Crônica

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*Por Moisés Martins

Desde a descoberta do vírus SARS-CoV-2, conhecido como Covid-19, a humanidade passa por momentos difíceis, esse ser invisível foi capaz de mudar a vida e o destino de todos.

Logo, uma das medidas de segurança adotada pelo governo de Minas, foi esvaziar as escolas públicas e privadas. Eu pergunto: Onde estão nossas crianças, aquelas que muitos dizem ser o futuro da nossa nação?

Eu busco respostas para essa pergunta todos os dias, ao olhar pela janela e ver uma escola completamente abandonada, a alegria que aqui existia tomou lugar para o silêncio e uma solidão sem fim. Os gritos e as conversações cessaram, por aqui é como se o tempo estivesse parado.

Durante o dia os pássaros cantam, e a noite ouço o estridular dos grilos, uma sinfonia animal tomou conta dos espaços que antes eram habitados por jovens e crianças do ensino médio e fundamental. Quando chega a noite, as luzes tentam iluminar o lado mais sombrio de uma escola vazia, é uma tristeza que parece não ter fim.

Com a ajuda de fenômenos da natureza, principalmente as chuvas, os matos têm crescido cada vez mais, e a poeira nos vidros das janelas aparenta cada vez mais um ar de lugar esquecido.

Nossas crianças, estão “presas” dentro de casa, ligadas ao mundo virtual e circundadas da tecnologia, enquanto os pais se submetem todos os dias a pegar conduções completamente lotadas para ir ao trabalho, correndo sérios riscos de terem contato direto com o vírus. Hipocrisia? Talvez!

Mas a economia precisa se manter, os pais e mães de família precisam levar alimento para dentro de casa, e a educação e o ensino se mostram cada vez menos importantes nesse país capitalista que visa somente o lucro.

Em casa, só os que possuem acesso a internet recebe informações e aulas online, uma pesquisa publicada em 29 de abril de 2020 pela Agência Brasil, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), juntamente com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação

(Pnad Contínua TIC), mostra que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não acessam a rede, um número bastante expressivo.

Em 2020 fomos pegos de surpresa, sofremos e tivemos muitas perdas, foi um ano muito difícil, mas acabou! E nele ficou toda a angústia e frustrações causadas pelo vírus.

O ano de 2021 chegou, e junto com ele a esperança da vacinação. Temos vacina! Ufa, que alívio. Agora, será quanto tempo mais nossos jovens vão demorar para retornar às escolas? Quanto a essa resposta, acredito que vamos ter que aguardar mais um pouco, já que o público jovem ainda não é prioridade no calendário de vacinação.

Aguardamos ansiosos para que todos os brasileiros se vacinem, e junto a isso, nossas escolas voltem a funcionar, cabe aos nossos governantes criar um plano de ação para que o ensino presencial volte gradativamente, e os alunos possam começar a correr atrás do prejuízo e do tempo perdido. Dias melhores virão, e em breve nossas escolas vão estar prontas para receber os alunos novamente, o sol há de brilhar e toda alegria perdida será restabelecida. Que não percamos a esperança!

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Hoje é dia de texto do e-book “Escrita Criativa: O avesso das palavras”, produto final do projeto de extensão conduzido pela escritora e  professora do Centro Universitário Una, Geanneti Tavares Salomon. 

A produção “Alice” é da estudante de Biomedicina, Gabriela Rocha Coutinho.

 

Alice

*Por Gabriella Rocha Coutinho

Sempre fui silenciada

pelo que existe de mais bonito em mim:

os meus excessos.

Essa tentativa de me chutar para dentro da caixa

de onde eu saí,

como se eu fosse domável.

A vida toda eu fui imparável.

A história real é muito vazia de malícia:

peco justamente por acreditar tanto.

Sou tão mais simples do que a imagem que pintam,

mas ninguém quer saber a verdade.

O quadro já está feito.

A voz incomoda

e todos os dias rompo novas grades

dessas prisões da vida.

Sempre fui de chutar as portas.

Algemas não me cabem.

Há uma gratuidade inadmissível

nessa mania de apontar dedo

e profanar ofensas.

É arrancar o meu chão

onde eu mais tinha fé

que a base era sólida.

Me transformaram em bala

e me disseram para encontrar a paz.

Me pedem palavras e compreensão

quando eu menos tenho controle.

Sou sozinha no escuro da noite

e sigo esperando por perdões que nunca vêm.

 

Sempre entreguei de graça,

passando a 130 no quebra-molas,

me colocando como o peso menor na balança.

Vesti a máscara de palhaço

e acordei outro dia sem mostrar nem uma lágrima.

