Maternidade precoce: Não é o fim do mundo

Maternidade precoce: Não é o fim do mundo

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Por Bruna Valentim

A adolescência é comumente a fase mais conturbada da vida de uma pessoa. É quando as inseguranças estão no auge e a curiosidade para descobrir o mundo é enorme. É época do inocente primeiro amor e do primeiro coração partido. Decisões sobre o corte e a cor do cabelo são mais ousadas, e é quando acontece a tão esperada e temida relação sexual. A fase da adolescência é sobre descobrimento pessoal, formação de personalidade e caráter. Nessa caminhada, às vezes um acontecimento pode mudar tudo como ser mãe de primeira viagem.

Ser mãe não é fácil, e quando se é adolescente a tarefa se torna ainda mais difícil. Além de todas as inseguranças usuais da idade, existe também a responsabilidade iminente que a maternidade traz consigo.

 

O susto inicial

Grávida de 6 meses de Arthur, Maria Célia Horta de 18 anos, descobriu a gravidez após realizar um exame de sangue, por incentivo de seu namorado, após apresentar alguns sintomas. Horta conta que está animada para a chegada da criança apesar de já prever certos desafios em seu futuro: “Imagino uma vida repleta de desafios, mas nada que me impeça de alcançar meus objetivos, as coisas que eu almejo, que me farão felizes. Terei muitas responsabilidades, mas já me sinto pronta. Minha gestação está sendo ótima e não vejo a hora do meu filho estar aqui comigo e com meu namorado.”

Franciane de Souza, de 19 anos, por sua vez teve uma reação diferente ao se descobrir grávida, aos 14, de seu namorado de longa data. “Fiquei apavorada porque eu estava prestes a iniciar o primeiro ano do ensino médio, tive muito medo de contar para minha mãe, mas não pensei em abortar em momento nenhum. Os meu pais se assustaram na época, brigaram comigo, mas não me desampararam”.

Ela ainda lembra que teve que mudar completamente de vida em um momento que não gostaria. “Parei de estudar e já tive que me preocupar com ser mãe, ganhei meu bebê com 15 anos, na época quase não saia de casa com vergonha das pessoas na rua, fui obrigada a casar, sem nenhuma experiência de vida e isso não era o que eu queria naquele momento”. Souza voltou a estudar no ano passado, mas apesar de amar o filho ela tinha outros planos para sua vida: “Queria estar fazendo uma faculdade, outras coisas, ser dona de casa não é o que eu queria agora, amo muito meu filho, Victor Miguel, mas queria sim ter curtido mais, foi muita responsabilidade, muito de repente, queria ter saído mais com as minhas amigas. Estou casada porque sou mãe, do contrário estaria solteira sem dúvidas”.

A jovem acredita que teria engravidado caso tivesse tido uma conversa sobre educação sexual em casa, um tabu ainda em muitas famílias. “Com 12 anos namorava um cara de 19, tudo aconteceu do nada, nunca tinha tido uma conversa com a minha mãe ou irmã a respeito de anticoncepcionais, injeções, essas coisas, então eu me prevenia sozinha, como dava, até ter esse descuido que acarretou na minha gestação”, finaliza.

 

A volta por cima

Rosilaine Xavier de 40 anos, engravidou aos 17 anos e enfrentou muitos obstáculos, mas hoje sua trajetória mostra que a gravidez na adolescência, não significa o fim do mundo. Segundo ela, quando engravidou de sua filha, Laryssa ela ficou desesperada, “a pior parte era a reação da minha família, ela não suportava meu namorado, queria que eu escolhesse entre eles e meu relacionamento”.

relata também que durante sua gestação ela passou por um período conturbado, mas que as barreiras que teve que enfrentar a fortaleceram. “No início tudo foi muito tumultuado, o pai da Laryssa teve que ficar ausente por um tempo por esses problemas com a minha família que não estava aceitando bem essa situação, tive que crescer na marra, amadureci na força”.

Apesar da fase complicada, ela recorda que as coisas melhoraram gradativamente “Hoje estou casada com o pai da minha filha, minha família foi cruel no início o afastando de nós, a criei por sete anos sozinha, mas hoje estamos todos bem.  Olho para trás e vejo quão bom Deus foi para conosco. Cuidou de nós e hoje, quando olho para a Laryssa vejo como minha filha é linda e de um caráter extraordinário. ”

Questionada se tem algum conselho para as jovens mães da geração Rosilane explica que tudo na vida tem uma consequência, mas que é importante ter força para superar as adversidades da vida. “Estejam firmes para as lutas diárias; a luta interna com nós mesmas e externa; a sociedade é cruel e preconceituosa, mas que no final tudo se encaixa.”, concluí.

Laryssa Xavier, 20, filha de Rosilaine, compara sua relação com a mãe com a relação de Rory e Lorelai, protagonistas da extinta série Gilmore Girls, que retrata a vida de uma jovem mãe solteira e sua filha adolescente. “Sempre assistíamos a série juntas e nos identificamos com a vida das personagens”. De acordo com a jovem, ela sempre teve uma relação próxima a mãe. “Quando eu era mais nova achava divertido o espanto das pessoas ao dizer a idade da minha mãe. Hoje, vejo que é normal, a idade não muda quase nada. Somos mais amigas, talvez pela proximidade de idade conseguimos ser mais abertas uma com a outra.”

 

Laryssa afirma ser a maior admiradora de sua mãe e apesar de traçar uma trajetória diferente se orgulha da mulher que a criou: “Eu sempre falo isso com minha mãe, mas não custa repetir: sou quem sou hoje por causa dela. E apesar de não querer repetir muitas das coisas que aconteceram com ela, todos os dias me inspiro em sua força para levantar da cama e conquistar minhas coisas. Sou grata por ela nunca ter desistido de mim e ter me ensinado que mesmo sozinha, sou capaz de enfrentar qualquer obstáculo. Ela me mostrou a força que nós mulheres temos e eu vou carregar esse ensinamento para sempre.” declara a estudante.

 

Prevenção é importante

Segundo um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado recentemente no Brasil, 68,4% a cada mil adolescentes brasileiras com idade entre 15 e 19 anos  ficaram grávidas e tiveram seus bebês.

 

A mortalidade materna é uma das principais causas da morte entre adolescentes e jovens de 15 a 24 anos na região das Américas. Mundialmente o risco de morte dobra entre mães com menos de 15 anos em países de baixa e média renda. As mortes perinatais são 50% mais altas entre recém-nascidos de mães com menos de 20 anos na comparação com recém-nascidos de mães entre 20 e 29 anos, disse o relatório publicado por Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

A clínica geral, Neuzilene Maurício, explica que as jovens gestantes precisam de um cuidado redobrado no pré-natal para que tenham uma gestação e bebê saudáveis: “As gestantes adolescentes apresentam risco maior de complicação na gestação como, por exemplo, pré-eclâmpsia e eclampsia. Para essas adolescentes é indicado acompanhamento em serviço de pré-natal de alto risco, em cidades onde há centros de referência para esse acompanhamento!”. Ela ainda reforça que as equipes dos centros de saúde devem ficar atentas a rotina dessas pacientes. “Nesses casos temos que prestar atenção ainda a adesão no seguimento pré-natal, pois é muito comum elas não comparecerem a todas as consultas, realizarem os exames de rotina, então a equipe deve ficar atenta e realizar a busca ativa destas pacientes quando há baixa adesão”, explica a médica.

 

 

 

 

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