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Equipe de Reportagem: Alice Berdinazzi e Júnior Silva

Fotos: Moisés Martins

Nas três rodadas da Taça das Favelas, histórias têm sido reveladas. Não é apenas um torneio de futebol. É a chance para muitos “meninos do morro” mostrarem potencial e realizarem o sonho de serem aplaudidos em grandes estádios de futebol. Com a proximidade da final da competição nos dias 28 e 29 de abril, o empenho de meninas e meninos foi redobrado.

Com o propósito de mostrar talento em campo, as equipes masculinas se empenharam nos jogos do domingo (22), que definiram quais disputam as semifinais da Taça das Favelas no sábado (28). Para recepcionar as seleções, os moradores do bairro aqueceram o campo, com a realização de uma ‘pelada’. No futebol sem regras ou juiz, esses competidores descompromissados entraram em campo apenas para se divertir, enquanto não chegavam os “craques” que brigaram pela chance de permanecer no torneio.

Será que diretamente do campeonato serão revelados novos  talentos? Ainda não há resposta, apesar de alguns jovens terem sido identificados pelo olheiro técnico do Cruzeiro Esporte Clube. Contudo, o que é certo é que nova geração de jogadores se forma no campo do Vale do Jatobá.

Muitos craques estão por vir! Samuel Nunes, de 16 anos, jogador do time Vila Pinho, é um desses adolescentes que sonham sacudir as redes, conquistar respeito e fama no time do Cruzeiro. O garoto não é o único que deseja glória no futebol. Victor Silva, de 17 anos, é mais um que almeja ser o próximo Neymar Júnior. O jovem treina semanalmente e procura aprimorar suas habilidades para conquistar seu espaço como profissional.

Naquela manhã de domingo, a primeira partida entre Jardim Leblon e Conjunto Taquaril foi confronto de tirar o fôlego. Os meninos lutaram pela vitória. Entretanto, além da ganhar, ambos dependiam do resultado dos próximos jogos para garantir a classificação. Jardim Leblon levou a vitória por 2 a 0 no Taquaril, mas as duas equipes foram eliminadas.  

Os meninos almejam ser campeões, mas, mais do que a vitória, querem é jogar futebol. A partida entre complexo Minas Caixa e Ventosa prometia fortes emoções, mas a ausência do time de Venda Nova deixou os adversários da Vila Ventosa decepcionados. Com o WO,  garantiram participação na próxima etapa.

Apesar de não se classificar, a despedida do Aglomerado da Serra  foi em grande estilo. Os garotos deram “chocolate’ no Conjunto Granja de Freitas, com 5 a 1 – placar que se repetiu em outras rodadas da taça. Mas a goleada não foi suficiente para que seguissem na competição. Uma boa campanha ao longo do campeonato foi o que permitiu a classificação do Complexo Antena do Borel e Mariano de Abreu. Os times empataram em 0 a 0.

Uma briga de gigantes deu nome aos últimos classificados da Taça. Cabana do Pai Tomás e Complexo São Mateus se enfrentaram e a vitória de 4 a 2 foi para o Cabana. Apesar da derrota o São Mateus continua na briga.

 

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Por Bruna Valentim

A adolescência é comumente a fase mais conturbada da vida de uma pessoa. É quando as inseguranças estão no auge e a curiosidade para descobrir o mundo é enorme. É época do inocente primeiro amor e do primeiro coração partido. Decisões sobre o corte e a cor do cabelo são mais ousadas, e é quando acontece a tão esperada e temida relação sexual. A fase da adolescência é sobre descobrimento pessoal, formação de personalidade e caráter. Nessa caminhada, às vezes um acontecimento pode mudar tudo como ser mãe de primeira viagem.

Ser mãe não é fácil, e quando se é adolescente a tarefa se torna ainda mais difícil. Além de todas as inseguranças usuais da idade, existe também a responsabilidade iminente que a maternidade traz consigo.

