Crítica | Pantera Negra

Crítica | Pantera Negra

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Por Tiago Jamarino

 

Marco cultural dos filmes de super-heróis, Pantera Negra é emocionante, com cores deslumbrantes e sai do básico entregando linda mensagem!

 

Pantera Negra por si só, já é um marco cultural, tratasse do primeiro herói negro das histórias em quadrinhos. A estreia do herói é como coadjuvante em 1963, na (52.º) edição da revista da primeira família da Marvel, O Quarteto Fantástico. Soberano de um reino africano tecnologicamente chamada Wakanda e futuramente se tornando membro dos Vingadores. A Marvel desde seus primórdios já entendia sobre a necessidade de expressar sua diversidade cultural, mais que isso, sempre passando a necessidade sócia cultural de sua época.Pantera Negra veio para representar os movimentos que seguiam em sua época, nada mais justo que esta nova fase do Universo Cinematográfico Marvel desse a largada para esta representatividade. O filme é o mais diferente até agora do MCU, mas não nega suas raízes, mesmo não seguindo totalmente a fórmula, que em seu amago ainda tem muito dessa estrutura de um filme de ação. O que torna o filme do rei de Wakanda único é, a forte mensagem que o filme se preocupa em passar e por ter personagens extremamente carismáticos.

“Pantera Negra” acompanha T’Challa que, após os eventos de “Capitão América: Guerra Civil”, volta para casa para a isolada e tecnologicamente desenvolvida nação africana de Wakanda, para assumir seu lugar como Rei. Entretanto, quando um velho inimigo reaparece no radar, a fibra de T’Challa como Rei e Pantera Negra é testada quando ele é levado a um conflito que coloca o destino de Wakanda e do mundo todo em risco.

O 18.º filme do Marvel Studios novamente seria uma história de origem, mas como fazer uma história de origem sem seguir a receita de bolo usada em Homem de Ferro, Homem-Formiga e Doutor Estranho. A empresa das Maravilhas decidiu sair fora da caixinha começando a entregar gêneros diferentes, mesmo que em sua essência exista sua fórmula. Não é justo salientar que todos os seus filmes seguem a mesma premissa, temos um filme semelhante a franquia Bourne (Capitão America — Soldado Invernal), uma comédia espacial com Guardiões da Galáxia, mas para satisfação geral da nação, Pantera Negra navega em direção a novas terras. Deixando bem claro que o filme também contém a essência da fórmula, é um filme de ação, de efeitos especiais abundantes, mas  ao contrário de seus antecessores, Pantera Negra que ir além, entregando uma  ótima mensagem, principalmente falar sobre algo mais. Podemos ver muito mais da nossa cultura atual, sobre jogo de poder, intriga política e principalmente sobre ideologia.

A direção é do Ryan Coogler, dos ótimos, Fruitvale Station: A Última Parada (2013) e Creed: Nascido para Lutar (2015). É um diretor que já se provou no circuito, com belos dramas e com lutas corporais bem coreografadas, em Pantera Negra, vemos toda essa plasticidade para suas cenas de ações e porrodaria. A ação apresentada no filme é sensacional, mesmo que em algum ponto o CGI fica evidente, somos prestigiados com belas cenas, começando pela cena do cassino, nela, Coogler utiliza de um plano-sequência magistral. O diretor mostra uma plasticidade para filmar e transitar com sua câmera sempre em linha reta, é uma direção muito segura. De cenas de ação, como da cocheira, que é a briga pelo trono de Wakanda, com um planos aberto e fechado, ambos dinâmicos, para situar a luta entre os dois guerreiros outrora mostrar a nação observando o duelo.

A criação de mundos é simplesmente maravilhosa, é digna das aventuras espaciais da Marvel e todo poderio visual visto em Thor: Ragnarok. A começar por Wakanda, a cidade tecnológica, futurísticas e de cores sensacionais, não é a mais bela do MCU, mas tem um bom lugar de destaque. A fotografia é da vencedora do Oscar e bastante premiada Rachel Morrison, é o maior acerto que o filmes poderia ter, pois, temos algumas locações com destaques aqui, onde as paletas de cores dão mais um show visual, as cores quentes de Wakanda, com seu colorido e suas planícies africanas, as fortes cores da Coreia e principalmente o dourado luxuoso do Cassino. O CGI, tem seu peso corriqueiro em filmes dessa magnitude, em muitos momentos ele pesa, mas não estraga a diversão. O figurino também tem seu lugar ao sol, o preto com o roxo do Panteraexerce um contraste maravilhoso onde ele passa, assim como o visual do povo de Wakanda, misturando o colorido de roupas tribais africanas e com adereços tecnológicos. A trilha sonora composta pelo Ludwig Goransson e consultoria do Kendrick Lamar, também é um ponto alto, com uma enxurrada de hip-hop que em algumas cenas se tornam épicas.

