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*Por Bianca Morais

Bom dia, Roy Orlison. Meu nome é Bianca e tenho 24 anos. Fiquei sabendo que sua música “Pretty Woman” lançada em 1964 foi um grande sucesso. 

Nessa época, minha mãe e nem eu, pensávamos em nascer ainda. Já minha avó, com certeza, era aquele exemplo de uma mulher bonita descendo a rua, do tipo que você adoraria conhecer.

Parece que o sucesso não parou ali nos anos 60, certo? Em 1991, quando aí sim a minha mãe já era uma linda mulher, a música ganhou o Prêmio Grammy de melhor interpretação vocal masculina. Uau!

Lá em 2004, dessa vez eu já estava nascida, mas no caso eu era uma pretty little woman, com sete anos. Foi nesse ano que a Rolling Stone, a revista mais famosa no mundo da música, classificou “Pretty Woman” em #222 lugar de sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos.

Música boa mesmo!

Hoje, dia 8 de março, é comemorado o dia de todas as Pretty Woman do mundo, é o Dia Internacional das Mulheres. Elas, fortes, independentes, empoderadas, que não baixam cabeça para ninguém, enfrentaram muitas batalhas para estarem onde estão atualmente, no mercado de trabalho, em posições de liderança e bem sucedidas, merecem sim um dia só delas. 

Roy, nesse dia tão importante para nós mulheres, parei para analisar a letra da música que achei que tanto me engrandecia e vou ser bem sincera sobre o que descobri traduzindo-a. Quando minha avó era nova e um rapaz a cortejava enquanto descia a rua e fazia à ela mil e um elogios sobre a sua beleza e pedia para conversar, implorava um sorrisinho, ela com certeza morria de medo, mas ela mal sabia o que a palavra assédio significava naquele tempo. 

O pai dela agredia sua mãe, e ela assistia aquilo tudo calada, era normal, não existiam leis que a protegessem de fato daquilo, ninguém interferia. “Briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, diziam. Então Roy, quando você e outros rapazes da época cortejavam as mulheres como a minha avó, mesmo se elas se sentissem incomodadas elas iriam dar um sorrisinho, mas a verdade é que se ela estivesse interessada no flerte, na paquera, ela iria parar para conversar no primeiro “Pretty woman” e corresponderia, afinal paquera é troca, sem consentimento, é somente assédio. E você era insistente, não é mesmo?

Fique tranquilo, Roy, eu não estou aqui para sermões, só um conselho mesmo. Tenho certeza que em momento nenhum você quis faltar com respeito às mulheres, a música foi apenas uma maneira de ressaltar nossa beleza e carisma. Obrigada.

Pretty woman, walkin’ down the street

Pretty woman, the kind I’d like to meet

Pretty woman, I don’t believe you, you’re not the truth

No one could look as good as you, mercy

Ah, mas ei Roy, parece que no final ela voltou. Afinal você também tem seu charme, não é mesmo?

A todas as mulheres, desejo um feliz dia, somos todas Pretty Woman, de fato. E lembre-se, vocês não precisam aceitar algo que te constrange, hoje assédio é crime e pode ser denunciado. Flerte apenas com reciprocidade. 

 

**Roy Orbison faleceu em 6 de dezembro de 1988, a carta aberta para ele não é uma crítica, apenas um conselho de uma jovem a frente de seu tempo e que sabe na pele o que é viver o assédio.

 

***Revisão e edição: Daniela Reis e Italo Charles

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*Por Moisés Martins

Desde a descoberta do vírus SARS-CoV-2, conhecido como Covid-19, a humanidade passa por momentos difíceis, esse ser invisível foi capaz de mudar a vida e o destino de todos.

Logo, uma das medidas de segurança adotada pelo governo de Minas, foi esvaziar as escolas públicas e privadas. Eu pergunto: Onde estão nossas crianças, aquelas que muitos dizem ser o futuro da nossa nação?

Eu busco respostas para essa pergunta todos os dias, ao olhar pela janela e ver uma escola completamente abandonada, a alegria que aqui existia tomou lugar para o silêncio e uma solidão sem fim. Os gritos e as conversações cessaram, por aqui é como se o tempo estivesse parado.

