Comportamento

Comas Brasil no desfile Eco Fashion Week

Como um dos pilares da instituição, os projetos de extensão tem como princípio construir uma visão aberta e plural nos alunos, capaz de estimular o contato de ambos com a profissão ainda na graduação. Uma maneira que enriquece os conhecimentos acadêmicos e salienta o dinamismo profissional em diversas áreas de atuação. 

E hoje, o Contramão traz um artigo de opinião construído por meio do projeto de extensão Jornalismo de Moda, liderado pela professora Gabriela Ordones, que tinha como propósito fomentar o senso crítico e a escrita jornalística dos alunos dos cursos de Design, Comunicação e Moda. 

por Helena Coutinho

“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como bem expressou Lavoisier. Esse é o precedente de um dos movimentos de mercado mais fortes da atualidade, que ressignifica o descarte e o transforma em novo, apontando uma direção importante para a segunda indústria mais poluente do mundo, a da moda. 

Há relativamente pouco tempo, o mercado tem caminhado em um mesmo sentido: o da sustentabilidade. Tal movimentação, já mostrava sua previsibilidade em diversos veículos de tendência, visto que, há muito, já vínhamos percebendo que a escala na qual produzimos é insustentável para o nosso planeta e esse não é um reflexo a longo prazo. Para as marcas, o que antes era uma escolha e um diferencial é agora uma obrigação e uma exigência crescente dos consumidores, principalmente no que diz respeito às novas gerações. Vemos hoje a assinatura de tudo isso em colabs eco-friendly, técnicas de Upcycling e linhas de produção mais transparentes e atentas aos seus reais impactos.

Mas, cá entre nós, o consumidor de luxo e de grandes marcas, no geral, não dispõe de muita atenção no que diz respeito à temática da sustentabilidade, apesar disso, nitidamente, veio se fortalecer a cada dia. Uma das fortes ondas do momento são as técnicas de otimização de recursos e a reestruturação de materiais que seriam descartados. Uma das mais vistas recentemente é o Patchwork.

A técnica não é novidade: desde o Egito Antigo já deixou suas pegadas e, na moda, marcas como Vivienne Westwood e Versace foram algumas das pioneiras. Porém, o discurso do Patchwork aliado à sustentabilidade é relativamente fresco e quase que simbiótico. Contudo, em um momento onde a narrativa de empatia com o nosso planeta é crescente, marcas que ousam experimentar técnicas de Upcycling e reaproveitamento devem se atentar, também, ao seu discurso e analisar, diante de um mercado cada vez mais atento, se o seu propósito enquanto marca converge ou não com os princípios que precisam nortear uma coleção ecologicamente segura.

É notável que o movimento efetivo relacionado à sustentabilidade na moda, teve seu ápice nos brechós, bazares e com pequenos artesãos que, com um talento impecável, transformavam o que antes era considerado lixo em peças comercializáveis e exclusivas. Feliz ou infelizmente, grandes corporações, ao perceberem a crescente valorização mercadológica desse tipo de produto, viram-se diante de uma grande oportunidade: vender mais, com um discurso que até então ia na contramão das suas crenças e da sua linha de produção. É aí que a discussão ganha novos rumos.

A pandemia impactou a escassez de matérias-primas de todo e qualquer setor, inclusive o da moda. Gigantes da indústria fashion deram de cara com a incerteza, investimentos perdidos e uma estrada nebulosa diante do que viria pela frente. Ao mesmo tempo, pessoas que estavam em casa, esgotadas pelas exigências do isolamento social, começaram a utilizar como forma de escape a arte e a criação. O famoso “inventar moda” deixou de ser apenas um termo e ocupou um lugar importante no cotidiano das pessoas, principalmente no TikTok, onde ficou famosa a reformulação de peças já existentes no guarda-roupa. E essa foi a estratégia também adotada pelas marcas, agora obrigadas a utilizar dos seus recursos em meio à escassez, vendo-se impelidas a aproveitar o seu estoque que, há pouco, era integralmente carbonizado. 

Dolce & Gabbana, marcada pelas suas polêmicas contraditória se ética questionável, foi uma das gigantes a adotar o reaproveitamento, estratégia carimbada na sua coleção de verão 2021 ready-to-wear, executada a partir da mescla de diferentes retalhos que, juntos, se transformaram em uma explosão de cores e peças bastante atraentes ao olhar. Por um lado, nossos olhos brilham por saber que a adesão de grandes marcas a temas e propostas mercadológicos do tipo é um passo enorme para a expansão destes. Porém, reconhecendo o aspecto pendular da moda, sabemos que toda tendência tem data de validade. E o reaproveitamento de retalhos, pode ser uma delas.

Dolce Gabbana no desfile primavera/verão 2021

O poder do capitalismo é ainda maior do que parece e o mercado da moda anda ao lado dele. Um dos impactos disso é o greenwashing, que, segundo o Politize, é uma prática que promove discursos ambientalmente responsáveis, o que, na prática, não ocorre. É então, bastante coerente questionar se o imperialismo das grandes marcas usa do seu poder com verdade e propósito ou apenas como o “branding ideal” para vender cada vez mais.

A relação de poder no mercado da moda é o maior patrocinador dos seus impactos, sendo urgente que nós, como consumidores, consigamos enxergar isso. Grandes redes de fast-fashion já foram responsáveis por criar peças com design sustentável que, no entanto, utilizavam tecidos novos, produzidos especialmente para aqueles modelos. Para onde vai o discurso da sustentabilidade? Ecologia está na moda, mas será essa uma nova postura ou mais uma das brisas do mercado que passam adiante com a chegada do novo?