 

O susto inicial

Grávida de 6 meses de Arthur, Maria Célia Horta de 18 anos, descobriu a gravidez após realizar um exame de sangue, por incentivo de seu namorado, após apresentar alguns sintomas. Horta conta que está animada para a chegada da criança apesar de já prever certos desafios em seu futuro: “Imagino uma vida repleta de desafios, mas nada que me impeça de alcançar meus objetivos, as coisas que eu almejo, que me farão felizes. Terei muitas responsabilidades, mas já me sinto pronta. Minha gestação está sendo ótima e não vejo a hora do meu filho estar aqui comigo e com meu namorado.”

Franciane de Souza, de 19 anos, por sua vez teve uma reação diferente ao se descobrir grávida, aos 14, de seu namorado de longa data. “Fiquei apavorada porque eu estava prestes a iniciar o primeiro ano do ensino médio, tive muito medo de contar para minha mãe, mas não pensei em abortar em momento nenhum. Os meu pais se assustaram na época, brigaram comigo, mas não me desampararam”.

Ela ainda lembra que teve que mudar completamente de vida em um momento que não gostaria. “Parei de estudar e já tive que me preocupar com ser mãe, ganhei meu bebê com 15 anos, na época quase não saia de casa com vergonha das pessoas na rua, fui obrigada a casar, sem nenhuma experiência de vida e isso não era o que eu queria naquele momento”. Souza voltou a estudar no ano passado, mas apesar de amar o filho ela tinha outros planos para sua vida: “Queria estar fazendo uma faculdade, outras coisas, ser dona de casa não é o que eu queria agora, amo muito meu filho, Victor Miguel, mas queria sim ter curtido mais, foi muita responsabilidade, muito de repente, queria ter saído mais com as minhas amigas. Estou casada porque sou mãe, do contrário estaria solteira sem dúvidas”.

A jovem acredita que teria engravidado caso tivesse tido uma conversa sobre educação sexual em casa, um tabu ainda em muitas famílias. “Com 12 anos namorava um cara de 19, tudo aconteceu do nada, nunca tinha tido uma conversa com a minha mãe ou irmã a respeito de anticoncepcionais, injeções, essas coisas, então eu me prevenia sozinha, como dava, até ter esse descuido que acarretou na minha gestação”, finaliza.

 

A volta por cima

Rosilaine Xavier de 40 anos, engravidou aos 17 anos e enfrentou muitos obstáculos, mas hoje sua trajetória mostra que a gravidez na adolescência, não significa o fim do mundo. Segundo ela, quando engravidou de sua filha, Laryssa ela ficou desesperada, “a pior parte era a reação da minha família, ela não suportava meu namorado, queria que eu escolhesse entre eles e meu relacionamento”.

relata também que durante sua gestação ela passou por um período conturbado, mas que as barreiras que teve que enfrentar a fortaleceram. “No início tudo foi muito tumultuado, o pai da Laryssa teve que ficar ausente por um tempo por esses problemas com a minha família que não estava aceitando bem essa situação, tive que crescer na marra, amadureci na força”.

Apesar da fase complicada, ela recorda que as coisas melhoraram gradativamente “Hoje estou casada com o pai da minha filha, minha família foi cruel no início o afastando de nós, a criei por sete anos sozinha, mas hoje estamos todos bem.  Olho para trás e vejo quão bom Deus foi para conosco. Cuidou de nós e hoje, quando olho para a Laryssa vejo como minha filha é linda e de um caráter extraordinário. ”

Questionada se tem algum conselho para as jovens mães da geração Rosilane explica que tudo na vida tem uma consequência, mas que é importante ter força para superar as adversidades da vida. “Estejam firmes para as lutas diárias; a luta interna com nós mesmas e externa; a sociedade é cruel e preconceituosa, mas que no final tudo se encaixa.”, concluí.

Laryssa Xavier, 20, filha de Rosilaine, compara sua relação com a mãe com a relação de Rory e Lorelai, protagonistas da extinta série Gilmore Girls, que retrata a vida de uma jovem mãe solteira e sua filha adolescente. “Sempre assistíamos a série juntas e nos identificamos com a vida das personagens”. De acordo com a jovem, ela sempre teve uma relação próxima a mãe. “Quando eu era mais nova achava divertido o espanto das pessoas ao dizer a idade da minha mãe. Hoje, vejo que é normal, a idade não muda quase nada. Somos mais amigas, talvez pela proximidade de idade conseguimos ser mais abertas uma com a outra.”

