Crônica

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Por Keven Souza

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Dom., 13 de março (9:40am)

Bom dia, amiga! Ainda estou de ressaca, mas passei para agradecer o nosso encontro de ontem, foi sensacional, como sempre, estar ao seu lado em um momento ímpar da sua vida. 

Somos amigos há quantos anos? 3, 4, 5 anos? São tantos que nem me lembro! Você é praticamente minha irmã, uma parceria mútua de vida e ver você se noivando é algo surreal pra mim. Estou feliz, claro! Afinal, vivíamos falando sobre nossos sonhos sentados naquela cadeira azul do fundamental, totalmente imersos nos anseios de adolescentes ainda em fase de crescimento. 

Quero te falar que ao longo desses anos, de certa forma, sempre senti que a palavra casamento estava entrelaçada em suas falas. Você não percebia, mas eu sim. Ser noiva, ter um esposo, construir uma família, sempre foi o seu sonho. E isso é incrível! Torci e torço por você. Mas preciso te dizer amiga, ontem eu me senti ferido. 

Dom., 13 de março (11:37am)

Acabei pegando no sono, desculpa, domingo é assim! Continuando, eu quis estar ali, na sala, bem pertinho, para comemorar a sua união com a pessoa que você escolheu para passar os dias da sua vida, eu quis! Mas irei abrir meu coração: você é uma pessoa privilegiada. 

Digo não de modo ignorante ou ruim, até porque ter privilégios é sempre bom e quem não gostaria de usufruir de um, não mesmo? Mas, falo de modo bom. Talvez você não tenha parado para pensar ou refletido que você não precisou se justificar diante de muitos, uma decisão que você tomou e que corria na suas veias desde jovem, que é se casar. E se casar com a pessoa que escolheu. 

Amiga, sua família estava toda com você.  Sua mãe, seu pai, seu tio, sua priminha e até a sua vó que é de lá do Nordeste veio te prestigiar. 

E é aí que está o ‘X’ da questão, porque dificilmente irei vivenciar esse momento de felicidade mútua com minha família. Essa não é a minha realidade, e não estou sendo radical, somente verdadeiro e coerente com minha história.

Casar nunca foi o meu sonho, você sabe, mas ontem me questionei se houvesse essa vontade despertada em mim, se teria o apoio da minha família como a de seus parentes, que partilhavam da sua felicidade e torciam para que você encontrasse uma pessoa que te amasse. Minha família nunca faria isso, entende?

Sentado, na sua sala, me senti um peixe fora d’água. Porque dificilmente poderei reunir as pessoas que são meu sangue sem ter, que ao menos, me justificar por escolher amar um homem. 

Não terei um banquete feito por minhas avós para celebrar a união com meu amado, não terei! Talvez eu sempre soubesse disso, mas ao observar o brilho nos olhos de sua mãe, de ver sua pequena dando largos passos rumo a vida adulta, me fez cair na real: o terror do gay não vem só da rua, de apanhar ou sofrer homofobia, ele se faz presente também na mesa que nunca será montada caso ele sonhe um dia se casar. 

Por isso, te digo para ser ao máximo feliz! Para aproveitar cada segundo ao lado do seu marido nesses próximos anos.  Para lembrar de mandar mensagem sempre que possível para sua família, porque se ontem pôde celebrar e até mesmo estar, sem ao menos sentir julgada, ao lado do seu noivo é graças ao amor e ao companheirismo deles. 

No mais, eu te amo muito e desejo que sejam felizes até enquanto durar. Enfim, falei demais e preciso fazer meu almoço. Até logo, beijos e ótimo domingo, amiga! 

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Por Bianca Morais

Quinta-feira, dia 20 de janeiro de 2022. 

Depois de quase dois anos de Covid-19 o mundo agora começa a receber a terceira dose da vacina e finalmente chega minha vez, duas doses de Astrazeneca e agora Pfizer, me sinto preenchida e protegida, ah que maravilha!

Sexta-feira, dia 21 de janeiro de 2022.

Já cheguei até essa altura de uma das piores pandemias mundiais, com vinte exames de Covid e nunca tive, sabia que depois de tanta má sorte na vida eu estava sendo beneficiada pelo universo e saindo ilesa.

