Artigo de opinião

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Por Bianca Morais 

O TBT de hoje do Jornal Contramão, é um artigo de opinião e mostra não apenas os acontecimentos desastrosos daquele 2 de outubro de 1992, mas uma resolução sobre a atual situação que não é muito diferente da antiga.

A Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, inaugurada em 1920, foi durante décadas uma prisão segura e bem estruturada. Para se ter ideia, na época foram investidos 14 mil réis em sua construção, enquanto outros presídios custavam por volta de até mil réis. Depois de 20 anos funcionando, em 1940 ele alcançou sua lotação máxima, e em decorrência disto começou a construção dos pavilhões para que pudesse receber mais detentos.

Os pavilhões eram divididos por detentos.

  • No Pavilhão 2 aconteciam as triagens dos presos e onde ficavam os serviços de apoio, como alfaiataria e barbearia.

 

  • No Pavilhão 4 encontravam-se as celas individuais e enfermaria. Importante ressaltar que nesse prédio, no térreo mantinham-se os presidiários doentes, muitos com tuberculose, doença comum na época. No segundo andar os deficientes mentais, errado, uma vez que esse perfil de pessoa não deveria estar em uma cadeia comum.

O terceiro andar era ocupado pelas celas individuais e onde permaneciam estupradores e pedófilos. Por serem jurados de morte, esses bandidos precisavam ficar em celas separadas, e com isso, acabavam sendo beneficiados, afinal, sem convívio com os outros, eles não entravam em brigas, mantinham bom comportamento e conseguiam a liberdade mais cedo.

Não estou aqui para defender bandidos, mas é necessário entender que sim, existe uma diferença gritante entre alguém que rouba um pão para sustentar a família e alguém que estupra crianças. Esse perfil de prisioneiro deveria ser punido com mais rigor, sem a oportunidade de voltar a se reinserir tão cedo.

E isso acontece até hoje, afinal, se alguém condenado por ter estuprado uma criança, pelas “leis da prisão”, é morto logo nos primeiros dias, porque não criar um presídio para eles, onde irão pagar suas penas juntos aos seus iguais.

  • Pavilhão 5 nesse prédio possuía as celas conjuntas. No terceiro andar ficavam os justiceiros, no quarto os travestis, no quinto os “presos do seguro”, jurados de morte, conhecidos como amarelos, o apelido se veio pelo fato de que por não saírem das celas com medo e serem proibidos de tomar sol, eles ficavam amarelos. 

Situações desumanas, mas ainda na lei da prisão, se eles saíssem de lá, seriam mortos, e com certeza, os policiais, encarregados de manter a ordem no presídio, não iriam impedir isto.

  • Pavilhão 6 lá ficavam a cozinha e as solitárias, onde presos que cometiam alguma desordem eram mantidos durante alguns dias isolados.

 

  • Pavilhão 7 era o mais calmo, ocupado por presos de bom comportamento e que trabalhavam.

 

  • Pavilhão 8 presos reincidentes, os chefões, os mais “espertos”, que não procuravam confusão e viviam deles.

 

  • Pavilhão 9 o local do massacre. No pavilhão 9 se encontravam os réus primários.

O Brasil vive uma realidade de presídios superlotados e situações precárias. O Estado é falho, milhares de celas pelo país estão cheias de réus primários, aqueles que ainda estão aguardando julgamento, e não é atoa que foi justamente nesse pavilhão, superlotado, que ocorreu o massacre.

Existem réus primários que não cometem crimes tão graves, e existem aqueles que cometeram violências brutais, e ali, todos se encontravam, pois esperavam, às vezes anos, por julgamento. 

Coloque em uma cela uma pessoa manipulável e outras estressadas. Coloque alguém que acabou de entrar na cadeia e que não tenha onde dormir, porque para dormir nas celas do Carandiru você precisava pagar, sem dinheiro, você fica devendo a um assassino, que ou vai te matar ou irá te cobrar um favor. O que é pior? Era essa a realidade catastrófica do Pavilhão 9. 

