Comportamento

Por Bianca Morais 

Dando continuidade a comemoração ao mês das mães, o Jornal Contramão traz hoje a história de Vanessa. Mostraremos os prazeres e os desafios de conciliar a rotina profissional com a maternidade durante a pandemia.

Vanessa Cristina Lopes Santos, tem 46 anos e é professora do curso de Engenharia Elétrica da Una Cristiano Machado e do Uni-BH. Além de exercer o papel como profissional da educação, também atua em um outra área muito importante, a maternidade. Vanessa é mãe de três crianças, Fernando, o mais velho, e as gêmeas Isabela e Letícia.

Para a professora, ser mãe sempre foi mais que um sonho, foi uma realização como mulher. Casada há 15 anos, ela sempre teve o desejo de ter no mínimo dois filhos. “Na realidade, sempre enxerguei a maternidade como um empréstimo em confiança. É uma missão que Deus nos confia”. E Deus confiou e muito nela, dando-lhe três filhos, pois sabia que ela seria capaz.

 

Começa uma história de amor

Vanessa e o marido fizeram Engenharia na mesma faculdade, porém não se conheceram nessa época. O encontro aconteceu apenas no mestrado, anos depois. Podemos dizer que foi obra do destino, pois logo se apaixonaram e estão juntos até hoje. 

Depois de casados, os dois planejavam o futuro. Queriam dois filhos, para eles o número ideal para ter uma vida tranquila e confortável. Fernando, 11 anos,  é primogênito. Um menino muito calmo e que sonhava com a companhia de um irmão. Para os pais, o cenário perfeito, pois sempre idealizaram um ambiente de partilha, uma criança sendo companheira da outra.

Na época em que descobriu a segunda gravidez e contou ao filho, Fernando já sabia que viriam dois, isso sem ao menos a mãe ter feito o ultrassom. “O mais interessante é que quando soubemos da gravidez, fomos perguntar ao Fê se ele iria ter irmão ou irmã, qual seria o presente que  o Papai do Céu mandou. Para surpresa de todos, ele  nos disse que ganharia dois irmãos e contou na escola, para a família e a todos que ele conhecia. Nós achamos aquela situação engraçada”.

Fernando foi preciso em sua intuição! A mãe realmente estava grávida de dois bebês, só que esperava dois irmãos, porém na realidade eram duas meninas: Isabela e Letícia, atualmente com 7 anos . 

“No dia da ultrassonografia, quando o médico disse que tinha uma surpresa, eu e meu marido nos surpreendemos mais ainda com a sensibilidade do Fernando. Este acontecimento aumentou demais nossa fé e nos uniu muito como família, acreditamos que a sensibilidade dele foi uma forma de Deus nos mostrar o quanto ele estava depositando confiança em nossa fammília”.

O cotidiano antes da pandemia

Passeios em família eram constantes

Antes do isolamento, a família vivia a mesma rotina diariamente. Na parte da manhã, as crianças tinham uma cuidadora, à tarde iam para a escola e à noite ficavam com o pai, pois Vanessa tinha que se dividir em seus empregos, em uma empresa privada e nas faculdades.

“Eu saía para trabalhar cedo,  no horário do almoço levava as crianças para a escola e voltava ao trabalho. Chegava em casa por volta das 23h, a essa altura meus filhos já estavam dormindo. No outro dia, eu saía às 6h30 e eles ainda não tinham se levantado.Assim, nossos encontros eram no horário do almoço e no caminho da escola”, relembra.

Era aos finais de semana que Vanessa de fato conseguia aproveitar e passar um tempo maior com os filhos, e ela fazia questão de aproveitar cada minuto. Ia com os garotos passear em praças, clubes, andar de bicicleta, enfim, tirava o atraso da semana.

Mudança radical

Com o início da quarentena, Vanessa passou a trabalhar em home office, as crianças passaram a ter aula online, foi quando a rotina mudou completamente. Se antes a mãe pouco via os filhos, agora ela acompanhava de perto cada momento.

“Atualmente,  o tempo todo estou a conciliar e encaixar tarefas. Os horários se sobrepõem e a rotina é uma palavra quase em desuso em casa. Me tornei uma mãe mais dedicada em tempo, mas também percebo que às vezes tomo muito controle da situação. Assim, tento deixar as crianças desenvolverem sua autonomia, mas me freio muito”, explica.

Dentro de casa, 24 horas com os filhos, Vanessa consegue acompanhar de perto a alfabetização deles, estar perto nessa fase de construção de conhecimento dos filhos, por ser professora, é capaz de ser mais compreensível e intervir de forma mais assertiva no que diz respeito à rotina escolar.

O ensino remoto dos filhos

No início foi necessário um período de adaptação para toda família, diferenciar os dias das semana dos fins de semana, explicar à eles que mesmo em casa, não era tempo de férias,  foi uma missão desafiadora.

“Passamos por um período de conscientização das responsabilidades e de entendimento da situação. Para ajudar na compreensão das crianças, fomos explicando, juntamente com os professores, que estávamos passando por uma situação crítica e enfrentando uma doença desconhecida e severa. Assim, eles conseguiram se adaptar ao confinamento e se protegerem”. 

As gêmeas estão em fase de alfabetização e em nenhum cenário Vanessa previa viver esse momento tão próxima delas. A mãe consegue muitas vezes assistir  parte das aulas com as pequenas e ajudá-las. Sem contar, que apesar de trabalhar durante as aulas delas, a mãe precisa se transformar em duas, é um olho no trabalho e outro dividido entre as meninas.

“Coloco elas em cômodos diferentes, porque são gêmeas e se ficam juntas vira palhaçada, brincadeira atrás de brincadeira. Fico em um cômodo intermediário, onde eu consigo ver as duas”.

Se já dá trabalho dar conta de uma criança em aula online, imagine duas meninas sendo alfabetizadas. A mãe relata que há  dias tranquilos e outros bem agitados. “Tem dia que o lápis quebra a ponta, aí pega o lápis da outra e se torna motivo de briga”. Vanessa, ao invés de perder a cabeça, enxerga ali a oportunidade de ensinar as duas a partilhar. “Eu consigo ver onde elas estão tendo uma dificuldade, intervir, uma coisa que eu não veria se eu não estivesse participando”.

Diferente das mais novas, o filho mais velho é bem independente e sossegado, porém não gosta muito de estudar e como grande parte dos pré-adolescentes prefere jogar bola e passa um bom tempo no Tik Tok. Para cumprir as tarefas escolares, a mãe precisa ficar no pé, porém vê com bons olhos a chance que tem de estar dentro de casa, acompanhar de perto e poder mostrá-los as consequências das escolhas que ele faz. 

“Sinto que está sendo um período muito difícil para o mundo inteiro, mas me trouxe chances únicas e indispensáveis”, revela.

Em relação ao método de ensino remoto dos filhos, a mãe avalia que apesar de a distância, são aulas muito boas. “Os professores acompanham as atividades, exploram o conteúdo, conversam com as crianças, mantêm os intervalos para levantar e descansar a vista da tela. As aulas que me deixam de cabelo em pé são as de educação física. A casa vira de pernas para o ar”.

A profissional

No horário em que ministra suas aulas, Vanessa conta com o apoio do marido. É ele quem consegue manter as crianças em silêncio, aproveita o momento para dar banho e lanche. A professora tem uma placa de “mamãe em aula”, que deixa na porta e se fecha no quarto de estudos. Nessa hora eles sabem que a mãe está no trabalho, por isso, não interferem muito. Mas foi preciso orientá-los sobre a seriedade do silêncio durante esse período em que ela está com seus alunos. 

“Na hora dos intervalos,  eu abro a porta e todos entram como um furacão. Mãe eu quero pizza, mãe eu quero isso, mãe eu quero aquilo. Aí eu respondo que  daqui uma horinha ou duas a mamãe está fazendo tudo que vocês querem”.

