Artigo de opinião

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Por Bianca Morais

Em uma época em que as mulheres viviam refém dos pais e depois dos maridos, quando elas não tinham acesso à educação e trabalhavam apenas em funções domésticas, uma delas, talvez uma das primeiras feministas do mundo, se levarmos o termo cru do movimento que luta pela igualdade de gêneros, se destacou. O nome dela: Maria Madalena. 

Tida por muitos, ao longo de séculos de catolicismo, como prostituta e pecadora, aquela que acompanhou Jesus Cristo até sua morte e ressureição, muito provavelmente, teve de deixar para trás padrões impostos pela sociedade da época que diziam que ela deveria permanecer em casa.  

Lucas 8:2 diz: “Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios”. Para os judaicos, ter demônios, nada mais é que ter uma doença, mas no cristianismo europeu aquilo foi ligado ao pecado, e por ela ser mulher, relacionado ao sexual. Em nenhum momento o versículo deixou claro que era uma prostituta, mas estamos cansados de saber que as religiões interpretam a bíblia da forma como querem, por isso, muitas a consideram de tal forma, inclusive, as mesmas que dizem que o relacionamento homoafetivo é pecado, mesmo Jesus durante toda sua vida ter pregado o amor. 

No livro “O Código da Vinci” de Dan Brown, é narrado um relacionamento secreto entre Jesus e Maria Madalena retratados nas obras de da Vinci. O argumento parte em teorias feitas pelos chamados “Evangelhos Canônicos” nos livros apócrifos do Novo Testamento e dos escritores gnósticos. Segundo eles, na pintura A Última Ceia, quem está ao lado de Jesus de cabelos compridos e traços femininos seria Maria Madalena e não o apóstolo João. Além disso, o fato de Jesus não envergar o Gral leva a interpretação que a mulher é o “Cálice Sagrado”, onde repousa o “sangue de Cristo”, ou seja, que ela estaria grávida. 

Após a crucificação de Jesus Cristo foi Maria Madalena que visitou sua tumba levando especiarias para ungir seu corpo nu, tarefa assumida por esposas, mães ou familiares. Já dizia a bíblia que Jesus viveu entre nós como um homem comum, e homens naquele tempo e com a idade dele tinham esposas. Os cristãos fervorosos dizem que o filho de Deus não veio a terra para se casar, muito menos para ter filhos, por isso, repudiam tanto Maria Madalena.  

Claro, isso é uma teoria, assim como toda bíblia escrita pela Igreja Católica, a mesma que considera Jesus Cristo, nascido em Jerusalém, um homem branco de olhos azuis.  

Na atual sociedade com o machismo imposto toda mulher autossuficiente, dona de si, financeiramente independente, mãe solo, líder e chefe, intimida e sofre preconceito. Quantas mulheres que saem a noite para tomar uma cerveja com o marido, ou levam o filho na apresentação da escola sozinha são vistas com maus olhos pela sociedade que por mais avançada que seja, ainda acredita que lugar de mulher é no fogão, faxinando casa para quando o marido chegar à noite do trabalho sua janta estar servida? 

Sendo assim, não seriamos todas nós feministas, Maria Madalena? 

Maria Madalena é vítima. Vítima de um catolicismo exacerbado, vítima de sua imagem ser possivelmente ligada a uma relação mais intima com Jesus. Vítima de ter largado costumes da época para seguir seu líder espiritual.  

E se Maria Madalena de fato fosse prostituta, qual seria o problema? Prostituta é uma profissão, mulheres que ganham a vida com trabalhos sexuais, inclusive, para homens de bem, seguidores do catolicismo. A questão é, do mesmo jeito que eles têm o direito de seguirem uma religião e usufruírem dos serviços delas, elas também têm o direito de acreditar em Deus e seguir os ensinamentos de Jesus. Independente se Maria Madalena foi ou não uma prostituta, ela teria a mesma licença para seguir a Jesus Cristo, afinal, foi ele quem disse “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.  

No Brasil não se discute religião, política e futebol. 2022, copa do mundo e eleições. Com as redes sociais é, sem dúvidas, impossível não se discutir esses assuntos. Por que não discutir religião então? Discussão é uma palavra forte, pode remeter algo agressivo e não precisa ser. Discutir religião pode ser simplesmente uma maneira de tentar trazer os ensinamentos de Jesus Cristo para a nossa atual realidade.  

Paz, amor, harmonia, perdão, respeito entre os homens, por que é tão fácil adorar Jesus e tão difícil seguir seus mandamentos? Por que considerar uma mulher solteira uma prostituta? Por que levar um fora de uma mulher te leva a ofendê-la? Do que adianta não consumir carne na sexta-feira da paixão para ser perdoado dos seus pecados se você poderia simplesmente não os cometer? 

