Comportamento

0 303

Por Keven Souza

Ela está de volta! A famigerada saia jeans longa é a mais nova, nem tanto assim, polêmica fashion que está dividindo opiniões na moda de rua (street style). A peça foi um sucesso no passado e retorna no guarda-roupa de muitas pessoas neste ano. 

Criada na década de 70, as saias vieram como uma forma de adaptar as calças jeans. Ao longo do tempo, a peça foi ganhando seu espaço, novas versões e se tornando cada vez mais longas. Em 1995, ganhou tamanha notoriedade que entrou para a alta moda, aparecendo no desfile da Chanel. 

Desfile Primavera 1995 Chanel. Fonte: Vogue EUA.

Já na virada do século, nos anos 2000, a saia jeans longa virou peça-chave de quem buscava personalidade e sofisticação. Saiu, ainda, da moda de rua (street style) e apareceu em diferentes red carpets. E hoje, é a queridinha da cultura jovem.

Bella Hadid, que é a rainha da moda vintage e conhecida por popularizar peças ‘diferentonas’, apareceu com a saia jeans longa em um look despojado. Ela apostou em um modelo midi com detalhes charmosos de patchwork. Para combinar, usou uma blusa de alcinha e bota preta de cano alto. 

NEW YORK, Look Bella Hadid saia jeans. Foto: Gotham/Getty Images

Além da super modelo, a digital influencer Sofia Coelho é outra fashionista que escolheu a saia jeans longa na cor branca para um passeio diurno.

Look Sofia Coelho saia longa. Foto: Instagram/Internet

Tem gente que torce o nariz para a saia jeans longa, é verdade. Mas quem curte produzir looks com a peça, costuma optar por produções básicas e estilosas para ficar confortável. Dá para apostar em um visual mais despojado ou talvez mais social. E a versão com fenda é a mais presente no dia a dia.

Look Amaka Hameli saia longa. Foto: Instagram/Internet

Por que a volta da peça?

Com tanto burburinho e evolução, a volta de uma das peças mais versáteis do mundo da moda é compreensível e, certamente, esperada. Isso porque, as pessoas estão vivendo um momento de inquietude e nostalgia fashion. 

A autenticidade e exclusividade que giram em torno de uma peça vintage faz com que a comecem a sair do universo underground dos brechós e cheguem até as lojas mais caras, como a própria Farfetch. 

O que explica a volta do estilo vintage e da saia jeans longa que após 20 anos do seu hit, ressurge intensamente no guarda-roupa das pessoas, lado a lado das tendências atuais, como a dopamine dressing, por exemplo.

Por Keven Souza e Júlia Thais 

A moda é um documento que acompanha e registra a trajetória de um povo. Desempenha papéis importantes na sociedade. É por meio das indumentárias que realçamos significados que dizem quem somos e de onde viemos, sendo importante, ainda, expressarmos mediante ao que usamos. E na periferia essa premissa não é diferente! 

É por meio de origem, trajetória e estilo de vida que se evidencia a moda presente nas favelas da sociedade brasileira. O estilo periférico, como se nomeia as roupas vestidas por quem mora em uma área à margem da cidade, tipifica a vestimenta de quem vive ali e parte de um lugar singular e perene, da arte.

Esse estilo de roupa tende a valorizar narrativas e anseios de quem o veste, e, acima de tudo, dá palco para diversidade, acessibilidade e tamanha personalidade. O que o difere da alta moda e do universo fashion luxuoso. “O que é muito comum nas regiões periféricas é possuir algumas características que nos trazem a proximidade com o grupo ao qual estamos inseridos. O mais presente nas pessoas dessa região demográfica é o sentimento de pertencimento. Então, quando analisamos superficialmente, acreditamos que todas se vestem igual, mas na verdade elas criam suas próprias narrativas das suas vivências individuais e em grupos”, explica o stylist e fashion designer, Pedro Birra. 

Retrata, ainda, costumes e comportamentos de minorias e preenche, ao longo do tempo, lugar imprescindível na vida das pessoas do gueto. E é com esses pontos que o estilo está, também, presente no lugar mais alto da favela: na laje! 