Durante o dia os pássaros cantam, e a noite ouço o estridular dos grilos, uma sinfonia animal tomou conta dos espaços que antes eram habitados por jovens e crianças do ensino médio e fundamental. Quando chega a noite, as luzes tentam iluminar o lado mais sombrio de uma escola vazia, é uma tristeza que parece não ter fim.

Com a ajuda de fenômenos da natureza, principalmente as chuvas, os matos têm crescido cada vez mais, e a poeira nos vidros das janelas aparenta cada vez mais um ar de lugar esquecido.

Nossas crianças, estão “presas” dentro de casa, ligadas ao mundo virtual e circundadas da tecnologia, enquanto os pais se submetem todos os dias a pegar conduções completamente lotadas para ir ao trabalho, correndo sérios riscos de terem contato direto com o vírus. Hipocrisia? Talvez!

Mas a economia precisa se manter, os pais e mães de família precisam levar alimento para dentro de casa, e a educação e o ensino se mostram cada vez menos importantes nesse país capitalista que visa somente o lucro.

Em casa, só os que possuem acesso a internet recebe informações e aulas online, uma pesquisa publicada em 29 de abril de 2020 pela Agência Brasil, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), juntamente com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação

(Pnad Contínua TIC), mostra que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não acessam a rede, um número bastante expressivo.

Em 2020 fomos pegos de surpresa, sofremos e tivemos muitas perdas, foi um ano muito difícil, mas acabou! E nele ficou toda a angústia e frustrações causadas pelo vírus.

O ano de 2021 chegou, e junto com ele a esperança da vacinação. Temos vacina! Ufa, que alívio. Agora, será quanto tempo mais nossos jovens vão demorar para retornar às escolas? Quanto a essa resposta, acredito que vamos ter que aguardar mais um pouco, já que o público jovem ainda não é prioridade no calendário de vacinação.

Aguardamos ansiosos para que todos os brasileiros se vacinem, e junto a isso, nossas escolas voltem a funcionar, cabe aos nossos governantes criar um plano de ação para que o ensino presencial volte gradativamente, e os alunos possam começar a correr atrás do prejuízo e do tempo perdido. Dias melhores virão, e em breve nossas escolas vão estar prontas para receber os alunos novamente, o sol há de brilhar e toda alegria perdida será restabelecida. Que não percamos a esperança!

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*Por Bianca Morais

Na última terça-feira, dia 2, completaram-se 25 anos da tragédia que pôs fim a vida de Dinho, Bento, Samuel, Júlio e Sérgio, os eternos Mamonas Assassinas. Grupo que conquistou o Brasil inteiro nos anos 90, com muita música animada e bom humor.

A banda

Mamonas Assassinas foi uma banda brasileira de rock cômico, que nasceu em Guarulhos (SP) no ano de 1989. Em julho de 1995, foi lançado o único álbum da banda com grandes sucessos como: Pelados em Santos, Robocop Gay, Vira-Vira, entre outros. O disco fez tanto sucesso que alcançou recorde de vendas logo no seu primeiro dia, em 12 horas foram vendidos 25 mil cópias, foi o disco de estréia mais bem vendido da música brasileira. E superou com os três milhões de cópias vendidas. 

Após o lançamento do cd, os artistas saíram em turnê pelo Brasil, percorreram 25 dos 27 estados e chegaram a fazer oito shows por semana. Apresentavam-se sempre em programas de televisão,  por onde quer que passavam Mamonas Assassinas levava o público à loucura.

O acidente

Foram sete meses de muito sucesso e muitas expectativas de um futuro promissor. Se em um ano eles fizeram tanto, imagina se tivessem tido mais tempo? Porém no dia 2 de março de 1996, o sonho desses jovens foi interrompido de maneira cruel.

Após uma apresentação memorável no estádio Mané Garrincha, em Brasília, o grupo embarcou por volta das 21h35 no jatinho Learjet com destino a Guarulhos, São Paulo. Por volta das 23h15, o piloto fez o último contato com a torre de controle, avisou que iria arremeter mas não explicou muito bem o motivo. Depois disso o jatinho não foi mais visto.