O feminismo te incomoda porque algumas pessoas são cheias de preconceitos dentro de si, e o pior, tentam justificar isso em cima do cara mais bacana que já passou pela Terra. E como disse Bruna Marquezine em uma recente participação num podcast, “Jesus Cristo é maneiraço, o fã clube que estraga o rolê”.

Nota do editor: os textos e fotos, vídeos publicados nos artigos de opinião não refletem necessariamente o pensamento do Contramão, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

 

 

 

Por Bianca Morais

No último Lollapalooza, no ano de 2019, a apresentadora Titi Müller do canal Multishow soltou o conhecido meme “a galera te pedindo muito Anitta”, que na verdade era para mascarar a plateia gritando “Fora Bolsonaro”. A questão é que o ano agora é 2022, dois anos depois do último Lolla o evento volta com tudo, e inclusive, com Anitta agora no número 1 do mundo. 

Esse ano além de ter muita gente pedindo Anitta, também teria muita gente pedindo fora Bolsonaro, afinal é ano de eleições e quem ama um bom festival sabe que no governo dele a verba para cultura foi cortada. Pabllo Vittar estava presente no evento, outra rainha do Brasil, símbolo LGBTQIA+, a drag mais pedida de todo o mundo, fez uma performance incrível e um momento polêmico registrou seu show. 

Ao ir para a plateia, ela se enrolou em uma toalha com a estampa do ex-presidente do Brasil, Lula. O que levou a galera à loucura, uns pedindo “Lula” e outros “Fora Bolsonaro”. E foi então, que o atual chefe de estado recorreu imediatamente ao TSE para que proibissem as manifestações políticas no evento. O pior? O pedido foi acatado! 

Agora me pergunto, estamos vivendo a constituição que garante a liberdade de expressão ou voltamos aos anos de chumbo em que artistas como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Chico Buarque entre outras dezenas tinham que se calar em meio a ditadura militar.

E o Lollapalooza não deixou barato. No sábado, o vocalista da aclamada banda de rock Foo Fighters faleceu, a banda, claro, cancelou sua apresentação e o festival chamou simplesmente o Planet Hemp para tocar no lugar dos caras.

Teve Emicida, Rael, Criolo e a frente do Planet: Marcelo D2. Artistas que vivem da música e sabem o quanto ela é importante e simboliza em momentos de insatisfação. Foi assim no século passado e não será diferente neste. Porque, na música não há espaço para represália, não há lugar para boicote, não há censura! 

E se Jair Messias Bolsonaro, estimula a reclusão de manifestação artísticas nos palcos por parte dos cantores e do público, deveríamos pensar sobre seu cargo de presidente, já que na íntegra  o trabalho de um presidente é governar para todos, inclusive para aqueles que discordam do seu governo, e não calar a voz de uma classe só porque ela não lhe convém. 

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Por Bianca Morais 

No dia 24 de fevereiro, depois de meses negando uma invasão, Vladimir Putin, presidente da Rússia invadiu a Ucrânia. Por terra, céu e mar o presidente, com a justificativa de proteger a população de um genocídio e eliminar o nazismo presente no lugar, vem causando a morte de milhares de civis e militares com a guerra.

Putin não anuncia em suas redes sociais ou nos canais de televisão controladas pelo governo que, na verdade, a sua maior preocupação não é com os nazis do país, liderado por um judeu que teve seus antepassados mortos pelo regime, mas sim, pelo medo de perder o controle do Leste Europeu.

Com a proximidade da Ucrânia com a União Europeia e da Otan, a Rússia teme que o país vizinho se expanda e retorne ao tamanho que tinha em 1997, porém a narrativa de um Putin ‘bonzinho’ não engana ninguém que tenha acesso ao mundo real.

O aumento das mortes devido aos ataques leva o presidente russo a colocar a paz na Europa em risco, fazendo então países do continente e os Estados Unidos imporem sanções para ajudar a Ucrânia. Marcas como a Apple, Starbucks, McDonalds e Coca-Cola estão temporariamente encerrando suas atividades na Rússia, o capitalismo unido com força para derrubar a ex-União Soviética, mais uma vez.

Por onde será que estava todo esse boicote, ou como se diz hoje em dia “cancelamento”, lá em 2003, quando os EUA invadiram o Iraque com uma justificativa em cima de uma “fake news” que dizia que o ditador iraquiano da época tinha armas químicas de destruição em massa? Por que ninguém foi contra uma das maiores potências mundiais pedir misericórdia pelos iraquianos?