Historicamente, conhecemos os inúmeros dos grandes artistas que se perderam ao baterem de frente com a fama descomunal. Halston, Amy Winehouse, Michael Jackson, todos engolidos pelos holofotes que idealizavam seres humanos. Com esse final, já estamos familiarizados, mas o que a indústria como um todo nos mostra são grandes empresas que se perdem diante da escuridão da sua efervescência, esquecendo-se de que arte e equilíbrio socioambiental podem e devem ser inseparáveis. O mercado muda, os discursos mudam, o público muda. Mas será que o mundo vai se manter o mesmo? Diante disso, nos cabe questionar: será que “fazer o que se vende” é mesmo a melhor escolha?

 

 

Edição: Keven Souza

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Por Keven Souza

Nas redes sociais é quase improvável você rolar o feed do Instagram ou visualizar os vídeos do Tik Tok sem ao menos perceber que tanto as mulheres, quanto os homens estão usando a nova tendência do momento. A nail art é uma técnica que prioriza pintar as unhas de forma elaborada e criativa, e que podemos encontrá-la desde os salões de beleza no gueto ou até mesmo nos espaços da alta sociedade. A moda, que é queridinha de muitas pessoas, alcançou seu pico de sucesso na era digital e veio com o objetivo de apostar em unhas divertidas que possam ser usadas para agregar valor ao look. 

No Met Gala de 2019, evento tradicional que reúne diversos famosos internacionais, a nail art foi consagrada e apresentada ao mundo como uma nova tendência do universo masculino, e naquela noite, concedeu holofotes no red carpet a diversas celebridades. O ex- One Direction, Harry Styles, foi um dos anfitriões do evento que se tornou o assunto mais comentado entre as revistas de moda pelo sucesso das unhas pintadas em preto e verde. Entretanto, não darei o prazer, novamente, aos homens héteros de levarem os créditos de serem pioneiros em uma prática que não é de hoje que existe.

O ego masculino faz com que, até hoje, os homens sejam como uma “estrela” inapagável do centro da sociedade, com o reflexo hipócrita de que mesmo com a evolução de debates sobre apropriação cultural, identidade de gênero e igualdade social, a liberdade de se expressar sem ao menos serem julgados é um privilégio restrito somente à eles. 

Talvez seja doloroso aceitar que quando um homem branco e heteronormativo, se apropria de algo, seja uma tendência ou uma causa social, logo em seguida ela se torna relevante e é pautada em diversos veículos de comunicação. 

E, por incrível que pareça, a moda vai muito além do que dispor de uma tendência, é por si só um sistema que acompanha o comportamento humano e que ao longo do tempo desempenha um papel imprescindível na vida das pessoas. É em torno dela que as roupas e as tendências carregam significados sociais, econômicos e culturais, que nos dizem quem somos e de onde viemos, sendo significativa no que se refere a nos comunicarmos, e a nos expressarmos mediante ao que usamos.  

Para nós da comunidade lgbtqia +, usar esmalte não é só mais uma tendência passageira que grandes celebridades usam e usufrui quando querem. É uma vivência, uma prática cotidiana que faz parte da construção da identidade de diversas pessoas e que existe muito antes da nail art chegar ao red carpet como um momento estético e eufórico.  

Um dos exemplos de que pintar as unhas não é uma pauta atual, temos o ator, cantor e supermodelo, RuPaul Andre Charles, que desde os anos 90 nos EUA comanda o seu programa “RuPaul ‘s Drag Race” montada de drag queen com roupas, cabelos e unhas do universo feminino. 

Na comunidade, ele é celebrado como um ícone da arte drag que atua no audiovisual (televisão) sendo homem, gay, e afeminado, que não se compara com o Harry Styles, Bad Bunny ou Zac Efron que se apropriam de uma estética efêmera para estarem em alta na sociedade. RuPaul é a prova de que há muito tempo a nail art existe, e que os LGBTs afeminados lutam para fazerem parte do palco principal e se expressarem como seres humanos livres de rótulos, mas que em suma são ofuscados e esquecidos pela mídia. 

No Brasil, a realidade é pior, celebridades como Gui Araujo, Leo Picon e Lucas Jagger, são alguns dos homens que na maior parte das vezes fazem sucesso nas redes sociais exibindo as unhas coloridas e divertidas, aplaudidos pelo uso da técnica e aceitos por um grande número de  pessoas.

Eu diria que as transexuais e as travestis que pintam as unhas, fazem o cabelo e assumem a sua identidade, não têm a mesma sorte, já que ultrapassam até mesmo os gays em números de mortes violentas no Brasil. Esse dado é do Relatório Anual de Mortes Violentas de LGBT no país, realizado pelo o Grupo Gay da Bahia (GGB), que nos diz que só no ano de 2020, 161 travestis e trans foram vítimas da transfobia e 237 pessoas da comunidade morreram de forma violenta por serem quem são.

O cenário é super cruel e me faz pensar, o que falta para sermos considerados pautas relevantes, e sobretudo, o quanto os holofotes permanecem voltados somente aos homens héteros com estereótipo padrão. Até quando iremos aceitar que, o que os homens heteronormativos fazem é normal, bonito e relevante, e o que produzimos não é plausível suficiente ao ponto de sermos lembrados de um movimento na qual fazemos parte há décadas? Até onde é possível romantizar o ato de usar esmalte em aspecto divertido e bonito, para alguns e para outros que exercem a prática como parte da sua identidade, o resultado ser a morte? 

 

Edição: Daniela Reis 

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Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Por Thiago Guimarães Valu

Não é difícil ao andar pelas ruas, vez ou outra, a gente se deparar com pessoas muito jovens, acima do peso. Eu mesmo, durante parte da minha infância, toda adolescência e grande parte da vida adulta, estive nessa situação. Hoje, não posso me declarar como uma pessoa de biótipo exemplar, mas sou alguém que pratica exercícios físicos e segue uma boa alimentação.

