Produção do cinema mineiro é celebrada em Brasília

Produção do cinema mineiro é celebrada em Brasília

0 310

Produções e realizadores do cinema mineiro são destaques na premiação da 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na noite de ontem, dia 23

Por Patrick Ferreira e Rebeca Francoff

A noite da premiação da 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,  ontem, dia 23, contemplou produções e realizadores do cinema mineiro. O estudante de cinema e audiovisual do Centro Universitário UNA, Higor Gomes, que competiu na mostra universitária, com o filme “Impermeável pavio curto”, levou o troféu Zózimo Bulbul.

“Subir ao palco para receber o primeiro prêmio Zózimo Bulbul do festival, que destaca a importância de artistas negros na frente e atrás da câmera, foi uma sensação muito incrível. Fui pego de surpresa, pois não sabia que estávamos concorrendo a esse prêmio, pois estávamos na competição de filmes universitários. Receber o prêmio das mãos de mulheres tão importantes para o cinema negro atual, que foram parte do júri, me deixou muito honrado. Dediquei o prêmio às atrizes que trabalharam comigo, Kauane tarcila e Juliana Floriano e também a toda a minha equipe”, comemora Higor Gomes.

O filme mineiro “Temporada”, de André Novais de Oliveira, levou o prêmio de melhor longa-metragem e rendeu à Grace Passô, que interpreta Juliana, o prêmio de melhor atriz. A produção ainda conquistou os prêmios de direção de arte, fotografia e ator coadjuvante, com Russão.

Outro destaque mineiro, o filme “Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados”, de Aiano Bemfica, Pedro Maia, Camila Bastos e Cristiano Araújo, levou o troféu de melhor curta-metragem.

Bate-papo com Higor Gomes

O jornal Contramão entrevistou o realizador Higor Gomes ainda durante o evento, antes de receber o reconhecimento através do prêmio. Na conversa, ele fez um passeio pela sua trajetória, experiências, processos do seu mais recente trabalho, sua carreira cinematográfica e propôs reflexões sobre as produções da contemporaneidade.

Higor revela que a ideia do filme “Impermeável pavio curto”, inspirada em sua mãe, partiu do trabalho de conclusão de curso da sua graduação. “Decidi escrever uma personagem impulsiva baseada em histórias da infância de minha mãe, Maria Edna, adolescente que não levava desaforos para casa. A partir dela, narrar uma trajetória de amadurecimento, que acompanha a fase da transição para a vida adulta de Jaqueline, personagem interpretada por Kauane Tarcila”, conta.

O diretor compartilha que o filme também foi impulsionado por outras inspirações que acabaram atravessando o roteiro com o passar dos aprimoramentos e trocas de vivências de amigas, amigos e também as lembranças dele no tempo de escola.

Diálogo e diversidade

O cineasta zelou por trazer diversidade negra e periférica para a equipe do projeto. “A ideia foi diversificar mesmo a equipe de produção e encher de pessoas negras e periféricas. Ótimos profissionais que eu tive a honra de conhecer na faculdade e que se tornaram meus amigos. Trazer pessoas para o projeto que tinham mais proximidade com os temas abordados, como o desconforto social e os lugares que nós filmamos, a escola pública e o meu bairro Itacolomi, em Sabará”, explica Gomes.

Esse olhar para a diversidade se traduziu em todos os processos de produção e realização do curta-metragem. “Nos preocupamos também em colocar pessoas negras não só atrás, mas também à frente das câmeras. No meu próprio bairro fizemos o casting das atrizes não profissionais que vivem, estudam e caminham pelas mesmas ruas da nossa quebrada para criar uma história nossa. Uma história que atravessa questões nossas, como autoestima e relações de afeto dentro e fora de casa. A equipe que montamos foi mais que essencial para tornar o filme crível, trazendo elementos que nós compartilhamos”, completa.

De acordo com o diretor, que se disse contente em ter participado do festival, a sua grande motivação sempre foi realizar o filme de modo que a história alcançasse as telonas e o público.

“Ficamos alegres por ter competido na mostra universitária (FestUni) no 51° Festival de Brasília pois acreditamos na importância do nosso filme estar lá, representando minha cidade Sabará, onde o filme foi realizado. É também um sinal de que há espaço para pessoas negras exibirem suas narrativas e tomar essa porcentagem que nos é negada. É necessário que abram alas para os realizadores que estão na luta para sobreviver no cinema que é um lugar elitista e onde nunca deram a mínima para nosso ponto de vista”, analisa Higor Gomes.

Assistente de câmera do também premiado “Temporada”, Higor afirma que ter trabalhado com André Novais foi a possibilidade de incursão em um longa-metragem. Além de ter despertado nele o desejo de fazer o próprio projeto. “Receber o convite para o filme do André me mostrou como podemos persistir, nos unir, contar nossas histórias e realizar um set de filmagem diverso”, celebra.

Agraciado pela oportunidade e acolhimento cedidos por André Novais e equipe, Higor reverbera desejos positivos para os futuros caminhos do “Temporada” e todos os envolvidos no processo.

Formação

O diretor destaca a faculdade, responsável por suscitar reflexões, na sua formação. O curso também possibilitou a ele conhecer profissionais e pessoas importantes do cinema, e, por consequência, trocas e visões sobre a área.

“Conheci e trabalhei com tantos amigos que estão se tornando hoje profissionais de grande competência e talento. As pessoas que trabalharam no ‘Impermeável Pavio Curto’ são profissionais que pretendo trabalhar junto para o resto da vida e também ajudar de alguma forma os trabalhos deles. Meus sócios, eu conheci na faculdade. Fundamos a produtora Ponta de Anzol, que segue fazendo filmes sociais e realizando um cinema descentralizado”,

Falta políticas públicas

Levando em consideração o momento político e social do país, Higor reflete sobre a nova geração de realizadores que pretendem produzir cinema no Brasil. Na visão dele, o cinema tem que ser fortalecido e democratizado.

“É um período de muita desmotivação para quem está começando, pois tudo indica que o cinema nacional não quer iniciantes. Querem profissionais grandes, renomados. Aqueles que conseguem financiamento com mais facilidade. Desta forma, para quem está começando, desmotivado, resta desistir. Porém mesmo sendo isto o que a atual gestão quer da gente, não podemos desistir”, argumenta.

Para o cineasta, ainda é preciso mudar o cenário atual para que mulheres, negros e gays ocupem cargos de importância nas produções dos filmes. “Precisamos de políticas que estejam preocupadas com nossos anseios e não somente interessadas nas grandes produtoras com currículo comercial inatingível. O cenário é de se preocupar, mas devemos persistir, pesquisar, nos engajar para melhorar as políticas do audiovisual e também em nossas leis municipais, que vivem em conflito. Assim, dar chances para quem está começando e também cuidar para implementar políticas de ações afirmativas que realmente deem apoio aos realizadores das periferias”, conclui.

SIMILAR ARTICLES

0 402

0 139

NO COMMENTS

Deixe uma resposta