A Vida Imita A Arte

A Vida Imita A Arte

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Por Auspicioso Acapela – Coletivo parceiro Contramão HUB

Quando a professora Solange falou que iríamos ao museu, não gostei muito.
Na verdade, nunca fui em um, mas acho que deve ser super chato e entediante. Isso é coisa de adulto, ficar olhando por horas um quadro estranho para depois comentar coisas sem sentido sobre aquilo. Vi isso em vários filmes, em alguns deles o mocinho se apaixona pela mocinha, o que seria demais pra mim. Outra coisa que me incomoda nessa excursão é que o Pedro pode começar a fazer chacota comigo com o Júlio perto.
Mesmo com todos esses motivos contra, levei a autorização para a minha mãe assinar, nada poderia ser tão ruim. Além do mais, sempre gostei de passear de ônibus, sentar na janela. Fico imaginando quando for adulta e magra, os garotos vão gostar de mim sem que eu passe cola para eles e eu vou olhar e dizer “eu não quero”, que nem a Carol faz. Não terei que mentir que já beijei na boca ou que alguém já me pediu em namoro, porque serei bonita.
As minhas amigas, Letícia e Anne, estarão lá para me dar apoio. Elas são muito legais, dividem o lanche comigo escondido, porque se algum dos meninos virem, eles jogam os biscoitos no chão, pisam e ficam gritando BALEIA o tempo todo. No começo chorava muito, até a Letícia me passar as coisas escondidas no banheiro. A Anne tentava bater neles e contar para as tias, que tinham a resposta na ponta da língua: “eles são assim mesmo”.
O museu é grande e espaçoso, maior que a minha casa. Tem muitas paredes, poucas pessoas e um vazio enorme que se gritar dá eco. Acho que sou igual um museu. O moço que a Tia Solange nos apresentou começou a mostrar os quadros e um pouquinho da história deles. Eram umas coisas esquisitas e coloridas, que fizeram o Pedro e seu bonde rirem. Não sei se fiz por instinto, dei as mãos para minhas amigas, preparando para segurar o choro caso o motivo fosse eu. Paramos em um dos quadros, ele mostra alguns adultos em um lugar verde, pareciam tranquilos.

– É tão feia quanto a Roberta! – As gargalhadas de toda a turma enchiam o museu. A Tia Solange gritava algumas palavras de ordem em vão. Letícia apertava mais forte a minha mão e Anne tentava inutilmente calar as risadas.

O quadro na parede devia ser um pouco menor que eu. Mostrava quatro pessoas, sendo uma mulher e três homens. Diria que estavam comemorando algo. A mulher no centro era gorda, branca com o cabelo comprido e vermelho. Os homens a olhavam com carinho e com respeito. Quase podia tocá-los e sentir que ali, aquela mulher, não era tratada diferente, mas sim como alguém especial. O olhar dela era de felicidade. Naquele momento quis ser ela. Sem vergonha do próprio corpo, com amigos e pretendentes, feliz por existir.
As risadas ficaram em segundo plano. Não conseguia dizer o que estava sentindo, era como se realmente existisse um mundo dos meus sonhos, onde não havia solidão ou choro por não ser bonita e magra.
Quando a excursão terminou, tive a certeza que dentro de mim morava um museu com aquele quadro. Talvez, quando fosse adulta, pudesse colocar mais quadros para que outros pudessem vir, olhar e vivê-los.

Por Ked Maria

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