Os destroços do avião foram encontrados no dia 3 de março, na Serra da Cantareira, onde ele se chocou contra e ocasionou a morte de todos a bordo. Na época a culpa recaiu sobre o piloto, por ter feito uma manobra arriscada. Ele estava em uma jornada de trabalho excessiva, havia feito 16h30, sendo que o máximo permitido eram 11h de voo. A fadiga pode ter sido o motivo dele ter feito a manobra errada, a torre orientou que ele fizesse uma curva à direita ao arremeter e ele virou à esquerda. Porém outros fatores ainda entram no caso, como as condições meteorológicas do dia.

A passagem dos Mamonas Assassinas foi rápida mas de muito sucesso. Até hoje, mais de duas décadas após o acidente, suas músicas ainda são relembradas por muitos.

 

**Revisão: Italo Charles

***Edição: Daniela Reis

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Alunos do ensino médio e universitários sofrem com a falta de aulas presenciais e práticas de estudos

*Por Bianca Morais

Na semana passada trouxemos o relato de Nathália Fernandes, professora do ensino fundamental, e de Joyce Mariano, mãe do pequeno Bernardo, estudante do 2°ano do fundamental. Através da reportagem foi possível reconhecer como tem sido difícil a educação infantil através da internet.

No Brasil, de fato, foi a primeira vez que nos deparamos com crianças tendo aula online, porém muitos jovens e adultos já eram adeptos a esse método, conhecido como EAD – Ensino à Distância. O EAD sempre foi uma excelente solução para quem não tinha tempo de frequentar as aulas presenciais. E com o tempo, muitas instituições que antes eram predominantemente presenciais, passaram a aderir às aulas híbridas, uma mescla entre online e presencial, isso acontece com muitos cursos que possuem aula teórica e prática, por exemplo.

Com a pandemia, não houveram escolhas e o ensino obrigatoriamente se tornou remoto. No entanto, muitos jovens acabaram se frustrando com esse novo método. A falta de socialização com os colegas, o fato de não poder frequentar laboratórios para disciplinas práticas, não ter o professor presencialmente para tirar dúvidas e por aí vai, são inúmeras insatisfações e incertezas. 

O crescimento profissional

Micheli Cristiane dos Reis Lana, 47 anos, atua como técnica em contabilidade. Micheli iniciou seu curso de Ciências Contábeis em 2016, no Centro Universitário Una, e se formou no ano passado. Por opção, escolheu um curso EAD, para não ficar longe dos filhos, na época com 6 e 13 anos. 

A profissional se formou no técnico em 1990 e trabalhou durante 25 anos em uma construtora e foi responsável pela contabilidade do lugar, mas em 2015 a empresa fechou e ela foi demitida. Ao procurar por um novo emprego percebeu que mesmo com a experiência que tinha o mercado demandava um curso superior. Então, Micheli se deu conta que para conquistar novas oportunidades e crescer no mercado de trabalho deveria voltar a estudar.

Quando o assunto é ensino online, é fato que ele não pode ser comparado ao presencial, afinal são duas metodologias diferentes. Dentro de uma sala de aula existe a constante troca de conhecimento entre aluno e educador, esse talvez seja um dos pontos em que o online mais perde.

“Não tive a oportunidade de ter um professor para tirar as minhas dúvidas no momento em que estava estudando. Em muitos casos, tive que me virar para entender a matéria. Após um dia cansativo de trabalho, nem sempre estava com disposição para estudar” desabafa a técnica.

O aluno que escolhe um curso online, com certeza, tem um elemento a mais em sua trajetória, a dedicação. Não é fácil enfrentar, por exemplo, a falta de suporte, apesar disso quando se tem um objetivo vale a pena. Micheli garante que se tivesse a chance de escolher entre fazer uma graduação presencial ou online, mesmo com as considerações, ela encararia o online novamente.

“Quando era mais nova tive oportunidade de fazer a graduação presencial e não tive interesse. Foi através da online que me senti estimulada. É um desafio enorme, mas com disciplina consegui formar”.

A prática prejudicada pelo online

Há aqueles que não escolheram o ensino online, mas que acabaram sendo inseridos nessa nova realidade forçada. É o caso dos estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A UFMG foi uma das que mais sofreu devido ao coronavírus. Diferente de instituições particulares, a universidade pública não conseguiu continuar as aulas após a suspensão do presencial, no dia 18 de março, do ano passado. Os universitários ficaram cinco meses sem aula, perderam o semestre que voltou de forma remota apenas no mês de agosto.

