrava sofrendo pelos diálogos que eu poderia ter estabelecido, pelas tantas oportunidades de ser “feliz” com alguém ao meu lado. Mas hoje percebi que em quase todos os “amores”, estamos na verdade suprindo nossas ideologias, e sendo egoístas. O medo que todos alimentam sobre a solidão é uma maneira de não lidar com uma verdade que diz sobre todos, nossas vidas e pensamentos mesmos que expressados, fazem parte da consciência que é a unica que nos acompanha do nascer até a morte. Ela não é uma prisão, ela é mossa eterna companhia, por que mesmo rodeado de amigos, sempre fui o ouvinte vendo as pessoas falarem todo tempo por não saberem lidar com o silencio e terem medo dele, confundi-lo com rejeição. Sempre me dei bem com o silêncio, as vezes em uma multidão, todo o que escuto é o som do ar em meus pulmões.
Olhando assim, o que me resta é perceber que não estou um nível acima, mas em um planeta totalmente diferente dos humanos, eu estou dentro de mim. E sei que a tristeza e a solidão são forças exatamente iguais a felicidade, porém mal interpretadas e cheias de tabus que nos impedem de abraça-las. Não importa se você está feliz ou não, você sempre vai responder que está “tudo bem!”.

Foto Retirada da Internet

Por Débora Gomes, do .as cores dela. – Parceira Contramão HUB

eu vim porque tuas cores me chamaram. e, ao chegar, entendi que vim porque era preciso. há um mistério escondido em tudo isso e, embora a gente feche os olhos, a alma [e também o coração] sabem que a gente veio porque ainda havia dúvida. mas quando pus os pés aqui, na terra de onde teus olhos me buscaram, eu experimentei o que o dicionário sempre quis dizer com ‘pertencimento’. 

{fazer parte de.}


é que eu nunca tinha sido parte de canto algum. nem em som, nem em voz, nem em silêncio. eu vim porque teu coração me chamou. e agora, aqui, diante dessa imensidão, eu percebo que vim porque era o meu coração quem já estava pronto, me pedindo baixinho pra vir, ficar, reconhecer. preenchi todo um vazio de 30 anos com seus tons de cinza-cobre-azul. e eu gostei de pertencer ao teu tempo, sem precisar diminuir a frequência do meu.  

{ser parte de.}


que os encontros, segundo a tradição, tem sua hora para acontecer. por isso toda pressa diante do abismo da distância. por isso toda lágrima diante da inevitável despedida. porque eu vim porque tinha que vir. uma hora ou outra, teu sorriso precisaria rir o meu, mesmo que fosse pra gente se desconhecer no meio do céu. vim, porque a saudade que sempre me acompanhou sem saber porque sentir, precisava de um motivo pra continuar crescendo, até sem a gente precisar partir…


♪ It’s Just a Dream, Kath Bloom

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Foto retirada do site do Senac

A velha acordou em seu quarto sem janelas. Há três meses ela dormia com seus dois cachorros na esquina da Inconfidentes com Alagoas, foi pra Savassi depois do estupro. Lá ela podia dormir cedo, ter um pouco de paz, e até conseguia uns rolinhos primavera do restaurante japonês do outro lado da rua, às vezes.

Quando não chove ela monta seus papelões na calçada fora da marquise, do lado de uma pequena árvore, onde amarra seus companheiros. 1,00m x 1,60m é o espaço de privacidade que ela tem, pra se guardar junto de seus poucos pertences. E sabe-se lá até quando vão durar, um dia, mais uma vez, a polícia leva o que lhe resta.

De tanto sentir muito a velha não sente mais nada. O que lhe resta senão a espera agoniante do fim? Um dia, e mais um, e mais outro, as noites são tão longas quanto estes. Sua existência é tão sólida quanto o vento. Nem o desespero pulsante de seu ser a torna menos invisível, sem passado, muito menos futuro, não faz diferença. Sobrevive pela obrigação do medo da morte, mas o que será pior que a realidade que se vive minha velha?

A cidade traga o resto de sua energia, de minuto por minuto, de passo por passo, sem dó. A velha vaga por entre os concretos de outras vidas, de outros mundos, sente a sujeira que já faz parte de sua pele, ela é feita de pó, sangue para sangrar, carne pra rasgar, e solidão. Já parou de pensar faz tempo, e lembra mais ainda. De memórias ela se esgotou. A sua história se refaz a cada dia, o ontem não existe mais, família, amores, lugares, sonhos, nada disso importa. A vida a abandonou por que ela abandonou a si mesma. Agora a morte lhe chama e a velha, cansada, tem medo de se acalentar.

 

Por Gael Benitez