 

Laryssa afirma ser a maior admiradora de sua mãe e apesar de traçar uma trajetória diferente se orgulha da mulher que a criou: “Eu sempre falo isso com minha mãe, mas não custa repetir: sou quem sou hoje por causa dela. E apesar de não querer repetir muitas das coisas que aconteceram com ela, todos os dias me inspiro em sua força para levantar da cama e conquistar minhas coisas. Sou grata por ela nunca ter desistido de mim e ter me ensinado que mesmo sozinha, sou capaz de enfrentar qualquer obstáculo. Ela me mostrou a força que nós mulheres temos e eu vou carregar esse ensinamento para sempre.” declara a estudante.

 

Prevenção é importante

Segundo um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado recentemente no Brasil, 68,4% a cada mil adolescentes brasileiras com idade entre 15 e 19 anos  ficaram grávidas e tiveram seus bebês.

 

A mortalidade materna é uma das principais causas da morte entre adolescentes e jovens de 15 a 24 anos na região das Américas. Mundialmente o risco de morte dobra entre mães com menos de 15 anos em países de baixa e média renda. As mortes perinatais são 50% mais altas entre recém-nascidos de mães com menos de 20 anos na comparação com recém-nascidos de mães entre 20 e 29 anos, disse o relatório publicado por Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

A clínica geral, Neuzilene Maurício, explica que as jovens gestantes precisam de um cuidado redobrado no pré-natal para que tenham uma gestação e bebê saudáveis: “As gestantes adolescentes apresentam risco maior de complicação na gestação como, por exemplo, pré-eclâmpsia e eclampsia. Para essas adolescentes é indicado acompanhamento em serviço de pré-natal de alto risco, em cidades onde há centros de referência para esse acompanhamento!”. Ela ainda reforça que as equipes dos centros de saúde devem ficar atentas a rotina dessas pacientes. “Nesses casos temos que prestar atenção ainda a adesão no seguimento pré-natal, pois é muito comum elas não comparecerem a todas as consultas, realizarem os exames de rotina, então a equipe deve ficar atenta e realizar a busca ativa destas pacientes quando há baixa adesão”, explica a médica.

 

 

 

 

Estatuetas customizadas em tamanho real de um bebê elefante, encontram-se espalhadas pela cidade.
Por Moíses Martins

Uma das maiores exposições de Arte Pública do Mundo, Elephant Parade, desembarcou recentemente na capital mineira. O projeto começou em 2006, com inspiração em Mosha, um bebê elefante de 7 meses que teve uma de suas patas dianteiras amputadas depois que pisou em uma mina terrestre, próximo à fronteira entre Tailândia e Mianmar. A Elephant Parade foi a forma encontrada para buscar recursos para cuidar da elefanta Mosha, comprar sua prótese anualmente (uma vez que o tamanho da prótese muda conforme ela cresce), além de ajudar todos os outros elefantes asiáticos que sofrem com as minas terrestres e com os maus tratos praticados por caçadores em busca de Marfim (material arrancado das presas dos elefantes).

Querubins | Foto Moisés Martins

Ao final de cada exposição, as estátuas de elefantes são leiloados e parte da quantia arrecadada é destinada à filantropia local, a projetos de preservação dos elefantes e aos artistas participantes.

O maior valor pago por uma estátua da Elephant Parade em um leilão foi de £155,000 o que equivale aproximadamente R$ 724.555. A estátua foi criada pelo artista Jack Vettriano, em 2010, na Elephant Parade London.

O ateliê de pintura oficial, bem como a exposição dos elefantes, está acontecendo no Shopping Pátio Savassi, onde ficará exposta até o dia 15 de maio. Outras peças também estão expostas em áreas livres da cidade, como Praça da Liberdade e Praça da Savassi.

