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Em clima de protesto, “Two Ladies” encerra a programação do FIT–BH 2018

Por Tawany Santos

Cena do espetáculo “Two Ladies”. Foto: Alexandre Guzanshe

O espetáculo “Two Ladies”, que narra a história de mulheres que passam por três momentos importantes da descoberta do seu feminino, foi responsável pelo encerramento do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, no último domingo, dia 23. A 14ª edição do evento trouxe como conceito norteador “Corpo dialetos”, através de uma curadoria, até então, inédita, contemplada por meio de edital.

O espetáculo com Gabriela Dominguez, Fábbio Guimarães, Lira Ribas e Will Soares, traz à tona a saga de duas mulheres em busca do emponderamento e em fase de desconstrução. A peça foi concebida em 2012, com uma cena curta “Two Ladies Golfers. Oh Drink! Oh eat!”, cheia de excessos. A cena mostra o que seria a mulher ideal, que está sempre disponível e é submissa.

Concepção

Cena do espetáculo “Two Ladies”. Foto: Alexandre Guzanshe

A partir desse primeiro experimento, surge a ideia de ampliar a cena e transformá-la em algo maior. “A gente achou interessante dar continuidade ao processo dessas duas mulheres até chegar onde elas vencem o que chamamos de sistema opressor que é representado pelo Will Soares”, explica a diretora Lira Ribas.

Por ser uma peça que fala da diversidade e aborda questões do feminino, em dos seus atos, em meio ao clima atual das eleições, os realizadores do espetáculo fazem no palco um manifesto político contra o candidato Jair Bolsonaro.

Hoje, a peça conta com três atos, “Two Ladies Golfers”, “Academia de Malvadas”, uma resposta para escola de princesas, e “Donas das Divinas Tetas”, que é o ato final onde elas se sagram mulheres empoderadas. O espetáculo ganhou forma com o passar dos anos, pelo grupo inteiro. “Acho que é legal falar também que o resumo disso tudo é um grupo de pessoas que se uniu por um conjunto de afinidades estéticas e de pensamentos. O “Two Ladies” eu costumo dizer é um espetáculo de várias mãos”, conta Gabriela Dominguez, atriz e diretora do espetáculo.

A peça foi apresentada em duas sessões durante o festival. O evento, segundo dados da Prefeitura de Belo Horizonte, atraiu cerca de 25 mil pessoas em apresentações em teatros, praças, e entre outros locais públicos da cidade.

 

 

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Jo Clifford no espetáculo Eve. Foto: Divulgação

A atriz e dramaturga escocesa Jo Clifford retorna a Belo Horizonte com espetáculo Eve, que faz referência a sua transição de gênero; espetáculo integra a programação do FIT-BH

Por Patrick Ferreira

“Meu trabalho como atriz só é possível por causa da minha transição”, sentencia Jo Clifford. A também dramaturga escocesa retorna a Belo Horizonte para, mais uma vez, apresentar-se no Festival Internacional de Teatro Palco e Rua, que chega a sua 14ª edição. Em 2016, a artista, de passagem pela capital das alterosas, encenou o polêmico Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Desta vez, ela traz ao FIT-BH seu novo espetáculo, Eve, apresentado no teatro Marília, ontem e hoje, dia 21.

Na sua primeira vez no Brasil, Jo percebeu certa resistência por parte da sociedade ao monólogo Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Segmentos religiosos protestaram, em São Paulo, contra o espetáculo, que trazia a figura de Jesus vivendo como uma pessoa trans.

“A inacreditável hostilidade, violência e censura que esta peça sofreu no Brasil me faz muito consciente das dificuldades que nós [transexuais] enfrentamos em seu país. Isso torna ainda mais importante que eu faça tudo o que puder para promover a justiça e os direitos humanos para as pessoas trans, aqui e em toda parte”, insiste.

Jo Clifford desembarca na capital mineira com a mesma motivação da primeira vez e traz consigo a montagem Eve, que propõe uma reflexão sobre as experiências pelas quais pessoas trans passam na sociedade. O texto do espetáculo, em alguns momentos, confunde-se com situações vividas pela atriz e dramaturga.

“Há alguns anos, pediram que eu desse uma palestra para um grupo de estudantes de psicologia sobre como é ser transexual. Combinei a palestra com fotos da minha infância e mais tarde, no mesmo ano, dei a mesma palestra para uma companhia de teatro em São Paulo como parte de sua pesquisa sobre uma peça que eles estavam fazendo sobre ser trans. Ambos os grupos foram muito positivos sobre o que eu disse, e me ocorreu que é muito importante que as pessoas entendam de uma maneira humana e sejam capazes a ter empatia com a experiência de uma pessoa trans. Que isso seria uma ferramenta poderosa para acabar com o preconceito. E minha filha, Katie, tem me dito há anos: ‘Papai, você realmente deveria escrever sua autobiografia. E assim, eu tenho’, relata Jo Clifford sobre o processo de criação do espetáculo Eve.

No espetáculo Eve, Jo Clifforf resgata a história de como o trauma que experimentou quando menino, ao descobrir que seria mais feliz vivendo como uma garota, em uma atmosfera totalmente repressiva, em que cresceu, estava ligado a interpretar papéis de garotas no palco.

“O teatro ficou ligado ao trauma e, embora fosse claramente minha vocação, não consegui encontrar minha voz como dramaturgo até os 35 anos, 20 anos depois daquela experiência e, depois de muitos anos, simplesmente acreditei que nunca agiria. Só nos meus cinquenta anos, quando me tornei totalmente comprometida em viver como mulher, comecei a acreditar que talvez pudesse também agir. E é só agora, nos meus sessenta anos, quando estou muito confortável com a minha identidade feminina que me sinto totalmente confiante como performer. Eu amo isso. Foi minha vocação o tempo todo. Mas como eu digo na peça, levei 50 anos para chegar aqui”, relembra.

