Cotidiano

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Estilo de vida ganha cada vez mais adeptos

Dados da Sociedade Vegetariana Brasileira indicam grandes aumentos de adeptos ao veganismo e vegetarianismo no Brasil

*Por: Moisés Martins

 

O vegetarianismo e o veganismo têm crescido consideravelmente nos últimos anos, prova disso é que quase 15% da população brasileira é adepta a um desses estilos de vida, número 75% maior que em 2012. Esses números não impactam apenas na alimentação, mas também na economia, já que o mercado vegetariano movimenta por ano R$12,5 milhões e o vegano R$2,8 milhões.

 

Já que estamos falando de economia e o quanto esse mercado fatura, provavelmente você já ouviu a seguinte frase: “Ser vegano ou vegetariano custa caro!”, mas de acordo com Ana Luisa Arrunátegui, estudante de cinema e adepta ao vegetarianismo desde 2011, existem maneiras de economizar na hora das refeições. “O preço das frutas e legumes comparado ao das carnes é bem mais barato. A dica é fazer as refeições em casa e evitar os produtos industrializados disponíveis no mercado”, salienta.

 

Apesar de muitas marcas e estabelecimentos aproveitarem o título vegetariano ou vegano para cobrarem mais caro nas prateleiras, a nutricionista Priscila Menezello reforça que a escolha por certos produtos pode deixar a conta mais onerosa. “O custo de vida vegano e vegetariano não é nada caro, um vegetariano come todas as coisas que um onívoro come, excluindo a carne, o que acontece é que quando os adeptos optam por consumir alimentos industrializados, por a demanda ser menor, eles costumam ter um custo mais alto dependendo também da matéria prima que é um pouquinho mais onerosa”.

 

Mas, você já parou para entender esses dois estilos de vida? Ser vegano ou vegetariano  não é a mesma coisa. As duas formas de viver têm diferença. O foco do veganismo é a luta pela libertação e não exploração animal, não apenas na alimentação, mas também no vestuário, em testes laboratoriais, na composição de produtos diversos, no trabalho, no entretenimento e no comércio. Veganos opõem-se, obviamente, à caça e à pesca, ao uso de animais em rituais religiosos, bem como a qualquer outro uso e/ou testes em animais.

 

Esses dois modos de vida fundamentam-se, ideologicamente, no respeito aos direitos animais e pode ser praticado por pessoas de qualquer credo, etnia, gênero ou orientação sexual. O veganismo não tem relação com crenças políticas nem com preferências musicais, nem deve ser associado a determinada cultura. Trata-se, portanto, de uma prática universal.

 

Já o vegetarianismo, não é apenas uma prática alimentar motivada somente por questões éticas, mas também envolve saúde e bem-estar “Substituo as proteínas da carne por outros alimentos que também são riquíssimos em proteínas, como lentilhas, soja e o brócolis.” comentou Ana Luisa.

 

Com a operação  carne fraca, realizada pela Polícia Federal em março de 2017, foi comprovado que empresas frigoríficas produziam carnes em péssimas condições sanitárias, foi confirmado  também o uso de produtos químicos prejudiciais à saúde. Com isso o índice de pessoas que passaram a buscar por estes estilos de vida aumentou.

 

“Eu falei para mim mesma que a partir daquele dia eu seria vegana, e assim foi. E nesse processo eu não sabia que minha vida ia mudar tanto, comecei a estudar os alimentos, fui aprendendo a cozinhar, inventando receitas, e comecei a sentir o meu corpo mais disposto. Eu estava mais feliz, e emagreci muito também”, afirma Carol Cortês, adepta do veganismo.