A prisão era uma verdadeira bomba relógio, a divisão dos pavilhões e presos sempre causava muitas brigas e discussões, inclusive, diferentes facções eram colocadas juntas de modo preciso para brigarem entre si e, quem sabe, “com sorte” um ou outro acabava morto para esvaziar o Carandiru. Enfim, uma dessas brigas, no entanto, ficaria marcada para sempre na história daquele lugar. Era como se fosse uma tragédia anunciada para extinguir o depósito de prisioneiros.

No dia 2 de outubro de 1992 aconteceu uma partida de futebol entre dois times de presidiários, outros detentos assistiam a partida. Enquanto isso, no pavilhão 9 começou uma briga entre dois presos conhecidos como Barba e Coelho. O que parecia apenas uma discussão comum, iria se tornar o maior massacre dentro de um presídio no Brasil.

Em determinado momento, a briga perdeu o controle e foram entrando mais e mais pessoas. Eram dezenas de presos se atracando e os guardas não conseguiam separar, por isso, foi necessário chamar reforço, eram 300 policiais do lado de fora do Carandiru.

Naquela tarde, o Coronel Ubiratan estava no comando e autorizou todos aqueles policiais a entrar no prédio e controlar a situação. E não apenas ele, mas foram ordens do governador e do secretário de “segurança” pública de que a PM poderia intervir para “restabelecer a ordem”, o que deu início ao banho de sangue. Literalmente falando, pois ao final o sangue dos mortos misturou a água dos canos estourados. 

A partir desse momento várias versões apareceram, e fica a cargo de vocês, leitores, escolherem qual parece mais digestível.

Enquanto a polícia afirmava que 86 policiais invadiram o presídio, a promotoria que investigou afirmou que foram mais de 300, e a maioria sem crachá.

300 policiais, e grande parte deles sem identificação. Eles não estavam entrando ali para controlar uma rebelião, eles estavam entrando ali para matar!

No ano de 1992 o país passava pelo primeiro episódio de impeachment, a transição do governo de Collor para o de Itamar Franco tomava conta de todos os jornais. No dia seguinte ao massacre seriam as eleições em São Paulo, entre as pesquisas o favorito era Paulo Maluf e seu principal adversário era Eduardo Suplicy. Aquele rebelião não poderia durar mais que um dia, ela precisava acabar naquela sexta-feira.

A tal guerra pode ter começado dentro da prisão, mas no final das contas ela se tornou uma batalha de fora para dentro.

Os direitos humanos e presos presentes afirmam que na hora que os policiais estavam entrando, eles já estavam se rendendo e entregando as armas. 

Os policiais alegam que os presos não estavam pacíficos, que ao contrário, atacavam eles e agiam de forma violenta, jogando sacos com urina nos policiais e os atacavam nos corredores com seringas com sangue de portadores de HIV.

Não se rebate sacos de urina com armas de fogo. 

Os detentos e, posteriormente, a perícia afirmaram o seguinte: a hora que os policiais atacaram, eles já haviam se entregado, estavam desarmados dentro das celas, e mesmo assim, os homens entraram para matar.

Ninguém tentou apaziguar nada, a perícia afirmou que apenas 26 detentos de 111 mortos naquele dia, estavam fora da cela, isso significa que 85 sujeitos foram mortos dentro da cela, já rendidos.

A trajetória das balas seguia de fora para dentro, os policiais teriam parado nos cantinhos da cela e atirado. A maioria dos tiros? Na cabeça, tórax. Ninguém atira na cabeça para render presos, atiram nesses locais para exterminá-los. 

Os policiais em contrapartida alegam legítima defesa. Centenas de presos desarmados, se um policial atirasse na perna de um, já calaria milhares, mas não, não era defesa, era ataque. 

Eles são bandidos merecem morrer? Escutamos diariamente isso vindo da boca de representantes do governo, não desde hoje, desde sempre. O banho de sangue do carandiru foi 29 anos atrás, mas com ordens superiores, poderia acontecer hoje ou amanhã.

Até os dias atuais, policiais sobem morro matando bandido e gente inocente que não teve sorte de estar ali no momento. Um preso custa ao governo cerca de 2500 reais, por que o governo não pega os 2500 reais e investe em educação? Em construção de escolas, invés de anexos em presídios?

