Coronavírus

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Os pontos extras facilitam a aplicação de vacinas e ajudam a evitar aglomerações

A Una é o primeiro Centro Universitário de Belo Horizonte a atuar como posto extra de vacinação para Covid-19. A partir de hoje, 25 de maio, de 7h30 às 16h, serão vacinadas pessoas de 18 a 59 anos com comorbidades, deficiência permanente cadastradas no benefício de prestação continuada (BPC), gestantes e puérperas.

Podem tomar a primeira dose aqueles que preencheram o cadastro no portal da Prefeitura até o dia 16 de maio.

Outras informações sobre a vacinação contra a covid-19 em Belo Horizonte estão disponíveis no portal da PBH.
Serviço:

Onde: Centro Universitário Una – Campus Guajajaras. Rua dos Guajajaras, 175, Centro, BH.
Quando: a partir de terça-feira, dia 25/03.
Horário: segunda à sexta, de 7h30 às 16h.

Para saver como chegar, clique aqui.

Mais detalhes, acesse o link.

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Por Bianca Morais

Há mais de um ano, o Coronavírus chegou ao Brasil e mudou completamente a rotina de milhões de pessoas. O isolamento social foi uma das primeiras medidas tomadas a fim de evitar a transmissão do vírus. Escolas e faculdades fecharam, empresas de serviços não essenciais passaram a adotar o home office como medida de manter os funcionários em casa e não os expor aos riscos. 

As relações passaram a ser online, a solidão tomou conta de muitos que moram sozinhos e o estresse daqueles que dividem a casa com seus familiares. As condições do trabalho remoto, a falta de limites entre profissional, vida pessoal e atividades domésticas somadas a uma maior carga horária e pressões diárias despertaram nos brasileiros, além de todos esses sentimentos, um quadro de ansiedade e depressão.

A covid-19 não contamina apenas os pulmões, mas também a saúde mental. No ano passado, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou uma pesquisa que mostrou que 80% da população brasileira se tornou mais ansiosa durante a pandemia. A ansiedade é algo comum entre todas as pessoas, ela funciona como um aviso de perigo e faz com que o corpo do sujeito se prepare para enfrentá-lo, no entanto, ela passa a ser um problema quando atrapalha o dia-a-dia de alguém e cria um sofrimento daí a necessidade de procurar ajuda de especialistas.

O Brasil sempre ocupou um lugar de destaque em relação ao número de indivíduos com ansiedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) 9,3% dos brasileiros apresentam algum transtorno de ansiedade, e com a pandemia esses números só crescem. O momento de incertezas e a constante angústia afeta diretamente o psicológico aumentando as crises.

Um dos mais relevantes sintomas de uma crise de ansiedade é também um dos mais conhecidos da covid, a falta de ar, por isso, principalmente no começo, a população se assustou muito. Além disso, essa inquietação também é responsável por dores de cabeça, tensão muscular, palpitações, suor excessivo, tontura, ondas de frio e calor, vontade de urinar constante, entre outras. 

A verdade é que esses sintomas são parecidos com os de várias outras doenças, desta forma ela se torna um tormento diário, afinal as pessoas evitam ao máximo ir a consultas médicas e hospitais, por medo de pegar a covid, preferem ficar em casa e sentir essa angústia que poderia ser facilmente resolvida de outras formas. 

A ansiedade está diretamente ligada a problemas da vida do indivíduo e muitos desses foram criados pela pandemia, as incertezas sobre o futuro, o medo de contrair a doença e passar a algum familiar, a falta de contato físico, tudo isso provoca diversas reações, como tristeza, cansaço, insônia, irritabilidade, aumento de peso, sistema imunológico fraco, alteração do sistema gastrointestinal, enfim, a doença é desencadeadora de muitas situações ruins.

Um fator relevante que espalhou o afligimento pelo país durante a pandemia foi a atual situação socioeconômica. Muitos empresários foram à falência por não poderem abrir seus estabelecimentos, milhares de trabalhadores perderam seus empregos. A população em geral passa por dificuldades financeiras e esse é um importante ponto que se torna gatilho a favor desse tormento. A incerteza do cidadão se terá ou não dinheiro para arcar com as contas do mês cria nele não apenas a ansiedade como até a depressão.

Nesse mês de março, o Brasil bateu recorde em mortes por conta da covid-19 e está no pico da doença. Minas está na fase roxa, ninguém pode sair de casa, temos toque de recolher e a aflição só aumenta. O mais indicado nessa situação é manter a calma, procurar ajuda com psicólogos, psiquiatras, terapeutas, profissionais da saúde mental. Outras maneiras, também, podem ajudar a enganar essa agonia e uma delas é a alimentação. 

A nutrição e a saúde mental

Uma boa alimentação em si já ajuda e muito na melhora da qualidade de vida. Entretanto, pesquisas recentes mostram que determinados alimentos podem ajudar a combater os indícios da ansiedade. Nutrientes ricos em vitaminas e aminoácidos têm a capacidade de melhorar o humor, tranquilizar e trazer mais disposição.

Quem tem uma alimentação que inclui muitas comidas calóricas, consequentemente, tem uma deficiência de nutrientes considerados bons ao funcionamento do corpo e principalmente do cérebro, como vitaminas, minerais, aminoácidos e ácidos graxos essenciais. Para um bom funcionamento do cérebro do ser humano, é preciso a energia que os alimentos nos proporcionam, estes últimos, são muito significativos porque têm efeitos antioxidantes, antinflamatórios e neuroprotetores que ajudam a combater sintomas do estresse.

Em 2015, um trabalho publicado na BMC Medicine, apresentou uma pesquisa feita por alguns cientistas que observaram que uma ingestão menor de alimentos com poucos nutrientes e uma maior quantidade de comidas pouco saudáveis se associa a um menor volume do hipocampo esquerdo. 

