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Por Larissa Ohana – Parceira Contramão HUB

O processo interno de mudanças mexe em todos os âmbitos do contexto vivido. Você muda e, consequentemente, parecem cair várias paredes à sua volta. Essas transformações são tão intensas que tudo aparenta ser afetado, sejam suas relações (e digo todos os tipos de relação), sejam os objetivos que até então havia traçado, sejam seus interesses, visão e até seu posicionamento perante tudo isso.

Sobre as mudanças individuais, em muitos momentos, a sensação é de que veio uma onda gigante que nos arrasta para vários lados, e que chegamos até determinado “lugar” sem termos provocado aquilo tudo. Mas saiba que sim, você, mesmo que de forma inconsciente, fez escolhas que motivaram esses efeitos e, mais do que isso, esses momentos instáveis é que revelam a importância de se estar consciente. Isso porque, a consciência de que tudo que acontece em sua vida é responsabilidade sua, ameniza a possível impotência que se sente de não poder agir em relação àquilo, ou até mesmo entender que realmente esse processo faz parte e trará inúmeras possibilidade positivas para sua vida. Mudanças internas podem muitas vezes passar despercebidas e em um dado momento você se dá conta que algum comportamento que se tinha, já não existe mais. Entretanto, há também aquelas transformações que são tão profundas que você se olha e não se reconhece, aquele cabelo não faz parte mais de quem você é agora, aquelas roupas não dizem nada sobre sua personalidade e você se sente tão desconfortável que precisa tomar providências que diminuam tal incômodo. Todas elas, sejam as mais superficiais ou as mais brutas, são importantes para o desenvolvimento e evolução de quem você é. Até porque mudar de conduta e entender as situações como aprendizado, vale principalmente para que esteja preparado para as próximas transições que se vai passar ao longo do tempo.

Quanto aos relacionamentos com as pessoas, sejam elas partes da família, sejam amigos e colegas, ou relações afetivas e/ou amorosas, é possível que sua forma de lidar com essas pessoas mude em consequência de toda a mudança íntima pela qual se está passando. Assim, possivelmente, você passará a distinguir melhor as situações vividas com essas pessoas, e sentirá que está compreendendo melhor o papel de cada uma delas para o seu crescimento. Dessa forma, provavelmente algumas delas podem não mais fazer parte da sua vida, já que as características que os mantinham próximos podem parar de existir e sim, é um processo natural e necessário. Por outro lado quem fica provavelmente vai enxergar um lado seu muito mais brilhante, te admirando e buscando todos os recursos para que vocês, juntos, alimentem essa relação maravilhosa e singular.

Em relação aos objetivos e interesses, é nítido que são influenciados pelas particularidades que compõem o seu ser, sendo igualmente modificados e moldados de acordo com sua forma mais recente e vigente. Portanto o apego aqui dá lugar à abertura para novas ideias e novas rotas a serem traçadas. Mudar seu ponto de vista não caracteriza indecisão, apenas adequação, pois quando você não se adapta, acaba indo contra seus próprios desejos e cai num ciclo difícil, resumido em possível insatisfação.

Enfim, mudar é preciso. Valorize suas mudanças, lembre-se do caminho que você já percorreu e tenha claro que o processo nunca acaba, mas é possível aproveitar esses caminhos que nos levam ao encontro de obter cada vez mais satisfação pessoal.

E como diria Flora Matos: “Ainda não tenho tudo o que eu quero, mas tudo que eu tenho pretendo continuar dando o maior valor”.

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Por Ana Paula Tinoco

As novas mulheres libertas e fortalecidas dando apoio umas às outras (na Paradise Island., Ilha Paraíso) desenvolveram um enorme poder físico e mental. (…) Um grande movimento agora em curso – o crescimento do poder das mulheres., William Moulton Marston, em 1941, sobre o subtexto da origem da Mulher Maravilha e sobre a história de seu quadrinho.

 

A década era a de 1940 e os super heróis começavam a conquistar seu espaço, entre eles dois dos mais famosos: Superman (1938) e Batman (1939). Em uma ambientação construída em cima de cidades fictícias surge o primeiro ícone feminino do mundo das HQs: Wonder Woman (Mulher Maravilha). Criada por William Mouton Marston a personagem viria a se tornar parte importante do que anos depois fora chamada de “A era de ouro dos quadrinhos”.