Chega de me desmontar para te ver respirando

e sustentar seus traumas para que eles me ataquem.

Me disseram que o amor tudo suporta,

mas eu nunca vi nobreza nisso.

Escuto seu grito e não julgo necessário ficar.

Não existe amor

onde meus sentimentos

são enfiados para debaixo do tapete.

Sempre convivi com a ameaça do abandono,

mas nunca reconheci a minha própria força.

A verdade é que eu já estive

várias vezes

nessa toca de coelho,

mas eu me belisco:

nunca mais vou retornar.

Nunca mais serei a mesma passividade

que um dia eu fui.

Encontrei a superfície

e agora posso respirar.

Aprendi a nadar nesse mar de rumores.

 

Para acessar o e-book completo clique no link.

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*Por Moisés Martins

Antoine Laurent Lavoisier, conhecido como Lavoisier foi um grande químico do século XVIII, o parisiense se interessou pela ciência  e  tomou gosto pela química, e logo ficou conhecido por derrubar teorias científicas. 

Em 1777, era o princípio da conservação de massas, conhecido pela frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Hoje, em pleno século XXI, a então frase ainda é muito usada, e é por isso que resolvi usar ela para falar de transformação.

Do lado de fora da janela do meu quarto, me chama atenção um pé de Sechium edule, o famoso “pé de chuchu”, em algumas regiões recebe o nome de machucho, caiota e pimpinela, mas aqui, é só chuchu mesmo.

Mas vocês devem estar se perguntando: O que o pé de chuchu tem haver com transformação? É aí que começa a história!

Por se tratar de uma trepadeira herbácea (Plantas de caule macio ou maleável, normalmente rasteiro), o pé de chuchu necessita de um apoio superficial para que consiga crescer e se ramificar, o daqui de casa por exemplo cresceu sobre uma goiabeira.

No princípio havia a dúvida se o pé de goiaba seria sufocado pelos ramos, mas logo descobrimos que plantas trepadeiras não são parasitas, então optamos por deixar a natureza seguir o seu curso. Meses se passaram, e já não era mais possível ver as folhas e nem se quer o próprio tronco da goiabeira. O pé de chuchu tomou forma e logo veio a colheita.

Nos primeiros meses o chuchuzeiro surpreendeu a todos, teve mês em que foi colhido quatrocentos frutos, uma média de quinze por dia. Foi uma grande transformação, com tanta fartura, a felicidade de quem o plantou foi duplicada e famílias foram contempladas com a hortaliça que foi ganhando cada vez mais cuidado e atenção, além da fama.

Ninguém se quer lembrava do infrutífero pé de goiaba, nem mesmo os pássaros, que aproveitaram os raminhos fechados para fazerem seus ninhos e se reproduzirem, as borboletas faziam os seus casulos e os filhotes de Gambá ficavam escondidos nos emaranhados do chuchu, enquanto sua mãe os alimentavam. 

Uma verdadeira obra da natureza. Dia e noite quando olho para o chuchuzeiro vejo uma cena diferente.

Pela manhã, o lindo assobio dos pássaros me acorda, a noite o barulho dos grilos e gafanhotos me incomoda, mas isso me deixa feliz, vejo que na natureza nada se cria tudo se transforma.

Às vezes o perder se faz necessário para entendermos o poder das transformações, podemos não assimilar logo de imediato o que está acontecendo, mas quando olhamos para trás podemos ver o quão a mudança é linda se faz importante.

Hoje com a pandemia de COVID 19, e com o pedido de isolamento social para diminuir o contágio do vírus, as pessoas precisam ficar em casa. É necessário entender e olhar para trás, o mundo é outro, os olhares são outros, as prioridades já não são mais as mesmas, o tempo corrido já não existe mais. O que vai ser de nós no futuro? Estamos sempre em processo de mudanças e transformações.

O cenário não nos permite caminhar mais sozinho, o pensamento egoísta e o egocentrismo tomou novas formas, é necessário agora aproximação (mesmo que distante), é preciso ter empatia, escutar e entender o outro, só será possível erradicar esse vírus se a humanidade pensar e agir coletivamente.

Dentro de casa, buscamos afeto, o carinho de quem está do nosso lado, é como o apoio que o pé de chuchu precisa, sabe?. Estamos todos psicologicamente abalados, o momento é delicado precisamos de afeto.

Da minha janela, vejo todos os dias o verdadeiro exemplo de transformação, e é com a brisa gelada do vento batendo agora em meu pescoço, que encerro meu texto com a esperança de que dias melhores virão, que a humanidade entenda que tudo que estamos passando agora faz parte de uma transformação e que só colheremos os resultados positivos dessa crise mundial, no futuro. Às vezes a dor se faz necessária para que haja um bom aprendizado. 