Uma criança na favela cresce recebendo cesta básica e brinquedos de traficante de droga, enquanto de policial cresce levando tapa na orelha, chamado de vagabundo, e de vez em quando perde um amiguinho de escola de bala perdida.

Você acha que essa criança vai gostar de bandido ou de policial? Quer respeito, respeite.

Na noite daquele 2 de outubro, os policiais obrigaram os presos sobreviventes a carregar os amigos mortos até o 1º andar do presídio, e nisso ainda atirou em alguns deles que saíam da cela. 

Havia tantos mortos, que até quem não tinha morrido e estava agonizando entrava no camburão e morria sufocado.

Se não deviam nada a ninguém, por que atrapalhar uma cena de crime? 

Em uma primeira hora a polícia anunciou o número de mortos: 8 detentos.

Oficialmente 111.

Por que aqueles presidiários morreram? Qual foi o crime cometido por eles? Por que eles estavam ali? Será que o crime cometido por eles é pior que o de desviar verba de construção de escolas e hospitais? Será que o crime deles é pior que corrupção?

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Discurso do presidente do Brasil. O mesmo que diz que bandido bom é bandido morto. Se cree tanto em Deus não deveria ser ao contrário? Não é Deus o único poderoso o suficiente, que pode condenar alguém no juízo final? Onde se perdeu a tradução da bíblia sagrada? E vale lembrar, que segundo a legislação brasileira, Brasil é um país laico.

E sabe o que aconteceu com todos aqueles responsáveis pela morte de 111 presos? Condenados, claro, mas alguém realmente pagou por isso? Ou para esses a lei divina irá cobrar? Segunda opção.

Dos 300 policiais, 78 foram a júri por participação no massacre, 74 foram condenados por homicídio, porém, com os julgamentos anulados ninguém cumpriu pena.

Na realidade o capitão Ubiratan pagou, em 2001 ele foi condenado por 102 mortes, 632 anos de cadeia, mas em 2006 acabou sendo absolvido. No entanto, antes tivesse sido preso, pois aqui fora não teve tanta sorte, no caso dele não foi a justiça, nem Deus que o julgou, foi a lei da prisão, o “aqui se faz aqui se paga”.

Atualmente o presídio está desativado, os presos foram transferidos, alguns dos prédios demolidos e outros reaproveitados para abrigar instituições educacionais e de cultura, mas a realidade é que nada nunca poderá apagar o que aconteceu naquele dia, todo aquele sangue derramado.

O episódio do Carandiru chamou atenção de todo o mundo, a partir daquela data houve muita cobrança em cima da polícia, a tropa de choque não invadia mais, aquele massacre acabou interferindo na segurança dos presídios, uma vez que eles não poderiam mais interferir e os presos acabaram tendo mais “liberdade” na forma de agir. Os justos acabam pagando pelos pecadores.

O Primeiro Comando da Capital, o PCC, uma das maiores organizações criminosas no Brasil nasceu com a justificativa de “combater a opressão dentro do sistema prisional paulista” e “vingar a morte dos cento e onze presos”, se a justiça não é feita pelos meios convencionais ela acaba sendo feita por outros.

O governo nunca esteve preparado, os anos 90 foram marcados por crises econômicas e desemprego, a criminalidade crescia mais a cada dia, esse episódio não deveria ter acontecido, o certo era se construir mais prisões, se aqueles presos deveriam pagar pelo seus crimes, eles iriam pagar para sempre, mas vivos. 

A rebelião era entre presos, uma hora ou outra eles acabariam resistindo, em situações como essas, corta luz, água, banho de sol, uma hora eles acabariam cedendo, infelizmente essa hora nunca chegou. 

111 mortes não podem ser esquecidas, todos estamos fadados a cometer erros na vida, e não é por isso que precisamos pagar com nossa vida, antes de encher a boca para falar de fulano, olhe para dentro e entenda que você também não é perfeito. Se dentro da sua religião apenas Deus pode julgar, porque você insiste em condenar os outros sem nem ao menos juiz você é?

