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Jornal Contramão

A falta que me faz (2009)

Filme de Marília Rocha

por Rebeca Francoff

 

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.” – Guimarães Rosa

 


Atenta aos sopros de deslocamentos metamorfoseados da vida, Marília, em “A falta que me faz (2009)”, mergulha no efêmero da natureza: desejos são  levados pelo vento. Morros acolhem segredos. Sonhos banham-se de rio. Palavras escritas nas árvores, nos corpos, nas paredes, nos olhos. A impermanência é lembrança na pele; memórias brutas corpóreas vivendo as ações do tempo.  

A narrativa se desenvolve entre os morros de Curralinho, Minas Gerais: lugar que aparenta ser isolado e frio. Contudo, alegre, hospitaleiro e repleto de calor amigável. Acompanhamos parte da rotina das personagens principais Alessandra Ribeiro, Priscila Rodrigues, Shirlene Rodrigues, Valdênia Ribeiro e Paloma Campos. São mulheres que vivem desafios, mudanças e questionamentos. Enfrentamentos de questões complexas que juventude trás. De maneira poética, singela, fluída, intimista e carinhosa, Marília e equipe, mergulham nessas constelações que por força maior da natureza interna e externa transformam-se -mesmo que de forma singela. Sinto uma fortaleza energética conectora entre elas e a natureza: o espaço que elas vivem e a essência que habita dentro delas se movimentam e nessas movimentações, encontram-se; diluem-se.

O filme começa com fotografias. São mulheres. O corte das fotografias exclui seus rostos. Enquadra-se detalhes dos mapas de relevos em seus corpos,  cicatrizes que revelam tentativas de permanência mas também desvela a impermanência impulsionada pela imprevisibilidade da vida. É tempo de crescer. Enquanto somos inundados por estas imagens um som em off acontece. Uma voz doce canta sobre amor  e apesar de haver muita vida, sinto a presença da morte e da despedida. Transbordo de amor e de melancolia; tão bom morrer de amor e continuar vivendo¹.  

As personagens marcam também aquilo que querem esquecer. E se por um lado Marília opta por tirar os rostos na cena inicial, por outro lado ela redimensiona uma outra linguagem de individualidade para estes corpos através da música cantada – o extracampo me faz imaginar que a voz talvez seja de alguma daquelas mulheres fotografadas. Desta forma a voz além de criar identidade escreve o espaço com sentimentos.

Depois das fotografias a montagem opta por um olhar de fora. Distancia-se. Avistamos a natureza. Com o olhar contemplativo e estático, mulheres vistas de longe trabalham coletivamente em paisagens montanhosas. Com som ambiente  e cortes duros, a câmera, através da montagem, mergulha no universo dessas personagens. Em um bar, a câmera, agora em movimento, passa a deslizar sobre o espaço e acompanha algumas mulheres de perto. Elas dançam forró e a câmera, com leveza, dança também pelo espaço.

A narrativa do filme  é composta em maioria por mulheres. O  tempo das ações no espaço é respeitado.  O olhar contemplativo é também preenchido de água, aspereza das pedras, voos dos pássaros,  conversas íntimas, confidências, ingenuidade e estranhamentos. Marília faz poucas perguntas às  personagens que lidam com os aparatos tecnológicos com naturalidade e destacam-se simplesmente pela essência de serem transparentes. Embora acredito que há reservas intrínsecas em cada  resposta atravessada e olhar distante, afastado.

Ao decorrer do filme percebe-se que muitas têm opinião própria. Lutam por sua liberdade. Lutam por seu bem estar.  Amam. Querem formar família, entretanto, também sabem opinar por ficar sozinhas. A dialética entre apego e desapego, aridez e alagamento, aproximação e afastamento, descobre em véu translúcido o que é indefinível  no ser: a alma.  

O documentário mostra com  delicadeza as cenas íntimas  nos quartos das personagens. O clima é carinhoso e por vezes melancólico, saudoso. Há lacunas e também presenças – memórias. As conversas desenrolam entre a intensidade e a leveza. Cuidam umas das outras e refletem sobre vida, passado, presente e futuro.  Traumas, angústias, amores, família e amizade. Cuidam do cabelo, das unhas e se enfeitam com anéis. Querem ficar bonitas após horas e horas de trabalho duro em lavoura e em casa.

