Comportamento

*Crédito: Freepik

Consultora de Imagem comenta sobre a importância do autocuidado no período de isolamento 

*Por: Italo Charles

A busca por conforto e praticidade ao vestir, tornou-se realidade para muitas pessoas devido ao isolamento social. Em home office, alguns preocuparam em se arrumar para trabalhar, o que de certa forma gerou o aumento na produtividade, em outros casos, pessoas se estabeleciam com seus pijamas ou com os famosos trajes de ficar em casa.

Cuidar da autoimagem e autoestima fazem parte de um processo de construção do indivíduo. A imagem é muito mais que o vestuário, a pessoa pode estar num traje deslumbrante, mas não se sentir bem internamente. 

Em conversa com Consultora de Imagem Marina Seif, profissional da área há 14 anos, a equipe do Contramão abordou os aspectos e importância do cuidado com a autoimagem durante o isolamento social. 

Marina, Qual a importância do cuidado com a autoimagem?

O cuidado com a autoimagem é essencial, pois a autoimagem está diretamente relacionada à nossa autoestima. Não é incomum encontrarmos pessoas que têm uma visão distorcida de sua própria imagem, prova disso são os transtornos alimentares. Em alguns casos, a consultoria de imagem pode ajudar, mas em outros, é necessário um acompanhamento psicológico. No que diz respeito a consultoria de imagem, é fundamental que o cliente esteja satisfeito com o resultado, senão vira fantasia e depois fica difícil de manter o trabalho realizado. 

Neste período de isolamento, muitas pessoas passaram a ter sua rotina de trabalho em home office. Com isso o conforto e praticidade se tornaram primordiais. Algumas pessoas adotaram o pijama para ficar o dia inteiro trabalhando, e outras continuam se arrumando. Dessa forma, como o autocuidado e a ausência em se arrumar podem afetar a imagem após pandemia ?

Os especialistas são quase unânimes em dizer que sim, que isso implica inclusive na sua produtividade e autoestima e eu vou dizer que depende muito da pessoa. Ficar de pijama de segunda a segunda pode não ser muito saudável para nossa saúde mental, mas que atire a primeira pedra quem não trabalhou de pijama nem um dia nesta pandemia.

Acho que o mais importante que trabalhar ou não de pijama é entender o que está por trás desta decisão. É só uma busca por conforto ou essa escolha é resultado de desânimo constante? Essa opção está me prejudicando de alguma forma? Eu estou de pijama, mas estou me sentindo bem? 

Lembrando que imagem vai muito além do vestuário. Não adianta a pessoa estar impecavelmente vestida e com as expressões apáticas, a voz arrastada e a caos instalado no cômodo em que está trabalhando.

Como se adaptar a esse momento de vida sem perder o estilo, seja para somente ficar em casa ou para trabalhar?

Acredito que o segredo está em equilibrar seu estilo pessoal, com a imagem que quer ou precisa passar para quem está do outro lado da tela e, a nova rotina de trabalho em casa. Optar por peças que te façam sentir bem e sejam confortáveis é uma ótima opção. Por exemplo, ninguém precisa vestir terno para trabalhar em casa, se não for uma exigência que você aparece assim nas vídeos conferências, mas estar com a barba feita ou alinhada, uma camisa mais arrumada e o cabelo penteado já fazem toda a diferença.

É importante definir um “look” para o momento de trabalho e o momento de descanso? Quais são os efeitos:

Depende muito do seu trabalho e do que você faz nos seus momentos de descanso. Quanto mais versáteis forem as peças do seu guarda-roupa, maiores as possibilidades delas serem utilizadas na composição de looks para os mais variados momentos.

Sabendo que os espaços como salões de beleza, academia, lojas e centros estéticos não estão funcionando, como os cuidados com a imagem interferem na autoestima e como elevá-la?

As pessoas têm encontrado soluções caseiras e virtuais para suprir essas necessidades e acredito que seja essa uma ótima solução. Essa pode ser também uma ótima oportunidade de reavaliar esses hábitos de beleza que, muitas vezes, realizamos sem questionar se são realmente necessários. Tenho visto um movimento de mulheres que aproveitaram a quarentena para abandonar de vez os alisamentos e as colorações e acho fantástico. Nada contra quem ainda mantêm esses hábitos, mas poder reavaliar isso é muito legal.