Marston era Ph.D. em psicologia e um estudioso do movimento feminista e em 1941 junto à solidificação desse ele nos apresenta Diana, guerreira amazona: mulher forte, corajosa e livre que estabelece por sua personalidade a autoconfiança e consolida o padrão da feminilidade na queda dos paradigmas de que a mulher é sexo frágil, como o que é encontrado nas histórias das amazonas.

Mesmo passando por transformações ao longo dos 75 anos da personagem toda sua essência ainda está intacta. Podemos ressaltar que essa sobrevivência, os quadrinhos entraram em declínio após o fim da segunda guerra mundial causando a reformulação e até mesmo aposentadoria de alguns heróis, somente é possível devido ao fato de Marston encontrar na realidade de sua vida a fonte da ficção para solidificar aquela que é até hoje a heroína de maior prestigio do universo dos quadrinhos.

 

No âmbito social, Marston tenta trazer à tona o fato e a comprovação de que meninas de todo o mundo podem e devem lutar pelo que acreditam e almejam e, assim, estabelecer suas conquistas em determinados espaços que até então eram dominados por homens. E para a criação dessa narrativa ele buscou nos movimentos que lutavam pela libertação das mulheres as influências necessárias para a construção do cenário que tornaria isso possível.

Marston que era casado com Elizabeth Holloway, advogada, apaixonou-se por Olive Byrne enquanto ainda era seu professor. Indo contra as convenções morais da época os três dividiram um relacionamento, que hoje chamaríamos de poliamor, por 22 anos. Em Holloway e Byrne, Marston encontrou a essência da personalidade da heroína. 

Olive ao unir-se ao casal optou por não usar aliança, já que para a sociedade aquele relacionamento não existia. No lugar do anel dourado ela usava dois braceletes que eram símbolos daquela união. Na personagem, os braceletes,  podem funcionar tanto para defesa quanto para o ataque. Sendo algo inquebrável, de acordo com a própria Diana, os braceletes contém a força de seu poder.

Marston, que possuía um estranho fascínio em descobrir os segredos das pessoas, é o inventor do polígrafo, popularmente conhecido como detector de mentiras. E sua obsessão e invenção tomam forma no “laço da verdade” usado pela heroína quando os vilões tendem a não cooperar com seu propósito.

Adepto de Bondage a prática aparece nas entrelinhas das histórias da Mulher Maravilha. Sempre que capturada, Diana era amarrada, acorrentada ou colocada dentro de gaiolas ou celas. E quando indagado sobre o fato dela acabar sempre assim em suas histórias, Marston alegou que “as pessoas gostavam de ser amarradas e acorrentadas”.

Os signos e os índices que constroem a personalidade, caráter e visual de Diana, a Mulher Maravilha, são muito sutis. É necessário conhecer sua história desde o processo que originou sua criação, ou seja, conhecer a história da vida de seu criador, daqueles que faziam parte de seu cotidiano e interesses em sua área de estudo. Por outro lado, os artefatos que compõem a “armadura” da Mulher Maravilha no combate à opressão são facilmente reconhecidos e ligados à personagem.

Simplificação: índices, ícones e signos ligados aos objetos e ideais

  • A história e ambientação: feminismo, movimento do sufrágio e de controle conceptivos, mitologia das amazonas.

  • As formas como a Mulher Maravilha era mantida quando capturada: prática de Bondage.

  • A personalidade da personagem: suas duas esposas Elisabeth Holloway e Olive Byrnes.

  • A força da personagem: construção de caráter social na libertação de ideais e empoderamento das mulheres ao redor do mundo.

  • Os braceletes: adornos que Byrnes usava no lugar da aliança.

  • Laço da verdade: a curiosidade de Marston em detrimento dos segredos das outras pessoas.

  • A roupa: símbolo da liberdade, patriotismo americano.

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Por Giovanna Silveira – Métrica Livre – Parceira Contramão HUB

 

Quero ser dona logo.

