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Captura de tela do filme “Frankenstein” de 1931

* Por Filipe Bedendo 

“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. A afirmação do escritor italiano Ítalo Calvino mostra exatamente a amplitude da literatura clássica, composta por obras que superaram o tempo e ganharam espaço em um mundo cada dia mais ligado em telas e desconectado da leitura. Os livros abrem espaço para diversas discussões sobre a sociedade e a forma que nos posicionamos dentro dela. Mesmo após o fim do livro os leitores vão repensar sobre o que foi lido e trarão os questionamentos para a realidade.

Waldyr Imbroisi Rocha é pesquisador na área da literatura. Para ele os clássicos têm o poder de expansão do senso crítico, pois discutem questões humanas, sociais, culturais e políticas que atravessam as eras. “Os clássicos têm o poder de discutir, com profundidade e potência, questões que o espírito humano enfrenta desde que ele se reconhece enquanto tal”, afirma.

Além da formação do senso crítico, é importante destacar que muitas obras trazem significados implícitos, que podem ser compreendidos pelos olhares mais atentos. Segundo Waldyr, quando um autor escreve uma obra literária, há, além do texto em si, um volume imenso de informações que pode ser aprendido, quando se leva em consideração aspectos sociais, culturais e biográficos. Ele diz que essa, talvez, seja a tarefa mais interessante para os leitores. “Estamos livres para reinventar sentidos e propor novas leituras, afinal, o clássico não se esgota e tem suas formas de compreensão, também, condicionadas pelo tempo em que vivemos”, finaliza.

Em 1818, a escritora britânica Mary Shelley publicou o romance de horror gótico intitulado “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”. Considerado o primeiro romance do gênero, a obra causou espanto na época em que foi lançado. A editora optou por esconder o nome da autora, pois considerava o tema muito hostil para ser debatido por uma mulher. Poucos anos depois, o livro foi republicado, e desta vez, levando o nome de Shelley. A história se tornou um grande

Prometeu moderno

Prometeu é um personagem da mitologia grega. De acordo com as obras do poeta Hesíodo, Prometeu e seu irmão Epimeteu receberam dos Deuses a tarefa de criar os homens e animais da terra. Epimeteu atribuiu dons variados aos animais, asas para alguns e garras para outros. Porém, quando chegou no homem, o criou a partir do barro, mas havia gastado todos os recursos na criação dos outros animais. Então, pediu ajuda de seu irmão. Prometeu roubou o fogo dos deuses e o deu aos homens. Este fato assegurou a superioridade dos homens sobre os animais. Como castigo a Prometeu, Zeus ordenou que Hefesto o acorrentasse no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia dilacerava seu fígado que, regenerava-se todos os dias para que fosse torturado novamente.

símbolo da literatura mundial, e até hoje, gera debates sobre a sociedade.

Ao longo das páginas de “Frankenstein”, conhecemos a história do cientista Victor Frankenstein, que utiliza partes de cadáveres humanos para criar um novo ser vivo. Ao ver que a experiência não saiu como o planejado, fica horrorizado e abandona sua própria criação.

Sem ao menos ganhar um nome, a criatura não passa pelo processo de socialização e não aprende os padrões de convívio social. Durante anos, se esconde nas montanhas, onde vive sozinho e isolado da sociedade. Até que, um dia, encontra uma família que vive em um casebre na montanha. Ele passa a observar as pessoas e descobre um novo sentimento: o amor. Porém, quando decide se apresentar para as pessoas, a reação é a mesma: pânico.

Com histórico de rejeição e a solidão, a criatura acaba se tornando violenta. Desta forma começa a ter medo da raça humana, que o rejeita, e decide se vingar de seu criador, onde torna-se, involuntariamente, um ‘monstro’.

“Como posso te comover? Minhas súplicas não te farão olhar com simpatia para sua criatura, que implora tua bondade e compaixão? Crê-me, Frankenstein, eu era bom; minha alma ardia de amor e de humanidade; mas não estou sozinho, miseravelmente sozinho? Tu, meu criador, me odeias; que esperança posso ter junto aos teus semelhantes, que nada me devem? Eles me rejeitam e odeiam. As montanhas desertas e as tristes geleiras são meu refúgio. Saúdo estes céus abertos, pois são mais gentis comigo do que os teus semelhantes. Se a multidão dos humanos soubesse da minha existência, agiria como tu e se armaria para me destruir. Não hei de odiar, então, quem me abomina? Não vou render-me aos meus inimigos. Sou um desgraçado, e eles hão de compartilhar da minha desgraça. Ouve-me, Frankenstein. Acusas-me de assassinato e, no entanto, querias, de consciência satisfeita, destruir sua própria criatura”. 

– diálogo da criatura com seu criador em Frankenstein de Mary Shelley (1918)

Os ‘monstros’ da vida real

A palavra monstro vem do latim monstrum, um objeto ou ser de caráter sobrenatural que anuncia a vontade dos deuses. De acordo com o dicionário da língua portuguesa, monstro significa um ser disforme, fantástico e ameaçador, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia. Qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade, monstruosidade.