Gabriela Guimarães, 23 anos, é aluna de fisioterapia na instituição. O curso escolhido pela jovem é totalmente presencial. A fisioterapia forma profissionais capazes de atuar na prevenção e na reabilitação da capacidade física e funcional das pessoas, com isso, as aulas práticas são o ponto forte de sua educação e se encontram completamente defasadas.

O fisioterapeuta precisa de muito treino para aprender, e sem dúvidas em cursos como esses, os alunos sentem na pele a falta dos laboratórios. “A fisioterapia exige um contato muito próximo com o paciente, para tratar dele eu preciso saber algumas técnicas manuais, onde pegar, de que forma fazer os exercícios” conta a universitária.

Além disso, a falta do educador ao lado também é uma preocupação. “Não ter alguém para falar se estou fazendo certo, errado, se a quantidade de força que estou usando é suficiente ou não é bem ruim” desabafa a jovem.

Por um lado, se esses alunos da área da saúde sofrem com o ensino a distância, os professores e coordenação se mostram dispostos a tentar diminuir essa defasagem. Os educadores elaboram aulas bem explicativas, utilizam diversos recursos de vídeos e monitorias.

“Eles estão mais abertos a nos ouvir e tirar nossas dúvidas, eles fazem alguns vídeos de práticas também para que a gente consiga acompanhá-los da forma correta”, explica Gabriela.

A tolerância com prazos é outro ponto positivo que a universitária enxerga nesse momento, até porque, segundo ela, o número de atividades aumentou bastante e sua turma têm experimentado uma vivência do ensino online que demanda muita disciplina e esforço.

A cobrança do ensino online

Muito se engana quem acha que pelo fato dos alunos estarem em casa, a vida deles é mais fácil. Ao contrário, o ensino online vem sendo sinônimo de muita cobrança e sobrecarga em cima de grande parte dos estudantes.

Kamilla Antunes, 21 anos, cursa psicologia na PUC-MINAS. Segundo a jovem, estar em casa passa a impressão de que o tempo investido não é válido, em virtude da comodidade apresentada. O fato de poder escolher em qual ambiente da casa quer assistir a aula, ou até mesmo o “fazer lanchinhos” durante ela, não significa que não exista esforço ali.

“Tanto por parte dos familiares, quanto dos professores, já tive essa sensação. Os familiares que agora com mais frequência soltam o famoso, “ah, mas você só está estudando?”, como os professores, que associam o tempo em casa com maior tempo para fazer as coisas da faculdade, passando mais trabalhos e exigindo cada vez mais” desabafa a jovem.

É de comum acordo entre os estudantes, que independente das horas de aulas serem as mesmas, o aproveitamento e rendimento não são. Por mais que no começo os educadores tenham se esforçado ao máximo para se dedicarem às plataformas e ao ensino, com o tempo é possível ver um desânimo sobre suas performances.

“Me sinto prejudicada, não consigo captar tudo através da tela. Na psicologia nosso objeto de estudo é o ser humano, e essa falta de contato com práticas, mesmo com os professores me deixam insegura“, confessa.

As instituições de ensino superior, sempre graduaram alunos através do EAD, e isso não os tornaram trabalhadores menos competentes, o que faz um profissional não é apenas a faculdade, é a própria pessoa. No entanto, pela primeira vez é possível ver determinados cursos, antes com matérias específicas as quais deveriam ser feitas de forma presencial, sendo onlines, cresce, dessa forma, na cabeça do aprendiz a dúvida se ele realmente será capaz.

A faculdade de Kamilla, fez adaptações das práticas do curso, introduziu atendimentos e supervisões para o formato online, fizeram parcerias com algumas instituições e centros de ensino para articular palestras feitas pelos alunos, com o intuito de contribuir e amparar outros que passam dificuldades neste período de adequação.

As instituições de nível superior, as quais oferecem a psicologia em sua grade, sempre buscou prestar serviços à comunidade. Grande parte dos universitários da área, sonham desde que ingressaram na faculdade com esse atendimento, lidar diretamente com as pessoas, ajudar o próximo, isso se quebrou muito durante a pandemia.