Se surpreende quem pensa que o dia de Vanessa acaba depois de dar sua última aula. Ali, a noite na verdade está apenas no começo. Depois de colocarem as crianças na cama, ela e o marido separam as atividades das meninas e já preparam tudo para o dia seguinte.

“Como são crianças, nem sempre eles conseguem acompanhar e fazer tudo, sempre tem um para casa que passa despercebido. A gente tem que aproveitar para colocar tudo em ordem no sábado ou no domingo. Também é nos finais de semana que fazemos as leituras, treinamos as sílabas, as letras, a pontuação, a acentuação, e prepararmos as tarefas que segunda-feira”.

Diversão em casa

As aulas das crianças terminam por volta do meio-dia, e é a partir daí que inicia-se o momento de brincar. Os três filhos sempre se divertiram muito entre si. Em meio a pandemia e o isolamento social, Vanessa encontrou uma forma de driblar a falta de rotina com outros amigos e trouxe  novo membro para a família: o Flash, um cãozinho. “Flash é um cachorrinho lindo e sapeca, a hora de levá-lo para passear é um dos melhores momentos do dia, é uma algazarra”.

Flash, o amiguinho especial

Outro momento que a família também tira para descontrair é quando Vanessa tem provas para corrigir, ela reúne todos na mesa e é “hora da escola”, cada um faz sua tarefa e aproveitam para passar o tempo juntos. “Logicamente que uma coisinha ou outra sai da linha né. Se é uma tarefa que dava para fazer de manhã, ela gasta de manhã e  à tarde, mas aqui com saúde, fé, boa vontade, às vezes a polêmica a gente contorna”.

Os desafios da pandemia em família

Na rotina da mãe e professora existem dias mais difíceis, em que as tarefas não são concluídas e o cronograma não é cumprido, mas mesmo assim ela  garante que não se deixa abalar e que sua fé a faz acreditar sempre que tudo na vida é um aprendizado. Paciência, confiança e fé são suas palavras de ordem. 

“Daqui um tempo vamos poder parar, olhar para trás e espero que possamos agradecer por ter saúde, por ter o desafio vencido e ter crescido como ser humano, como família e estarmos mais fortes e mais preparados. Acredito que a pandemia me mudou como pessoa em muitos aspectos, principalmente em reconhecer os meus  limites e dos outros, entender que todos estamos sujeitos a problemas e ninguém está livre de mazelas. Assim, a fé aumenta e a gente aprende a confiar mais, confiar na vida, na proteção de Deus”.

Vanessa é uma mãe muito dedicada e grata a família que tem. No momento em que uma doença assola o mundo, ela enxergou a chance de ouro de se aproximar de seus filhos. Em meio a correria do dia a dia ela tenta dar atenção a cada um individualmente e educá-los da melhor forma possível. Ao estar diariamente presente, ela percebe as necessidades de cada um e entende a hora certa de interferir.

“Às vezes no momento em que você não pode intervir numa determinada situação, no momento exato do acontecimento, outra acontece e te dá a oportunidade de fazer uma abordagem mais madura. Nós somos muitos transparentes aqui em casa e fica mais fácil a percepção de como está cada um. Como eu via muito pouco meus filhos, apenas quando íamos para a aula, eu conversava muito com eles e explicava como é importante sermos sinceros e contarmos uns com os outros”, finaliza.

 

*Edição: Daniela Reis

0 862

Por Bianca Morais

Em comemoração ao mês das mães, o Contramão produziu uma série de matérias muito especiais e hoje é dia da história de Roberta e Brenda, mãe e filha que são inseparáveis e passaram por um processo de superação depois que uma delas descobriu o câncer. 

Brenda Ferraz Leal Lucas tem 24 anos e a mãe Roberta Ferraz Lucas, 47. Roberta engravidou muito jovem e foi mãe solo, por isso, criou vínculo bem próximo e intenso com a filha. A Brenda, segundo palavras da própria mãe, é uma garota com qualidades ímpares e o que mais admira nela é a força e a lealdade.

A relação das duas vai além da materna. “Trabalhamos juntas, estudamos juntas e saímos juntas. Eu sempre brinco com isto, estava difícil achar uma boa amiga, então eu fiz uma”, diz a mãe.

Brenda e Roberta – arquivo pessoal

Quando se formou no ensino médio, Brenda demorou cerca de um ano para decidir qual instituição de ensinoescolher. Roberta, como mãe e amiga, sempre aconselhou a filha escolher para sua vida o que ela realmente ama. E foi com os sábios conselhos dela que a jovem ingressou no curso de Direito no Centro Universitário Una.

“Escolhi a Una e com toda certeza foi uma das melhores escolhas da minha vida. Sou fã n°1 de todo o corpo docente e a maior prova é que levei o grande amor da minha vida para a faculdade”, explica Brenda.

Já se percebe que o termo “inseparáveis” para essa dupla não é uma mera forma de falar. Sim, no auge dos seus 43 anos, influenciada pela filha e mais disposta do que nunca, Roberta também resolveu ingressar no curso de Psicologia. “Sempre estudei muito sobre o assunto, nos livros, através de vídeos na internet, sou uma apaixonada por Freud. Foi quando minha filha me disse: vá buscar o seu diploma, duvido que alguém já estudou mais sobre Psicologia que você”.

E foi assim que a insistente Brenda conseguiu convencer a mãe a estudar na mesma instituição. 

“Minha filha é uma apaixonada pela Una, assim que entrou ficou fazendo a minha cabeça para entrar também. Falou tanto que resolvi ir ver, deixei claro que só faria se fosse psicologia, não tinha o curso. Por incrível que pareça dentro de 10 dias a Una lançou o curso. Óbvio que ela não iria perder a chance de me cobrar novamente, então entrei”. 

Não existe dúvidas que quando algo é para ser, assim será. E foi o destino que se encarregou de colocar mãe e filha nos mesmos corredores da faculdade com um propósito que apenas algum tempo depois elas entenderiam.

Arquivo pessoal

No quarto período da faculdade, Roberta foi diagnosticada com câncer de mama, um dos momentos mais difíceis de sua vida. “Meu mundo caiu, mas sou uma daquelas pessoas que não desiste nunca. Em vez de pensar: Por que eu?  Pensei: Por que não eu? Passada uma semana já estava pronta para encarar a batalha”, relembra.

Mãe é aquela que protege e cuida do seu filho. Que dá a vida por ele se necessário. Em determinadas situações, no entanto, a mãe passa por problemas na vida que não consegue tomar o controle da situação, e certamente elas não se sentem confortáveis com isso. 

Roberta contou à nossa reportagem que teve um dos piores tipos de câncer, o inflamatório e triplo negativo, o médico disse que apenas 30% sobreviviam, e o mais surpreendente é em nenhum momento seu maior medo foi a doença ou o tratamento, esse ela garante que conseguiu levar de forma tranquila, principalmente por fazer psicologia e acreditar muito no poder da mente. 

Na hora em que recebeu a notícia do câncer a sua maior preocupação era “Como iria morrer e deixar a Brenda? Esse foi o meu medo, deixar minha filha”.

Em um primeiro instante, a filha apenas tinha ido ao médico para acompanhar a mãe. “O primeiro médico falou que era apenas uma mastite, a gente iria aproveitar o dia para comprar um óculos. O médico vira e diz: “Tenho uma péssima notícia, é câncer”, relata Roberta.

Para Brenda, o momento da descoberta foi a pior dor que já sentiu na vida, no segundo ela entendeu que teria que ser a pessoa mais forte do mundo para estar ao lado da mãe. Roberta relata que a filha teve uma reação incrível e inimaginável. “Ela pegou o telefone e começou as ligações para marcar exames, desconheço alguém mais forte que Brenda”.