 

Muitas pessoas procuram os nutricionistas para fazerem a transição, o que é correto. Afinal toda mudança na dieta causa impacto no corpo e a proteína animal deve ser devidamente substituída pela a vegetal, pois nutrientes essenciais à saúde humana estão presentes nas carnes, nos ovos, etc.  “Existe uma dieta especifica para qualquer pessoa sendo vegetariana ou não, a alimentação é algo individual, os horários, e as necessidades nutricionais. A única diferença de uma dieta vegetariana ou vegana, é que quando você tira a carne, ovos e laticínios, temos que aumentar a quantidade de consumo de alguns alimentos, para garantir o aporte nutricional adequado. Observamos também a necessidade de suplementos como a vitamina D e B12, de acordo com o exame de sangue”, finaliza  a nutricionista Priscila Menezello.

*Essa matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis.

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ONG Amigos de Minas atua desde 2001, promovendo ações no interior do Estado

Voluntários viajam a cidade com menor IDH de Minas Gerais levando equipamentos e donativos para pessoas carentes

*Por: Izabela Avelar

Famílias abandonadas e desnutridas, sem auxílio ou assistência, que vivem em situação que muitos considerariam sub-humanas, sem acesso ao básico de educação, saúde, informação no norte do Estado de Minas Gerais. É a realidade ocasionada pela falta de investimento em políticas públicas e evidenciada por um trabalho de acolhimento e doação por voluntários da ONG Amigos de Minas.

“É muito difícil colocar em palavras tudo o que vivemos nas cidades. São experiências muito fortes. A injustiça e a desigualdade se escancaram diante de nossos olhos.”, relata Leticia de Freitas Batista, voluntária nas missões. Há 19 anos a Associação Heitor Rodrigues Graciano mobiliza pessoas, através do trabalho voluntário e de arrecadação de doações, em prol da população carente do norte mineiro. O trabalho surgiu após Idair Antônio Vieira, idealizador do projeto, perder o filho de 5 anos enquanto brincava no passeio de sua casa atropelado por um motorista menor de idade, embriagado. Depois de receber o seguro DPVAT, indenização às vítimas de acidente de trânsito, e sem enxergar um destino para o dinheiro Idair então resolveu revertê-lo em cestas básicas e doar. Assim, desde que foi fundada, a ONG já atendeu mais de trinta cidades. O critério para a escolha da cidade que irá receber as doações são as que apresentam o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), posto que atualmente é ocupado pela cidade de São João das Missões, localizada a 687 km da capital Belo Horizonte, com um índice de apenas 0,529.

As viagens ao interior são realizadas trimestralmente e nesse meio tempo entre as missões é feita a mobilização dos parceiros e voluntários, não só para receber e direcionar as doações, como também para realizar rifas, bazares, eventos solidários, bingos e entre outros, para arrecadar a quantidade de material necessário para o município. Mais do que bens materiais a ONG Amigos de Minas, doa, principalmente, amor e esperança, e para Leticia a recompensa maior e para as pessoas que se desdobram para ajudar o próximo, “ Sempre falam que nós vamos para dar, mas na verdade somos nós quem mais ganhamos. Recebemos o carinho e o acolhimento de quem mal nos conhece, porém insiste em dividir conosco o pouco que tem. Deparamo-nos com famílias que, apesar da dura realidade, continuam resistindo, seguem com muita fé e nos dão aula sobre força, determinação e esperança.”, conta.

A colaboradora Sheila Fernanda, 43, explica que não há critérios para entrar no projeto, basta ter força de vontade para querer transformar vidas “Quando a pessoa se interessa pelo trabalho ela preenche um cadastro, apenas para controle interno, e a convidamos para participar de algum de nossos grupos do WhatsApp, por onde divulgamos todas as informações sobre nossas atividades e viagens. Não há critério para se tornar voluntário, basta querer ajudar e fazer o que puder dentro da sua realidade para arrecadar as doações.”. A sede da ONG Amigos de Minas está localizada na cidade de Ribeirão das Neves, na Rua José Camilo Bittencourt, n°80. Para dar continuidade ao trabalho, a instituição necessita da mobilização social para arrecadar alimentos, produtos de higiene, brinquedos, roupas, calçados e colchões e material escolar. A solicitação para ser um voluntário pode ser feita pelas redes sociais (Instagram ou Facebook) ou através do site.

