Crônicas

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*Por Izabela Avelar

Ao menos uma vez na semana, meu smartphone apita com uma notificação importante. Trata-se de meu relatório de tempo de uso do aparelho. Basicamente, ele me detalha quantas horas por dia eu permaneço conectada na rede, quais os aplicativos mais executados e por quanto tempo fico “dentro” deles. Vale ressaltar que essa opção foi ativada manualmente, ou seja, o próprio usuário é quem decide se quer ou não esses dados. Foi satisfatório quando li o último relatório. Descobri que permaneci 47 minutos a menos com o celular na mão, nos últimos sete dias – o que significou diminuição de 63% em relação ao mês anterior. Minha média diária não ultrapassa cinco horas.

Segundo levantamento feito pela Hootsuite e pela We Are Social, em 2018, o Brasil é um dos campeões mundiais em tempo de permanência na rede. O estudo diz que o internauta brasileiro fica, em média, 9 horas e 14 minutos conectado por dia. Desse modo, tenho ido contra as estatísticas, o que ótimo! Atribuo a mudança, principalmente, ao isolamento social, recomendado neste momento de pandemia. Já se passaram 45 dias. E, por falar em data, às vezes, me pego questionando que dia é hoje? Quantos dias tem esse mês? Quantas horas até o dia acabar? Como diz Sócrates: “Só sei que nada sei”. Logo eu, que sou absolutamente minuciosa quando se trata de calendários e prazos. Como pode? Além disso, sou entusiasta de toda aquela coisa de agradecer por um novo dia, por acordar novamente.

A questão é que os dias perderam o sentido, e as datas passam despercebidas. Não se tem liberdade para reclamar que é segunda-feira e o ônibus está cheio, seguir para a terça-feira no modo avião, ou à quarta, o meio da semana… Ufa! Quinta-feira é aquela expectativa de que se acabe, e, finalmente, a sexta-feira do sextar. Não dá para sair com os amigos, com o companheiro(a), nem almoçar com a família aos domingos. A semana perdeu suas peculiaridades. Saudade da rotina.

Onde está o mundo real? As ruas já não são as mesmas. Os rostos, agora cobertos com máscaras, não são os mesmos. Abraços e outras formas de carinho físicos estão fora de cogitação. O encontro dos cotovelos, até então esquecidos como parte do corpo, é a nova forma de se cumprimentar. O álcool em gel virou a nova companhia inseparável de nossas mãos. Saudade do afeto. Lembro-me de chegar em casa e ver a vizinha, que punha a cadeira para fora, em nome da fofoca, mas, agora, se atém a sua janela com grades. O universitário, que se ocupava, quase sempre, de reclamar do semestre, sequer tem semestre para isso.

Uma coisa é certa: desde sempre, estávamos (ou estamos) com o paradigma de que a internet e o império virtual revolucionaram nossa forma de comunicar, e de que a rede mundial seria suficiente para “visitar” alguém, demonstrar e sentir algo. De certa forma, sim, mas a tecnologia não é capaz de nos conectar com o mundo real. Nem as mais variadas redes sociais, os aplicativos de mensagens ou o próprio zoom são capazes de acabar com a saudade – ou de fazer com que não a sintamos.

Já vi gente dizendo, e/ou postando, que estão cansados do celular; gente que está com saudade do bar, saudade do namorado(a), saudade das aglomerações. Já vi gente chorando por não poder comemorar o aniversário da forma que queria. Seja de quem ou qual for, é gente com saudade de gente. Então, começamos a perceber, neste momento, o quanto as pequenas coisas importam, e as muitas coisas que perdemos por estar com os olhos ligados somente às telas.