Amadurecimento e desafios

Para a dramaturga, a verve artística amadureceu muito depois de sua transição. A insatisfação consigo e posteriormente a mudança de gênero se refletiu no processo da Jo Clifforfd enquanto artista. “Quando vivi como homem, simplesmente não conseguia agir. Eu estava muito envergonhada e muito tímida”, conta.

Em sua carreira, ela teve que lidar com alguns desafios extras que sobrepõem a vida de uma atriz. Talvez, o mais difícil apresentado a ela tenha sido o conservadorismo. Por um tempo, receou que fosse censurada e teve que lidar com a dificuldade de encontrar profissionais para encenar os seus textos. Por conta dos obstáculos encontrados, tomou a decisão de produzir e atuar as próprias obras.

“A principal resistência, por muitos anos, estava em mim mesma. Houve manifestações ferozes contra o meu Evangelho Segundo, Jesus Rainha do Céu quando eu fiz a primeira peça em Glasgow, em 2009. As pessoas estavam com muito medo de permitir que eu me apresentasse em seus locais, por alguns anos, depois disso. Ainda enfrento discriminação como atriz trans, e a única maneira de conseguir personagens decentes é escrevê-las eu mesmo”, confessa.

O palco como lugar de resistência

As relações humanas, para Jo Clifford, estão cada vez mais impessoais e mercantilizadas, o que faz com que o momento nas salas de teatro sejam ambientes de compartilhamento de ideias semelhantes. Estar no palco é algo muito intenso para a dramaturga. No FIT-BH, em 2016, ela chegou ao ponto de desmaiar na sua segunda apresentação. Contudo, guarda boas recordações do público e da cidade.

“Eu amei sua cidade. As pessoas são tão acolhedoras e gentis. Infelizmente minha saúde não foi tão boa e eu desmaiei no palco. Mas a bondade que recebi foi esmagadora. Estou muito feliz em voltar e fazer parte do festival novamente”, afirma a atriz.

Em relação às expectativas para a apresentação de Eve, no FIT-BH, o entusiasmo é o mesmo. Ela segue acreditando na força do teatro como algo capaz de transformar a plateia. “Estou incrivelmente orgulhosa por estar retornando nesta produção que é apoiada e criada pelo National Theatre of Scotland. Isso, por si só, emite uma mensagem poderosa. As pessoas trans ainda enfrentam grandes problemas em meu país e precisamos continuar trabalhando para melhorar as coisas”, conclui.

SERVIÇO:

Eve (da atriz e dramaturga Jo Clifford)
Data: 20/09 e 21/09
Horário: 19 horas
Local: Teatro Marília
Endereço: Av. Professor Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia

A programação completa do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte você encontra no endereço: fitbh.com.br

Performance Looping: Bahia Overdub. Foto: Guilherme Jardim
Apresentação da performance Looping: Bahia Overdub, na última quinta-feira, dia 13, no Parque Municipal. Foto: Mateus Araújo
A abertura da 14ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, atração que entrou de vez para o calendário cultural da cidade, reuniu cerca de cinco mil pessoas no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no centro da capital mineira, na última quinta-feira, dia 13. O evento inovou mais uma vez ao trazer para o espaço público atrações que rompem com a linguagem e estética teatral. As performances “Looping: Bahia Overdub” e “Batucada” foram as responsáveis por abrir a mostra e criar junto ao público uma forte interação.

 

O tema escolhido para este ano, Corpos-Dialetos, tem o intuito trazer ao público “Urgências históricas e sociais de indivíduos e grupos não neutros, recusando a ideia de que exista um ‘sujeito padrão’ que possa servir de exemplo ou determinar a experiência de vida das demais pessoas”. No primeiro dia de festival, intervenções teatrais vieram com propostas de quebrar paradigmas e fazer com que o público interagisse com o espetáculo.

A performance baiana Looping: Bahia Overdub, de Felipe de Assis, Leonardo França e Rita Aquino, foi um dos destaques da primeira noite. O espetáculo trouxe referências da cultura afro-brasileira, da música popular e sonoridades urbanas diversas. A plateia ficou contagiada com a interatividade da apresentação. Os bailarinos, incorporados ao público, conduziram uma dança com movimentos propostos por correntes de pessoas.

Em meio à multidão, artistas e público formavam um só corpo, misturavam sensações e contato físico fomentando uma dança coletiva, ao som de batidas baianas e luzes baixas, se assemelhando a uma festa.

O espetáculo contou com cerca de 120 integrantes voluntários inscritos em um edital antes do início do festival. Para a realização da performance coletiva, artistas da companhia chegaram a Belo Horizonte uma semana antes do festival.

“As pessoas precisam de mais cultura, e nós, através desta apresentação, aprendemos que não existe barreira entre artista e público, é possível interagir. Não é só estar em cima de um palco e ser a estrela do espetáculo. Quando o público interage, o trabalho passa a fazer sentido”, afirma a estudante de teatro Bruna Gomes.

Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT 2018)

Criado em 1994, o FIT-BH promove sua 14ª edição, com diversos espetáculos através da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e da Fundação Municipal de Cultura (FMC) e Instituto Periférico. O conceito “Corpos-Dialetos”, proposto pela curadoria de Grace Passô, Luciana Romagnolli e Soraya Martins, norteou toda a programação do evento.

O festival se estende entre até o dia 23 de setembro e a programação completa está disponível no site oficial fitbh.com.br e redes sociais: facebook.com/fitbelohorizonte e @fitbh.