Vivemos em um tempo, onde a comida é de rápido preparo, farta e nada nutritiva. São inúmeras as opções dos chamados fast foods, onde o universo de gorduras trans e açúcares, são quase ilimitados. Mas vamos tentar ir um pouco mais além, do que a visão nos sugere. Onde realmente começam os problemas, para uma juventude obesa?

Um tempo de mudanças

A puberdade é um período de muitas mudanças, os hormônios estão agindo para a transformação de crianças em jovens adultos, e isso agrega uma série de processos no organismo. Agora muitas vezes, é proveniente de algo mesmo antes do período da adolescência, sendo assim ela é multi fatorial, desde questões genéticas e estresse na gestação, até questões de mudanças alimentares e do meio ambiente de uma forma geral. Tudo isso, acaba por propiciar o aumento de peso.

Reconhecendo o problema

Algo importante para se resolver qualquer situação, é de forma primária, entender e enxergar que é necessária uma ajuda. Muitos pais, infelizmente não estão prontos para conduzir um jovem com esse tipo de problema, então como podemos cobrar que ele encontre os meios para sair dessa realidade? É preciso que os hábitos alimentares saudáveis, além de serem ensinados desde “o berço”, tenham uma extensão ao longo da vida. Talvez uma criança que não teve acesso ou educação sobre a importância de alimentos saudáveis, pode vir a tomar ciência disso em seu aprendizado escolar ou em campanhas fortes do governo na televisão, coisas que são historicamente defasadas em nosso país.

Quebrando o ciclo

De acordo com a Dra. Maria Flávia Gatti, médica endocrinologista em Belo Horizonte, umas das formas de se mudar esse caminho, passa pelas mudanças mental e corporal.

“Este aumento da obesidade na adolescência, é decorrente da mudança dos hábitos aliados ao consumo de alimentos processados além do sedentarismo. Infelizmente além da pandemia atual do COVID-19, nos encontramos também em meio a uma situação de pandemia da obesidade. Situações que já seriam mais difíceis em tempos comuns de serem contornadas, se agravam ainda mais em meio a esse cenário” afirma a médica.

É importante ressaltar, que a tendência de um adolescente obeso se tornar um adulto obeso, é grande. E o com isso, na fase adulta, aumenta-se o risco de desenvolver doenças como, diabetes, hipertensão  e cardiovascular.

O que pode mudar esse quadro?

De fato é preciso que desde os primeiros anos de vida, os bons hábitos alimentares sejam incluídos na vida da criança. Como vimos acima também nessa mesma reportagem, na palavra da Dra. Maria Flávia Gatti, fatores emocionais desde a gestação de uma criança, podem comprometer o seu comportamento alimentar no futuro. Novamente ela fala conosco a respeito de um possível caminho melhor para o futuro.

“É preciso uma atenção especial para as classes sociais mais baixas, a escola pode exercer um papel muito importante nesse sentido de conscientização alimentar. Através de campanhas e da própria merenda sempre nutritiva e saudável oferecida para os alunos. O estímulo a atividade física, também é parte fundamental para a mudança, as crianças estão muito sedentárias ao passar dos anos. E é claro, é preciso que o acesso ao alimento saudável,  seja melhor para toda  população.” Afirma a Dra. Maria Flávia Gatti.

É neste caminho  e com várias ações ainda que isoladas, é que podemos nos próximos anos, mudar hoje a realidade preocupante com relação a obesidade entre os adolescentes. Se faz preciso, de uma vez por todas, que isso seja tratado como aquilo que verdadeiramente o é, uma doença.

 

Edição: Daniela Reis

Revisão: Bianca Morais e Keven Souza

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Por Bianca Morais 

Para finalizar a comemoração do Mês das Mães do Jornal Contramão, conheça hoje a trajetória de Mariana Rocha Tavares, mãe solteira que enfrentou e abriu mão de muitos sonhos para assumir a maternidade ainda na adolescência. 

Mariana tem atualmente 32 anos, diferente de muitas meninas, seu sonho nunca foi ser mãe. Durante a infância mal brincava de boneca e idealizava com o dia em que iria crescer, trabalhar, conhecer o mundo e conquistar sua independência. 

Mas, o destino muitas vezes nos surpreende, as coisas não saem como planejamos e os projetos de vida de Mariana foram interrompidos, quando aos 17 anos veio a gravidez não planejada. A garota que sonhava em ser independente, viu sua vida virar de cabeça para baixo ao dar a luz ainda na adolescência. Agora os seus planos não eram só para ela, agora ela era responsável por uma outra vida.

Fruto de um relacionamento conturbado e da transição da pílula anticoncepcional para o contraceptivo injetável, veio ao mundo Alice. Quando descobriu a gravidez recorreu ao pai, que não é mais casado com sua mãe, e a proposta oferecida foi o aborto, pois ele acredita que uma gestação naquela idade influenciaria no seu futuro.

Engravidar aos 17 anos não é uma tarefa fácil, ainda mais quando não é uma gravidez planejada. Porém, Mariana resolveu assumir a responsabilidade, ao contrário do que seu pai aconselhou, seguiu em frente com a gestação. 

Apesar do desespero inicial, foi nos braços da mãe que Mariana encontrou a força que precisava para continuar. Ela apoiou a filha e deixou claro que não soltaria sua mão e estaria sempre ao seu lado. 

