Cultura

Por Keven Souza

Criada em 2009, pelos diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e pelo produtor Thiago Macêdo Correia, a produtora mineira Filmes de Pástico já foi selecionada em mais de 200 festivais nacionais como o Festival de Cinema de Brasília e a Mostra de Cinema de Tiradentes, além dos internacionais como o Festival de Cinema de Locarno, Festival de Rotterdam, Indie Lisboa, Festival de Cartagena, Los Angeles Brazilian Film Festival e entre outros, ganhando mais de 50 prêmios. 

Fundadores da Filmes de Plástico

Como uma das séries de conteúdos dos 60 anos da Una, o Contramão traz, hoje, um bate-papo com Gabriel Martins, sócio-fundador da produtora, que tem 33 anos de idade e é Diretor, Cineasta, Roteirista e Produtor Cinematográfico, formado pelo pela instuição em 2010. Martins acredita na Una como um espaço que oferece o encontro entre pessoas que amam cinema e que queiram dialogar e aprender sobre o universo cinematográfico, além de tudo foi roteirista em 2014 do filme “Alemão” e possui produções em catálogo na plataforma de streaming Netflix, com o filme “Temporada”

Nessa entrevista, Gabriel relembra sua trajetória como graduando de Cinema que possuía o anseio de realizar projetos, ainda na faculdade, e que construiu experiências formidáveis através da Una para alavancar os seus sonhos no setor de produção audiovisual. Além disso, nos conta sobre sua carreira de cineasta ao longo dos anos, junto à produtora. 

Gabriel Martins da Filmes de Plástico e ex-aluno da Una

1) Como começou a sua carreira no Cinema? 

Considero que comecei minha carreira no cinema com meu primeiro filme “4 passos” que dirigi na Escola Livre de Cinema em 2005, antes de entrar na Una. Até hoje é significativo para mim, porque através dele errei muito e pude aprender com isso, sem falar na circunstância limitada para produzi-lo, que na época, possuía poucos recursos que consequentemente forçou a minha criatividade na execução. 

 

2) O que propiciou você a escolher estudar Cinema e por quê escolheu a Una? 

Sempre quis fazer Cinema, é um sonho desde pequeno pelo universo audiovisual e me encantava ver televisão e assistir making-of, bastidores de filmes, e nunca me passou pela cabeça cursar outra coisa. A escolha de estudar na Una aconteceu em 2006, quando tentei o vestibular, minha intenção era entrar para uma universidade pública e não particular, mas realizei o vestibular na Una para testar meus conhecimentos e como resultado consegui bolsa integral e tive a oportunidade de cursar o curso, foi interessante porque a princípio, naquele época, era a única faculdade que ofertava o curso só de Cinema. 

E foi através da faculdade que consegui fazer um estágio importante no laboratório, que tive possibilidade de ter contato com muitos equipamentos da área e aprender muito sobre eles. 

 

3) Quando era aluno, você participava de projetos voltados ao curso de Cinema, como por exemplo o Lumiar? O que agregaram na sua formação profissional?

Infelizmente, quando estudei não existia o Lumiar, mas criei o Cineclube, que funcionava depois das aulas e várias pessoas iam lá para ver filmes. Nessa época frequentava muitos festivais, e antes de entrar na Una, era crítico da área e escrevia sobre cinema em uma revista, tinha um network muito forte que consequentemente ajudava a levar muitas discussões importantes pro Cineclube. Digo que foi uma parte excepcional como estudante, porque agregou muito conhecimento para mim e para o projeto, nos encontros se formavam muitas equipes que eventualmente vinham a fazer filmes juntos. 

 

4) A ideia de criar a Filmes de Plástico, veio de onde? 

A Filmes de Plástico veio de encontro entre eu e Maurílio Martins na Una, nos conhecemos no primeiro dia de aula, fomos da mesma turma, e desde o início queríamos filmar e fazer algo que possibilitava assinarmos filmes que queríamos fazer em nosso bairro. Na época, morávamos na periferia de Contagem e havia muitas ideias, uma vontade grande de produzir juntos. 

É interessante dizer também que as nossas produções não tem uma mensagem específica, só fazem parte do universo e que a partir disso, buscamos filmar personagens que trazem empatia com o público e mostram realidades diferentes, provando que, em meio às adversidades, é possível, sim, fazer cinema.

 

5) Devido ao cenário imposto pela pandemia, a cidade (o mundo) sofreu interrupções nas produções. De que forma a Filmes de Plástico se adaptou a esse desafio? 

