Crônica

Por Keven Souza

Todo mundo possui aquelas clássicas pastas no Pinterest, abarrotadas de outfits para se inspirar ou dar uma olhada antes do rolê de sábado à noite, não é verdade?

Esse processo de inspiração é incrível — e funciona — numa lógica de conversar com o outro por meio da construção de imagem.

Só que já parou pra pensar que vivemos num mundo cheio de outros, e acabamos nos perdendo nestes muitos outros?

Sim.

Tem tanto outro envolvido, de tantas formas, que não sobra espaço pra ser a gente sem se esbarrar em alguma coisa. É como se você precisasse de um ter um estilo universal ou pegar um aesthetic emprestado, por exemplo.

E não me confunda! Meu questionamento não tem a ver com a rede (Pinterest) em si. Mas com a supervalorização do pertencimento e a confusão identitária atrelada ao que NÃO está salvo nas suas pastas, mas brilha seu olho — aquelas peças que você adora, mas não são boas o suficiente para estar no Pinterest.

Isso porque, no que é salvo na rede vizinha, a gente busca pertencer, expressar, diferenciar e validar tudo isso.

O fato é: por quem você gostaria de ser validado? Qual curtida você tem se importado mais? Ou quais pastas você deveria apagar e quais outras deveria criar mais?

Não há resposta neste texto!

É que na real, não dá pra vestir só pra gente num mundo cheio de outros.

Aliás a vida, de certo modo, tem tantas questões que não se cabe em apenas pastas salvas no Pinterest, não é mesmo?

Mas dá pra construir muita coisa entre a sua inspiração e você… Em outras palavras: bancar o estilo fora do Pinterest.

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Por Gustavo Meira

Com seus corredores movimentados, tijolos vazados, e cerveja artesanal, assim é o
Mercado Novo, um verdadeiro ponto de referência para os moradores da capital mineira.
Sessenta anos se passaram, assim como o Mercado, o seu público passou por uma
transformação ao longo do tempo.

No passado, o Mercado Novo foi idealizado para ser um dos mais modernos mercados da
América Latina, sendo um complemento do Mercado Central. Durante esse período o
espaço foi tomado por gráficas (até hoje tem), sebos, chaveiros, e bancas de hortifruti e
cereais. O público que frequentava o grande ‘caixote’ belo-horizontino naquela época,
eram pessoas que precisavam dos serviços que eram oferecidos naquele lugar.

Hoje, ao adentrar no Mercado Novo, é nítido as mudanças. O público é diverso, com uma
mistura de jovens alternativos, pessoas mais velhas também, e turistas, já que atualmente
ele é um ponto turístico da capital. O mercado se revitalizou e reabriu suas portas para
novas influências, se adaptando aos tempos atuais. É comum encontrar grupos de amigos
tomando xeque-mate, famoso drink criado no Mercado, registrando os momentos em
fotos, além de comer as especiarias mineiras.

Todos os projetos instalados ali passam por uma curadoria e precisam respeitar a
identidade, instalações e intervenções no prédio. Embora as mudanças tenham trazido um
novo vigor ao mercado, é inevitável não ter um sentimento nostálgico para as pessoas
mais velhas ao revisitar esse espaço. O Mercado Novo de hoje é um reflexo da sociedade
em constante evolução, onde as tradições se fundem com as novas tendências, criando
uma atmosfera contagiante.

O público de 15 mil pessoas por semana do Velho Mercado Novo de Belo Horizonte
mudou ao longo dos anos, mas a magia e o encanto do lugar permanecem, isso é fato. É
um local onde as gerações se encontram, trocam experiências e celebram a diversidade.
O Mercado continua sendo um ponto de encontro que une pessoas de diferentes origens e
estilos de vida, onde histórias antigas se misturam com novas.