Alice no colo da avó materna

Durante a espera de Alice o que a jovem mais escutava eram comentários maldosos sobre sua situação. “Você é doida, como vai fazer isso com a sua vida?”“O que vai ser do seu futuro agora?”, “Você acabou com a sua vida!”, “ De agora em diante não existe mais você, a sua vida vai se resumir a sua filha!”,  “Esquece tudo que já planejou.”. Então, para ela que desde muito nova idealizava diversas metas que incluíam autonomia, aquele parecia o fim de tudo. 

Muitas críticas, pouco suporte, mas a partir do momento em que transformou esses julgamentos em coragem e determinação, Mariana colocou no mundo uma criança tranquila e serena, que chegou e desmistificou todas aquelas histórias assustadoras de que ela não teria mais noites de sono em paz. Alice nasceu para mostrar que seria a grande companheira da mãe e não o fardo que a sociedade queria que ela carregasse. Mariana ganhou uma filha, uma parceira e uma amiga que a partir daquele momento só iria lhe trazer alegrias. 

Alice foi criada em um ambiente cercado de adultos, por isso, tinha uma maturidade maior ao que correspondia à sua idade. Mãe e filha frequentemente conversavam questões de ideais e realizações pessoais, a menina constantemente incentivava a mãe a correr atrás daqueles sonhos que havia deixado de lado após seu nascimento. 

Depois de ter a filha, a prioridade de Mariana passou a ser o trabalho, pois seria através dele que ela daria o melhor à Alice. “A minha criação foi baseada no ensinamento e na filosofia da independência financeira. Logo, trabalhei arduamente, e tive muitas alegrias e muito sucesso na minha carreira. Sempre dei o meu melhor como profissional e colhi os frutos disso. Porém, de uns três anos pra cá, assumi cargos de mais responsabilidade, tendo como papel na empresa a figura que representava a gestão, e comecei a sentir muita falta de conceitos, de processos baseados em estudos” relata.

Apesar do sucesso profissional, Mariana sentia falta de um curso superior. Ela deixou os estudos de lado, pois queria dedicar o máximo de tempo livre à filha. A jovem mãe presenciava pessoas próximas se formarem e sentia a vontade de alcançar essa realização acadêmica. 

“Em nossas conversas ela se posicionava muito a favor de eu me realizar, e me dava força nos momentos difíceis. Nesse período, entrei em um conflito interno pela necessidade de uma especialização mais técnica na minha carreira e ela dizia a cada instante que eu não precisava me preocupar, porque ela estaria aqui me esperando da aula, e quando fosse final de semana não ia sair do meu lado”, compartilha Mariana.

Alice e Mariana em um momento de descontração

Alice, mesmo sendo apenas uma criança, conseguiu passar a segurança que a mãe precisava para ingressar na faculdade. “Ela sempre ficou nessa função de me reafirmar, que eu era uma boa mãe e que tinha orgulho de mim, isso fez total diferença”, completa.

Com o apoio da pessoa mais importante da sua vida, Mariana, venceu o medo e entrou para o curso de Administração que sempre quis. A mulher que sempre trabalhou na área, encontrou a oportunidade de se aprimorar. 

O dia a dia

Além de mãe e filha, as duas são amigas inseparáveis. Diariamente, durante a aula de Alice na parte da manhã, a mãe organiza a casa e faz o almoço. À tarde, a louça fica com a filha, enquanto Mariana estuda e organiza as responsabilidades que assumiu na faculdade. Ela é líder de turma, fornece suporte ao Instagram do curso, participa da direção de grupos de estudos e à noite assiste às aulas remotas.

As duas compartilham do momento de estudos juntas, Mariana está sempre perto para auxiliar a filha em alguma matéria nova e divide com ela conteúdos que aprende na faculdade. “Da minha parte sempre compartilho as matérias de marketing, porque ela é blogueirinha”, brinca a mãe. 

Mariana fez-se dona do seu destino e aos 32 anos resolveu voltar aos estudos, mas o apoio de Alice é o que movimenta sua vida e sem a filha ela não viveria nada disso.

A pequena grande Alice

A grande menina Alice

Alice é uma pré-adolescente de 13 anos e assim como a mãe sempre comportou-se de forma muito independente. Como a maioria das meninas de sua idade, reclama diariamente da pandemia e de não poder sair de casa e ter contato com as pessoas. Tem conta no Instagram e no TikTok, conversa por Whatsapp e videochamada com as amigas. Na escola, sempre teve boas notas, e apesar de nas aulas remotas precisar de um pouco mais de foco, nunca deu muito trabalho.

A menina tem uma mãe muito jovem, mas com uma extensa bagagem, e por esse motivo, ao longo de sua história já passou por muitas dificuldades e precisou ser adulta em muitos momentos em que ainda era uma criança.

O maior exemplo de Alice, sem dúvidas, é a mãe e talvez esse seja o principal motivo de tanto amadurecimento por parte da menina, que desde muito nova assistiu sua mãe batalhar a fim de lhe dar a melhor educação, mesmo com o mundo dificultando as coisas para as mães solos. 

“Alice é muito humana, educada, carinhosa e sensível. Ela sempre se importa com os outros, sem passar por cima dela. Apesar de tudo que passou nunca se revoltou, ou se quer descontou em alguém as frustrações que eu sei que surgiram dentro dela. Ter que administrar conflitos que nem eram dela. Isso a fez uma pessoa mais madura com certeza”, diz a mãe sobre a filha.

A relação mãe e filha

Mãe e filha em momento de diversão

Mãe e filha trocam informações e descobrem constantemente experiências novas juntas. As duas dialogam bastante e Mariana busca sempre estar presente no meio da filha, até mesmo entre as amigas, a fim de saber com quem ela está se relacionando.

