Literatura

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Por Bianca Rolff – Gauche – Parceira Contramão HUB

Ela não gostava de contos de fadas, tampouco ser chamada de princesa. Entretanto, quando o viu pela primeira vez, acreditou que ele pudesse ter saído de uma das histórias que tanto evitava. Só não imaginava que “felizes para sempre” fosse realmente tão longe da realidade que se formava à sua frente.
***
Ali, naquela noite chuvosa e com ventos arrebatadores, tudo o que ela queria era ter se lembrado de ter levado consigo um guarda-chuvas. Nem mesmo a marquise impedia que a água fustigasse seu rosto e o vento rodopiasse à sua frente, carregando folhas e galhos das árvores mais próximas. Aquele parecia não ser o seu dia de sorte. Mais cedo ela já havia se machucado ao tropeçar na escadaria da faculdade e cair sobre um estilhaço pequeno de vidro, suficiente para lhe abrir um corte no braço. Não seria nada demais, exceto pelo corte ter acontecido onde ela já possuía uma cicatriz antiga. Agora, o céu parecia ter aberto todas as comportas e decidido inundar o mundo de vez. Ela estava prestes a tomar coragem para atravessar os quatro quarteirões que restavam até a sua casa, quando ele virou a esquina e a encarou.
Não, não olhou para onde ela estava, para um local próximo ou para alguém que também esperava a chuva cessar. Ele olhava diretamente para ela, como se sempre tivesse o intento de lhe encontrar. Ela aguardou que ele se mexesse, mas nenhum movimento se fez, e ela tinha a impressão de que ele nem mesmo se dava ao trabalho de piscar.
Decidindo-se pela coragem e por uma curiosidade que a assolou avassaladoramente, ela saiu para a chuva, encharcando-se no instante em que deu os primeiros passos em direção ao homem desconhecido.
De fato, ele a esperava. Tinha – agora ela via com clareza – os olhos do mais pálido azul que ela já vira, quase confundindo-se com o branco das laterais. Ao chegar até ele, sentiu o toque de sua mão gelada apertando-lhe o pulso e encostando-a contra o peito.
– Eu te levo para casa.
Ela tentou falar que não precisava, que não o conhecia, que não saía aceitando “caronas” de desconhecidos, mas tudo o que conseguiu foi segui-lo em silêncio, pela chuva.
Bastaram alguns passos para ela estacar, boquiaberta. Ele estava completamente seco, por mais que as gotas vindas do céu se tornassem cada vez mais grossas e dolorosas. Notando a sua parada, ele se virou e a puxou delicadamente, formando uma barreira contra a chuva no local em que a tocava.
Entraram em um beco escuro e ela começou a se considerar louca por seguir um homem que além de não se apresentar, parecia ter saído de alguma história fantasiosa e surreal. Ela sacudiu a cabeça para liberar os pensamentos, mas quando abriu os olhos novamente, prendeu a respiração.
Não se achava mais no beco escuro, mas em uma ampla sala. Ampla era uma palavra modesta. Estava num salão gigantesco, com candelabros presos ao teto e cortinas de veludo vermelho que cobriam metade das inúmeras janelas de vidro.
– Que lugar é esse? – ela perguntou, olhando ao redor. Sentia tanto frio que as palavras saíram gaguejadas, como que num idioma diferente.
Ele a encarou e, pela primeira vez, piscou os olhos pálidos e sem vida.
– A sua casa.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele saiu de vista, fechando uma grande porta de madeira com um estrondo.
Não, ela não gostava de contos de fadas. E quando afirmava isso, não se referia às versões modernas de estúdio de cinema que buscavam dar finais felizes para as narrativas originais. Ela se referia às histórias antigas, sombrias, que em sua grande maioria continha finais trágicos e repletos de sangue e devastamento. Essas histórias – essas sim – faziam-na querer distância dos livros das bibliotecas públicas, dos arquivos antigos recém explorados e dos sites secretos da internet. Entretanto, aquele homem… Ela já o tinha visto antes e a sua presença imediatamente a remeteu a uma dessas histórias…
