O canto dessa cidade é delas!

O canto dessa cidade é delas!

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Por Patrick Ferreira

Sábado, dia 29 de setembro de 2018. Um sábado que poderia ser como um dia qualquer. Mas a voz feminina deu um outro tom para ele. Milhões de mulheres saíram às ruas de todo o Brasil, impulsionadas pelo grito “Ele não”, contra o discurso de ódio do candidato à presidência, pelo PSL, Jair Bolsonaro. Referido quase sempre com a hashtag #EleNão ou “Coiso” nas redes sociais.

Contra o machismo, racismo, homofobia e todo tipo de opressão, cerca de 100 mil pessoas compareceram no ato em Belo Horizonte. O protesto na capital mineira mostrou a cara da cidade atual. Com trio elétrico, em meio a uma fusão de pessoas de todas idades, gêneros e identidades, mulheres dos principais blocos de carnaval da capital puxaram o coro da multidão. Gritos de luta foram entoados contra o discurso fascista que vem tomando conta das discussões políticas.
Na mão e na contramão da avenida Amazonas, no centro da cidade, mulheres brancas, negras, de todas as cores, de todas as idades, carregavam cartazes com a frase “você vai ver com quantas fraquejadas se faz uma revolução”. Crianças e idosos marcaram presença no evento. Uma menininha trazia estampado em sua blusa o manifesto “Lute como uma garota”. Pequena, talvez não tivesse dimensão da sua importância ali naquele momento.

Apesar do ato ter sido protagonizado pelas mulheres, elas não estavam sozinhas. Ao lado delas, caminharam homens, grupos sociais, gerações distintas e variados segmentos da sociedade, juntos por uma causa maior. À medida que a manifestação seguia seu curso, professores encontravam com seus alunos. A satisfação do encontro se revelava pelos abraços e sorrisos. “Que bom ver que ajudei a fazer um bom trabalho”, disse um professor.

Maria Augusta, 61, militou durante a Ditadura Militar e foi às ruas no último sábado (29) em reação a onda conservadora em que o país surfa

No meio de tanta gente que circulava, procurava por um personagem para ajudar a contar essa história. De repente, uma senhora, que sem saber o motivo nos atraiu para perto dela, puxa conversa. Quando convidada para uma entrevista, ela diz: “você falou com a pessoa certa”. Será um sinal divino? Maria Augusta, 61 anos de idade, foi presa no período da Ditadura Militar, viu amigos ser torturados e outros desaparecer. Ela revelou algumas experiências vividas quando o Brasil passou pelo seu período mais funesto. “Participei da tentativa de reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE), na faculdade de direito da UFMG. Nessa época, a faculdade ficava sob vigilância de militares. Assistíamos as aulas com policiais e cães na porta da sala. Participei das campanhas do Diretas Já! Passei isso para meus filhos”, contou.

Na Ditadura Militar, a população era submetida às vontades e interesses do regime. Muitas pessoas na atualidade discursam a favor do regime autoritário. Sobre isso, Maria Augusta tem uma recomendação. “Têm filmes, livros, [as pessoas] devem se informar. Não foi um fenômeno isolado no Brasil, foi impactado em toda América Latina. Muitas pessoas que seriam o futuro do Brasil, foram exilados e lá morreram. Quem é mais velho e viveu, deve alertar quem é mais jovem. Isso precisa ser martelado na cabeça do jovem para que ele faça suas escolhas, conhecendo sua história”, comentou.

Maria Augusta destacou a participação feminina na sociedade: “A minha geração abriu caminhos para nossas filhas e elas estão abrindo caminho para as que estão por vir. A mulher é a maioria, é a que sofre, que ganha menos e precisamos lutar. Não fazendo guerra, mas nos unindo e contribuindo para uma sociedade mais justa”, alertou.

Duda Salabert, primeira candidata transexual ao senado

Mais adiante, depois do papo com Maria Augusta, as pessoas ovacionavam alguém. Em um coro uníssono gritavam “Duda! Duda!”. Era Duda Salabert. A primeira candidata transexual ao senado na história da América Latina. Ela foi ao abraço de vários presentes, em mais uma forma de resistência, gritando “não” à opressão.

A caminhada seguia em direção à praça da Estação, enquanto a tarde adentrava, mesmo com a chuva. O trio elétrico entoava os versos “a cor dessa cidade, sou eu/ o canto dessa cidade é meu”, da canção O Canto da Cidade, de Daniela Mercury. O canto também era dos estudantes Ana Cecília Ferreira, Gabriella Maíra e Bruno Pimenta. “Esse foi a maior ameaça à democracia desde 1964, se a gente deixar passar agora, vamos ter consequências depois, então ‘ele não’”, discursaram.

O protesto liderado por mulheres, e apoiado por homens, LGBTs, negros, brancos e torcidas organizadas, de forma pacífica, defenderam o direito à liberdade.

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