Literatura

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Por Jean Lescano – Poligrafias – Parceiros Contramão Hub

Careço de você. Isso aí, tô carecendo. Carecer é urgência, é te sentir bem perto e entrar em pane por minutos. É entender que não tem escapatória, que meu calmante é teu abraço. Não dá pra empurrar mais ninguém. Tem que ser da sua maneira, essa que resolve tudo – só não resolve nós dois. Mas é com você, você topa? Você quem sabe, eu nem me incomodaria se meu braço começasse a formigar durante uma tarde no sofá. Nem ligaria se você começasse o cafuné, “Tá bom assim?”, ô se tá. É que tu sabe quando ir embora, só não sabe voltar. Por isso eu vim avisar, tô carecendo de você.

Mas me chama de algo novo, não vem com essa de “amor”. Tem que ter um novo, amor não rola. Paixão? É bem menos pesado e não carrega obrigação. Por que sentimento tem que ter nome? Eu aprendi assim, desculpa. Bora criar algo novo? Esconder de outro casal. Um nome tão besta e engraçado, igualzinho você no meu abraço. Sem esse lance de medir, que tal “Frieden?” Carrega um significado gostoso de ver, tão gostoso quanto seu sorriso que se mistura ao céu azul e imenso. Mas quer saber? Sem pressa, a gente encontra algo. Quando vierem com a pergunta do que eu sinto, vou dizer, “Ainda não tem nome, mas o sorriso é lindão”.

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Por Débora Gomes – as cores dela – Parceira Contramão Hub

algumas vezes, desenho palavras que só fazem sentido aqui, no meu coração.
que nem meu amor pelo que é teu: só parece valer alguma pena, quando conjugado, em silêncio, na primeira pessoa de dentro de mim.
eu sei que é meio hard, sombrio e antigo falar de amor nesses tempos tão cruéis. mas se não escrevo sobre ele (e você), que mais vou fazer com esse tanto que me resta?
uns poemas sem rima, umas estrofes sem qualquer emoção: é isso que vira o tempo quando tento girar os ponteiros sem ouvir teu coração.
é que sei muito pouco sobre a vida. mas sei que a sinto muito, principalmente quando tua voz me chama às 2 da manhã, pra falar sobre poesias e constelações.
quando paro ~ e me atento ~ sei que tem muito mais de amor em mim quando cê vai embora, do que quando chega. e é assim, também, que aprendo sobre permanências sem prisões, sobre pertencimento sem arriscar a chance do voo, sobre amar em liberdade, sem importância com distâncias ou abismos…

penso muito (e é quase sempre) que às vezes já é tarde demais pra esperançar nosso rastro. mas quando ouço o trilhar do tempo no tom da tua voz, volto a acreditar em potes de ouro no fim do arco-íris, a sonhar com finais felizes, a ter fé num destino que, se antes inventado, hoje nos foi dado como sinal de paz…

se a gente tiver mesmo a chance de voar, acho que nunca mais voltarei a cravar pés e desejos ao chão…

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Por Giovanna Silveira – Métrica Livre – Parceiros Contramão Hub

Talvez não exista imitação entre arte e vida. Um não passa de um representação homérica do outro.

Enquanto você caminha pelas calçadas e arrisca viver na cidade, uma voz segue narrando seus passos, ou uma música vai ditando seus clímax, enquanto os dias bailam entre uma peça trágica ou uma drama documental. E nos muitos dias você se vê preso em papéis coadjuvantes… quando poderia ter sido o principal.

E então, sai de cena.

Mas então percebe que foi só o fim do primeiro ato, e a vida, na realidade é feita de muitos atos mais. E você vai marcar cada um dos personagens e lugares por onde passar;  por quê afinal, não importa, entre a arte e a vida, você vai ser sua melhor obra.

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Por Yamí Couto – Poligrafias – Parceiros Contramão Hub

Tá pronta para ter disciplina? Ser uma boa menina como todo mundo acha que você deve ser? Você está preparada? Preparada para falar sem questionar, aceitar o que o sistema te falar, rir e perguntar na hora que qualquer outra pessoa mandar? Ah, mas que beleza! Temos mais uma pessoa para mandar. Mais uma força que vai fazer tudo sem questionar. Que vai entender que pensar é apenas mais uma forma de perder tempo de uma coisa que você nunca vai conseguir assimilar. Perfeito. Temos mesmo mais uma pessoa pronta para essa famosa vida adulta. Que sinta culpa se você tiver dificuldade em encontrar um bom emprego, pois não é boa o suficiente para poder entrar numa faculdade que sempre vai estar em greve, pois a cota da educação foi a primeira a ser cortada depois de não conseguirem cortar as cotas para político ladrão. Ah, mas é claro que não. Você é mais um peso para esse Estado, mina. Você tem que aceitar o seu papel de submissão. Pois quem rouba é quem faz o melhor por essa nação. Se hoje somos o país do carnaval é por deixarmos de lado pessoas mais cultas que nunca terão apoio da Elite, o que dirá do pessoal. Ah, menina… Eu fico mesmo feliz que você esteja preparada para experimentar a sua primeira cachaça depois dos dezoito anos, que agora você possa entrar nas festas para maiores e esquecer do seu nome. Fico feliz de verdade que você jamais se encontre e ouça o que as pessoas têm mais falado do que olhar para o lado de dentro e escutado. É assim mesmo.