Muitas vezes, o online não alcança a todos, muitas das pessoas, principalmente essa camada da sociedade a qual não tem condição, também não possui acesso a internet, o que dificulta bastante. O cenário de incertezas continua e esses estudantes da área da saúde enfrentam diariamente uma dura realidade. 

O esforço de quem ainda sonha com o ensino superior

Para quem ainda está no ensino médio, um dos momentos mais esperados, sem dúvidas, é o famoso terceirão. Ano de conclusão de uma jornada, de se despedir dos amigos, dos professores e de todo ambiente acolhedor que é uma escola. O terceiro ano é de transição, além de todo esse clima de nostalgia, existe também a pressão dos estudos, afinal, é a hora de fazer o Enem, prestar vestibular e tomar a grande decisão do que o jovem será para o resto de sua vida: escolher que profissão seguir. 

Marcela Castro Rincon, tem 18 anos, e concluiu o ensino médio no conflituoso 2020. No começo, era um afastamento de 7 dias, que se tornou 15 e finalmente se deu em tempo indeterminado. A implementação das aulas online na escola particular de Marcela, não aconteceu de forma imediata, pois os professores precisaram passar por um curso a fim de aprofundar seus conhecimentos sobre o funcionamento da nova plataforma de ensino na internet.

Com o recomeço das aulas, o que já era esperado por muitos aconteceu, o rendimento caiu muito. “O abismo entre o rendimento de um aluno no sistema presencial e no remoto é gigantesco”, conta Marcela. O ato de ficar sentado em frente a um computador por horas e tentar manter a concentração é impossível, já era difícil dentro de sala com toda a dinâmica e atmosfera criada pelos educadores, isolado em casa, ficou bem pior.

Todos que já cursaram colegial sabem que o volume de matérias a serem estudadas é enorme, enquanto no superior, o estudante está apenas dentro de uma área e a carga horária é bem menor, no médio, os adolescentes ainda aprendem todas as áreas juntas, as linguagens, exatas, humanas, e ciências da natureza. Para além disso, ainda sofrem o aperto dos vestibulares.

No começo das aulas, Marcela relata que os professores tentaram aliviar o impacto do novo método, as atividades avaliativas e simulados foram suspensos, tudo isso sendo pensado para que os jovens tivessem uma melhor adaptação. Slides explicativos, “quizzes”, os educadores buscaram a melhor maneira de manter os jovens acolhidos.

Com o passar do tempo, as avaliações voltaram, e com elas toda a pressão psicológica. Como se não bastasse o isolamento social, reajuste do aprendizado, distância dos amigos e escola, agora eles seriam cobrados por isso. Marcela descreve que sofreu muito em todo esse processo, passou por crises de ansiedade e teve a saúde mental diretamente prejudicada pela intimidação dessas cobranças.

Além de todas as dificuldades enfrentadas durante a jornada de conhecimento, um dos pontos que mais atingiu Marcela e outros adolescentes foi a falta de contato direto com os educadores. Eles, que são uma das maiores inspirações para os estudantes, principalmente sobre qual área seguir, acabaram tendo essa troca quebrada no momento de isolamento.

“Apesar de ainda vivermos um sistema de ensino monótono, arcaico e tradicional, a relação entre professor e aluno tem sido aprofundada, não é mais apenas uma relação de autoridade e submissão. Os professores não têm mais somente um papel de transferência de conteúdo, de explicação de matéria, eles ajudam no nosso desenvolvimento pessoal, contribuindo para a nossa formação não apenas profissional, como nossa formação humana. As conversas, os puxões de orelha, o apoio que a gente tinha deles em qualquer momento, fez uma falta que ninguém consegue explicar” desabafa a jovem.

Marcela foi uma dos milhares de alunos que sofreram com o ensino remoto em plena pandemia. A jovem reconhece a sorte que teve de estudar em um colégio particular, ter acesso a um computador e internet para acompanhar as aulas, o que não foi a realidade de muitos. Estudantes de classe baixa, matriculados na rede pública de educação resistiram muito mais, as aulas de forma remota não voltaram na mesma rapidez que no privado e também não tiverem o mesmo suporte, mas na hora de serem cobrados pelos vestibulares e pelo Enem, foram avaliados da mesma forma.

