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Belo Horizonte

Em clima de protesto, “Two Ladies” encerra a programação do FIT–BH 2018

Por Tawany Santos

Cena do espetáculo “Two Ladies”. Foto: Alexandre Guzanshe

O espetáculo “Two Ladies”, que narra a história de mulheres que passam por três momentos importantes da descoberta do seu feminino, foi responsável pelo encerramento do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, no último domingo, dia 23. A 14ª edição do evento trouxe como conceito norteador “Corpo dialetos”, através de uma curadoria, até então, inédita, contemplada por meio de edital.

O espetáculo com Gabriela Dominguez, Fábbio Guimarães, Lira Ribas e Will Soares, traz à tona a saga de duas mulheres em busca do emponderamento e em fase de desconstrução. A peça foi concebida em 2012, com uma cena curta “Two Ladies Golfers. Oh Drink! Oh eat!”, cheia de excessos. A cena mostra o que seria a mulher ideal, que está sempre disponível e é submissa.

Concepção

Cena do espetáculo “Two Ladies”. Foto: Alexandre Guzanshe

A partir desse primeiro experimento, surge a ideia de ampliar a cena e transformá-la em algo maior. “A gente achou interessante dar continuidade ao processo dessas duas mulheres até chegar onde elas vencem o que chamamos de sistema opressor que é representado pelo Will Soares”, explica a diretora Lira Ribas.

Por ser uma peça que fala da diversidade e aborda questões do feminino, em dos seus atos, em meio ao clima atual das eleições, os realizadores do espetáculo fazem no palco um manifesto político contra o candidato Jair Bolsonaro.

Hoje, a peça conta com três atos, “Two Ladies Golfers”, “Academia de Malvadas”, uma resposta para escola de princesas, e “Donas das Divinas Tetas”, que é o ato final onde elas se sagram mulheres empoderadas. O espetáculo ganhou forma com o passar dos anos, pelo grupo inteiro. “Acho que é legal falar também que o resumo disso tudo é um grupo de pessoas que se uniu por um conjunto de afinidades estéticas e de pensamentos. O “Two Ladies” eu costumo dizer é um espetáculo de várias mãos”, conta Gabriela Dominguez, atriz e diretora do espetáculo.

A peça foi apresentada em duas sessões durante o festival. O evento, segundo dados da Prefeitura de Belo Horizonte, atraiu cerca de 25 mil pessoas em apresentações em teatros, praças, e entre outros locais públicos da cidade.

 

 

A falta que me faz (2009)

Filme de Marília Rocha

por Rebeca Francoff

 

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.” – Guimarães Rosa

 


Atenta aos sopros de deslocamentos metamorfoseados da vida, Marília, em “A falta que me faz (2009)”, mergulha no efêmero da natureza: desejos são  levados pelo vento. Morros acolhem segredos. Sonhos banham-se de rio. Palavras escritas nas árvores, nos corpos, nas paredes, nos olhos. A impermanência é lembrança na pele; memórias brutas corpóreas vivendo as ações do tempo.  

A narrativa se desenvolve entre os morros de Curralinho, Minas Gerais: lugar que aparenta ser isolado e frio. Contudo, alegre, hospitaleiro e repleto de calor amigável. Acompanhamos parte da rotina das personagens principais Alessandra Ribeiro, Priscila Rodrigues, Shirlene Rodrigues, Valdênia Ribeiro e Paloma Campos. São mulheres que vivem desafios, mudanças e questionamentos. Enfrentamentos de questões complexas que juventude trás. De maneira poética, singela, fluída, intimista e carinhosa, Marília e equipe, mergulham nessas constelações que por força maior da natureza interna e externa transformam-se -mesmo que de forma singela. Sinto uma fortaleza energética conectora entre elas e a natureza: o espaço que elas vivem e a essência que habita dentro delas se movimentam e nessas movimentações, encontram-se; diluem-se.

O filme começa com fotografias. São mulheres. O corte das fotografias exclui seus rostos. Enquadra-se detalhes dos mapas de relevos em seus corpos,  cicatrizes que revelam tentativas de permanência mas também desvela a impermanência impulsionada pela imprevisibilidade da vida. É tempo de crescer. Enquanto somos inundados por estas imagens um som em off acontece. Uma voz doce canta sobre amor  e apesar de haver muita vida, sinto a presença da morte e da despedida. Transbordo de amor e de melancolia; tão bom morrer de amor e continuar vivendo¹.  