 

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Em comemoração ao Dia do Estagiário, o Contramão traz hoje, um artigo de opinião que simplifica o estágio como um processo enriquecedor e que, consequentemente, tem capacitado os estudantes a serem profissionais do futuro. O texto foi escrito pelo estudante de Jornalismo e nosso estagiário aqui no jornal, Keven Souza.

Confira! 

Processo que salienta o profissional do futuro

Por Keven Souza

Almejar um futuro que contenha êxito profissional, é um sonho de inúmeras pessoas que acreditam na educação como instrumento transformador de realidades. Tudo começa com a difícil decisão de qual curso ingressar e em que área atuar como profissionais realizados e felizes, dilema de quem busca, incansavelmente, o sucesso. 

Desde o início são oferecidos inúmeros conhecimentos, as disciplinas se iniciam interligadas a outros cursos, os meses vão se fluir e a sensação de estar preparado para adentrar no mercado é aguçada a cada semestre concluído. Para além das habilidades fomentadas em sala, nós graduandos, temos necessidade de estimular a relação ensino-aprendizagem com o treinamento prático em situação real, o objetivo é aperfeiçoar o acadêmico em sua totalidade. 

Através dos semestres, o momento de pensar em um estágio não obrigatório se aproxima, aquele momento ímpar pro currículo, que vai enriquecer a jornada dentro e fora do curso. Talvez estar em uma graduação aos dezenove anos é viver uma dicotomia entre ser jovem demais para absorver tantas técnicas, e formar aos vinte e dois para iniciar o quanto antes no mercado de trabalho. Em muitos momentos a insegurança de não ser bom o suficiente e o medo de não absorver na íntegra os conteúdos, são sentimentos constantes. É normal, afinal, ao ingressar na faculdade, tudo é novo e pouco se sabe. 

De modo geral, uma das maneiras de dizimar as inseguras e o medo ao longo do curso é atuar como estagiário, uma etapa importante para aprendermos e nos desenvolver enquanto profissionais em processo de crescimento. São a partir dos ambientes corporativos que pautam pela inclusão, prezam pela diversidade e fomentam a experiência, que se constrói habilidades para além do currículo. Hoje, ser um profissional vai muito além de exercer um cargo, é preciso ser capacitado, indivíduos comprometidos e multifacetados que operam em diferentes âmbitos ocupacionais. 

No entanto, o cenário quase nunca é positivo, um levantamento realizado pela consultoria IDados, diz que no Brasil 40% dos jovens com ensino superior não tinham emprego qualificado até o primeiro semestre de 2020. Um quadro que intimida e informa que inúmeros profissionais formados ocupavam lugares que não exigiam curso superior e que como resultado não exerciam a sua profissão. À vista disso, digo que os alunos carecem de espaços que propiciem oportunidades de alavancar o currículo ainda na graduação, um processo que oferte uma maneira de conectá-los com a profissão e demasiar, com maior sucesso, sua atuação em suas respectivas áreas após a formação.

Estagiar, em suma, solidifica os momentos reais e diversificados dentro da academia é um período que beneficia o crescimento intelectual e a construção de uma carreira profissional brilhante. A prática e a dedicação, adquiridas ao longo desse processo, podem agregar valores e conhecimentos cruciais para cultivar a capacidade de ir de fato ao encontro do mercado de trabalho com diferentes técnicas, habilidades e qualificação necessária. 

Em um panorama positivo, anseio que as empresas, instituições e universidades sejam lugares disruptivos e indispensáveis aos alunos, que possam incentivar e reconhecer a força e a vontade de um aprendiz. A fim de que o mercado de trabalho, que exige capacitação em totalidade máxima dos profissionais, coloque em xeque as oportunidades que concedem aos estagiários. Será que propiciam novos saberes? Será que fomentam um ambiente experimental? São muitas perguntas que deverão ser questionadas para que o estágio continue a abrir novos horizontes aos graduandos e de fato se tornar um processo corriqueiro e imprescindível que, consequentemente, molda o profissional do futuro.

Comas Brasil no desfile Eco Fashion Week

Como um dos pilares da instituição, os projetos de extensão tem como princípio construir uma visão aberta e plural nos alunos, capaz de estimular o contato de ambos com a profissão ainda na graduação. Uma maneira que enriquece os conhecimentos acadêmicos e salienta o dinamismo profissional em diversas áreas de atuação. 