Existem horas na vida de um filho que ele se vê na responsabilidade de inverter o papel com a mãe ou o pai. Brenda é jovem, jamais havia cogitado que sua mãe, aquela mulher que lhe ensinou a ser forte e dona si, poderia ser vítima de uma doença tão triste, mas entendeu que precisava tomar o controle da situação e estar ali para quem sempre lutou por ela. “Naquele momento eu só não queria que ela sofresse. Tentei evitar tudo que pudesse machucá-la”.

Roberta e Brenda são carne e unha. Nas palavras de Brenda “é como se fosse uma parte de mim fora de mim. Só me sinto completa ao lado dela”. No decorrer de toda a trajetória do tratamento do câncer uma deu força a outra, as duas levavam os livros para as sessões de quimioterapia e estudavam juntas, a mãe passando mal nas aulas e a filha sempre nos corredores a apoiando. 

Roberta cogitou parar os estudos pois tinha medo de continuar à toa. “E se eu morresse? Mas logo mudei de ideia, eu iria viver, meus professores e amigos da Una foram fantásticos, os meus professores e os professores da Brenda. Tive total apoio”.

Arquivo Pessoal

Duas fortalezas, uma não deixou a outra desmoronar. Brenda estava no seu 5° período de Direito e carrega consigo o dever de ser inabalável. “Eu realmente precisava ser forte como a minha mãe para poder estar sempre apoiando. Nessa época, o mundo parou para mim, tudo girava em torno de ser forte e de protegê-la”. E a mãe, por mais que estivesse batalhando pela vida, jamais baixou a guarda, “Tive que me fazer forte para não a ver cair”.

A relação mãe e filha ganha uma dimensão fora do comum quando se trata dessas duas. A forma como uma nunca deixou a outra desistir e a importância do apoio da filha foi fundamental para que a mãe não perdesse as esperanças. “Não teria conseguido sem ela”, afirma Roberta.

Durante a rotina do tratamento, Roberta relata não ter tido muitos problemas. “Estudei, trabalhei de uma forma mais lenta, mas consegui fazer tudo. Brenda nunca arredou o pé de perto de mim”. Juntas as duas passaram por momentos de muita batalha, foi a filha que cortou os cabelos da mãe. “Foi um momento tenso, mas aproveitamos para fazer vários cortes”. Uma fortalecia a outra, e conseguiam enxergar mesmo nesse período tão puxado uma luz de possibilidades.

O momento da cura foi para as duas o mais marcante do caminho que traçaram juntas. “O dia que a médica, a nossa Dra. Fernandinha, disse que deu tudo certo, foi um dia mágico, um dos dias mais felizes da minha vida”, relembra Brenda.

Roberta sempre foi uma mulher de garra, e a positividade foi um dos elementos que a ajudou na luta contra o cancer. “Hoje eu tenho a certeza da morte, antes nem parava para imaginar isto. Tendo a certeza da morte, você vive mais. Quando a morte para de ser algo distante, você entende a necessidade do agora. Você aprende a curtir momentos simples, cafés, abraços. E toma consciência da finitude”. 

Para Roberta, a filha é seu maior orgulho. “Consegui deixar uma boa pessoa para o mundo, ela irá fazer a diferença”, orgulha-se a mãe.

Para Brenda, a mãe é sinônimo de vida, se orgulha da força e coragem que vê diariamente nela. “Eu sou eternamente grata a Deus por ter me escolhido para ser filha de uma mulher tão fantástica e excepcional. Nunca consegui expressar em palavras meu amor e admiração, mas espero poder demonstrar com gestos ao longo da minha vida. Todos vão dizer que tem a melhor mãe do mundo… Eu tenho a mãe, a irmã, a amiga, a conselheira, tudo isso na mesma pessoa”.

 

Edição: Daniela Reis

Por Bianca Morais

Se o amor já é difícil de descrever, amor de mãe é impossível. Amor de mãe não se explica, não se julga, não questiona. É um sentimento que nasce ainda na gestação, quando o filho é carregado no ventre, ou mesmo naquela expectativa da adoção. O amor de mãe é capaz de superar tudo,de enfrentar qualquer barreira para apoiar a cria. 

A partir do momento em que a mulher se torna uma mãe, ela cria planos para o futuro daquela criança, ela acompanha os primeiros passos, o vê entrar na escola, na faculdade, ela consegue idealizar seu futuro, imaginar situações e traçar objetivos. 

Mas, nem sempre o filho vai seguir ou corresponder aos projetos que a mãe idealizou. Alguns não vão cursar a faculdade, outros talvez não irão ter filhos, entretanto, o sentimento daquela que o criou não irá mudar, vai se adaptar às escolhas daquele jovem adulto que um dia ela carregou no colo. 

Agora, um dos maiores medos, senão o maior de uma mãe, é ver o filho sofrer. A dor e a frustração de um filho talvez seja o maior desencantamento de uma mãe. 

Hoje, em homenagem ao Dia das Mães, o Jornal Contramão traz a história de Karen de Oliveira Carvalho, 23 anos, e Marilene Oliveira Ferreira, 49. Um exemplo de amor, empatia e proteção. 

Karen é bissexual e se assumiu para a mãe. Descobrir que seu filho não é o que planejava pode ser frustrante, agora perceber que a sexualidade dele pode ser algo que vai interferir em sua segurança é desafiador.

O Brasil é um país intolerante em relação ao público LGBT’S. E nesse grupo tão marginalizado pela sociedade, é a figura materna que pode fazer a diferença. Aceitar, amar, compreender e acolher um filho pelo que ele realmente é, é muito importante para que ele tenha força para lutar todos os dias contra o preconceito. 

E foi exatamente o amor de Marilene que fez toda a diferença na vida de Karen. 

Karen é uma menina alegre, sempre foi. Para a mãe, Marilene, é uma garota de personalidade forte, estudiosa, vaidosa e que adora dançar. Karen tem uma capacidade incrível de animar qualquer ambiente e tenta fazer todas as pessoas ao seu redor se sentirem especiais e únicas.

A relação entre mãe e filha não poderia ser melhor. A mãe, sempre muito atenciosa com a garota, sabe exatamente o que ela sente, quando precisa conversar, às vezes até quando a Karen está confusa e perdida, é a mãe que lhe dá o norte.  

“É uma ótima relação, a Karen é uma filha muito carinhosa, tem um jeito de gatinho manhoso que acaba conquistando todo mundo”, conta Marilene.

Mãe e filha sempre foram muito próximas, é aquele sentimento natural que só quem tem conhece, porém apesar dessa proximidade, por anos Karen escondeu um segredo de sua mãe, não por medo, mas receio de que de alguma forma isso mudasse algo o relacionamento das duas. 

Karen, a mãe e os irmãos

Karen tem uma orientação sexual que não é considerada tradicional por boa parte da população. Ela é bissexual, se relaciona com homens ou mulheres. Sempre sofreu com o estigma de que a bissexualidade é promiscuidade. “Sou constantemente sexualizada por homens em geral. A bissexualidade muitas vezes é confundida com bagunça. Dizem que somos confusos, que é só uma fase. Que somos mais propensos a traição, a realização de fantasias, etc. Isso incomoda bastante e enche a paciência”, desabafa. 

Devido a  todo esse preconceito, Karen carregava com ela a insegurança em contar para a mãe a verdade sobre ser quem é. “Esperei até meus 22 anos e sei que não é fácil. Eu ainda estava com o receio que quase todos temos quando estamos pra sair do armário. É algo bem individual de cada um e não culpo quem não consegue, a pressão é bem grande quando ficamos sem apoio”, ressalta a estudante de Direito do Centro Universitário Una.

Além disso, ela já havia presenciado experiências ruins com amigos próximos e conhecidos e famílias preconceituosas. E mesmo que conhecesse o jeito e a personalidade da sua mãe, ainda se sentia apreensiva. Compartilhou primeiro com a irmã, que já desconfiava de suas escolhas. “Eu não me preocupava em me esconder dela porque sabia que me apoiaria de qualquer forma”, diz ela. Foi apenas quando se sentiu segura e confortável que resolveu compartilhar com outras pessoas próximas dela. 