Nesse exato momento, ao redor do mundo, existem dezenas de conflitos com uso de armas, como na Europa, África, Oriente Médio e na Ásia. O destaque está na Rússia x Ucrânia, mas a Síria, há cerca de 10 anos está sendo completamente destruída por bombardeios diários.

O Afeganistão é sem dúvidas um dos mais abalados, depois de derrubarem o Talibã e manter suas tropas durante anos na região, Joe Biden, atual presidente dos EUA, retirou seus militares deixando o país africano nas mãos do grupo mais radical do mundo, aquele que mata mulheres e tira a liberdade de viver do seu povo. Mas quem vai criticar os Estados Unidos?

As guerras acontecem por diversos motivos, seja por questões políticas, territoriais, religiosas, étnicas, entre outras. Países do Oriente Médio, por exemplo, vivem massacres há anos, grande parte deles com um dedo da potência americana, e se a mídia divulga algum, uma vez por semana, é muito! 

A guerra na Ucrânia tem gerado uma grande comoção mundial, principalmente dos vizinhos europeus. O jornalismo ocidental vem soltando vários comentários de apoio aos irmãos, alguns deles ressaltam como pessoas brancas de olhos azuis estão morrendo, “Eles se parecem tanto com a gente, isso é o que faz ser tão chocante”, disse um jornal. Outros ressaltam como é um absurdo estar acontecendo uma guerra na Europa, “Com todo respeito, não é um lugar como o Iraque ou Afeganistão”.

Só existe uma explicação para toda a comoção da morte de europeus loiros de olhos azuis e indiferença por negros e outras minorias que estão sendo deixados para trás no país, moradores de favela e cidadãos do Oriente Médio, o nome disso é preconceito!

A Europa está praticamente gritando que toda morte é lamentável, mas algumas são mais do que as outras. Quem está perdendo a vida dessa vez não são homens-bomba e terroristas, são gente do bem, como eles. O deputado espanhol, Santiago Abascal, defendeu que os refugiados ucraniano merecem ser recebidos na Europa, porque são diferentes dos jovens de origem muçulmana que buscam o mesmo acolhimento, e o pior, ele está sendo aplaudido por isso.

A empatia é seletiva, pessoas brancas versus não brancas, dessa vez os europeus não estão sendo capazes de disfarçar o racismo e xenofobia, são imigrantes negros, árabes e asiáticos que não estão conseguindo sair do país. Segregação racial descarada, são pessoas negras barradas em ônibus e trens em direção a fronteira.

Recentemente um cidadão imigrou para o   Brasil para fugir da guerra e morreu em uma famosa praia do Rio de Janeiro. Certas coisas nunca mudam.

Mas o que é guerra? O que significa uma guerra? São pessoas presas em suas casas, sem poder sair com medo de serem vítimas de um bombardeiro. São escolas e hospitais fechados, destruição e sangue de inocentes derramados. Nesse momento me perco, estou a falar da guerra na Ucrânia, na Síria ou de uma invasão policial em uma favela brasileira? A diferença mais gritante é que aqui no país tropical, as pessoas não podem simplesmente abandonar suas casas para se refugiar em outro local.

No começo do mês, um jovem foi morto e dois baleados na comunidade da Gamboa em Salvador, o repórter então chega para uma mulher e pergunta se o garoto ferido tinha envolvimento e em resposta ela diz: “Ô moço, isso não importa nesse momento, sabe por quê? Porque se ele tinha algum envolvimento a obrigação dos policiais é levar preso e não matar à queima roupa”. A diferença do jovem de Gamboa para o ucraniano é a cor da pele e a humanização dada a ele.

É responsabilidade do jornalismo expor as imagens de guerra, mas é evidente que a grande mídia narra o que lhe convém. Durante a guerra do Iraque não se chegou nem perto de humanizar os iraquianos como os ucranianos. A rede social que acha lindo e emocionante o pai militar segurando uma arma e fazendo TikTok, a fim de fazer a filha acreditar que está tudo bem na guerra, é muito mais bem visto do que um iraquiano mascarado com uma arma.

Supremacia branca, termos racistas, xenofobia e termos pejorativos. Até quando? Há anos existem guerras, muitas vezes piores, que sensibilizam muito menos.

Em nenhum momento a dor dos ucranianos foi diminuída, são cidadãos pegando em armas, alguns pela primeira vez, para defender o país em que nasceram e foram criados. São crianças atravessando fronteiras sozinhas com apenas um papel com o telefone de parentes em mãos. São idosos com medo de sair de onde estão e serem bombardeados no caminho de fuga e outros que nem ao menos conseguem sair de onde estão.