E hoje, o Contramão traz um artigo de opinião construído por meio do projeto de extensão Jornalismo de Moda, liderado pela professora Gabriela Ordones, que tinha como propósito fomentar o senso crítico e a escrita jornalística dos alunos dos cursos de Design, Comunicação e Moda. 

por Helena Coutinho

“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como bem expressou Lavoisier. Esse é o precedente de um dos movimentos de mercado mais fortes da atualidade, que ressignifica o descarte e o transforma em novo, apontando uma direção importante para a segunda indústria mais poluente do mundo, a da moda. 

Há relativamente pouco tempo, o mercado tem caminhado em um mesmo sentido: o da sustentabilidade. Tal movimentação, já mostrava sua previsibilidade em diversos veículos de tendência, visto que, há muito, já vínhamos percebendo que a escala na qual produzimos é insustentável para o nosso planeta e esse não é um reflexo a longo prazo. Para as marcas, o que antes era uma escolha e um diferencial é agora uma obrigação e uma exigência crescente dos consumidores, principalmente no que diz respeito às novas gerações. Vemos hoje a assinatura de tudo isso em colabs eco-friendly, técnicas de Upcycling e linhas de produção mais transparentes e atentas aos seus reais impactos.

Mas, cá entre nós, o consumidor de luxo e de grandes marcas, no geral, não dispõe de muita atenção no que diz respeito à temática da sustentabilidade, apesar disso, nitidamente, veio se fortalecer a cada dia. Uma das fortes ondas do momento são as técnicas de otimização de recursos e a reestruturação de materiais que seriam descartados. Uma das mais vistas recentemente é o Patchwork.

A técnica não é novidade: desde o Egito Antigo já deixou suas pegadas e, na moda, marcas como Vivienne Westwood e Versace foram algumas das pioneiras. Porém, o discurso do Patchwork aliado à sustentabilidade é relativamente fresco e quase que simbiótico. Contudo, em um momento onde a narrativa de empatia com o nosso planeta é crescente, marcas que ousam experimentar técnicas de Upcycling e reaproveitamento devem se atentar, também, ao seu discurso e analisar, diante de um mercado cada vez mais atento, se o seu propósito enquanto marca converge ou não com os princípios que precisam nortear uma coleção ecologicamente segura.

É notável que o movimento efetivo relacionado à sustentabilidade na moda, teve seu ápice nos brechós, bazares e com pequenos artesãos que, com um talento impecável, transformavam o que antes era considerado lixo em peças comercializáveis e exclusivas. Feliz ou infelizmente, grandes corporações, ao perceberem a crescente valorização mercadológica desse tipo de produto, viram-se diante de uma grande oportunidade: vender mais, com um discurso que até então ia na contramão das suas crenças e da sua linha de produção. É aí que a discussão ganha novos rumos.

A pandemia impactou a escassez de matérias-primas de todo e qualquer setor, inclusive o da moda. Gigantes da indústria fashion deram de cara com a incerteza, investimentos perdidos e uma estrada nebulosa diante do que viria pela frente. Ao mesmo tempo, pessoas que estavam em casa, esgotadas pelas exigências do isolamento social, começaram a utilizar como forma de escape a arte e a criação. O famoso “inventar moda” deixou de ser apenas um termo e ocupou um lugar importante no cotidiano das pessoas, principalmente no TikTok, onde ficou famosa a reformulação de peças já existentes no guarda-roupa. E essa foi a estratégia também adotada pelas marcas, agora obrigadas a utilizar dos seus recursos em meio à escassez, vendo-se impelidas a aproveitar o seu estoque que, há pouco, era integralmente carbonizado. 

Dolce & Gabbana, marcada pelas suas polêmicas contraditória se ética questionável, foi uma das gigantes a adotar o reaproveitamento, estratégia carimbada na sua coleção de verão 2021 ready-to-wear, executada a partir da mescla de diferentes retalhos que, juntos, se transformaram em uma explosão de cores e peças bastante atraentes ao olhar. Por um lado, nossos olhos brilham por saber que a adesão de grandes marcas a temas e propostas mercadológicos do tipo é um passo enorme para a expansão destes. Porém, reconhecendo o aspecto pendular da moda, sabemos que toda tendência tem data de validade. E o reaproveitamento de retalhos, pode ser uma delas.