“Ela contou na mesa do almoço “Mãe, eu sou viada! Gosto de garotos e garotas!” Todo mundo riu bastante e foi algo bem natural”, contou Marilene.

Se Karen pudesse prever o futuro e a reação da mãe após assumir sua sexualidade, com certeza, jamais sofrido para se libertar. “Pra mim, é algo natural, não faz diferença a sexualidade da minha filha. Tenho consciência que existe muito preconceito em relação à orientação sexual dela e sei que ela é boa em se defender”, relata a mãe.

Para Marilene, seu amor de mãe sempre vai falar mais alto e está acima de tudo. De acordo com ela, o que importa é ver sua filha bem, feliz. E quanto a opinião dos outros, eles que procurem o que fazer. “Não dou liberdade para ninguém falar da minha filha. Se algum dia alguém ousar em perguntar, eu mando cuidar da própria vida” completa.

Marilene é mãe, e para ela apoiar e amar o filho é dever de todas. Segundo ela, as barreiras de qualquer discriminação devem ser vencidas com o amor e não com a ignorância. Marilene estudou para entender a sexualidade da filha e o porquê dela ter demorado a ter coragem de se assumir. 

“A falta de apoio desestrutura os LGBT’s, e pode levar a insegurança, situação de rua, consumo de drogas, problemas psicológicos e a prostituição por falta de alternativas. Eu acho que pais que não apoiam seus filhos só contribuem para perpetuar o sofrimento deles, sua casa tem que ser o seu porto seguro, se a família não apóia, fica triste e complicado. O acolhimento evita a vulnerabilidade dos filhos”, explica. 

* Karen Carvalho participa do Projeto de Extensão Una-se contra a LGBTFOBIA.

 

**Edição: Daniela Reis

“Meu trabalho consiste em levar soluções eficientes às famílias, casas e as empresas, de forma em que haja mais qualidade de vida às pessoas”

Por Italo Charles

Organizar espaços e torná-los funcionais nem sempre é uma atividade fácil. Para muitas pessoas pode parecer uma tortura, mas para outras pode ser algo prazeroso e até mesmo  uma profissão.

Em meados da década de 1980, nos Estados Unidos, um grupo de amigas empreendedoras – Bewerly Clower, Stephanie Culp, Ann Gambrell, Maxine Ordesk  e Jeanne Short – se reuniram para oferecer serviços de organização na cidade de Los Angeles.

A partir de então, a prestação de serviços do grupo ganhou grandes proporções e em menos de três anos fundaram a National Association Productivity & Organizing, que atualmente conta com mais de 4 mil membros.

No Brasil, a atividade de organização se iniciou por volta dos anos 2000. Não há registros da primeira pessoa que começou a atuar nesse ramo de forma profissional no país. Mas sabe-se que a maioria começou auxiliando familiares e amigos.

Ao decorrer do tempo, os serviços prestados foram crescendo e em 2006 profissionais da área se juntaram para criar uma associação a fim de subsidiar e regulamentar a profissão, porém apenas em 2013 que de fato a Associação Nacional de Profissionais de Organização e Produtividade (Anpop) foi estabelecida.

Mas, ainda hoje existem rumores e desconhecimentos sobre a profissão  e atuação de Organizers no Brasil. Em entrevista ao Jornal Contramão, Karina Carneiro Elian Costa, personal há três anos e proprietária da Kaetrenos Organização, fala sobre a profissão e dá dicas de como deixar o home office mais organizado e eficiente.

 

Como você descobriu a área de atuação como “Personal Organizer”? 

A organização sempre foi um dom, um hobbie e uma ferramenta de organização dos próprios sentimentos e emoções (organizar algo ou algum ambiente, sempre foi para mim uma forma de me organizar internamente).

Mas, como nenhuma profissão se faz apenas com dom ou habilidades, comecei a ver a possibilidade de profissionalizar esse, até então hobbie, a partir do olhar de amigos próximos, familiares e posteriormente, alguns programas de canais fechados de TV.

Após pesquisas, descobri que a profissão já existia fora do Brasil há mais de 20 anos, mas aqui (Brasil) ainda não era conhecida e muito menos regularizada. Comecei então a ler a pouca literatura existente antes de me profissionalizar em um curso e, como pedagoga de formação, reconheço que é um mercado que exige muito conhecimento (de diversas naturezas).

E, claro, com um olhar empreendedor de natureza, esses conhecimentos foram aos poucos, ao encontro das necessidades das pessoas ao meu redor. Organizar a casa, organizar o espaço de trabalho, a agenda, entre outros.

Apesar de parecer uma novidade, a profissão de Personal Organizer surgiu na década de 1980 nos Estados Unidos,

 

Quais foram/são os maiores desafios? 

No início, confesso que o maior desafio era enxergar a atuação de organizer como profissão reconhecida e valorizada. A grande maioria da população brasileira não sabia o que era (o que ainda é uma realidade hoje) ou, achava que era um serviço supérfluo e destinado à Classe A.

O meu maior desafio hoje é apresentar o serviço de organização para todos os níveis sociais. Mostrar como a vida organizada (interna e externamente) traz inúmeros benefícios e, não necessariamente é preciso ter a casa mais bonita, decorada, os melhores organizadores e etc.

Hoje a profissão tem crescido bastante, mas ainda é preciso percorrer um longo caminho, sobretudo no que diz respeito a valorização de mercado.

Infelizmente, muitas pessoas ainda acham que é só ter o dom e acabam entrando no mercado sem qualificação, o que desvaloriza a profissão.

 

Como funciona a rotina de um profissional Personal? Há passos fundamentais a serem seguidos? 

Sim… Há alguns passos fundamentais na minha rotina de organizer.

O primeiro deles é ouvir o cliente: entender um pouquinho da sua rotina e quais as suas principais queixas em relação à organização atual do seu espaço. Também é  dar a oportunidade de conhecer melhor como funciona o trabalho, o portfólio e esclarecer as suas dúvidas, etc.

A partir daí, começamos o trabalho na visita técnica. É nessa visita, que pode ser presencial ou através de vídeo conferência e até mesmo por vídeos e fotos, que consigo entender a real necessidade do meu futuro cliente, qual a sua rotina, espaço e o que ele espera de mim. 

Uma Personal Organizer não organiza apenas closets, o serviço é amplo e pode ajudar em qualquer âmbito da vida de uma pessoa, desde a organização de documentos, mudanças, residências e empresas inteiras!

Nessa hora muita gente fica com vergonha, com medo do que a personal organizer vai pensar quando ver a bagunça. Mas, um profissional sério não tem olhos julgadores para o espaço. E pode acreditar que, com nosso olhar apurado, até a bagunça nos ajuda a entender o que não está funcionando ali e buscar soluções que tragam um resultado eficiente. Quanto mais soubermos sobre a rotina no espaço a ser organizado, melhor será o resultado da organização.

É o resultado desta etapa que vai me permitir criar o projeto com mais eficácia e esclarecer o que pode ser esperado do resultado da organização do seu espaço.

Essa é a próxima etapa: criar um projeto baseado no que foi conversado e visto do local, apresentando as soluções pensadas para aquele cliente especificamente. Ou seja: tudo é personalizado porque ninguém tem o mesmo espaço, a mesma quantidade de objetos, a mesma rotina.

No projeto, além das soluções, também envio o orçamento e a quantidade de tempo que será necessária para a transformação acontecer. Não existe uma tabela de preços. Cada profissional decide o seu preço e, em geral, leva em conta a sua experiência, os custos necessários para manter a sua estrutura, entre outras questões. Assim como em qualquer profissão.

Na maior parte dos projetos, também sou eu quem faz a compra dos produtos organizadores, previamente acordados com o cliente. O que também é opcional. Trabalho de uma forma que tento, ao máximo, otimizar e aproveitar tudo o que o cliente já possui. Mas, é claro que, na maior parte das vezes, como as pessoas não costumam investir tanto nisso ou não possuem conhecimento específico em organização, é necessário levar itens básicos que permitirão a “mágica” da organização acontecer.