As personagens marcam também aquilo que querem esquecer. E se por um lado Marília opta por tirar os rostos na cena inicial, por outro lado ela redimensiona uma outra linguagem de individualidade para estes corpos através da música cantada – o extracampo me faz imaginar que a voz talvez seja de alguma daquelas mulheres fotografadas. Desta forma a voz além de criar identidade escreve o espaço com sentimentos.

Depois das fotografias a montagem opta por um olhar de fora. Distancia-se. Avistamos a natureza. Com o olhar contemplativo e estático, mulheres vistas de longe trabalham coletivamente em paisagens montanhosas. Com som ambiente  e cortes duros, a câmera, através da montagem, mergulha no universo dessas personagens. Em um bar, a câmera, agora em movimento, passa a deslizar sobre o espaço e acompanha algumas mulheres de perto. Elas dançam forró e a câmera, com leveza, dança também pelo espaço.

A narrativa do filme  é composta em maioria por mulheres. O  tempo das ações no espaço é respeitado.  O olhar contemplativo é também preenchido de água, aspereza das pedras, voos dos pássaros,  conversas íntimas, confidências, ingenuidade e estranhamentos. Marília faz poucas perguntas às  personagens que lidam com os aparatos tecnológicos com naturalidade e destacam-se simplesmente pela essência de serem transparentes. Embora acredito que há reservas intrínsecas em cada  resposta atravessada e olhar distante, afastado.

Ao decorrer do filme percebe-se que muitas têm opinião própria. Lutam por sua liberdade. Lutam por seu bem estar.  Amam. Querem formar família, entretanto, também sabem opinar por ficar sozinhas. A dialética entre apego e desapego, aridez e alagamento, aproximação e afastamento, descobre em véu translúcido o que é indefinível  no ser: a alma.  

O documentário mostra com  delicadeza as cenas íntimas  nos quartos das personagens. O clima é carinhoso e por vezes melancólico, saudoso. Há lacunas e também presenças – memórias. As conversas desenrolam entre a intensidade e a leveza. Cuidam umas das outras e refletem sobre vida, passado, presente e futuro.  Traumas, angústias, amores, família e amizade. Cuidam do cabelo, das unhas e se enfeitam com anéis. Querem ficar bonitas após horas e horas de trabalho duro em lavoura e em casa.

Foto de divulgação

Com olhar lento, calmo e respeitoso, a singularidade cotidiana retratada através do sonora e visual em A falta que me faz destaca-se. As personagens, formadas pela escola da vida, têm esperança nos olhos.  Moram em um local que o alfabetismo é pouco desenvolvido, onde o desenvolvimento cultural como teatro e cinema é restrito. Porém  muitas encontram momentos para se divertir, amar e dançar. Vivem com humor e ingenuidade.

Foto de divulgação

Próximo do final depara-se com uma cena curiosa. Uma das personagens passa a fazer perguntas para a equipe. A escolha  da permanência desta cena não me parece ser ingenuidade. Existe defesa poética de criação sobre o significado e quais as dimensões de liberdade que o fazer documentário  trás. Simboliza também a curiosidade com o novo: o interesse por descobrir o outro das duas partes. Todos acolhem o jogo da mudança, falam sobre inseguranças, laços construídos por meio do encontro e futuro. Silêncio.

Em uma moto, desloca uma das personagens principais juntamente com um rapaz – há algo misterioso no olhar da personagem que me prende profundamente. Trilha sonora. Filma-se a estrada em movimento. Percebe-se a despedida de Curralinho juntamente com o filme. Flutuantes refletimos sobre as mulheres que vivem naquele cenário. Somos passageiros na vida. Inacabados, seguimos em frente. Partimos em vários. Se ficam também.

Cena do filme ”A falta que me faz” de Marília Rocha.

 

 

  1. Frase do  poeta, tradutor e jornalista brasileiro Mário Quintana (Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994).  

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Produções e realizadores do cinema mineiro são destaques na premiação da 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na noite de ontem, dia 23

Por Patrick Ferreira e Rebeca Francoff

A noite da premiação da 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,  ontem, dia 23, contemplou produções e realizadores do cinema mineiro. O estudante de cinema e audiovisual do Centro Universitário UNA, Higor Gomes, que competiu na mostra universitária, com o filme “Impermeável pavio curto”, levou o troféu Zózimo Bulbul.