O sistema de ensino no Brasil precisa ser seriamente repensado após esse período de pandemia, quando a realidade “voltar ao novo normal”. Seja no primário, no médio ou no superior, os estudantes vêm sendo prejudicados sim, pela falta de apoio, por mais que uma instituição tente os ajudar das melhores maneiras possíveis e incomparável o vácuo de conhecimento que está acontecendo.

 

**Revisão: Italo Charles

***Edição: Daniela Reis

 

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Banda Daparte - Reprodução do Instagram

Encerrando o Almanaque de Bandas Independentes, produzido por Bianca Morais, e divulgado no Jornal Contramão nas últimas semanas, a jornalista faz uma reflexão sobre as principais dificuldades que esse cenário de bandas enfrentam e ainda comenta qual o papel das gravadoras nesse meio, elas que por muito tempo foram o principal engajador para que os artistas tivessem sucesso, hoje, já não é mais exatamente dessa forma. 

Tempo e grana. Quando o assunto são bandas independentes buscando ascensão no mercado musical, uma das principais dificuldades que encontram são esses dois fatores.

Quem produz arte sempre tem ideias. Não há uma banda nesse almanaque que não possua pelo menos uma gaveta de idéias, composições, cifras e melodias que queiram mostrar ao mundo e ter oportunidade de gravar. Mas ensaiar, produzir e gravar é algo caro e nem todos têm poder aquisitivo para isso.

A parte financeira é difícil. Os contratantes de casas de show não querem bandas independentes, porque muitos deles procuram bandas covers que vão agradar mais o público. Aquele contratante que abre mão disso para contratar uma banda autoral não consegue entregar a eles um cachê tão bom. É difícil encontrar lugar para tocar, é difícil ser contratado. O dinheiro que comanda o mercado da arte pouco corre no mercado independente. A música em si ainda é subvalorizada.

Parte dessas bandas independentes, justamente por não conseguirem ter o dinheiro para produzir, tem outros trabalhos paralelos. Isso porque os músicos não conseguem se sustentar apenas com o cachê da banda, até porque esse dinheiro acaba sempre sendo revestido para o caixa da banda e suas demandas. Com outras ocupações e o trabalho semanal, acabam não tendo 100% do tempo para se dedicar apenas à música, atrasando seus sonhos. É possível gravar e produzir em casa, em estúdios mais simples e sair coisa boa, mas se você procura qualidade excelente é necessário investir, e esse investimento não é barato.

O tempo é limitado e muitas vezes não conseguem se encontrar como gostariam, principalmente durante a semana. Por outro lado, a demanda de conteúdo é alta, é necessário tempo para produzir as redes sociais, planejar clipes e idealizar projetos. Para uma banda conseguir se entregar totalmente ao que se propõe, precisa estar sempre junta e não é o que acontece muitas das vezes.

Paciência é a palavra-chave. Tudo tem seu tempo. Bandas como a Devise, Radiotape e Ous, por exemplo, com mais tempo de estrada, provam que é possível sustentar uma banda durante anos, mesmo tendo que fazer um paralelo com outros trabalhos, aceitar algumas consequências e encarar alguns desafios. O mais importante é não desistir.

Um outro problema que surge, principalmente quando se trata de uma banda com vocal, guitarra, baixo, bateria e teclado, é conseguir alcançar um público. Bandas de pop e rock deixaram de ser tão queridas pelo público que consome música hoje. Nos anos 80, 90 até o começo dos anos 2000 era possível encontrar muitas delas no cenário nacional e internacional. Bandas que marcaram épocas e existem até hoje, mas se você analisar principalmente no Brasil, poucas delas estão no top 10.

Nas rádios, encontramos cada vez mais artistas solos, onde a banda em si é formada por músicos que não tem visibilidade como o vocal principal, muitos sendo até freelancers.

O artista independente tem uma personalidade bem característica que é a de ser, na forma mais literal da palavra, INDEPENDENTE. Aquele que age com autonomia, não se deixando influenciar por ninguém. Por isso mesmo é tão difícil ser autoral e independente na arte convencional, entrar em uma caixinha de gênero, acompanhar o funcionamento do mercado e se adequar à indústria comercial. Além disso, as pessoas não estão preparadas para escutar o que elas não estão acostumadas.