Apesar de ‘Frankenstein’ relatar o castigo dado ao médico por abandonar sua criação, o sociólogo Sílvio Carvalho observa na história a construção da violência humana através da exclusão das diferenças e a falta de comunicação. “Através do livro, podemos pensar sobre as raízes da violência e o papel da comunicação nas relações humanas. A criatura vai, ao longo do próprio histórico de vida, gradativamente se transformando no que chamamos de ‘monstro’ porque ele não teve uma série de elementos fundamentais para se constituir um ser humano”.

Mas como uma história do século passado se encaixa na realidade de hoje?

Ora, o abandono e a exclusão ainda podem ser vistos de forma explícita nos dias atuais. Sílvio acredita que o melhor paradoxo do livro com a realidade é a situação das favelas brasileiras e a forma que o estado trata a população negra periférica.

De acordo com relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado sobre o Assassinato de Jovens, feito em 2017, cerca de 23 mil jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. São 63 por dia. Além disso, um levantamento realizado pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2016, aponta que a maior parte da população carcerária brasileira é composta por pretos e pardos (65%).

A realidade que temos hoje é resultado de um longo processo histórico e cultura de racismo e exclusão de pessoas negras e periféricas. “O morro nunca foi compreendido, o morro foi uma exclusão social de um processo de construção histórica que leva a tudo aquilo”, explica.

Frankenstein, um filme de terror 

Com o grande sucesso dos livros, em 1931 o filme foi adaptado para o cinema pelo diretor James Whale, porém trouxe uma história diferente do que os leitores tinham visto anteriormente. No longa, a criatura, interpretada pelo ator Boris Karloff, torna-se violenta por conta do cérebro ‘problemático’ escolhido para ela, e não por conta da exclusão que havia sofrido, o que tira completamente o debate social por trás da história, tornando-a midiática.

O livro e o filme relatam a criatura a partir de sua aparência deformada, porém, a narrativa e a caracterização cinematográfica tornam esse fato mais evidente. No longa, a criação de Frankenstein é constantemente colocada com um vilão, construindo a imagem do “monstro”.

Um outro fato curioso é que há uma constante troca entre o nome do criador (Frankenstein) e da criatura, que nunca recebeu um nome. Porém, pensando na criatura como um “filho” de Victor Frankenstein, podemos considerar a possibilidade de que a rejeitada criação de Victor receba, ao menos, seu sobrenome. E, desta forma, o ‘monstro’ ficou conhecido como Frankenstein.

O longa foi um marco na indústria cinematográfica do terror e o personagem se tornou um ícone da cultura pop, sempre associado ao mal. Ao longo do tempo, muitos outros filmes surgiram contando a história escrita por Mary Shelley, porém, poucos trouxeram o humano por trás da criatura.

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

No ano que se comemora 80 anos de tombamento cultural, a histórica cidade de Ouro Preto recebeu a 13ª edição da Mostra de Cinema. O evento que dedica e apresenta a sétima arte como patrimônio, escolheu para sede a charmosa cidade que já foi cenário de muitas produções cinematográficas. A proposta da Mostra junto à cidade faz todos os envolvidos pensarem sobre a história do cinema e do audiovisual de maneira especial. Questionamentos importantes sobre preservação e patrimônio são colocados em diálogo durante o período.

A 13ª Cine OP aproveita da conscientização da cidade e encerra o evento com a certeza que diversas temáticas foram discutidas com todos os públicos. A Universo Produção se despede e segue em frente com a 12ª edição da CineBH.

 

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

Cerca de 80% do Cinema Mudo produzido se perdeu. Ao se discutir sobre patrimônio e preservação, história e memória são questões envolvidas, principalmente na indústria cinematográfica, uma vez que todo projeto ou produção gera um produto. A 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sobre o tema em Seminário | Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Patrimônio no Âmbito Universitário.

Com o seminário a proposta da CineOP é debater e expor estudos de caso universitários, apresentar novas ideias e caminhos que a universidade trabalha para manter o acervo e a cultura do cinema permanente. Foi ressaltado também que produções cinematográficas são uma projeção a partir de películas, mas que existem diversos materiais que compõem este universo, como o roteiro, por exemplo, que ao preservá-lo, ali, pode-se ver as primeiras ideias de uma produção.

O primeiro questionamento ao conversar sobre a temática é por que preservar e, principalmente, o que se deve preservar. Não se sabe o motivo, mas pode-se citar desde a importância que detêm aquela obra ao simples ato de guardar para a posteridade. Já o que se deve preservar é mais complexo, cada instituição pesquisa e escolhe as obras de acordo com o seu perfil. Outra questão também discutida nas salas de aula e na CineOP é o avanço das tecnologias de produção das obras, uma vez que o digital será substituído e não se sabe a próxima evolução. Por isso, ao sair daquela discussão conscientiza-se que mais que formar novos preservadores é prepará-los para o desconhecido.