“Subir ao palco para receber o primeiro prêmio Zózimo Bulbul do festival, que destaca a importância de artistas negros na frente e atrás da câmera, foi uma sensação muito incrível. Fui pego de surpresa, pois não sabia que estávamos concorrendo a esse prêmio, pois estávamos na competição de filmes universitários. Receber o prêmio das mãos de mulheres tão importantes para o cinema negro atual, que foram parte do júri, me deixou muito honrado. Dediquei o prêmio às atrizes que trabalharam comigo, Kauane tarcila e Juliana Floriano e também a toda a minha equipe”, comemora Higor Gomes.

O filme mineiro “Temporada”, de André Novais de Oliveira, levou o prêmio de melhor longa-metragem e rendeu à Grace Passô, que interpreta Juliana, o prêmio de melhor atriz. A produção ainda conquistou os prêmios de direção de arte, fotografia e ator coadjuvante, com Russão.

Outro destaque mineiro, o filme “Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados”, de Aiano Bemfica, Pedro Maia, Camila Bastos e Cristiano Araújo, levou o troféu de melhor curta-metragem.

Bate-papo com Higor Gomes

O jornal Contramão entrevistou o realizador Higor Gomes ainda durante o evento, antes de receber o reconhecimento através do prêmio. Na conversa, ele fez um passeio pela sua trajetória, experiências, processos do seu mais recente trabalho, sua carreira cinematográfica e propôs reflexões sobre as produções da contemporaneidade.

Higor revela que a ideia do filme “Impermeável pavio curto”, inspirada em sua mãe, partiu do trabalho de conclusão de curso da sua graduação. “Decidi escrever uma personagem impulsiva baseada em histórias da infância de minha mãe, Maria Edna, adolescente que não levava desaforos para casa. A partir dela, narrar uma trajetória de amadurecimento, que acompanha a fase da transição para a vida adulta de Jaqueline, personagem interpretada por Kauane Tarcila”, conta.

O diretor compartilha que o filme também foi impulsionado por outras inspirações que acabaram atravessando o roteiro com o passar dos aprimoramentos e trocas de vivências de amigas, amigos e também as lembranças dele no tempo de escola.

Diálogo e diversidade

O cineasta zelou por trazer diversidade negra e periférica para a equipe do projeto. “A ideia foi diversificar mesmo a equipe de produção e encher de pessoas negras e periféricas. Ótimos profissionais que eu tive a honra de conhecer na faculdade e que se tornaram meus amigos. Trazer pessoas para o projeto que tinham mais proximidade com os temas abordados, como o desconforto social e os lugares que nós filmamos, a escola pública e o meu bairro Itacolomi, em Sabará”, explica Gomes.

Esse olhar para a diversidade se traduziu em todos os processos de produção e realização do curta-metragem. “Nos preocupamos também em colocar pessoas negras não só atrás, mas também à frente das câmeras. No meu próprio bairro fizemos o casting das atrizes não profissionais que vivem, estudam e caminham pelas mesmas ruas da nossa quebrada para criar uma história nossa. Uma história que atravessa questões nossas, como autoestima e relações de afeto dentro e fora de casa. A equipe que montamos foi mais que essencial para tornar o filme crível, trazendo elementos que nós compartilhamos”, completa.

De acordo com o diretor, que se disse contente em ter participado do festival, a sua grande motivação sempre foi realizar o filme de modo que a história alcançasse as telonas e o público.

“Ficamos alegres por ter competido na mostra universitária (FestUni) no 51° Festival de Brasília pois acreditamos na importância do nosso filme estar lá, representando minha cidade Sabará, onde o filme foi realizado. É também um sinal de que há espaço para pessoas negras exibirem suas narrativas e tomar essa porcentagem que nos é negada. É necessário que abram alas para os realizadores que estão na luta para sobreviver no cinema que é um lugar elitista e onde nunca deram a mínima para nosso ponto de vista”, analisa Higor Gomes.