 

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Por Luiz Felipe Jerônimo

Era uma vez uma menina chamada Maria Cecília, que vivia no interior de Minas Gerais, numa cidade tão pequena que tinha mais galinhas do que seres humanos. Desde pequena, Cissa – apelido de Maria Cecília – sonhava em ser jornalista, para levar as notícias do mundo para sua cidadezinha.

Maria Cecília. Foto: Ingrid Vidotti.

Com o passar dos anos, o sonho de Cissa se tornava cada vez mais forte. Ela sabia que precisava ir além das notícias do jornal local e ir em rumo à capital, Belo Horizonte, onde a magia das grandes reportagens acontecia. Empacotou seus sonhos em uma mala e partiu em busca de seu futuro promissor.

Chegando à capital, ela se encantou com a imensidão dos prédios e a agitação das ruas. Tudo era novo e empolgante. Ela se matriculou em uma universidade e mergulhou de cabeça nos estudos, louca para aprender tudo sobre seu amado jornalismo.

Mas, como nem tudo são flores, Cissa logo descobriu que a vida na capital tinha seus desafios. O sotaque carregado do interior atraía olhares curiosos e, às vezes,  comentários cômicos. Cissa decidiu levar tudo na esportiva e passou a usar seu jeito “mineirês” para arrancar risadas dos colegas.

Logo no primeiro dia de aula, ela chamou atenção ao responder uma pergunta do professor. “Uai, sô, eu sô de lá do interior, uai. Aqui é tudo muito grande e corrido demais pra nóis. Mas tamo aqui pra aprendê, né!?” As risadas se fizeram presentes na sala de aula, e Cissa percebeu que seu jeito divertido poderia conquistar as pessoas. Ela se tornou a “mineirinha do jornalismo”, com suas expressões engraçadas e histórias divertidas da vida no interior.

Durante os anos de faculdade, Cissa se dedicou ao máximo, estudando, fazendo estágios e escrevendo matérias que chamavam atenção. Ela se destacou, não apenas por sua personalidade contagiante, mas também por sua habilidade de contar histórias com paixão.

Quando chegou o tão esperado dia da formatura, ela estava radiante. Ela tinha conquistado seu diploma e estava pronta para encarar o mundo jornalístico. Com seu sotaque e suas histórias mirabolantes, Cissa se tornou uma personalidade querida por todos os lugares onde passava.

E assim, a menina do interior de Minas Gerais, com seu jeito peculiar e engraçado, conquistou o coração de todos, realizando seu sonho de ser jornalista. Cissa mostrou que não importa de onde você vem, o importante é acreditar em si e levar um pouquinho de alegria para o mundo.

Maria Cecília conseguiu um emprego como repórter na maior emissora de Minas Gerais, mesmo com sua personalidade formada no interior. Cissa agora subiu mais um degrau na escada de seu sonho, provando que não é necessário deixar de lado os ensinamentos absorvidos em São Gonçalo do Rio Abaixo.

Foto: Maria Cecília Nepomuceno.

E assim, encerro essa crônica com a certeza de que Cissa, a “mineirinha do jornalismo”, continuará espalhando seu jeito divertido e encantador, trazendo sorrisos por onde passa, e nos lembrando que a vida pode ser muito mais leve quando temos um toque de humor nas nossas histórias.

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Por Júlia Garcia

Era um domingo de Páscoa. A menina esperava ganhar muitos ovos e chocolates. Além das guloseimas, um almoço especial era desejado por ela. Mas, ao contrário de seus desejos, a garota recebeu bolas. Isso mesmo, bolas! Mas, como assim? Bolas de chocolate como aquelas que ela adorava na infância? Não! Bolas em que os jogadores chutavam nos estádios espalhados pelo mundo. 

Primeiro jogo era um clássico de seu estado. Ela torcia por algum time? Não. Mas decidiu assistir para secar seu rival. Infelizmente seu secador estava com defeito e por isso, trocou de canal e foi assistir outro clássico, este que era de seu estado favorito. FlaxFlu, um clássico digno de pipoca e cerveja. Até mesmo chocolate, que poderia casar com o domingo pascoal. Mas, não havia restado nem a casquinha da barra em que tinha comido logo cedo.