A psiquiatria nutricional é um novo plano de estudo relacionado a transtornos mentais, anormalidades metabólicas e doenças crônicas. As pesquisas são atuais e, tudo é muito novo, existe uma base sólida de evidências que afirmam que a qualidade da dieta dos indivíduos está relacionada ao risco de transtorno mentais comuns, e ainda há muito o que descobrir. A área vem crescendo e em alguns anos  poderemos identificar descobertas muito importantes nesse campo da ciência.

Estudos iniciais mostram uma relação entre a ansiedade e o consumo excessivo de alimentos com cafeína, açúcar e bebidas alcoólicas, a má hidratação e o hábito de fumar também estão relacionados. Em contrapartida, comidas que estimulam a produção de neurotransmissores tais quais a serotonina e melatonina, substâncias que ajudam no bom humor e qualidade de sono, são sempre super bem vindos. 

Boa alimentação contra a ansiedade

Alimentos não são remédios, mas muitos deles podem ajudar a controlar o início dessa aflição que tanto tem tomado conta da rotina das pessoas. 

Denise Alves Perez é nutricionista e professora do Centro Universitário Una. A especialista ajudou a elaborar algumas dicas de alimentos que podem diminuir os níveis de ansiedade em um momento tão delicado. Confira abaixo.

Dica 1 – Coma alimentos fonte de triptofano. O triptofano é um aminoácido que participa da formação da serotonina, um neurotransmissor que está associado a sensação de bem estar, e podendo assim, reduzir sua ansiedade. Aqui vão alguns desses alimentos: Ovos, leite, carne, soja, cereais, brócolis, couve-flor, berinjela, tomate, kiwi, ameixa, banana, nozes, peixes, frutos do mar e cacau.

Dica 2- Alimentos ricos em gorduras boas, vitamina C e Vitamina E, têm demonstrado serem excelentes aliados para combater os males da ansiedade em excesso. Alguns estudos mostram que o estresse causado por essa angústia resulta em uma maior liberação de radicais livres que podem prejudicar o funcionamento do nosso corpo! Então abuse dos alimentos a seguir: peixes, linhaça, chia, castanhas, nozes, laranja, goiaba, limão, acerola, vegetais verdes escuros.

Dica 3- Alimentos ricos em vitamina do complexo B também são excelentes para auxiliar e combater a ansiedade! As vitaminas B6, B9 (folato) e B12 auxiliam na formação da serotonina, que nem dito acima, um neurotransmissor que está associado a sensação de bem estar. Podemos encontrar essas vitaminas nos seguintes alimentos: feijão, vegetais de folhas verdes (espinafre, aspargo, brócolis, couve), abóbora, batata inglesa, cenoura, carne vermelha, carne de porco, abacate, laranja, maçã, milho, ovo, queijo e leite.

Além da alimentação, a prática de atividades físicas também são muito importantes, afinal para uma boa qualidade de vida é necessário corpo e mente saudáveis. 

E lembre-se, essa é uma fase passageira, mesmo distantes um do outro, ninguém está sozinho, é momento de empatia e acolhimento. A qualquer aparecimento de indícios de depressão ou ansiedade procure ajuda de um profissional da saúde. Ocupe sua mente, alimente-se bem e hidrate-se.

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Por Bianca Moraes

Nas últimas semanas trouxemos uma série de reportagens que abordavam os obstáculos que estudantes de todo o país têm enfrentado devido a pausa nas aulas presenciais e, sobretudo, o novo método de ensino remoto.

Além da dificuldade em de fato conseguir absorver tanto conteúdo através de uma tela, seja de celular, tablet ou computador, existe também a falta de troca entre os alunos e professores. O isolamento social passou a ser um grande causador de problemas ligados à saúde mental e as crises de ansiedade, pânico e  depressão são alguns dos exemplos do que essa pandemia acarreta.

Toda essa frustração por conta da quarentena, que já completa um ano, faz com que os alunos se sintam pressionados e tensos pela rotina monótona e o resultado disso é o estresse e os demais prejuízos que ele causa. A procura por profissionais especializados no bem-estar psicológico aumentou muito desde o começo do isolamento, aquela pessoa que jamais pensou fazer terapia ou aquela que sempre teve vontade mas não via a hora certa de começar encontraram no atendimento psicológico um conforto em tempos de medos e incertezas.

Sejam crianças, jovens ou adultos, a drástica mudança na rotina da educação, o alto nível de cobrança e até mesmo as dificuldades técnicas trazem um completo abalo no aluno que tem seu ensino comprometido.

Patrícia Barbosa, 44 anos, é Psicóloga e Neuropsicóloga. Atua há 18 anos na área e trabalha diariamente com pacientes de diferentes idades. Em entrevista ao Jornal Contramão, a especialista abordou algumas das principais temáticas relacionadas a essa didática do ensino online e a melhor maneira que os alunos, junto a pais e professores podem passar por essa fase. 

Qual diferença você percebe no comportamento das crianças que hoje vivem a rotina do ensino remoto?

A Escola é, sem sombra de dúvidas, um importante espaço de socialização e interação, e de uma forma muito brusca as crianças tiveram que se adaptar a um novo modelo de ensino, onde elas não estavam preparadas e nem tampouco os professores e os pais para essa nova modalidade.

No meu consultório chegam crianças e adolescentes inseguros, ansiosos e sempre fica nítido em seus discursos o tédio como sentimento mais recorrente. Os pais por sua vez, chegam “desesperados” por apoio e orientação sobre como agir neste momento tão delicado.

Sempre existiu discussões sobre crianças muito novas terem acesso a computador e celular. Qual sua opinião, como psicóloga, dessa nova forma de ensino que as colocam desde muito cedo na frente de uma tela para ter aula?

