Cultura

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Por: Patrick Ferreira

Foto/reprodução: Guto Muniz

O dramaturgo João das Neves, fundador do Grupo Opinião, faleceu em sua casa, na cidade de Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte, nesta sexta-feira, aos 84 anos. O seu nome era simples e curto, mas a sua carreira foi longa e profícua, elevando o nome do teatro brasileiro. A sua biografia foi construída a partir de histórias de luta e resistência política.

O artista deixou duas filhas, Maria Íris, de 17 anos, fruto do relacionamento com a cantora Titane, e Maria João, de 29 anos, do relacionamento com sua ex-esposa. A morte foi causada por uma metástase óssea.

João dedicou mais de 60 anos às artes cênicas, foi um dos principais agitadores do teatro brasileiro. Participou dos Centros Populares de Cultura (CPC), foi fundador do grupo Opinião ao lado de nomes como Ferreira Goulart e Vianinha. Ele foi também diretor, iluminador, cenógrafo e ator. Realizou obras de impacto no período da ditadura militar como “A Saída, onde é a saída? ”, de 1967, e “O último carro”, de 1976. Outra obra significativa foi “Mural Mulher”, de 1979, que trazia questões como igualdade de gênero, lutas sociais e questões LGBT, isso durante o período ditatorial.

O dramaturgo também produziu obras voltadas ao público infantil como “O leiteiro e a menina noite”, de 1970, que trouxe o racismo como uma das temáticas. Inovou ao inverter a plateia no espetáculo “O Último Carro”. O público assistia do centro do teatro, enquanto os atores encenavam em torno deles. O espetáculo foi assistido por mais de 200 mil pessoas e foi um dos mais premiados de sua carreira.

João se mudou para Rio Branco, no Acre, nos anos 1980, lugar onde encontrou novas inspirações para o seu trabalho. O contato com os índios Kaxinawá lhe rendeu uma outra visão de Brasil, em contraponto à que tinha da região sudeste do país. No início da década de 1990, o diretor decidiu viver em Minas Gerais, com sua esposa Titane. Em parceria com ela, dirigiu shows e projetos musicais, sempre ligados à cultura afro-brasileira como “Zumbi”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, em 2012, e Madame Satã, de 2015, em parceria com Rodrigo Jerônimo. A montagem “Tributo a Chico Mendes”, em que ele narrou conflitos entre índios, latifundiários e governo, foi um grande êxito de sua carreira.

Em nota emitida à imprensa, a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Fundação Clóvis Salgado lamentam a morte do dramaturgo:

Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte: “João das Neves não nos deixou. Tornou-se uma estrela no céu que continua a nos iluminar. Cada um de nós carrega um pouco do que com ele aprendeu. Todos nós sabemos o quanto a cultura brasileira lhe deve de inspiração, exemplo de dedicação à arte e de compromisso com o outro. Podemos dizer que Minas Gerais é uma terra privilegiada por ter sido escolhida por João das Neves. Depois de tanto percorrer o Brasil, foi aqui que ele viveu seus últimos anos, uma vida de incansável dedicação à arte, especialmente ao teatro, tomado como uma arma de luta e com tanta brasilidade. Descanse em paz, João, a marca que por aqui você deixou por aqui nunca se apagará. Hoje, você somos nós. “

Fundação Clóvis Salgado“Para o teatro, sua contribuição é imensurável, além de representar um novo fazer artístico, nos ajudando a ver o teatro como uma ferramenta de resistência, valorização e ressignificação da arte. ”

Através do Facebook, políticos, artistas, produtores culturais e jornalistas de Belo Horizonte deram um último adeus a artista e amigo João das Neves, uma referência dentro de fora do teatro:

Márcia Maria Cruz (Jornalista): “Conversei com João das Neves há pouquíssimo tempo sobre o livro de poesia que escreveu “Diálogo com Emily Dickinson”. Foi a primeira vez que o entrevistei e lembro que, no dia, fiquei bem feliz por ter falado com ele. Mais do que extremamente culto, ele é uma alma delicada. Daquelas que tranquilizam a gente. Que faça uma boa passagem! ”