Dolce Gabbana no desfile primavera/verão 2021

O poder do capitalismo é ainda maior do que parece e o mercado da moda anda ao lado dele. Um dos impactos disso é o greenwashing, que, segundo o Politize, é uma prática que promove discursos ambientalmente responsáveis, o que, na prática, não ocorre. É então, bastante coerente questionar se o imperialismo das grandes marcas usa do seu poder com verdade e propósito ou apenas como o “branding ideal” para vender cada vez mais.

A relação de poder no mercado da moda é o maior patrocinador dos seus impactos, sendo urgente que nós, como consumidores, consigamos enxergar isso. Grandes redes de fast-fashion já foram responsáveis por criar peças com design sustentável que, no entanto, utilizavam tecidos novos, produzidos especialmente para aqueles modelos. Para onde vai o discurso da sustentabilidade? Ecologia está na moda, mas será essa uma nova postura ou mais uma das brisas do mercado que passam adiante com a chegada do novo?

Historicamente, conhecemos os inúmeros dos grandes artistas que se perderam ao baterem de frente com a fama descomunal. Halston, Amy Winehouse, Michael Jackson, todos engolidos pelos holofotes que idealizavam seres humanos. Com esse final, já estamos familiarizados, mas o que a indústria como um todo nos mostra são grandes empresas que se perdem diante da escuridão da sua efervescência, esquecendo-se de que arte e equilíbrio socioambiental podem e devem ser inseparáveis. O mercado muda, os discursos mudam, o público muda. Mas será que o mundo vai se manter o mesmo? Diante disso, nos cabe questionar: será que “fazer o que se vende” é mesmo a melhor escolha?

 

 

Edição: Keven Souza

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Por Keven Souza

Nas redes sociais é quase improvável você rolar o feed do Instagram ou visualizar os vídeos do Tik Tok sem ao menos perceber que tanto as mulheres, quanto os homens estão usando a nova tendência do momento. A nail art é uma técnica que prioriza pintar as unhas de forma elaborada e criativa, e que podemos encontrá-la desde os salões de beleza no gueto ou até mesmo nos espaços da alta sociedade. A moda, que é queridinha de muitas pessoas, alcançou seu pico de sucesso na era digital e veio com o objetivo de apostar em unhas divertidas que possam ser usadas para agregar valor ao look. 

No Met Gala de 2019, evento tradicional que reúne diversos famosos internacionais, a nail art foi consagrada e apresentada ao mundo como uma nova tendência do universo masculino, e naquela noite, concedeu holofotes no red carpet a diversas celebridades. O ex- One Direction, Harry Styles, foi um dos anfitriões do evento que se tornou o assunto mais comentado entre as revistas de moda pelo sucesso das unhas pintadas em preto e verde. Entretanto, não darei o prazer, novamente, aos homens héteros de levarem os créditos de serem pioneiros em uma prática que não é de hoje que existe.

O ego masculino faz com que, até hoje, os homens sejam como uma “estrela” inapagável do centro da sociedade, com o reflexo hipócrita de que mesmo com a evolução de debates sobre apropriação cultural, identidade de gênero e igualdade social, a liberdade de se expressar sem ao menos serem julgados é um privilégio restrito somente à eles. 

Talvez seja doloroso aceitar que quando um homem branco e heteronormativo, se apropria de algo, seja uma tendência ou uma causa social, logo em seguida ela se torna relevante e é pautada em diversos veículos de comunicação. 

E, por incrível que pareça, a moda vai muito além do que dispor de uma tendência, é por si só um sistema que acompanha o comportamento humano e que ao longo do tempo desempenha um papel imprescindível na vida das pessoas. É em torno dela que as roupas e as tendências carregam significados sociais, econômicos e culturais, que nos dizem quem somos e de onde viemos, sendo significativa no que se refere a nos comunicarmos, e a nos expressarmos mediante ao que usamos.  