Ele lhe estendeu uma toalha limpa e uma muda de roupas, fazendo-a gritar. Não tinha notado o seu retorno e, reparando-o mais uma vez, seus olhos pareciam realmente muito mais intimidantes do que antes.
Ela pegou os objetos e, sem se importar com a presença dele, secou-se e trocou de roupa. Quando seca e confortável, finalmente questionou:
– Quem é você, porque disse que essa é a minha casa e de qual universo paralelo você veio?
Ela não esperava o que aconteceu em seguida. Puxando-a pela cintura, ele lhe deu um beijo.
Um choque percorreu todo o seu corpo e foi como se um filme passasse em alta velocidade pela sua mente. Ela pequena, correndo pelos jardins de um castelo muito bonito e nevado… Então sendo apresentada a um único botão de rosa no meio da neve… O tempo passando e ela, já mais velha, indo cuidar da rosa única todos os dias… A rosa parecia perfeita, exceto por uma única pétala negra, que sempre murchava ao entardecer… Um relâmpago… A escuridão no céu… Então ele apareceu… tão bonito e imponente, porém seus olhos eram de um castanho profundo… Um beijo sob a lua… As mãos pousadas sobre os corações um do outro… Um clarão… Ela estava de volta ao salão, repleto de convidados… Ele se ajoelhou, abriu uma caixa de joias e… dentro dela, havia uma pétala da rosa vermelha… Uma explosão… Um homem encapuzado de vestes negras colocou as mãos sobre os olhos do jovem e com um estalo, os queimou, tornando-os de um azul pálido… Tudo ficou preto… Ela saiu correndo pelo jardim nevado e viu a rosa murchar aos poucos… Ela passou raspando nos espinhos da rosa… Um corte no braço… Sangue caindo na neve… O homem encapuzado saiu em seu encalço, mas antes que ele a alcançasse, ela entrou por uma fenda na árvore mais velha do jardim e desapareceu…
Soltando-se do beijo, ela caiu no chão, sem ar.
– Eu me lembro… Você é Ian, o Príncipe do Reino do Noite. Você foi o único que conseguiu encontrar a pétala da Rosa da Vida… Então você a trouxe para mim, para que ela se juntasse às demais… Mas o Vollum descobriu sobre a Rosa, e se ela estivesse completa, todo o seu esforço para destruir os Cinco Reinos estariam perdidos – ela falava sem respirar, num fluxo constante – Então…
– Ele nos achou, queimou os meus olhos para que eu não conseguisse mais vê-la – disse ele, os olhos cada vez mais pálidos –  Só que você conseguiu fugir… Quando passou pela fenda na Árvore Elda, você foi parar na dimensão 2149…
– E esqueci de tudo o que aconteceu aqui antes… até…
– Até eu encontrar você.
Um silêncio se fez entre eles. Ela não conseguia acreditar que ele não a via, de fato. Todo o seu jeito, o modo como andava, se portava… o jeito que havia olhadopara ela durante a tempestade…
– Como conseguiu ir para 2149? – ela perguntou, ainda tentando processar todas as informações.
Ele não respondeu de imediato. Quando falou, sua voz era suave, porém ligeiramente trêmula. Algo que passaria imperceptível por quase todos. Quase.
– Quando você desapareceu pela fenda, ela se fechou. Você sabia que isso aconteceria, eu cheguei à conclusão depois de um tempo. Entretanto, à época, não compreendi qual a sua intenção. Quando fugiu, o caos se instalou completamente nos Reinos. Vollum destruiu com facilidade a Rosa, mas ficou furioso pela Princesa Vermelha, Guardiã da Rosa da Vida, ter saído impune e destruiu tudo que tivesse ligação com você.
Ele fez um gesto para o entorno e ela sentiu o peito arder. Não havia mais nada além de um esqueleto do que fora seu belo e seguro castelo um dia.