Enquanto tudo isso não passa, continuo com minhas muitas tentativas, em casa, e meus 17 “eus”. Quero sempre levar comigo um novo hábito, que incorporei a minha velha nova rotina – e olhar para fora da janela, antes de desbloquear meu celular.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

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*Por Camila Toledo

Há algumas semanas, conversei com minha avó por telefone. A voz dela parecia sem esperança de dias melhores, conformada com toda a dificuldade do momento – não bastando todas as que a vida a fez passar. Não nos víamos, pessoalmente, há mais de um mês, por causa da pandemia, e a distância me fez refletir sobre o que fizemos com nosso tempo enquanto podíamos. Parece que a raiva causada pelo isolamento não é, necessariamente, por estarmos presos – quem pode se dar a esse luxo – em casa, mas, sim, porque somos alvejados com verdades dolorosas demais a partir das limitações impostas pelo surgimento dessa doença.

Eu, por exemplo, já fiquei um mês sem visitar minha avó, quando tudo ainda era “normal”. Dava mil e uma desculpas, de que tinha algo mais importante para fazer, quando, na verdade, preferia gastar meu tempo jogando videogame e comendo besteiras a me levantar e caminhar os quinze minutos que separam minha casa da dela, a fim de lhe dar um abraço. Agora que não posso fazê-lo quando eu quiser, porém, isso me incomoda muito.

Penso em como devem se sentir os idosos, privados de envelhecer em paz, como deveriam, por causa de uma doença nova, que os fez de alvo, uma vez que compõem o grupo de risco. Lembro-me ainda mais de pais e mães, avôs e avós de quem não pode parar de trabalhar porque são as principais fontes de renda numa casa onde os idosos não se aposentaram como previam, devido à reforma da previdência, em 2019. Há, também, os que, sem família e sem amparo do governo, saem às ruas para vender as verduras que plantam na pequena horta atrás da casinha de dois cômodos, ou as máscaras feitas com retalhos costurados à mão, expondo-se ao risco de não acordar no próximo dia, para ter o que comer na próxima refeição.

O isolamento é necessário, mas, assim, também, é o cuidado com a parcela mais necessitada da população. Talvez, a situação fosse melhor caso o panorama se revelasse diferente, caso nos importássemos mais uns com os outros e estivéssemos dispostos a lutar por uma causa que – no momento – não era nossa, mas que pode vir a ser. Escrevo isso de uma cadeira giratória suficientemente confortável, num computador suficientemente funcional, sob um teto que me ampara suficientemente da chuva e do sol. Mas, e se fossemos nós os que não têm o suficiente para viver dignamente? É preciso reconhecer nossos privilégios, para não minimizar as dores do outro.

Fui visitar meus avós no dia das mães, junto a minha mãe. Ao contrário dos tios, que, mesmo de máscara, se aglomeraram na casa dela com seus esposos, esposas e filhos, minha mãe preferiu que fôssemos quando a casa estivesse vazia. O que eu não sabia era que minha mãe havia feito essa escolha para – além de resguardar meus avós – ter privacidade e se emocionar em paz. Diante daquela cena, era realmente impossível segurar as lágrimas. Minha avó apareceu do lado de dentro do portãozinho da varanda, de máscara, e a realidade pareceu nos acometer: não haveria abraço naquele dia das mães. Doeu em mim cada fonema do “eu te amo” de minha mãe para minha avó.

O céu daquele domingo enganava, em seu mais puro azul, limpo, claro. Clareza essa que não temos acerca dos dias que virão. O cachorro – Marley, como o do filme, mas chamado por meus avós de Marlêi – queria meu carinho. Minha avó disse que ele sentia saudades de mim. Naquele momento, contudo, achei que ele sentia saudades de gente, uma vez que sempre me estranhava em minhas idas até lá: latia e rosnava como se eu fosse uma completa estranha. Bem… Pensando melhor, parece que Marley, de alguma forma, viu que era eu quem precisava de afeto e fez o que todos deveríamos fazer: reconhecer e se importar com a necessidade do outro, independentemente de ser ou não um estranho.

Tivemos de nos adaptar, de aprender a viver de forma diferente à que estávamos acostumados. Então, por que não procuramos ser a melhor versão de nós mesmos? Ouvimos, por anos e anos, algo sobre “fazer do mundo um lugar melhor”. Parece que, de tanto esperar, o mundo resolveu que era hora, e não há para onde fugir. Agora, mais do que nunca, precisamos uns dos outros porque a guerra é contra um mesmo inimigo, mas a batalha é mais difícil para alguns de nós.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por Ingrid Moreira de Oliveira

Tamires, 25 anos, sempre teve vida muito boa no Brasil, por causa de seus pais. Apesar disso, ela não conseguia arrumar trabalho. Ou melhor, não conseguia subir de cargo, já que a maioria das empresas pede anos de experiências – e muitas delas só aceitam “indicações”.

