60 anos. 60 histórias: Uberlândia amiga dos carroceiros

60 anos. 60 histórias: Uberlândia amiga dos carroceiros

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Por Bianca Morais 

A profissão de Carroceiro é uma das mais antigas do mundo, antes mesmo dos motoristas de ônibus, caminhões e carros, das caminhonetes e caçambas, eram os cavalos com suas carroças o meio de transporte de vários trabalhadores e responsáveis pela limpeza da cidade, catando entulhos, entre outros.

Muito além da condução, os cavalos são companheiros de trabalho, e diferente do que muitos pensam, a maioria dos carroceiros se preocupa com a saúde dos seus animais, afinal são através deles que conseguem prover o seu sustento. 

É pensando nos carroceiros e nos equinos para além de veículos de tração animal, mas companheiros de vida dos carroceiros, que o Centro Universitário Una, junto a prefeitura de Uberlândia criou o Uberlândia Amiga dos Carroceiros.

Uberlândia é uma cidade onde existem muitos carroceiros, e ao invés de ignorá-los ou proibir as carroças como em outras cidades no Brasil, algo que pode prejudicar a vida de quem depende delas, a cidade resolveu abraçar esses profissionais e proporcionar aos animais qualidade de vida.

O projeto

O projeto Uberlândia Amiga dos Carroceiros começou em dezembro de 2019, através de uma sugestão dada pelo professor Flávio Moraes, do curso de Medicina Veterinária, o atual coordenador do projeto, que ao apresentar sua proposta à coordenação dos cursos de agrária da Una Uberlândia, ela foi aceita e levada à prefeitura.

Através de um acordo com a Secretaria do Meio Ambiente, a parceria foi fechada. A prefeitura fornece oslocais nos bairros onde os carroceiros depositam seus lixos e entulhos, conhecido como ecopontos, na cidade existe um total de 13 desses, e mensalmente os alunos, orientados por professores e voluntários rodam esses locais fazendo o atendimento dos animais e orientando os tutores com cartilhas de como cuidar dos equinos.

Como todo projeto de extensão, o Uberlândia Amiga dos Carroceiros, apresenta aos estudantes a realidade que irão enfrentar, elevando o conhecimento adquirido dentro da faculdade para a sociedade. Nesse caso, os alunos de medicina veterinária auxiliam os carroceiros, que na maior parte, são pessoas carentes, tudo isso com o principal objetivo de trazer uma melhoria de vida não apenas aos animais, mas também de seus tutores.

“A gente melhora a qualidade de vida dos animais e de uma certa forma dos seus tutores, afinal aquele cavalo é a fonte de renda dele, cuidamos das doenças que ele possa estar adquirindo ou já tenha ao longo dos anos nesse trabalho árduo que é transportar entulhos pela cidade”, diz o coordenador do projeto.

Os atendimentos

O projeto já está na sua oitava edição e já foram 145 atendimentos clínicos, os principais problemas apresentados por eles são em termos nutricionais, desidratados, mal nutridos, problemas dentários, no casco, todavia uma das principais doenças que acometem os animais, a cólica equina, nunca foi diagnosticada. 

A Una oferece atendimento clínico básico, odontologia veterinária, extração dentária, vermifugação, além das tendas para serem montadas nos ecopontos, os remédios e o aparelhado para o atendimento básico. Depois da triagem os animais mais debilitados passam por um procedimento chamado de fluidoterapia, alguns componentes são colocados no soro e mais algumas medicações.

“É importante ser ressaltado que nosso atendimento é básico, de rotina, se aparece um quadro mais complicado de doença no cavalo, ali ficamos sem ter como proceder. Já teve caso do animal chegar com um corte na perna que machucou em um vaso sanitário jogado no lixo, formou-se uma ferida imensa e feia, os alunos orientados pelos professores, fizeram todo esse tratamento de ferida, iam na casa desse animal uma vez ao mês, para olhar como é que estava, e essa ferida que era profunda cicatrizou em três, quatro meses”, conta Flávio Moraes.

A veterinária responsável pela parte dentária dos cavalos é uma voluntária, Tays Monteiro conheceu o projeto pelas redes sociais e resolveu contribuir de forma espontânea ajudando nos atendimentos.  “Nós levamos os equipamentos para fazer essa parte dentária e ela faz esse atendimento, ela veio para contribuir bastante, você vê que é um projeto que abrange a sociedade e que algumas pessoas dessa comunidade acham interessante colaborar com ele”, completa Flávio.