Opa, e o clássico carioca? Voltando nele! Primeiro tempo, dois gols do Fluminense. Aguardava ansiosamente o segundo para saber se dessa vez, um time querido iria ganhar. E não é que deu certo? Fluminense bicampeão carioca. Venceu por 4×1! Mas e o chocolate, será que ela ganhou mais algum?

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Por Eduarda Boaventura

Aos 7 a menina ficava na frente da televisão vendo o DVD do show da sua ícone. Enquanto Shakira performava hips don’t lie, a menina dançava sonhando em ser ela. Aos 10, viu uma reportagem sobre uma garota que fez várias cirurgias plásticas para ficar igual a Barbie e contou para a família inteira que ia tirar uma costela para ficar com a cintura fina igual a boneca e a cantora. 

Cantora Shakira. Foto: ADN Rádio/divulgação.

Ainda aos 10, sua mãe levou ao cabeleireiro e as duas foram persuadidas a fazer progressiva e assim ter o cabelo liso, sendo mais fácil de cuidar, de acordo com a profissional. Nesta mesma época, o cabelo estava estranho, vivia com ele preso e se comparando às meninas da sala. Mas continuava ouvindo a cabeleireira e de 3 em 3 meses passa no cabelo um produto que fazia seus olhos arderem. Sua tia elogiou o cabelo, disse que o outro dava a impressão de mal cuidado, selvagem, agora a menina ficava linda e delicada. Essa mesma tia começou a fazer comentários sempre que visitava a sobrinha. “Está engordando” disse uma vez “se cuida enquanto ainda é nova porque depois fica mais difícil perder essa barriga”. 

No seu aniversário de 13 anos, a tia perguntou para sua mãe, na sua frente, se não ia olhar uma academia. A menina começou a fazer natação na semana seguinte. Um dia qualquer, uma amiga da escola, que tinha o cabelo claro e liso até a cintura, levou uma revista mostrando uma modelo parecida com ela. A menina começou a reparar, não via o seu tipo em lugar nenhum.

Neste mesmo ano foi para outra cidade, e por conta da mudança e sem conhecer nenhum salão, ficou um tempo sem alisar o cabelo. A menina que estava se transformando em adolecente não estava se importando com o cabelo diferente que crescia, até na escola nova chegar um menino e a chamar de Simba. Comparada com um leão, ela odiou o volume do cabelo novo, chegou chorando e marcou um horário o mais rápido possível. Até chegar o dia teve que aguentar os novos apelidos, Simba foi o mais usado, às vezes era chamada de cabelo ruim, duro. Quando voltou ao liso tradicional, foi uma surpresa quando pararam de falar do seu cabelo e começaram a falar do seu corpo. Afinal, se ela tinha resolvido o problema anterior para que achar outro? 

Ficou um ano ouvindo o que todos os colegas de sala tinham a dizer e fazendo o melhor para melhorar. Ela “tinha barriga” então toda manhã fazia abdominal antes das aulas, ela tinha “bunda grande” então usava calça larga para disfarçar, era “muito alta” e não usava nada além de tênis e chinelo, “sobrancelha muito fina” e antes de sair de casa passava um lápis para engrossar.

Com 14 anos, pediu à mãe para fazer descolorir os cabelos escuros em loiros para parecer as mulheres que admiravam. Neste mesmo ano, de presente, a tia deu um sutiã com espuma, que dá a impressão que tinha mais seios e a jovem adorou, usava sempre que ia sair. Ela e a tia ficaram mais próximas, faziam algumas dietas que via na internet e a tia perguntava se ela não ia colocar silicone igual as mulheres da família tinha mania de fazer. A jovem tinha medo de fazer qualquer procedimento, então dizia que iria olhar só para a outra não ficar perguntando. 