O roteiro também escrito por Coogler e parceria com Joe Robert Cole, merece destaque, existe profundidade e uma necessidade de entregar algo a mais do que só a famigerada ação. As “piadinhas”, que são costumeiras em filmes da Marvel, não são totalmente utilizadas e nem escambadas  como vistas na última empreitada do filme do Thor, temos alivio cômico, mas o que é o interesse aqui é a trama política e o dilema vivido por esse povo. O interessante do roteiro em destacar a jornada de T’Chala para liderar seu povo, encontrando um opositor, o texto de Coogler e Cole não mostra absurdamente pontos de vista do bem e do mal, quem está certo aqui fica a critério do desenrolar da história. O rei T’Chala age impulsivamente e não escapa do julgo e nem suas ações são heroicas demais, ele erra e aprende. A história de contrapontos não poderia se sustentar sem um bom vilão, por mais, que em alguns momentos este vilão fique questionável sua qualidade a uma motivação plausível ali. O grande ponto do roteiro é realmente mostrar como os moradores de uma cidade tecnológica vivem em um certo conforto, enquanto seus vizinhos sofrem com a miséria, é um paralelo interessante com nossa sociedade atual, entre países de primeiro mundo e os chamados subdesenvolvidos.

O elenco dos sonhos é de dar inveja em qualquer produção que se prese, temos muitos talentos e nenhum coadjuvante é descartado pelo roteiro, pelo contrário a trama precisa deles para andar. Chadwick Bosemanfez sua estreia em Guerra Civil, já tivemos um vislumbre do potencial do ator, mas as dúvidas eram se o ator seguraria um filme sozinho, o resultado é, sim. Pelas suas experiências com o Barão Zemo e sua busca de vingança cega, T’Challa é um rei piedoso e convicto, mesmo isso sendo uma fraqueza. O ator tem presença e carisma como monarca, sua jornada para se tornar o rei e o herói é fantástica. Lupita Nyong’o e Danai Guriraestão incríveis, ambas com um bom tempo de tela, como guerreiras entregando cenas de ações fantásticas e dignas de aplausos. Martin Freeman não tem muito a dizer, entregando uma atuação bem regular mediante ao vasto elenco. A Letitia Wright como alivio cômico está muito bem, com um QI aproximadamente igual ao de Tony Stark, ela faz o papel do nerd que entrega todos os apetrechos a seu irmão mais velho T’Challa.

Ao falar dos vilões do filme, devemos reconhecer os devidos problemas enfrentados pela casa das ideias em estabelecer um bom vilão em seu universo cinematográfico. O grande mal da formulinha do gênero é usar vilões como escada para seus heróis, esses vilões são subdesenvolvidos e suas motivações são pífias, dignas de esquecimento total. Vilões da Marvel que conseguiram destaque são justamente da Netflix, Boca de Algodão, Fisk e Killgrave, o que ambos tem em comum é simples, tempo de tela para se desenvolverem e mostrarem ao que vieram. Isso não é visto em nenhum filme da Marvel até o momento, a missão de Pantera Negra é conseguir sair dessa escrita, mas ainda não chegou lá. Andy Serkis entrega um Ulysses Klaue bem perturbado, um terrorista impiedoso, mas entra nessa lista citada acima de vilão utilizado como escada para o herói, o personagem é um mero instrumento do roteiro. O vilão Killmonger vivido por Michael B. Jordan é interessante, possuindo várias camadas e uma trama mais densa, vive a oposição de T’Challa, o lado extremista, querendo colocar Wakanda como o centro do mundo. Sendo assim, ainda falta uma consistência maior para um bom vilão, mas B. Jordan se sai melhor que a encomenda.

Pantera Negra” é um bom fora da curva para os filmes de heróis, até mesmo da Marvel. O filme entrega um ótimo roteiro, tanto em sua história, seus costumes e ambientação da cultura africana. Com menos piadinhas, mas com um humor bem dosado, o filme de Coogler aposta no algo a mais para criar uma trama redonda e bem elaborada. O protagonista é forte, justo e impiedoso, assim como o resto do elenco, que mesmo tendo alguns menos aproveitados, ainda é o melhor visto no MCU. Antes de militar sobre representatividade é só ver o vídeo em que crianças de uma escola é sorteada para assistir ao filme, daí, podemos entender a importância que é esse filme para história do cinema e do gênero de super-herói.

 

4-Ótimo

 

 

 

FICHA TÉCNICA

 

  • DIREÇÃO

    • Ryan Coogler

    EQUIPE TÉCNICA

    Roteiro: Joe Robert Cole, Ryan Coogler

    Produção: David J. Grant, Kevin Feige

    Fotografia: Rachel Morrison

    Trilha Sonora: Ludwig Goransson

    Estúdio: Marvel Studios, Walt Disney Pictures

    Montador: Debbie Berman, Michael P. Shawver

    Distribuidora: Walt Disney Pictures

    ELENCO

    Alexis Rhee, Andy Serkis, Angela Bassett, Atandwa Kani, Bambadjan Bamba, Chadwick Boseman, Connie Chiume, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, David S. Lee, Elizabeth Elkins, Florence Kasumba, Forest Whitaker, Francesca Faridany, Isaach De Bankolé, John Kani, Letitia Wright, Lupita Nyong’o, Mark Ashworth, Martin Freeman, Michael B. Jordan, Nabiyah Be, Sasha Morfaw, Seth Carr, Shaunette Renée Wilson, Sope Aluko, Sterling K. Brown, Sydelle Noel, Tony Sears, Tunde Laleye, Winston Duke

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