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Crônica

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Foto: tumblr

Eu o encontro todos os dias na Avenida Silviano Brandão. No ponto de ônibus. Nunca conversarmos. Mas me chama a atenção seu jeito triste. Sempre com um fone nos ouvidos. Sempre com um cigarro na boca. Sempre com um livro em mãos. Nunca ri. Nunca fala com ninguém. Ele é sozinho. Pelo menos é o que eu percebo nos minutos que ficamos juntos esperando o ônibus. Não posso evitar querer saber mais sobre ele.

Talvez este rapaz não seja triste. Talvez esteja apenas cansado do longo dia trabalho. Talvez não goste de conversar ou de sorrir depois de levar uma bronca de seu chefe por demorar a voltar do horário de almoço. Talvez ele seja feliz, muito feliz. Mas meus olhos o veem daquele jeito, e isso me faz pensar em como a tristeza está presente em nós.

Seus grandes olhos azuis não possuem um brilho, seus cabelos perfeitamente bagunçados ficam escondidos por um boné, sinto-me atraída por todo aquele mistério e solidão que o cerca.

Ele fuma para sentir um pouco de satisfação em algo. Mas isso só denuncia seu vazio, sua solidão. Talvez seja daí que venha sua tristeza: do desamparo, da rejeição por ter um emprego ruim, por fazer um curso no qual não se sente feliz. Talvez.

Meu rapaz solitário não ouve os sons do mundo. Ele está sempre com seus enormes fones nos ouvidos. Talvez ouça músicas alegres para espantar os pensamentos tristes que insistem em lembrá-lo o enfado do dia a dia. Mas talvez goste simplesmente de esquecer que a realidade emite sons desagradáveis. Talvez ele queira apenas fugir no barulho de um rádio ou em uma canção que a faça acreditar que a vida será melhor.

Continuo sentada no banco do ponto de ônibus. Ele entra no ônibus que o levará para casa ou até à faculdade. Não há despedidas, mas ele olha para trás uma ultima vez. Eu sei que o encontrarei no próximo dia e ele talvez saiba que irá me encontrar também.

Por Isabella Silmarovi

 

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Foto Reproduão

Todos os chamavam de Sô Zé, depois de alguns dias apenas Zé ou Zé do Suco, era um senhor que estava mais para rapaz, era o único com disposição para ir do primeiro ao último andar, parecia estar sempre perseguindo sua borboleta amarela, menos na hora do futebol na TV, assistia com atenção e ao mesmo tempo parecia não se importar, mas na hora de me contar sobre a partida, qualquer jogo se transformava em uma emocionante final de campeonato. Zé tinha um hábito diferente, uma gaveta destinada apenas para sucos, que poderiam ser preparados a qualquer momento, às vezes mais de cincos sucos por dia.

Zé carregava em seu peito seu amuleto, na primeira esbarrada em alguém, já ia todo orgulhoso, e como um pavão, mostrava seu amuleto que vinha sempre acompanhado da história de como o conseguiu. Em todos os corredores, só se ouvia falar em política, até que Zé aparecia, e não havia sequer uma pessoa que não se espantava ou se encantava com seu amuleto, sua história e sua gaveta de sucos. Em alguns dias ele parecia ser uma atração turística, desde médicos a policiais, de estudantes a professores, sempre apareciam novos grupos, querendo ver o amuleto e ouvir sua história. Mais interessante que sua história, era o próprio Zé, seu carisma era reconfortante, era satisfatório saber que ele continuava ali, com seu amuleto, conversando qualquer fiado quando ninguém mais parecia querer falar.

Era primeiro de maio, Zé estava distribuindo simpatia, desejando feliz dia do trabalhador a todos, principalmente na hora do querido almoço, nesses dias mais queridos ainda. Estava bem mais feliz que em outros dias, foram mais sucos que o habitual, até esqueceu-se de falar do seu amuleto, só me falava que finalmente ia embora em breve. No inicio da noite desse mesmo dia, Zé fechou as janelas e começou a reclamar da frente fria, que a maioria não sentia.

Mas foi pela madrugada que a situação piorou, Zé parecia estar de calundu, mas na verdade uma parte de seu amuleto desprendeu-se, talvez isso explicasse o frio exagerado. Só tive tempo de ver Zé saindo às pressas, não sei em que direção, acho que sabia, mas preferia continuar sem saber. Só tive noticias dele no outro dia, até que mais tarde ele reapareceu, mas não era mais o Zé do Suco. Ficava quase que todo o tempo em silêncio, sua gaveta ficava intacta e o papo antes trocado parecia improvável.

Alguns eternos dias se passaram, e Zé parecia a cada instante mais distante de todos. Até que recebi a mesma notícia que tanto o empolgou, eu iria embora. O mesmo entusiasmo que o atingiu, chegou até mim, mas não tinha graça. Fui até Zé, para dar o meu adeus e o agradecer pela companhia dos difíceis dias, mas não o encontrei. Não sei ao certo, parece que seu amuleto continuou se desprendendo, e ele foi novamente às pressas para outro lugar. Nunca mais o vi, até tentei, mas não consegui. Zé do Suco não é desses que carrega um telefone no bolso. De qualquer forma, me fiz necessário em dizer, mesmo que nunca ouça, adeus e obrigado Sô Zé!