A laje é símbolo que muito diz da força, dos laços e dos saberes dos moradores da favela. É um espaço onde se pode construir e reverberar costumes sociais, culturais e considerar ações pontuais no tempo ocioso.  E a partir daí surge o churrasco na laje. 

O churrasco na laje é uma forte tradição que se estabeleceu em todo o Brasil, especialmente em camadas mais pobres da sociedade, que caracteriza ideais e costumes dos moradores. Um evento que traz peças e estilos de roupas plurais que remetem a descontração, a alegria e o calor nesse momento de lazer. É o que afirma Pedro. “O churrasco na laje, assim como outros eventos presentes neste determinado grupo (moradores da periferia), é uma forma de diversão e para esse tipo de encontro a produção passa primeiro pelo conforto, então shorts, chinelos, são muito bem vindos”, diz. 

Pessoas no churrasco na laje. Foto: Jessi Goes.

Dito isso, listamos algumas peças comuns vistas no churrasco na laje. A primeira delas é a camisa de time de futebol. A periferia tende a valorizar a figura da celebridade do futebol, enxergando nesses indivíduos uma representatividade da comunidade, pelo simples fato do jogador de futebol ter nascido lá. 

Outra peça carimbada do estilo da periferia e no churrasco na laje é o short jeans. Não há uma peça que esteja mais presente na vida do brasileiro, do que os shorts jeans. Usado desde ocasiões mais informais, até em lugares que pedem algo mais elaborado.

Lado a lado ao short jeans, o chinelo Havaianas (que nem sempre é da Havaianas), possui sua relevância no momento de lazer. O calçado sintetiza a simplicidade, uma atitude de relaxamento, de verão, de praia, um estado de espírito do Brasil. Por isso, tem sempre alguém usando-o como parte de um look ousado no churrasco na laje. 

Falando de ousadia, o biquíni de fita já é, quase, a irmã do shorts jeans, devido sua grande participação nos churrascos da periferia! Coloridos ou não, tradicionais ou ‘diferentões’, a técnica de pregar fitas nas partes íntimas em forma de biquíni ou sunga já é uma trend nas lajes. E com a indústria musical, popularizado para além da favela por Anitta no clipe de ‘Vai, malandra’, tal técnica já é marca registrada na moda da favela. 

A cantora está entre os artistas brasileiros que saíram da periferia e continua mostrando com clareza, roupas e práticas que são comuns nas comunidades. Em Vai Malandra, clipe gravado em 2017 no Morro do Vidigal, podemos encontrar o famoso bronze na laje, que faz parte da rotina de muitos moradores da periferia. 

Ludmilla, Anitta e Mc Cabelinho. Arte: Jessi Goes.

Com referência e muita representatividade, Ludmilla é outra artista que aposta em looks baseados na moda periférica. Nascida e criada em Duque de Caxias, a cantora e suas bailarinas no clipe Rainha da Favela, gravado em 2020 na Rocinha, Rio de Janeiro, trouxeram peças de roupas bastante comuns em churrascos na laje. E já o cantor e ator, Mc Cabelinho em seu videoclipe da música Little Hair, gravado no Morro da Caixa d’Água, com Felp 22 e Xamã, faz uma releitura do churrasco na laje, além do estilo visto no gueto. 

O fato é que o estilo periférico conquistou o seu lugar tanto no universo da moda quanto no meio artístico, e, desde então, possui interferência na indústria musical graças às suas características. Da mesma maneira que a indústria possui lugar referencial para quem sempre teve tão pouco acesso. E é neste movimento de conversão de influências que se completa um processo cultural, rico e cíclico, que se sobressai e se pode ver perfeitamente no churrasco na laje.

