#CRÔNICA: Green Park

#CRÔNICA: Green Park

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Por Thainá Hoehne

Não é todo dia que escutamos algo surpreendente no ônibus. Na maioria das vezes os casos parecem ter sido tirados do jornal Super. Geralmente as pessoas reclamam do dia, do tempo do trabalho, dos vizinhos. Mas como as crianças não veem nada disso como problemas, é mais fácil sair algo novo e puro delas.

A baixinha estava sentada a um banco atrás de mim e olhava com interesse tudo que via pela janela, porque é isso que as crianças fazem.

Ao passar pelo Green Park Motel pergunta inocentemente para sua mãe:

– Mãe, aquilo é uma floresta?

Quem seria a mãe pra dizer que não, pois criança curiosa não desiste tão fácil.

– É filha. Uma floresta. – e riu com a pergunta da filha.

Confesso que também dei uma risada silenciosa. Mas não há nada de surpreendente na inocência da menina, e sim na inteligência da frase que proferiu a seguir.

– O verde é tudo que nós temos. Olha que flores lindas mãe.

E não brinco, ela disse exatamente com essas palavras, e aquilo me tocou na mesma hora. Ri de novo. Passo por aquele lugar todos os dias, e sei que ali tem um motel, sei que nele tem árvores, sei que tem flores, mas nunca olhei para as árvores, nunca olhei para as flores com os olhos daquela menina.

Fiquei feliz por um momento com aquela delicadeza toda, mas triste por saber que um dia ela será como nós, gente grande, que passa pelo verde que é de verdade tudo que nós temos, mas não vemos metade de sua beleza e de sua importância.

Talvez ela entre naquele lugar um dia e saiba que se trata de um outro tipo de natureza. Como sempre, se trata da natureza humana. Aquela que não tem inocência.

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