Uma Personal Organizer também ajuda a cliente a se livrar de objetos que fazem mal emocionalmente para ela (e). Orientar e escutar é uma das rotinas cruciais na organização. 

Como o mercado e o público entendem a profissão e atuação dos profissionais? 

Quando comecei, esse era um grande mercado adormecido no Brasil, o da organização pessoal, residencial e corporativa. Não havia empresas, sites ou blogs que falassem tanto assim no assunto.

Porém, o mercado tem estado cada vez mais aberto e o tema organização e produtividade tem sido referência constante na mídia. Novas empresas, blogs e sites surgem a cada dia. Principalmente pelo fato de que, na pandemia, as pessoas passaram a conhecer melhor os seus lares, e assim, passaram a enxergar os “vilões” de um espaço e uma vida desorganizada. 

Os tempos modernos fazem com que o tempo fique mais curto e mais valioso. É nesse cenário que o trabalho de um Personal Organizer passa a ganhar um papel cada vez mais importante. A tendência é que as pessoas utilizem seu tempo com a sua família, com o lazer ou com o seu próprio desenvolvimento pessoal. 

Hoje, também cresce a compreensão da necessidade de se otimizar os espaços residenciais (mais praticidade e economia) e de trabalho (mais produtividade e menos stress) e, para alcançar tudo isso é necessário organizar, e é exatamente aí que entra o Personal Organizer, oferecendo serviços, orientação e soluções para uma vida mais organizada, e claro, com mais praticidade e produtividade.

Se ficarmos atentos, considerando que tudo evolui, assim como no mercado americano, que já tem quase 30 anos de desenvolvimento, iremos entender que há muito ainda por acontecer por aqui. Até o mercado do varejo está mais atento ao mercado da organização. Grandes lojas já contam com setores específicos para a venda de produtos desse segmento.

 

Acredito que exista um tabu em relação à profissão e que muitas pessoas acham que não é pra elas por ser “caro”, como mudar essa visão? 

Esse tipo de serviço foi por muito tempo e ainda é considerado para para uma classe mais provida de recursos financeiros. É aí que entra um dos meus diferenciais no mercado pois, a organização está para todos, e nos mais variados aspectos das nossas vidas.

Por muito tempo, a organização estava associada a um espaço planejado, decorado, estruturado e, principalmente, para quem tinha espaço. Com a mudança dos espaços residenciais para casas cada vez menores, as rotinas de trabalho e cada vez mais corridas das pessoas e com isso, a falta de tempo, a organização se faz necessária para todas as pessoas. Com ela, deixamos de perder tempo, multiplicamos o espaço que temos, alcançamos uma vida mais produtiva e temos mais prazer em nosso dia a dia. Bem estar é tudo!

 

O serviço de personal organizer não está condicionado somente a casas, certo? Em quais outros espaços ocorre essa atuação? 

Os clientes estão em todos os lugares e as necessidades de uma vida organizada se fazem em todas as áreas. Com os diversos cursos existentes no mercado hoje, já temos especialização para as diferentes demandas: residencial (que é o mais demandado), pré e pós mudanças, organização corporativa, organização baby e infantil, arquivos digitais, organização de fotos e documentos, organização de barcos, luto, malas/viagem.

Depende da segmentação que você fizer do seu negócio. Algumas organizadoras só dão consultoria. Outras, só organizam armários.

Com o crescimento do mercado, as organizadoras profissionais estão se especializando cada vez mais.

Durante esse período de pandemia em que as pessoas estão a maior parte do tempo em casa, trabalhando em casa, fica até difícil manter uma organização  e talvez, para além disso, dificulte o seu trabalho.  Como tem sido atuar nesse período, quais os desafios e, sobretudo, como as pessoas podem manter o espaço de casa e trabalho organizados? 

De fato, o período da pandemia trouxe um olhar extremamente diferenciado para os ares, adicionando esse ambiente fundamental nos dias de hoje: o home office.

Não é tão difícil assim criar esse ambiente de produtividade, mesmo para aqueles que não possuem um escritório em casa, ou seja, um espaço para ler, trabalhar, produzir…A importância de se manter um escritório em casa organizado vai além da questão estética, auxiliando também na concentração e aumentando a produtividade.

Como personal organizer, recebi muitas demandas de auxílio/consultoria, para organizar e até mesmo criar esses espaços nos lares. O maior desafio do momento, é estar auxiliando meus clientes presencialmente. Porém, com a tecnologia a nosso favor, tenho me re-inventado e criado atendimentos adaptados para trazer soluções ao meu público.

No exemplo do home office, é importante que esse espaço seja pensado de forma específica dentro de casa, através de local que não tenha tanto barulho, que sejam aproveitados ambientes com iluminação natural

Crie um local (casinha) para todos os objetos necessários para o trabalho (agendas, canetas, blocos, fios dos eletrônicos, papéis, livros…) 

Utilize mobília, tapetes e divisórias como painéis móveis para criar múltiplos espaços e aumentar a funcionalidade

Use acessórios organizadores como caixas e revisteiros para manter os itens guardados (nesse caso, para quem não tem gavetas disponíveis). Opte sempre pelos organizadores móveis

Mantenha a mesa limpa: quanto menos objetos espalhados, maior a sensação de limpeza e organização

 

Sua conta no Instagram é bem ativa, como surgiu a ideia de usar a Internet como complemento do seu trabalho? 

Acredito muito no poder da internet há algum tempo. Claro que hoje, além de importante, usar esse espaço é essencial. A melhor forma de ser visto e reconhecido, sem dúvida.

Como comecei na organização atuando como pedagoga empresarial, essa foi uma maneira de dizer às pessoas não próximas a mim que esse também seria o meu trabalho. Fez parte do processo de transição de carreira, me estabelecer como P.O e ser vista assim. 

Existe a possibilidade de prestar o serviço de personal organizer virtualmente? 

Claro!! E como dito anteriormente, após a pandemia, foi necessário me reinventar e deu super certo. Até mesmo para aquelas pessoas que achavam ser impossível contratar uma personal organizer, essa também foi uma solução. Hoje em dia, além da consultoria online, onde conheço virtualmente o espaço do cliente e apresento as melhores soluções, também faço a venda dos acessórios (atualmente estou desenvolvendo uma linha de produtos organizadores que já conta com colméias organizadoras, ganchos e planner), e material exclusivo ensinando as técnicas (dobras) em um ou dois encontros virtuais. A pessoa executa, mas todo o projeto é proposto por mim e acompanhado.

 

Conheça mais sobre o mundo da organização acessando o perfil de Instagram @kaentrenos.organizacao da Karina.

 

“Organizar é solucionar!!!

E todo mundo merece uma vida e um ambiente em ordem”  – Karina Carneiro

 

*A entrevista foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

0 937

*Por Bianca Morais

O nascimento de uma criança é um dos eventos mais importantes na vida de uma mulher, é o momento dela de se autoconhecer e empoderar-se, um poder e uma função que é somente dela. Dar a luz que deveria ser um ato humanizado e repleto de sentimentos, deixando a mulher como protagonista das suas dores e do seu corpo, porém nos últimos anos a história tem sido bem diferente.

O Brasil é um dos países com o maior número de partos cesáreas do mundo, eles chegam a 80%, enquanto o recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) é de até 15%. Esse índice grande sobre o número de cesarianas é consequência da falta de informação. Grande parte das mulheres não conhece ou não sabe dos benefícios de parir respeitando a vontade do seu corpo e a hora do bebê.  