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis

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*Por Ana Luiza Passos (aluna do curso de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário Una)

Desde que iniciou-se o isolamento social notei, principalmente nas redes, a crescente pressão em ocupar todo e qualquer tempo ocioso que temos. No início estava seguindo a receita ao pé da letra e depois de esgotar minha lista de atividades, o que me restou foi aquilo que antes era o que mais queria: tempo. E o tempo se mostrou um péssimo amigo. Ficar comigo mesma me obrigou a visitar algumas questões que, inconscientemente, evitava. Isso é nenhum pouco divertido.

Nós criamos distrações, fazemos de tudo para fugir de nós mesmos para não lidar com nossas dores. Mas sofremos ainda assim, a cada nova batalha travada, sangramos por razões que sempre se renovam. Nós apostamos e perdemos, amamos e nos magoamos. Um inquebrável ciclo centrado na nossa ideia do ‘eu’ e do ‘meu’. Construímos mil caminhos e esconderijos dentro de nós para fugir de nossos fantasmas, e, no fim, acabamos mais confusos e perdidos.

Uma parede com infiltração não deixa de estar danificada só porque colocamos um belo papel decorativo por cima. Enterrar os problemas com mil afazeres é apenas uma solução paliativa, não resolve e nem os faz, milagrosamente, desaparecer. Estamos cada vez mais doentes e o esforço para sempre aparentar estar bem é justamente o que está nos adoecendo. E se, ao invés de ignorar, nós olhássemos para nossos sofrimentos e os encarássemos, sem medo? Se lidássemos com as nossas questões a fim de entendê-las, será que ainda sentiríamos tanta dor? Nos mantemos em situações ruins por medo da mudança, do desconhecido. Mas nos escondemos tão profundamente de nós mesmos que nos tornamos desconhecidos. Nosso medo de encarar o que é real, muitas vezes é o que impede que nossas feridas se curem, o que nos atormentam o sono, o que nos corrói por dentro.

Talvez, nesse momento de isolamento social, o melhor mesmo seja desacelerar. Talvez não realizar várias atividades seja a coisa mais proveitosa a se fazer. Talvez repensar nossa vida, rever nossas prioridades, cuidar da nossa mente, do nosso emocional, seja a melhor ocupação para a quarentena. Talvez o que realmente precisamos é ser mais improdutivos.

 

*Revisão: Daniela Reis

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*Por Bianca Morais

São sete da manhã, e Chico se levanta da cama. Sua cabeça dói, todo seu corpo está doído. Para ele, nada mais faz sentido, pois está privado de sua liberdade. A voz, que tanto encantava o público, agora está rouca de tanto silêncio.

Chico toma café e sai à rua, tentando encontrar uma distração. Senta-se, então, no banco da praça, e observa, de longe, o bar do Gil, aquele lugar que antes lhe trazia tanta felicidade – pois que sempre cheio de pessoas, com mulatas a rodar as saias, amigos nos acordes de samba, violas nas ruas. E Chico a cantar. Mas eis que chegou a ditadura, carregando tudo embora.

A saudade é o que resta para Chico. Ele olha para o relógio rodando, acende um cigarro, e as lembranças de um tempo que não irá voltar tão depressa vagam por sua mente. O rapaz sentado, sozinho, no banco da praça, deseja que o relógio rode para trás, que nem roda, e o leve de volta aos dias ram melhores, quando seus amigos não estavam exilados, presos, nem mortos.

O tempo mudou num instante. Tudo que Chico havia construído, todas suas obras, suas artes, são, agora, censuradas. O trabalho – sua alegria, seu sustento – está proibido.

Chico quer ter voz ativa e, em seu próprio destino, mandar, mas eis que chega a ditadura e joga tudo pelo ar.

Chico, porém, tem esperança. Ele acredita num futuro melhor. E olha para o relógio novamente, e, dessa vez, deseja que o relógio vá para frente: 52 anos, especificamente. E eis que Chico se vê em 2020, com um jornal nas mãos, diante da manchete, escrita em grandes letras: MANIFESTAÇÕES PEDEM INTERVENÇÃO MILITAR. Ele se assusta, e pensa, consigo mesmo: “Que futuro é esse?”

Rapidamente, gira o ponteiro do relógio, novamente, para trás. Percebe que tudo foi uma ilusão passageira, e não quer acreditar que aquela prisão jamais iria acabar.

Por que não? Por que não?