Formada em Gestão de Recursos Humanos, Tamires concorreu confiante a uma vaga, pois sabia que tinha tudo para passar. No fim das contas, porém, eles escolheram o candidato que, apesar de não ter qualificação na área, havia sido indicado por alguém.

Ela, então, começou a desacreditar de si, e a se considerar incapaz. Após uma crise sentimental e emocional – nascida de um relacionamento que não deu certo –, e depois de um acidente que a deixou debilitada por seis meses, percebeu que não queria só aquilo em sua vida. Tamires desejava mais. Queria ser melhor. Precisava chegar a algum lugar por mérito próprio, e não por indicação.

Percebeu, pois, que não havia nada a perder. Apesar de morar no Brasil há 23 anos, ela não tinha absolutamente nada, fora sua família. O tempo passou, seus irmãos se casaram… E Tamires sentia que ficara para trás, como alguém sem valor algum. Sentia-se, além disso, um peso para os pais.

No dia a dia, Tamires fazia tudo que sua mãe queria. Em certo momento, percebeu que não desejava aquilo. Fazia tudo para deixar seus pais orgulhosos, apesar de as tentativas serem em vão, pois sua mãe sempre a comparava a várias pessoas. Ela nunca fora boa o suficiente. Por isso, resolveu que queria ser melhor, não importava o quanto isso custasse. E mesmo que tivesse de ficar longe da família. Ela queria ser valorizada.

A jornada começou! Tamires resolveu ir morar em Portugal. Sabia que poderia contar com a ajuda de parte da família paterna, já há algum tempo em solo lusitano. Ao aproveitar que sua tia estava no Brasil, pegou o dinheiro que havia juntado e foi viver em Amora.

Lá, por mais que as coisas fossem muito baratas – afinal, é possível viver bem com pouco –, Tamires sempre pagou aluguel, até mesmo na casa de seu tio. Além disso, desde que chegou, há um ano, tem trabalhado muito! E começou a fazer de tudo para progredir de vida. E, claro, para ficar legal.

Certos momentos ruins foram muito ruins, porém. Depois de três meses em Portugal, Tamires resolveu mudar de emprego, pois trabalhava 14 horas por dia. Pois não é que, naquele exato momento, teve um problema com o tio, por se intrometer na discussão dele com a esposa, já que não admite violência contra ninguém. Seu tio a expulsou de casa, e ela saiu dali sem nada. Seus outros parentes não tinham como ajudar. (Ou não queriam, mesmo!)

Tamires ama Portugal! O país é maravilhoso e ela está muito feliz. Há segurança, as leis funcionam e não existe… indicação! Ou você é bom no que faz, ou não é. Ela sabe que pode crescer profissionalmente ali, ou seguir a qualquer lugar da Europa, por valores que consegue pagar, sem financiamento.

Para ela, quem a fortaleceu, realmente, foi Deus. “Ele é maravilhoso, pois me deu amigos maravilhosos!”. O Alan, que, no começo, era só um amigo, tornou-se marido. Outros tantos amigos portugueses deixaram que ela ficasse em suas casas durante certo tempo.

Hoje, com tudo estabilizado, e já casada, Tamires tem o documento que a permite residir em Portugal. Ela poder entrar, sair ou morar em qualquer país da Europa.

Ela se diz muito grata pelas pessoas que se mantêm a seu lado. Principalmente, o marido, que sempre a ajuda, e com quem construirá uma família. Eles vivem muito bem, e têm planos. Tamires ama o Brasil, um país lindo, mas, em questão de segurança – e outros tantos quesitos –, deixa a desejar.

Agora, ela vai correr atrás de seus sonhos.

 

*Essa crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.