NAOMI KAWASE

NAOMI KAWASE

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Por Yuran Khan

 Naomi Kawase é uma cineasta japonesa, nascida em 1969, que cresceu como filha adotiva e desde cedo se questionava sobre a sua própria existência. Ao se deparar com as inúmeras possibilidades de memorizar e eternizar, que o mundo cinematográfico poderia proporcionar, Naomi decidiu então perpetuar as suas questões numa filmografia que conta com obras como: Shara (2003), O Segredo das Águas (2014), Sabor da Vida (2015), Floresta dos Lamentos (2007) e outros. O drama preexiste nos filmes de Kawase. As questões sobre a vida, a morte, a sociedade e o indivíduo, os planos “puros” e longos, os vários silêncios, e outros vários elementos, conduzem o espectador a refletir sobre temas existenciais.

SABOR DA VIDA (2015)

O filme gira em torno de três personagens principais: um chefe de um estabelecimento comercial, estilo lanchonete, que tem como atração principal o Dorayaki (mini panquecas com pasta de feijão); Tokue, uma senhora de idade, abandonada numa residência para leprosos; e uma adolescente, estudante, que frequenta a lanchonete.

Naomi Kawase dá uma percepção da importância da vida, da liberdade e de como a sociedade pode influenciar na felicidade individual. Uma vez que somos seres compostos de vários elementos físicos e psíquicos (neste caso visuais e narrativos, nos filmes de Kawase), a individualidade como um conceito sempre foi questionada pela diretora.

Aos 73 anos, Tukue, recém curada da hanseníase (doença que, com o tempo, atrofia alguns membros e partes do corpo), consegue convencer o chefe do estabelecimento a trabalhar com ela, pela metade do salário que ele oferecia. E a lanchonete logo se torna um sucesso, com a ajuda dela, que faz as melhores pastas de feijão da cidade. Apesar do sucesso, o chefe logo se vê “encurralado”, assim que os cliente ficam a saber do passado da cozinheira, e logo a lanchonete volta a ter uma queda de rendimento.

Kawase tenta mostrar o tempo todo a dificuldade e o preconceito que a cozinheira passa, apesar da eficiência ao servir a sociedade. Muito mais que uma cozinheira que veio para levantar a produtividade da lanchonete com sua saborosa pasta de feijão, Tokue serve como uma espécie de mãe, conselheira e “anjo da guarda” do chefe. O filme é marcado por frases impactantes como: “Acredito que tudo neste mundo tem uma história pra contar”; “Até mesmo o brilho do sol e o vento podem ter histórias que você pode ouvir”; “Tentamos viver nossas vidas de forma irresponsável, mas, às vezes, somos esmagados pela ignorância do mundo.”

Os aspectos visuais e a montagem trazem uma grande contribuição para a proposta da diretora, tais como a combinação de planos longos com movimentos sutis, e a montagem majoritariamente imperceptível. Apesar de imperceptível, os planos montados são muito bem selecionados.

 

FLORESTA DOS LAMENTOS (2007)

Shigeki sofre de uma demência senil e vive num pequeno e tranquilo asilo ao lado de uma vasta floresta. Apegado à memória de sua esposa morta, Mako escreve longas cartas a ela, como testemunho silencioso de seu eterno amor. Próximo do 33º aniversário da morte de Mako, Shigeki viaja, com uma jovem moça, Machiko, que cuida dele.

A relação dos dois é selada pelo luto. Enquanto Shigeki tenta conviver com a perda da sua mulher, Machiko convive com a memória do seu filho falecido. Assim, ele vê nela uma nova companheira (com nome quase idêntico à esposa falecida) e ela vê nele alguém para cuidar como um filho.

O filme é tomado por vários silêncios, e planos quase vazios em elementos visuais, mas carregados de tensão. Naomi Kawase traz mais uma vez a sua percepção da vida e da morte, da presença e da ausência, da importância da natureza, da leveza, do caos. Floresta dos Lamentos é também tomado de falas que justificam o próprio filme, como: “Não há regras formais” (Esta se repete várias vezes ao longo do filme); “A água do rio que passa jamais retorna a sua origem”.

Os movimentos da câmera e a trilha suave nos levam a testemunhar a relação desses personagens e a convivência deles com a ausência. Um filme humano e “terapêutico”, em que Naomi elabora o luto junto com os personagens. Os dois filmes revelam e caracterizam a filmografia autoral da Naomi Kawase, sempre muito humana e sentimental.

 

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