Ao meu ver, o uso excessivo de telas é muito prejudicial ao desenvolvimento como um todo das crianças e deixam marcas significativas, principalmente ao que se refere à parte psíquica-emocional. Como não temos outra saída neste momento em relação ao ensino, a não ser o remoto, oriento os pais a estarem interagindo com os filhos nos horários livres e não os deixando à mercê do uso exagerado de computadores, tablets e celulares.

Antes da pandemia, o celular e o computador eram instrumentos de lazer para as crianças (para jogos, vídeos, etc.). Hoje, esses aparelhos eletrônicos têm a função de “educar”. Como fazer com que as crianças e adolescentes consigam diferenciar a hora de brincar e a hora de estudar?

O problema maior que observo é exatamente esse, as crianças associavam computadores e celulares ao lazer, e o próprio lar como espaço de relaxamento e descanso. Trazer a sala de aula para dentro de casa é um desafio não tão fácil assim aos pais. Isto implica em diálogo, onde novas regras deverão ser estabelecidas e também a aquisição de uma nova rotina com horários e atividades que deverão ser cumpridas a fim de que se consiga aproveitar ao máximo essa nova modalidade de ensino. Não há dúvidas que a disciplina será uma ferramenta essencial ao ensino, o conduzindo de maneira eficiente.

Existem dois tipos de crianças, aquelas as quais conseguem aprender com mais facilidade e as que apresentam um déficit e precisam de uma ajuda a mais na escola. Como você enxerga a recente situação dessas crianças que não conseguem mais ter o apoio psicopedagogo tão presente como antes?

As crianças que apresentam algum déficit ou transtorno relacionado à aprendizagem, inevitavelmente, terão uma maior dificuldade com o ensino remoto. Estas deverão ser acompanhadas mais de perto pelos pais, verificando sempre se os filhos estão conseguindo acompanhar todo o processo escolar. Para essas crianças ou adolescentes, os pais devem apropriar um espaço bem organizado, sem distrações, para que este momento não seja tão difícil. Quem tem condições eu sugiro a contratação de um Pedagogo particular que ajudará muito a criança a se direcionar sem causar muita tensão e ansiedade a mesma.

Como os pais podem orientar e acompanhar o ensino remoto dos filhos?

Como disse anteriormente, a prática do diálogo e compartilhamento de responsabilidades devem ser bem definidos. Uma nova dinâmica deverá ser estabelecida e os pais deverão sempre checar se as atividades e os trabalhos estão sendo entregues. Este momento que estamos vivendo irá exigir mais dos pais nesse sentido. Mas se todos da família estiverem dispostos a colaborar este processo poderá ser enfrentado de uma maneira mais fácil e tranquila para todos.

Para os adolescentes que enfrentam o ensino médio online, você acha que eles demonstram uma dificuldade maior para escolher qual curso irão fazer na faculdade? Se sim, por que?

Esta decisão fora de um confinamento já é delicada para um adolescente. Ele se sente pressionado a escolher uma profissão tão precocemente que irá definir toda a sua vida. Nos processos de Orientação Profissional que faço, percebo neles muita indecisão e angústia quanto a essa escolha. Na pandemia todos os sentimentos se intensificam. Eles relatam que não estão aprendendo comparado ao ensino presencial. Além disso, estamos vivendo um momento econômico com muita instabilidade não só no Brasil, mas no mundo. Juntando todas essas variáveis e o momento da fase que é a adolescência, eles demonstram sim uma maior dificuldade.

Quais métodos podem ajudar no exercício de concentração e desempenho durante as aulas online?

A criança deverá estudar em um ambiente bem organizado para o estudo sem muitas distrações. Um local sem muitos barulhos e o trânsito grande de pessoas que podem atrapalhar o foco, seria o mais adequado. Uma rotina de obrigações e horários que ela deverá cumprir ajuda e direciona melhor a criança, onde ela se sentirá mais segura. Conversar com ela sobre o momento da aula remota ser tão sério como era presencialmente e mostrar a criança o seu apoio, que você estará ali para acompanhá-la e ajudá-la neste processo, fará com que ela se sinta mais confiante.

Um momento do dia ou alguns dias da semana onde a família possa se reunir e interagir, é bastante propício nesse momento. Uma boa dica são os jogos pedagógicos (os de tabuleiro são uma boa opção), porque além de divertir e aproximar todos os membros da família, trabalha o raciocínio, atenção e o foco.

A atividade física é essencial neste momento, pois promove a produção de hormônios que geram o bem estar, facilitando a concentração, além de práticas de relaxamento e meditação.

Já é complicado ter atenção dos alunos presencialmente, online é ainda mais. De qual forma você acha que os professores devem se preparar para dar esse tipo de aula?

Utilizando-se de instrumentos que irão chamar a atenção dos alunos, para que não fique algo tão maçante e monótono. É claro que nesta modalidade de ensino remoto o professor deverá utilizar muito mais da sua criatividade. Vale a pena utilizar muito mais de todos os recursos disponíveis, como efeitos audiovisuais, vídeos mais curtos e interessantes para incentivar a participação dos alunos. Apostar também em adereços bem coloridos, músicas e objetos para representar e associar aos conteúdos de cada disciplina.

Crianças menores costumam ter o primeiro contato com outras no primário. De qual forma você avalia essa falta de troca entre elas? Acredita que isso possa prejudicar alguma relação no futuro?

O contato com outras crianças é indiscutivelmente muito importante no processo de socialização e aprendizagem. Saímos do espaço sólido a que estamos acostumados, para experimentações dentro do espaço virtual. A grande vantagem das crianças é que elas são muito capazes, bem mais que os adultos, a se adaptarem a novas situações. Nós adultos devemos fazer o possível para que esse momento seja a elas e a nós vivido de uma forma mais tranquila. Temos que usar a criatividade através de brincadeiras que podem ser feitas em casa mesmo, promover a interação entre as crianças com os amiguinhos e parentes próximos virtualmente. Esta ação já minimiza os danos causados pelo distanciamento social, e podemos sair disso muito mais unidos e fortes com toda certeza.