Sábado, dia 22 de janeiro de 2022.

Pelo meu olhar de bartender nas horas vagas, vejo jovens entrando e saindo do bar, rodada dupla de caipirinha? Só se for agora. Que bom ver as pessoas finalmente poderem se divertir e encontrar seus amigos em um sábado a noite sem medo de ser feliz, depois de meses isolados em casa, amém segunda dose, a terceira já chega para vocês também.

Domingo, dia 23 de janeiro de 2022.

Trabalhadora sim, filha de Deus também, depois de meses ralando sem uma folga mereço um pagodinho com a minha turma. Já tenho três doses, não tem como dar errado. Cerveja gelada e samba no pé. 

Segunda-feira, dia 24 de janeiro de 2022.

Acordar de ressaca, quanto tempo não tenho essa sensação. Banho gelado, porque a semana acabou de começar e não tem tempo para corpo mole.

Terça-feira, dia 25 de janeiro de 2022. 

Nossa mas que ressaca ferrada, segundo dia acordando com corpo ruim.

Quarta-feira, dia 26 de janeiro de 2022. 

Dor de garganta e febre alta, estranho.

Quinta-feira, dia 27 de janeiro de 2022. 

120 reais, parcela de duas vezes, por favor.

Positivo para Covid. Vacina você prometeu.

Sexta-feira, dia 28 de janeiro de 2022. 

Isolada, chateada, acabada, desolada.

Sábado, dia 29 de janeiro de 2022. 

Sem trabalho, sem rolê, sem nada.

Domingo, dia 30 de janeiro de 2022. 

Vacina você prometeu e você cumpriu, estou positiva mas estou viva, estou com o corpo cansado, mas meus olhos estão abertos e estou assistindo minhas séries favoritas, porque eu estou viva e isso é o maior presente que eu poderia receber.

Vacina salva vidas, bora se vacinar.

Por Keven Souza

Cidade grande é foda! Sinto que acordo quando me preparo para a primeira competição do dia, a caminho do meu trabalho luto por pequenas satisfações como conseguir sentar em um metro de plástico estofado para completar a carga horária de sono que é impossível de fazer a noite, pois, chego tarde e saio cedo. Porque a cidade grande é foda!

Com muitas janelas, poucos com muito e muitos com pouco (tipo eu), com luzes batendo em frestas e diversos barulhos, observo a movimentação já dentro do ônibus. Estou estressado por estar em pé – afinal a cidade parece ter pressa – comecei a observar que faz tempo que não vejo o sol queimar minha pele e sentir o calor em meu rosto. Talvez, seja porque meu privilégio é apenas sentar em um banco de ônibus e ter o corpo bronzeado é privilégio demais para o proletariado. Deixo isso restrito para meu patrão, que me faz bater ponto às 6h da manhã para enriquecer o bucho dele, que tem pressa para que eu chegue, mas não tem pressa para chegar. 

O trânsito está caótico, dentro no ônibus um rebuliço, são vários como eu que percebem a pressa da cidade e que estão cansados demais para acompanhá-la. É notável o semblante de cansaço, a sensação é de que estou em um filme de zumbi. Cochilando em pé me esbarro em uma moça segurando uma bolsa cor vinho que ocupa grande espaço no ônibus, peço perdão, mas não sou ouvido já que a próxima parada é a sua descida, e como havia falado: a cidade tem pressa! 

Um momento de alívio, ufa! Consigo me sentar. Usufruir do conforto desse assento é o que ainda me resta, mas continuar o cochilo que completa a carga horária de sono é o que mais quero agora, porém, será impossível. 

Vejo que se aproxima da minha parada, e o meu corpo segue inexpressivo, mas tenho que tirar forças de dentro para conseguir vencer mais um dia e suportar toda pressão de cobranças do meu patrão. Essa é a realidade do trabalhador na cidade grande no dia a dia. Dormir pouco e trabalhar muito, é a mesma rotina de sempre, porque no final das contas ela tem pressa.

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Hoje é dia de escrita criativa aqui no Contramão! A Produção é de uma aluna de Publicidade e Propaganda, se liga no textão!