Foto de divulgação

Com olhar lento, calmo e respeitoso, a singularidade cotidiana retratada através do sonora e visual em A falta que me faz destaca-se. As personagens, formadas pela escola da vida, têm esperança nos olhos.  Moram em um local que o alfabetismo é pouco desenvolvido, onde o desenvolvimento cultural como teatro e cinema é restrito. Porém  muitas encontram momentos para se divertir, amar e dançar. Vivem com humor e ingenuidade.

Foto de divulgação

Próximo do final depara-se com uma cena curiosa. Uma das personagens passa a fazer perguntas para a equipe. A escolha  da permanência desta cena não me parece ser ingenuidade. Existe defesa poética de criação sobre o significado e quais as dimensões de liberdade que o fazer documentário  trás. Simboliza também a curiosidade com o novo: o interesse por descobrir o outro das duas partes. Todos acolhem o jogo da mudança, falam sobre inseguranças, laços construídos por meio do encontro e futuro. Silêncio.

Em uma moto, desloca uma das personagens principais juntamente com um rapaz – há algo misterioso no olhar da personagem que me prende profundamente. Trilha sonora. Filma-se a estrada em movimento. Percebe-se a despedida de Curralinho juntamente com o filme. Flutuantes refletimos sobre as mulheres que vivem naquele cenário. Somos passageiros na vida. Inacabados, seguimos em frente. Partimos em vários. Se ficam também.

Cena do filme ”A falta que me faz” de Marília Rocha.

 

 

  1. Frase do  poeta, tradutor e jornalista brasileiro Mário Quintana (Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994).  

Por Henrique F Marques

O projeto Mulheres Cabulosas da História foi idealizado no dia 8 de março de 2016, Dia Internacional das Mulheres, por um grupo de mulheres do Movimento Social Levante Popular da Juventude.

Ele é composto por dois ensaios fotográficos realizados por mulheres que recriaram imagens de 100 mulheres importantes na história nacional e internacional que foram apagadas, ou melhor, invisibilidades, por homens que estavam ao seu redor como Dandara dos Palmares, que foi liderança e companheira de Zumbi. A primeira parte do projeto encerrou no último dia 24 de novembro, momento no qual encerrou a campanha de financiamento coletivo via Catarse. A segunda parte do projeto consiste no pensamento e discussão das próximas etapas, como por exemplo, a elaboração e diagramação do Livro “100 MULHERES CABULOSAS DA HISTORIA” que deverá ser publicado primeiro semestre de 2018.

Catarse: catarse.me/mulherescabulosasdahistoria
Email: mulherescabulosasdahistoria@gmail.com
Página: facebook.com/mulherescabulosasdahistoria

Divulgação Prêmio Zumbi

Por Lucas Motta

Com a proposta de valorizar e preservar a cultura de matriz africana, a Companhia Baobá Minas realizou o 8° Prêmio Zumbi de Cultura, na noite da última quarta-Feira (22) no Sesc Paladium, Hipercentro de pelo Horizonte, em comemoração da Consciência Negra (20/11).

Idealizadora do Prêmio, a Diretora e coreógrafa da Cia, Júnia Bertolino explica que a festa contempla pessoas que se destacam no campo artístico da política e cultura negra, um espaço para refletir sobre a resistência e as representatividades negra nas artes.

“Estou emocionada e agradecida a todos parceiros pela realização de mais uma edição do VIII Prêmio porque sabemos como é importante a valorização de nossos mestres populares e artistas da cidade.  Sobretudo neste momento de crise política, crise econômica mundial, onde aumenta as disputas e os preconceitos. É importante ter iniciativa de companheirismo, de eventos que despertem a reflexão e motive os artistas e grupos a unir forças e enfatizar que juntos somos mais fortes, reconhecer iniciativas positivas realizadas por pessoas que convivem conosco, seja na escola, trabalho, na cultural e na política“ diz.