A Daparte, por exemplo, uma das bandas desse almanaque que de fato é conhecida nacionalmente, são uma exceção. É raro encontrarmos hoje bandas de formação de quatro ou mais integrantes fazendo sucesso. Skank, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Jota Quest e outras bandas que estouraram anos atrás, não é o que se encontra hoje em dia.

Para conseguir conversar com o gosto do público dessa nova geração, as bandas precisam se desapegar um pouco do estilo individual e particular de cada integrante em prol do conjunto e dos objetivos finais. De maneira geral, para conversar a língua do momento, muitas bandas se desprendem de fragmentos das músicas ou das melodias para poder se encaixar. No entanto, há outras que não querem abrir mão e acabam não alcançando um público maior. Tem público para tudo, mas isso não quer dizer que uma banda irá se alavancar por isso.

Apesar de todas as dificuldades desse mercado da música independente, se o músico tirar da cabeça a ideia de ficar rico e convertê-la na ideia de fazer algo criativo, mesmo com pouco dinheiro, mas com dedicação e gostando do que faz, a parte de enriquecer e fazer sucesso se torna não um obstáculo, mas uma consequência.

As Gravadoras

Por muitos anos, ter uma gravadora ao seu lado significava sucesso e dinheiro garantido. Estou falando de disco de platina, daqueles que os artistas recebiam nos palcos dos programas de televisão como o Domingão do Faustão. Acontece que do mesmo jeito que esses discos se extinguiram e foram substituídos pelas plataformas de streaming, as gravadoras deixaram de ser a peça fundamental para fazer uma banda ter sucesso.

As gravadoras deixaram de ser a única porta que se abre para o sucesso de bandas. Elas ainda são as que têm o dinheiro e são, de fato, uma grande ferramenta facilitadora, mas não são mais as únicas opções. Networking, não só no mundo da música, mas como em todos os lugares, é tudo. Se você tem contatos, eles serão uma das ferramentas mais valiosas. As gravadoras, além de dinheiro, possuem contatos. Elas também têm profissionais que sabem trabalhar nas mais diversas áreas, como o marketing e a publicidade. É um caminho que eles já conhecem e tem o dinheiro para acelerar as coisas.

O cenário, no entanto, mudou bastante. Antes as gravadoras pegavam artistas pequenos, investiam nele e esperavam o retorno financeiro que eles trariam. Hoje elas pegam artistas independentes que se consagraram dessa maneira e investem esperando o retorno. O apoio delas dá uma alavancada inicial que pode ser um fator de impulsão para a banda. Sem ela, é um caminho mais difícil, mas não impossível, considerando que a tecnologia e a internet são grandes ferramentas para divulgação.

A internet, juntamente com as plataformas de streaming, apareceu com as portas abertas para as bandas independentes mostrarem seu trabalho ao mundo. Dão aos artistas um poder de emancipação em relação às gravadoras e tem permitido fazer uma carreira mais sustentada e duradoura. Antigamente, para ser um grande fenômeno da música, você só estourava na mão de uma gravadora. Agora, com as possibilidades que a tecnologia proporciona, existe a possibilidade de você jogar sua música em uma rede social e, caso o

público goste, ajudarão na divulgação dela de forma gratuita. Assim, ela se espalha e aumenta a visibilidade dos artistas.

Um artista independente recebe pouco pela execução de sua música nas plataformas de streaming, os chamados royalties, porém ao mesmo tempo que acabam perdendo com isso, ganham a capacidade de atingir mais milhares de pessoas ao redor do mundo, gerando público e shows para conseguir cachê. Se a banda realmente for boa, as gravadoras vão ver potencial e investir.

Artistas independentes conseguem sobreviver sem apoio de gravadoras, a exemplo da Rosa Neon. Todos vivem apenas de música. Tudo bem que os diversos contatos que eles trazem de suas carreiras solos ajudam, mas provam que não somente as gravadoras possuem os respectivos contatos.

