Por Pedro Soares

Doze é um número bem comum para nós, do mundo ocidental. Doze eram o número de deuses que se assentavam nas cadeiras do salão principal do Olimpo na mitologia grega. Para o cidadão médio novalimense era o número de vezes que ele precisava cortar o cabelo antes de poder ficar bonito de graça. 

Por doze vezes peguei o Nossa Senhora de Fátima no ponto de ônibus da BR, próximo a borracharia. Por doze vezes ele demorou mais do que o esperado e por doze vezes eu decidi esperar, afinal, esse ônibus é muito barato, apenas dois reais. Valeu cada espera.

Em cada uma dessas doze vezes eu subi a escada que ligava a avenida ao bairro Vila Operária, olhava a esquerda a igreja que ficava bem no início da subida, um pouco mais acima olhava para o salão de beleza que ali havia, olhava despretensiosamente uma das cabeleireiras lavando um cabelo e mais do que depressa desviava o olhar quando uma delas me olhava de volta.

Saía da escada já suando mais do que gostaria e me sentava na esquina da rua da barbearia, nesse momento me pegava pensando – se eu chegar lá ofegante assim, vão achar que eu estou passando mal? Ou vão pensar que eu estou fugindo de algo? – a conclusão no fim era sempre esperar o suor secar e a respiração voltar ao normal. 

Doze vezes seguidas entrei na barbearia e cumprimentei todo mundo, os dois barbeiros, os amigos que estavam sendo atendidos e fui direto para o banheiro e joguei uma água no rosto. Sentei na cadeira para ser atendido, respondi por doze vezes que o corte seria “o de sempre” e vez ou outra pedia para acertar a parte de cima. O famoso corte americano, um disfarçado – de cria – no pezinho do cabelo, dos lados e atrás e em cima mantém, deixava crescer pra ficar no estilo. 

Ao final de cada um dos doze cortes, após finalizar o pagamento, sempre fazia questão de tirar ele da carteira, o cartãozinho fidelidade, para minha felicidade e desespero do barbeiro, o grande dia se aproximava. O dia do corte grátis estava cada dia mais próximo e eu poderia então aproveitar do meu direito legítimo. 

E então chegou o grande dia, a minha 13º ida ao barbeiro e eu gozaria do meu corte gratuito. Assim que saí de casa o tempo fechou, olhei pra cima e vi a chuva começar a descer, pensei alto – Hoje ninguém vai estragar meu dia. Segui para o ponto de ônibus, mais uma vez ele demorou, só que dessa vez eu já esperava! Paguei os meus dois reais, desci na avenida, comecei a subir as escadas e não fiz nada diferente. 

Olhei para a igreja, encarei a cabeleireira que lavava o cabelo de uma cliente, mas dessa vez sustentei o olhar e ousei um sorriso. Saí da escada, dessa vez não sentei na esquina porque a chuva não permitia, entrei na barbearia e o barbeiro já me esperava sorridente – Hoje é por minha conta, Pedrão!  

Antes de ele me perguntar, já respondi de prontidão – Hoje é o de sempre e não vamos tirar nada em cima. Seguimos numa embalada conversa, finalizei o meu corte e diferente das últimas doze vezes, quando peguei o cartão fidelidade não foi para um novo preenchimento, mas sim para pagar usando o meu voucher.

Agradeci ao amigo barbeiro, me levantei para ir embora e ao abrir a porta para ir embora, notei que assim como eu no meu corte de cabelo, o dia voltava a estar radiante. A chuva havia cessado, sorri e passei a mão na parte de trás da cabeça sentindo a sensação de cabelo recém cortado, segui para casa feliz e realizado. 

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