Considerada a maior premiação negra do estado, desde 2010, a festa abriu espaço para apresentações de grandes artistas como Mestre Conga, Coral Brasil African Vozes, Sérgio Pererê, Alameda Musical e a Cia Baobá Minas que tem por missão abordar o cotidiano do negro, sua cultura, valores e artes. A festa celebrou a memória de Zumbi dos Palmares que deixou um legado de identidade Africana muito forte, uma cultura que vai além dos livros de história que preserva a ancestralidade.

 

Nesta edição foram 11 homenageados, dentre elas a aluno de Jornalismo do Centro Universitário UNA Sarah Santos, pessoas guerreiras na cidade de  Belo  Horizonte,  com  ações  que  beneficia todo  estado de  Minas  Gerais. Como é  o  caso  do professor  e   escritor  Anelito de  Oliveira que através da  literatura alcança vários  educadores  do  território  nacional  chamando  atenção  para  valorização  da  escrita, religiosidade e  da  cultura.

 

Homenageados  do  Prêmio  Zumbi de Cultura –   Cia Baobá Minas Mamour Bá (Música), Sarah Santos (Protagonismo Juvenil), Maria Luiza –  Luzia (Menção Honrosa), Associação Cultural Fala Tambor (manifestação Cultural), Júlia  Santos  (Teatro), Tania Cristina – Makota Kizandembu – (Atuação Política), Anelito Oliveira (Literatura), Célia Gonçalves – Makota Celinha (Religiosidade), Marilene Rodrigues (Dança), Macaé Evaristo (Personalidade Negra), Isabel Goes Cupertino (Educação).

O prêmio foi distribuído nas seguintes categorias: dança, teatro, música, religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa, protagonismo juvenil e atuação política. Os contemplados receberam um troféu confeccionado pelo artista plástico Jorge dos Anjos.

PROGRAMAÇÃO

No dia 29/11  às  16h no auditório José  de  Alencar da Assembleia Legislativa (R. Rodrigues Caldas, 30 – Santo Agostinho) recebe a “Roda de conversa: Diálogos e reflexão – homenageados do Prêmio Zumbi de Cultura”,  artistas  e  mestres  populares  estarão reunidos no  espaço  de  debate  político para a construção  e  implementação de  políticas  públicas  para  a  comunidade  negra, reforçando  a  importância de  valorização da  cultura e  da  arte  negra do  povo  brasileiro. Participe!

 

Foto por Henrique Faria

Por Henrique Faria

Os artistas Felipe Barbosa e Rosana Ricalde, deram novos ares para a Praça da Liberdade na semana do Dias das Crianças com a exposição Jardins Móveis. ‘Esculturas-bichos’ foram instaladas fora das paredes do Memorial Minas Gerais Vale, os artistas expandiram os jardins do museu para a praça que abriga as obras até amanhã, Dia das Crianças.

Foto por Henrique Faria

A exposição, que conta com objetos de cores chamativas e tamanhos diferenciados é um ótimo atrativo para as crianças que passam diariamente pela área.

Com a ideia de misturar arte e natureza os artistas utilizaram de animais infláveis (balões e boias), comercializados nos mercados populares para montar as esculturas. Os animais integram a paisagem da praça e chamam a atenção dos pedestres que passavam pelo local.

Foto por Henrique Faria

O público gostou da ideia de a exposição estar do lado de fora do museu. O professor de português e intérprete de libras, Bruno Amaral, 27, diz que é a ideia é sensacional, pois várias pessoas ainda possuem um bloqueio ao se tratar destes espaços. “Trazer isso para fora, é o mesmo que buscar para dentro. Liberta a imaginação e a vontade de conhecer”.

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Por: Henrique Faria Marques

Dois anos após o rompimento da Barragem de Fundão, na cidade de Mariana, no interior de Minas, cerca de 30 famílias ainda lutam para serem reconhecidas, pela a empresa Samarco, como atingidas. O rompimento da barragem resultou no maior desastre ambiental já ocorrido no País, ocasionando um grande rastro de lama por todos os distritos situados em volta do Rio Doce, como Bento Rodrigues, Paracatu de Cima e Paracatu de Baixo.