Ainda sobre relações interpessoais, você acha que esse isolamento social pode atrapalhar a saúde mental dessas crianças, jovens e adultos?

Se soubermos ajudá-los neste momento, os impactos futuros ao meu ver não serão tão intensos. A criança precisa ser bem orientada e com limites bem claros e definidos, até mesmo para se desenvolver bem psiquicamente. Estamos com uma oportunidade de reinventarmos nossas relações, de fortalecer nossos vínculos. Talvez tenhamos uma geração mais disposta a valorizar os contatos reais e os espaços de integração social. Acredito sim, em uma geração com mais consciência social, empatia e respeito ao próximo.

Como os pais devem agir com as crianças que estão sofrendo com ansiedade neste momento?

Não cobrar demais da criança e levar em conta que esta modalidade de ensino exige muito mais dela. Com muito apoio e transmitindo segurança é fundamental. Conversar com elas que este momento é temporário e que vai passar. Como disse anteriormente, atividade física, relaxamento e meditação podem ser ótimos aliados também. Se os pais perceberem que a criança está sofrendo muito com a situação, o ideal é procurar a ajuda de um profissional capacitado que possa ajudá-la.

O que fazer para amenizar a situação de angústia e sentimento de incapacidade que os estudantes estão sentindo nesse atual momento?

A prática do diálogo e compartilhamento de responsabilidades entre as instituições de ensino e a família também é uma ferramenta muito eficaz para enfrentarmos juntos esse momento o qual estamos vivendo. Escola e família devem caminhar juntas, uma complementando a outra, potencializando assim a aprendizagem. O vínculo e o respeito ajudará muito nesse processo de aprendizagem. Devemos juntos centrar os esforços em estratégias de reflexão que não tem o foco só nos resultados. Dessa maneira estaremos amenizando muito o sentimento de angústia e incapacidade dos estudantes.

 

*Revisão: Italo Charles

**Edição: Daniela Reis

 

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Alunos do ensino médio e universitários sofrem com a falta de aulas presenciais e práticas de estudos

*Por Bianca Morais

Na semana passada trouxemos o relato de Nathália Fernandes, professora do ensino fundamental, e de Joyce Mariano, mãe do pequeno Bernardo, estudante do 2°ano do fundamental. Através da reportagem foi possível reconhecer como tem sido difícil a educação infantil através da internet.

No Brasil, de fato, foi a primeira vez que nos deparamos com crianças tendo aula online, porém muitos jovens e adultos já eram adeptos a esse método, conhecido como EAD – Ensino à Distância. O EAD sempre foi uma excelente solução para quem não tinha tempo de frequentar as aulas presenciais. E com o tempo, muitas instituições que antes eram predominantemente presenciais, passaram a aderir às aulas híbridas, uma mescla entre online e presencial, isso acontece com muitos cursos que possuem aula teórica e prática, por exemplo.

Com a pandemia, não houveram escolhas e o ensino obrigatoriamente se tornou remoto. No entanto, muitos jovens acabaram se frustrando com esse novo método. A falta de socialização com os colegas, o fato de não poder frequentar laboratórios para disciplinas práticas, não ter o professor presencialmente para tirar dúvidas e por aí vai, são inúmeras insatisfações e incertezas. 

O crescimento profissional

Micheli Cristiane dos Reis Lana, 47 anos, atua como técnica em contabilidade. Micheli iniciou seu curso de Ciências Contábeis em 2016, no Centro Universitário Una, e se formou no ano passado. Por opção, escolheu um curso EAD, para não ficar longe dos filhos, na época com 6 e 13 anos. 

A profissional se formou no técnico em 1990 e trabalhou durante 25 anos em uma construtora e foi responsável pela contabilidade do lugar, mas em 2015 a empresa fechou e ela foi demitida. Ao procurar por um novo emprego percebeu que mesmo com a experiência que tinha o mercado demandava um curso superior. Então, Micheli se deu conta que para conquistar novas oportunidades e crescer no mercado de trabalho deveria voltar a estudar.

Quando o assunto é ensino online, é fato que ele não pode ser comparado ao presencial, afinal são duas metodologias diferentes. Dentro de uma sala de aula existe a constante troca de conhecimento entre aluno e educador, esse talvez seja um dos pontos em que o online mais perde.

“Não tive a oportunidade de ter um professor para tirar as minhas dúvidas no momento em que estava estudando. Em muitos casos, tive que me virar para entender a matéria. Após um dia cansativo de trabalho, nem sempre estava com disposição para estudar” desabafa a técnica.

O aluno que escolhe um curso online, com certeza, tem um elemento a mais em sua trajetória, a dedicação. Não é fácil enfrentar, por exemplo, a falta de suporte, apesar disso quando se tem um objetivo vale a pena. Micheli garante que se tivesse a chance de escolher entre fazer uma graduação presencial ou online, mesmo com as considerações, ela encararia o online novamente.

“Quando era mais nova tive oportunidade de fazer a graduação presencial e não tive interesse. Foi através da online que me senti estimulada. É um desafio enorme, mas com disciplina consegui formar”.

A prática prejudicada pelo online

Há aqueles que não escolheram o ensino online, mas que acabaram sendo inseridos nessa nova realidade forçada. É o caso dos estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A UFMG foi uma das que mais sofreu devido ao coronavírus. Diferente de instituições particulares, a universidade pública não conseguiu continuar as aulas após a suspensão do presencial, no dia 18 de março, do ano passado. Os universitários ficaram cinco meses sem aula, perderam o semestre que voltou de forma remota apenas no mês de agosto.