 

 

Imagem: Reprodução/Google

Por Bruna Valentim

No dia 25 de março foi celebrado o Dia Nacional do Orgulho Gay. A data foi criada para propagar a valorização das causas LGBT e reforçar que independente da orientação sexual todos devem se orgulhar de ser quem são. Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros lutam há anos por igualdade.
O Jornal Contramão resolveu conversar com quatro moradores da capital mineira e representantes da sigla LGBT para saber o que esse dia significa para casa um deles. Emanuelle, João Vítor, Gabriela e Helena não se conhecem, mas são jovens que mesmo com vivências, personalidades e gostos diferentes, lutam por um mesmo ideal que é a liberdade, uma vida segura e direitos iguais.

Engajada e defensora ferrenha das minorias, a fotógrafa e estudante de Publicidade, Emanuelle Romão de 23, tem riso fácil é extrovertida, extremamente dedicada e tem um relacionamento com outra garota e faz questão de evidenciar esse amor com fotos e textos apaixonados postados nas redes sociais. Segundo Manu, como ela gosta de ser chamada, nem sempre as coisas foram fáceis e expostas assim. “Desde pequena eu sabia que era diferente do que a sociedade me dizia que era normal, mas tive certeza quando percebi que me forçava a gostar de homens e me via triste com isso”, conta a jovem que destaca momentos de tristeza vividos: “Tive um período onde fiquei deprimida e doente. Me assumi há 5 anos e meus amigos são compreensivos, mas no início minha família não lidou muito bem, cheguei até a ser expulsa de casa”, relembra.

De acordo com Manu, foi um longo processo. “Hoje convivemos melhor, não chega a ser uma relação que tínhamos antes, mas estamos em harmonia. O que importa é que hoje me sinto livre internamente”. Para ela, o Dia do Orgulho Gay representa resistência. “É sobre não abaixar a cabeça. É para lembrar que mesmo com todo o preconceito e as dificuldades que enfrentamos continuamos juntos. Eu sinto orgulho de ver isso crescer, de ver pessoas como eu cada dia mais se assumindo mais por aí”, finaliza.

Diferente de Manu, João Vitor da Silva, 20 anos, ainda não conseguiu se abrir com a família. “Minha família ainda não sabe. Eu nunca senti a necessidade de afirmar isso ou aquilo em relação minha orientação sexual em casa, até porque não isso não vai interferir de maneira nenhuma em quem eu sou com eles, na nossa relação por minha parte. Com os meus amigos é diferente, todo mundo sabe lidar com isso e eu me sinto completamente confortável perto deles”. Para Silva, quando o assunto é preconceito ele destaca para evolução das coisas, mas frisa que ainda não é o suficiente. “Estamos sendo mais vistos, mas poucos aceitam de verdade. O Dia do Orgulho Gay é importante por ser um momento de liberdade, de ser quem você deve ser sempre, mas não consegue pela retaliação da sociedade. É um momento nosso, alegre e cheio de cores. É um momento que conquistamos pelo que lutamos todos os dias que é emprego, aceitação, é uma folga dos problemas, uma data de libertação”.


Gabriela Neto por sua vez, tem 21 anos, é estudante de publicidade, usuária assídua do twitter, e atualmente  tem uma namorada,embora não se rotule lésbica. Bissexual assumida, apesar da pouca visibilidade que as pessoas bissexuais têm na mídia, Neto diz que foi a internet e a televisão que a ajudaram a superar o medo de se assumir “Na época que me assumi, 4 anos atrás, uma coisa que me ajudou foram vídeos de pessoas no Youtube que eram parecidas comigo, coisa que eu não tinha muito contato na vida real. Também assistia Supergirl, série em que existe uma personagem lgbt, então durante o meu processo de descobrimento me ver retratada na mídia fez com que eu me sentisse melhor comigo mesma”  A jovem acredita que o dia do orgulho gay é importante pois é um momento de renovação de esperanças “Só nós sabemos o que é viver nesse mundo sendo uma pessoa
LGBT. Ver o movimento tomando a proporção que tem tomado ultimamente pelo mundo é algo realmente feliz. E eu digo feliz em caixa alta. Me sinto esperançosa, especial. Estamos no início dessa luta mas as coisas têm melhorado, está sendo devagar mas estamos chegando lá” acredita.


