Artigo de opinião

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por Marco Aurélio Faleiro

A relação entre a atividade jornalística profissional e as plataformas de conteúdo online, como Google e Facebook, é assunto central na análise das práticas e dos negócios do jornalismo contemporâneo, pois elas transformaram a maneira como as pessoas consomem informações. Desde a popularização do acesso à internet, as empresas de notícias têm mantido relação paradoxal com essas estruturas de mediação, em que se alternam movimentos de aproximação e conflito.

Os produtores de notícias precisam, cada vez mais, adequar-se às estruturas de acesso e troca de dados desenvolvidas pelas plataformas, para ter espaço, visibilidade e – o principal, em qualquer negócio – dinheiro. Mais do que meios para veiculação de conteúdo, as plataformas se impuseram como modelo de funcionamento de serviços na rede, gerando interferências na produção, no consumo e na circulação de conteúdo jornalístico. Ao centralizar e controlar as dinâmicas de circulação e monetização do conteúdo, as plataformas online promovem o que estudiosos chamam de “plataformização do jornalismo”.

Uma das consequências de tal fenômeno é o processo de desagregação de notícias, em virtude do acesso – isolado ou por meio de agregadores de conteúdos. São poucos os leitores que destrincham um jornal até encontrar a informação que lhes interessam. Essa tendência compromete a receita das empresas jornalísticas, que entram numa cadeia de audiência e publicidade que privilegia questões comerciais, em prejuízo da qualidade e da autoridade editorial.

Em outubro passado, o Google lançou um projeto que, segundo a empresa, busca promover o jornalismo de qualidade e combater a desinformação, com o investimento, nos próximos três anos, de US$ 1 bilhão em veículos de imprensa do mundo inteiro. A gigante de tecnologia afirma que, além de auxiliar a transformação digital e melhorar o plano de negócios das empresas jornalísticas tradicionais, pagará os grupos editoriais por notícias acessadas por meio da plataforma. No Brasil, mais de 30 dos principais jornais e revistas – entre eles, O Tempo e Estado de Minas – fazem parte da ação.

Como jornalistas ou consumidores, precisamos entender como se estabelece essa parceria comercial, tecnológica e editorial entre o Google e as empresas jornalísticas, quais suas balizas e se ela se insere ou distorce a lógica da plataformização do jornalismo. Independentemente das iniciativas recém-tomadas, que parecem apenas querer minar iniciativas de reguladores, a monetização da atividade jornalística em ambiente virtual e a remuneração aos veículos tradicionais por suas produções veiculadas nas plataformas precisam ser regulamentadas.

É legítimo e oportuno, ainda, que a grande concentração de serviços e capital pelas big techs esteja no radar de autoridades do Brasil e do mundo. Não menos importante, o controle da desinformação e da incitação ao ódio nas redes, que tem erodido o convívio social, precisa ser debatido com urgência e seriedade. Superada a pandemia de covid-19, a plataformização do jornalismo deve ser foco de nossa atenção.

 

 

*Edição: Professor Mauricio Guilherme Silva Jr.

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Crédito: Pixabay

Por Grégory Almeida

Essencial significa aquilo “que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental”. Até aí, ok. Se pesquisarmos uma frase com a palavra, fique certo de que a famosa citação do aviador francês Antoine de Saint-Exupéry saltará aos olhos. No livro, O Pequeno Príncipe, há um diálogo, entre uma raposa e o principezinho, muito relevante sobre a nova palavra de nosso cotidiano. Conhecida por sua astúcia, a raposa se gaba por se deixar guiar pelos sentimentos. Ela acredita que a intuição – no caso dela, o instinto – deve guiar as decisões, e não a razão. E aí vem minha indagação: o que você julga essencial para você próprio deve servir como régua para “o meu essencial”? Pensemos nisso. Ah, leia o livro. O clássico não é só para misses.

Em dias de pandemia, vivemos uma dualidade de sentimentos sobre o certo e o errado. Um conceito cai em minutos, há erratas a todo momento, e, no fim, nos resta contar mortos.  Os dias estão difíceis. Claro que a gente vai ouvir, de alguns super-heróis, que a tal gripezinha não lhes afetou. A estrutura psicológica desses caras foge da realidade. A pandemia reforçou a ideia do ignorar, do desligar da realidade pra não pirar. Ignore esses caras e não pire.

Seguimos. Abre e fecha de comércios, abre e fecha de igrejas. Um abre e fecha disso e daquilo. Protocolos estabelecidos por “grandes nomes”, que regem nossas vidas. Podemos e devemos analisar as decisões pelo caminho da capacidade política de ponderar o cenário, por erro de gestão, por conjurações políticas, pelos tais favores que eles sempre devem, e até pelo seu voto (faça sua autoanálise), mas, talvez, não precisemos analisar seguindo o conselho da raposa do livro: “o essencial é invisível aos olhos”.

Qual o caminho? Talvez ninguém, saiba. A única certeza é que erramos como sociedade. Fecha comércio e empresários vão à falência. Abre comércio e o número de infectados e mortos aumentam. Eu já ouvi: “Se eu não trabalhar, como vou comer?”. Mas não seriam estes que estão levando o vírus para casa? Quem sabe? Já ouvi, também: “As pessoas que querem as igrejas fechadas, evangélicas e católicas, não sabem o poder da fé”.