A Filmes de Plástico teve que se adaptar à pandemia, porque diversos projetos que esperávamos filmar por agora, foram congelados e nesse meio tempo utilizamos o período para desenvolver os roteiros e preparar melhor os projetos, e não tem sido fácil, tivemos algumas questões para nos mantermos de pé enquanto produtora e efetuar outros trabalhos, mas compreendemos que o mundo em si esteve em pandemia contra a Covid-19 e nós como produtora focamos em tarefas que poderiam ser feitas a distância. 

 

6)Existe algum impasse, por causa deste cenário, em fazer crescer ainda mais a produtora?

Com certeza! São dois anos que o mundo de certa forma se estagnou, e a produtora em si mediante o cenário, interrompeu as produções de caráter físicos como a gravação de filmes de longa-metragem e ficamos um pouco impossibilitados de se movimentar mais, mas de alguma forma a pausa não foi negativa, tivemos a oportunidade analisar onde a produtora poderia chegar futuramente, repensar mesmo sobre a nossa caminhada daqui pra frente.

 

7) O que podemos esperar sobre os próximos lançamentos?

Com ineditismo, por agora, temos dois filmes a serem lançados comercialmente, um deles se chama “A felicidade das coisas” dirigido por Thais fujinaga, que é um filme estreado no International Film Festival Rotterdam (IFFR) neste ano e que ano que vem pretendemos colocar em cartaz. O outro é o meu próximo longa-metragem que se chama “Marte Um”, que está em pós-produção e com lançamento, também, previsto para o primeiro semestre do ano que vem.

 

8) Como você entende a evolução do Gabriel que estudou Cinema na Una, para o Gabriel de hoje? 

Minha evolução é nítida, ao longo da trajetória aprendi e errei ao fazer filmes de longa ou curta-metragem, e também em produções de outra pessoas, acho que a experiência me trouxe mais serenidade, me ensinou a entender que às vezes é melhor ter menos urgência e obter mais calma no passo a passo, dando tempo ao tempo.

 

9) Qual conselho você daria aos graduandos do curso de Cinema e Audiovisual em relação às oportunidades de mostrarem o seu trabalho, em um festival como o Lumiar?

O conselho é que as pessoas se joguem nos projetos, criem novos, como o Lumiar foi criado, porque é a partir deles que muitos alunos podem sair da faculdade tendo sua própria produtora. É necessário pensar no seu caminho a seguir, filmar incansavelmente mesmo que você não tenha todos os recursos suficientes, colocar suas ideias em prática e cultivar o ato de fazer cinema é necessário. 

É importante aproveitar também todas as oportunidades de festivais universitários que vier a ter, absorver o máximo que puder desses ambientes para adquirir informações, conseguir ter contato com mais filmes brasileiros e conhecer pessoas que estão em um lugar mais próximo que você, em uma mesma fase da vida que estudam e tentam fazer filmes.

 

Edição: Daniela Reis

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Por Tales Ciel 

Todo grande cineasta tem que começar de algum lugar, e o audiovisual, como toda forma de arte, consegue aproveitar bastante a universidade para iniciar suas experimentações e produções. Guilherme Jardim é co-diretor e roteirista do curta-metragem “Dois”, junto com Vinícius Fockiss. Jardim também é aluno do Centro Universitário Una e integrante da agência Una 360.

O curta conta a história de Bernardo e Luix, que buscam aproximação afetiva durante o período de distanciamento social e, em meio ao caos, tentam descobrir outras formas de amar. Foi contemplado pela 6ª Edição do Prêmio BDMG Cultural, nomeado Melhor Filme pelo Júri do Festival Kinolab Tela Digital 2021, e mais. Guilherme Jardim conta um pouco sobre o seu processo de criação de um filme independente e as algumas das dificuldades de produção em meio ao isolamento social.

Em parceria com o Contramão, o Núcleo de Relações Públicas e Cultura traz o Palco 360: onde os estudantes que integram a equipe podem exibir suas produções e trabalhos. Guilherme concedeu uma entrevista sobre seu filme e nos contou sobre sua vida profissional e a produção de “Dois”.

Como é o processo de produção de um filme?

Esse processo de elaboração de filme, pra mim a princípio é um processo muito aberto. Porque, normalmente, pode ser uma frase que me motiva a escrever um roteiro, pode ser uma imagem que eu vi e que tive vontade de fazer uma história baseada nela, pode ser de alguma história que já escutei. Então depende do caso.

O filme “Dois”, por exemplo, que é o filme que eu faço roteiro e direção, surgiu a partir de uma frase que tinha anotado num tipo de bloco de notas do celular. E a partir dali, fui moldando essa história junto com o Vinicius Fox, que é meu amigo e fez esse filme junto comigo. E a gente chegou onde o “Dois” é hoje.

 

Quais as dificuldades que mais te testaram durante o projeto de “Dois”?