Helena Bonassi tem 25 anos, estuda arquitetura em uma universidade particular e é estagiária na área. A jovem que tem o hábito de se encontrar com as amigas para tomar o chá da tarde concorda com as opiniões acima. A estudante sabe que embora tenha crescido em meio a certos privilégios sociais nem tudo são flores quando uma pessoa tem coragem de assumir transexual  “Eu passei a maior parte da vida como um homem gay que costumava se montar de drag queen e aparentemente tudo estava indo bem. No fundo eu sempre soube que poderia ser trans, embora tenha colocado barreiras nessa possibilidade por medo das dificuldades que eu enfrento hoje.” Ela garante que o apoio que vêm recebendo de uma amiga próxima é fundamental para enfrentar os tempos difíceis “ Tem uma pessoa que gosto muito que se assumiu trans antes de mim e que já me enxergava de verdade, então aos poucos ela foi me ajudando a ter autoaceitação. A vi tendo a coragem que eu não tinha e comecei a ver que a vida de uma trans pode ser bem diferente da figura estereotipada de travesti, ela estava feliz, então aquilo me encorajou muito. Estou passando por um período complicado onde a dinâmica familiar está muito conturbada pelo fato de eu ter tomado essa decisão, mas se não fosse por ela eu ainda seria uma trans vivendo a vida de um gay frustrado.” 

“Ter um dia celebrando o orgulho gay mostra que isso é fruto de uma reação em massa da nova geração, estamos conquistando respeito através da resistência, mostra uma liberdade em todos os sentidos jamais vista antes.
As cenas de preconceito existem porque nós temos resistido, existido, temos tomado nosso lugar e não vamos voltar atrás” diz Bonassi sobre a data .

No último domingo, dia 25, as redes sociais foram tomadas por mensagens de apoio a causa e celebrações já conquistadas pelos LGBTs como o direito
ao casamento civil e a adoção de crianças, mas também foi um dia para relembrar pessoas que morreram vítimas de crimes homofóbicos. No resto do mundo o dia orgulho gay é comemorado em 28 de junho anualmente.

Imagem: Reprodução

Por Bruna Valentim

Marielle Francisco da Silva aos 36 anos foi a quinta vereadora mais votada na cidade do Rio de Janeiro na última eleição e tinha alcançado um lugar de fala onde era referência para milhares de mulheres com as mesmas lutas, vivências e ideais. Marielle era mulher negra, bissexual e periférica se fazendo presente em locais comumente negados a seus semelhantes. Se formou em sociologia pela PUC-RIO e defendia as minorias, os direitos humanos e não temia falar o que pensava ou lutar por justiça. Tinha fé em um mundo melhor e foco para fazer acontecer, em pouco mais de um ano integrando a câmara dos vereadores apresentou mais de 20 projetos de leis, que tinha como foco alcançar melhorias para as minorias supracitadas, e teve dois aprovados.

Na última quarta-feira, dia 14, porém, a vereadora teve sua vida interrompida de forma cruel ao ser alvejada com diversos tiros enquanto voltava para a casa, após sua participação no debate “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, organizado pelo seu partido PSOL, realizado no espaço Casa das Pretas no bairro da Lapa na capital do Rio de Janeiro. No momento de seu assassinato, a vereadora estava acompanhada de seu motorista, Anderson Pedro Gomes de 39 anos e sua assessora, a única sobrevivente do ataque.

Enquanto Franco era alvo, Gomes, seu motorista, foi vítima do acaso. O condutor do veículo estava em sua última semana como funcionário de Marielle, com quem vinha trabalhando nos últimos dois meses cobrindo a licença de um amigo. Em breve Anderson iria começar um período de teste para mecânico de uma empresa de aviação e demonstrava empolgação pela nova carreira que almejava trilhar. Gomes acabou sendo atingido por 3 balas e não resistiu aos ferimentos, deixando assim a esposa Agatha e um filho, o pequeno Artur.