Por Ana Luísa Arrunátegui e Melina Cattoni
Fotografia: Jackson Romanelli | Universo Produção

 

Uma das temáticas da 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto é a Preservação do Audiovisual. Para ilustrar o tema, além da exibição do longa documental Dawson City – Tempo Congelado, de Bill Morris, a CineOP promoveu uma Coletiva com o diretor para discutir sobre o que torna uma obra ou documento patrimônio.

A obra consiste na reconstituição da história da Corrida do Ouro no Ártico Canadense, por meio de mais de 530 rolos de película produzidos entre as décadas de 1910 e 1920, mas que só foram encontrados, soterrados e congelados, em uma escavação na cidade, em torno dos anos de 1950.

Em nenhum momento do filme Morris fala diretamente sobre a importância e a necessidade da preservação, porém basta olhar para o destino final desses filmes – que, em parte, foram jogados no rio, destruídos em incêndios, viraram combustível de fogueira ou serviram para dar volume e reduzir a quantidade de água necessária para transformar uma piscina em um ringue de hóquei – e sua importância para a desmistificação desse trecho da História. Fica mais do que óbvio que a preservação é necessária e vai muito além dos filmes de Hollywood.

Chegamos então na grande questão: O que deve ser ou não ser preservado? Por qual motivo se deve guardar ou não os Stories que se posto no Instagram? Que fim se deve dar para as gravações de quando criança?

Por mais que não pareça importante, sem a preservação de gravações pessoais e de arquivos familiares, filmes excelentes como Pacific, de Marcelo Pedroso, e La Casa de Los Lúpulos, de Paula Hopf, seriam impossíveis. Hoje em dia, uma filmagem que foi feita há uma semana em uma avenida movimentada da sua cidade não representa nada. Mas, agora imagine se você tivesse uma filmagem dessa mesma avenida, porém feita cem anos atrás?

Ao ser questionado se, mesmo depois de tudo que Bill produziu e trabalhou, ele tinha chegado pelo menos próximo de uma resposta, ele comenta que a primeira barreira é a dificuldade da preservação do digital em relação ao filme e, que a pergunta não é o que deve ser preservado, mas sim, o que é possível ser preservado.

Estima-se que entre 75 e 80% de todo o cinema mudo que já foi produzido, também já foi perdido. E se engana quem acha que isso se deve somente ao descuido ou a falta de espaço físico para o armazenamento apropriado dessas películas. Grandes nomes como George Méliès, considerado um dos pais do cinema, queimou propositalmente grande parte de seu acervo, simplesmente por não ter o que fazer com aquilo e por não acreditar que seu trabalho era bom o suficiente para ser guardado.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

A tendência de exaltar a cultura do exterior também se aplica ao Cinema. Por algum tempo o Brasil tentou basear sua produção em estúdios, formato esse utilizado nos países como Estados Unidos, Índia e Japão. Nessa época, os críticos da sétima arte defendiam a produção de um cinema mais industrial, mas a partir dos anos 1960 o cenário se modifica, ao descobrir formas de imprimir a identidade verdadeiramente brasileira nas telas.

Esta transformação da linha de pensamento do Cinema Novo Brasileiro proporcionou produções que trabalhassem com as histórias nacionais – incluindo mitos e folclores – e complexidades políticas nunca antes trabalhadas dentro das dinâmicas brasileiras. O movimento tropicalista reforçou a ideia ao inserir essas dinâmicas nas músicas e expressões artísticas da época. A 13ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto abre espaço para discussão com o Seminário | Vanguarda Tropical: O Cinema e as Outras Artes.

A conversa apontou a Tropicália como um período de experimentação política e estética e, que a partir disso a linguagem das vanguardas despontaram nas produções cinematográficas, como o longa-metragem Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla. Em suma, o movimento tropicalista foi de extrema importância para início da circulação de produtos com a identidade nacional nos Cinemas e Outras Artes.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Assis Arrunátegui

 

Apresentações audiovisuais e entrega de Troféu emocionaram a todos que estavam presentes no Cine-Teatro Vila Rica. Melodias ao som da Sociedade Musical Senhor Bom Jesus das Flores deram boas-vindas ao público enquanto se preparavam para Abertura da 13ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto. O evento reafirmou a temática tropical com a escolha da trilha sonora, com músicas de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e performances artísticas durante a cerimônia. Idylla Silmarovi e Marcelo Veronez protagonizaram o show de arte e cultura, com a participação dos alunos da Escola Estadual Dom Velloso.

Ao longo da abertura, a homenageada Maria Gladys recebeu o Troféu Vila Rica em tributo aos quase sessenta anos de carreira. Em seu discurso, afirma que vem de uma geração de diversas figuras incríveis e inteligentes, e completa: “quando olho para o meu currículo e para os trabalhos que eu fiz, percebo que sou uma atriz muito brasileira”. O evento arrepiou o público e encerrou com a exibição do curta documental, Maria Gladys, uma Atriz Brasileira, de Norma Bengell e do longa Sem Essa, Aranha de Rogério Sganzerla.

Este foi um resumo da primeira noite em Ouro Preto. Fique ligado na Mostra e veja a tropicália retornar à vida na 13ª Cine OP.