0 142

Evento retrata a importância da prática para a qualidade de vida e conta com grandes nomes que estarão presentes

Por Patrick Ferreira 

Entre os dias 1 e 3 de julho, o Instituto de Yoga de Belo Horizonte promove o VI Festival de Yoga, em Araxá/MG. O evento traz grandes nomes da prática, que é uma aliada poderosa para uma melhor qualidade de vida física e mental. “Após dois anos de pandemia, muitas pessoas têm reclamado de dificuldade de concentração, perda de memória e procrastinação, por isso nada melhor do que buscar formas de solucionar estes problemas através da discussão e prática do yoga. O festival pretende ajudar de forma substancial as pessoas, trazendo de volta o ânimo, saúde e o foco nos objetivos”, relata a idealizadora Fátima Macedo

O Yoga tem origem oriental que é realizado com procedimentos corretos e orientações corretas, melhora a qualidade de vida em vários aspectos como na capacidade de concentração, diminuição do estresse e melhora na postura corporal.

O festival será realizado no Tauá Hotel e Termas de Araxá que sediará o festival. Os valores para participação incluem também o desfrute da estrutura do local que é um dos mais procurados do estado para estadias. O contato com a natureza e o silêncio que se encontra longe da agitação urbana é fundamental para o sucesso e prosseguimento no Yoga. “O Festival de Yoga chega à sua sexta edição com uma programação para lá de especial e intensa. O evento, que reúne centenas de praticantes e professores renomados e em evidência no cenário brasileiro, promete levar o conhecimento e a prática do yoga para os participantes”, completa.

SERVIÇO:

Festival de Yoga de Araxá
01 a 03 de julho de 2022 – no Tauá Hotel e Termas de Araxá. R. Águas do Araxá, s/n – Barreiro, Araxá – MG

Inscrições e mais informações disponíveis em: http://institutodeyogabh.com.br/vi-festival-de-yoga-de-araxa/

0 205

Esta semana,  acontece no campus Liberdade o evento Conecta, com palestras, ações e oficinas em prol do aprendizado e divertimento dos alunos de Arquitetura e Urbanismo, Moda e Design da Cidade Universitária Una.

 

Por Lucas Requejo

Foi dada a largada do Conecta e hoje, dia 26, o dia começou recheado de atividades no campus Liberdade. Além de flash tattos e ação da Red Bull para o público LGBTQIA+, foram realizadas, no período da manhã, uma palestra que falava sobre os desafios de começar a empreender em escritórios de arquitetura e uma oficina que focou no conceito de se trabalhar as imagens em fotografia iluminada.

Ministrada pela fotógrafa e estudante de Publicidade e Propaganda, Jéssica Góes, a oficina, feita em duas partes, foi apresentada propondo pontos importantes do universo da fotografia. Na teoria, apresentou breve conceito dentro do mecanismo de uma DSLR e, na prática, deixou os participantes registrarem algumas imagens nas dependências da instituição.

Em suas palavras, o principal objetivo é esclarecer os pilares de uma boa série fotográfica. “Na fotografia, você precisa ser bem-visto e conhecer o ambiente a ser registrado. Então, decidi mostrar aos participantes como fazer bons registros, e assim, mostrar que profissionalismo ajuda a alavancar a confiança necessária”, diz.

Este objetivo foi bem-sucedido, visto que os integrantes prestavam toda a atenção em suas explicações, que eram feitas com doçura e simpatia. O resultado dessa aplicação gerou várias interações e trocas de ideias na hora da atividade prática, que foi sob um tempo muito favorável.

Jéssica Góes e alunas durante o segundo dia do Conecta.

Ao final da oficina, os estudantes de Design Gráfico e Moda, Lohan e Jéssica Cristina, respectivamente, adoraram a atividade proposta que já possuem planos para o futuro.  Lohan disse que as orientações de Jéssica auxiliaram na forma de manusear corretamente uma câmera profisional e que, neste ramo, uma coleção de imagens de qualidade sob autoria própria pode enriquecer as artes. “É muito importante ter uma dessas, mas o custo assusta”, afirma.

Sob outras perspectivas, Jéssica Cristina, diz que quer ter seu próprio negócio como freelancer. “Eu gostaria de ter algo meu, mas amaria trabalhar em revistas ou, quem sabe, desfiles e trabalhos de figurino”. E ainda elogiou a sua xará “Ela é muito atenciosa e conhece muito do assunto”, ressalta.