Até meus 22, a adolecente que virou mulher, ia rigorosamente ao salão para manter a cor clara e as mechas lisas. Acordava mais cedo para ir na academia antes do trabalho, montava o cardápio da semana, não ia em festinha porque sabia que ia furar a dieta, não saia com os amigos para não ficar na tentação de beber uma cerveja.

Perdida tanto tempo, tanto sono, tanta coisa, se perdia, e mesmo sendo igual as mulheres das propagandas se sentia diferente. Perdeu a vida, a emoção, e depois de muita terapia viu que teria que perder a voz da tia na sua cabeça. Decidiu se encontrar, sem se forçar além do necessário, sem se procurar em outras pessoas, sem ouvir o que os outros tinham a dizer. 

Procurou ajuda de médicos e especialistas, conversaram e ela tirou uma pressão de viver todos os segundos do dia sendo “saudável”. Comeu pizza em uma terça, saiu do com os colegas de trabalho na sexta e bebeu, passou o sábado chorando, no domingo recordou que o progresso é trabalhoso e se vive um dia de cada vez. 

Demorou a tomar coragem, olhou salões, marcava e desmarcava horários, só de pensar chegava a chorar. Um dia qualquer mexendo no Instagram, apareceu uma postagem da Shakira, em que a cantora ainda era adolescente, antes da fama. Os cachos eram diferentes mas a cor era tão escura quanto a sua. A mulher voltou a sentir uma menina, que não sabia o que fazer com o cabelo. 

Ela, sozinha em casa, decidiu ser livre. Se livrou da progressiva, das mechas claras, da pressão, do medo. Sentiu o vento na nuca e riu. Finalmente ouvindo sua voz.

Buscou na internet inspirações, produtos para cuidar, pessoas que pareciam com ela. E aos 26, comemorando seu aniversário, a mulher cantava em um karaokê, e imitava a Shakira sabendo que era tão única quanto ela

Encontrou a sua voz depois de tanto tempo, de tanto ouvir as vozes dos outros. 

A mulher que se encontrou em uma confusão de cachos cacheados e nas curvas de seu corpo.

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Por Guilherme Guimarães

Ser um gay padrão é uma expressão que tem sido usada por algumas pessoas para se referir a indivíduos que se encaixam nos estereótipos tradicionais associados à homossexualidade, como comportamentos e interesses tidos como “femininos”. Esse termo, no entanto, é considerado problemático por muitas pessoas LGBT+ por reforçar ideias limitadas e estereotipadas de como as pessoas gays “devem ser”.

De maneira geral, as pessoas gays enfrentam desafios em relação à sua orientação sexual, independentemente de se encaixarem ou não nos estereótipos. Esses desafios incluem a discriminação e o preconceito em várias áreas da vida, como no ambiente de trabalho, em espaços públicos e na vida familiar e social. Além disso, a violência contra pessoas LGBT+ é um problema sério e preocupante em muitos países.

No entanto, é possível que pessoas gays que se encaixam nos estereótipos tradicionais possam enfrentar desafios adicionais em relação a outras pessoas LGBT+. Por exemplo, elas podem ter dificuldade em serem levadas a sério ou respeitadas em ambientes masculinos, como em esportes ou trabalhos em que é esperado um comportamento mais “macho”. Elas também podem enfrentar o preconceito dentro da própria comunidade LGBT+ devido à percepção de que elas reforçam estereótipos negativos sobre pessoas gays.

Em resumo, ser gay padrão pode levar a desafios adicionais em relação à discriminação e preconceito, bem como à pressão para se encaixar em certos estereótipos. No entanto, é importante lembrar que cada pessoa LGBT+ é única e enfrenta desafios específicos em relação à sua orientação sexual. A diversidade dentro da comunidade LGBT+ é uma de suas maiores forças e deve ser celebrada e respeitada.