As maiores dificuldades que eu enfrentei durante o processo de criação do “Dois” foram, primeiro: o filme foi idealizado e desenvolvido durante a pandemia do coronavírus; o início da pandemia. Então a gente já tinha a primeira dificuldade de produção que seria fazer um filme em dupla à distância. Não podendo nos encontrar e tudo mais.

E aí, depois, também de direção à distância. Porque é um filme que envolve dois atores, o Bernardo Rocha e o Luis Gabriel, e que se fala muito sobre amor em meio ao caos. Então tinha também essa diferença entre a realidade que estávamos vivendo e o que queríamos propor junto ao filme.

Fazer esse direcionamento, tentar se aproximar dos atores e criar essa relação mais íntima mesmo à distância, acho que foi a maior dificuldade. Mas ao mesmo tempo, também, foi a maior alegria, assim, dentro do filme. Porque, eu acho que todo esse processo acabou fortalecendo a mensagem que a gente queria passar com o “Dois” e o queremos propor com essa história. Então, até no meio dessas dificuldades, a gente acabou conseguindo criar novos caminhos, para que as coisas fossem possíveis mesmo de acontecer.

E eu acho que se fazendo cinema universitário independente, precisa ter muita dessa força; de tipo, tem que querer um pouquinho mais do que o normal. Porque qualquer coisa desanima e, enfim, a gente precisa ter essa consistência e acreditar nas coisas que a gente faz.

 

Como é conseguir/ter o apoio da instituição?

É, ter a universidade como apoio no processo facilita alguns passos, principalmente quando a gente tá desenvolvendo a escrita do projeto. Nas aulas a gente tem as orientações dos professores, que têm experiências diversas. Então, isso acaba agregando muito nesse processo de criação e eu acho que é um facilitador também. Muitas vezes nós ficamos em dúvida, inseguros com o que estamos propondo e é bom ter esse apoio junto aos professores, de mostrar a sua ideia e compartilhar e ir construindo juntos.

Acho que um ótimo exemplo no processo do “Dois” foi a nossa relação com a Mariana Mól, que era professora na época da disciplina de P.I. de ficção, e a gente tinha um diálogo muito aberto, muito horizontal. Muitas vezes nós chegávamos com uma ideia e – uma ideia embrionária, que seja – e conversava, e acabavam surgindo novas ideias no meio disso.

Também tem muito haver com o se questionar, sabe? Acho que a universidade dá também essa oportunidade para sermos mais críticos com os trabalhos que fazemos. Colocam a gente pra pensar: ‘Que história é essa?’; ‘Onde que a gente quer chegar com essa história?’; ‘Por que que a gente tá contando ela?’. E ter argumentos plausíveis e profundos. Ao meu ver, acho que cada caso é um caso, e pro “Dois” foi muito importante se questionar várias coisas, acessar memórias afetivas e ter essa troca mesmo; essa relação coletiva e horizontal com todo mundo que estava, de alguma forma, desenvolvendo esse projeto.

Até teve um caso muito marcante, que eu amo, que foi quando estávamos tendo uma das orientações com a Mariana e ela lembrou de um livro da Ana Maria Martins – Como Se Fosse A Casa. Ela lembrou de um poema específico e falou: “Olha, pelo que vocês estão me falando, me lembrei disso aqui!”. E nós estávamos numa reunião ao vivo e ela meio que abriu o guarda roupa, pegou o livro na hora e leu pra gente. Depois mandou as fotos, para termos o acesso, também, digitalmente, caso fosse interessante usar. Enfim, [usar] como uma inspiração e acabou virando, sim, uma das coisas que usamos de referência. E acho que, também, essa construção afetiva, sabe? Do filme, junto aos professores; acaba criando um corpo que [vai] além do que a gente consegue imaginar e querer. É muito natural e muito bonito.

 

Se pudesse citar um dos seus projetos favoritos, qual seria?

O “Dois” foi um processo muito íntimo pra mim. Tanto pela troca com o Vinicius, de pensar nisso juntos, sabe? Tanto [quanto] fazer um filme para que eu acreditasse no meu potencial. Eu estava vindo, antes do Dois, de um processo que eu me desacreditava muito. Das coisas que eu poderia propor. Eu não me via muito nesse lugar, principalmente de roteiro; tinha muita dificuldade de me enxergar ali. Acho que o “Dois” veio como esse “clareamento das retinas”, “uma correção da miopia”, onde era tudo embaçado pra mim. Acabou ficando mais claro, mais amplo; consegui enxergar mais longe. Eu consegui criar possibilidades a partir do que eu tinha.

O “Dois” também vem muito junto com o meu entendimento com o cinema, que tipo de cinema eu quero fazer. E tem muito haver com um termo que eu gosto de usar, que se chama: auto-ficção. Que é o compartilhamento das coisas que eu vivi e que vivo, e ao mesmo tempo, das coisas que eu invento. Como eu consigo pegar da experiência e transformá-las, também, a partir das coisas que eu queria viver.