Dona antiga, vivida, vencida

Dona respeitada, feita e ferida

Arrependida das más decisões mas

certa de vida

Dona do próprio tempo e do próprio gasto

Dona do amor e do marasmo

Talvez quem sabe

Dona de um espaço

Espero ser dona logo.

Não pra contar a mesma história de monólogo

Dona de mim, do eu lírico, ópio

Quero ser dona do meu real ilusório.

Por Hellen Santos

Há quase 100 anos a Praça Sete vem encantando mineiros e turistas com suas variedades culturais, dentre elas, museus, teatros, músicas ao vivo e seus diversos barzinhos aos redores. Dentro de todo esse brilho, o que mais chama atenção de quem passa pelo centro da capital mineira é a quantidade de vendedores ambulantes, artesões e camelôs.

Aos arredores da praça encontramos praticamente de tudo:  doces, frutas, artigos para celular, brinquedos e até mesmo lingeries. Andando um pouco mais pela região e possível comprar ainda, plantas, flores, artesanatos e quadros de artistas plásticos. Demétrio Silva trabalha cerca de 40 anos no mesmo lugar, segundo ele, o policiamento na região todo o tempo o deixa mais tranquilo, porém, o que vem tirando o sono de Silva é a tentativa de ocupação de imigrantes que estão sendo feitas na praça para, de acordo com ele “roubar” seu espaço de trabalho durante as madrugadas.

Fernanda Santos de 22 anos, que passa todos os dias pela praça, não acredita que o comércio informal no local atrapalhe os comerciantes da região. Para ela está foi a melhor forma que os camelôs encontraram para trabalhar e ganhar seu sustento de uma forma “correta”.

Legalização dos Camelôs

Em junho deste ano, o prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil decretou a retirada e o cadastramento de cerca de mil camelôs das ruas da cidade, com o objetivo de colocá-los em shoppings populares, além de proporcionar aos comerciantes uma qualificação. Porém, na ocasião a proposta não foi bem aceita pelos comerciantes e hoje, quem passar pela praça pode observar a resistência dos camelôs em se manter nas ruas de forma ilegal.

Quem pode estar na rua?

Os únicos profissionais que obtêm o direito de estar nas ruas são os artesões (hippies e indígenas), conforme a LEI n. º 13.180, DE 22 DE OUTUBRO DE 2015, onde presume o exercício de atividade predominantemente manual, tornando assim, uma profissão regulamentar e com direitos de atuar em qualquer espaço público de território Brasileiro. Já em Belo Horizonte, pessoas com deficiência também podem trabalhar como vendedores ambulantes desde que sejam licenciadas pela prefeitura.

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

Já era tarde quando cê me pediu que lhe explicasse, em palavras miúdas, o que era o amor. Lembra?! Eu fiquei assim meio sem graça (como sempre fico quando cê chega) e tive um medo danado de te decepcionar, dando uma resposta em que cê não acreditasse ou que não te fizesse sentir.

No rádio, o acordeon tocava uma velha canção que parecia ter saído das suas tardes de sol em Lisboa. Aí eu criei coragem pra te dizer que, pra mim, o amor era tudo aquilo: olhar por dentro devagar, encontrar o coração tranquilo, florescer tudo em volta e amanhecer sempre com esperança.

A gente perdeu o jeito de olhar as coisas devagar. Porque tudo fora da gente pede tanta pressa, enquanto o ponteiro do nosso relógio conta segundo por segundo, pra que a gente não desista de seguir. Vê? Tem amor nisso também. Tem amor na forma como a gente lida com o tempo, tem amor na forma do tempo entender nossa simplicidade.

Não é preciso ir tão longe, nem encontrar palavras grandiosas demais. O amor é essa delicadeza que toma a gente enquanto sorrimos ao pisar folhas secas no caminho de casa. É ver beleza na lua cheia apontando no horizonte ou encontrar desenhos nas nuvens de uma manhã azul. É olhar o outro com ternura. É abraçar os próprios medos com carinho. É esquecer o julgamento e acolher as imperfeições com silêncios. É transformar os vazios em doce melodia. É rir porque cê sorriu e isso, por si só, já é capaz de encher de amor a rua inteira.

