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*Por João Paulo Rocha

Com a proibição de shows e eventos, que causam aglomerações de pessoas, muitos cantores, dos mais variados estilos, investem em lives, feitas, principalmente, em seus canais no YouTube. Nesta época de shows ao vivo via internet, os cantores sertanejos têm se destacado: além de apresentar seus maiores sucessos, têm feito um trabalho social importantíssimo, em período economia “fechada”.

Na maioria da lives sertanejas, capazes de atingir milhões de espectadores, além de cantar, os artistas arrecadam milhares de doações para projetos sociais, como cestas básicas, frascos de álcool em gel, mascaras e diversos outros insumos indispensáveis durante a pandemia. Os shows são patrocinados por grandes marcas, e alguns festivais, que reúnem várias duplas e cantores, fizeram versões online, da casa dos músicos, de modo a que todos sempre mantenham o isolamento recomendado pelas autoridades de saúde.

Certos artistas, porém, têm sido criticados nas redes sociais, pelo excesso de bebida e de espontaneidade que demonstram durante as apresentações. Alguns chegam a ficar completamente embriagados, o que chamou a atenção do Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar), que abriu processos, contra eles, por suas atitudes.

Em partes, o órgão está certo ao obrigar os artistas a alertar, durante os shows, sobre a venda de bebidas para menores de 18 anos, e sobre a importância de não dirigir se tiver bebido. Contudo, obrigar os sertanejos a parar de beber durante a realização da live, sob o risco de suas apresentações serem derrubadas, é uma atitude, no mínimo, desnecessária, pois eles irão beber de toda forma.

Para além de levar música e entretenimento a quem está de quarentena em casa, inúmeras pessoas têm sido beneficiadas, por causa das numerosas doações e da solidariedade deles. Particularmente, não me importo com o tanto que bebem durante as lives, desde que incentivem a moderação e digam não ao consumo de menores de idade e de quem for dirigir. No mais, podem beber o quanto acharem necessário, pois estão em suas casas, são maiores de idade e responsáveis pelo que fazem.

Por fim, a espontaneidade que demostram é importante para a diversão que tanto buscamos neste isolamento social. Independentemente da bebedeira, os sertanejos têm dado um show de solidariedade e entretenimento, fazendo-nos esquecer, mesmo que por alguns momentos, da complicada situação em que estamos.

 

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por Caio Adriano Martins Leite

Com essa epidemia, a cidade parou, muitas pessoas respeitam a orientação da OMS e não estão saindo de casa. Neste novo momento, a natureza aproveita para tomar conta do que é seu, e metrópoles estão cada vez mais verdes, trocando, de vez, o tom cinza do dia a dia.

Muitos não têm a sorte de poder ficar em casa, de quarentena, por vários motivos. Há aqueles, porém, que preferem dar sua “voltinha” matinal. Crianças brincam na rua, como se estivessem nas férias de julho; idosos, do grupo de risco, tomaram coragem, nunca vista antes, de sair as ruas.

Em meio ao silêncio predominante nas metrópoles, os animais tomaram as rédeas das coisas. Ouvimos cantos de sabiás, canarinhos, avistamos pica-paus e muitos outros pássaros, que sequer conhecemos. Tais cantos perduram durante todo o dia, e é como se dissessem: “Obrigado”. Árvores, como ipê e mangueira, florescem à moda da primavera, e é possível vê-las, durante o dia inteiro, lotadas de pássaros, que cantam como se tivéssemos em um show lírico, ou melhor, no show dos pássaros. É o grande espetáculo da natureza.

Os cachorros e seus donos estão, a cada dia, mais entrosados. Pets, que antes ficavam sozinhos em casa, agora, saindo ao menos três vezes ao dia. Vejo os donos com mais empatia, uma vez que entenderam como é ruim ficar em casa o dia todo. Parece engraçado, mas, hoje, somos nós que usamos “focinheira”.

Casais passaram a ter mais paciência com seus parceiros(as). Agora, além de viver juntos, trabalham juntos. Diálogo, neste momento, é muito importante. No entanto, descobriu-se que respeitar o espaço do outro é primordial. Famílias estão se redescobrindo, e mudando a forma de conviver diariamente. No final das contas, esta epidemia trouxe união jamais observada.

