Por Giovanna Silveira – Metrica Livre – Parceira Contramão HUB

Ela ficaria lá por horas, se deixassem. Sentada na cadeira de canto da cozinha, contando aos netos ou para quem passasse por ali as infindáveis histórias de quando ainda morava no interior, e vivia como a ovelha mais desgarrada que se pode imaginar de um rebanho. E com saliva de orgulho renascido, ela então narra a memória mais vívida que ainda centelhava a cabeça. E começava:

 – Eu já contei pra vocês da vez em que eu fugi do colégio e nunca mais voltei?

– Já Vó, foi aquela vez qu..

– Pois então, foi assim: Eu tava lá na aula de matemática do 3° ano do colegial, naquela época se passasse pro 4° ano já poderia fazer um magistério sabiam? Érr, então, uma certa vez minha professora viu que estava conversando demais e trocando bilhetes com minhas colegas, e foi aí que ela fez a ameaça e gritou pra sala toda ouvir: “LUZIA!! Amanhã quero você aqui na frente da turma, recitando a tabuada toda! Não quero saber de chororô. Se não vier vai reprovar!” – Eu fiquei vermelha até o último fio de cabelo… E no meio da aula comecei a maquinar como eu ia fazer pra me livrar de recitar a tabuada na frente de todos os meus colegas. Até que eu pensei… ah! Seria tão ruim assim reprovar? Pff, nem liguei. Só sei que pensei no dia seguinte em vestir meu uniforme, e ao invés de seguir o percurso pra escola, segui pro canavial de papai. Já que eu teria que passar umas horas fora, que fosse trabalhando, não é? E assim eu fiz… uma, duas, três semanas trabalhando no campo. E eu gostava bem viu! Até trouxe minha irmã, que já não estava mais gostando das aulas, e ela se juntou ao meu esquema de trabalho voluntário na fazenda de papai.

E tudo estava indo bem, até o dia que a casa caiu pra nós duas –

Sempre quando chegava a esse clímax da história, ela sorria de uma forma indescritível;

– Meu pai foi para a beira da estrada esperar que a gente voltasse da escola, com o grupo de meninas que sempre nos acompanhavam… até que ele notou que nós não estávamos lá, e chamou a atenção delas: “Cadê Luzia? Efigênia? Não voltou com vocês não?” – E a partir daí só sei que elas contaram a verdade nua e crua, nós fugimos da escola por causa da matemática.

Eu morria de medo de papai, ele fazia o porte bravo e ditador, que só de olhar você já sabia que estava em apuro… então ele veio, bufando de volta para a casa contar para minha mãe a novidade e convocar meus irmãos a procurar as irmãs noviças pela cidade. Foi aí, que como já era hora, voltamos pra casa de uniformes e mochilas como se nada tivesse acontecido e nos deparamos com a cena, o circo pegando fogo e já não tinha mais jeito, contamos tudo.

– É engraçado lembrar, que depois de tanto esbravejar, quando papai soube que eu e Efigênia matamos aula para trabalhar no canavial, ele abriu um sorriso maior que o rosto…

A essa altura ela gargalhava!

– Papai era terrível, Deus o perdoe…

 Sua feição muda para uma nostalgia quase palpável

– Eu fugi da matemática, fugi da vergonha. Não me arrependo não, pelo menos nunca esqueci a tabuada!

Era impossível não ouvir. Era impossível não emprestar os ouvidos a cada detalhe minucioso e manjado da história de fuga mais engraçada e astuta já tida em tempos. E tão somente ela sabia como contar suas histórias… reforçar um detalhe, esconder outro, só para fazer parecer um interesse súbito dos ouvintes a cada vez que contava. Feliz de quem, assim como eu, ouviu os contos vivos de Luzia.

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Em memória da luz mais bonita que já brilhou sobre mim, Luzia.

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