Gabriela Guimarães, 23 anos, é aluna de fisioterapia na instituição. O curso escolhido pela jovem é totalmente presencial. A fisioterapia forma profissionais capazes de atuar na prevenção e na reabilitação da capacidade física e funcional das pessoas, com isso, as aulas práticas são o ponto forte de sua educação e se encontram completamente defasadas.

O fisioterapeuta precisa de muito treino para aprender, e sem dúvidas em cursos como esses, os alunos sentem na pele a falta dos laboratórios. “A fisioterapia exige um contato muito próximo com o paciente, para tratar dele eu preciso saber algumas técnicas manuais, onde pegar, de que forma fazer os exercícios” conta a universitária.

Além disso, a falta do educador ao lado também é uma preocupação. “Não ter alguém para falar se estou fazendo certo, errado, se a quantidade de força que estou usando é suficiente ou não é bem ruim” desabafa a jovem.

Por um lado, se esses alunos da área da saúde sofrem com o ensino a distância, os professores e coordenação se mostram dispostos a tentar diminuir essa defasagem. Os educadores elaboram aulas bem explicativas, utilizam diversos recursos de vídeos e monitorias.

“Eles estão mais abertos a nos ouvir e tirar nossas dúvidas, eles fazem alguns vídeos de práticas também para que a gente consiga acompanhá-los da forma correta”, explica Gabriela.

A tolerância com prazos é outro ponto positivo que a universitária enxerga nesse momento, até porque, segundo ela, o número de atividades aumentou bastante e sua turma têm experimentado uma vivência do ensino online que demanda muita disciplina e esforço.

A cobrança do ensino online

Muito se engana quem acha que pelo fato dos alunos estarem em casa, a vida deles é mais fácil. Ao contrário, o ensino online vem sendo sinônimo de muita cobrança e sobrecarga em cima de grande parte dos estudantes.

Kamilla Antunes, 21 anos, cursa psicologia na PUC-MINAS. Segundo a jovem, estar em casa passa a impressão de que o tempo investido não é válido, em virtude da comodidade apresentada. O fato de poder escolher em qual ambiente da casa quer assistir a aula, ou até mesmo o “fazer lanchinhos” durante ela, não significa que não exista esforço ali.

“Tanto por parte dos familiares, quanto dos professores, já tive essa sensação. Os familiares que agora com mais frequência soltam o famoso, “ah, mas você só está estudando?”, como os professores, que associam o tempo em casa com maior tempo para fazer as coisas da faculdade, passando mais trabalhos e exigindo cada vez mais” desabafa a jovem.

É de comum acordo entre os estudantes, que independente das horas de aulas serem as mesmas, o aproveitamento e rendimento não são. Por mais que no começo os educadores tenham se esforçado ao máximo para se dedicarem às plataformas e ao ensino, com o tempo é possível ver um desânimo sobre suas performances.

“Me sinto prejudicada, não consigo captar tudo através da tela. Na psicologia nosso objeto de estudo é o ser humano, e essa falta de contato com práticas, mesmo com os professores me deixam insegura“, confessa.

As instituições de ensino superior, sempre graduaram alunos através do EAD, e isso não os tornaram trabalhadores menos competentes, o que faz um profissional não é apenas a faculdade, é a própria pessoa. No entanto, pela primeira vez é possível ver determinados cursos, antes com matérias específicas as quais deveriam ser feitas de forma presencial, sendo onlines, cresce, dessa forma, na cabeça do aprendiz a dúvida se ele realmente será capaz.

A faculdade de Kamilla, fez adaptações das práticas do curso, introduziu atendimentos e supervisões para o formato online, fizeram parcerias com algumas instituições e centros de ensino para articular palestras feitas pelos alunos, com o intuito de contribuir e amparar outros que passam dificuldades neste período de adequação.

As instituições de nível superior, as quais oferecem a psicologia em sua grade, sempre buscou prestar serviços à comunidade. Grande parte dos universitários da área, sonham desde que ingressaram na faculdade com esse atendimento, lidar diretamente com as pessoas, ajudar o próximo, isso se quebrou muito durante a pandemia.

Muitas vezes, o online não alcança a todos, muitas das pessoas, principalmente essa camada da sociedade a qual não tem condição, também não possui acesso a internet, o que dificulta bastante. O cenário de incertezas continua e esses estudantes da área da saúde enfrentam diariamente uma dura realidade. 

O esforço de quem ainda sonha com o ensino superior

Para quem ainda está no ensino médio, um dos momentos mais esperados, sem dúvidas, é o famoso terceirão. Ano de conclusão de uma jornada, de se despedir dos amigos, dos professores e de todo ambiente acolhedor que é uma escola. O terceiro ano é de transição, além de todo esse clima de nostalgia, existe também a pressão dos estudos, afinal, é a hora de fazer o Enem, prestar vestibular e tomar a grande decisão do que o jovem será para o resto de sua vida: escolher que profissão seguir. 

Marcela Castro Rincon, tem 18 anos, e concluiu o ensino médio no conflituoso 2020. No começo, era um afastamento de 7 dias, que se tornou 15 e finalmente se deu em tempo indeterminado. A implementação das aulas online na escola particular de Marcela, não aconteceu de forma imediata, pois os professores precisaram passar por um curso a fim de aprofundar seus conhecimentos sobre o funcionamento da nova plataforma de ensino na internet.

Com o recomeço das aulas, o que já era esperado por muitos aconteceu, o rendimento caiu muito. “O abismo entre o rendimento de um aluno no sistema presencial e no remoto é gigantesco”, conta Marcela. O ato de ficar sentado em frente a um computador por horas e tentar manter a concentração é impossível, já era difícil dentro de sala com toda a dinâmica e atmosfera criada pelos educadores, isolado em casa, ficou bem pior.