Os atendimentos são oferecidos de forma gratuitos e de grande valia para os tutores dos animais, uma vez que uma consulta numa clínica veterinária não sai por menos que R$150 e um atendimento dentário entre R$300 e R$400. 

O projeto também tem parceria com um laboratório de exames, dessa forma, o sangue coletado é enviado ao local sem custo algum e os resultados ajudam a traçar o tratamento adequado aos cavalos.

 

A questão dos carroceiros

Atualmente, Uberlândia é uma cidade com muitos carroceiros, todas essas pessoas que trabalham com essa atividade ajudam a manter a cidade limpa, por isso, o projeto veio para aproximar esses trabalhadores da prefeitura e proporcionar a eles serviços que muitas vezes eles não têm condições de oferecer a seus animais. Apesar disso, e do alto retorno positivo da sociedade e da gratidão dos carroceiros, o projeto ainda recebe algumas críticas negativas.

É uma realidade que utilizar cavalos para esse fim não é uma alternativa bem vista, se fosse possível substituir essa atividade através de uma política pública eficiente, seria perfeito, mas essa não é a realidade do país que passa por muitas desigualdades sociais. Proibir o uso das carroças vai além de envolver somente o cavalo, isso envolve a sociedade, os carroceiros dependem desse animal para sua sobrevivência, se isso acabar qual fim eles teriam? Como teriam dinheiro para sustentar suas famílias?

“Vão roubar por não ter de onde tirar seu sustento? Será que isso não aumentaria a criminalidade, então isso é uma questão, além da saúde animal, é uma questão social, que ainda não encontramos pessoas, políticos, que pudessem resolver isso por completo, sem afetar a parte social dessa minoria que sem ajuda desse animal passaria muito mais necessidades. O papel do veterinário nesse ponto é de pensar no animal, pensar na saúde dele, nesse momento que ele está sendo usado para isso, nossa função é cuidar da vida dele”, conclui o coordenador.

O curso de veterinária

O curso de Medicina Veterinária na Una Uberlândia teve início em 2018, e inclusive, o projeto nasceu justamente como uma oportunidade dos alunos da instituição terem esse contato direto com a área. Essa extensão sendo levada a comunidade entra dentro dos pilares da Una de transformar o país pela educação.

Desde que ingressa no curso, o aluno já tem a oportunidade de participar do projeto, a partir do momento que o discente entra em contato curso e o animal, ele já vai se adaptando ao meio.

“Tem pessoas que nunca viram um cavalo, uma vaca, e só de estar perto, observando o colega fazer, de escutar uma palavra diferente, técnica, o aluno está aprendendo. Do meu ponto de vista, desde o primeiro período o aluno tem capacidade de estar fazendo esse projeto junto com a gente”, explica Flávio.

O aluno do primeiro período acompanha um aluno do oitavo que já está atendendo, ele anota uma ficha clínica, pega uma medicação, ele se desenvolve e a medida que vai evoluindo no curso as tarefas também vão mudando.

“Eu acredito que os alunos realmente gostam do projeto, eles aconselham, até dão ideias do que fazer, do que melhorar, organizar, tem envolvimento, não ficam só em cima do coordenador do projeto, tem o comprometimento para ajudar no desenvolvimento, acho isso uma forma de amadurecimento deles, para que possam crescer como profissionais a partir de um projeto de extensão, para na vida profissional, se forem exercer esse caminho fazer da melhor maneira possível”, completa o professor.

O olhar humanitário 

“Esse projeto é muito gratificante, tenho a sensação de estar fazendo a minha parte, ainda tenho vontade de fazer mais para ajudar a sociedade, mas já é um começo, me sinto um profissional realizado, amo o que faço, espero continuar fazendo esse processo e que ele dure muito tempo, se Deus abençoar, que a gente possa estar melhorando sempre, a medida que formos crescendo. 

Ver a satisfação das pessoas felizes no evento porque seu animal foi atendido, o dono do cavalo muitas vezes se sente rejeitado na sociedade por vários motivos e um deles por mexerem com animais de tração, quando você faz um projeto desse é uma forma de inserir ele na sociedade, faz com que se sintam úteis, e isso eu acho o ponto mais importante desse projeto, é além de ajudar os animais como médico veterinário, podemos ajudar também como cidadão, você está ajudando pessoas, que têm carências diversas, econômicas e emocionais.

Uberlândia Amiga dos Carroceiros é super positivo, porque primeiramente o papel de nós como ser humano, como cidadão, é de ajudar pessoas e nesse caso estamos ajudando também animais, é muito gratificante, você ver uma pessoa te agradecer, “o doutor muito obrigado”, não tem palavras para expressar a emoção”.

 

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