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis

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A prática é realizada por muitos jovens e está relacionada à depressão

 O problema grave muitas vezes é ignorado pelas famílias 

*Por Ingrid Moreira de Oliveira 

“…E Clarisse está trancada no banheiro

E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete

Deitada no canto, seus tornozelos sangram

Quando ela se corta ela se esquece

Que é impossível ter da vida calma e força

Viver em dor, o que ninguém entende

Tentar ser forte a todo e cada amanhecer…

Como se toda essa dor fosse diferente, ou

E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito

Clarisse sabe que a loucura está presente

E sente a essência estranha do que é a morte

Mas esse vazio ela conhece muito bem

De quando em quando é um novo tratamento

Mas o mundo continua sempre o mesmo…”  Clarisse (Legião Urbana)

 

A depressão atinge cerca de 6% da população brasileira, isso significa que são mais de 12 milhões de doentes, média maior que a global, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) que é de 4,4%. Esses dados colocam o país como o primeiro do ranking da América Latina em número de diagnósticos e deixa um grande alerta já que os casos de suicídios e automutilação também têm crescido drasticamente.

Ainda de acordo com a OMS, o suicídio é a terceira principal causa externa de mortes entre os brasileiros, atrás apenas dos acidentes e agressões. No que diz respeito a automutilação, o Brasil não tem dados específicos, mas o que os estudos apontam é que essa prática está ligada à depressão.

Vamos falar sobre automutilação

As mulheres e jovens são as maiores vítimas desses casos, um exemplo que trouxe repercussão mundial  é o da cantora Demi Lovato que já chegou a se automutilar, tendo marcas pelo seu corpo, por problemas como a autoestima, bulimia, entre outros. Após se recuperar, Lovato fez tatuagens em seus dois pulsos com a frase “ Stay Strong”,  que significa “Permaneça Forte”, para esconder as marcas dos cortes.

Muitas pessoas não entendem o porquê das outras se automutilarem e as julgam, sem saber sua história e os problemas. Porém o problema é um distúrbio emocional e suas vítimas sofrem, na maioria das vezes, caladas e sem saber aonde e como procurar ajuda.

Apesar de não existir pesquisas recentes, um estudo realizado no ano de 2014, na Inglaterra revelam que a automutilação cresceu mais de 70%, em relação a 2012, entre crianças e adolescentes. Os dados mostram que os casos entre 10 e 14 anos tratados em hospitais, ultrapassou os 2.700 desde 2012. Já entre os adolescentes entre 15 a 19 anos, o aumento foi de 23% no mesmo período.

De acordo com a especialista em Terapia Cognitiva Comportamental e Educação Especial e Inclusiva com ênfase em neurociência e aprendizagem, Daisimar Sampaio, a automutilação parece ser mais uma tentativa de projetar no corpo as tensões que os adolescentes vivenciam. “A dor da existência passa a ser refletida no próprio corpo envolvendo uma agressão direta, sendo um comportamento intencional. Normalmente sem intenção suicida e aparentemente por razões não socialmente ou culturalmente compreendidas. O adolescente usa a automutilação como uma fonte de amenizar a dor emocional, como se fosse uma troca da dor emocional por uma dor física. Os cortes são feitos em segredos e escondidos. As marcas só aparecem no corpo quando feridas muito mais profundas são formas abertas na alma”, salienta.

A psicóloga explica ainda que o ato de se auto machucar não é feito para chamar atenção, pelo contrário, é uma maneira de desfocar o sofrimento emocional para uma dor física. “O adolescente por se sentir acuado, sem saber o que fazer com aquela situação, agride o próprio corpo, assim vêm um alívio da sensação ruim,  pensando que a dor física não é nada perto da dor emocional”, reforça.