Assistente de câmera do também premiado “Temporada”, Higor afirma que ter trabalhado com André Novais foi a possibilidade de incursão em um longa-metragem. Além de ter despertado nele o desejo de fazer o próprio projeto. “Receber o convite para o filme do André me mostrou como podemos persistir, nos unir, contar nossas histórias e realizar um set de filmagem diverso”, celebra.

Agraciado pela oportunidade e acolhimento cedidos por André Novais e equipe, Higor reverbera desejos positivos para os futuros caminhos do “Temporada” e todos os envolvidos no processo.

Formação

O diretor destaca a faculdade, responsável por suscitar reflexões, na sua formação. O curso também possibilitou a ele conhecer profissionais e pessoas importantes do cinema, e, por consequência, trocas e visões sobre a área.

“Conheci e trabalhei com tantos amigos que estão se tornando hoje profissionais de grande competência e talento. As pessoas que trabalharam no ‘Impermeável Pavio Curto’ são profissionais que pretendo trabalhar junto para o resto da vida e também ajudar de alguma forma os trabalhos deles. Meus sócios, eu conheci na faculdade. Fundamos a produtora Ponta de Anzol, que segue fazendo filmes sociais e realizando um cinema descentralizado”,

Falta políticas públicas

Levando em consideração o momento político e social do país, Higor reflete sobre a nova geração de realizadores que pretendem produzir cinema no Brasil. Na visão dele, o cinema tem que ser fortalecido e democratizado.

“É um período de muita desmotivação para quem está começando, pois tudo indica que o cinema nacional não quer iniciantes. Querem profissionais grandes, renomados. Aqueles que conseguem financiamento com mais facilidade. Desta forma, para quem está começando, desmotivado, resta desistir. Porém mesmo sendo isto o que a atual gestão quer da gente, não podemos desistir”, argumenta.

Para o cineasta, ainda é preciso mudar o cenário atual para que mulheres, negros e gays ocupem cargos de importância nas produções dos filmes. “Precisamos de políticas que estejam preocupadas com nossos anseios e não somente interessadas nas grandes produtoras com currículo comercial inatingível. O cenário é de se preocupar, mas devemos persistir, pesquisar, nos engajar para melhorar as políticas do audiovisual e também em nossas leis municipais, que vivem em conflito. Assim, dar chances para quem está começando e também cuidar para implementar políticas de ações afirmativas que realmente deem apoio aos realizadores das periferias”, conclui.

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Jo Clifford no espetáculo Eve. Foto: Divulgação

A atriz e dramaturga escocesa Jo Clifford retorna a Belo Horizonte com espetáculo Eve, que faz referência a sua transição de gênero; espetáculo integra a programação do FIT-BH

Por Patrick Ferreira

“Meu trabalho como atriz só é possível por causa da minha transição”, sentencia Jo Clifford. A também dramaturga escocesa retorna a Belo Horizonte para, mais uma vez, apresentar-se no Festival Internacional de Teatro Palco e Rua, que chega a sua 14ª edição. Em 2016, a artista, de passagem pela capital das alterosas, encenou o polêmico Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Desta vez, ela traz ao FIT-BH seu novo espetáculo, Eve, apresentado no teatro Marília, ontem e hoje, dia 21.

Na sua primeira vez no Brasil, Jo percebeu certa resistência por parte da sociedade ao monólogo Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Segmentos religiosos protestaram, em São Paulo, contra o espetáculo, que trazia a figura de Jesus vivendo como uma pessoa trans.

“A inacreditável hostilidade, violência e censura que esta peça sofreu no Brasil me faz muito consciente das dificuldades que nós [transexuais] enfrentamos em seu país. Isso torna ainda mais importante que eu faça tudo o que puder para promover a justiça e os direitos humanos para as pessoas trans, aqui e em toda parte”, insiste.

Jo Clifford desembarca na capital mineira com a mesma motivação da primeira vez e traz consigo a montagem Eve, que propõe uma reflexão sobre as experiências pelas quais pessoas trans passam na sociedade. O texto do espetáculo, em alguns momentos, confunde-se com situações vividas pela atriz e dramaturga.