As ruas, à noite, ficam lotadas pelo vai e vem das motos que entregam comidas. Tal serviço, agora, é fundamentao às famílias, que pedem comida por aplicativos. Ir ao supermercado é algo raro, algo a ser feito, por muitas pessoas vão, de 15 em 15 dias. Tudo isso para diminuir o risco de contágio. O consumismo desacerbado também diminuiu, pois descobrimos que é a hora de manter o controle de tudo. O medo das pessoas, que não têm certeza se terão emprego amanhã, fazem-nas gastar menos.

O novo momento em que vivemos nos faz refletir. Será que, realmente, o mundo estava no caminho certo? Sairemos pessoas melhores desta epidemia. É o momento de se pôr no lugar do outro e rever conceitos. O mundo caminha para uma grande mudança.

Uma frase que se encaixa no contexto em que vivemos é a do grande escritor Alvin Toffler: “Os analfabetos desse século  não são mais as pessoas que não sabem ler e escrever, mas, sim, aqueles incapazes de aprender, desaprender e aprender de novo”.

Acredito que, em 2020, a sociedade, como um todo, terá que exercer o hábito de desaprender, com certa propriedade. Desaprender conceitos que nos trouxeram até aqui. Claro que a gente há de valorizar o que funcionou, e deu certo. É preciso, porém, desaprender um pouco, deixar verdades de lado, e abrir espaço, em nossa cabeça, para aprender conceitos novos. Afinal, está muito claro que o que nos trouxe até aqui não será o que nos levará à frente. Então, é preciso ser humilde o suficiente para entender que tudo o que sabemos tem prazo de validade, e teremos que abrir nossa mente, sempre, para coisas novas.

Teremos que, antes de tudo, sermos resilientes, e entendermos que nada será como antes. A covid-19 mudou nossas vidas para sempre, e o mais correto é preparar-se para o que vem por aí.

Qual o possível cenário, logo após a pandemia? O Biólogo Átila Iamarino foi bem feliz ao dizer: “Mudanças que o mundo levaria décadas para passar, que a gente levaria muito tempo para implementar voluntariamente, estão sendo implementadas no susto, em questão de meses”.

Em tão pouco tempo, tivemos que reinventar a forma como trabalhamos, convivemos e lidamos com outras pessoas. A palavra-chave é empatia. Tudo, ao final, se resume a isso.

 

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por João Gabriel

O planeta passa,talvez, pela pior crise humanitária de toda a história. Há muito tempo não se via algo de proporções parecidas: instabilidades sociais e econômicas se manifestam, diferenças de ordem política se afloram, enquanto o número de mortes pela Covid-19 se multiplica de forma aterradora, mundo afora. Período este, que pode ser facilmente associado a tempos de guerra.

O surto começa a explodir na China, em dezembro passado, e se alastra para o resto do mundo numa velocidade sem precedentes. Em meio ao caos, teorias conspiratórias ridículas começam a surgir e a ser propagadas por pessoas, em tese, desinformadas – ou,muitas vezes, fundamentadas em discursos, e a esbanjar suposta “sabedoria”, tão ilógica quanto asquerosa.

Confesso que chego a ficar quase incrédulo, ao ver afirmações, no mínimo, imbecis, como: “Isto é invenção da mídia”, “ Os chineses criaram este vírus para instaurar o comunismo no mundo”, ou outras sandices tão hilárias quanto trágicas. “A mídia está focada em estabelecer o terror nas pessoas, para desestabilizar o Bolsonaro”.

Por falar em Bolsonaro, que tal a infame pérola profanada por este ser: “Temos que encarar este vírus como homens, não como moleques. Pessoas vão morrer, mesmo”. Isto, para mim, evidencia o quanto estamos órfãos de representantes que tenham, como premissa, trabalhar para o bem-estar e a melhoria para todos. De um cidadão que deveria zelar pelos interesses de todos os segmentos de uma sociedade tão plural como a nossa, e não em prol da desordem e da desinformação do povo, ao disseminar fake News aos montes.

Que o diga o estímulo à automedicação, com a divulgação da cloroquina  como cura do coronavírus, de modo que Bolsonaro age tal qual um moleque, inconsequente e mal compreendido. Como se não bastasse a postura perigosa e autoritária do presidente, aplaudida e endossada por militantes, que, dentro das bolhas do fanatismo cego e patológico, apoiam, incondicionalmente, seu adorado “mito”.