Daisimar acrescenta que a automutilação é sempre um pedido de socorro. E alerta para que os pais estejam sempre atentos às mudanças de comportamento, ao uso de roupas de mangas compridas e ao isolamento.

Contaremos a história de uma jovem, de  20 anos, a quem chamaremos de Luna, pois ela prefere não se identificar. Para ela, a automutilação não ocorreu da noite para o dia. Luna lutou anos para enfrentar sua depressão, e, aos seis anos, já tinha pensamentos suicidas. Aos 10, as coisas começaram a sair do controle,  devido ao bullying sofrido na escola. Tudo começou entre os 14 e 15 anos, quando as chacotas ultrapassaram os muros da escola e se instalaram entre os familiares.

A psicóloga Daisimar, fala que as maiores causas e consequências para um adolescente poder se automutilar são a maturação da sexualidade, as relações parentais e sociais, o bullying e a depressão. As angústias próprias da idade podem levar à prática da automutilação. Muitas vezes sendo uma maneira de se expressar ou lidar com uma angústia esmagadora ou aliviar uma tensão insuportável; às vezes, pode ser uma mistura de ambos. A auto agressão também pode ser um grito de socorro.

A relação complicada com a mãe, o transtorno alimentar e a depressão foram o gatilho para automutilação de Luna. Ela lembra que se trancava no banheiro de sua casa e cometia os ferimentos com uma tesoura. A mutilação começou nos braços, e como não sentia dor, ela começou a se ferir cada vez mais forte, até chegar ao ponto de sangrar. Foram anos de muito sofrimento e solidão. Durante esse processo, ela perdeu a mãe, conheceu uma pessoa com quem se relacionou e terminou, culminando ainda mais tristeza e isolamento. Entre uma crise e outra, em 2018, Luna tentou o autoextermínio.

Luna relata que o tratamento dela foi muito tardio, mas começou um acompanhamento psicológico e psiquiátrico, que a medicou corretamente. Ela afirma que não teve o apoio de sua família e isso seria fundamental para todo o processo. “Todo mundo tem vergonha de se automutilar, não existe uma pessoa que se orgulhe em dizer que se automutila, se corta, provoca vômito. Automutilação é muito mais do que você se cortar, é bulimia, anorexia”, desabafa Luna.

A psicóloga explica ainda que os pais nunca devem brigar, bater, culpar ou julgar, ao perceberem os cortes ou tratar o ato como travessura, mas sim oferecer conforto e compreensão. “A família precisa entender que é um problema e que existe tratamento”, pontua.

Emocionada, Luna manda um recado para as pessoas que estão passando por isso:“Eu sei que você não vai acreditar no que eu vou dizer, mas você vai conseguir sair dessa. Não é vergonha nem fraqueza pedir ajuda. Peça, se eu consegui, você também vai conseguir.”

E para concluir, “Procure e ofereça ajuda. Procure profissionais da saúde. Psicólogos e psiquiatras saberão como conduzir o tratamento e oferecer ao adolescente as ferramentas emocionais para enfrentar os problemas da vida e da adolescência com maturidade, sem precisar praticar mais o cutting ou se auto agredir”, reforça Daisimar.

Projeto Borboleta para automutiladores:

O projeto Borboleta para automutiladores foi criado originalmente no ano de 2009 por praticantes de cutting (os automutiladores) que sentiam necessidade em parar, e consideravam-se prontos para enfrentar o desafio. Criado em uma corrente de blogs americanos e não demorou muito a alcançar a maior ferramenta de acesso a jovens sentimentais, intitulada como Tumblr.

Com isso a ideia basicamente é, convencer os jovens a não se automutilarem, pois, através do desenho de uma borboleta em seus pulsos, eles dão nome a ela, e sempre que a pessoa se cortar, ela acaba machucando a pessoa homenageada no desenho.

Fazendo desta forma, a pessoa se motivar através de outra (homenageada) a não se cortar para que não lhe cause nenhum mal. A ideia é relativamente simples, e pode ser mais um aliado na luta contra a prática de automutilação, já que a ideia é fazer com que a pessoa treine / desenvolva seu autocontrole.