Para a palestrante, Jéssica Góes,  a oportunidade de ensinar foi uma expêriencia enriquecedora, sendo sua primeira oficina prática ministrada. “Não tinha aplicado um conteúdo de fotografia ainda. Fiquei receosa por ter gente mais experiente e ter alguns rebates. Fiquei surpresa de todos serem novatos e consegui fazer um papel de autoridade no assunto com confiança e ver os bons resultados daquilo que ensinei”, pontua.

E o Conecta é isso: experiências a aprender e a compartilhar. Nesta terça, ainda terá diversos conteúdos no período da noite, e vai ter muito mais até dia 28/04.

Venha conferir! Se inscreva em https://www.sympla.com.br/evento/conecta-2022-1-27-04/1526408 e tenha experiências que abrirão novos horizontes.

 

-Edição Keven Souza

 

Comas Brasil no desfile Eco Fashion Week

Como um dos pilares da instituição, os projetos de extensão tem como princípio construir uma visão aberta e plural nos alunos, capaz de estimular o contato de ambos com a profissão ainda na graduação. Uma maneira que enriquece os conhecimentos acadêmicos e salienta o dinamismo profissional em diversas áreas de atuação. 

E hoje, o Contramão traz um artigo de opinião construído por meio do projeto de extensão Jornalismo de Moda, liderado pela professora Gabriela Ordones, que tinha como propósito fomentar o senso crítico e a escrita jornalística dos alunos dos cursos de Design, Comunicação e Moda. 

por Helena Coutinho

“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como bem expressou Lavoisier. Esse é o precedente de um dos movimentos de mercado mais fortes da atualidade, que ressignifica o descarte e o transforma em novo, apontando uma direção importante para a segunda indústria mais poluente do mundo, a da moda. 

Há relativamente pouco tempo, o mercado tem caminhado em um mesmo sentido: o da sustentabilidade. Tal movimentação, já mostrava sua previsibilidade em diversos veículos de tendência, visto que, há muito, já vínhamos percebendo que a escala na qual produzimos é insustentável para o nosso planeta e esse não é um reflexo a longo prazo. Para as marcas, o que antes era uma escolha e um diferencial é agora uma obrigação e uma exigência crescente dos consumidores, principalmente no que diz respeito às novas gerações. Vemos hoje a assinatura de tudo isso em colabs eco-friendly, técnicas de Upcycling e linhas de produção mais transparentes e atentas aos seus reais impactos.

Mas, cá entre nós, o consumidor de luxo e de grandes marcas, no geral, não dispõe de muita atenção no que diz respeito à temática da sustentabilidade, apesar disso, nitidamente, veio se fortalecer a cada dia. Uma das fortes ondas do momento são as técnicas de otimização de recursos e a reestruturação de materiais que seriam descartados. Uma das mais vistas recentemente é o Patchwork.

A técnica não é novidade: desde o Egito Antigo já deixou suas pegadas e, na moda, marcas como Vivienne Westwood e Versace foram algumas das pioneiras. Porém, o discurso do Patchwork aliado à sustentabilidade é relativamente fresco e quase que simbiótico. Contudo, em um momento onde a narrativa de empatia com o nosso planeta é crescente, marcas que ousam experimentar técnicas de Upcycling e reaproveitamento devem se atentar, também, ao seu discurso e analisar, diante de um mercado cada vez mais atento, se o seu propósito enquanto marca converge ou não com os princípios que precisam nortear uma coleção ecologicamente segura.

É notável que o movimento efetivo relacionado à sustentabilidade na moda, teve seu ápice nos brechós, bazares e com pequenos artesãos que, com um talento impecável, transformavam o que antes era considerado lixo em peças comercializáveis e exclusivas. Feliz ou infelizmente, grandes corporações, ao perceberem a crescente valorização mercadológica desse tipo de produto, viram-se diante de uma grande oportunidade: vender mais, com um discurso que até então ia na contramão das suas crenças e da sua linha de produção. É aí que a discussão ganha novos rumos.