Recentemente, o Ministério Público identificou 25 casos de auxílio financeiro, quatro ressarcimentos de aluguel, cinco de antecipação de indenização e cinco de moradia adequada, que não havia sido identificado pela mineradora na época. Em agosto deste ano, o MP ajuizou o segundo cumprimento de sentença homologatória que reconhece a obrigação de pagar o que é de direito, das famílias ainda não reconhecidas.

Os demais atingidos pelo rompimento, já reconhecidos pela empresa como vítimas também não se mostram satisfeitos com o andamento do processo. O projeto sofreu uma recusa preliminar da Câmara Técnica de Infraestrutura, por não atender uma condição de parcelamento dos lotes. No distrito de Paracatu, os impactados ainda aguardam a compra total dos lotes, sendo assim, em nenhum dos casos a Fundação possui o registro dos mesmos, o que barra o início das obras.

De acordo com a Assessora Técnica das vítimas de Mariana, Ana Paula Alves, na época do rompimento, as mídias tradicionais não deram voz aos atingidos como foi apurado nas mídias alternativas. Para ela, as mídias independentes têm uma leitura crítica sobre os fatos e também conhece o papel de cada um no território.

 

Atingidos e o olhar da mídia

 

Na época, as mídias tradicionais e as mídias independentes foram até a cidade e realizaram várias coberturas, porém, é nítido que as mídias alternativas apoiaram e deram mais voz aos atingidos, conforme entrevista com Ana Paula (Assessoria Técnica), ela diz que “sendo assim, é de se deduzir que as mídias tradicionais, não atribuiu voz a quem atingido pela barragem e continuam a revelar apenas um lado da história. Sendo assim, é de se deduzir que as mídias tradicionais, não atribuiu voz há quem foi atingido pela barragem e continuam a revelar apenas um lado da história.

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Por Henrique Faria

Há 32 anos acabava no Brasil a Ditadura Militar, nessa época os jornalistas e músicos brasileiros foram diversas vezes censurados pelo governo por se mostrarem contra o regime. Na época, após o AI-5, os militares tinham total liberdade para realizar ações sem mandados judiciais, logo, ficou mais fácil censurar o povo.

A censura na Ditadura era constante, principalmente após a assinatura do Ato Institucional Número 5 realizada pelo presidente Costa e Silva no ano de 1968, que concedeu total liberdade aos militares para realizar ações sem mandados judiciais, como por exemplo prender e ocupar as redações de jornais. Assim que assinado o documento, vários meios de comunicação foram ocupados pelos “censores” que realizavam o trabalho de editores. Eles eram responsáveis pela releitura e aprovação das matérias que seriam publicadas na próxima edição e desta maneira começou o trabalho de censura dentro dos meios de comunicação. Muitos jornais contrários às atitudes do governo continuaram publicando matérias negativas e que denunciavam os abusos da época, estes porém, tiveram suas redações invadidas e destruídas, como por exemplo o “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, que sofreu com a prisão de sua proprietária.

Entretanto, os jornais não foram os únicos afetados pelo AI-5, os artistas e intelectuais também foram perseguidos e censurados, muitas músicas escritas pelos artistas foram censuradas, mas mesmo assim Caetano Veloso, Chico Buarque entre outros conseguiram lançar músicas que denunciava a atitude da polícia como “É proibido, proibir” e “Cálice”, respectivamente. Essas canções caíram nas graças do povo e foram eternizadas pela população, porém vários artistas como Caetano e Gilberto Gil foram exilados e outros foram presos e torturados.

A data de hoje, 03 de agosto é lembrado como dia da Censura, apesar dela ainda estar tão atual, não podemos esquecer do que ela foi, o que causou e o que ela representa nos dias de hoje e o que ela promoveu durante a ditadura, em que jornalistas, professores, músicos eram perseguidos apenas por apresentar a sua própria opinião ou escrever uma matéria que seja contra as ideias do antigo governo.