As regras são:

1) Quando você sente que quer cortar ou se ferir, com uma caneta ou marcador, desenhe uma borboleta em seu braço ou mão (ou em qualquer outra parte do corpo onde você quer infligir dor / auto ferir);

2) Nomeie a borboleta com o nome de um ente querido ou alguém que realmente quer que você obtenha melhora;

3) Você deve deixar a borboleta desaparecer naturalmente. Não esfregue a parte desenhada, ou aplique produtos que possam remover o desenho;

4) Se você cortar a parte do corpo onde há a borboleta, medite que você a matou. Se você não cortar, ela continua viva e livre! (Lembre-se que esta borboleta representa alguém importante para você);

5) Se você tiver mais de uma borboleta, e se cortar (ou machucar de alguma forma) você matou a todas elas;

6) Outra pessoa pode desenhá-las em você. Estas borboletas são especiais; Cuide bem delas!

7) Se em algum momento você perder o controle, e se cortar, não desista. Recomece todo o programa.
8) Mesmo que você não se corte, sinta-se livre para desenhar uma borboleta para mostrar seu apoio a uma pessoa que pratica o cutting. Se você fizer isso, e nomeá-la, estará ajudando-a (o) a treinar o autocontrole.

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

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Copa Cozinha é um dos estabelecimentos que participa do processo de revitalização do Mercado Novo por meio da gastronomia. Foto: Super Câmera.

Antes esquecido, o Mercado Novo passa por uma revitalização puxada por um movimento gastronômico e vive um boom de bares e restaurantes

Por Jéssica Oliveira*

A exemplo de cidades como Nova Iorque, que passa por uma constante revitalização de bairros e espaços antes abandonados, a capital mineira vem recuperando e dando vida à ruas e estabelecimentos que caíram no esquecimento do poder público e das pessoas. O bar Zona Last foi o pioneiro ao atrair para a região leste um público diverso e interessado em vivenciar e ocupar outras áreas de Belo Horizonte.

Outro ponto que passou a ser frequentado pelos belo-horizontinos, a rua Sapucaí, no centro da cidade, recentemente, ganhou status de cartão postal, e, para além disso, traz variadas opções de bares e restaurantes que se tornaram referência nos últimos anos. O mesmo ocorre com o Mercado Novo. Até um ano atrás, quem passava pelo lugar se deparava com um prédio largado às traças, com pouca iluminação e sem cor.

Antes, toda edificação, construída na década de 1960, com o intuito de ser um centro de distribuição, assim como o Mercado Central, estava ocupada apenas por lojas e serviços gráficos. Um movimento gastronômico, no entanto, tem alavancado as atividades do local, que recebe, durante toda semana, gente interessada em boa comida e opções variadas de cervejas artesanais e drinks.

Quem vai até o local encontra um ambiente simples e despojado, com culinária voltada para as raízes mineiras e processos artesanais. O projeto batizado de Velho Mercado Novo, sob a batuta dos sócios Rafael Quick, Samuel Viterbo, Marcelo Machado e Luiz Furiati, é responsável por reavivar o local, que funciona como espaço onde os produtos e produtores locais são valorizados. Não à toa, a marca mineira de gin Ivy viu a possibilidade de instalar no Mercado Novo um bar onde todo o cardápio de bebidas foi pensado a partir do destilado, que nos últimos dois anos se tornou o queridinho das noites belo-horizontinas.

A presença de empreendedores da gastronomia e a execução de projetos em parcerias têm dado resultados e feito com que o Mercado Novo se torne um ponto de encontro. Uma das propostas responsáveis por esse engajamento é a dobradinha feita pela Cozinha Tupis e a Distribuidora Goitacazes, empresa do grupo Viela. A união tem fomentado a criação de novos projetos criativos no espaço.