Todos que já cursaram colegial sabem que o volume de matérias a serem estudadas é enorme, enquanto no superior, o estudante está apenas dentro de uma área e a carga horária é bem menor, no médio, os adolescentes ainda aprendem todas as áreas juntas, as linguagens, exatas, humanas, e ciências da natureza. Para além disso, ainda sofrem o aperto dos vestibulares.

No começo das aulas, Marcela relata que os professores tentaram aliviar o impacto do novo método, as atividades avaliativas e simulados foram suspensos, tudo isso sendo pensado para que os jovens tivessem uma melhor adaptação. Slides explicativos, “quizzes”, os educadores buscaram a melhor maneira de manter os jovens acolhidos.

Com o passar do tempo, as avaliações voltaram, e com elas toda a pressão psicológica. Como se não bastasse o isolamento social, reajuste do aprendizado, distância dos amigos e escola, agora eles seriam cobrados por isso. Marcela descreve que sofreu muito em todo esse processo, passou por crises de ansiedade e teve a saúde mental diretamente prejudicada pela intimidação dessas cobranças.

Além de todas as dificuldades enfrentadas durante a jornada de conhecimento, um dos pontos que mais atingiu Marcela e outros adolescentes foi a falta de contato direto com os educadores. Eles, que são uma das maiores inspirações para os estudantes, principalmente sobre qual área seguir, acabaram tendo essa troca quebrada no momento de isolamento.

“Apesar de ainda vivermos um sistema de ensino monótono, arcaico e tradicional, a relação entre professor e aluno tem sido aprofundada, não é mais apenas uma relação de autoridade e submissão. Os professores não têm mais somente um papel de transferência de conteúdo, de explicação de matéria, eles ajudam no nosso desenvolvimento pessoal, contribuindo para a nossa formação não apenas profissional, como nossa formação humana. As conversas, os puxões de orelha, o apoio que a gente tinha deles em qualquer momento, fez uma falta que ninguém consegue explicar” desabafa a jovem.

Marcela foi uma dos milhares de alunos que sofreram com o ensino remoto em plena pandemia. A jovem reconhece a sorte que teve de estudar em um colégio particular, ter acesso a um computador e internet para acompanhar as aulas, o que não foi a realidade de muitos. Estudantes de classe baixa, matriculados na rede pública de educação resistiram muito mais, as aulas de forma remota não voltaram na mesma rapidez que no privado e também não tiverem o mesmo suporte, mas na hora de serem cobrados pelos vestibulares e pelo Enem, foram avaliados da mesma forma.

O sistema de ensino no Brasil precisa ser seriamente repensado após esse período de pandemia, quando a realidade “voltar ao novo normal”. Seja no primário, no médio ou no superior, os estudantes vêm sendo prejudicados sim, pela falta de apoio, por mais que uma instituição tente os ajudar das melhores maneiras possíveis e incomparável o vácuo de conhecimento que está acontecendo.

 

**Revisão: Italo Charles

***Edição: Daniela Reis

 

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Educadores e pais se reinventam para dar suporte às crianças nesse modelo de ensino remoto

*Por Bianca Morais

A realidade do ensino online já existe há anos, o famoso EAD (Ensino a Distância), sempre foi bem funcional principalmente para o público adulto. Cursos superiores muitas vezes eram procurados por pessoas, que sem muito tempo para frequentar uma aula presencial, optaram por realizá-la no computador.

Atualmente grande parte dos estudantes, crianças, adolescentes e adultos, do país se encontram em uma realidade forçada, tendo essas aulas de forma remota como alternativa para as cidades onde as escolas e faculdades permanecem fechadas devido à pandemia do coronavírus.

Se muitas vezes já era difícil o ensino online para adultos, que de certa forma conseguem manter o foco, imagine para as crianças?

A partir de hoje e nas próximas quartas-feiras o Jornal Contramão irá trazer uma série de reportagens sobre como esse ensino virtual está sendo visto pelos principais envolvidos na cadeia da educação.

Lugar de criança é na escola

Nathalia Fernandes Reis, 34 anos, é professora do ensino fundamental há 11 anos e hoje leciona na rede privada de ensino.

Para a educadora uma das questões mais desafiadoras tem sido a preocupação em alcançar os alunos, principalmente aquelas crianças com necessidades especiais, com dificuldades de aprendizagem, carências emocionais, entre outros diversos grupos que precisam de atenção. De acordo com ela, dentro das escolas era muito mais fácil perceber e sentir o que a criança passava e observar seu desenvolvimento, o ensino online, no entanto, criou uma barreira para isso.

“Foi como andar na escuridão”, diz a docente.

Existem dois grupos de alunos dentro de uma sala de aula, aqueles que conseguem aprender de forma e tempo natural e os que necessitam de um olhar mais sensível e uma maior atenção. Em sua vivência educacional, Nathália percebeu que essas crianças que inspiram cuidados neuropsicopedagógicos sofreram grandes déficits e acumularam lacunas no processo de aprendizagem durante esse momento de aulas pela internet.

A forma de ensino precisou ser repensada nesse momento de pandemia, lugar de criança é na escola, com um profissional qualificado ao seu lado, para lhe orientar e dar todo o suporte necessário. Além da presença do educador, é claro, que os pequenos precisam dos colegas,afinal são entre eles que acontece a troca de experiências, a criação de laços e o mais importante, o crescimento e a diversão. A realidade enfrentada agora é outra e ficou nas mãos desses profissionais buscas novas ferramentas para rever e inovar o ensino, pois nem todas as práticas que funcionavam anteriormente se aplicam no sistema remoto.

