#CRÔNICA: Dois pés de galinha

#CRÔNICA: Dois pés de galinha

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Por Lucas D’Ambrósio

Belo Horizonte, abril de 2017. Rua da Bahia, onze horas e alguns minutos da manhã.

9105, 12 minutos

Ao meu lado, um homem com aparência de uns 40 anos, aguarda a chegada do seu ônibus. De um lado do ponto, a rua. Do outro, um açougue. Logo, a primeira aproximação: boné, chinelos de dedo, rosto marcado com cicatrizes e manchas escuras sobre a pele, que se aproximou daquele.

– Senhor, bom dia! Não vim pedir dinheiro. Eu só quero dois pés de galinha! Nós vamos cozinhar eles logo ali, debaixo do viaduto. O senhor pode me ajudar?

O homem, com aparência dos seus quarenta e poucos anos, coloca as mãos no bolso. Sacode, puxa a mão das entranhas de tecido e entrega algumas moedas. Logo ouve, de um sorriso desfalcado de alguns dentes, um “muito obrigado”.

9105, 9 minutos

Ele não estava só. Encostado na parede do açougue, outro homem aguardava o resultado das abordagens, na esperança de que o companheiro pudesse recolher algum dinheiro para a carne do dia. Esse, por sua vez, aparentava ter entre 15 a 17 anos, talvez.

9105, 7 minutos

Uma mulher de cabelos brancos, com seu um metro e meio de altura também foi abordada. Balançou a cabeça e seguiu seu caminho. Mais à frente, outra pessoa também recebe o pedido para ajudar na compra dos dois pés de galinha. Recebeu dois braços abertos. Abertos por um questionamento. Negação? Talvez. Conversa vai, conversa vem, mais um balançar de cabeça. E cada um vai pra um canto, outra vez.

9105, 4 minutos

Juntos na parede do açougue, o dois se encontram para reavaliarem suas estratégias. Uma conversa ao pé do ouvido, uma fitada para quem passa entre a loja e o ponto. Outra fitada, para dentro do açougue. Ele insiste. Agora, outra mulher. Vestido longo, com estampas pretas e brancas. Com seu ombro deslocado, se ajeitava entre o pedido da carne e o segurar de sua bolsa. Com o olhar sob um par de óculos, se afasta em dois passos quando percebe a abordagem do homem. Ela aponta o dedo para a porta do açougue e diz que ele não poderia estar ali.

9105, aproximando

Ele não desiste. Chega perto com as mãos para cima e pede para conversar. O burburinho da rua é mais alto do que a conversa que tiveram. Ela retira seus óculos e faz um gesto para ele, dessa vez, esperar. Ele retorna à mesma parede do lado de fora do açougue, mais inquieto do que antes.

9105

Não os vejo mais. Subo as escadas do ônibus e encontro o meu lugar. Pela janela vejo que não estão mais encostados naquela parede, tampouco no interior do açougue. Uma esquina à frente e lá estavam eles. No arrancar do ônibus, algo nas mãos do homem mais novo. Uma sacola. De longe, não tinham dois pés de galinha. Era um saco plástico manchado de vermelho. Pesado. Uns dois quilos de carne? Hoje vai ter rango!

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