Para nós da comunidade lgbtqia +, usar esmalte não é só mais uma tendência passageira que grandes celebridades usam e usufrui quando querem. É uma vivência, uma prática cotidiana que faz parte da construção da identidade de diversas pessoas e que existe muito antes da nail art chegar ao red carpet como um momento estético e eufórico.  

Um dos exemplos de que pintar as unhas não é uma pauta atual, temos o ator, cantor e supermodelo, RuPaul Andre Charles, que desde os anos 90 nos EUA comanda o seu programa “RuPaul ‘s Drag Race” montada de drag queen com roupas, cabelos e unhas do universo feminino. 

Na comunidade, ele é celebrado como um ícone da arte drag que atua no audiovisual (televisão) sendo homem, gay, e afeminado, que não se compara com o Harry Styles, Bad Bunny ou Zac Efron que se apropriam de uma estética efêmera para estarem em alta na sociedade. RuPaul é a prova de que há muito tempo a nail art existe, e que os LGBTs afeminados lutam para fazerem parte do palco principal e se expressarem como seres humanos livres de rótulos, mas que em suma são ofuscados e esquecidos pela mídia. 

No Brasil, a realidade é pior, celebridades como Gui Araujo, Leo Picon e Lucas Jagger, são alguns dos homens que na maior parte das vezes fazem sucesso nas redes sociais exibindo as unhas coloridas e divertidas, aplaudidos pelo uso da técnica e aceitos por um grande número de  pessoas.

Eu diria que as transexuais e as travestis que pintam as unhas, fazem o cabelo e assumem a sua identidade, não têm a mesma sorte, já que ultrapassam até mesmo os gays em números de mortes violentas no Brasil. Esse dado é do Relatório Anual de Mortes Violentas de LGBT no país, realizado pelo o Grupo Gay da Bahia (GGB), que nos diz que só no ano de 2020, 161 travestis e trans foram vítimas da transfobia e 237 pessoas da comunidade morreram de forma violenta por serem quem são.

O cenário é super cruel e me faz pensar, o que falta para sermos considerados pautas relevantes, e sobretudo, o quanto os holofotes permanecem voltados somente aos homens héteros com estereótipo padrão. Até quando iremos aceitar que, o que os homens heteronormativos fazem é normal, bonito e relevante, e o que produzimos não é plausível suficiente ao ponto de sermos lembrados de um movimento na qual fazemos parte há décadas? Até onde é possível romantizar o ato de usar esmalte em aspecto divertido e bonito, para alguns e para outros que exercem a prática como parte da sua identidade, o resultado ser a morte? 

 

Edição: Daniela Reis 

Hoje o Contramão traz o artigo opinativo da nossa ex-estagiária de jornalismo, Joyce Oliveira. Ela que conclui sua graduação ainda esse semestre e atua como social média e produtora de conteúdo.

A mudança das redes sociais

Por Joyce Oliveira

Em 2020, o mundo se deparou com uma realidade completamente atípica. A chegada da Covid-19 forçou a sociedade a mudar sua rotina e as formas de relacionamento. Isso, obviamente, influenciou na maneira como as pessoas utilizam as redes sociais. A distância física fez com que os indivíduos procurassem se conectar ainda mais virtualmente, a ponto de comerciantes, empreendedores e empresários buscarem, no ambiente on-line, uma maneira de se reinventar. Todo esse ciclo tem transformado os padrões de consumo na internet e a presença das pessoas nas redes sociais.

Essa necessidade de conexão tem explicação na psicologia. De acordo com tal campo de estudo, as pessoas precisam se conectar umas às outras para manter qualidade de vida e boa saúde mental. Portanto, estar presente nas redes, em um momento de distanciamento físico, tornou-se a forma mais fácil de manter as relações e, também, de aliviar um pouco da saudade e da solidão.

Esse movimento acelerou ou adiantou mudanças nos padrões de uso e consumo da sociedade. O marketing digital e as estratégias de mídia mostraram, às pessoas, que a enorme necessidade de conexão com o outro acabou se tornando algo rentável– e até as empresas começaram a buscar humanização.

