Contramão HUB

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Por Lenilson Nascimento – Poligrafias – Contramão HUB

Sabe, não é nada pessoal. Não é nada, na verdade.

A questão é que não sei viver assim, e nunca vou saber.

Nunca fui avesso a mudanças, e não será você a pessoa capaz de mudar isso em mim. Ninguém será.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

Saber que amo mudar, que sou apaixonado por novidades. Você deveria estar preparada para este dia, o dia em que você se tornou rotina.

Não há nada que eu odeie mais, repetir me causa tédio.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

O problema é que você não sabe nada sobre mim, e nem teria como saber. Eu nunca te mostraria esse meu lado.

Na verdade, esse meu lado é quem sou. O ser por trás da máscara que você acreditava conhecer.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

O que me resta é fazer o que sei de melhor: mudar. Tornar-me novidade e me livrar das rotinas.

Desculpe-me, mas eu desisti de você.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

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Por Larissa Ohana – Parceira Contramão HUB

Duas, quase às três

As horas parecem correr

Coração continua a bater no ritmo do pensamento

Sentimentos que em mim moram

Libertam-se com facilidade

Pois já está tarde

Tarde talvez para dormir

Mas será tarde para acordar?

Quero abrir os olhos, mas já os sinto mais do que atentos

Então percebo

Devaneios

Sonhar sem precisar despertar

Acordada estou

Devia estar no mundo do inconsciente

Porém consciente estou de consciências da realidade

— pausa para respirar fundo —

Chega

Já pensei no mundo

Já pensei em mim

Já pensei nele, de novo

Ponto final para isto

Espaço

Preciso

Me pede

Dou

Tudo parece insuficiente

Tantos deles

Tantas pessoas envolvidas

E no fim

Me resta apenas eu à mim

Eu me tenho

Eu me amo

Satisfação

Tranquilidade

Olhos fechados

breu.

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Por Giovanna Silveira – Metrica Livre – Parceira Contramão HUB

Olhou por cima do ombro várias vezes, movimento involuntário dos que esperam demais. Não imaginava também chegar tão cedo, se de prévia julgava o motivo de estar ali, mas ficou.

Ninguém a um raio ilusório de vinte metros de distância, somente ele e a presença estática dos arbustos enfileirados, que de certa forma o faziam companhia. Bateu os pés, estralou os dedos, olhou o relógio e o celular, num movimento de marcha atlética contínua, e fazia um movimento com os lábios como se fosse assobiar, mas se havia algum som, saía em decibéis de ar reprimido.

Ouviu ruído abafado de passos rompendo as folhas ressecadas no chão, ergueu a postura e olhou em 6 direções diferentes… logo voltou a posição que mais lhe familiarizava, o aguardo.
E assim foram dez, vinte, trinta, quarenta e sete minutos de pequenos exercícios de paciência; e quando se cansou de todos os possíveis espectros de tempo que o cercavam, olhou o relógio. Fez como quem toma um longo ar para si, espiou uma última vez por sob os ombros, e enxergou que nunca houve um motivo para estar e esperar ali.

Pôs-se nos pés largos, de uma forma simples sorriu para ninguém e se foi. E em um perímetro imperceptível de alguns longos metros de distância, eu o observei, enquanto também esperava. Naquele dia por alguns instantes, o estranho do tempo e eu, divimos o espaço, o tempo e a espera.

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Por Marina Ravelli – Poligrafias – Parceiros Contramão HUB

Graças a Deus ou qualquer entidade religiosa que você respeite, a gente se encontrou. Nosso encontro foi por acaso, regado a muita conversa boa e uma música de fundo. A gente se acendeu de primeira, se encarando a distância e quando você se aproximou soube me abordar da forma correta para me fazer rir. A gente conversou, trocamos duas ou mais confidências e quando o silêncio se fez presente, nós nos beijamos. Não que eu seja uma romântica incurável que se atenta aos detalhes, mas foi nos detalhes que você me pegou no laço; as tatuagens no antebraço, o sorriso despretensioso e o modo como me puxou para perto, enlaçando os dedos nos meus. Eu estava mesmo convencida de que você era um bom galanteador, mas você era mais do que tudo isso. Bastou alguns dias e muita conversa para eu perceber.

