. é só saudade. e vai sempre ser .

. é só saudade. e vai sempre ser .

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Por Débora Gomes – Parceira Contramão HUB

o tempo é uma janela aberta. e a gente sente tudo [a brisa, o amargo, a fumaça, o frio, as saudades]. aprendemos, de pequenos na escola, que saudade é substantivo que não tem plural. mas, mais velhos, entendemos que nela, em si, cabe todo o infinito sem precisar que qualquer coisa se multiplique. ou se explique.

comecei cedo a saber sobre saudade: sempre a senti cutucando o peito, sem compreender muito bem porque. hoje, sei teu endereço primeiro. aquele que me fez atingir distâncias e silencia-la um pouco, como quando passa o carnaval: na quarta-feira de cinzas, tudo volta ao seu estado de silêncio e vazio, ao qual já estamos tão habituados.

mas hoje… hoje não tem confete, nem serpentina. hoje a minha saudade sente muito. sente os lugares que não viu, os abraços que não deu, os sorrisos que não riu, os desejos que escondeu. sente as palavras que não ouviu, e que também não me encorajou dizer. sente em três ou quatro soluços, as histórias que não viveu, as chances que não se deu, as alegrias que se poupou.

hoje minha saudade mora num porta retrato na sala de casa, em um cheiro que vai sumir da caixinha em que guardei recordações, na voz que ecoa na memória suas canções encantadas tão devagar. hoje minha saudade sabe que vai amarelar como as folhas de caderno antigas, até esfarelar e virar poeira no tempo. hoje, ela (a minha saudade) sabe que eu a sinto, sem ter sequer muita coragem pra sentir. 

e ela sabe também que eu nunca mais serei a mesma, depois que ela se instaurou em meu peito nesse fim de abril, transferindo os agouros de agosto, em uma dor lamento que às vezes me desprende do passo e me flutua por onde nunca vivi.

“é saudade seu moço, é saudade!”. 
e a partir de então, voltei a acreditar nos fins…

.as mãos de vóinha, que desde 27 de abril, não podem mais seguras as minhas.


.as mãos de vóinha, que desde 27 de abril, não podem mais segurar as minhas.

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