Por falar em negócios, até as próprias redes sociais iniciaram uma corrida sobre quem alcançaria mais pessoas e quais atualizações poderiam fazer para que o público ficasse cada vez mais “preso”. Só no último ano, o TikTok ganhou mais de 600 milhões de novos usuários, o Instagram aderiu a mudanças na plataforma– incluindo “Reel” e “Instagram Shop” – e muitas outras alterações no algoritmo. O que nos leva a pensar que são estratégias para tornar o público cada dia mais dependente das plataformas, além de mostrar que elas podem ser extremamente versáteis, tanto para posts pessoais, quanto para compra e venda de produtos e serviços, criando a sensação de uma realidade paralela, na qual é possível encontrar tudo em um só lugar.

A cada dia, está mais claro que toda essa transformação causada pela pandemia, mundo afora, não é uma coisa temporária. Na verdade, há novos padrões que, provavelmente, sofrerão mudanças e avanços, mas farão parte de nossa rotina, ou, como costumamos chamar, nosso “novo normal”. Cabe a nós aprender e nos adaptar a esse turbilhão de informações, que, agora, mais do que nunca, circula por todas as redes sociais. Precisamos, também, entender se estamos preparados para acompanhar tudo. Mas, isso é assunto para outra conversa.

 

 

Por Carlos Fernandes 

Naquele 7 de março de 2020, quanto o árbitro apitou o fim do clássico entre Atlético e Cruzeiro, com mais uma vitória do alvinegro, não imaginávamos o que estava por vir. Até a data de hoje, foi a última vez que vimos as arquibancadas do Mineirão lotadas, e não temos perspectivas de quando voltaremos a prestigiar o show das torcidas mineiras.

Desse modo, o futebol perde parte de seu encanto. Parece outro esporte, não tão apaixonante. Muitos são os que defendem as atividades futebolísticas ativas em meio à pandemia, tendo como argumento que se trata de uma das “alegrias do povo”. De fato, é. O espetáculo, porém, está, hoje, sem seu principal personagem: o torcedor.

Obviamente, o momento pede, e devemos seguir as recomendações da OMS. No momento, é impossível imaginarmos torcida nos jogos de futebol. Entretanto, também é impossível pensar no futebol como um esporte tão apaixonante… sem torcida.

Quer um exemplo? A última final da Libertadores foi protagonizada por duas equipes paulistas, dois rivais, Santos e Palmeiras. Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais foi a falta de “clima de final” no jogo, ou, até mesmo, a “falta de graça”. Alguns até disseram ter sido “a pior final de Libertadores que já vi na vida”.

Para desvalorizar o feito histórico de Santos e Palmeiras, os torcedores de outros clubes até alfinetaram: “Final com dois que ninguém liga”.

Sabemos, contudo, que não é nada disso. O Santos, com suas três conquistas da América, e o Palmeiras, com uma conquista até a final, sabiam bem o peso, e tinham uma história do tamanho de final de Libertadores. Mas, não adianta. Sem o personagem principal, sempre teremos a sensação de que faltou algo. E a resposta é uma só: faltou o torcedor. Faltou o grito de “UUUUUUUUH!”, em um lance de quase gol, faltou a vaia quando o time adversário está com a bola, faltou comemoração, faltou alegria.

No futebol mineiro, o Galo, talvez, encare sua temporada de maior desafio. Com altos investimentos, o clube e a torcida esperam grandes conquistas em 2021. O Cruzeiro atravessa a pior crise de sua história, e, mais do que nunca, precisa do torcedor. Por fim, o América, que volta à primeira divisão depois de cinco anos, após uma temporada espetacular. Nenhuma dessas histórias tem sido vista de perto pelo torcedor. É angustiante.

No clássico do dia 11 de abril de 2021, houve o reencontro entre Atlético e Cruzeiro, pouco mais de um ano depois. As situações são parecidas às de 2020: Atlético na Série A, cheio de esperanças; Cruzeiro na Série B, enfrentando crises. O que muda são as arquibancadas do estádio, que, pela primeira vez na história do clássico, estarão vazias. Não sei o que representa tal clássico, para além da sensação de “jogo-treino em estádio”.

 

*Edição: Professor Maurício Guilherme Silva Jr.