Charme Inglês

Charme Inglês

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Por Bianca Rolff – Gauche – Parceira Contramão HUB

Eram aproximadamente cinco horas de uma tarde enfadonha, na qual tudo o que ela havia feito era tentar recuperar o irrecuperável. Eram consideráveis os volumes de romances que recebia cujos conteúdos ela não entendia como passavam pela triagem de seus superiores na editora, mas aquele em específico estava além de qualquer adjetivo negativo.
Uma história vazia, cheia de clichês mal utilizados e muito, muito sexo. Uma combinação bombástica e completamente estapafúrdia, mas ela nada podia fazer depois que o contrato já havia sido assinado entre o “escritor” e a editora.
Aliás, havia algo que ela podia fazer. Morrer antes que houvesse a publicação, constando seu nome como revisora. Talvez até mesmo nos agradecimentos feitos pelo autor, olha que honra. Sim, ela queria morrer.
Tomou mais um gole do chá de erva doce e suspirou, estalando o pescoço. Levou as mãos à nuca,  de onde geralmente puxava alguns fios de cabelo, mas se lembrou que não havia mais cabelos para puxar. Direcionou os olhos para o espelho e viu a imagem de uma jovem magra, com olheiras e os cabelos raspados como os de quem inicia quimioterapia.
Ela realmente parecia que ia morrer.
Largou o laptop sobre a cama e foi até a janela. Fazia um frio cortante, mas ela vestia apenas uma blusa fina de algodão. Eram tão poucos os dias de frio no ano que ela se recusava a vestir casacos e cachecóis em casa. Gostava da sensação de ver o corpo se arrepiar, a ponto de a coluna doer. Deixou o vento frio balançar as cortinas e atingi-la com força. Todo o seu corpo estremeceu e ela sorriu pela primeira vez naquele dia tão entediante.
Permaneceu ali, sorrindo de olhos fechados por mais alguns instantes, até que num movimento abrupto, fechou a janela e se voltou para o interior do quarto. No exato momento em que ele chegava.
Davi.
– Ou você aprendeu a entrar sem fazer absolutamente nenhum tipo de barulho na tranca da porta, ou eu suponho ter deixado, por relapso, a porta aberta. Diga que foi a primeira opção…?
– A segunda. Eu não conseguiria abrir aquele cadeado sem que você percebesse. Nunca.
Ele se aproximou e lhe deu um beijo gelado no nariz, fazendo-a espirrar. Davi colocou o casaco metodicamente na maçaneta da porta e se sentou sobre a cama, olhando para o laptop.
– Pelo jeito, você recebeu um exemplar e tanto, dessa vez – ele falou, sorrindo de lado.
Não era apenas o nome que tinham em comum, mas Davi era incrível e absurdamente parecido com o seu homônimo camaleão do rock. Isso era o que havia feito com que ela o olhasse pela primeira vez, mas não com olhos de admiração. Ela odiava Bowie. Mas adorava Davi com todas as suas parcas forças, após uma tarde de trabalho inútil.
– Vai ser publicado de todo jeito, com ou sem a minha revisão – disse ela, sentando-se ao lado dele e pegando o laptop de volta – É daquele garoto que venceu o programa da tv. O “príncipe da MPB”, como andam dizendo. Ele devia continuar cantando, ou seja lá o que ele faz. Qualquer coisa é melhor do que isso.
– Está com fome? Aposto que não comeu nada o dia inteiro. Você não pode viver de chá de erva doce.
– Não estou vivendo de chá – ela mentiu, sabendo que ele não acreditaria nela – Mas pode pedir uma comida chinesa. Com certeza vai animar o meu dia.
O delivery demorou três quartos de hora para chegar, tempo gasto com conversas, palpites de Davi sobre a obra inédita (ela devia continuar assim, será que ninguém percebia isso?!) e algumas trocas de carícias delicadas. Quando finalmente chegou, ambos devoraram os pedidos e depois se deixaram cair sobre o tapete da sala, ignorando as sobras de comida que se prendiam a ele.
Os olhos dela ardiam e sua coluna doía mais do que nunca.
Virando-se para o lado, ela encarou o perfil de Davi, que agora estava de olhos fechados. Ele era a reencarnação do Bowie, não havia outra explicação, apesar de eles terem estado concomitantemente vivos na terra durante vários anos, o que dificultava um pouco a teoria espírita. Talvez ele fosse um filho bastardo do artista, porque não? Ela ainda investigaria sobre isso.
Davi abriu os olhos e a encarou. Seus olhos eram ternos e cheios de alguma coisa que ela não conseguia decifrar, mas achava que era amor.
– Vou te deixar sozinha – ele disse, levantando-se lentamente, com um charme inglês que até ela precisava admitir ser considerável – A gente se vê amanhã? Isto é, se você não morrer antes, por causa dessa nova “tragédia”.
– Se eu morrer, faça uma festa. Eu volto pra agradecer.
Ele sorriu aquele sorriso torto de novo e, afagando a nuca dela, despediu-se com um beijo na testa. Quem, em sã consciência e com a aparência de um dos maiores astros da música de todos os tempos, despedir-se-ia de alguém com um beijo na testa?
Ela o amava. Por mais louco que parecesse, ela o amava, sim.
*
A campainha tocou naquela noite, fazendo-a levantar da cama, surpresa. Não esperava que Davi voltasse, ele não costumava mudar de ideia. Quando abriu a porta, viu-a, parada com os olhos esmeralda penetrantes, a encará-la.
– Achei que você pudesse querer companhia.
Sem dizer nada, ela deixou que a jovem entrasse em seu apartamento. Sentou-se no sofá e deixou que ela desabotoasse a sua blusa de algodão e retirasse a sua calcinha. A última imagem que viu antes de fechar os olhos foi aquele par de olhos verdes, um com uma pupila maior que a outra, a observá-la antes de sumir no meio de suas pernas.
E, em sua mente, tocava, incessantemente, “Rebel, Rebel”.

– Bia

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