Ela não vai mais voltar

Por Larissa Medeiros 

Fala pro seu coração desistir de disparar toda vez que o celular vibrar

Ela não vai mais voltar

Provavelmente é só um colega da faculdade, chamando pra tomar uma cerveja

Jurando que essa noite você vai esquecê-la

Mas você prefere ficar em casa

Lendo o livro de poesias que ela gostava

Pra ver se assim consegue encontrar algum código, decifrar algum enigma

E entender o porquê de ela ter partido.

Você pode parar de ensaiar suas falas no espelho

Ela não vai mais voltar

Você não vai precisar fazer esse discurso

Sobre como as últimas noites foram tão mais frias sem os batimentos cardíacos dela sobre seu peito

Sem os cabelos dela no travesseiro ao lado

Ou a gargalhada dela que enchia o quarto, o apartamento e a sua vida.

Pode parar de deixar a porta do quarto destrancada

Ela não vai mais voltar

Ela não vai entrar na ponta dos pés e se aninhar a você

Tranca a porta, dorme com a solidão por hoje

E amanhã, quando acordar

Não precisa comprar a geleia que ela gostava de comer no café

Afinal, só vai servir pra vencer na geladeira, porque você sabe

Ela não vai mais voltar.

Pode jogar todos os discos dos Beatles dela fora

Vender os livros num sebo

Dar as roupas dela pra caridade

E até adotar um gato, já que ela não vai estar lá pra reclamar da alergia

Eu sei que ela jurou amor eterno

E que garotas podem ser más às vezes

Mas também sei de outra coisa

Ela não vai mais voltar

Então toca sua vida como todo mundo faz

Com um lado da cama vazio

Um coração cicatrizando

Mas com uma boa história de amor pra contar.

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Por Larissa Medeiros 

Chego cedo, é claro. Mesmo após passar horas me convencendo de que toda roupa que experimentava mostrava pele demais ou pele de menos. Mesmo após ter discado o número dele quatro vezes e ensaiado um discurso falso em que meu gato teria morrido tragicamente e que tudo teria que ser cancelado. Mesmo após me desviar do caminho intencionalmente na tentativa de me perder e nunca mais ser encontrada pra dar explicações.

Mesmo assim, chego cedo, exatos 30 minutos mais cedo. A mesma antecedência de quando te encontrei pela primeira vez. Me lembro de quando te vi procurando por mim com os olhos na entrada, ele faz o mesmo. Ele também está usando uma camiseta preta, mas o sorriso ao me ver parece mais confiante do que o seu foi. Ele beija minha bochecha e se senta, e ele não sabe como foi gentil. E, droga, eu queria que não fosse tão gentil.

Passo a refeição inteira procurando por um motivo. Maus modos à mesa, hobbies esquisitos, um olhar demorado para o decote de outra mulher, uma gíria irritante, a confissão de um crime. Qualquer desculpa para que eu pudesse sair pela porta e nunca mais atender uma ligação dele, mas nada disso acontece. Ele é só um cara normal, e nós conversamos sobre todos os assuntos que aparecem na mesa, todos menos um. Porque toda vez que ele menciona alguém de seu passado, eu desvio os olhos ou finjo interesse em algo trivial do lado de fora da janela. E ele percebe, e me lança aquele olhar de sempre, o olhar de pena. O que é loucura, é claro que é, ele não sabe. Ou pelo menos não deveria saber.

E agora estou com você na cabeça. Isso é tudo o que eu não queria que acontecesse, e ao mesmo tempo, tudo que eu tinha certeza de que aconteceria. Seria impossível não compará-lo a você. E não é justo, quando você era tão familiar e ele ainda nem sabe qual é a minha sobremesa preferida. Tento evitar, mas todos os cheiros e todas as formas ao redor se tornam, de algum jeito, sobre você.

Ele fala sobre irmos a outro lugar, e acredito que talvez seja mais fácil nesse outro lugar. Mas enquanto caminhamos, ele segura minha mão, me fazendo recuar. Me fazendo recuar tanto, que um sorriso corado não justifica. Não é tão assustador assim um cara querer segurar a mão da garota com quem acabou de almoçar, é? Mas ele entende. E em alguns momentos coloca a mão em minhas costas, como que para me guiar, mas eu sei que é um disfarce para conseguir me tocar sem que pareça íntimo demais.