“Há alguns anos, pediram que eu desse uma palestra para um grupo de estudantes de psicologia sobre como é ser transexual. Combinei a palestra com fotos da minha infância e mais tarde, no mesmo ano, dei a mesma palestra para uma companhia de teatro em São Paulo como parte de sua pesquisa sobre uma peça que eles estavam fazendo sobre ser trans. Ambos os grupos foram muito positivos sobre o que eu disse, e me ocorreu que é muito importante que as pessoas entendam de uma maneira humana e sejam capazes a ter empatia com a experiência de uma pessoa trans. Que isso seria uma ferramenta poderosa para acabar com o preconceito. E minha filha, Katie, tem me dito há anos: ‘Papai, você realmente deveria escrever sua autobiografia. E assim, eu tenho’, relata Jo Clifford sobre o processo de criação do espetáculo Eve.

No espetáculo Eve, Jo Clifforf resgata a história de como o trauma que experimentou quando menino, ao descobrir que seria mais feliz vivendo como uma garota, em uma atmosfera totalmente repressiva, em que cresceu, estava ligado a interpretar papéis de garotas no palco.

“O teatro ficou ligado ao trauma e, embora fosse claramente minha vocação, não consegui encontrar minha voz como dramaturgo até os 35 anos, 20 anos depois daquela experiência e, depois de muitos anos, simplesmente acreditei que nunca agiria. Só nos meus cinquenta anos, quando me tornei totalmente comprometida em viver como mulher, comecei a acreditar que talvez pudesse também agir. E é só agora, nos meus sessenta anos, quando estou muito confortável com a minha identidade feminina que me sinto totalmente confiante como performer. Eu amo isso. Foi minha vocação o tempo todo. Mas como eu digo na peça, levei 50 anos para chegar aqui”, relembra.

Amadurecimento e desafios

Para a dramaturga, a verve artística amadureceu muito depois de sua transição. A insatisfação consigo e posteriormente a mudança de gênero se refletiu no processo da Jo Clifforfd enquanto artista. “Quando vivi como homem, simplesmente não conseguia agir. Eu estava muito envergonhada e muito tímida”, conta.

Em sua carreira, ela teve que lidar com alguns desafios extras que sobrepõem a vida de uma atriz. Talvez, o mais difícil apresentado a ela tenha sido o conservadorismo. Por um tempo, receou que fosse censurada e teve que lidar com a dificuldade de encontrar profissionais para encenar os seus textos. Por conta dos obstáculos encontrados, tomou a decisão de produzir e atuar as próprias obras.

“A principal resistência, por muitos anos, estava em mim mesma. Houve manifestações ferozes contra o meu Evangelho Segundo, Jesus Rainha do Céu quando eu fiz a primeira peça em Glasgow, em 2009. As pessoas estavam com muito medo de permitir que eu me apresentasse em seus locais, por alguns anos, depois disso. Ainda enfrento discriminação como atriz trans, e a única maneira de conseguir personagens decentes é escrevê-las eu mesmo”, confessa.

O palco como lugar de resistência

As relações humanas, para Jo Clifford, estão cada vez mais impessoais e mercantilizadas, o que faz com que o momento nas salas de teatro sejam ambientes de compartilhamento de ideias semelhantes. Estar no palco é algo muito intenso para a dramaturga. No FIT-BH, em 2016, ela chegou ao ponto de desmaiar na sua segunda apresentação. Contudo, guarda boas recordações do público e da cidade.

“Eu amei sua cidade. As pessoas são tão acolhedoras e gentis. Infelizmente minha saúde não foi tão boa e eu desmaiei no palco. Mas a bondade que recebi foi esmagadora. Estou muito feliz em voltar e fazer parte do festival novamente”, afirma a atriz.

Em relação às expectativas para a apresentação de Eve, no FIT-BH, o entusiasmo é o mesmo. Ela segue acreditando na força do teatro como algo capaz de transformar a plateia. “Estou incrivelmente orgulhosa por estar retornando nesta produção que é apoiada e criada pelo National Theatre of Scotland. Isso, por si só, emite uma mensagem poderosa. As pessoas trans ainda enfrentam grandes problemas em meu país e precisamos continuar trabalhando para melhorar as coisas”, conclui.