É possível dizer que após esse período as pessoas vão passar por um processo de readaptação do “vestir”? 

Precisamos entender, antes de tudo, que o vestir é reflexo do momento pelo qual a sociedade está passando. As pesquisas apontam que haverá uma alteração na forma de consumo de moda, com o impulsionamento da tecnologia e a valorização de marcas locais e com propósito.

Já no quesito estilo, acho que viveremos tendências antagônicas; de um lado a valorização do comfy, que tem sido enaltecido no recolhimento e, do outro lado uma glamourização mais exacerbada, em um desejo de celebração e recuperação do “tempo perdido”. Parece exagero comparar a pandemia com os períodos de guerra, mas ambos foram momentos de crise mundial e o que tivemos após a Primeira Guerra foi a valorização de peças mais práticas e inspiradas no guarda-roupa masculino, enquanto depois da Segunda Guerra Mundial, vieram os anos dourados com o new Look de Dior. 

Quer conhecer mais sobre o trabalho de Marina Seif, acesse o Instagram (@marinaseif)

 

*Edição: Daniela Reis

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Por: Bruna Nunes

Entre a década de 1990 e o primeiro decênio dos anos 2000 as crianças foram bombardeadas de conteúdo infanto juvenil que eram exibidos em vários programas da televisão aberta como TV Globinho (Globo), Bom Dia e Cia (SBT), Band Kids (Bandeirantes), entre outras programações além das fitas cassetes e Dvd’s. Algumas franquias de filmes fizeram bastante sucesso entre a garotada, as produções que envolviam princesas e a famosa boneca Barbie se tornaram uma febre com direito a brinquedos superfaturados. 

Avaliando o sucesso dessas histórias, será que elas poderiam influenciar aqueles espectadores que agora se tornaram  jovens e adolescentes? Para isso, fizemos um questionário e estudamos a resposta dos participantes entre 12 e 25 anos. A intenção principal da enquete foi entender como essas pessoas se sentem hoje em relação ao conteúdo abordado nas tramas.

A história desses longas na maioria das vezes possuía o mesmo roteiro. A Disney explorava sempre o lado da boa moça ingênua e indefesa que passava por momentos turbulentos, encarnando a jornada do herói e indo de encontro ao príncipe que exercia o papel de salvador. Nos desenhos da Barbie a abordagem era um pouco diferente, a personagem também passava pelo processo de altos e baixos mas conseguia resolver os empecilhos por ela mesma sem a necessidade de um “salvador”, mesmo com um par no final.

Graças aos movimentos de empoderamento feminino e o conhecimento das bases do feminismo, vários participantes comentaram e criticaram a visão desse tipo de enredo que nutria o ideal da mulher ser o sexo frágil. Essa nova perspectiva ajudou a contestar o conceito do príncipe encantado (um cara legal, que sempre vai te salvar de qualquer problema), tirando a necessidade de depositar uma carga de responsabilidade em um par romântico.

Abordamos também o lema do “Felizes para sempre” e da identificação física com as protagonistas. Por se tratar de uma interpretação profunda e delicada das respostas, convidamos a psicóloga Maria Dalva Garcia para nos ajudar a entender as entrelinhas das respostas.

Por mais que 88,5% dos participantes não acreditassem no conceito de príncipe encantado, o que pode ser indício de maturidade, 80,8% acredita pelo menos em parte no ‘felizes para sempre’. De certa forma as pessoas estariam transferindo a responsabilidade do par as tornarem completas para o ato do relacionamento, ou seja, o relacionamento teria a carga de as tornarem felizes, o que também pode gerar frustração e desgaste emocional.

A frase “E viveram felizes para sempre” empregada em vários filmes da Disney incluindo algumas novas adaptações em live action, transporta uma grande carga emocional, isso porque a visão transmitida é que todos os relacionamentos serão longos, duradouros e perfeitos. Devemos nos atentar a realidade de que nem sempre teremos um bom relacionamento e precisamos estar abertos às possibilidades para evitar possíveis traumas vindo desse ideal.