Para Mariana, a base da educação da filha é essa troca, ela veio de uma criação de muito amor, porém estruturada no autoritarismo materno e pouco caso do lado paterno, com isso, desde que engravidou de Alice quis dar uma base diferente da que . “Quero que ela nunca precise fazer nada às escondidas, passar por dificuldades sozinhas por medo de conversar e pedir ajuda, que ela nunca sinta que é um peso na vida de ninguém”. 

Considerando que nunca planejou ser mãe, Mariana tem se virado muito bem, muitas vezes se questiona se ter assumido a posição de mãe-amiga pode ter sido equivocada, mas logo em seguida se reafirma e acredita estar dando o melhor de si.

“Eu cometi grandes erros na criação dela, porém tenho orgulho de ter chegado até aqui e me enxergar como mãe. Tudo que faço é com muito amor, então por mais que dê algo errado, sei que ela vai se sentir sempre muito amada e principalmente respeitada como ser humano”, confessa a mãe.

A mãe batalhadora

Mariana, mãe da Alice

Mariana é mãe, filha, gerente, namorada e amiga, todos esses papéis que ela assumiu ao longo da vida, são constantemente questionados por ela ser, acima de tudo isso, mulher. Ser mulher em uma sociedade machista é ter que se reafirmar diariamente, provar sua capacidade aos outros. Apesar da pressão que vive, Mariana tem conseguido vencer o desafio.

Há 15 anos, na época em que assumir o papel de mãe solteira, a única coisa que ela pensava era como daria uma boa vida à sua filha, acabou por adiar alguns planos, e hoje com o apoio da menina, de sua família, e motivada pela vontade de se tornar uma profissional melhor, voltou a acreditar no seu potencial. Deu início aos seus estudos, porém não para agradar a sociedade que duvida de sua competência, mas a si mesma. 

“A faculdade me mostrou que não existem limites quando se quer algo de verdade algo. Todo esforço e dedicação se para por si, demore o tempo que demorar.” 

Para as mães que têm medo de voltar aos estudos e deixarem os filhos, Mariana aconselha: “Respeitem o seu tempo. Sintam-se livres para serem melhores profissionais, melhores pessoas e não associem isso a dinheiro nunca, e nem ao que os outros falam. Ouçam o seu coração. Você é mãe, mas é um ser humano, tem suas necessidades e seus objetivos particulares. Você existe no mundo para além do outro. Você existe pra você, e isso não é egoísmo”.

O regresso aos estudos enriqueceu não apenas intelectualmente a Mariana, começar uma faculdade serviu muito além de um mero diploma e melhores oportunidades no mercado de trabalho, foi crescimento pessoal, de vencer dificuldades e ser o que ela quiser.

Nesse mês das mães, o Jornal Contramão contou histórias de diferentes exemplos delas, porém todas com um ponto em comum, são todas mulheres que enfrentam todos os dias batalhas e fardos de serem mulheres e mães. Romantizar a maternidade seria uma banalidade se pensar no fato de que essas mães precisam se desdobrar para dar o melhor ao filho, trabalhar e ainda cuidar da casa. Ser mãe é uma grande responsabilidade, são elas que vão educar e servir de exemplo para seus filhos, determinar, na maioria das vezes, quem eles vão ser quando crescer.

Em comemoração a esse mês das mães vamos celebrar, mas também refletir, como você enxerga a sua mãe? Você tem dado o devido valor e consideração a mulher que tanto lutou para você se tornar quem é hoje?

*Edição: Daniela Reis

Por Bianca Morais 

Dando continuidade a comemoração ao mês das mães, o Jornal Contramão traz hoje a história de Vanessa. Mostraremos os prazeres e os desafios de conciliar a rotina profissional com a maternidade durante a pandemia.

Vanessa Cristina Lopes Santos, tem 46 anos e é professora do curso de Engenharia Elétrica da Una Cristiano Machado e do Uni-BH. Além de exercer o papel como profissional da educação, também atua em um outra área muito importante, a maternidade. Vanessa é mãe de três crianças, Fernando, o mais velho, e as gêmeas Isabela e Letícia.

Para a professora, ser mãe sempre foi mais que um sonho, foi uma realização como mulher. Casada há 15 anos, ela sempre teve o desejo de ter no mínimo dois filhos. “Na realidade, sempre enxerguei a maternidade como um empréstimo em confiança. É uma missão que Deus nos confia”. E Deus confiou e muito nela, dando-lhe três filhos, pois sabia que ela seria capaz.

 

Começa uma história de amor

Vanessa e o marido fizeram Engenharia na mesma faculdade, porém não se conheceram nessa época. O encontro aconteceu apenas no mestrado, anos depois. Podemos dizer que foi obra do destino, pois logo se apaixonaram e estão juntos até hoje. 

Depois de casados, os dois planejavam o futuro. Queriam dois filhos, para eles o número ideal para ter uma vida tranquila e confortável. Fernando, 11 anos,  é primogênito. Um menino muito calmo e que sonhava com a companhia de um irmão. Para os pais, o cenário perfeito, pois sempre idealizaram um ambiente de partilha, uma criança sendo companheira da outra.

Na época em que descobriu a segunda gravidez e contou ao filho, Fernando já sabia que viriam dois, isso sem ao menos a mãe ter feito o ultrassom. “O mais interessante é que quando soubemos da gravidez, fomos perguntar ao Fê se ele iria ter irmão ou irmã, qual seria o presente que  o Papai do Céu mandou. Para surpresa de todos, ele  nos disse que ganharia dois irmãos e contou na escola, para a família e a todos que ele conhecia. Nós achamos aquela situação engraçada”.

Fernando foi preciso em sua intuição! A mãe realmente estava grávida de dois bebês, só que esperava dois irmãos, porém na realidade eram duas meninas: Isabela e Letícia, atualmente com 7 anos . 