Tomara que ele não me beije. Todas as vezes em que ele olha pra mim por mais de um segundo, torço para que não me beije, não quero sentir outra textura se não a sua. Mas ele beija, sem me dar tempo pra pensar. E pela primeira vez minha mente se esvazia. Não penso sobre o toque dele no meu cabelo, nem no momento em que ele me puxa pela cintura, muito menos no que minhas mãos enlaçando seu pescoço significam. Eu apenas sinto. E quando nos afastamos, eu só penso nos olhos dele. Não nos seus.

Quando se dá conta do meu espanto misturado com choro, ele começa a falar, mas eu o calo. Nenhuma mulher quer ouvir desculpas por ter sido beijada apaixonadamente. Certamente se alguém precisa pedir desculpas sou eu, por ter desaprendido a beijar lábios que não fossem os seus. Mas eu sorrio. Um sorriso bonito e divertido, o primeiro desses que consigo destinar a outro homem. Sorrio porque sei que o pouco que conheço dele, está disposto a amar. E o pouco de amor que você me deixou, estou disposta a oferecer. E lá do céu, sei que você piscou pra mim. E eu só tenho a agradecer.

 

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*Por Moisés Martins

Desde a descoberta do vírus SARS-CoV-2, conhecido como Covid-19, a humanidade passa por momentos difíceis, esse ser invisível foi capaz de mudar a vida e o destino de todos.

Logo, uma das medidas de segurança adotada pelo governo de Minas, foi esvaziar as escolas públicas e privadas. Eu pergunto: Onde estão nossas crianças, aquelas que muitos dizem ser o futuro da nossa nação?

Eu busco respostas para essa pergunta todos os dias, ao olhar pela janela e ver uma escola completamente abandonada, a alegria que aqui existia tomou lugar para o silêncio e uma solidão sem fim. Os gritos e as conversações cessaram, por aqui é como se o tempo estivesse parado.

Durante o dia os pássaros cantam, e a noite ouço o estridular dos grilos, uma sinfonia animal tomou conta dos espaços que antes eram habitados por jovens e crianças do ensino médio e fundamental. Quando chega a noite, as luzes tentam iluminar o lado mais sombrio de uma escola vazia, é uma tristeza que parece não ter fim.

Com a ajuda de fenômenos da natureza, principalmente as chuvas, os matos têm crescido cada vez mais, e a poeira nos vidros das janelas aparenta cada vez mais um ar de lugar esquecido.

Nossas crianças, estão “presas” dentro de casa, ligadas ao mundo virtual e circundadas da tecnologia, enquanto os pais se submetem todos os dias a pegar conduções completamente lotadas para ir ao trabalho, correndo sérios riscos de terem contato direto com o vírus. Hipocrisia? Talvez!

Mas a economia precisa se manter, os pais e mães de família precisam levar alimento para dentro de casa, e a educação e o ensino se mostram cada vez menos importantes nesse país capitalista que visa somente o lucro.

Em casa, só os que possuem acesso a internet recebe informações e aulas online, uma pesquisa publicada em 29 de abril de 2020 pela Agência Brasil, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), juntamente com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação

(Pnad Contínua TIC), mostra que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não acessam a rede, um número bastante expressivo.

Em 2020 fomos pegos de surpresa, sofremos e tivemos muitas perdas, foi um ano muito difícil, mas acabou! E nele ficou toda a angústia e frustrações causadas pelo vírus.

O ano de 2021 chegou, e junto com ele a esperança da vacinação. Temos vacina! Ufa, que alívio. Agora, será quanto tempo mais nossos jovens vão demorar para retornar às escolas? Quanto a essa resposta, acredito que vamos ter que aguardar mais um pouco, já que o público jovem ainda não é prioridade no calendário de vacinação.

Aguardamos ansiosos para que todos os brasileiros se vacinem, e junto a isso, nossas escolas voltem a funcionar, cabe aos nossos governantes criar um plano de ação para que o ensino presencial volte gradativamente, e os alunos possam começar a correr atrás do prejuízo e do tempo perdido. Dias melhores virão, e em breve nossas escolas vão estar prontas para receber os alunos novamente, o sol há de brilhar e toda alegria perdida será restabelecida. Que não percamos a esperança!