Eu sei que já foi mais fácil viver. Mas não posso deixar de pensar em Guimarães Rosa, quando escreveu que “tudo que a vida quer da gente é coragem”. E precisa ter amor também. Pra olhar pra esses dias mais distantes, sem perder aquele encanto de viver, sempre presente nos começos.

Então, toda vez que cê pensar no amor, queria que se lembrasse de que ele vem de dentro, e pode se transformar em todas as coisas bonitas ao seu redor. Lembra de mim também. E das brevidades do nosso tempo…

Com amor,

 

Conheça também o coletivo We Love

Por: Kedria Garcia Evangelista

Fanfics são narrativas produzidas por fãs, onde o autor brinca com os personagens de uma obra já existente ou tenta reescrever a história de artistas. As inspirações vêm de várias vertentes: livros, filmes, games, figuras públicas, etc. Originada da abreviação da expressão fan fiction, que traduzindo ao pé da letra significa “ficção de fãs”, os autores se apoderam de uma parte da história original ou dos personagens e a/os recria(m), originando histórias paralelas.

Essas narrativas são difundidas na internet, geralmente em sites específicos. A maior parte do público que consomem esse material são adolescentes, majoritariamente feminina, o que não impede a participação de outros públicos, como conta Alan Rodrigo Silva de 30 anos, Designer de Jogos. “Era bem interessante, ocupava muito o meu tempo, agora não tenho tanto tempo assim para dedicar a leitura.”, complementa afirmando que existem ótimas fanfics bem escritas, em termos de técnicas e formas narrativas, tão boas quanto as que já foram ou estão sendo publicadas por vias editoriais tradicionais.

O primeiro contato de Letícia Diassis de 16 anos com esse universo, foi aos 10 anos em uma plataforma de escritores e leitores. “Escrevo e leio fanfics hoje em dia, apesar de estar quase sempre atrasada em relação à elas por conta do tempo pros estudos.”, a jovem participa de fóruns que debatem o assunto e acredita que as redes sociais são potencializadores para a divulgação, facilitando o acesso à elas. Para Natália Paixão, Divulgadora Científica de 23 anos, as redes sociais têm sua parcela negativa nesse ramo. “Tudo que difunde tem potencial de banalização, e em cima de algo livre isso ainda é maior, mas um dos fundamentos de trabalhos transformativos é justamente o acesso facilitado e acredito que as redes sociais funcionam mais como um meio de troca e abertura o que potencializa estes trabalhos.”

Um dos motivos de discussões sobre esse segmento é sua classificação como literatura. Entende-se que o conceito de literatura sofreu diversas alterações no seu conceito durante o passar dos anos, ainda assim é considerada uma “arte dos textos”. Alan acredita que as fanfics não deixam de serem menos literárias por utilizar a linguagem informal, “As fanfics de maior sucesso ainda são severamente criticadas pelo círculo literário, até entendo que a popularidade da linguagem menos erudita seduz bastante uma parcela considerável de leitores para reter receitas.”, justifica. Outra questão levantada é a edição e revisão, questionando a qualidade dessas narrativas, como aponta Natália Paixão. “Como tudo que é livre e de fácil acesso temos uma quantidade absurda de material, nem todo ele é bom, mas existem trabalhos que mereciam publicações formais e reconhecimento.”, conclui esclarecendo que existem escritoras que aprimoram o trabalho a partir dos feedbacks recebido pelos fãs.

Por se tratar de obras e/ou personagens que possuem direitos autorais, surge controvérsias a respeito desse nicho. A ideia inicial não é plagiar e sim dá outros caminhos a criação original, ou seja, não se visa lucros na produção das fanfics, além da enorme quantidade de publicações em sites e comunidades na internet, o que dificulta o processo jurídico. Por ser uma produção feita pelos fãs, as empresas aproveitam essa vertente como uma forma de publicidade. “O valor da fanfic é o seu papel como obra de transformação, fanfics são resultado de uma avaliação crítica das obras que admiramos e uma forma de empoderamento onde tornamos estes trabalho algo nosso.”, segundo Paixão.