A pandemia impactou a escassez de matérias-primas de todo e qualquer setor, inclusive o da moda. Gigantes da indústria fashion deram de cara com a incerteza, investimentos perdidos e uma estrada nebulosa diante do que viria pela frente. Ao mesmo tempo, pessoas que estavam em casa, esgotadas pelas exigências do isolamento social, começaram a utilizar como forma de escape a arte e a criação. O famoso “inventar moda” deixou de ser apenas um termo e ocupou um lugar importante no cotidiano das pessoas, principalmente no TikTok, onde ficou famosa a reformulação de peças já existentes no guarda-roupa. E essa foi a estratégia também adotada pelas marcas, agora obrigadas a utilizar dos seus recursos em meio à escassez, vendo-se impelidas a aproveitar o seu estoque que, há pouco, era integralmente carbonizado. 

Dolce & Gabbana, marcada pelas suas polêmicas contraditória se ética questionável, foi uma das gigantes a adotar o reaproveitamento, estratégia carimbada na sua coleção de verão 2021 ready-to-wear, executada a partir da mescla de diferentes retalhos que, juntos, se transformaram em uma explosão de cores e peças bastante atraentes ao olhar. Por um lado, nossos olhos brilham por saber que a adesão de grandes marcas a temas e propostas mercadológicos do tipo é um passo enorme para a expansão destes. Porém, reconhecendo o aspecto pendular da moda, sabemos que toda tendência tem data de validade. E o reaproveitamento de retalhos, pode ser uma delas.

Dolce Gabbana no desfile primavera/verão 2021

O poder do capitalismo é ainda maior do que parece e o mercado da moda anda ao lado dele. Um dos impactos disso é o greenwashing, que, segundo o Politize, é uma prática que promove discursos ambientalmente responsáveis, o que, na prática, não ocorre. É então, bastante coerente questionar se o imperialismo das grandes marcas usa do seu poder com verdade e propósito ou apenas como o “branding ideal” para vender cada vez mais.

A relação de poder no mercado da moda é o maior patrocinador dos seus impactos, sendo urgente que nós, como consumidores, consigamos enxergar isso. Grandes redes de fast-fashion já foram responsáveis por criar peças com design sustentável que, no entanto, utilizavam tecidos novos, produzidos especialmente para aqueles modelos. Para onde vai o discurso da sustentabilidade? Ecologia está na moda, mas será essa uma nova postura ou mais uma das brisas do mercado que passam adiante com a chegada do novo?

Historicamente, conhecemos os inúmeros dos grandes artistas que se perderam ao baterem de frente com a fama descomunal. Halston, Amy Winehouse, Michael Jackson, todos engolidos pelos holofotes que idealizavam seres humanos. Com esse final, já estamos familiarizados, mas o que a indústria como um todo nos mostra são grandes empresas que se perdem diante da escuridão da sua efervescência, esquecendo-se de que arte e equilíbrio socioambiental podem e devem ser inseparáveis. O mercado muda, os discursos mudam, o público muda. Mas será que o mundo vai se manter o mesmo? Diante disso, nos cabe questionar: será que “fazer o que se vende” é mesmo a melhor escolha?

 

 

Edição: Keven Souza

0 1053

Por Keven Souza

Nas redes sociais é quase improvável você rolar o feed do Instagram ou visualizar os vídeos do Tik Tok sem ao menos perceber que tanto as mulheres, quanto os homens estão usando a nova tendência do momento. A nail art é uma técnica que prioriza pintar as unhas de forma elaborada e criativa, e que podemos encontrá-la desde os salões de beleza no gueto ou até mesmo nos espaços da alta sociedade. A moda, que é queridinha de muitas pessoas, alcançou seu pico de sucesso na era digital e veio com o objetivo de apostar em unhas divertidas que possam ser usadas para agregar valor ao look. 