Somos obrigados a conviver com a figura máxima da representação do país a instigar a violência contra repórteres, a minimizar a classe científica. Há ainda, pasmem! agressões a profissionais de saúde, que atuam, de forma altruísta e em condições desumanas, na linha de frente, ao combater a doença em hospitais, às vezes, sem estrutura, seja de equipamentos, seja de respiradores e EPIs.

Somos bombardeados, quase diariamente, por tais declarações, mesmo que estejamos diante um cenário cada vez mais assustador, em virtude de uma pandemia, com a restrição de nossos afazeres comuns e do convívio social. A crescente curva de contágio por um vírus altamente agressivo, em escala global, resulta em mortes aos montes, e, ainda, colapso dos sistemas de saúde e funerário, como no caso do Equador, e mesmo estados brasileiros, como Amazonas, Pará, Ceará e São Paulo. É real possibilidade de o Brasil se tornar o epicentro da doença no mundo.

A tragédia só não está maior graças aos governadores e prefeitos que se opõem ao pensamento do presidente. Nosso alento pode ser saber que a maioria da população brasileira tem aderido à quarenta, e compreende o quão positivo a medida é para a futura erradicação do vírus. Segundo estudos de cientistas da Unicamp, estima-se que, caso a aderência ao isolamento social continue em bons índices – embora ainda estejamos longe do padrão recomendado por órgãos de saúde no país, cerca de 15 mil vidas podem ser salvas nas próximas duas semanas.

Isso representa uma vida salva a cada 78 segundos. Este é somente um, dentre inúmeros estudos, feitos por instituições científicas de todo o mundo, que comprovam como as medidas de isolamento social, promovidas e estimuladas pela ONU – outra instituição criticada por Bolsonaro por enquanto, o caminho mais seguro e eficaz para evitar ainda mais perdas e frear o avanço do coronavírus.

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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Créditos: Eduardo Silva Ruano

Por: Ana Luiza Ribeiro

Com a chegada da democracia, nós, jornalistas, pensamos que viver numa época propícia à liberdade de expressão seria algo fácil. Não é bem isso o que tem acontecido. Recentemente, um colega de profissão, do jornal Folha de S.Paulo, passou por uma situação totalmente desconfortável: na saída do Palácio da Alvorada, após uma simples pergunta, o atual presidente da república, Jair Bolsonaro, “mandou-o” calar a boca.

O conceito de liberdade de expressão nos diz que é um direito das pessoas manifestar suas opiniões, sem medo de represálias – além de autorizar que informações sejam recebidas por diversos meios, de forma independente e sem censura.

Tudo começou, no Brasil, após a Constituição de 1937 regulamentar a censura à imprensa, que seria exercida, pelo estado, por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A partir de suas filiais, o DIP controlava a imprensa e emitia listas de assuntos proibidos. À época, havia um censor em cada jornal. Outro dever do DIP era o de subornar jornalistas, e os próprios donos de jornais, para destacar as principais qualidades de um ditador.

Em 1964, chegamos ao regime militar, que pôs em prática vários atos institucionais, culminando com o AI-5, de 1968, e a suspensão da Constituição de 1946. Em dezembro de 1968, as coisas começaram a piorar, e a censura se estabilizou de vez, ao vetar todas as formas de expressão de ideias e manifestações. A imprensa, as músicas, os teatros e os cinemas foram as principais vítimas do ato. O período entre 1968 e 1978 foi marcado por censura, tortura, prisões, repressões e mortes.

Dentre outras reações, surge a imprensa de resistência, que, à época, era mais conhecida como alternativa, ou nanica, por ser pequena e abordar assuntos à margem dos veículos tradicionais. Por isso, tal atividade acabou vista como palco para protestos de resistência, e, como podemos imaginar, também foi sufocada pela censura, com processos, pressões e, até mesmo, atentado a bomba.

Após muitas lutas estudantis, de 1964 a 1985, a liberdade de expressão e a manifestação do pensamento, enfim, entraram em vigência, após a votação da nova Constituição Federal do Brasil. O inciso IX, do artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988, revela: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Ao pensar nisso, me peguei fazendo a seguinte reflexão: será que ainda vivemos enraizados a um passado recente?