A guerra está ali, aqui e lá, todas têm sua importância e história, as pessoas que passam por elas sentem mais, sofrem mais, por isso, a obrigação de quem está de fora é não selecionar quem merece ou não passar por tal sofrimento.

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Por Bianca Morais 

O TBT de hoje do Jornal Contramão, é um artigo de opinião e mostra não apenas os acontecimentos desastrosos daquele 2 de outubro de 1992, mas uma resolução sobre a atual situação que não é muito diferente da antiga.

A Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, inaugurada em 1920, foi durante décadas uma prisão segura e bem estruturada. Para se ter ideia, na época foram investidos 14 mil réis em sua construção, enquanto outros presídios custavam por volta de até mil réis. Depois de 20 anos funcionando, em 1940 ele alcançou sua lotação máxima, e em decorrência disto começou a construção dos pavilhões para que pudesse receber mais detentos.

Os pavilhões eram divididos por detentos.

  • No Pavilhão 2 aconteciam as triagens dos presos e onde ficavam os serviços de apoio, como alfaiataria e barbearia.

 

  • No Pavilhão 4 encontravam-se as celas individuais e enfermaria. Importante ressaltar que nesse prédio, no térreo mantinham-se os presidiários doentes, muitos com tuberculose, doença comum na época. No segundo andar os deficientes mentais, errado, uma vez que esse perfil de pessoa não deveria estar em uma cadeia comum.

O terceiro andar era ocupado pelas celas individuais e onde permaneciam estupradores e pedófilos. Por serem jurados de morte, esses bandidos precisavam ficar em celas separadas, e com isso, acabavam sendo beneficiados, afinal, sem convívio com os outros, eles não entravam em brigas, mantinham bom comportamento e conseguiam a liberdade mais cedo.

Não estou aqui para defender bandidos, mas é necessário entender que sim, existe uma diferença gritante entre alguém que rouba um pão para sustentar a família e alguém que estupra crianças. Esse perfil de prisioneiro deveria ser punido com mais rigor, sem a oportunidade de voltar a se reinserir tão cedo.

E isso acontece até hoje, afinal, se alguém condenado por ter estuprado uma criança, pelas “leis da prisão”, é morto logo nos primeiros dias, porque não criar um presídio para eles, onde irão pagar suas penas juntos aos seus iguais.

  • Pavilhão 5 nesse prédio possuía as celas conjuntas. No terceiro andar ficavam os justiceiros, no quarto os travestis, no quinto os “presos do seguro”, jurados de morte, conhecidos como amarelos, o apelido se veio pelo fato de que por não saírem das celas com medo e serem proibidos de tomar sol, eles ficavam amarelos. 

Situações desumanas, mas ainda na lei da prisão, se eles saíssem de lá, seriam mortos, e com certeza, os policiais, encarregados de manter a ordem no presídio, não iriam impedir isto.

  • Pavilhão 6 lá ficavam a cozinha e as solitárias, onde presos que cometiam alguma desordem eram mantidos durante alguns dias isolados.

 

  • Pavilhão 7 era o mais calmo, ocupado por presos de bom comportamento e que trabalhavam.

 

  • Pavilhão 8 presos reincidentes, os chefões, os mais “espertos”, que não procuravam confusão e viviam deles.

 

  • Pavilhão 9 o local do massacre. No pavilhão 9 se encontravam os réus primários.

O Brasil vive uma realidade de presídios superlotados e situações precárias. O Estado é falho, milhares de celas pelo país estão cheias de réus primários, aqueles que ainda estão aguardando julgamento, e não é atoa que foi justamente nesse pavilhão, superlotado, que ocorreu o massacre.

Existem réus primários que não cometem crimes tão graves, e existem aqueles que cometeram violências brutais, e ali, todos se encontravam, pois esperavam, às vezes anos, por julgamento. 

Coloque em uma cela uma pessoa manipulável e outras estressadas. Coloque alguém que acabou de entrar na cadeia e que não tenha onde dormir, porque para dormir nas celas do Carandiru você precisava pagar, sem dinheiro, você fica devendo a um assassino, que ou vai te matar ou irá te cobrar um favor. O que é pior? Era essa a realidade catastrófica do Pavilhão 9. 

A prisão era uma verdadeira bomba relógio, a divisão dos pavilhões e presos sempre causava muitas brigas e discussões, inclusive, diferentes facções eram colocadas juntas de modo preciso para brigarem entre si e, quem sabe, “com sorte” um ou outro acabava morto para esvaziar o Carandiru. Enfim, uma dessas brigas, no entanto, ficaria marcada para sempre na história daquele lugar. Era como se fosse uma tragédia anunciada para extinguir o depósito de prisioneiros.