– Acho que uma espécie de indiferença se apossou de Vollum e ele me poupou. Talvez por achar que cego eu nem mesmo serviria para o gasto de energia que teria ao me matar. O que ele não sabia – os olhos dele se cravaram novamente nos dela, e ela teve certeza de que ele a via -, é que ao retirar de mim a minha visão comum, ele de algum modo me permitiu… sentir você.
Um formigamento se apossou do corpo dela e ela sentiu algo há muito esquecido. Ian não era apenas o Príncipe do Reino do Norte… Era muito mais que isso.
– Como foi que você me achou, Ian? – ela tornou a perguntar.
– Por muito, muito tempo eu fiquei perdido. Não havia quase ninguém por perto, tudo parecia ter sido completamente destruído, e viver sozinho sem meus olhos parecia pior que a morte. Então… Num dia de chuva como hoje… algo mudou. Foi como se uma espécie de fumaça se fizesse à minha frente. E essa fumaça formava em meus pensamentos a sua imagem. Fraca, mais ainda assim era você. Isso aconteceu mais algumas vezes, todas elas em noites de chuva, e eu soube que, de algum modo inexplicável, eu conseguia sentir você.
Ian passou a língua nos lábios para umedecê-los e prosseguiu:
– Nunca saí das redondezas de Semsar desde o ataque de Vollum (creio ter sido dado como morto para o meu Reino, o que nem mesmo fez alguma diferença para mim, dado que eu me considerava morto por dentro), então decidi há algum tempo me aproximar da Árvore Elda, na esperança de que ela me desse alguma luz. Foi aí que hoje, em mais uma noite de chuva, eu senti você. Mas dessa vez, não foi apenas sentir. Eu realmente vi você, clara como nunca. Então, a Árvore Elda, como se também entendesse, tornou a abrir a fenda por onde você passou e… bem, eu te trouxe de volta.
Ela olhou para o corte profundo no braço. No exato lugar em que ela havia se cortado nos espinhos da Rosa da Vida quando fugia de Vollum. Um antigo feitiço pagão de localização… Ferir-se no exato local do primeiro ferimento. Mas como Ian conseguiu encontrá-la? Eles teriam que…
O primeiro beijo… A Transferência Secreta de Almas. Um coração pelo outro. Eles eram um só, e tinham feito o pacto em segredo.
– Ian… – ela o encarou com um movimento repentino – Por que você me trouxe de volta?
– Por quê? – ele pareceu confuso – Ora, porque você me chamou. Não me pergunte como eu sei que era para fazer isso, eu simplesmente soube que era a hora de te encontrar.
– Sim, era mesmo a hora de me encontrar, mas… Não era para você me trazer de volta – o coração dela começava a acelerar, a pulsação na boca – Eu acho que…
– Que Vollum seria tão imprudente de deixar o Príncipe Ian vivo sem motivo? Você é esperta, Princesa Clara.
Ela e Ian se voltaram num único movimento, a tempo de verem uma mulher muito alta e magra surgir da escuridão da noite. Seus cabelos eram cor de musgo e Clara, mesmo antes de tudo acontecer, sempre achara que a existência dela era uma lenda. Ahnna, a Maga Esmeralda, Guardiã do Reino do Leste, Semsar.
– Você voltou, Princesa Clara. E Vollum a essa altura já deve estar sabendo que alguma coisa aconteceu, pois vigia Ian desde o seu sumiço. O que ele, não sabe – Ahnna deu um passo à frente, deixando os seus olhos esmeralda serem iluminados pela luz noturna que entrava por uma das janelas -, é que eu não sou apenas uma lenda. Não temos muito tempo, vocês terão que vir comigo.
– Para onde? – Ian quis saber, a expressão profundamente irritada.
– Para onde vocês possam entender as consequências desse retorno de Clara – Ahnna deu as costas para eles, iniciando uma caminhada lenta – E antes que me perguntem: A Rosa da Vida foi mesmo destruída por Vollum na noite do ataque a Semsar. Mas o poder dela ainda vive.
Clara e Ian se entreolharam e seguiram Ahnna pela escuridão, mas nenhum dos dois percebeu o corte no braço de Clara se iluminar de um vermelho fogo por pequenos instantes.

Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

ouça, minha querida. não há placas em todos os lugares, dizendo o que você deve ou não fazer. algumas vezes você precisará escolher o caminho sozinha, com todos os “poréns” e “sorrisos” que isso implica. eu sei que os ventos não estão muito favoráveis, que querer desistir é uma forte opção, que invernos são épocas preciosas, em que as coisas decidem por si sós se ficam ou vão. 

mas tudo são condições.

vê-se por agosto, seu mês de maior agouro, que resolveu lhe sorrir ao ponto de te deixar esquecer – não fosse pelos feriados – em que dia estamos. veja bem: há sim uma chance de ter amor em todas as coisas. desde que se tenha, ainda, força nos olhos, certezas nos passos e delicadeza no coração. aos trancos e barrancos – sendo bem clichê – as coisas se ajeitam. porque amor, pequena, não é pra qualquer um, não. 

é preciso coragem e um retrato bonito para emoldurar quando as tempestades passarem. porque elas passam. vai por mim: já vi muito sol depois de tanta chuva e trovoada. é tudo questão de esperar… pra ver.

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Por Auspicioso Acapela – Coletivo Parceiro Contramão HUB

Tenho o poder de transformar as coisas que gosto em algo penoso. Pode não fazer sentido, mas toda vez que o dinheiro entra no que me dá prazer acabo perdendo o interesse.

Aos 18 anos comecei um curso técnico em química, era exatamente o que eu queria, estar em um laboratório experimentando, descobrindo, testando. Durante o percurso tinha mil sonhos e incontáveis desejos a serem realizados que não cabiam no meu bolso. Procurei estágio, procurei arduamente para ter condições de realizar algo que realmente queria. A farmácia foi a primeira decepção. Depois de meses me peguei em uma  rotina cronometrada, com 4 horas de trabalho, salário baixo e o laboratório ficava do outro lado da cidade. Escutava o mesmo som, sentia o mesmo cheiro, tinha as mesmas conversas, traçava o mesmo caminho. A única coisa que sinto falta é do riso e das pessoas que, apesar de serem as mesmas, ainda aqueciam meu coração de formas diferentes. No final só sobrou o tédio e os sonhos foram engavetados.

Talvez um lugar maior seria mais adequado, um laboratório maior, uma empresa com mais funcionários, com melhor infraestrutura seria a resposta, afinal poderia testar minhas ideias, adquirir outros conhecimentos. O que não sabia na época era que o mundo era mecanizado.

Quando comecei meu estágio de 6 horas em uma multinacional as inúmeras oportunidades me cegaram complemente. Vidrarias aos montes, equipamentos que jamais testaria em meu curso, ótimos profissionais como colegas de trabalho, um bom salário é claro. É o sonho de qualquer jovem adulto que está iniciando no mercado de trabalho, começar fazendo o que gosta e recebendo pra isso. A estagiária se tornou funcionária e das 6 horas passei a morar na empresa. Café da manhã, almoço, armário com roupas, tinha até escovas de dentes, chegou um ponto de ter toalha e sabonete. Levantar às 5 da manhã já não era animador, as viagens de ônibus com poltronas confortáveis tornaram minha segunda cama. Assim começou a rotina, os horários, as atividades repetitivas. Mudei de laboratórios algumas vezes, o que era reconfortante por um tempo, mas ainda era o mesmo lugar, com o mesmo “bom dia”, com a mesma energia, mesmas reclamações. Depois de 365 dias no “mesmo”, o questionamento sobre o dinheiro surge. Sinto saudades das pessoas, dos chefes, da comida, até do som insuportável da Itatiaia no ônibus nas viagens de volta que o motorista insistia em ouvir. A questão é que fiquei por dinheiro e não por prazer, e talvez seja exatamente isso que me consumiu no final.

Jogar tudo para o alto não foi fácil e nem todos do meu convívio me apoiaram. Gostando ou não, deixei a Química de lado e fui me aventurar no Jornalismo. Desenvolvi projetos que mexeram comigo, histórias de vidas me tocaram e comecei a investir nos meus textos. Descobri uma paixão enorme por escrever. Fazer do urbano, do cotidiano das pessoas, meu material de estudo é fantástico. Valorizar as singularidades das coisas me fascina. Descrever lugares, momentos, sentimentos e até pessoas é o que sinto prazer.

Tudo começa a desmoronar quando gosto de realizar determinada atividade. As oportunidades surgem e sem pensar duas vezes agarro com unhas e dentes. Devo confessar que é recompensador quando alguém acredita em seu potencial e investe dinheiro nisso, o sentimento de gratidão é o que me define nessa hora.