Mas a bíblia é enfática em dizer: “É melhor ir a uma casa onde há luto
do que a uma casa em festa”. E os versículos seguem nos Eclesiastes. Pois te pergunto: Quem está certo? Pois é, não se sabe. E é claro que temos inúmeros outros serviços essenciais não citados por este que escreve. A intenção, aqui, não é sobre definir certezas, e, sim buscar alternativas para amenizar a dor de todos. Mesmo porque os questionamentos precisam de contexto. E lembre-se; amenizar a dor de todos. Isso mesmo; de todos.

Ao pensar em “todos”, é emergencial implorar aos eleitos que não desprezem a ciência, nem barganhem com ela. Ela, sim, é essencial. Ao seguir as falas do que já ouvi, um engenheiro mecânico me indagou sobre minha decisão por tomar a vacina. Afirmei: “Acredito na ciência!”. Ele respondeu: “Que ciência?”. Ao pensar em todos, teremos de nos preocupar, também, com os “instruídos”. Eles também votam. Alguns deles gostam de contar números de recuperados, e não de óbitos. O que não me parece ser o cenário que mudará a situação. Afinal, os nomes nos obituários estão ficando entre os nossos conhecidos, nos próprios bairros e nas ruas de cima.

Hoje, não teremos respostas e acho que nem precisamos. A gente quer é passar por tudo isso e sobreviver. Quem será aplaudido, não sabemos, mas o alvo de todas as críticas, sim. É preciso pensar que nunca seremos um país sério enquanto estivermos polarizados. Minha barraca de água de coco não é menos importante que sua empresa. Mas, se seu direito de ir e vir me traz um vírus mortal, não é sobre essencialidade que estamos falamos; é sobre você não saber usar seus direitos. Quem pode fica em casa. Quem não pode sai, mas assumindo riscos. E assumir riscos torna a linha tênue sobre “o seu essencial” não ser “o meu essencial”.

Pra fechar: a raposa não é racional, mas o príncipe, sim. E ele decidiu repetir a frase, para guardar na memória.

– Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

– O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

Qual essencial? “O meu ou o seu”?

 

*Edição: Professor Mauricio Guilherme Silva Jr.

Créditos: Freepik

Por Arthur Paccelli

A pandemia da covid-19 trouxe consigo uma das maiores mudanças comportamentais da história. A maior e mais eficaz recomendação das autoridades de saúde é ficar em casa, o que resultou em reviravolta na rotina de trabalho de milhões de pessoas ao redor do mundo. Basicamente, todo serviço possível passa a ser feito em casa.

Home office antes da pandeia, para muitos, era uma realidade distante. Muitos acreditavam ser impossível fazer o trabalho fora do escritório. Diante de um cenário cujo ato de sair de casa se transformou em sinônimo de correr riscos, não houve outra escapatória a não ser aderir.

Historicamente, o ambiente do lar é associado a um refúgio de tudo aquilo que nos desgasta e nos estressa no mundo externo. Ouvimos, desde sempre, que não se deve levar trabalho para casa. A “cultura” de desmembrar, radicalmente, a casa do trabalho gerou resistência e delonga na adaptação ao novo modelo.

Isto é, nosso subconsciente percebe a casa como ambiente de descanso. Logo, o foco no trabalho é afetado, não somente pela mudança do ambiente, claro, mas, também, devido ao clima de incertezas de uma pandemia. Não se pode negar que um local tranquilo propicia uma experiência de trabalho melhor.

Pessoas que moram sozinhas, geralmente, não veem problemas, e até preferem o home office. Por sua vez, aqueles que moram com a família, ou têm crianças em casa, por exemplo, encontram dificuldade de adaptação e preferem ir ao escritório. Isso se reflete na situação daqueles que não detêm espaço silencioso e calmo, separado do restante da casa, para trabalhar.

Inúmeros trabalhadores não têm sequer uma estrutura de mesa e cadeira adequadas para o exercício da função. Assim também ocorre no contexto de regiões de periferia, onde não há rede de internet de boa qualidade.

A jornada de trabalho, talvez, tenha sido a que mais sofreu alterações. Como não é mais considerado o tempo de deslocamento de casa à empresa, o trabalhador “ganhou” horas a mais. Em diversos casos, o expediente começa um pouco mais cedo, e só termina quando as demandas acabam, pois não há mais aquela pressa para ir embora.

Uma vez que o motivo de não sair de casa – nem para trabalhar – seja prevenir-se de uma doença, não há o que questionar. A verdade, contudo, é que trabalhar em casa, como tudo da vida, tem dois lados. Os prós e os contras do home office são bem correlatos: ainda que dispensar o uniforme, o dress code, e poupar o tempo do transporte possam ser agradáveis, não ter interação direta com os colegas, ou com o chefe, pode ser estressante, principalmente, em trabalhos de equipe (situação, aliás, da maioria).

Em tese, o modelo de trabalho em home office exige, acima de tudo, paciência, organização e foco. Não podemos romantizar as atuais circunstâncias, pois os desafios são diários. Em meio à atual crise socioeconômica global, é de grande valia ter um emprego. Voltaremos aos escritórios sabendo valorizar e apreciar o melhor dos dois mundos.

 

*Edição: Professor Mauricio Guilherme Silva Jr.