No Met Gala de 2019, evento tradicional que reúne diversos famosos internacionais, a nail art foi consagrada e apresentada ao mundo como uma nova tendência do universo masculino, e naquela noite, concedeu holofotes no red carpet a diversas celebridades. O ex- One Direction, Harry Styles, foi um dos anfitriões do evento que se tornou o assunto mais comentado entre as revistas de moda pelo sucesso das unhas pintadas em preto e verde. Entretanto, não darei o prazer, novamente, aos homens héteros de levarem os créditos de serem pioneiros em uma prática que não é de hoje que existe.

O ego masculino faz com que, até hoje, os homens sejam como uma “estrela” inapagável do centro da sociedade, com o reflexo hipócrita de que mesmo com a evolução de debates sobre apropriação cultural, identidade de gênero e igualdade social, a liberdade de se expressar sem ao menos serem julgados é um privilégio restrito somente à eles. 

Talvez seja doloroso aceitar que quando um homem branco e heteronormativo, se apropria de algo, seja uma tendência ou uma causa social, logo em seguida ela se torna relevante e é pautada em diversos veículos de comunicação. 

E, por incrível que pareça, a moda vai muito além do que dispor de uma tendência, é por si só um sistema que acompanha o comportamento humano e que ao longo do tempo desempenha um papel imprescindível na vida das pessoas. É em torno dela que as roupas e as tendências carregam significados sociais, econômicos e culturais, que nos dizem quem somos e de onde viemos, sendo significativa no que se refere a nos comunicarmos, e a nos expressarmos mediante ao que usamos.  

Para nós da comunidade lgbtqia +, usar esmalte não é só mais uma tendência passageira que grandes celebridades usam e usufrui quando querem. É uma vivência, uma prática cotidiana que faz parte da construção da identidade de diversas pessoas e que existe muito antes da nail art chegar ao red carpet como um momento estético e eufórico.  

Um dos exemplos de que pintar as unhas não é uma pauta atual, temos o ator, cantor e supermodelo, RuPaul Andre Charles, que desde os anos 90 nos EUA comanda o seu programa “RuPaul ‘s Drag Race” montada de drag queen com roupas, cabelos e unhas do universo feminino. 

Na comunidade, ele é celebrado como um ícone da arte drag que atua no audiovisual (televisão) sendo homem, gay, e afeminado, que não se compara com o Harry Styles, Bad Bunny ou Zac Efron que se apropriam de uma estética efêmera para estarem em alta na sociedade. RuPaul é a prova de que há muito tempo a nail art existe, e que os LGBTs afeminados lutam para fazerem parte do palco principal e se expressarem como seres humanos livres de rótulos, mas que em suma são ofuscados e esquecidos pela mídia. 

No Brasil, a realidade é pior, celebridades como Gui Araujo, Leo Picon e Lucas Jagger, são alguns dos homens que na maior parte das vezes fazem sucesso nas redes sociais exibindo as unhas coloridas e divertidas, aplaudidos pelo uso da técnica e aceitos por um grande número de  pessoas.

Eu diria que as transexuais e as travestis que pintam as unhas, fazem o cabelo e assumem a sua identidade, não têm a mesma sorte, já que ultrapassam até mesmo os gays em números de mortes violentas no Brasil. Esse dado é do Relatório Anual de Mortes Violentas de LGBT no país, realizado pelo o Grupo Gay da Bahia (GGB), que nos diz que só no ano de 2020, 161 travestis e trans foram vítimas da transfobia e 237 pessoas da comunidade morreram de forma violenta por serem quem são.

O cenário é super cruel e me faz pensar, o que falta para sermos considerados pautas relevantes, e sobretudo, o quanto os holofotes permanecem voltados somente aos homens héteros com estereótipo padrão. Até quando iremos aceitar que, o que os homens heteronormativos fazem é normal, bonito e relevante, e o que produzimos não é plausível suficiente ao ponto de sermos lembrados de um movimento na qual fazemos parte há décadas? Até onde é possível romantizar o ato de usar esmalte em aspecto divertido e bonito, para alguns e para outros que exercem a prática como parte da sua identidade, o resultado ser a morte? 

 

Edição: Daniela Reis