No dia 2 de outubro de 1992 aconteceu uma partida de futebol entre dois times de presidiários, outros detentos assistiam a partida. Enquanto isso, no pavilhão 9 começou uma briga entre dois presos conhecidos como Barba e Coelho. O que parecia apenas uma discussão comum, iria se tornar o maior massacre dentro de um presídio no Brasil.

Em determinado momento, a briga perdeu o controle e foram entrando mais e mais pessoas. Eram dezenas de presos se atracando e os guardas não conseguiam separar, por isso, foi necessário chamar reforço, eram 300 policiais do lado de fora do Carandiru.

Naquela tarde, o Coronel Ubiratan estava no comando e autorizou todos aqueles policiais a entrar no prédio e controlar a situação. E não apenas ele, mas foram ordens do governador e do secretário de “segurança” pública de que a PM poderia intervir para “restabelecer a ordem”, o que deu início ao banho de sangue. Literalmente falando, pois ao final o sangue dos mortos misturou a água dos canos estourados. 

A partir desse momento várias versões apareceram, e fica a cargo de vocês, leitores, escolherem qual parece mais digestível.

Enquanto a polícia afirmava que 86 policiais invadiram o presídio, a promotoria que investigou afirmou que foram mais de 300, e a maioria sem crachá.

300 policiais, e grande parte deles sem identificação. Eles não estavam entrando ali para controlar uma rebelião, eles estavam entrando ali para matar!

No ano de 1992 o país passava pelo primeiro episódio de impeachment, a transição do governo de Collor para o de Itamar Franco tomava conta de todos os jornais. No dia seguinte ao massacre seriam as eleições em São Paulo, entre as pesquisas o favorito era Paulo Maluf e seu principal adversário era Eduardo Suplicy. Aquele rebelião não poderia durar mais que um dia, ela precisava acabar naquela sexta-feira.

A tal guerra pode ter começado dentro da prisão, mas no final das contas ela se tornou uma batalha de fora para dentro.

Os direitos humanos e presos presentes afirmam que na hora que os policiais estavam entrando, eles já estavam se rendendo e entregando as armas. 

Os policiais alegam que os presos não estavam pacíficos, que ao contrário, atacavam eles e agiam de forma violenta, jogando sacos com urina nos policiais e os atacavam nos corredores com seringas com sangue de portadores de HIV.

Não se rebate sacos de urina com armas de fogo. 

Os detentos e, posteriormente, a perícia afirmaram o seguinte: a hora que os policiais atacaram, eles já haviam se entregado, estavam desarmados dentro das celas, e mesmo assim, os homens entraram para matar.

Ninguém tentou apaziguar nada, a perícia afirmou que apenas 26 detentos de 111 mortos naquele dia, estavam fora da cela, isso significa que 85 sujeitos foram mortos dentro da cela, já rendidos.

A trajetória das balas seguia de fora para dentro, os policiais teriam parado nos cantinhos da cela e atirado. A maioria dos tiros? Na cabeça, tórax. Ninguém atira na cabeça para render presos, atiram nesses locais para exterminá-los. 

Os policiais em contrapartida alegam legítima defesa. Centenas de presos desarmados, se um policial atirasse na perna de um, já calaria milhares, mas não, não era defesa, era ataque. 

Eles são bandidos merecem morrer? Escutamos diariamente isso vindo da boca de representantes do governo, não desde hoje, desde sempre. O banho de sangue do carandiru foi 29 anos atrás, mas com ordens superiores, poderia acontecer hoje ou amanhã.

Até os dias atuais, policiais sobem morro matando bandido e gente inocente que não teve sorte de estar ali no momento. Um preso custa ao governo cerca de 2500 reais, por que o governo não pega os 2500 reais e investe em educação? Em construção de escolas, invés de anexos em presídios?

Uma criança na favela cresce recebendo cesta básica e brinquedos de traficante de droga, enquanto de policial cresce levando tapa na orelha, chamado de vagabundo, e de vez em quando perde um amiguinho de escola de bala perdida.

Você acha que essa criança vai gostar de bandido ou de policial? Quer respeito, respeite.

Na noite daquele 2 de outubro, os policiais obrigaram os presos sobreviventes a carregar os amigos mortos até o 1º andar do presídio, e nisso ainda atirou em alguns deles que saíam da cela. 

Havia tantos mortos, que até quem não tinha morrido e estava agonizando entrava no camburão e morria sufocado.

