Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

“Estou curada!”, exclamou vitoriosa. E eu sorri fingindo uma alegria compartilhada que, no fundo, era a manifestação de um egoísmo enorme que tomava conta de mim. Primeiro porque tentei por anos dar-lhe a certeza de que a tal doença só existia superficialmente, de um desejo dela de ser infeliz a qualquer custo. Segundo, porque foram várias sessões de terapia para um desconhecido qualquer dar-lhe o diagnóstico – que eu emiti anteriormente sem receita de calmante ou rivotril – de que estava curada. Terceiro: eu adoeci da doença dela. Passei a selecionar pessoas para conviver, a escolher lugares a frequentar, a ficar em casa o sábado inteiro sem previsão de quando ver a cara da rua, a beber vinho e ler cartas de amor escritas para desconhecidos só para apartar a solidão quando ela não estava. Parei de sambar no carnaval, passei a ir ao parque aos domingos e de repente comecei a tomar café forte com pingos de leite pra acordar direito pela manhã… 
adoeci da poesia dela e agora ela vem dizer que quer viver. Que prefere drinks e conhaque ao invés da cerveja de trigo. Que chocolate só se for meio amargo porque doce demais enjoa. Que precisa de tempo pros amigos. Que flores lhe dão alergia. Que quer realizar seus planos, seus sonhos, seus projetos… toda cheia de si e de humor e de sorrisos e de um amor que eu não conhecia. Quer viver, inventando novas maneiras de passar os dias como se as lembranças não passassem de frases soltas, perdidas na memória. 
E eu fiquei me perguntando quando foi que eu deixei de ser o remédio dela, em que parte do caminho a gente tomou rumos tão diferentes e como ela podia ser mais feliz assim, “curada”. Sim. Eu só me perguntei. Porque eu precisava fingir, além de alegria, compreensão pela cura dela. Porque eu sabia que qualquer deslize me privaria pra sempre daquela companhia. Porque ela ficou mais bonita. E porque, no fundo, meu egoísmo só pedia uma coisa: que ela adoecesse outra vez…

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