Analisando o perfil físico das personagens das tramas, a grande maioria das protagonistas são brancas, de cabelos lisos e traços angelicais com medidas físicas surreais. O que não faz jus a diversidade de tipos de cabelo, pele e corpos que sempre estiveram presentes ao redor do mundo. 

O padrão de beleza imposto nas últimas décadas era muito cruel e quase irreal, vimos várias pessoas se submeterem ao uso de cintas e espartilhos para esconderem o corpo que tinham, além das inúmeras descolorações, progressivas e relaxamentos para obterem o cabelo perfeito. Com a popularização das cirurgias plásticas a preocupação se tornou mais real já que a mudança física está mais acessível.

O modo como se portavam e falavam, também era alvo de críticas. Perguntado aos nossos participantes se em algum momento quiseram se vestir ou ter cabelos e corpos igual ao das personagens 73,1% responderam que sim. Mas seria só admiração de criança querer se vestir dessa forma ou ser igual a eles ? 

Questionamos se eles tivessem a possibilidade de mudar algo em si para ficarem igual a suas personagens favoritas, se fariam e 57,7% sentem vontade de se modificam seja mudança estética, física ou comportamental. Segundo nossa psicóloga Maria Dalva para interpretarmos esses dados, precisamos levar em conta a pressão social sobre as pessoas dessa faixa etária que são mais susceptíveis às interferências culturais. 

De certa forma essas personagens aparecem como o padrão perfeito, sempre impecáveis, magras e “bem sucedidas”. Essa visão distorcida se não trabalhada pode desencadear uma série de gatilhos que levam a transtornos psicológicos como a depressão, bulimia, anorexia, automutilação, isolamento social, entre outros. “O papel do meio é muito importante! Família amigos etc. que faça com que essa pessoa se situe mas de forma positiva nesse mundo que está aí … exigente demais!”, explica Maria Dalva.

A última pergunta do questionário era se essas pessoas acreditavam que houve influência dos filmes ao longo dos anos na forma que eles pensam ou agem atualmente, e por mais que a maioria acredite que sim, as respostas oscilaram entre sim, não e talvez. O que abriu um questionamento se essa influência seria boa ou nociva e pelo ponto de vista psicológico “Se é bom ou nocivo? Depende do quanto a pessoa sabe dosar as coisas ou encontrar um ponto de equilíbrio, porque isso afeta a pessoa de forma global auto estima …adaptação no no mundo”, explicou a psicóloga.

A interferência dessas produções vão depender  das experiências que obtivemos ao longo do tempo, assim como nossos valores e ideais consolidados. Vale salientar que com o passar dos anos as companhias cinematográficas fizeram alterações em suas novas criações abrindo um leque maior para a diversidade e ideais atuais. 

Mas como é esse processo de transição? para entendermos um  pouco do lado da indústria, conversamos com o diretor de criação e desenvolvimento da agência SPARTA, Rangel Morais. Mesmo com a questão da diversidade sendo constantemente levantada, o consumo de brinquedos padrões ainda é alto.

Rangel nós explicou que além da cultura enraizada que temos, algumas empresas investem nessa perpetuação e não adotam medidas diferente por medo de retaliação do público alvo deles, porém na indústria do entretenimento infantil a questão já vem sendo trabalhada. O mesmo citou inclusive a estratégia da Mattel em criar versões diferentes da boneca Barbie e algumas apostas da Disney como Pocahontas e Mulan nos anos 90 e novas aposta como Valente e Moana na quebra de padrões. 

Nem sempre as companhias cinematográficas pensam na identificação da criança com o desenho, o medo de apostar em algo novo e revolucionário ainda pesa nas decisões. Para isso é importante que as indústrias apostem nas pesquisas de opinião para acompanhar as demandas atuais. Em algum momento houve um ponto crucial para a mudança,“Com a popularização da internet a partir dos anos 2000, a troca rápida de informações aproximou as pessoas e as marcas”, afirma Rangel . 

A esperança é que as crianças possam se identificar com seus personagens favoritos, que se sintam parte das histórias e se sintam bem com isso. Diferente das décadas anteriores, hoje podemos nos expressar e questionar as coisa abertamente.

 

 

 

*A matéria foi realizada sob a supervisão e edição de Italo Charles e da jornalista Daniela Reis