Parto humanizado nada mais é do que um parto natural, sem tempo para acabar, momento que ilustra a ação literal da natureza humana com supervisão profissional e apoio emocional . Antigamente, cesáreas e hospitais não existiam como forma de uma mãe dar à luz a seu filho, o parto era realizado em casa, por parteiras, sem uso de anestesias ou intervenções cirúrgicas. Isso pode ser usado como um exemplo de que é possível sim trazer uma criança ao mundo sem toda aquela tensão do ambiente hospitalar.

O parto humanizado acolhe a grávida. A equipe médica está sempre atenta em explicar o que está acontecendo a ela, se ela quer, se aceita, se entende o que irão fazer e o porquê estão fazendo. Partos em hospitais muitas vezes são estereotipados, cercados por polêmicas envolvendo violência obstétrica, médicos que se dizem donos da razão e não escutam o lado da mulher, são equipes autoritárias que fazem procedimentos sem emergência, somente por pressa, como romper a bolsa para induzir um trabalho de parto. Muito também se ouve falar de casos de episiotomia, que é o corte do períneo (região localizada entre a vagina e o ânus) na hora do nascimento do bebê, uma técnica usada para aumentar a abertura vaginal a fim de evitar que a área perineal sofra uma laceração, sem necessidade, apenas para facilitar o procedimento e sem a autorização da paciente.

De acordo com a OMS, a data provável do parto é calculada para 40 semanas após o primeiro dia da última menstruação, porém nem sempre acontece dessa forma. Quando se humaniza o parto, respeitando a hora da mãe e do bebê, ele pode passar desse prazo pré-determinado, esperar, por exemplo, o momento em que o pulmão e o cérebro estão maduros. É importante ressaltar que cesáreas também podem ser humanizadas, o que torna um parto mais humano é a forma como ele é feito. E, sendo de forma natural, pode ser realizado até em casa, no hospital com suporte de uma banheira ou em casas especializadas, dependendo da forma que a mulher se sentir mais confortável e segura.

Um bom parto trás diversos benefícios, fisiologicamente a mulher fecha um ciclo hormonal para iniciar outro, a amamentação, sendo assim, o parto vaginal desprende hormônios que na cesária demoram a acontecer, facilita a descida do leite, ou seja, o parto humanizado colabora para a recuperação do corpo e traz segurança emocional.

Atualmente no Brasil, o procedimento humanizado já é bem conhecido e vem crescendo cada dia mais. A Obstetrícia é a ciência que estuda a reprodução humana, e dentro dela se formam três diferentes profissionais: O obstetriz, o obstetra e o enfermeiro obstetra. O médico obstetra se forma em medicina e o enfermeiro em enfermagem. O obstetriz é o profissional que conclui o ensino superior em Obstetrícia, a USP, é a única faculdade brasileira que oferece o curso, eles são profissionais preparados para acompanhar um pré-natal e também um parto, todos obstetrizes apresentam uma visão de humanização que aprendem já na faculdade e esse é um dos principais diferenciais entre os outros especialistas. 

Quando o assunto é parto humanizado, a maternidade Sofia Feldman situada em Belo Horizonte, é referência nacional e internacional. Reconhecida como berço da enfermagem obstétrica no Brasil, a  instituição é 100%  atendida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e oferece serviços de saúde da mulher, pediatria, saúde sexual reprodutiva e assistência social com projetos voltados às mães e ao recém-nascidos.

Dos partos realizados no lugar, cerca de 84% são normais e apenas 16% são cesáreas. Dos partos normais, 7% acontecem na água, cerca de 31% das mulheres recebem analgesia farmacológica para alívio da dor e apenas 1% tiveram episiotomia. O hospital conta com cinco suítes, sendo 3 com banheira, no centro do parto normal Helena Grego e mais cinco quartos, sendo 2 suítes com banheira na casa de parto normal David Capistrano. 

De acordo com Beatriz de Oliveira, 26 anos, atua no hospital desde 2018 como enfermeira obstétrica, a filosofia com que trabalham é de que a mulher é protagonista do seu momento, por isso, durante todo o processo explicam os métodos não farmacológicos e farmacológicos para alívio da dor, oferecendo apoio emocional, incentivando a deambulação, ingestão de líquidos e alimentos, e colocando profissionais disponíveis para tirar as dúvidas.

“Sempre recomendamos que a grávida ainda durante a gestação leia a caderneta da gestante, tire todas as dúvidas com o pré-natalista, conheçam a maternidade, e realize o plano de parto, colocando as coisas que desejam e que não desejam durante o trabalho de parto” conta a enfermeira.

O respeito pelo desejo da mãe

Larissa Godinho, 24 anos, teve seu parto na maternidade Sofia Feldman . A mãe de primeira viagem tinha apenas um desejo na sua gravidez: ter um parto humanizado para seu filho João Antônio.

Quando descobriu a gravidez, preocupada com a estética do seu corpo queria um parto normal, mas foi com o passar do tempo, os pré-natais e muita pesquisa que encontrou o parto humanizado e descobriu que aquilo não era mais apenas para sua beleza e sim pela saúde e bem estar de seu filho.

Durante sua gestação Larissa fez um plano de parto onde deixava claro que não queria nenhuma intervenção, ou seja, não queria anestesia nem ser medicada, queria que tudo fosse o mais natural possível no tempo de João. Sofia Feldman é hospital referência em parto humanizado, por isso, ela não teve dúvidas de onde escolher para ter esse momento tão importante de sua vida. A mãe chegou a conhecer o hospital antes do parto, participou do dia da gestante, e sabia que ali suas vontades seriam respeitadas.

“Sem sombras de dúvidas para mim é a melhor maternidade do SUS que existe, se eu tivesse mais três filhos, meus três filhos eu ganharia lá”.

Como escolheu o parto natural, não havia uma data certa para João Antônio vir ao mundo. Ao completar 39 semanas e 6 dias de gravidez, Larissa foi ao hospital para uma consulta de rotina, não imaginava que horas depois da visita ao médico sua bolsa estouraria e começaria então seu trabalho de parto. 

Larissa ficou em uma suíte, pois queria ter o parto na banheira, a única coisa que a relaxava era a água quente, e no Sofia existem vários banheiros justamente por isso. Em determinado momento ela pediu para a doula se retirar, pois estava muito nervosa e não queria ninguém desconhecido no quarto, ficando apenas sua irmã e o pai do bebê. Conforme queria, não recebeu nenhum tipo de anestesia, apenas um analgésico para poder descansar e comer.

“Foi assim, maravilhoso, porque assim que João nasceu eu fui a primeira pessoa a pegar nele, eu que coloquei ele no meu peito, a gente abaixou a luz para não ficar muito forte no rostinho dele. Minha irmã colocou uma música que eu sempre escutava na minha gravidez pra ele se sentir assim, em casa”.

Larissa teve um parto que considera perfeito, ela e o parceiro esperaram o cordão umbilical parar de pulsar para poder cortar, em momento algum houveram atitudes invasivas, respeitaram o seu tempo e o tempo do seu filho. 

A história dessa jovem mãe é emocionante, mas infelizmente não é a realidade da maioria das gestantes do Brasil. No país em que a tecnologia e ciência substituem a escolha e o respeito com o ser humano, é muito mais rápido e vantajoso se fazer uma cesariana. É mais rápido tirar um bebê em 15 minutos do que dar assistência em um parto natural que pode levar horas e não é lucrativo. Enquanto o parto continuar a ser um produto, o Brasil nunca deixará os números assustadores para trás. 

Uma mulher dando apoio a outra mulher

Em um parto humanizado a assistência é realizada por uma equipe multiprofissional que conta com enfermeiras obstétricas, médicos obstetras, doulas, entre outros.

Médicos e enfermeiras são nomes muito conhecidos na área da saúde, agora um nome que muitas vezes passa despercebido é o de Doula.

Doula vem do grego e significa “mulher que serve”, é a profissional que as gestantes procuram quando optam por um parto humanizado. Uma doula pode acompanhar o casal desde o início, os auxiliando com aulas e esclarecimentos, durante o parto ela fica ao lado da mãe, dando apoio físico e mental, ajudando com exercícios, respirações e após o nascimento a especialista também se dispõe a dar ensinamentos sobre a nova fase, quando o casal se torna uma família.