Por João Victor Castro

O humorista, ator e escritor, Gregório Duvivier, 28, esteve na Bienal do Livro no sábado, 15, para um bate-papo com fãs. Em conjunto com a cantora Adriana Calcanhotto, 49, ele recitou poemas e falou de sua preferência por autores e livros. E entre um pedaço de pizza e um copo de refrigerante cedeu uma entrevista ao Contramão.

_”Vocês não importam de eu comer não né? Não comi nada o dia inteiro”.

Falou de suas influências literárias, sua fase como colunista e as polêmicas que esses textos trouxeram para sua carreira.

051116_010  (Gregório recita trechos do seu poema Ligue os pontos)

Literatura:

“É muito difícil falar livros da vida toda. Eu gosto muito de estrangeiros, do Philip Roth, um dos livros dele, O animal agonizante, é lindo. De literatura brasileira eu sou apaixonado com o João Ubaldo Ribeiro, o Viva o Povo brasileiro é magnífico. Rubens Figueiredo com Barco a Seco, Machado de Assis que é genial com Dom Casmurro,  do Campos de Carvalho tem a “Vaca de nariz sutil, gosto muito de todos esses.

Acho que tem muita coisa nova e boa de literatura hoje em dia. Antônio Prata e Fabricio Corsaletti eu sou apaixonado. Na poesia tem Alice Sant’Anna e Bruna Beber, e muitos outros bons.

Tem alguns livros que me fizeram gostar muito de ler, e acho que tem que começar por eles, não dá pra começar pelos clássicos. Gênio do Crime, lembra? Eu adorava, eu li ele com oito ou nove anos e fiquei apaixonado. Um tipo bom de livro pra cativar o leitor é Matilda do Roald Dah, adorava, li mil vezes, também é da literatura estrangeira. No Brasil tem ótimos livros juvenis, Adriana Falcão tem uns muito bons, “Luna Clara e Apolo 11” é um livro lindo.

Recentemente acabei de ler um livro da Chimamanda Ngozi, é uma autora nigeriana da Companhia das Letras, o livro fala sobre identidade nigeriana africana, o que é ser africano hoje em dia. É um romance maravilhoso.”

Identificação com a escrita

“Minha paixão pela escrita veio na faculdade mesmo, eu gostava de ler, mas escrever mesmo, só na faculdade. O professor que me motivou foi o Paulo Henriques Britto.”

A nova fase do colunista retrata bem um profissional que é multifacetado, do palco para a internet, de lá para o cinema e dele para as páginas do jornal.  E em todas as mídias trabalhadas por Duvivier ele sempre trouxe a temática do humor. Na entrevista foi questionado se agora nos textos há um limite no humor para que seu espaço no jornal não seja interpretado como brincadeira, e foi bem enfático ao responder.

“Eu gosto na verdade disso, de a pessoa ficar pensando se é uma brincadeira ou não. Eu acho que isso é bom, esse tipo de provocação. É bom porque todo mundo quando lê uma coisa tem que duvidar um pouco, as pessoas têm que parar de acreditar em tudo que lê. Então acho bom brincar com isso ‘será que esse cara está falando sério, ‘será que ele não está’, eu adoro esse lugar entre o humor e o jornalismo. Então como o jornal é um lugar de seriedade, quando você escreve, as pessoas acham que você está falando sério.”

Há diferença entre o público da internet e do jornal?

“Não! Eu não vejo muito assim, eu acho que é o mesmo público. O público que me lê na Folha é o mesmo que me acompanha. As pessoas volta e meia perguntam, ‘como vou escrever para um público adolescente?’. Aí fazem umas coisas bobas pra adolescentes, eles gostam de qualidade, como qualquer pessoa. Se você faz uma coisa boa o adolescente vai gostar, de verdade. Esse foco no adolescente eu acho ruim, por exemplo, quer focar na internet e fazer uma coisa bombar? Isso não existe, se for bom vai fazer sucesso na internet ou no cinema. Acho que o Porta dos Fundos, por exemplo, poderia acontecer no cinema ou na televisão. O que mais viraliza no mundo é a qualidade.”

Polêmica durante as eleições:

Durante o período eleitoral Gregório escreveu alguns textos que incomodou algumas pessoas adeptas a partidos políticos de direita. O motivo foi o humorista ter declarado apoio à candidatura da petista Dilma Rousseff, em alguns textos. Dá pra citar como exemplo a crônica “Chupa, Dado”, em que ele revida as críticas recebidas pelo ator Dado Dolabella, 34, e explica os motivos de ter declarado seu voto no PT.

A nova publicação também teve um grande número de visualizações e críticas, e o autor explicou à nossa equipe como interpretou e lidou com esse momento.

“Escrever pra jornal é outro tipo de relação com o leitor, porque as pessoas já leem jornal com pedras nas mãos. Já veem querendo te julgar e odiar. Na primeira crônica já tinha gente me xingando. Nas minhas crônicas gosto de expor a minha opinião, que é no geral mais de esquerda. E as pessoas tem ódio da esquerda no Brasil, a gente tem uma direita muita raivosa e medrosa no Brasil. Dizendo que tudo vai virar uma ditadura ou vai virar Cuba. Basta dar uma opinião um pouquinho mais forte que você vai ser xingado. Triste né?”

Gregório escritor:

“Estou escrevendo um livro, um romance. Na verdade nem tem nome ainda. É um projeto para o ano que vem.”

 

Texto e foto: Ítalo Lopes

Audio: Priscila Mendis