 

“Nesse período, comprovamos que o professor precisa mesmo elaborar um “circo” para atrair as crianças. Brincadeiras à parte, o que percebemos é que a ideia de que o professor precisa envolver o aprendiz ao que se propõe a ensinar nunca fez tanto sentido como agora. É preciso colocar o estudante dentro do contexto do conteúdo e mostrar o sentido daquilo tudo em sua vida, seja do Português, da Matemática, da Geografia, etc. Para isso, foi necessário utilizar ferramentas que despertavam o interesse das crianças, como os jogos online ou os passeios virtuais, por exemplo” conta Nathália.

Para o momento atual, além da alfabetização das crianças, os profissionais da educação tiveram também toda uma mudança em sua rotina, precisaram se adaptar a como dar aula online. Aqueles que não eram habituados a ferramentas digitais precisaram se recriar para esse novo mundo.

“Professores são heróis e seu principal poder é o conhecimento”. Essa frase nunca foi tão forte. Em meio a uma pandemia mundial, eles não desistiram de levar aprendizado a quem precisa, mesmo com os obstáculos do home office, às condições de cobertura digital doméstica (que muitas vezes não é suficiente para sustentar tantos dados e programas por tantas horas de trabalho). Se a realidade agora é essa, eles procuram a melhor maneira de lidar com ela.

Nathália relata como esse momento foi de grande crescimento em sua vida.  Ao invés de se desmotivar, ela procurou se reinventar para fazer a diferença. Mas reconhece, que na realidade, nem todos os profissionais pensam por esse lado. “Desejo que mais profissionais carreguem essa vontade para alcançar as crianças de todos os cantos”, desabafa. 

Um outro ponto que muito é discutido no que diz respeito às aulas remotas, mais particularmente no ensino privado, é o valor da mensalidade, que além de não ter descontos ainda sofreu reajustes neste ano. Nathália explica um pouco dessa situação e de início ela entende que a atual situação financeira do país não é fácil, o Brasil vive sim um momento de crise e desemprego, porém é necessário analisar o valor da hora/aula dos professores, assim como os materiais utilizados.

“Além desses aspectos, é importante considerar a readequação que as escolas precisaram realizar para essa nova experiência: não há os mesmos custos de manutenção com o espaço da escola, mas em muitas instituições aplicaram grandes investimentos em equipamentos para professores e plataformas para permitir o ensino remoto”.  

O sistema de educação no Brasil vive um momento bem delicado, não é hora de apontar dedos e procurar desentendimentos, é momento de se unir e buscar formas que diminuam ao máximo o impacto das crianças não irem às escolas. Muitas delas passaram a ter atendimento especializado com as famílias e algumas fizeram até drive-thru com a proposta de alunos matarem as saudades dos professores.

Na instituição em que Nathália leciona os profissionais tentaram manter alguns eventos de formas alternativas para não quebrar o laço do aluno com o lugar.

“A escola tentou manter suas atividades de forma adaptada ou representativa, como um evento cultural on-line no formato cada um faz o seu em casa, aula comemorativa sobre a tradição da vida no campo e a Festa Junina, campanhas de Natal no formato drive-thru”.

O caos do ensino público

Joyce Mariano, 48 anos, manicure e depiladora, vive uma realidade muito diferente da contada por Nathalia. Joyce é mãe de Bernardo Henrique, de 7 anos, aluno do ensino fundamental da rede pública de ensino.

Durante a pandemia, Joyce teve que virar uma espécie de professora para o filho. Diferente do suporte que o ensino privado disponibilizou, a escola pública apenas enviava às aulas por áudio no whatsapp e uma apostila. Ficava a cargo dos responsáveis repassá-los da melhor maneira à criança. A mãe recebia o material para orientar o ensino ao filho e a única cobrança da professora e da instituição era que as respostas estivessem escritas no caderno.

Bernardo ainda não é uma criança alfabetizada, por isso, a mãe usava todas suas tardes, de 13 até às 17 horas para ajudar o menino com seus exercícios. Joyce não tem nenhuma formação na área e acabou sendo atingida por uma das maiores dificuldades dos pais em circunstâncias como essa, ela não soube lidar com a situação e o desgaste fez com que ela desistisse.

“Chegou um momento que assim, eu encerrei, eu não conseguia mais, porque ele ficava estressado, eu ficava estressada. Eu gritava muito com meu filho, eu vou ser muito sincera, eu tive momentos de pânico”, desabafa.

Joyce não era responsável por ensinar Bernardo mas o peso caiu sobre ela, o ambiente doméstico tira muito a atenção das crianças, e ainda têm as suas responsabilidades diárias de uma chefe de família, seu emprego e cuidar da casa e dos outros filhos. Jamais se pode culpar uma mãe por não ter se esforçado. Escolas e professores existem para passar conhecimento, para ensinar, e a pandemia tirou isso de muitos.

O sentimento de impotência tomou conta de Joyce por muitas vezes, a falta de recursos, o fato de não conseguir matricular seu filho em uma escola particular em meio ao caos da educação pública. A falta de suporte é algo que atinge diretamente esses pais que sem outras opções são obrigados a aceitar aquilo que o governo oferece. Além disso, Joyce tirou o dinheiro de seu bolso para imprimir os exercícios enviados pelo aplicativo Whatsapp, pois acreditou ser uma forma de facilitar para o filho, e mais,  ainda teve que investir na instalação da internet na sua casa, pois não tinha.

Bernardo hoje está no terceiro ano do ensino fundamental, mas a mãe afirma que não viu evolução no filho desde quando começou o isolamento social e Bernardo ainda cursava o segundo ano. 

“No final eu tive que acelerar, fazer algumas respostas para ele, para conseguir entregar o material lá na escola da data marcada”, confessa a mãe.