O que aconteceu no dia 05 de maio de 2020, em Brasília, foi completamente inaceitável e humilhante para o profissional de Jornalismo. Mandar que um jornalista cale a boca, e censurar suas perguntas, é, em verdade, calar a boca da democracia; é calar a boca de uma luta que demorou anos para ser conquistada.

Certa frase clichê representa muito bem o que é a liberdade de expressão: seu direito termina quando começa o direito do outro. O pensamento que fica é: que direitos, nestes casos, estão em jogo?

Nossa luta não é pela simpatia das pessoas, mas pela aceitação e pelo respeito a opiniões contrárias, que, hoje são direitos de toda a sociedade. O jornalista está ali para fazer seu trabalho, e levar informações ao público. Ele não deve ser calado. Isso também não impede que o Presidente da República se cale. Muito pelo contrário: por viver numa democracia, ele tem total direito de se expressar, desde que com respeito, e sem ataques e ofensas a opiniões contrárias.

Hoje, o sentimento que fica no coração de muitos profissionais de comunicação é um misto de medo e tristeza, pois não sabemos até quando ataques como este serão aceitos. O recado é para que não calemos diante de injustiças, mas, sim, que sejamos resistência.

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*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

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*Raphael Segato

Vivemos um dos piores momentos da história do mundo, devido à pandemia da Covid-19, que nos atinge. O isolamento social é a medida adotada, por três ou quatro meses, devido à falta de vacina ou medicamento que combata o coronavírus. Não temos escolha: precisamos e devemos adotar o isolamento. Isso tudo para que possamos proteger as pessoas, e a nós mesmos, ao mudarmos completamente a rotina, os costumes, as obrigações e os hábitos. Muitas pessoas se perguntam o porquê do isolamento social, e se ele é tão importante. Sim, isolamento é a melhor saída.

Um momento bastante delicado, com muitas mortes, pessoas infectadas, mas há aqueles que defendem somente a restrição de pessoas do chamado grupo de risco, pessoas com 60 anos de idade ou mais, ou portadoras de doenças crônicas, como hipertensão. Segundo tal visão, o restante da sociedade deveria retomar a rotina, para que diminua, assim, um pouco do impacto econômico no planeta.

Com o crescente ritmo de infectados em todo o mundo, a quarentena e o isolamento social são fundamentais para vencer a Covid-19 e diminuir o número de casos e de mortes. Se voltarmos ao normal, como ficará o sistema de saúde? Será possível comportar todas as pessoas que se infectarem? Existirão médicos para todas as pessoas? Logicamente, não. Nem mesmo os países mais desenvolvidos – ou melhor, as nações de “primeiro mundo” – aguentariam tamanha demanda de casos. Não existiria leitos suficientes para todas as pessoas.

O argumento de volta à normalidade não tem tratado, com a devida atenção, o problema da velocidade de pessoas infectadas, ou dos custos de atenção à saúde. Ignora-se o fato de que a volta à “normalidade” antes do prazo correto ampliará consideravelmente a taxa de mortalidade, pois maiores serão os processos de contágio e maior a pressão feita pelo sistema de saúde, já que não se trata de grupo específicos, pois o risco é eminente a todas as pessoas.

Os defensores da volta à normalidade querem simplificar algo da realidade dura e agressiva: a Covid-19 não oferece saída fácil, e as vidas social e econômica serão afetadas profundamente. Isso é inevitável. O isolamento social é de extrema importância, pois pode reduzir a contaminação, de modo a que garanta prioridade ao atendimento médico das pessoas que precisam trabalhar, com vistas às atividades sociais necessárias.

Tudo isso é necessário, para que a normalidade possa se reestabelecer o mais rápido possível. Mesmo com a taxa de mortalidade baixa, o risco de contágio é extremamente alto, e não há sistema de saúde que suporte. Ao invés de buscarem a volta à habitual, os defensores da “normalidade” deveriam trabalhar para minimizar os efeitos diretos humanitários e de saúde pública.

Por mais que a taxa de mortalidade seja relativamente baixa, em comparação a outros casos, os impactos sobre o sistema de saúde, e sobre toda a sociedade, são realmente preocupantes, pelo fato de que muita gente será infectada, e não haverá leitos de UTI, equipamentos respiratórios e médicos suficientes para a população.

O número de infectados que precisariam de maior atenção é tão alto que provocaria desorganização ainda maior. O isolamento está sendo feito em virtude da diminuição da curva da epidemia, para que possa reduzir o número de infectados e pacientes graves, e, principalmente, o número de mortos.