“No dia da ultrassonografia, quando o médico disse que tinha uma surpresa, eu e meu marido nos surpreendemos mais ainda com a sensibilidade do Fernando. Este acontecimento aumentou demais nossa fé e nos uniu muito como família, acreditamos que a sensibilidade dele foi uma forma de Deus nos mostrar o quanto ele estava depositando confiança em nossa fammília”.

O cotidiano antes da pandemia

Passeios em família eram constantes

Antes do isolamento, a família vivia a mesma rotina diariamente. Na parte da manhã, as crianças tinham uma cuidadora, à tarde iam para a escola e à noite ficavam com o pai, pois Vanessa tinha que se dividir em seus empregos, em uma empresa privada e nas faculdades.

“Eu saía para trabalhar cedo,  no horário do almoço levava as crianças para a escola e voltava ao trabalho. Chegava em casa por volta das 23h, a essa altura meus filhos já estavam dormindo. No outro dia, eu saía às 6h30 e eles ainda não tinham se levantado.Assim, nossos encontros eram no horário do almoço e no caminho da escola”, relembra.

Era aos finais de semana que Vanessa de fato conseguia aproveitar e passar um tempo maior com os filhos, e ela fazia questão de aproveitar cada minuto. Ia com os garotos passear em praças, clubes, andar de bicicleta, enfim, tirava o atraso da semana.

Mudança radical

Com o início da quarentena, Vanessa passou a trabalhar em home office, as crianças passaram a ter aula online, foi quando a rotina mudou completamente. Se antes a mãe pouco via os filhos, agora ela acompanhava de perto cada momento.

“Atualmente,  o tempo todo estou a conciliar e encaixar tarefas. Os horários se sobrepõem e a rotina é uma palavra quase em desuso em casa. Me tornei uma mãe mais dedicada em tempo, mas também percebo que às vezes tomo muito controle da situação. Assim, tento deixar as crianças desenvolverem sua autonomia, mas me freio muito”, explica.

Dentro de casa, 24 horas com os filhos, Vanessa consegue acompanhar de perto a alfabetização deles, estar perto nessa fase de construção de conhecimento dos filhos, por ser professora, é capaz de ser mais compreensível e intervir de forma mais assertiva no que diz respeito à rotina escolar.

O ensino remoto dos filhos

No início foi necessário um período de adaptação para toda família, diferenciar os dias das semana dos fins de semana, explicar à eles que mesmo em casa, não era tempo de férias,  foi uma missão desafiadora.

“Passamos por um período de conscientização das responsabilidades e de entendimento da situação. Para ajudar na compreensão das crianças, fomos explicando, juntamente com os professores, que estávamos passando por uma situação crítica e enfrentando uma doença desconhecida e severa. Assim, eles conseguiram se adaptar ao confinamento e se protegerem”. 

As gêmeas estão em fase de alfabetização e em nenhum cenário Vanessa previa viver esse momento tão próxima delas. A mãe consegue muitas vezes assistir  parte das aulas com as pequenas e ajudá-las. Sem contar, que apesar de trabalhar durante as aulas delas, a mãe precisa se transformar em duas, é um olho no trabalho e outro dividido entre as meninas.

“Coloco elas em cômodos diferentes, porque são gêmeas e se ficam juntas vira palhaçada, brincadeira atrás de brincadeira. Fico em um cômodo intermediário, onde eu consigo ver as duas”.

Se já dá trabalho dar conta de uma criança em aula online, imagine duas meninas sendo alfabetizadas. A mãe relata que há  dias tranquilos e outros bem agitados. “Tem dia que o lápis quebra a ponta, aí pega o lápis da outra e se torna motivo de briga”. Vanessa, ao invés de perder a cabeça, enxerga ali a oportunidade de ensinar as duas a partilhar. “Eu consigo ver onde elas estão tendo uma dificuldade, intervir, uma coisa que eu não veria se eu não estivesse participando”.

Diferente das mais novas, o filho mais velho é bem independente e sossegado, porém não gosta muito de estudar e como grande parte dos pré-adolescentes prefere jogar bola e passa um bom tempo no Tik Tok. Para cumprir as tarefas escolares, a mãe precisa ficar no pé, porém vê com bons olhos a chance que tem de estar dentro de casa, acompanhar de perto e poder mostrá-los as consequências das escolhas que ele faz. 

“Sinto que está sendo um período muito difícil para o mundo inteiro, mas me trouxe chances únicas e indispensáveis”, revela.

Em relação ao método de ensino remoto dos filhos, a mãe avalia que apesar de a distância, são aulas muito boas. “Os professores acompanham as atividades, exploram o conteúdo, conversam com as crianças, mantêm os intervalos para levantar e descansar a vista da tela. As aulas que me deixam de cabelo em pé são as de educação física. A casa vira de pernas para o ar”.

A profissional

No horário em que ministra suas aulas, Vanessa conta com o apoio do marido. É ele quem consegue manter as crianças em silêncio, aproveita o momento para dar banho e lanche. A professora tem uma placa de “mamãe em aula”, que deixa na porta e se fecha no quarto de estudos. Nessa hora eles sabem que a mãe está no trabalho, por isso, não interferem muito. Mas foi preciso orientá-los sobre a seriedade do silêncio durante esse período em que ela está com seus alunos. 

“Na hora dos intervalos,  eu abro a porta e todos entram como um furacão. Mãe eu quero pizza, mãe eu quero isso, mãe eu quero aquilo. Aí eu respondo que  daqui uma horinha ou duas a mamãe está fazendo tudo que vocês querem”.

Se surpreende quem pensa que o dia de Vanessa acaba depois de dar sua última aula. Ali, a noite na verdade está apenas no começo. Depois de colocarem as crianças na cama, ela e o marido separam as atividades das meninas e já preparam tudo para o dia seguinte.