 Nos últimos dias a internet também tem sido tomada por homenagens a Marielle. Personalidades como Bruno Gagliasso e MV BILL, passando pelo colega de partido e amigo íntimo da vereadora, Marcelo Freixo, chegando a cantora americana Lauren Jauregui e a top model britânica Naomi Campbell, milhares de pessoas tem prestado suas condolências diante do ato de barbárie que vitimou Marielle e Anderson. No último domingo, em passagem pelo Brasil com a turnê “Witness” a cantora americana Katy Perry chamou ao palco a família de Marielle prestando uma emocionada homenagem a socióloga após cantar Unconditionally.

No exterior, países como Estados Unidos, Argentina, Inglaterra, Colômbia, Portugal e França ao também tiveram atos Convocados pelas comunidades brasileiras que moram no exterior, movimento negro e organizações de mulheres.

Por aqui, a indignação, a raiva, a tristeza e o luto fizeram milhares de brasileiros irem às ruas nos últimos dias pedindo justiça para Marielle, Anderson e tantas outras vidas tiradas sem o menor pudor e de maneira tão cruel. O povo clama por justiça com um desespero agudo, uma urgência de paz, uma sede por melhorias. As causas por qual Franco tanto lutava, hoje lutam bravamente por ela. Quem quer que esteja por trás de sua morte pode ter tido o objetivo de silencia-la, mas o senso de justiça do Brasil tem gritado cada vez mais alto desde o último dia 15. O país tem feito coro ao dizer que vidas negras importam e o legado de Marielle ainda vive.

Em Belo Horizonte, ocorreu na última quinta-feira na Praça da Estação, em Belo Horizonte, um ato contra o genocídio negro e em homenagem a Marielle e Anderson. O protesto contava com artistas, ativistas, estudantes e pessoas dos mais diversos movimentos sociais. Os servidores estaduais da Educação Integrantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) também participavam da mobilização.

Durante o ato que durou aproximadamente quatro horas pessoas de múltiplos grupos sociais fizeram discursos nos microfones com palavras de luto, pesar e resistência.  A estudante de jornalismo Laura Gomes de 19 anos, se emocionou ao ouvir declarações emocionadas das pessoas presentes “Foi como se fosse uma parte minha tivesse ido embora com ela. Com a morte dela eu senti medo, perdi alguém que era como eu e que tinha voz, que falava por mim, que me representava. Tenho sentido medo, repressão. Chorei aqui porque apesar de todos os sentimentos ruins eu senti que não estava sozinha. Eu sei que se eu cair vai ter uma irmã me ajudando a levantar. Hoje eu percebi que sentir medo vai ajudar na nossa vontade de lutar”.

A atriz Elisa Lucinda, que está em Belo Horizonte com o espetáculo L, abandonou os ensaios de sua peça para prestar uma homenagem a amiga de longa data Marielle “Vim prestar a minha homenagem a luta que era dela e que agora é nossa. Acredito que a união da esquerda é a nossa única possibilidade, que é no coletivo que a gente vai fazer a mudança no Brasil. Hoje eu estou em choque, estou de luto, estou com medo, mas por outro lado vemos o que essa moça tão jovem já fez, o impacto que a morte dela causou, essa manifestação mostra o quanto ela nos representava e isso não tem como ninguém destruir.” Questionada se acha que agora haverá um outro olhar das autoridades no Brasil para a questão do genocídio do povo negro, ela é sucinta “Bom, eu acho que agora não dá mais para disfarçar, o mundo inteiro, sabe que a gente mata negro. A todo momento minha esperança é posta à prova, mas eu sou danada, eu tenho muita reserva de esperança e acredito que a gente pode virar esse jogo”.

    Aos 71 anos, a pediatra aposentada, Mirtes Beirão também compareceu ao ato e relatou que não tinha como deixar de estar presente “Antigamente eu nunca poderia imaginar que hoje eu estaria aqui presente para lutar por causas como essa, mas é necessário. Estive nas ruas na época da ditadura e embora os motivos sejam diferentes eu sinto que preciso estar aqui. Marielle representava várias coisas que acredito e é por ela e pelo jovem negro, pelo pobre, que vamos continuar”.