Se não deviam nada a ninguém, por que atrapalhar uma cena de crime? 

Em uma primeira hora a polícia anunciou o número de mortos: 8 detentos.

Oficialmente 111.

Por que aqueles presidiários morreram? Qual foi o crime cometido por eles? Por que eles estavam ali? Será que o crime cometido por eles é pior que o de desviar verba de construção de escolas e hospitais? Será que o crime deles é pior que corrupção?

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Discurso do presidente do Brasil. O mesmo que diz que bandido bom é bandido morto. Se cree tanto em Deus não deveria ser ao contrário? Não é Deus o único poderoso o suficiente, que pode condenar alguém no juízo final? Onde se perdeu a tradução da bíblia sagrada? E vale lembrar, que segundo a legislação brasileira, Brasil é um país laico.

E sabe o que aconteceu com todos aqueles responsáveis pela morte de 111 presos? Condenados, claro, mas alguém realmente pagou por isso? Ou para esses a lei divina irá cobrar? Segunda opção.

Dos 300 policiais, 78 foram a júri por participação no massacre, 74 foram condenados por homicídio, porém, com os julgamentos anulados ninguém cumpriu pena.

Na realidade o capitão Ubiratan pagou, em 2001 ele foi condenado por 102 mortes, 632 anos de cadeia, mas em 2006 acabou sendo absolvido. No entanto, antes tivesse sido preso, pois aqui fora não teve tanta sorte, no caso dele não foi a justiça, nem Deus que o julgou, foi a lei da prisão, o “aqui se faz aqui se paga”.

Atualmente o presídio está desativado, os presos foram transferidos, alguns dos prédios demolidos e outros reaproveitados para abrigar instituições educacionais e de cultura, mas a realidade é que nada nunca poderá apagar o que aconteceu naquele dia, todo aquele sangue derramado.

O episódio do Carandiru chamou atenção de todo o mundo, a partir daquela data houve muita cobrança em cima da polícia, a tropa de choque não invadia mais, aquele massacre acabou interferindo na segurança dos presídios, uma vez que eles não poderiam mais interferir e os presos acabaram tendo mais “liberdade” na forma de agir. Os justos acabam pagando pelos pecadores.

O Primeiro Comando da Capital, o PCC, uma das maiores organizações criminosas no Brasil nasceu com a justificativa de “combater a opressão dentro do sistema prisional paulista” e “vingar a morte dos cento e onze presos”, se a justiça não é feita pelos meios convencionais ela acaba sendo feita por outros.

O governo nunca esteve preparado, os anos 90 foram marcados por crises econômicas e desemprego, a criminalidade crescia mais a cada dia, esse episódio não deveria ter acontecido, o certo era se construir mais prisões, se aqueles presos deveriam pagar pelo seus crimes, eles iriam pagar para sempre, mas vivos. 

A rebelião era entre presos, uma hora ou outra eles acabariam resistindo, em situações como essas, corta luz, água, banho de sol, uma hora eles acabariam cedendo, infelizmente essa hora nunca chegou. 

111 mortes não podem ser esquecidas, todos estamos fadados a cometer erros na vida, e não é por isso que precisamos pagar com nossa vida, antes de encher a boca para falar de fulano, olhe para dentro e entenda que você também não é perfeito. Se dentro da sua religião apenas Deus pode julgar, porque você insiste em condenar os outros sem nem ao menos juiz você é?

 

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Em comemoração ao Dia do Estagiário, o Contramão traz hoje, um artigo de opinião que simplifica o estágio como um processo enriquecedor e que, consequentemente, tem capacitado os estudantes a serem profissionais do futuro. O texto foi escrito pelo estudante de Jornalismo e nosso estagiário aqui no jornal, Keven Souza.

Confira! 

Processo que salienta o profissional do futuro

Por Keven Souza

Almejar um futuro que contenha êxito profissional, é um sonho de inúmeras pessoas que acreditam na educação como instrumento transformador de realidades. Tudo começa com a difícil decisão de qual curso ingressar e em que área atuar como profissionais realizados e felizes, dilema de quem busca, incansavelmente, o sucesso. 

Desde o início são oferecidos inúmeros conhecimentos, as disciplinas se iniciam interligadas a outros cursos, os meses vão se fluir e a sensação de estar preparado para adentrar no mercado é aguçada a cada semestre concluído. Para além das habilidades fomentadas em sala, nós graduandos, temos necessidade de estimular a relação ensino-aprendizagem com o treinamento prático em situação real, o objetivo é aperfeiçoar o acadêmico em sua totalidade. 

Através dos semestres, o momento de pensar em um estágio não obrigatório se aproxima, aquele momento ímpar pro currículo, que vai enriquecer a jornada dentro e fora do curso. Talvez estar em uma graduação aos dezenove anos é viver uma dicotomia entre ser jovem demais para absorver tantas técnicas, e formar aos vinte e dois para iniciar o quanto antes no mercado de trabalho. Em muitos momentos a insegurança de não ser bom o suficiente e o medo de não absorver na íntegra os conteúdos, são sentimentos constantes. É normal, afinal, ao ingressar na faculdade, tudo é novo e pouco se sabe. 

De modo geral, uma das maneiras de dizimar as inseguras e o medo ao longo do curso é atuar como estagiário, uma etapa importante para aprendermos e nos desenvolver enquanto profissionais em processo de crescimento. São a partir dos ambientes corporativos que pautam pela inclusão, prezam pela diversidade e fomentam a experiência, que se constrói habilidades para além do currículo. Hoje, ser um profissional vai muito além de exercer um cargo, é preciso ser capacitado, indivíduos comprometidos e multifacetados que operam em diferentes âmbitos ocupacionais. 

No entanto, o cenário quase nunca é positivo, um levantamento realizado pela consultoria IDados, diz que no Brasil 40% dos jovens com ensino superior não tinham emprego qualificado até o primeiro semestre de 2020. Um quadro que intimida e informa que inúmeros profissionais formados ocupavam lugares que não exigiam curso superior e que como resultado não exerciam a sua profissão. À vista disso, digo que os alunos carecem de espaços que propiciem oportunidades de alavancar o currículo ainda na graduação, um processo que oferte uma maneira de conectá-los com a profissão e demasiar, com maior sucesso, sua atuação em suas respectivas áreas após a formação.

Estagiar, em suma, solidifica os momentos reais e diversificados dentro da academia é um período que beneficia o crescimento intelectual e a construção de uma carreira profissional brilhante. A prática e a dedicação, adquiridas ao longo desse processo, podem agregar valores e conhecimentos cruciais para cultivar a capacidade de ir de fato ao encontro do mercado de trabalho com diferentes técnicas, habilidades e qualificação necessária. 

Em um panorama positivo, anseio que as empresas, instituições e universidades sejam lugares disruptivos e indispensáveis aos alunos, que possam incentivar e reconhecer a força e a vontade de um aprendiz. A fim de que o mercado de trabalho, que exige capacitação em totalidade máxima dos profissionais, coloque em xeque as oportunidades que concedem aos estagiários. Será que propiciam novos saberes? Será que fomentam um ambiente experimental? São muitas perguntas que deverão ser questionadas para que o estágio continue a abrir novos horizontes aos graduandos e de fato se tornar um processo corriqueiro e imprescindível que, consequentemente, molda o profissional do futuro.

Comas Brasil no desfile Eco Fashion Week

Como um dos pilares da instituição, os projetos de extensão tem como princípio construir uma visão aberta e plural nos alunos, capaz de estimular o contato de ambos com a profissão ainda na graduação. Uma maneira que enriquece os conhecimentos acadêmicos e salienta o dinamismo profissional em diversas áreas de atuação. 

E hoje, o Contramão traz um artigo de opinião construído por meio do projeto de extensão Jornalismo de Moda, liderado pela professora Gabriela Ordones, que tinha como propósito fomentar o senso crítico e a escrita jornalística dos alunos dos cursos de Design, Comunicação e Moda. 

por Helena Coutinho

“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como bem expressou Lavoisier. Esse é o precedente de um dos movimentos de mercado mais fortes da atualidade, que ressignifica o descarte e o transforma em novo, apontando uma direção importante para a segunda indústria mais poluente do mundo, a da moda. 

Há relativamente pouco tempo, o mercado tem caminhado em um mesmo sentido: o da sustentabilidade. Tal movimentação, já mostrava sua previsibilidade em diversos veículos de tendência, visto que, há muito, já vínhamos percebendo que a escala na qual produzimos é insustentável para o nosso planeta e esse não é um reflexo a longo prazo. Para as marcas, o que antes era uma escolha e um diferencial é agora uma obrigação e uma exigência crescente dos consumidores, principalmente no que diz respeito às novas gerações. Vemos hoje a assinatura de tudo isso em colabs eco-friendly, técnicas de Upcycling e linhas de produção mais transparentes e atentas aos seus reais impactos.