“Como são crianças, nem sempre eles conseguem acompanhar e fazer tudo, sempre tem um para casa que passa despercebido. A gente tem que aproveitar para colocar tudo em ordem no sábado ou no domingo. Também é nos finais de semana que fazemos as leituras, treinamos as sílabas, as letras, a pontuação, a acentuação, e prepararmos as tarefas que segunda-feira”.

Diversão em casa

As aulas das crianças terminam por volta do meio-dia, e é a partir daí que inicia-se o momento de brincar. Os três filhos sempre se divertiram muito entre si. Em meio a pandemia e o isolamento social, Vanessa encontrou uma forma de driblar a falta de rotina com outros amigos e trouxe  novo membro para a família: o Flash, um cãozinho. “Flash é um cachorrinho lindo e sapeca, a hora de levá-lo para passear é um dos melhores momentos do dia, é uma algazarra”.

Flash, o amiguinho especial

Outro momento que a família também tira para descontrair é quando Vanessa tem provas para corrigir, ela reúne todos na mesa e é “hora da escola”, cada um faz sua tarefa e aproveitam para passar o tempo juntos. “Logicamente que uma coisinha ou outra sai da linha né. Se é uma tarefa que dava para fazer de manhã, ela gasta de manhã e  à tarde, mas aqui com saúde, fé, boa vontade, às vezes a polêmica a gente contorna”.

Os desafios da pandemia em família

Na rotina da mãe e professora existem dias mais difíceis, em que as tarefas não são concluídas e o cronograma não é cumprido, mas mesmo assim ela  garante que não se deixa abalar e que sua fé a faz acreditar sempre que tudo na vida é um aprendizado. Paciência, confiança e fé são suas palavras de ordem. 

“Daqui um tempo vamos poder parar, olhar para trás e espero que possamos agradecer por ter saúde, por ter o desafio vencido e ter crescido como ser humano, como família e estarmos mais fortes e mais preparados. Acredito que a pandemia me mudou como pessoa em muitos aspectos, principalmente em reconhecer os meus  limites e dos outros, entender que todos estamos sujeitos a problemas e ninguém está livre de mazelas. Assim, a fé aumenta e a gente aprende a confiar mais, confiar na vida, na proteção de Deus”.

Vanessa é uma mãe muito dedicada e grata a família que tem. No momento em que uma doença assola o mundo, ela enxergou a chance de ouro de se aproximar de seus filhos. Em meio a correria do dia a dia ela tenta dar atenção a cada um individualmente e educá-los da melhor forma possível. Ao estar diariamente presente, ela percebe as necessidades de cada um e entende a hora certa de interferir.

“Às vezes no momento em que você não pode intervir numa determinada situação, no momento exato do acontecimento, outra acontece e te dá a oportunidade de fazer uma abordagem mais madura. Nós somos muitos transparentes aqui em casa e fica mais fácil a percepção de como está cada um. Como eu via muito pouco meus filhos, apenas quando íamos para a aula, eu conversava muito com eles e explicava como é importante sermos sinceros e contarmos uns com os outros”, finaliza.

 

*Edição: Daniela Reis

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Por Bianca Morais

Em comemoração ao mês das mães, o Contramão produziu uma série de matérias muito especiais e hoje é dia da história de Roberta e Brenda, mãe e filha que são inseparáveis e passaram por um processo de superação depois que uma delas descobriu o câncer. 

Brenda Ferraz Leal Lucas tem 24 anos e a mãe Roberta Ferraz Lucas, 47. Roberta engravidou muito jovem e foi mãe solo, por isso, criou vínculo bem próximo e intenso com a filha. A Brenda, segundo palavras da própria mãe, é uma garota com qualidades ímpares e o que mais admira nela é a força e a lealdade.

A relação das duas vai além da materna. “Trabalhamos juntas, estudamos juntas e saímos juntas. Eu sempre brinco com isto, estava difícil achar uma boa amiga, então eu fiz uma”, diz a mãe.

Brenda e Roberta – arquivo pessoal

Quando se formou no ensino médio, Brenda demorou cerca de um ano para decidir qual instituição de ensinoescolher. Roberta, como mãe e amiga, sempre aconselhou a filha escolher para sua vida o que ela realmente ama. E foi com os sábios conselhos dela que a jovem ingressou no curso de Direito no Centro Universitário Una.

“Escolhi a Una e com toda certeza foi uma das melhores escolhas da minha vida. Sou fã n°1 de todo o corpo docente e a maior prova é que levei o grande amor da minha vida para a faculdade”, explica Brenda.

Já se percebe que o termo “inseparáveis” para essa dupla não é uma mera forma de falar. Sim, no auge dos seus 43 anos, influenciada pela filha e mais disposta do que nunca, Roberta também resolveu ingressar no curso de Psicologia. “Sempre estudei muito sobre o assunto, nos livros, através de vídeos na internet, sou uma apaixonada por Freud. Foi quando minha filha me disse: vá buscar o seu diploma, duvido que alguém já estudou mais sobre Psicologia que você”.

E foi assim que a insistente Brenda conseguiu convencer a mãe a estudar na mesma instituição. 

“Minha filha é uma apaixonada pela Una, assim que entrou ficou fazendo a minha cabeça para entrar também. Falou tanto que resolvi ir ver, deixei claro que só faria se fosse psicologia, não tinha o curso. Por incrível que pareça dentro de 10 dias a Una lançou o curso. Óbvio que ela não iria perder a chance de me cobrar novamente, então entrei”. 