O momento, portanto, demanda atenção. E a não pratica do isolamento social temporário pode gerar catástrofe social sem precedentes, e não só social, mas também econômica. Se não for preservada a renda dos trabalhadores e empreendedores, o que é dramático, tudo ficará catastrófico. Não existe saída individual. Como sociedade, devemos buscar a saída juntos, de modo a respeitar o isolamento até que seja necessário.

A Covid-19 apresenta mensagem duríssima, de modo claro e direto: ou mudamos nosso pensamento, e buscamos uma saída em conjunto – ao pensar mais nas pessoas, e não só em si mesmo – ou perdermos a vida coletivamente. Devemos tirar lições deste vastao problema, para que, no futuro, não passemos, novamente, por uma crise tão grave como esta.

 

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*Crédito Arte Beró

Por Amanda Gouvêa

Em 2019, “cultura de cancelamento” foi eleita a expressão do ano pelo Dicionário Macquarie, um dos responsáveis por selecionar e divulgar, anualmente, os termos e palavras mais usados, e, dessa forma, analisar comportamentos da sociedade. Esse termo inicialmente tinha o intuito de conscientizar e suspender apoio/consumo a artistas, empresas e pessoas públicas que reproduziam atitudes consideradas inaceitáveis.

Assim, a cultura de cancelamento fez com que a internet, grandes marcas e influencers, mudassem sua forma de agir e pensar. Este ponto foi positivo, para que transformações acontecessem em vários âmbitos e, principalmente, no que se diz respeito à representatividade. Porém, o assunto deve ser tratado com mais cautela e diálogo.

Os indivíduos são construídos com características dos locais que ocupam, das pessoas com quem convivem e das situações que vivenciam. Por meio de tais relações, é perceptível que reproduzamos falas e estruturas do “nosso coletivo”.

Um aspecto a se analisar é o fenômeno causado pelo Big Brother Brasil deste ano, assunto em constante discussão nas redes sociais, com destaque para o Twitter, onde as informações e notícias se propagam com maior velocidade.

O programa é um ambiente no qual podemos ver, claramente, várias questões da sociedade, e onde são levantados debates sobre machismo, homofobia, gordofobia, racismo e assédio. Nesse aspecto, as pessoas confinadas são julgadas a todo o momento, e canceladas, no programa, quase que diariamente.

Os participantes passam, semana a semana, por situações as mais diversas, do pódio á “berlinda” e, consequentemente, à eliminação no paredão. Como exemplo, destaque para o que aconteceu com Daniel e Ivy, dupla escolhida pelo público para ingressar no programa, após confinamento na casa de vidro. Há grande apelo popular pela eliminação de ambos, devido atitudes controversas e polêmicas.

Porém, até que ponto o cancelamento em massa afeta a vida de cada um?

No início do programa, havia um grupo de homens que reproduziam, sem filtros, os aspectos machistas, xenofóbicos e pejorativos da sociedade. Tais atitudes geraram tanto incômodo que eles foram apelidados com o termo “chernoboys”, imediatamente a internet se mobilizou para cancelá-los e eliminá-los, assim que fossem ao paredão.

A cada novo cancelamento feito pelo grande público, percebemos a discussão rasa, despolitizada e seletiva. Mulheres, homens negros e outras minorias são, sempre, mais apedrejados e postos à prova. Exemplo claro disso é o ator Babu Santana, também confinado no programa. Seus posicionamentos são taxados como “agressivos”. Sua pessoa, muitas vezes, é considerada “de difícil convivência” e, por vezes, é cancelado nas redes sociais e ganha muitos hatters.

Enquanto Babu sofre, diariamente, com os reflexos de nossa sociedade racista, vários outros participantes têm seus “defeitos” e falas legitimadas. Um destes personagens, Felipe Prior, caiu nas graças dos telespectadores, e suas atitudes dúbias, muitas vezes, são aceitas.

Portanto, é preciso que esse assunto seja tratado com mais diálogo, e com discussões para fora da “bolha”. Afinal, faz-se necessário analisar o contexto social de cada atitude e de cada pessoa. Todas as pessoas ganham com debates e aprendizados. Levar essa pauta ao grande público torna-se o objetivo principal da cultura de cancelamento.

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis