Crônica

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Por: Ruan Rodrigues

Maria Odete Magalhães Pinto era minha vizinha de frente, uma senhora de 60 anos, que morava sozinha, e usava adesivos de nicotina. No entanto, ela não era apenas uma senhora fumante qualquer. Maria Odete era a personificação do cigarro. Magra como um graveto, pálida como um copo de leite desnatado, tinha um cheiro curioso de alho com Marlboro vermelho e naftalina. Sempre carregava um grande sorriso no rosto, que, de longe, era realmente fraternal, mas, ao chegar perto, víamos que sua valiosa prótese dentária dourada – sobre a qual tanto se gabava para as demais senhoras do bairro – não tinha quilate algum.

Em nossa família, ela tinha o carinhoso apelido de Maria Fumaça. Tia Mafu era como eu e meus irmãos a chamávamos. Uma vez, ela me deu carona ao voltar da escola. Tinha o carro mais chique do bairro, um Toyota Corolla 2006, automático. No frio ou no calor, o ar-condicionado sempre estava no máximo. Ela só abria o vidro em duas hipóteses: xingar outros motoristas de barbeiro, mesmo errada, em 90% das vezes, e fumar seu Marlboro vermelho. Naquele dia, contei sete cigarros, da escola até lá em casa. Hoje, sei que, desses sete, fumei, passivamente, ao menos seis. Talvez, esse seja o motivo de minha inaptidão em esportes, desde sempre.

Tia Odete era como ela adorava ser chamada. Suas roupas eram todas furadas pelas brasas dos cigarros. Seus beijos, quentes; suas mãos, frias como as de alguém que já morreu. Eu adorava ir a sua casa aos sábados, e ver a disposição dos cinzeiros em cima de cada móvel, em cada cômodo. Uma vez, ela me mostrou todo seu arsenal tabagista: cigarros mentolados, cigarrilhas Talvis, isqueiros Zippo cromados, e, até mesmo, as piteiras de sua época de menina moça. Me mostrou, também, uma foto em que jurava estar a cara da Audrey Hepburn, com seu colar de pérolas, em um vestido longo, cinza, quase preto, por trás da fumaça.

Minha mãe nunca me falou sobre não fumar. Eu sempre soube de seu ódio incondicional por cigarros, mas ela nunca me falou, abertamente: não fume! Quando eu tinha 12 anos, estava brincando de fumar na sala, mas só com gestos de tragar. Tia Mafu olhou para mim e perguntou: “Você quer fumar!? Pra ficar igual à Maria Fumaça, sem saúde, e morrer cedo???”. Claro, com toda a sabedoria que o medo traz, respondi que não, mas, no fundo, no fundo, eu sabia que queria.

Para minha mãe, a tia Odete era o próprio aviso de advertência que vem atrás do maço: “Não fume: esse produto causa câncer”. E, para mim, ela era incrível, como as propagandas de cigarro dos anos 1980.

Aos 15, sucumbi a esse desejo latente. Eu sempre achei tão elegante! A fumaça subindo, o cigarro queimando e um gosto quente em minha boca, um gosto horrível. Pensei que, talvez, não estivesse fumando o cigarro certo. Aguardei o sábado, e lá fui eu, à casa de tia Mafu. Esperei que ela fosse ao banheiro e, de seu maço já aberto, peguei dois cigarros, com a certeza de que jamais perceberia algo. Para mim, era fácil demais, como roubar doce de criança. Não sabia, porém, que essa criança era o próprio bebê fumante da Indonésia.

Quando tia Odete voltou do banheiro, pegou seu maço e, na hora, percebeu que faltava um de seus preciosos Marlboros. Perguntou se peguei e me fez devolver, no mesmo segundo. Entretanto, entreguei só um dos dois que tinha pego. Depois da lição de moral, voltei para casa, e esperei a madrugada. Com uma caixa de fósforo, risquei e traguei. Mesmo não sabendo tragar, me senti o Snoop Dog.

Com 18, me tornei o desgosto da família. Minha mãe, perplexa, não entendia como seu filho, criado a Danoninho, agora, fumava. Um dia depois de contar para minha família, fui até a casa de tia Odete, à espera de apoio dessa senhora de 72 anos, que fumou a vida toda. Ainda me lembro de suas palavras, claras como os fios brancos da raiz de seus cabelos. Ela me olhou nos olhos e disse: “Você tem certeza de que é isso que quer? Esse é um caminho sem volta!”.

Depois da conversa, ela me deu um presente. Um charuto, contrabandeado, na Itália, por seu falecido marido, expedicionário da FEB, ao lutar na 2ª Guerra Mundial. Fumamos. Nesse dia atípico, ouvi os sábios conselhos de uma velha que contribuiu mais para o efeito estufa que o próprio agronegócio.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

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*Por Jéssica Oliva

Ao me levantar, pela manhã, sinto como se fosse uma borboleta, em suas fases até a libertação. A rotina se torna rotina, a janela do quarto continua sendo uma janela. E o sol das dez? Ele nunca será o mesmo. A cada dia que passa, o Sol tem características alteradas. Posso sentir quando ele exala tristeza, ou alegria. Em tempos de pandemia, o Sol tem ficado tão, mas tão quente!, que chega a rachar a minha pele.

Antes, eu corria para vê-lo entrando pelas frestas de minha janela, logo ao amanhecer. Sentia o vapor na minha pele, e logo me deitava diante dele, para me sentir melhor. Hoje, só tenho corrido para sair do quarto, sair da sala, sair do banheiro, pois tudo tem sido tão monótono que não consigo me movimentar como antes. A mistura de sentimentos aparece, as crises são expostas por sensações de desespero e inquietação, e o medo toma conta do meu Sol. Não posso sair à rua, não posso me movimentar. Às vezes, não consigo nem respirar.

Já não sei como me sinto. Os quatorze dias já viraram cem. Minha alma foi roubada, assim como meus sentimentos, minha disposição… Tenho me sentido como um objeto. O quarto fica escuro, o sorriso já não vem mais, e a vontade de sentar numa mesa de bar, e pedir uma cerveja, também já não existe. Por onde anda toda essa vontade, se não tenho sequer um minuto para abraçar meus entes queridos? Esqueci a sensação do abraço, do apego, do desapego, de estar ou não apaixonada. Tudo isso me foi tirado. Já tentei convencer o Sol de sua beleza estonteante, já lhe disse o quão importante é. Meus cabelos brilhavam, ao me pôr de frente para ele; meus olhos reluziam, ao ver raios de luz atravessando as ruas, os comércios, e a minha casa.

O vento já não vem mais, o frio chega devagar, atravessa as paredes das casas e arrepia a pele. O sentimento de perda chega a ser indolor, quando a dor já nem se é sentida mais. As valas são cavadas como buracos nas plantações de flores, a luz amarela, que vem do céu, já não reluz e reflete nos esquifes expostos ao chão. A terra é derramada junto às lágrimas de saudade. Os minutos parecem horas, e o adeus se torna, apenas, a Deus. Milhares de perguntas são feitas, e minha cabeça já não absorve sequer a soma de um mais um. A história fica, literalmente, no passado; mas e daí? Talvez, meu corpo atlético sobreviva a toda essa experiência obrigatória; talvez, eu tenha que derramar mais lágrimas para o Sol voltar.

A falta é tão grande que, quando escuto o som do famoso “Money”, a cabeça vibra e a verdadeira aglomeração começa. Talvez, eu precise viajar cinco mil quilômetros para escutar esse som tão esperado e almejado. Às vezes, fico parada na janela do quarto, e sinto que estou vivendo como no “Mito de Platão”: me sinto em uma caverna, mas a única diferença é que posso ver as pessoas falando comigo, através da TV ou do rádio. Todos falam sobre o Sol, e sobre quando ele voltará. A idealização da liberdade vai e volta de meus pensamentos. A perna chega a tremer em pensar. A sensação deve ser maravilhosa, mas ainda não sei dizer qual é. O tempo vai se fechando e a única certeza que tenho é de que os raios de luz não entrarão por minha janela tão cedo. As máscaras não cairão, e eu ainda estarei presa por uma grade, que me separa das ruas e do meu Sol das dez.

Meu cabelo não vai brilhar, meu corpo não vai se tornear, minhas unhas não crescerão, meu sorriso não vai se abrir espontaneamente, mas sei que uma vida vai ver a cor dourada que nasce todas as manhãs, vai respirar, vai gritar, sorrir, abraçar, amar, gostar e desgostar. Essa pessoa vai acreditar na liberdade, na pureza da vida, usará máscaras e álcool em gel, vai se preocupar com o próximo, e vai se doar em prol de outras vidas.

A vida não é uma peça do quebra-cabeças, mas também não é um leite derramado. A vida é importante para quem respira, grita, chora. Talvez, seja importante para mim, mas gostaria que fosse importante assim como uma flor que nasce, um bebê que chora, uma idosa que sorri. E como o Sol que entrava, todo os dias, pela minha janela.

 

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

 

 

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Por: Thainá Andressa Hoehne

Quem nunca sentiu extrema revolta diante do anúncio de um fenômeno completamente raro e incrível no céu, para, na hora “H”, nada existir além de nuvens pairando, cobrindo toda a expectativa?

Inesperadamente, quando a gente não se dá conta do que está por vir, somos pegos de surpresa, como na chuva de meteoros que inundou o céu em dezembro de 2019.

“Observadores poderão ver de 50 a 150 meteoros por hora, dependendo do local”, dizia a manchete. Com razão, não me preocupei em me programar para o show, já a imaginar que, mesmo se esperasse a hora exata, não seria capaz de ver algo, fazendo a notícia cair, rapidamente, em esquecimento.

Contudo, numa madrugada qualquer, sem motivo algum, me levanto entre as duas e três da madrugada e decido tomar um ar. Foi o que fiz. O “ar que fui tomar”, aliás, foi todo embora quando me peguei a observar vários pontos luminosos caindo do céu. No momento, nem me dei conta de que acabara de presenciar algo que já havia sido noticiado. Ao me recordar da notícia, só pensava que, se tivesse planejado, não daria tão certo. Vejo meteoros, logo existo.

Chuva de meteoros não é como nos filmes. Para quem já viu estrela cadente, basta imaginar várias delas caindo ao mesmo tempo. Nada absurdo, mas totalmente surpreendente. Um encanto sutil, que gruda na cabeça, como o flagrante de um momento único, que dificilmente se repete. Aqueles momentos que gostamos de viver, sem sombra de tédio.

Por falar em tédio, estamos, agora, imersos numa pandemia. A humanidade está amedrontada com o novo coronavírus, e, com certeza, o Brasil nunca esteve tão entediado, sem futebol, sem festa e sem buteco. Álcool? De preferência, em gel, e 70%! Ou para espantar o tédio de ficar em casa, afinal, devemos respeitar o isolamento social.

Acontece que, numa dessas, decidi ir a um monte, para assistir ao pôr do sol. Uma montanha bem alta, que serviu como opção para sair um pouco de casa, já que, mesmo antes da pandemia, eu ia até lá para me isolar. Ao cair da noite, as estrelas começaram a se mover, numa imensa fila, que parecia infinita. Quando as primeiras estrelas sumiam na escuridão, outras tantas apareciam, enfileiradas e brilhantes.

Boquiaberta, olhava para o céu, a imaginar soluções para a incógnita em minha cabeça, que iam de óvnis a um exército alienígena. Decidi procurar informações sobre o que poderia ser aquilo. Mal esperava que se tratava de, nada mais, nada menos, do que Starlink. Conversa de doido? Não! Era só eu, novamente, caindo de paraquedas num desses eventos que ocorrem no céu, sem mesmo saber do que se tratava.

Paralelamente à grave situação que o mundo enfrenta, um projeto do bilionário Elon Musk cruzou o céu do Brasil, como um trenzinho de estrelas, enganando muita gente, inclusive eu, que me sentia como uma senhorinha do interior a observar, pela primeira vez, a passagem de um avião.

Eram mais de sessenta satélites, cuja visibilidade é relativamente rara, já que a Starlink só pode ser vista, a olho nu, durante as três ou quatro semanas seguintes de seu lançamento. Futuramente, se tudo der certo, o projeto pode chegar a quarenta e dois mil satélites lançados, que circundarão a órbita terrestre  formarão um sistema global que poderá fornecer internet de alta velocidade, inclusive, a áreas rurais ou remotas.

Confesso que, após a descoberta do plano de Elon Musk, fiquei dividida. Por um lado, a humanidade se afunda em notícias ruins, assolada pelo número assustador de mortes pela covid-19, que parece não ter solução. Ao mesmo tempo, admiro a incrível capacidade humana de investir na ampliação do acesso à internet.

Em contrapartida, muitas pessoas não terão a oportunidade de olhar para o céu e presenciar algo tão benéfico à humanidade, já que estão vivendo um caos, que, em parte, pode ter sido gerado por nossa dificuldade em encontrar soluções que possam salvar vidas – ou, quem sabe, pela falta de investimentos bilionários em pesquisas da saúde.

Experimento a sensação de estar presente entre a calamidade e o brilho da nova era tecnológica. É como estar entre a vida e a morte.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por Dara Alamino

Domingo, 05 de julho.

Na verdade, já são 06, 1h05 da madrugada.

Hoje, tirei aquele característico cochilo das tardes de domingo da tradicional família brasileira. A última vez em que fiz isso? Sinceramente, não sei. Dormi tão de mau jeito que meu ombro esquerdo está doendo bastante. Com qualquer mínimo movimento, meu pescoço faz questão de me lembrar de todos os nervos que passam por ele.

Acordei com a boca aberta, sem noção de qual horário é e de onde estava. Demorei alguns segundos para me localizar, e demorou pouco tempo para que percebesse que eu sentia, no braço, uma das piores câimbras da minha vida. A sensação era terrível: muita dor e um incômodo surreal.

Dava pra ver como as tranças marcaram muito minha pele, e, sem querer, algumas ficaram enroladas em meu pescoço. Um dia, isso ainda vai me matar sufocada. Ao mesmo tempo em que sentia a dor e o incômodo, não conseguia, de jeito nenhum, fazer com que meus braços se movimentassem de acordo com os comandos dados por meu cérebro.

Demorou alguns minutos para que eu conseguisse fazer pequenos e superdoloridos movimentos.

Por ter dormido de dia, agora à noite, não estou com tanto sono, como de costume. Normalmente, sou muito boa em dormir em menos de dois minutos após me deitar. Lembro-me de ter almoçado com a minha família, um almoço tradicional, regado a vinho, caipirinha e cerveja. É um costume, e quase uma regra, para nossos almoços de domingo. Depois dele, vim ao quarto e fiquei um pouco na janela, a sentir o ventinho frio e a pensar em vários nadas, em absolutamente nada.

O bairro onde moro se chama Heliópolis, e é conhecido como “a cidade dos ventos”. Dizem, por aí, que “hélio”, em grego, significa “ventos”, e que “polis” quer dizer “cidade”. Isso explica por que venta tanto aqui. Contudo, nunca apurei, ao certo, esse fato. 

A ideia de pegar o computador, a essa hora da madrugada, veio quando saí da janela e fui para a frente do espelho. Fiquei um bom tempo me olhando de corpo inteiro, e com vários pensamentos. Pensamentos aleatórios, impossíveis de escrever na ordem cronológica.

Pensei no quanto amo minhas tranças, extremamente longas, e no quanto amo o fato de elas terem me libertado de um padrão estético absurdamente prisioneiro. Pensei nas prisões que ainda hoje carrego.

Pensei no quanto amo ter um namorado na quarentena. Pensei no quanto engordei desde que fui obrigada a me isolar em casa, após perder um emprego no último ano de faculdade. Eram 10 kg a menos, que ficam bem nítidos em fotos antigas. Pensei no quanto o “interno” pode se refletir no “externo” – mas observei bem as marcas, cicatrizes e tatuagens que já fiz ao longo da vida. Lembrei de muitas coisas que já passei e passei. 

Pensei no quanto, hoje, tenho consciência de não me prender em padrões estéticos, mesmo que me incomodem, muito, meus quilos a mais. Aliás, foram resultados de dias de desequilíbrio, o principal fator com o qual devo me preocupar.

Pensei no quanto acho meu corpo bonito, mas buscando defeitos, e não qualidades, em fotos que tiro, e em roupas que uso, principalmente, as muitas que já não servem mais.

Pensei, também, que tenho feito atividades físicas em casa, e me alimento melhor. Penso, contudo, se o faço para meu bem-estar, ou se, na verdade, seria para tentar, mesmo que inconscientemente, ter aquele corpo antigo,.

Pensei no quanto cresci como mulher. Pensei, também, no quanto é forte saber que já sou uma mulher, e não uma menina que sonhava muitas coisas, mas, ao fim, sabia que não iria conseguir conquistar nem metade.

Pensei no quanto essa menina estava enganada e, hoje, coleciono experiências que nunca imaginei viver.

Pensei se a menina de 10 anos atrás realmente teria orgulho da mulher de hoje, ou se iria se decepcionar pelos “ene” planos que não deram nada certo ou pelas “ene” vezes em que fiz papel de trouxa.

Pensei no quanto tenho muitas coisas a fazer de faculdade, mas não consigo ter energia, vontade e cabeça para tal.

Pensei no quanto estou com (muito) medo real de morrer nessa quarentena.

Pensei no medo de perder alguém que amo para esse coronavírus.

Pensei no quanto senti a falta de meus amigos nessa quarentena. Mas pensei, também, no quanto não ando tendo paciência para ficar nas redes sociais, para dialogar por WhatsApp ou realizar qualquer outra interação digital.

Enfim (pela segunda vez no texto, este enfim!)…

Deu para pensar em muita coisa, em um intervalo de pouquíssimos minutos me olhando no espelho. O silêncio da madrugada e a solidão da quarentena têm despertado diversos sentimentos e humores em mim.

Os pensamentos estão a mil! Mas sabe no que pensei agora? Por que, à tarde, não tiro outros tantos e tantos cochilos?

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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Por: Gabriel Barros

Três Pontas, Sul de Minas Gerais. Francisco Barros, meu pai, há mais de 30 anos, é radialista na rádio local da cidade, e, desde que eu me entendo por gente, tem um programa sertanejo diário, que começa às 5h e termina às 8h30. Logo depois de encerrá-lo, já começa a preparar um jornal de notícias diárias, que vai ao ar de 11h30 às 12h. Assim é a rotina do meu velho, em seu trabalho, que realiza com muito amor. Fiz essa pequena introdução, sobre o trabalho de meu pai, devido à grande influência que ele tem sobre a profissão que escolhi para exercer na vida: o Jornalismo.

Desde criança, me aventurava nos estúdios da rádio Sentinela FM. Mexia aqui, fuçava dali, até que, quando eu tinha 8 anos, meu pai resolveu me testar. Em 2007, fiz meu primeiro programa piloto, o “Turma da Bagunça”. E não vou mentir: ficava constrangido sempre que ouvia minha voz nas antigas caixas de som do “estúdio B” da rádio. Não gostava. Adorava assistir a meu pai trabalhando, mexendo naqueles milhares de botões, mandando o famoso “alô” para os ouvintes, mas não conseguia me enxergar fazendo tudo aquilo, àquela época.