A questão a se pensar agora é muito séria. Em algumas cidades brasileiras as aulas presenciais estão de volta, o que se torna um grande alívio para os que poderão entregar a alfabetização dos filhos a quem realmente entende do assunto. Porém, ao mesmo tempo que as aulas presenciais são essenciais a crianças em formação, o medo da exposição ao Coronavírus é real. A vacina chegou para alguns, mas não para as crianças, fazer com que elas não tirem a máscara, por exemplo, será um grande desafio a se enfrentar. A certeza de que desde pequenos o ensino é fundamental na vida de qualquer um irá ser a chave para se alcançar o mais rápido possível a segurança para todos voltarem à escola, quanto a quando isso será de fato realmente cem por cento garantido apenas o tempo irá dizer.

 

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Cleuza Maria Teixeira Reis - Professora e supervisora da rede pública de educação

As aulas online são uma saída para a educação durante a pandemia, mas a rede pública ainda enfrenta problemas com famílias carentes

*Por: Jéssica Reis, Marcelo Duarte e Mariana Aroni

A inesperada pandemia de Covid-19 afetou todos setores importantes do Brasil, e a educação é um dos mais afetados. Segundo a Unesco, estima-se que cerca de 776,7 milhões de crianças e jovens estão sem aula em 85 países que adotaram o isolamento social. Na rede pública os desafios diários, como falta de acesso à internet, à computadores e telefones, têm sido enfrentados pelos professores, que tentam diminuir o impacto no ensino dos alunos.

Novas medidas tiveram que ser acionadas para que o ano letivo pudesse continuar a ser ministrado. A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) preparou uma metodologia integrada com suporte de três ferramentas para utilização de um material construído por professores da própria rede pública para este momento. Os materiais disponibilizados são: o Plano de Estudo Tutorado (PET), o programa de TV Se Liga na Educação e o aplicativo para telefone Conexão Escola.

A professora e supervisora da rede pública, Cleuza Maria Teixeira Reis, pós-graduada em psicopedagogia e especialista em educação inclusiva, falou ao Jornal Contramão um pouco das dificuldades e barreiras que este momento de isolamento social tem trazido para os professores.

 

 Como estão sendo ministradas as aulas para os alunos da rede pública?

As aulas estão sendo ministradas de maneira remota, através da formação de grupos no WhatsApp com cada turma, através do “Conexão Escola”, aplicativo do governo, e pela Rede Minas,com o programa “Se Liga na Educação”. E também, por meio de grupos em facebook, blogs da própria escola, etc

 Quais os maiores desafios que as aulas online trouxeram para a educação? Como está sendo o processo de adaptação para todos os envolvidos?

As aulas online trouxeram mudanças bruscas para o setor público educativo,  levando a mudanças em nossa rotina para que pudéssemos nos adaptar a esta nova versão de ensinar. Quanto ao processo de adaptação, depende do querer de cada um envolvido. Para o servidor público são muitas indagações, principalmente no que se refere à valorização dos nossos serviços. De como se dará isto, já que nas aulas presenciais era preciso ir para as ruas adquirir direitos que nos foram negados. Agora, em casa com a pandemia, a luta só fica nas redes sociais. Quanto às famílias, percebemos uma grande dificuldade de adaptação pois, muitas vezes, a falta de acesso à internet e [baixas] condições financeiras, impossibilitam que o material chegue até elas. Outras famílias não querem saber deste novo jeito, acham que a escola é obrigada a ensinar e não elas.

 Você acha que o sistema de aulas remotas será capaz de suprir as necessidades e trazer um conhecimento efetivo para os alunos?

Acredito que se houvesse uma adaptação melhor por ambas as partes poderíamos à longo prazo, sim. Mas… como temos visto, há dificuldade para chegar naquela criança sem telefone, sem televisão, até mesmo [sem] o que comer em casa. Impossível haver efetividade de ensino diante de tantas desigualdades sociais e educacionais.

 Vocês, professores, diretores e comunidade escolar, participaram da elaboração do material e dos conteúdos que estão sendo ministrados por meio das videoaulas e da apostila da Secretária de Educação? Como foram feitos?

Como professora, não. E acredito que uma parcela muito pequena dos servidores tivesse informações sobre este material.

 Desde o começo do ano letivo de 2020 a rede estadual está em greve. Em meio à greve surgiu a pandemia e, logo em seguida , as diretrizes de isolamento. Você acha que este ano letivo está perdido ou vê saída

Talvez, depende de vários fatores que nos ligam. O problema maior são nossas famílias que não possuem condições de terem telefones com internet, muitas vezes também não querem ter trabalho… Enfim, o novo é sempre difícil, mas o querer sair de onde estamos precisa acontecer de ambas as partes.

 Assim como estudantes, os professores também são prejudicados por falta de estrutura na migração das aulas presenciais para online. Como vocês têm sido afetados?

Com certeza, ambas as partes saem prejudicadas. Principalmente o professor por ser cobrado e não ter condições de pagar a própria conta por atraso do pagamento salarial e continuar ministrando suas aulas. Quanto à mim, sou afetada somente quando a internet não pega na região. Tenho buscado me adaptar.

 Além do atraso nos salários e no décimo terceiro, os professores da rede pública enfrentam ainda a dificuldade de trabalhar com escolas sem estrutura e alunos carentes, que por vezes não têm o básico para estudarem. Como esse cenário tem se agravado neste período de quarentena?

Cenário triste das periferias, onde as condições são precárias e a estrutura familiar sofre com a falta do que comer. Há crianças que iam à escola para se alimentar. Agora, com toda a situação de pandemia, são obrigadas a se virarem pelo pão de cada dia. Ficam sem condições de estudar, não se encaixam ao novo.

 

* A entrevista foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis e do professor Maurício Guilherme Silva Jr.