Bem vinda mesmo, menina. Bem vinda a vida adulta onde você acha que vai se encontrar, mas é uma cilada para você continuar perdida.

Bem vinda a vida adulta onde você será mais uma nessa multidão de pessoas sorrindo por fora, mas por dentro estão mortalmente feridas. Bem vinda ao mundo adulto onde sempre vai ter alguém de fora dizendo o que vestir, o que comer ou qualquer outra coisa que você decida. Bem vinda ao mundo adulto, mina, onde você só chega a algum lugar se for tão sujo quanto eles e minta. Nós estaremos te recebendo de braços abertos e esperando roubar a sua mente e a sua língua até o momento que você não será mais útil para a nossa “humilde” carnificina.

Eu espero que você seja capaz de entender no meu texto a quantidade de ironia.
Caia fora enquanto há tempo.

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

 

querido Salvador,

diz meu coração, que cê só anda um pouco perdido, sem saber como voltar. sem muito jeito pra crer nessas ideias dele, apenas lhe pedi: ‘não se engane, coração. não acredite em tudo que sente’.

existem muitos caminhos, Salvador. estradas curtas, estradas longas, estradas com poucas ou infinitas curvas. aprendi, ainda muito pequena, que quando a gente tem pouca certeza, mas alguma fagulha no coração, a gente consegue chegar onde se deve, aprendendo a amar a trajetória inteira.

não sei o que te aconteceu… se cê cansou dessa brincadeira de longitudes, se seu tempo anda desencontrado, se cê esqueceu minhas poesias, se cê achou melhor seguir, me deixando dentro desses vazio. mas seja lá o que for, não tenha medo. a gente não deve culpar destino algum, nem dizer desses agoras, que às vezes se fazem tarde demais.

mas me escreva quando sentir saudade. as portas vão estar sempre abertas pr’ocê.

com amor,
Alice.

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Different side is desert with a dead tree, Concept of changes.

Por Cássio Leonardo

Nas idas pro interior para visitar os pais voltou com um pé de manjericão, feio que só. A ideia era plantar no apartamento que dividia e ver se dava para colocar em algumas das receitas que tentava fazer, cozinhar era bom.

A muda arrancada pelas mãos experientes da mãe era a mais feia possível, mas aceitou de bom grado, cavalo dado não se olha os dentes, agora tinha era aquele inferno de pegar o ônibus com aquelas folhinhas verdes que cheiravam de longe, que preguiça meu deus.

Preguiça e um certo desconforto, achava horrível incomodar os outros, mas foi assim mesmo, mochila nas costas e o pé de manjericão na mão. As instruções da mãe eram claras: Chegando em casa, já planta, deixa a terra bem fofinha e não desfaz o torrão, se não morre. Em casa fez isso, não desfez o torrão, preparou a terra, plantou, adubou, e regou, deixou lá. O problema era a ansiedade, que angústia senhor, esperar aquilo crescer para poder usar, enquanto olhava a planta pensava que podia ter descido e comprado um maço no sacolão e estaria pronto, mas não, a história era mesmo cuidar.

Mas aí, deu formiga, elas trabalhavam incessantemente com um objetivo claro, devastar aquele manjericão feio, era difícil não descer para comprar, mas resistiu. No telefone com a mãe: Como é que a senhora mata as formigas? Folha de fumo, onde eu vou arrumar isso? tá, mas e aí faz o ‘que? Entendi.

Era simples, mistura na água e rega, as formigas vão embora, funcionou, porém, as folhas ficaram ainda mais feias, e agora estavam começando a empretecer, ia morrer, jeito não tinha mais.

Mas ainda tinha a experiência estética, tomou como objetivo pessoal e intransferível salvar aquela planta, salvar era muita pretensão, só deixar mais bonita estava bom. Pegou a tesoura, não tinha a de poda, eram aquelas que sempre tem em casa, e cortou tudo que estava feio, quase o manjericão todo.  A ‘experienciação’ estética o tinha salvado, a planta ficou boa, bonita até. Depois de um tempo, com regas regulares e sol na medida certa, a planta cresceu, era um pé de manjericão bonito que só, e ele nada de perceber, percebeu mesmo quando num dia de angústia enquanto regava, sentiu o cheiro de vida vindo da terra, eram das folhas verdes. No outro dia raspou a cabeça, enquanto o cabelo caia o sorriso ia ‘enlarguecendo’ e a vida dentro dele ia nascendo.