Repensando a cozinha

Henrique Gilberto, 32 anos, que comanda o Cozinha Tupis, é um dos expoentes da cozinha mineira. A proposta do seu estabelecimento, localizado no segundo andar do Mercado, é proporcionar ao público um ambiente que dialogue com o espaço onde está instalado.

“Desenvolvemos uma cozinha anti-padrão, que fomenta a nossa criatividade. O restaurante não existe sem o Mercado Novo. A Cozinha Tupis só existe por causa dele. Ela tenta condensar a essência de insumos que são encontrados aqui, refletindo um pouco da cozinha centro belo-horizontina, as influências, as maneiras de serem consumidas, tudo isso é embasado em como cozinhamos e como as pessoas se comportam no centro da cidade”, revela Gilberto.

O empreendimento tem uma política de microeconomia. Todo insumo usado no restaurante é comprado no próprio Mercado Novo ou Mercado Central. Os ingredientes são escolhidos pensando na sazonalidade e oferta do mercado. “O que conduz o cardápio semanalmente é justamente o que vimos na feira do mercado, então o cardápio muda conforme a feira muda. Os ingredientes que não podem faltar são os frescos, da época. Não temos uma regra, esperamos que o ingrediente esteja no seu melhor momento para que possamos comprar. O ingrediente da época é o que conduz a Cozinha Tupis”, completa Henrique.

Brunch mineiro

Ainda que as opções noturnas de bares e restaurantes sejam as que mais atraem público, engana-se quem acha que o local se limita a isso. Quem estiver disposto a andar sem pressa pelos corredores do Mercado Novo irá descobrir uma galeria de arte, o Espaço Corda, dos amigos Diogo Salomão, Pablo Gomide e Humberto Hermeto, brechós, um laboratório de fotografia analógica, o Super Câmera, uma barbearia e um charmoso café, o Copa Cozinha, onde são servidas várias delícias mineiras.

À frente do Copa Cozinha, Júlia Queiroz, Maíra Sette e Cristina Gontijo decidiram criar um espaço onde as memórias, tanto da equipe como dos clientes, fossem reavivadas. É a partir da cozinha afetiva que as pessoas são conduzidas aos sabores e sensações sentidas na infância.

“Nós trabalhamos na Copa Cozinha em cima de memórias. Cada um tem uma lembrança de família, um cheiro que lembra infância. Na nossa cozinha, o doce de laranjinha kinkan se transforma em tortinha de chocolate com caramelo salgado, o gostinho de limão capeta do quintal é resgatado no nosso bolo com creme de queijo e geleia de amora. O bolinho de fubá, que tem milhares de receitas e está sempre presente na nossa mesa de café da manhã, os biscoitinhos amanteigados que não faltavam na lata da casa da vó, nos inspiraram para os nosso crocantes de goiabada e de doce de leite, e a tortinha cremosa com compota de jabuticaba”, explica Júlia.

Júlia entende que cada processo de uma receita demanda cuidado e delicadeza, e se inspirou na tradição da culinária mineira para criar o cardápio do Copa Cozinha. Ela aprendeu observando e valorizando cada detalhe, o tempo da massa, e os materiais corretos no momento do preparo. Acima de tudo, ela encara a cozinha como um ambiente que deve ser acolhedor.

“Nos apresentar é falar sobre um cômodo da casa conjugado a Copa Cozinha. É onde se prepara a comida e se faz as refeições também. A magia está na vocação de abrigar duas práticas tão infinitas de afeto, cozinhar e servir com simplicidade. Por isso a escolha do Mercado Novo, que é um retrato da nossa identidade, essência e autenticidade. A Copa Cozinha é um lugar para celebrar essa tradição em torno de uma mesa”, destaca Júlia.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob a supervisão dos jornalistas Felipe Bueno e Daniela Reis)

Rua da Bahia, no cruzamento com a rua Guajajaras e avenida Álvares Cabral

Por Moisés Martins

O que dizer de uma rua, como a rua da Bahia? Localizada na bela Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na capital de “trens e uais de Redá pá lá e Pó para”. Uma rua de importância histórica e cultural para a nossa capital.  Foi palco de manifestações políticas e objeto de crônicas e poemas de autores mineiros e nacionais. Deixo aqui um pouquinho da minha experiência dessa rua que faz parte do meu caminho.