SERVIÇO:

Eve (da atriz e dramaturga Jo Clifford)
Data: 20/09 e 21/09
Horário: 19 horas
Local: Teatro Marília
Endereço: Av. Professor Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia

A programação completa do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte você encontra no endereço: fitbh.com.br

Performance Looping: Bahia Overdub. Foto: Guilherme Jardim
Apresentação da performance Looping: Bahia Overdub, na última quinta-feira, dia 13, no Parque Municipal. Foto: Mateus Araújo
A abertura da 14ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, atração que entrou de vez para o calendário cultural da cidade, reuniu cerca de cinco mil pessoas no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no centro da capital mineira, na última quinta-feira, dia 13. O evento inovou mais uma vez ao trazer para o espaço público atrações que rompem com a linguagem e estética teatral. As performances “Looping: Bahia Overdub” e “Batucada” foram as responsáveis por abrir a mostra e criar junto ao público uma forte interação.

 

O tema escolhido para este ano, Corpos-Dialetos, tem o intuito trazer ao público “Urgências históricas e sociais de indivíduos e grupos não neutros, recusando a ideia de que exista um ‘sujeito padrão’ que possa servir de exemplo ou determinar a experiência de vida das demais pessoas”. No primeiro dia de festival, intervenções teatrais vieram com propostas de quebrar paradigmas e fazer com que o público interagisse com o espetáculo.

A performance baiana Looping: Bahia Overdub, de Felipe de Assis, Leonardo França e Rita Aquino, foi um dos destaques da primeira noite. O espetáculo trouxe referências da cultura afro-brasileira, da música popular e sonoridades urbanas diversas. A plateia ficou contagiada com a interatividade da apresentação. Os bailarinos, incorporados ao público, conduziram uma dança com movimentos propostos por correntes de pessoas.

Em meio à multidão, artistas e público formavam um só corpo, misturavam sensações e contato físico fomentando uma dança coletiva, ao som de batidas baianas e luzes baixas, se assemelhando a uma festa.

O espetáculo contou com cerca de 120 integrantes voluntários inscritos em um edital antes do início do festival. Para a realização da performance coletiva, artistas da companhia chegaram a Belo Horizonte uma semana antes do festival.

“As pessoas precisam de mais cultura, e nós, através desta apresentação, aprendemos que não existe barreira entre artista e público, é possível interagir. Não é só estar em cima de um palco e ser a estrela do espetáculo. Quando o público interage, o trabalho passa a fazer sentido”, afirma a estudante de teatro Bruna Gomes.

Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT 2018)

Criado em 1994, o FIT-BH promove sua 14ª edição, com diversos espetáculos através da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e da Fundação Municipal de Cultura (FMC) e Instituto Periférico. O conceito “Corpos-Dialetos”, proposto pela curadoria de Grace Passô, Luciana Romagnolli e Soraya Martins, norteou toda a programação do evento.

O festival se estende entre até o dia 23 de setembro e a programação completa está disponível no site oficial fitbh.com.br e redes sociais: facebook.com/fitbelohorizonte e @fitbh.

Estatuetas customizadas em tamanho real de um bebê elefante, encontram-se espalhadas pela cidade.
Por Moíses Martins

Uma das maiores exposições de Arte Pública do Mundo, Elephant Parade, desembarcou recentemente na capital mineira. O projeto começou em 2006, com inspiração em Mosha, um bebê elefante de 7 meses que teve uma de suas patas dianteiras amputadas depois que pisou em uma mina terrestre, próximo à fronteira entre Tailândia e Mianmar. A Elephant Parade foi a forma encontrada para buscar recursos para cuidar da elefanta Mosha, comprar sua prótese anualmente (uma vez que o tamanho da prótese muda conforme ela cresce), além de ajudar todos os outros elefantes asiáticos que sofrem com as minas terrestres e com os maus tratos praticados por caçadores em busca de Marfim (material arrancado das presas dos elefantes).

Querubins | Foto Moisés Martins

Ao final de cada exposição, as estátuas de elefantes são leiloados e parte da quantia arrecadada é destinada à filantropia local, a projetos de preservação dos elefantes e aos artistas participantes.

O maior valor pago por uma estátua da Elephant Parade em um leilão foi de £155,000 o que equivale aproximadamente R$ 724.555. A estátua foi criada pelo artista Jack Vettriano, em 2010, na Elephant Parade London.

O ateliê de pintura oficial, bem como a exposição dos elefantes, está acontecendo no Shopping Pátio Savassi, onde ficará exposta até o dia 15 de maio. Outras peças também estão expostas em áreas livres da cidade, como Praça da Liberdade e Praça da Savassi.