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Por: Ruan Rodrigues

Maria Odete Magalhães Pinto era minha vizinha de frente, uma senhora de 60 anos, que morava sozinha, e usava adesivos de nicotina. No entanto, ela não era apenas uma senhora fumante qualquer. Maria Odete era a personificação do cigarro. Magra como um graveto, pálida como um copo de leite desnatado, tinha um cheiro curioso de alho com Marlboro vermelho e naftalina. Sempre carregava um grande sorriso no rosto, que, de longe, era realmente fraternal, mas, ao chegar perto, víamos que sua valiosa prótese dentária dourada – sobre a qual tanto se gabava para as demais senhoras do bairro – não tinha quilate algum.

Em nossa família, ela tinha o carinhoso apelido de Maria Fumaça. Tia Mafu era como eu e meus irmãos a chamávamos. Uma vez, ela me deu carona ao voltar da escola. Tinha o carro mais chique do bairro, um Toyota Corolla 2006, automático. No frio ou no calor, o ar-condicionado sempre estava no máximo. Ela só abria o vidro em duas hipóteses: xingar outros motoristas de barbeiro, mesmo errada, em 90% das vezes, e fumar seu Marlboro vermelho. Naquele dia, contei sete cigarros, da escola até lá em casa. Hoje, sei que, desses sete, fumei, passivamente, ao menos seis. Talvez, esse seja o motivo de minha inaptidão em esportes, desde sempre.

Tia Odete era como ela adorava ser chamada. Suas roupas eram todas furadas pelas brasas dos cigarros. Seus beijos, quentes; suas mãos, frias como as de alguém que já morreu. Eu adorava ir a sua casa aos sábados, e ver a disposição dos cinzeiros em cima de cada móvel, em cada cômodo. Uma vez, ela me mostrou todo seu arsenal tabagista: cigarros mentolados, cigarrilhas Talvis, isqueiros Zippo cromados, e, até mesmo, as piteiras de sua época de menina moça. Me mostrou, também, uma foto em que jurava estar a cara da Audrey Hepburn, com seu colar de pérolas, em um vestido longo, cinza, quase preto, por trás da fumaça.

Minha mãe nunca me falou sobre não fumar. Eu sempre soube de seu ódio incondicional por cigarros, mas ela nunca me falou, abertamente: não fume! Quando eu tinha 12 anos, estava brincando de fumar na sala, mas só com gestos de tragar. Tia Mafu olhou para mim e perguntou: “Você quer fumar!? Pra ficar igual à Maria Fumaça, sem saúde, e morrer cedo???”. Claro, com toda a sabedoria que o medo traz, respondi que não, mas, no fundo, no fundo, eu sabia que queria.

Para minha mãe, a tia Odete era o próprio aviso de advertência que vem atrás do maço: “Não fume: esse produto causa câncer”. E, para mim, ela era incrível, como as propagandas de cigarro dos anos 1980.

Aos 15, sucumbi a esse desejo latente. Eu sempre achei tão elegante! A fumaça subindo, o cigarro queimando e um gosto quente em minha boca, um gosto horrível. Pensei que, talvez, não estivesse fumando o cigarro certo. Aguardei o sábado, e lá fui eu, à casa de tia Mafu. Esperei que ela fosse ao banheiro e, de seu maço já aberto, peguei dois cigarros, com a certeza de que jamais perceberia algo. Para mim, era fácil demais, como roubar doce de criança. Não sabia, porém, que essa criança era o próprio bebê fumante da Indonésia.

Quando tia Odete voltou do banheiro, pegou seu maço e, na hora, percebeu que faltava um de seus preciosos Marlboros. Perguntou se peguei e me fez devolver, no mesmo segundo. Entretanto, entreguei só um dos dois que tinha pego. Depois da lição de moral, voltei para casa, e esperei a madrugada. Com uma caixa de fósforo, risquei e traguei. Mesmo não sabendo tragar, me senti o Snoop Dog.

Com 18, me tornei o desgosto da família. Minha mãe, perplexa, não entendia como seu filho, criado a Danoninho, agora, fumava. Um dia depois de contar para minha família, fui até a casa de tia Odete, à espera de apoio dessa senhora de 72 anos, que fumou a vida toda. Ainda me lembro de suas palavras, claras como os fios brancos da raiz de seus cabelos. Ela me olhou nos olhos e disse: “Você tem certeza de que é isso que quer? Esse é um caminho sem volta!”.

Depois da conversa, ela me deu um presente. Um charuto, contrabandeado, na Itália, por seu falecido marido, expedicionário da FEB, ao lutar na 2ª Guerra Mundial. Fumamos. Nesse dia atípico, ouvi os sábios conselhos de uma velha que contribuiu mais para o efeito estufa que o próprio agronegócio.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.