Nilmário Miranda (Candidato a deputado federal por Minas Gerais pelo PT): “Um dia triste para as artes e principalmente o teatro brasileiro. Parte João das Neves. Dramaturgo, ator, ativista, mil coisas que nos emocionaram e ainda vão emocionar muito mais. Engajado, lutou contra a ditadura, em várias frentes. Entre elas os Centros Populares de Cultura (CPC) e o Grupo Opinião. Fará muita falta nestes tempos em que temos de lutar novamente contra um golpe. Fica o desejo de muita força aos familiares e amigos. Seguimos na luta por aqui João, sua obra fica. ”

Carlandréia Ribeiro (atriz e produtora): “João das Neves, gratidão por tudo. Pelos ensinamentos, pela coragem amorosa e coerente com que viveu seus 84 anos nesse mundo. Sua passagem por aqui deixa um rastro de luz a ser seguido.

A história de um homem-artista-criador que como poucos soube que a arte é muito mais que firulas e arrebatamentos do ego. João das Neves, sim, fez do teatro espada e caminho para a gente compreender e lutar para mudar o mundo. ”

Áurea Carolina (Candidata a deputada federal por Minas Gerais pelo PSOL)“João das Neves transcendeu. Agora são as estrelas que fazem companhia ao mestre! João das Neves, presente! ❤”

Cida Falabella (vereadora de Belo Horizonte — PSOL)“O mestre dos mestres do teatro brasileiro se encantou hoje. João das Neves. Com ele aprendemos mais do que Arte: aprendemos luta, generosidade, parceria, bem viver. Aprendemos o país que desejamos. Aprendemos uma forma de amor que transforma, persiste e afeta. Te amamos. Vamos honrar seu legado, sua memória, sua paixão pelo teatro. Voa, João!”

Afonso Borges (escritor e produtor cultural): “Plagiando Drummond, “Morreram João das Neves”. O mais completo homem de teatro do Brasil: ator, diretor, ator, cenógrafo, figurinista, iluminador. Morreram com João das Neves uma mentalidade de dramaturgia. Ficou a lembrança de um artista completo, integrado ao mundo contemporâneo e suas adversidades. À querida Titane, sua companheira de tantos anos, meu abraço de urso, demorado, calmo, solidário. Que ele descanse em paz e para onde for, e estiver, promova esta renovação à revelia, como fez com todos nós. A.”

Marcelo Veronez (cantor)“Falávamos de João esses dias pra trás. Sobre a sua fragilidade e imensa força e o quanto ele merecia todas as homenagens possíveis, ainda em vida. João, obrigado. ”

Cícero Miranda (Artista Visual, Cenógrafo e Figurinista)“Adeus João das Neves! Em minhas lembranças sua forma firme e generosa ao dirigir os espetáculo Madame Satã… Só gratidão!”

Joy A Ti (jornalista e crítica de teatro)“Um salve para a grandiosidade desse homem! “

Marcelo Bones (diretor de arte)“João das Neves. Sexta feira triste. Foi-se um GUERREIRO. O teatro e a cidadania devem muito a ele. “

Rua da Bahia, no cruzamento com a rua Guajajaras e avenida Álvares Cabral

Por Moisés Martins

O que dizer de uma rua, como a rua da Bahia? Localizada na bela Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na capital de “trens e uais de Redá pá lá e Pó para”. Uma rua de importância histórica e cultural para a nossa capital.  Foi palco de manifestações políticas e objeto de crônicas e poemas de autores mineiros e nacionais. Deixo aqui um pouquinho da minha experiência dessa rua que faz parte do meu caminho.

Rua da Bahia, no cruzamento com a rua dos Guajajaras e avenida Álvares Cabral

A minha vida é essa:  subir e descer Bahia. Sem nenhuma pressa, de modo que me distraio à beça. A rua da Bahia se modifica a cada dia, sem ao menos ter que descer floresta.

São 12 minutos de caminhada para percorrer seis quarteirões, algo próximo a 1 mil metros. Atravesso ruas e avenidas da capital, que misturam nomes de povos indígenas a personagens importantes da história brasileira: Goitacazes, Augusto de Lima, Guajajaras, Álvares Cabral, Timbiras, Aimorés e Bernardo Guimarães. Ao transitar pelas calçadas,  você encontra pessoas de todas as cores, estilos e crenças, pessoas de diferentes orientações sexuais e classes sociais.

É uma subida cansativa, mas que dá gosto de percorrer. No horário da tarde, deparo-me com um grande número de pessoas. A maioria delas estão em horário de almoço. As agências bancárias no percurso fazem com que o  fluxo de passantes aumente ainda mais. Tenho que me desviar para que não esbarre em nenhuma delas. De olhos atentos consigo perceber a diferença social que existe entre os quarteirões.

O primeiro quarteirão vai da Rua Goitacazes à Avenida Augusto de Lima. Região onde é grande o número de pedintes, moradores de rua que dominam a área, vivem das moedinhas de quem passa por ali. Na calçada,  muitos bueiros, todos desnivelados, tornando a via cheia de relevos.

O quarteirão  da Avenida Augusto de Lima à Rua Guajajaras muda-se a cena. A presença de moradores de rua passa a ser  menor. Nota-se um fluxo maior de caminhoneiros no setor de carga e descarga. A presença de jovens classe média fica mais constante,  devido ao Colégio Chromos localizado na região. Os boêmios encontram lugares nos dois quarteirões, da Rua Guajajaras à rua Aimorés, onde as cadeiras dos bares se espalham pelas calçadas.

O final do meu percurso é o quarteirão entre rua Aimorés e rua Gonçalves Dias, local frequentado por estudantes, professores e bancários que trabalham em ruas próximas.

Mas a rua da Bahia é muito mais:  ao longo de todo trajeto, pessoas se amam, pássaros fazem ninhos em copas de árvores. Uma rua em constante transformação. É como uma estação de trem: as pessoas embarcam e desembarcam nos seguidos encontros e desencontros. Diria que a rua da Bahia é o palco, onde nós compomos todos os dias, uma nova cena.

Durante essas cenas, encontramos amizades com quem nunca vimos. Trocas de olhares e de repente a cena para, aparece a cortina. Fim da cena? Não, não, esperem! É apenas um fumante que passou por você e encheu o seu rosto de fumaça. Ufa! Já posso trocar olhares de novo.  Não! não posso, a pessoa simplesmente desapareceu. Talvez tenha entrado em alguma loja, virado em alguma rua…

Dentro do carro a cena é completamente diferente.  O sinal fecha e mais uma cena se inicia. De repente uma pessoa atravessa correndo na frente dos carros, a cena então recomeça, os motoristas buzinam, alguns xingam. Às vezes, nem adianta. A pessoa até atravessou! Sinal verde! Os carros podem avançar e lá vão eles subir bahias e descer florestas.

E assim as cenas vão se reconstruindo a cada dia. Não existe diretor, a cena simplesmente acontece, e sempre estamos lá para assistir em primeira mão as histórias que fazem da rua da Bahia um lugar tão fantástico.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

No ano que se comemora 80 anos de tombamento cultural, a histórica cidade de Ouro Preto recebeu a 13ª edição da Mostra de Cinema. O evento que dedica e apresenta a sétima arte como patrimônio, escolheu para sede a charmosa cidade que já foi cenário de muitas produções cinematográficas. A proposta da Mostra junto à cidade faz todos os envolvidos pensarem sobre a história do cinema e do audiovisual de maneira especial. Questionamentos importantes sobre preservação e patrimônio são colocados em diálogo durante o período.

A 13ª Cine OP aproveita da conscientização da cidade e encerra o evento com a certeza que diversas temáticas foram discutidas com todos os públicos. A Universo Produção se despede e segue em frente com a 12ª edição da CineBH.

 

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

Cerca de 80% do Cinema Mudo produzido se perdeu. Ao se discutir sobre patrimônio e preservação, história e memória são questões envolvidas, principalmente na indústria cinematográfica, uma vez que todo projeto ou produção gera um produto. A 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sobre o tema em Seminário | Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Patrimônio no Âmbito Universitário.

Com o seminário a proposta da CineOP é debater e expor estudos de caso universitários, apresentar novas ideias e caminhos que a universidade trabalha para manter o acervo e a cultura do cinema permanente. Foi ressaltado também que produções cinematográficas são uma projeção a partir de películas, mas que existem diversos materiais que compõem este universo, como o roteiro, por exemplo, que ao preservá-lo, ali, pode-se ver as primeiras ideias de uma produção.