Adriana Vieira, 50 anos, se formou como doula e educadora perinatal em 2009, é brasileira e atua na Holanda.

Foi em uma viagem de férias, 15 anos atrás, que sua vida tomou um novo rumo que ela jamais esperaria. Ao ir fazer um curso de Yoga em Amsterdam, observou que na sala ao lado acontecia uma aula para casais grávidos, a cena deles aprendendo sobre respiração e posturas a emocionou. No intervalo foi procurar a professora e perguntar sobre o que ela fazia, em resposta a mulher respondeu que era “Instrutora de Yoga e Doula”

Na época, Adriana era jornalista, se interessou pelo assunto e pediu para fazer uma matéria sobre.

“Enquanto fazia eu pensava: Meu Deus, como ninguém fala disso no Brasil para nós mulheres? Por que não aprendemos a amar nossos corpos como são? Pois se geramos um bebê, somos perfeitas! Como nossos pais e médicos não nos incentivam a parir naturalmente, já que é o melhor pra mãe e pro bebê e é algo natural?”. 

Como já praticava yoga, a até então repórter, resolveu fazer uma pós-graduação em Yoga, onde aprendeu sobre a mente e seu poder sobre o corpo. No ano seguinte se especializou em yoga pré-natal. Sua intenção inicialmente não era mudar de profissão, mas de alguma maneira ela queria espalhar para mais mulheres o que havia aprendido.

“Comecei em 2006 dando aulas de yoga para gestantes, em 2009 fiz a formação de Doula e de Educadora Perinatal e tive minha primeira cliente como Doula nesse mesmo ano”, explica.

Para Adriana, o parto humanizado faz parte da luta das doulas a favor das mulheres terem escolhas e serem ouvidas em um momento tão marcante e importante de suas vidas. O parto deve ser algo marcado positivamente em sua vida e não como algo ruim e doloroso. “Mentir para gestante que o bebê está passando do tempo e que pode está em sofrimento para forçar uma cesária, obrigar a mulher a ficar sozinha em trabalho de parto, pressões psicológicas e físicas, como dizer que ela não vai aguentar invés de dar suporte” cita Adriana como exemplo de abusos a gestantes.

Na Holanda, onde atua na área, ela afirma que o sistema obstétrico é bem diferente do Brasil e muito mais humanizado. Quem acompanha o parto e faz o pré natal são as obstetrizes e a presença de uma doula é primordial. Os partos podem ser feitos na casa da gestante, nas casas de parto ou em hospitais. Todo o planejamento é fundamental para a mulher se sentir confortável, inclusive a equipe que irá participar de um momento tão íntimo.

“A gente precisa lembrar que parto é o resultado de um ato sexual e envolve sexualidade, nudez, gemidos, dor, amor, fluídos, homem, mulher, bebê, instinto, foco, concentração, detalhes que precisamos lembrar e para que isso aconteça tem que haver privacidade. Uma mulher em trabalho de parto fica nua, com dor e quer acolhimento, e não saber que tem gente estranha no quarto, entrando e saindo, isso atrapalha muito a entrega da mulher no trabalho de parto”, explica.

Com anos de trabalho, Adriana, afirma que um parto humano traz força para uma mulher ser mãe, um vínculo a mais para o casal e amor ao bebê que chega e deixa sua dica como doula “estude, obtenha informações antes de engravidar e veja o que é baseado em evidências, para que não seja enganada num momento tão especial e marcante de nossas vidas e da vida de quem ainda vai chegar”.

O parto humano durante séculos foi algo fisiológico, uma mulher dando a vida a um ser humano. Foi com o avanço da tecnologia que hospitais, antigamente conhecidos por serem lugares que recebiam pessoas doentes, passaram a ser o lugar onde aquelas mulheres dariam a luz. Mulheres que antes eram amparadas por outras, agora estavam nas mãos de médicos, entregando o controle para eles. Elas que antes eram as protagonistas de seu momento agora estavam entregues a padrões pré-determinados.

A mulher foi cada vez mais perdendo sua voz no parto, uma mulher deitada de pernas para cima é mais fácil para o médico realizar seu parto. Um evento natural passou a ser um evento cirúrgico, cercado por pessoas desconhecidas. O cordão umbilical, que conecta a mãe e o bebê, arrancado às pressas sem nenhuma compaixão. A cesária salva sim, diariamente, a vida de muitas mães e bebês mas ela não é a única opção, falar para uma mãe que ela não tem dilatação é não respeitar seu tempo, é preciso ter paciência e esperar acontecer, não submetê-la a um processo cirúrgico e invasivo por mera conveniência.

O sistema neonatal brasileiro está criando uma cultura de mulheres que se sentem incapazes de acreditar que podem ter seus filhos de forma fisiológica e natural, médicos sem tempo de dar atenção e carinho a mulheres que só querem ter o prazer de dar a luz ao seu filho com amor. É necessário rever o sistema de saúde brasileira e a cultura do parto, não dá para continuar a aumentar o número de mulheres infelizes consigo mesmas por não terem parido da maneira que desejavam. 

 

*Edição: Daniela Reis

0 564

*Por Bianca Morais

Quantas vezes você já andou de avião? E em quantas delas você viu uma mulher no comando? 

A resposta para ambas as questões provavelmente será poucas ou nenhuma. De acordo com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) no ano passado, enquanto no total foram expedidas 3183 licenças para pilotos homens, para mulheres foram apenas 207. Uma realidade assustadoramente desigual, colocando a profissão de piloto em um patamar quase totalmente masculino. Embora a diferença ainda seja muito grande, a realidade vem mudando ao longo dos anos. Por exemplo, entre 2015 a 2017, o número de mulheres com licença de pilotos privados de avião (PPR) saltou de 279 para 740, aumento de 165% nessa categoria. 

Quando falamos em papéis sociais, condicionamos indivíduos em determinados grupos de uma sociedade. Antigamente, a figura feminina estava relacionada a dona do lar. Porém, após muitas manifestações e batalhas, houve várias conquistas como o poder de voto, acesso à educação, ensino superior e a aclamada entrada no mercado de trabalho. A mulher enfim deixou um lugar que lhe havia designado e até hoje luta pela igualdade dos gêneros. 

Para se ter uma ideia, por anos não se usava a palavra “pilota” para se referir às mulheres que exerciam esse cargo, utilizava-se apenas o adjetivo “piloto”. Como por muito tempo os cargos eram fundamentalmente ocupados por homens, as mulheres não participavam dessa área e não eram nomeadas dentro dela, sendo invisíveis ali. Entretanto, com o aumento da inserção feminina se enxergou a necessidade da mudança. Nomear em feminino a profissão mostra a visibilidade que elas têm ganhado.

Quando se ingressa em uma profissão como a aviação, tanto mulheres quanto homens abrem mão de estarem próximos de parentes e amigos. Não existe uma rotina fixa, por isso são datas especiais, feriados e aniversários longe de casa. Agora, se já é complicado para um homem, imagine para uma mulher que carrega uma pressão social de ser mãe e que precisa deixar os filhos em casa. Ou da esposa que fica dias longe do marido, ou de simplesmente uma mulher independente que coloca seus planos profissionais acima daquilo que se espera dela. Aí surgem os comentários, as brincadeiras e cochichos dentro da família ou no ambiente corporativo.  

A liberdade de poder ingressar no mercado de trabalho foi dada à mulher há anos, porém a sociedade quer encaixá-las em empregos normativos, porque, por mais que não se assuma, grande parte das pessoas querem ver as mulheres crescendo, mas não aceitam que a  independência delas saia do “padrão”.