Deveria ser ótimo, afinal alguém já sussurrava no ensino médio que o ideal é unir o que você gosta e o que te dá lucro. O problema é que se tem dinheiro a minha liberdade é limitada em temas, caracteres, gosto, plataformas, tempo, lugares, pessoas e por dinheiro. Assim como na época do técnico, quero o novo, quero a liberdade da descoberta e é isso o que me faz gostar de algo, a sensação individual de colocar um pouco de mim ali.

Seria muita ingenuidade acreditar que dá para levar a vida da criatividade e dos desejos em um sistema capitalista. Com isso o meu prazer em escrever já está arrumando as malas para comprar cigarro e os sonhos gritam de medo da gaveta. Não dá pra fechar os olhos e fingir que o mundo das maravilhas está aqui e agora. A vida tem algumas formas dolorosas de te ensinar que nem sempre vamos fazer o que queremos ou gostamos. A máquina das dívidas comem sonhos e as pressões em ser alguém na vida os desejos. As contas não se pagam com gostos, mas com liberdade.

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Por Auspicioso Acapela – Coletivo Contramão HUB

a segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer

A rotina dela é normal, como a de qualquer pessoa, muitas tarefas durante o dia e ao chegar em casa, a noite, descansa a cabeça e se prepara para o dia seguinte. Isso não tem nada de absurdo, todos falam que é a vida. Para ela, esse mecanismo, sim, mecanismo porque estamos nos tornando máquinas, é existir.

 Mesmo como máquina, em algum lugar da essência dela, ela gostaria de chacoalhar tudo, desorganizar cada cantinho do seu ser e viver uma aventura. Em uma noite, com a insônia presente, ligou a TV e estava passando “Peter Pan”, história de um garoto que vivia na Terra do Nunca e não queria crescer. Ao final do filme, ela olha o céu estrelado e pensa naquele local que a magia e a fantasia criam forma. Talvez esse seja o segredo, segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer.

Texto Melina Cattoni

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

Salvador,

em alguns dias, nesses que são mais de saudade e de vento, eu penso n’ocê de um jeito devagar, que me faz esquecer um pouco a solidão. cê mudou, eu também. e é claro que o amor sofreria todas as nossas consequências, mesmo sem a gente se importar.

o amor me atravessou, Salvador. e embora seja tão difícil acreditar nisso, só aconteceu porque era ocê a me sorrir na outra ponta do tempo. caso contrário, desconfio que passaria por essa brevidade nossa, como quem suspira e espia a vida correr pelas janelas de dentro.

e escreve, pra sobreviver.

eu não teria conhecido um bocado do amor, se cê não tivesse chegado naquele agosto seco e silencioso, pra me tirar pra dançar sobre o tempo. lembro como se fosse hoje: cê usava uma blusa branca, um chapéu marrom, óculos de sol e um jeito vivo de enxergar o mundo, que hoje eu já não vejo mais (nem o mundo, nem n’ocê).

pudesse, deixava tudo que vivi de lá pra cá, toda essa longitude em que me transformei, só pra ter de volta aquele teu coração de começos. a vida sempre possível, os planos de casa lilás com paredes brancas e rede na varanda… toda uma simplicidade, que a gente não vê mais no nosso coração.

Bisa me disse, outro dia, que se tiver de ser, não importa o tanto ou no quê a gente se transformou: o tempo, que a gente não mede em ampulhetas nem em relógios, se encarrega de unir nosso sorriso de novo, numa dessas curvas que a gente tanto faz.

eu gosto de acreditar nisso, principalmente nesses dias em que a saudade carrega o nome teu…

vai ser sempre com amor.
Alice,

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ps.: faltou te dizer que todos os poemas, até aqueles que eu não escrevi, eram procê.

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Por Giovanna Silveira – Métrica Livre – Parceira Contramão HUB

 

Tentar fugir

dos clichês

e dos

porquês

é mais dificil

que se pensa

eu penso

nas ruas

onde eu passo

e nos prédios

que eu espio

penso em tudo

quanto há

de mais banal

de mais blasé

e

trivial

por assimilar

que meus clichês

afinal

pode ser

um

(ul)traje

a rigor.