O primeiro questionamento ao conversar sobre a temática é por que preservar e, principalmente, o que se deve preservar. Não se sabe o motivo, mas pode-se citar desde a importância que detêm aquela obra ao simples ato de guardar para a posteridade. Já o que se deve preservar é mais complexo, cada instituição pesquisa e escolhe as obras de acordo com o seu perfil. Outra questão também discutida nas salas de aula e na CineOP é o avanço das tecnologias de produção das obras, uma vez que o digital será substituído e não se sabe a próxima evolução. Por isso, ao sair daquela discussão conscientiza-se que mais que formar novos preservadores é prepará-los para o desconhecido.

Por Ana Luísa Arrunátegui e Melina Cattoni
Fotografia: Jackson Romanelli | Universo Produção

 

Uma das temáticas da 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto é a Preservação do Audiovisual. Para ilustrar o tema, além da exibição do longa documental Dawson City – Tempo Congelado, de Bill Morris, a CineOP promoveu uma Coletiva com o diretor para discutir sobre o que torna uma obra ou documento patrimônio.

A obra consiste na reconstituição da história da Corrida do Ouro no Ártico Canadense, por meio de mais de 530 rolos de película produzidos entre as décadas de 1910 e 1920, mas que só foram encontrados, soterrados e congelados, em uma escavação na cidade, em torno dos anos de 1950.

Em nenhum momento do filme Morris fala diretamente sobre a importância e a necessidade da preservação, porém basta olhar para o destino final desses filmes – que, em parte, foram jogados no rio, destruídos em incêndios, viraram combustível de fogueira ou serviram para dar volume e reduzir a quantidade de água necessária para transformar uma piscina em um ringue de hóquei – e sua importância para a desmistificação desse trecho da História. Fica mais do que óbvio que a preservação é necessária e vai muito além dos filmes de Hollywood.

Chegamos então na grande questão: O que deve ser ou não ser preservado? Por qual motivo se deve guardar ou não os Stories que se posto no Instagram? Que fim se deve dar para as gravações de quando criança?

Por mais que não pareça importante, sem a preservação de gravações pessoais e de arquivos familiares, filmes excelentes como Pacific, de Marcelo Pedroso, e La Casa de Los Lúpulos, de Paula Hopf, seriam impossíveis. Hoje em dia, uma filmagem que foi feita há uma semana em uma avenida movimentada da sua cidade não representa nada. Mas, agora imagine se você tivesse uma filmagem dessa mesma avenida, porém feita cem anos atrás?

Ao ser questionado se, mesmo depois de tudo que Bill produziu e trabalhou, ele tinha chegado pelo menos próximo de uma resposta, ele comenta que a primeira barreira é a dificuldade da preservação do digital em relação ao filme e, que a pergunta não é o que deve ser preservado, mas sim, o que é possível ser preservado.

Estima-se que entre 75 e 80% de todo o cinema mudo que já foi produzido, também já foi perdido. E se engana quem acha que isso se deve somente ao descuido ou a falta de espaço físico para o armazenamento apropriado dessas películas. Grandes nomes como George Méliès, considerado um dos pais do cinema, queimou propositalmente grande parte de seu acervo, simplesmente por não ter o que fazer com aquilo e por não acreditar que seu trabalho era bom o suficiente para ser guardado.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

A tendência de exaltar a cultura do exterior também se aplica ao Cinema. Por algum tempo o Brasil tentou basear sua produção em estúdios, formato esse utilizado nos países como Estados Unidos, Índia e Japão. Nessa época, os críticos da sétima arte defendiam a produção de um cinema mais industrial, mas a partir dos anos 1960 o cenário se modifica, ao descobrir formas de imprimir a identidade verdadeiramente brasileira nas telas.

Esta transformação da linha de pensamento do Cinema Novo Brasileiro proporcionou produções que trabalhassem com as histórias nacionais – incluindo mitos e folclores – e complexidades políticas nunca antes trabalhadas dentro das dinâmicas brasileiras. O movimento tropicalista reforçou a ideia ao inserir essas dinâmicas nas músicas e expressões artísticas da época. A 13ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto abre espaço para discussão com o Seminário | Vanguarda Tropical: O Cinema e as Outras Artes.

A conversa apontou a Tropicália como um período de experimentação política e estética e, que a partir disso a linguagem das vanguardas despontaram nas produções cinematográficas, como o longa-metragem Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla. Em suma, o movimento tropicalista foi de extrema importância para início da circulação de produtos com a identidade nacional nos Cinemas e Outras Artes.