As preferências gastronômicas, o interesse por assuntos místicos e lúdicos, assim como o gosto musical que sempre se pareceu com o meu me fizeram pensar que eu tinha encontrado o cara certo. Você ainda gostava de beber, de viajar, de longas conversas dentro do carro e não se incomodava com o fato da minha mente viajar volta e meia e zerar a cada conversa. A gente aprendeu a perceber os detalhes um do outro, e como vivíamos e funcionávamos nessa sociedade agressiva que estamos inseridos. Não houve um momento sequer que eu fiquei insegura de mergulhar nos teus olhos verdes, assim como você não hesitou em se jogar na arena que é conviver comigo. Repito e insisto em dizer que a gente se ascendeu de uma forma muito nossa, e muito linda. Tudo casou; o beijo, o clima, o sexo, os interesses. Faltava só a gente casar – e você insiste em dizer que não adianta eu fugir do óbvio, que a gente ainda casa. Eu prefiro fazer a despretensiosa, e não rendo caso. Faz parte do meu charme, você sabe.

Ainda há tanto a dizer sobre nosso encontro e nossos dias, e pela forma como nos reconhecemos de primeira. Quem diria que eu aprenderia a abrir espaço na minha vida para recepcionar alguém tão diferente e parecido comigo, da mesma forma como você também se assumiu surpreso como quis tanto se dedicar a alguém e aprender com ela. A relação segue ainda muito recente, nós ainda estamos aprendendo e evoluindo a cada situação e momento juntos. Você diz que apesar da carapaça de fechada e durona, eu sou uma gata que aprecia carinho. E você, apesar da pose de galante e pegador, não passa de um menino que quer um colo para chamar de seu. Deliberadamente a gente se encontrou e se acendeu. Que sorte a nossa, eu devo ressaltar.. que sorte a minha por enfim te encontrar.

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Por Giovanna Silveira – Metrica Livre – Parceira Contramão HUB

Quando conheci Antônio ele passou por mim correndo. Olhou de meia lua, mas não procurou se familiarizar. Eu não o conhecia, mal sabia seu nome; mas era uma daquelas pessoas que bastam uma vez de olhar, e você vai se lembrar toda vez que a vir.

Engraçado como as pessoas tem um “ar” próprio… carregados de CO2 como vidas carbônicas severinas que são, cada qual levam consigo um fôlego único, no jeito de andar ou em como erguem as sobrancelhas ao falar. Antônio tinha o seu, mas gostava do ar alheio.

Gostava de um jeito de se pôr a observar. Bem calado e bem atento… ver os lábios do falante se moverem, os braços dançando ao redor do corpo, os olhos inquietos completando os discursos; era disso que gostava.

Ah, e Antônio tinha um sorriso fácil, quase de graça por assim dizer. Me pergunto se alguma vez já esteve triste ao ponto de mascarar o canto da boca, mas desde que me lembro, seu rosto sempre teve um traçado côncavo a disposição. Não tem sido fácil lembrar de tudo, e do todo… especialmente quando se quer seguir uma direção contrária da história, aquela que nunca terminou, mas parou a 3/4 da metade.

Me ponho a crer na imprevisibilidade das pessoas, na constância e na brevidade delas. Assim, fica mais conveniente salvar ao toque da memória, aqueles que não foram somente terminações soltar de um córtex cerebral, mas foram aquelas sinapses para nos despertar do acaso.

Seu nome não é realmente Antônio, tampouco é semelhante. Não é referência interna de uma brincadeira juvenil ou alusão bibliográfica. Antônio é como aquele que me refiro, ausente de sentido mas presente de sua essência volátil.

Por Tiago Jamarino – Start – Parceiros Contramão HUB

 

Guillermo del Toro apresenta filme em cima de tema clássico, mas com uma trama original e com pitadas de sci-fi

 

A Forma da Água é o mais novo trabalho do cineasta mexicano Guilhermo del Toro, podendo se afirmar como uma bela história de amor, com bastante pitadas de ficção cientifica. Se analisarmos bem, este filme soaria bem com uma boa redenção para o cineasta. Aos fãs de Del Toro, assim como eu, tivemos uma amarga decepção com A Colina Escarlate (2015). Sempre esperamos mais de Del Toro, o diretor provou mais que nunca ser capas de nos impressionar com seu espetáculo visual e técnico. Quem não se espantou com a qualidade visual do fantástico mundo de Hellboy, com o surrealismo do mundo encantado que permeava o Fauno. Se a (duas) coisas no diretor que sempre andavam de mãos dadas, era, seu designer de produção e sua boa noção em se contar uma história, seja ela simples ou complexa. Nesse rumo que seu mais novo filme segue, um tema clássico como o amor, mas contada de uma forma bem simples e com elementos fantásticos.