Mas, cá entre nós, o consumidor de luxo e de grandes marcas, no geral, não dispõe de muita atenção no que diz respeito à temática da sustentabilidade, apesar disso, nitidamente, veio se fortalecer a cada dia. Uma das fortes ondas do momento são as técnicas de otimização de recursos e a reestruturação de materiais que seriam descartados. Uma das mais vistas recentemente é o Patchwork.

A técnica não é novidade: desde o Egito Antigo já deixou suas pegadas e, na moda, marcas como Vivienne Westwood e Versace foram algumas das pioneiras. Porém, o discurso do Patchwork aliado à sustentabilidade é relativamente fresco e quase que simbiótico. Contudo, em um momento onde a narrativa de empatia com o nosso planeta é crescente, marcas que ousam experimentar técnicas de Upcycling e reaproveitamento devem se atentar, também, ao seu discurso e analisar, diante de um mercado cada vez mais atento, se o seu propósito enquanto marca converge ou não com os princípios que precisam nortear uma coleção ecologicamente segura.

É notável que o movimento efetivo relacionado à sustentabilidade na moda, teve seu ápice nos brechós, bazares e com pequenos artesãos que, com um talento impecável, transformavam o que antes era considerado lixo em peças comercializáveis e exclusivas. Feliz ou infelizmente, grandes corporações, ao perceberem a crescente valorização mercadológica desse tipo de produto, viram-se diante de uma grande oportunidade: vender mais, com um discurso que até então ia na contramão das suas crenças e da sua linha de produção. É aí que a discussão ganha novos rumos.

A pandemia impactou a escassez de matérias-primas de todo e qualquer setor, inclusive o da moda. Gigantes da indústria fashion deram de cara com a incerteza, investimentos perdidos e uma estrada nebulosa diante do que viria pela frente. Ao mesmo tempo, pessoas que estavam em casa, esgotadas pelas exigências do isolamento social, começaram a utilizar como forma de escape a arte e a criação. O famoso “inventar moda” deixou de ser apenas um termo e ocupou um lugar importante no cotidiano das pessoas, principalmente no TikTok, onde ficou famosa a reformulação de peças já existentes no guarda-roupa. E essa foi a estratégia também adotada pelas marcas, agora obrigadas a utilizar dos seus recursos em meio à escassez, vendo-se impelidas a aproveitar o seu estoque que, há pouco, era integralmente carbonizado. 

Dolce & Gabbana, marcada pelas suas polêmicas contraditória se ética questionável, foi uma das gigantes a adotar o reaproveitamento, estratégia carimbada na sua coleção de verão 2021 ready-to-wear, executada a partir da mescla de diferentes retalhos que, juntos, se transformaram em uma explosão de cores e peças bastante atraentes ao olhar. Por um lado, nossos olhos brilham por saber que a adesão de grandes marcas a temas e propostas mercadológicos do tipo é um passo enorme para a expansão destes. Porém, reconhecendo o aspecto pendular da moda, sabemos que toda tendência tem data de validade. E o reaproveitamento de retalhos, pode ser uma delas.

Dolce Gabbana no desfile primavera/verão 2021

O poder do capitalismo é ainda maior do que parece e o mercado da moda anda ao lado dele. Um dos impactos disso é o greenwashing, que, segundo o Politize, é uma prática que promove discursos ambientalmente responsáveis, o que, na prática, não ocorre. É então, bastante coerente questionar se o imperialismo das grandes marcas usa do seu poder com verdade e propósito ou apenas como o “branding ideal” para vender cada vez mais.

A relação de poder no mercado da moda é o maior patrocinador dos seus impactos, sendo urgente que nós, como consumidores, consigamos enxergar isso. Grandes redes de fast-fashion já foram responsáveis por criar peças com design sustentável que, no entanto, utilizavam tecidos novos, produzidos especialmente para aqueles modelos. Para onde vai o discurso da sustentabilidade? Ecologia está na moda, mas será essa uma nova postura ou mais uma das brisas do mercado que passam adiante com a chegada do novo?

Historicamente, conhecemos os inúmeros dos grandes artistas que se perderam ao baterem de frente com a fama descomunal. Halston, Amy Winehouse, Michael Jackson, todos engolidos pelos holofotes que idealizavam seres humanos. Com esse final, já estamos familiarizados, mas o que a indústria como um todo nos mostra são grandes empresas que se perdem diante da escuridão da sua efervescência, esquecendo-se de que arte e equilíbrio socioambiental podem e devem ser inseparáveis. O mercado muda, os discursos mudam, o público muda. Mas será que o mundo vai se manter o mesmo? Diante disso, nos cabe questionar: será que “fazer o que se vende” é mesmo a melhor escolha?

 

 

Edição: Keven Souza