O ato que teve início na Praça da Estação seguiu em passeata de forma pacífica e com a supervisão da polícia militar até a Praça Sete com cartazes, rostos pintados muita emoção e clamores. Em dado momento o bloco musical Maracatu deu início a um canto logo interrompido com protestos dos populares presentes afirmando que o movimento não era bloco de carnaval. Aproximadamente às 20:30 horas o trânsito na região já havia sido liberado pela BH trans.

Na próxima quarta-feira, dia 21/03, um novo movimento está sendo organizado por diversos coletivos sociais de Belo Horizonte, o Ato Preto: Nossa Luta Ninguém (a)tira!, novamente contará com o povo na ruas pedindo por dignidade, pelo direito à cidade, pela população negra. O evento acontecerá na Praça Sete de Setembro no centro de Belo Horizonte. A data escolhida é o dia internacional na luta contra discriminação racial, causa que Marielle tanto lutava.

Afinal o que temos visto após a morte de Marielle é uma comoção pouco vista por aqui. Podemos chamar de reciprocidade, podemos chamar de retorno. Ela moveu montanhas, quebrou paradigmas e sempre fez muito por aqueles que atravessaram seu caminho. Em resumo, a solidariedade que vêm recebendo nada mais é do que o amor que ela tinha pelo próximo voltando para ela. Marielle se foi deixando uma esposa, uma filha, muitos sonhos, mas seu legado se manterá presente, hoje e sempre.

  ATENÇÃO

Acusações questionando a integridade da vereadora estão sendo constantemente propagadas na última semana em diversas redes sociais. Como veículo de informação, o Jornal Contramão se sente no direito de informar que publicar e compartilhar conteúdos contendo inverdades e informações sem precedências legitimadas constitui em crime contra a honra de Franco. Dizer que a vereadora “foi eleita pelo Comando Vermelho” é imputação de fato falso e criminoso. O art. 138, #2o do Código Penal tipifica a calúnia contra os mortos. Os familiares podem demandar criminalmente e civilmente. Caberá aos autores das publicações provar o que afirmam. Uma equipe jurídica está a postos rastreando o compartilhamento dessas notícias falsas para tomar medidas jurídicas cabíveis.

 

Imagem: Rúbia Cely

Por Bruna Valentim

Colaboração Daniel Nolasco 

No Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 08 de março, movimentos sociais da capital mineira se reuniram nos entornos da Praça Sete para uma passeata em prol dos direitos humanos e melhorias sociais. Com camisetas com dizeres feministas, caras pintadas, cartazes e panfletos mulheres de diversas partes da cidade e do estado, de diferentes idades e classes sociais se uniram com o objetivo de celebrar o que é ser mulher.

 

A “Marcha das Mulheres”, teve início na Praça da Assembleia, no bairro Santo Agostinho, na Região Centro-Sul da capital, e seguiu até a Praça Sete. O protesto reuniu os grupos como, o Movimento dos Atingidos por Barragem, Tranvest, Funcionárias Públicas, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Linhas do Horizonte.

 

Por volta das 15 horas, duas jovens se aproximaram da nossa equipe entregando panfletos do Movimento Popular da Mulher (MPM) e da União Brasileira de Mulheres (UBM) com dizeres onde falava sobre os problemas enfrentados por mulheres no dia a dia, mas também continha dizeres otimistas ao ressaltar as conquistas alcançadas nos últimos tempos. Entre as manifestantes estava Julie Deathreage, de 19 anos, que prefere não se classificar em uma vertente radical ou liberal, prefere acreditar em uma luta conjunta por equidade “Acho que neste momento a visão do outro sobre a minha luta pode ser muito variável, dependendo do lugar em que a pessoa se encontra socialmente e politicamente”.