Não existe dúvidas que quando algo é para ser, assim será. E foi o destino que se encarregou de colocar mãe e filha nos mesmos corredores da faculdade com um propósito que apenas algum tempo depois elas entenderiam.

Arquivo pessoal

No quarto período da faculdade, Roberta foi diagnosticada com câncer de mama, um dos momentos mais difíceis de sua vida. “Meu mundo caiu, mas sou uma daquelas pessoas que não desiste nunca. Em vez de pensar: Por que eu?  Pensei: Por que não eu? Passada uma semana já estava pronta para encarar a batalha”, relembra.

Mãe é aquela que protege e cuida do seu filho. Que dá a vida por ele se necessário. Em determinadas situações, no entanto, a mãe passa por problemas na vida que não consegue tomar o controle da situação, e certamente elas não se sentem confortáveis com isso. 

Roberta contou à nossa reportagem que teve um dos piores tipos de câncer, o inflamatório e triplo negativo, o médico disse que apenas 30% sobreviviam, e o mais surpreendente é em nenhum momento seu maior medo foi a doença ou o tratamento, esse ela garante que conseguiu levar de forma tranquila, principalmente por fazer psicologia e acreditar muito no poder da mente. 

Na hora em que recebeu a notícia do câncer a sua maior preocupação era “Como iria morrer e deixar a Brenda? Esse foi o meu medo, deixar minha filha”.

Em um primeiro instante, a filha apenas tinha ido ao médico para acompanhar a mãe. “O primeiro médico falou que era apenas uma mastite, a gente iria aproveitar o dia para comprar um óculos. O médico vira e diz: “Tenho uma péssima notícia, é câncer”, relata Roberta.

Para Brenda, o momento da descoberta foi a pior dor que já sentiu na vida, no segundo ela entendeu que teria que ser a pessoa mais forte do mundo para estar ao lado da mãe. Roberta relata que a filha teve uma reação incrível e inimaginável. “Ela pegou o telefone e começou as ligações para marcar exames, desconheço alguém mais forte que Brenda”.

Existem horas na vida de um filho que ele se vê na responsabilidade de inverter o papel com a mãe ou o pai. Brenda é jovem, jamais havia cogitado que sua mãe, aquela mulher que lhe ensinou a ser forte e dona si, poderia ser vítima de uma doença tão triste, mas entendeu que precisava tomar o controle da situação e estar ali para quem sempre lutou por ela. “Naquele momento eu só não queria que ela sofresse. Tentei evitar tudo que pudesse machucá-la”.

Roberta e Brenda são carne e unha. Nas palavras de Brenda “é como se fosse uma parte de mim fora de mim. Só me sinto completa ao lado dela”. No decorrer de toda a trajetória do tratamento do câncer uma deu força a outra, as duas levavam os livros para as sessões de quimioterapia e estudavam juntas, a mãe passando mal nas aulas e a filha sempre nos corredores a apoiando. 

Roberta cogitou parar os estudos pois tinha medo de continuar à toa. “E se eu morresse? Mas logo mudei de ideia, eu iria viver, meus professores e amigos da Una foram fantásticos, os meus professores e os professores da Brenda. Tive total apoio”.

Arquivo Pessoal

Duas fortalezas, uma não deixou a outra desmoronar. Brenda estava no seu 5° período de Direito e carrega consigo o dever de ser inabalável. “Eu realmente precisava ser forte como a minha mãe para poder estar sempre apoiando. Nessa época, o mundo parou para mim, tudo girava em torno de ser forte e de protegê-la”. E a mãe, por mais que estivesse batalhando pela vida, jamais baixou a guarda, “Tive que me fazer forte para não a ver cair”.

A relação mãe e filha ganha uma dimensão fora do comum quando se trata dessas duas. A forma como uma nunca deixou a outra desistir e a importância do apoio da filha foi fundamental para que a mãe não perdesse as esperanças. “Não teria conseguido sem ela”, afirma Roberta.

Durante a rotina do tratamento, Roberta relata não ter tido muitos problemas. “Estudei, trabalhei de uma forma mais lenta, mas consegui fazer tudo. Brenda nunca arredou o pé de perto de mim”. Juntas as duas passaram por momentos de muita batalha, foi a filha que cortou os cabelos da mãe. “Foi um momento tenso, mas aproveitamos para fazer vários cortes”. Uma fortalecia a outra, e conseguiam enxergar mesmo nesse período tão puxado uma luz de possibilidades.

O momento da cura foi para as duas o mais marcante do caminho que traçaram juntas. “O dia que a médica, a nossa Dra. Fernandinha, disse que deu tudo certo, foi um dia mágico, um dos dias mais felizes da minha vida”, relembra Brenda.

Roberta sempre foi uma mulher de garra, e a positividade foi um dos elementos que a ajudou na luta contra o cancer. “Hoje eu tenho a certeza da morte, antes nem parava para imaginar isto. Tendo a certeza da morte, você vive mais. Quando a morte para de ser algo distante, você entende a necessidade do agora. Você aprende a curtir momentos simples, cafés, abraços. E toma consciência da finitude”. 

Para Roberta, a filha é seu maior orgulho. “Consegui deixar uma boa pessoa para o mundo, ela irá fazer a diferença”, orgulha-se a mãe.

Para Brenda, a mãe é sinônimo de vida, se orgulha da força e coragem que vê diariamente nela. “Eu sou eternamente grata a Deus por ter me escolhido para ser filha de uma mulher tão fantástica e excepcional. Nunca consegui expressar em palavras meu amor e admiração, mas espero poder demonstrar com gestos ao longo da minha vida. Todos vão dizer que tem a melhor mãe do mundo… Eu tenho a mãe, a irmã, a amiga, a conselheira, tudo isso na mesma pessoa”.

 

Edição: Daniela Reis