Fui criado no meio do Jornalismo. E, a partir dos fatos que irei contar, descobri que, para ter sucesso num ofício, não basta ser um bom profissional. A paixão e o tesão pelo que se faz são essenciais para alcançarmos os objetivos traçados em nossos sonhos. O apoio que tive dos meus pais foi um grande diferencial para meu início de carreira. É importante, porém, levar em consideração que, em diversos casos, os pais oferecem grande resistência à profissão escolhida pelo filho. Debateremos isso ao longo da história.

Meu pai, junto a minha mãe, sempre me incentivou. Eu era resistente, contudo. Após a decepção com o programa piloto, meu pai tentou me inserir no meio jornalístico, com outras atividades. Gravei até propaganda para o dia das mães, em lojas da cidade: “Mamãe, eu te amo muito. Feliz dia das Mães!”. E, uma vez mais, ao ouvir minha voz gravada, não me sentia satisfeito. Fiz diversos spots para testar, aprimorar e trabalhar minha voz. E meu pai sempre a meu lado.

Passaram-se os anos, e fiquei na geladeira. Meu pai me deu um tempo, para, realmente, decidir o que eu queria. A paixão pelo Jornalismo, porém, habitava em mim, de maneira bem tímida, mas não conseguia enxergar o futuro, e não estar inserido no meio. Até que, em 2016, no auge de meu ensino médio, último ano de escola, e de cursinho preparatório para o Enem e o vestibular, meu pai, uma mais vez, me testou. No dia 23 de setembro, em Três Pontas, é realizada a Festa do Beato Padre Victor, evento religioso que envolve toda a população da região. A rádio Sentinela FM aparece de novo no cenário, juntamente a meu pai, que me chamou para ajudá-lo na cobertura jornalística do evento.

Um misto de nervosismo, animação e adrenalina tomou conta de mim. Mens desinibido, mas ainda bem contido, iniciava, ali, às 15h do dia 23, na praça da Matriz, minha jornada em busca de depoimentos de romeiros que tinham história em particular com o Beato Padre Victor. Daquele modo, ao lidar com pessoas de diversas cidades, estilos e hábitos, meu sonho de ser jornalista, finalmente, aflorava. A emoção das pessoas, ao me contar suas histórias, me fez voltar e lembrar do quão emocionado eu ficava, ao assistir meu pai a trabalhar…

No final da cobertura, às 19h, cheguei à rádio com a memória do gravador – aqueles “tijolões” da época – bem cheia. E, quando fomos passar os áudios ao computador, para editarmos e já prepará-los para ir ao ar, pela primeira vez, não fiquei desconfortável com minha voz nas caixas de som, agora no “estúdio A”. Fiquei, em verdade, muito feliz com o resultado. E a alegria não vinha, apenas, do fato de minha voz parecer menos “estranha”. Ali mesmo, ao olhar para o lado, meu pai, com os olhos carregados de lágrimas, me parabenizou pelo trabalho e disse: “Que orgulho, meu filho”. Aquilo foi a virada de chave para seguir meu sonho.

Não sei se, ao final deste relato sobre minha vida, você se identificou com algo. Fato é que a paixão levou-me a esta linda profissão. Falo da paixão por assistir a meu pai trabalhando, e da paixão das pessoas ao serem entrevistadas. E da paixão que, hoje, meus pais têm por mim, por ter seguido minhas convicções.

Hoje, no último ano da faculdade de Jornalismo, relembro tudo o que já vivi, e não me canso de agradecer, a meu pai, pelos puxões de orelha, pela paciência e pelo respeito que sempre teve comigo. E pelo tempo que tive para absorver o que desejava em meu futuro. Levarei comigo os aprendizados de meu pai e de minha mãe. Além de me educar e fazer de tudo por mim, eles me fizeram – e ainda me fazem –, acreditar que a profissão que escolhi pode transformar o mundo em um lugar mais plural, harmônico e democrático.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.