A estudante conta que a veia ativista vem de berço, traço que herdou da mãe solteira e feminista. Deathreage lembra que foi aos 15 anos que começou a levantar bandeiras e participar ativamente da causa. “Desde das eleições de 2014, me vejo dentro do movimento, foi quando conheci entidades feministas e tive consciência do lugar da mulher no nosso país, que é um lugar de pouca voz, pouca representatividade, principalmente dentro da política. Em 2016 me filiei à União Brasileira de Mulheres e conheci mulheres de variados estados, classes econômicas, diferentes idades e de diferentes papéis na sociedade. Me encontrei dentro da UBM, que é uma entidade que luta pela emancipação feminina desde 1988. Encontrei voz, apoio e histórias de mulheres incríveis.” compartilha.

Ceuza Matos Marques, é ex-professora de biologia da rede pública, tem 80 anos, mas protesta ao ser chamada de senhora. Feminista ferrenha é se diz a favor de toda e qualquer minoria. Ela conta que frequentemente vai às ruas em prol do direito do trabalhador, da democracia, do direito do cidadão. É extremamente clara em relação seu posicionamento político, é defensora fervorosa do partido trabalhista, e faz e ensina bordados com dizeres em apoio a ao PT, Lula e atende a qualquer pedido dos clientes que estejam de acordo com seus ideais. Quando perguntada sobre o que a tornou feminista, ela sorri e diz que começou pensando na influência que a religião exercia sobre as mulheres enquanto era jovem “Me perguntei, o que é pecado? É usar uma roupa de banho de duas peças? É usar uma calça? Não, pecado é fazer mal aos outros é trair, é roubar, é enganar o outro. Não me denominava feminista, mas não achava que homem era melhor, eu sempre fui contra esse meio de pensamento, quando mulheres andam a cavalo de sainha sem abrir as pernas, sentadas de lado, eu montava de calça jeans. Minha filha sempre disse que eu fui revolucionária. A gente vai se descobrindo na luta, vivendo, sou pelas mulheres como sou pela liberdade religiosa, como sou pelo negro.”, explica.

Ao ver mais mulheres se aproximando, a aposentada falou com brilho nos olhos sobre a importância de eventos como aquele “A importância da manifestação é que na rua a gente ouve as pessoas, é uma forma de reagir, de resistir. A gente aprende política nesses locais, sim, nós temos o parlamento, os políticos, os vereadores, os deputados, mas é diferente, nas ruas a gente se fortalece”, Finaliza.

Enquanto conversávamos com Ceuza, um rapaz que ouvia atentamente os relatos da aposentada se aproximou. Alexandre Israel, vulgo Alex, como gosta de ser chamado, tem 35 anos, trabalha com obras de acabamento e está sempre presente no meio do movimento feminista, prática que herdou da mãe já falecida. “Há 15 anos o movimento não estava como está hoje e ela sempre se impôs, não levantava uma bandeira, mas ela me ensinou o certo no cotidiano, no dia a dia, quando dialogava com outras mulheres que eram oprimidas no lar.  Foi uma coisa para mim que veio de casa. Hoje meu ciclo de amizade é basicamente formado por mulheres e homossexuais então fui entendendo cada vez mais as minorias. Acredito que a cultura é machista, antigamente eu mesmo já fiz comentários sem perceber, então meus amigos foram me mostrando certas coisas erradas, por exemplo em uma batalha de rap disse para ofender outro competidor que ele tava rimava como uma ‘mulherzinha’ e uma amiga chegou pra mim e disse ‘isso é ruim por que? Mulher não sabe rimar? Isso tá errado’ e bateu um clique em mim, então nessas pequenas coisas do cotidiano, fui fazendo essas reflexões. Percebo também que muitas vezes homens não dão ouvido as mulheres e quando eu faço o mesmo discurso de uma mulher eles ouvem”.

A ex-prefeita de Contagem, Marília Campos, também esteve presente no protesto e fez um sincero discurso contra o assédio e a opressão em meio a aplausos das mulheres presentes, mostrando que a união faz a força. Mulheres de diferentes vertentes do feminismo, como o feminismo negro e o liberal também estiveram presente na marcha e também fizeram declarações, mas ao mesmo tempo motivadoras nos megafones. Temas como Mulheres no Poder, Violência Sexual, Feminicídio e Violência Obstétrica também estiveram em pauta durante a passeata.