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Por: Kedria Garcia

Tomar decisões nem sempre é uma tarefa fácil, especialmente quando o futuro está em jogo. Decidir ser independente não é tão simples quanto pesquisar no Google “10 passos para um arroz soltinho”. Conquistar a independência requer muito mais do que desejo de maior privacidade ou sonhos da adolescência.

Afinal o que é essa tal de independência, que tem até um dia dedicado a ela? Conversamos com três universitários que saíram de Belo Horizonte com uma certeza: o lugar reservado em uma universidade federal. Entre a liberdade e as dificuldades cotidianas os estudantes nos contam como é enfrentar a vida de um jovem adulto independente.

 

Pedro Henrique Silva Costa, 23 anos

Cursando Química Licenciatura, saiu de casa em 2015 com o sonho em uma mala e uma vaga em uma Universidade Federal. Localizada no Triângulo Mineiro, Iturama possui cerca de 40 mil habitantes, a cidade pequena foi o lar do estudante por um ano, tendo como companhia o apoio da mãe e a certeza de que a química era seu destino.

Com uma nova vida vem novos desafios, principalmente quando se está a seis horas de casa. A adaptação não foi um dos empecilhos, segundo Costa, a fome no início era o que mais incomodava. “Às vezes tinha um pacote de miojo (macarrão instantâneo) para comer por dia, mas eu não passava fome porque queria. Na época eu tinha apenas duas escolhas: eu ficava com fome, mas com um teto e uma cama para dormir. Ou ficava com o estômago cheio, mas dormindo na rua, pois o dinheiro que minha que minha mãe me enviava nunca dava para as duas coisas”, relembra o estudante que completa, “Quando arrumei uma monitoria finalmente consegui me estabilizar, comecei a receber uma ajuda de custo da universidade”.

“Acredito que independência não é se virar sozinho, não é morar longe de casa  não é dar satisfação para ninguém sobre a sua vida. Independência é seguir seu sonho independente das opiniões e das falas das pessoas.”

 

Em 2016, o jovem arrumou novamente as malas deixando Iturama para recomeçar o curso na UFV – Universidade Federal de Viçosa na Zona da Mata. Encontrou as mesmas dificuldades iniciais com o bônus de uma cobrança maior dos professores. “Passo tanto aperto para conseguir dar conta das matérias, mais o projeto de iniciação à docência, tendo em vista de que quando eu me formar não serei valorizado como professor.”, desabafa o estudante que afirma persistir por seus alunos. “Os meus futuros alunos precisam de mim, precisam da minha experiência de vida, precisam da minha ajuda, eu tenho que aguentar tudo isso: a fome, o cansaço, o estresse, por eles, por minha família, por minha mãe.”.

 

Guilherme Augusto Paixão, 21 anos

O técnico em química, deixou Belo Horizonte para cursar Química Licenciatura na UFU – Universidade Federal de Uberlândia, no Campus localizado em Ituiutaba. A vaga conquistada veio como presente no auge dos seus 18 anos. No começo de 2015, Guilherme trocou o conforto da casa dos pais por uma vida nova em uma cidade do interior. Segundo o estudante, os primeiros meses foram uma espécie de adaptação, além do financeiro outra dificuldade que encontrou foi a responsabilidade. “A questão do dinheiro no começo era tranquila porque meus pais me ajudavam e eu tinha dinheiro guardado, depois do primeiro semestre que complicou”, conta.

Paixão acredita que faz parte do amadurecimento para o adolescente o desejo de se completar a maioridade, almejando mudanças principalmente nas pressões familiares. “É como se em um passe de mágica ficássemos livre das “chatices” dos pais e temos nas mãos o poder de fazer o que quiséssemos.”, relembra o estudante que destaca a solidão, como um dos grandes desafios em sua jornada. “Com o tempo percebi que se desassociar de uma situação de dependência às vezes não é tão bom assim. O legal de se tornar independente é que trilhamos um caminho sem volta, o do autoconhecimento, o de entender os próprios limites e até onde podemos e realmente queremos ir.”, reflete o jovem.

“Às vezes independência é a última coisa que queremos, porque a gente percebe que a vida cobra muito mais que pai e mãe, percebe que ser independente é ter que se virar sozinho é se desdobrar em dois, em mil.”

Para Guilherme, futuro professor, ser independente é colocar à prova os ensinamentos recebeu em casa. “Foi e tem sido uma experiência assustadora essa ideia de morar longe dos pais. Ter que me virar para pagar contas, encher a despensa e manter as roupas limpas, mas nesse tempo “sozinho” eu conheci um “eu” que até então estava escondido sob os limites e regras da convivência em família que agora vive sob as próprias ideias.”. Concluindo a entrevista, cita a relação com a mãe como uma música de Zezé Di Camargo e Luciano, em que a dupla fala que filho cria asa e quer voar.  “Segundo minha mãe filho tem que ser criado para o mundo e não para dentro de casa”.

 

Lais Flor, 22 anos

Apesar de muitas pessoas considerarem 2016 um ano ruim, Lais Flor conquistou uma vaga na tão sonhada UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto. Pediu demissão do emprego e encarou o desafio de cursar Museologia, há duas horas de Belo Horizonte. “Quando vim paraa Ouro Preto foi uma mudança radical na minha cabeça, sair de casa, ficar longe da minha família, ter noção de tudo isso, foi acontecendo aos poucos.”.

De acordo com a jovem, os obstáculos que mais abalou sua caminhada foram a falta de dinheiro, a saudade e o medo da estrada. Estabilizar sem uma fonte de renda fixa foi um grande desafio que mudou após conseguir uma bolsa na faculdade. Apesar da distância, Lais vem sempre quando pode para a capital. “Tenho saudades de casa, da família e dos amigos é muito difícil às vezes, mas tem uma galera aqui que fica seis meses sem ver a família, então me acho privilegiada.”, explica.

“Acredito que independência: é não depender de terceiros em nenhum aspecto, seja financeiro ou emocional. Mas acho que ninguém conseguiu isso até hoje.”

A estudante conta que a falta de segurança nas BRs é dos seus temores. “Confesso que a estrada ainda me dá medo até hoje, às vezes cochilo durante a viagem e acordo assustada com uma buzina e já penso que vou morrer.”.

A futura museóloga, afirma que a universidade é um lugar que mexeu com sua estrutura emocional e que trabalha para não se abater e manter a saúde mental devido às pressões. “Está longe de pessoas que são meu porto seguro, torna tudo mais difícil, a adaptação é gradual, não é fácil, mas um dia você se adapta.”