Rua da Bahia, no cruzamento com a rua dos Guajajaras e avenida Álvares Cabral

A minha vida é essa:  subir e descer Bahia. Sem nenhuma pressa, de modo que me distraio à beça. A rua da Bahia se modifica a cada dia, sem ao menos ter que descer floresta.

São 12 minutos de caminhada para percorrer seis quarteirões, algo próximo a 1 mil metros. Atravesso ruas e avenidas da capital, que misturam nomes de povos indígenas a personagens importantes da história brasileira: Goitacazes, Augusto de Lima, Guajajaras, Álvares Cabral, Timbiras, Aimorés e Bernardo Guimarães. Ao transitar pelas calçadas,  você encontra pessoas de todas as cores, estilos e crenças, pessoas de diferentes orientações sexuais e classes sociais.

É uma subida cansativa, mas que dá gosto de percorrer. No horário da tarde, deparo-me com um grande número de pessoas. A maioria delas estão em horário de almoço. As agências bancárias no percurso fazem com que o  fluxo de passantes aumente ainda mais. Tenho que me desviar para que não esbarre em nenhuma delas. De olhos atentos consigo perceber a diferença social que existe entre os quarteirões.

O primeiro quarteirão vai da Rua Goitacazes à Avenida Augusto de Lima. Região onde é grande o número de pedintes, moradores de rua que dominam a área, vivem das moedinhas de quem passa por ali. Na calçada,  muitos bueiros, todos desnivelados, tornando a via cheia de relevos.

O quarteirão  da Avenida Augusto de Lima à Rua Guajajaras muda-se a cena. A presença de moradores de rua passa a ser  menor. Nota-se um fluxo maior de caminhoneiros no setor de carga e descarga. A presença de jovens classe média fica mais constante,  devido ao Colégio Chromos localizado na região. Os boêmios encontram lugares nos dois quarteirões, da Rua Guajajaras à rua Aimorés, onde as cadeiras dos bares se espalham pelas calçadas.

O final do meu percurso é o quarteirão entre rua Aimorés e rua Gonçalves Dias, local frequentado por estudantes, professores e bancários que trabalham em ruas próximas.

Mas a rua da Bahia é muito mais:  ao longo de todo trajeto, pessoas se amam, pássaros fazem ninhos em copas de árvores. Uma rua em constante transformação. É como uma estação de trem: as pessoas embarcam e desembarcam nos seguidos encontros e desencontros. Diria que a rua da Bahia é o palco, onde nós compomos todos os dias, uma nova cena.

Durante essas cenas, encontramos amizades com quem nunca vimos. Trocas de olhares e de repente a cena para, aparece a cortina. Fim da cena? Não, não, esperem! É apenas um fumante que passou por você e encheu o seu rosto de fumaça. Ufa! Já posso trocar olhares de novo.  Não! não posso, a pessoa simplesmente desapareceu. Talvez tenha entrado em alguma loja, virado em alguma rua…

Dentro do carro a cena é completamente diferente.  O sinal fecha e mais uma cena se inicia. De repente uma pessoa atravessa correndo na frente dos carros, a cena então recomeça, os motoristas buzinam, alguns xingam. Às vezes, nem adianta. A pessoa até atravessou! Sinal verde! Os carros podem avançar e lá vão eles subir bahias e descer florestas.

E assim as cenas vão se reconstruindo a cada dia. Não existe diretor, a cena simplesmente acontece, e sempre estamos lá para assistir em primeira mão as histórias que fazem da rua da Bahia um lugar tão fantástico.