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

Como de costume em obras de Del Toro este filme também se inicia com um voice-over, já causando no espectador o desconforto em saber se tal história é verídica ou um conto de fadas. Assim como no Labirintodo Fauno temos essa narrativa em off esmiuçando o conto, logo já vemos o potencial técnico do diretor, que faz sua câmera transitar em pequenos planos sequencias com pitadas de cortes bem escondidos. A apresentação da personagem principal já gera outro desconforto, Eliza é uma clássica princesa da Disney, a profissional da limpeza, desfavorecida socialmente, com uma vida pacata aguardando o elemento fantástico mudar sua vida. A genialidade do roteiro em usar esses elementos, é fantástico, até chegar ao final do filme muitos irão supor se Eliza é meramente uma personagem inventada por quem está contando a história.

A direção fica a cargo de Guilhermo del Toro, dos mais notórios filmes do cineasta temos, O Labirinto do Fauno (2006), Hellboy (2004), Blade 2 (2002) e Círculo de Fogo (2013). Como já mencionado acima, Del Toroé um diretor que mistura fantasia, ficção cientifica com temas clássicos, presenteando seus espectadores como belas criaturas e mundos magnificados. A cinematografia usa bem tons de verdes e cores bem escuras para dar um senso de perigo, angustia e tristeza, elementos claros de uma ficção científica com monstros. O designer de produção é a marca registrada de Del Toro, toda ambientação dos anos 60 está bem detalhado aqui. Apesar de em muitos momentos o filme ser bem escuro a uma iluminação pontual em cenas que precisam ser destacadas, algumas cenas que são espetaculares. As cenas que são feitas debaixo d’água mostram todo o potencial de uma fotografia que parece ser pintada a mão, fotografia ao qual somada com o excelente trabalho da trilha sonora, fazem com que o filme se pareça uma graphic novel digna de aplausos. Até o designer da criatura é meramente incrível, com uma roupa e uma maquiagem que demonstra uma sensação de realidade. 

O roteiro assinado por Del Toro e Vanessa Taylor tem uma difícil missão, fazer uma história de amor dar liga. Assim como a clássica história infantil, A Bela e a Fera, temos um potencial romance entre uma mulher e uma criatura. Mas não apenas isso, a várias pequenas histórias de pano de fundo acontecendo, o dia-a-dia de funcionários que trabalham na instalação do governo, o pano de fundo histórico da Guerra Fria e o tempo necessário para desenvolver alguns personagens, principalmente a interação com a criatura. O grande problema da narrativa é que o filme é bem previsível, em momento algum, o filme irá surpreender, toda sua condução vai ser entendido pelo espectador. A Forma da Água é um trabalho mais maduro do diretor, pegando o conceito básico de uma clássica história de amor nos introduzindo no fantástico, deixando uma trama mais séria e que em alguns momentos se torna assustadora, mediante a conduta de alguns dos seus personagens.

O elenco é muito bem escalado, tendo uma protagonista digna de todas as suas indicações a prêmios de cinema. Sally Hawkins faz o papel de uma mulher muda, a atriz dá um show à parte, sua personagem precisa se comunicar sem falar e isso é bem transmitido pela sua expressividade. Eliza é uma personagem doce, se preocupa com as pessoas, decidida quando quer e seu olhar transmite tudo em cena. A interação de Eliza com a criatura vivida por Doug Jones, que está habituado em fazer estes papeis, ambos precisam se comunicar sem falar, algo que soa realmente difícil, mas ambos se expressam com linguagens de sinais e muita linguagem corporal. O Michael Shannon com sua fisicalidade intimidadora é bem o personagem a ser odiado pelo espectador, desde o início do filme o roteiro já define bem isso, mas graças ao belo trabalho do ator seu personagem não ficou clichê. A Octavia Spencer está bem, mesmo tendo pouco o que fazer, em alguns momentos do filme ela é a voz de Eliza. O Michael Stuhlbarg bem como sempre nós oferecendo mais histórias de pano de fundo.

A Forma da Água, não alcança o patamar de obra-prima, contendo vários momentos em que o roteiro começa a usar artífices bem convenientes para fazer sua trama andar. Faltou a dupla de roteiristas um esmero a mais para dar desfechos mais sérios e fazer sua trama ser perfeita. Mas tirando todas essas ressalvas, A Forma da Água é uma linda história de amor, com elementos cinematográficos fantásticos, uma trilha sonora linda e mais uma criação de universo fantasioso maravilhoso.

 

4-Ótimo

 

 

 

FICHA TÉCNICA

 

A Forma da Água (The Shape of Water) — EUA, 2017
Direção:
 Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins,  Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg,  Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy
Duração: 119 min.