Por Ked Maria

Na semana passada quando o trabalho já estava no quadro e minha cabeça tentava organizar meus próximos dias, todos da sala contavam que o meu trabalho seria o melhor de todos. O professor com aqueles olhos de quem sempre espera algo caiu sobre mim como uma chuva torrencial. O trabalho consistia em escrever uma narrativa sobre como são os meus dias, para a maioria é bem fácil, afinal falar de algo que se vive é fácil comparado aos outros trabalhos que envolvem pesquisa e apuração.

Cheguei no laboratório convicta do que iria escrever, seria a melhor narrativa de toda a minha vida. Daria um toque de humor no convívio com minha família, uma vez que, minha casa é bastante barulhenta e cheia de energias boas. Uma pitada de seriedade no trajeto casa-faculdade, descrevendo as viagens de ônibus, incluindo os pensamentos da espera até as epifanias na janela. Iria concluir com os estudos, fazendo um paralelo com uma viagem que fiz nas férias. Isso com certeza me garantiria a nota total e uma afrouxada da corda no meu pescoço chamada semestre.

Sentei na minha cadeira preferida, em frente ao melhor computador do laboratório. Liguei com o friozinho da barriga queimando, sempre fico nervosa quando alguém espera algo de mim. Quase no automático, entro na minha conta do Google Drive, crio um novo arquivo de texto e me deparo com uma folha branca, meu maior inimigo. Sofro por antecipação quase sempre, por coisa boba ou por não saber me conter, porém, essa folha branca me encarando e o tic tac do relógio fazem meu coração acelerar e sinto o suor escorrendo.

Tento afastar esses pensamentos negativos e vou tentar escrever, estou aqui para isso e será isso que farei. Coloco minhas mãos no teclado e logo me dou conta: não sei escrever. Respiro. Não é possível não saber escrever. Olho para aquelas letras brancas com o fundo preto e o desespero toma conta. Olho ao redor para ter certeza que ninguém ali percebeu o que está acontecendo. Olho novamente para o teclado, aqueles símbolos não fazem sentido algum. É como se fosse uma criança tendo o primeiro contato com o alfabeto, porém eu já tenho vinte e dois anos e já estou na faculdade. Com o coração na boca, sinto olhares e penso que as pessoas ao redor sabem como eu sou burra e não sei escrever, ou talvez isso seja da minha cabeça. Calma, tenho que tentar resolver isso com calma.

Quem não sabe escrever, porra?

Eu fiz o fundamental? Fiz.

Eu fiz o ensino médio? Fiz.

Eu fiz provas para entrar em uma universidade? Fiz.

Eu fiz redações? Fiz.

Então como diabos eu não sei escrever?

Começo a roer unha, arrancar a pelezinha do dedo, rodo o pescoço e digo bem tranquila em meus pensamentos: “Você só está ansiosa”. O estômago parece acordar e entrar em pânico, revira e revira. Os ombros começam a tentar ajudar e pesam, pesam muito. Os batimentos estão cada vez mais rápidos, as mãos estão geladas e suadas, os olhos enchem de água e a única coisa que quero é ir embora deitar em minha cama.

Preciso entregar hoje esse trabalho, pedir para adiar seria idiotice. Imagino-me justificando, falando que não posso entregar na data prevista pois não sei escrever. Todos iriam rir de mim, além do mais, o professor jamais aceitaria isso. Na verdade preciso ir embora. O laboratório está ficando cada vez mais abafado mesmo com o ar condicionado no 17°C, estou ficando sem ar.

Pego o celular, coloco os fones de ouvido e solto um suspiro de alívio ao lembrar que minha senha para desbloquear o celular é um desenho, aperto o símbolo de “play”. Fecho os olhos, deito de forma que minha nuca se apoia no encosto da cadeira, aumento até o último volume e deixo a música me levar. Aos poucos meus ombros relaxam, o coração vai entrando no ritmo e minha cabeça só consegue pensar naquele trabalho pronto. Depois de 10 minutos escutando músicas aleatórias da minha playlist já consigo encarar aquela tela. Pouso meus dedos sobre o teclado e em sintonia com a música eles seguem tocando cada tecla, as palavras fluem de acordo com meus pensamentos.

Tenho certeza que não foi o melhor trabalho que já entreguei em toda a minha vida, mas fico tranquila por saber que ninguém saberá dessa minha crise com a página em branco.

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