Um parêntese nessa parte para além das bandas independentes, artistas solos de Belo Horizonte, principalmente na área do rap, têm se destacado muito no mercado nacional, sobrevivendo com composições autorais e levantando públicos enormes. Estou falando do rapper Djonga, que apesar de ser um estilo muito diferente do pop e do rock, serve como influência para eles acreditarem que é possível alcançar o sucesso sozinho.

Uma dica preciosa para quem quer viver de música sem uma gravadora é estudar um pouco o panorama e se tornar um social media. Para uma banda crescer, ela precisa de público. Precisa de gente que acompanhe o trabalho e, para isso, é necessário divulgá-lo. Estudar esse meio auxilia a criar estratégias de atuação. Um dos principais papéis das gravadoras, além da parte financeira e do networking, é a de jogar você para o grande público e colocar em um status maior.

Uma alternativa para as bandas que estão começando e querem uma divulgação maior é se unir com distribuidoras, assim como faz a Chico e o Mar que trabalha com a Tratore. A empresa entrega as músicas dos artistas independentes para as plataformas de streaming, fazendo o som chegar a outros ouvintes. Aquelas playlist do Spotify, por exemplo, são muito úteis nessa divulgação, porque quem escuta outro artista acaba chegando até você. Além desse trabalho de distribuição, a empresa ajuda dando um retorno, apresentam vetores, mostram o que estão fazendo de certo, de errado e onde podem melhorar.

Se antes era difícil gravar uma música e custava muito caro, hoje você pode encontrar um estúdio bacana que cabe no bolso em qualquer lugar. Aquele seu amigo que formou em engenharia e se especializa em engenharia de áudio, vira produtor musical e constrói um estúdio muito bom. Como muitas das coisas atualmente são digitais, é muito mais fácil gravar e colocar na internet.

Independentemente de gravadora ou não, os artistas independentes sempre irão existir. Os que não permanecem nesse cenário, por vezes, são os integrantes, que justamente por isso acabam tendo um outro emprego. A vontade de fazer dar certo motiva a continuar sempre e o sonho da música não pode parar.

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Hoje é dia de texto do e-book “Escrita Criativa: O avesso das palavras”, produto final do projeto de extensão conduzido pela escritora e  professora do Centro Universitário Una, Geanneti Tavares Salomon. 

A produção “Alice” é da estudante de Biomedicina, Gabriela Rocha Coutinho.

 

Alice

*Por Gabriella Rocha Coutinho

Sempre fui silenciada

pelo que existe de mais bonito em mim:

os meus excessos.

Essa tentativa de me chutar para dentro da caixa

de onde eu saí,

como se eu fosse domável.

A vida toda eu fui imparável.

A história real é muito vazia de malícia:

peco justamente por acreditar tanto.

Sou tão mais simples do que a imagem que pintam,

mas ninguém quer saber a verdade.

O quadro já está feito.

A voz incomoda

e todos os dias rompo novas grades

dessas prisões da vida.

Sempre fui de chutar as portas.

Algemas não me cabem.

Há uma gratuidade inadmissível

nessa mania de apontar dedo

e profanar ofensas.

É arrancar o meu chão

onde eu mais tinha fé

que a base era sólida.

Me transformaram em bala

e me disseram para encontrar a paz.

Me pedem palavras e compreensão

quando eu menos tenho controle.

Sou sozinha no escuro da noite

e sigo esperando por perdões que nunca vêm.

 

Sempre entreguei de graça,

passando a 130 no quebra-molas,

me colocando como o peso menor na balança.

Vesti a máscara de palhaço

e acordei outro dia sem mostrar nem uma lágrima.

Chega de me desmontar para te ver respirando

e sustentar seus traumas para que eles me ataquem.

Me disseram que o amor tudo suporta,

mas eu nunca vi nobreza nisso.

Escuto seu grito e não julgo necessário ficar.

Não existe amor

onde meus sentimentos

são enfiados para debaixo do tapete.

Sempre convivi com a ameaça do abandono,

mas nunca reconheci a minha própria força.

A verdade é que eu já estive

várias vezes

nessa toca de coelho,

mas eu me belisco:

nunca mais vou retornar.

Nunca mais serei a mesma passividade

que um dia eu fui.

Encontrei a superfície

e agora posso respirar.

Aprendi a nadar nesse mar de rumores.

 

Para acessar o e-book completo clique no link.