A maioria das profissionais no ramo da aviação se encontram na classe de comissárias de bordo, mulheres estereotipadas, maquiadas, arrumadas, bem vestidas. Um cargo como pilota muitas vezes é almejado, mas pela falta de incentivo e representatividade o sonho fica pelo caminho. É fato, que o valor dos cursos  são altos, mas se existissem mais encorajamento, com certeza, haveria mais inclusão, muitas ainda não sabem que também podem ocupar esse espaço.

É devagar que elas vão conquistando as alturas.

São poucas, mas elas existem.

Juliana Steck, 34 anos, trabalhou durante 10 anos como tripulante, hoje tem um canal no youtube e uma escola de cursos de aviação. Começou na área com 18 anos, fazendo o curso de comissária de bordo, e trabalhou no setor durante cinco anos em uma companhia brasileira. Seu próximo passo na carreira foi estudar para piloto, levou cinco anos para concluir. Quando terminou o mercado da aviação estava aquecido, por isso, conseguiu emprego fácil, voou durante dois anos em um ATR-600.

Em sua trajetória no comando de uma aeronave, Juliana admite que já vivenciou o machismo. Em um caso, ela conta que estava em aeroclube e o instrutor do lugar a indicou escolher o Cessna, um modelo de avião mais fácil, e disse que por ela ser mulher iria se adaptar melhor a ele. Juliana que nunca se deixou ser rebaixada em sua profissão, acabou fazendo todas suas horas no Paulistinha, que na teoria do instrutor, era o avião que mulheres não conseguiriam voar.

“Nunca me coloco no papel de vítima, sempre considero que o problema está no outro e não em mim. O que as pessoas pensam de você não muda quem você realmente é. Não me importo se alguém me considera inferior, eu sei das minhas capacidades e sigo em frente”.

Tem poucas mulheres, como você vai conseguir isso

Karla Cristina Martins, 32 anos, formada em Ciências Aeronáuticas atua na área da aviação há nove anos. Com a ajuda dos pais e abrindo mão de festas e viagens, a mineira conseguiu economizar dinheiro para sua formação. Se já não é fácil ser uma mulher no mundo da aviação, ser uma mulher negra requer muito mais força. “Lidar com preconceito é difícil, o olhar de desconfiança das pessoas, principalmente quando chega uma negra de black power no aeroporto” desabafa.

Mas nada disso nunca foi um empecilho na jornada da pilota. Com muita raça, foco e coragem, ela nunca desistiu de seu sonho. Hoje em dia, atua como freelancer e sempre escuta comentários cruéis, muitas vezes até dos próprios familiares, que duvidam de sua capacidade. Justificam seus argumentos em cima do fato dela ainda não ter entrado em uma companhia aérea, pois o curso não deu certo, que fez um curso que não tem nada a ver com ela.

“Questionam até como meus pais tiveram dinheiro para pagar meu curso, acham que por sermos negros e ter vindo da favela não podemos ter condição para nada”.

A verdade é que aviação não é um mercado fácil, existem aqueles que sonham com a pilotagem desde cedo e não tem condição, por isso, começam  em outra área da aviação, como a de comissário de bordo, juntam o dinheiro e ainda têm a possibilidade de crescimento dentro da própria empresa. Karla ainda é nova e tem muito a trilhar na sua carreira, e não é o que os outros pensam que ditará seu futuro.

Quando se é mulher na aviação, sempre vão duvidar de sua capacidade, encontrarão uma forma de tentar diminuir sua conquista, mas são essas pessoas de mente pequena que nunca, nem ao menos tentaram algo tão grande.

“Eu ainda estou viva, enquanto eu puder eu vou lutar para chegar lá, e sei que vou alcançar, não é fácil, mas a luta continua. O bom dessas pedras que recebi é que servem para construção dos degraus da minha vitória e da muralha para me fortalecer”.

Sexismo na aviação

Bethânia Porto Pinto Toledo, 44 anos, sempre quis ser uma pilota de avião. Com seus 13 anos de idade já ansiava fazer o curso, mas por conta da idade foi apenas com seus 17 que conseguiu começar a fazer a parte teórica. A jovem garota no auge dos seus 18 anos, enquanto muitos da mesma idade ainda estavam concluindo o ensino médio, ingressando em uma faculdade, Bethânia estava tirando sua primeira licença de piloto privado.

Com 25 anos na aviação, a comandante, hoje está a frente do Airbus A330 em uma das maiores companhias aéreas do Brasil, fazendo voos nacionais e internacionais. Inclusive, vale ressaltar que esse modelo de avião que ela pilota, dentro da companhia em que trabalha, somam-se no total duas únicas comandantes mulheres no meio de mais de 150 homens.

Dedicada, a pilota nunca se deixou abalar por comentários machistas vindo tanto da parte de outras mulheres quanto de homens, como “precisava ter homem nesse voo para ser mais seguro”, ou “eu acho que isso não é profissão de mulher”. Um episódio específico ficou muito marcado em sua vida, isso porque ele teve repercussão não apenas nacional como mundial.

Foi em 2012, que a comandante estava em seu local de trabalho e viu um passageiro em questão conversando com uma agente, ele fazia gestos apontando para a cabine. Depois de um tempo, a despachante foi falar com ela e disse que o passageiro alegava que não estava se sentindo à vontade em voar com uma mulher e que iria fazer uma reclamação com a empresa.

Bethânia, com todo seu profissionalismo, foi conversar com o rapaz. “Ele estava muito ofegante, meio descontrolado na verdade, falou que queria ter a opção de não voar com uma mulher” conta ela.

A comandante, preocupada com seus outros passageiros, afinal, se por eventualidade durante o voo acontecesse qualquer situação inesperada que deixasse o homem em pânico, ele poderia colocar um avião inteiro de pessoas assustadas. Falou a ele então que estava disponibilizando sua vaga no voo e ele iria em outro. Nesse momento ela pediu à comissária que fechasse a porta da cabine.

“O homem começou a fazer um show lá atrás, falou que ele estava sendo vítima de uma situação e que ele não descia nem sobre a presença da polícia. Foi nesse momento que tive que chamar a polícia federal para tirá-lo”.

Esse foi um fato marcante não apenas para Bethânia, como para o mundo. Os outros passageiros que estavam no voo registraram e foi questão de horas para ser noticiado em grandes jornais. Foi um episódio claro de sexismo, que é a atitude de descriminação por conta do sexo da pessoa.

Mulheres comandantes são raras, então foi uma das primeiras vezes que algo como isso aconteceu, houve grande repercussão. A pilota se sentiu exposta, ela como uma profissional não gostou de ver seu trabalho sendo tão evidenciado.

Ocorrências como essas, partem do controle de quem as sofre e se torna algo muito maior. Isso passou-se com Bethânia, mas poderia ter sido com qualquer outra mulher dentro da aviação. Precisou-se dessa notoriedade para mostrar que aconteceu e que está errado, para conscientizar as pessoas. Se ela está em um cargo tão alto é porque ela tem capacidade para estar ali, e é imprescindível o respeito.

Persistência é a alma do negócio, qualquer carreira que uma mulher for seguir ela terá dificuldades. “Mulher na aviação é ousada, corajosa e determinada, tem que ter muito jogo de cintura” afirma Bethânia, que é um dos exemplos fortes de que é possível sim alcançar seus objetivos e construir uma carreira incrível se você se esforçar muito e não desistir por conta de obstáculos que irá enfrentar.

Enquanto uma mulher pilota ainda tiver a exigência de usar uma gravata em seu uniforme, a batalha não está completamente vencida. E claro, o problema não é a gravata, e sim, o que ela demonstra, que as mulheres não são completamente bem vindas no meio onde os homens são a maioria, mas é com muita luta que um dia a igualdade virá. Mas continuem mulheres, apertem os cintos, pois a viagem é longa mas em breve chegaremos ao fim dela.

 

E assim elas vão ocupando espaço e uma frase da Cecília Meireles exemplifica muito bem:

“Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser”.

 

**Revisão: Italo Charles

***Edição e supervisão: Daniela Reis