 

Qual dica você daria pra si mesmo e os outros?

A dica que eu daria, tanto pra mim e pra outras pessoas seria de ficar sempre atento. Eu acho que o cinema se dá muito ao olhar. Pra quem curte esse tipo de produção hereditária, uma produção que fala sobre nós (eu com um realizador, não-binário, lgbtqia+), é da minha vontade criar imagens pensado nesses corpos e como que eu posso representá-los. É mais sobre a representação do que a representatividade. E como que, a partir da minha vivência e das coisas que eu acredito, posso propor novos imaginários e fazer esse processo de abrir caminhos; abrir mentes.

Enfim, para quem gosta desse tipo de cinema, a dica é estar atento às suas memórias, as coisas que você está vivendo no agora. Eu acho que tem muita coisa que a vida acaba trazendo e a partir [disso], talvez, igual o “Dois”, uma frase que se escreve num bloco de notas, acabe virando filme.

 

Edição: Daniela Reis

Revisão: Keven Souza

 

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Por Italo Charles

Pela primeira vez Belo Horizonte recebe o festival Semana de Cinema Negro. O evento, que acontece de forma online e gratuita, promove uma perspectiva sobre memórias e registros pessoais e coletivos.

Com programação extensa, o festival é dividido em cinco mostras temáticas e traz aos espectadores 50 filmes nacionais e internacionais produzidos por pessoas negras brasileiras, africanas e diapóricas. 

Para além dos filmes exibidos, o festival  apresenta uma gama de debates, homenagens e oficinas. As obras podem ser  acessadas na plataforma de streaming todesplay.com.br, e os debates pelo canal do festival pelo Youtube.

A mostra principal comemora os 51 anos do FESPACO – Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, considerado o maior festival do continente africano, com curadoria da pesquisadora Janaína Oliveira. 

A idealizadora do festival, Layla Braz – formada em Cinema e Audiovisual -, aponta que durante a graduação sentiu muita falta da cinematografia negra e africana e diante da situação, em 2018, começou a projetar o festival, porém só em 2019 conseguiu apresentar o projeto para a Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

“Eu sentia muita falta de explorar a cinematografia africana, na universidade eu não tive acesso a esses conteúdos, mas, principalmente, senti falta de não ter a divulgação aqui em Minas. Daí então, surgiu a ideia de criar um festival que levasse um olhar diferenciado para essa cinematografia”, comenta Layla Braz.

Ainda segundo Layla, o festival tem grande importância para a comunidade, uma vez que existe a falta de acesso a conteúdos cinematográficos relacionados à cultura negra. “Nós consumimos muitos filmes, estrangeiros e até brasileiros, mas não sob a ótica e construção negra, então o festival possibilitará ao público a aproximação com a cinematografia negra. 

O evento deixará como memória permanente um catálogo com cerca de 250 páginas com informações sobre a programação, textos inéditos e ensaios que completam os pensamentos acerca dos filmes. O catálogo tem como destaque memórias do FAN-BH – Festival de Arte Negra, um dos mais importantes eventos do segmento fora do continente africano.

Confira a programação (online e gratuita):

Instagram: https://www.instagram.com/semana.cinemanegrobh/

Site: www.semanadecinemanegro.com.br

 

A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

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Banda Daparte - Reprodução do Instagram

Encerrando o Almanaque de Bandas Independentes, produzido por Bianca Morais, e divulgado no Jornal Contramão nas últimas semanas, a jornalista faz uma reflexão sobre as principais dificuldades que esse cenário de bandas enfrentam e ainda comenta qual o papel das gravadoras nesse meio, elas que por muito tempo foram o principal engajador para que os artistas tivessem sucesso, hoje, já não é mais exatamente dessa forma. 

Tempo e grana. Quando o assunto são bandas independentes buscando ascensão no mercado musical, uma das principais dificuldades que encontram são esses dois fatores.

Quem produz arte sempre tem ideias. Não há uma banda nesse almanaque que não possua pelo menos uma gaveta de idéias, composições, cifras e melodias que queiram mostrar ao mundo e ter oportunidade de gravar. Mas ensaiar, produzir e gravar é algo caro e nem todos têm poder aquisitivo para isso.

A parte financeira é difícil. Os contratantes de casas de show não querem bandas independentes, porque muitos deles procuram bandas covers que vão agradar mais o público. Aquele contratante que abre mão disso para contratar uma banda autoral não consegue entregar a eles um cachê tão bom. É difícil encontrar lugar para tocar, é difícil ser contratado. O dinheiro que comanda o mercado da arte pouco corre no mercado independente. A música em si ainda é subvalorizada.

Parte dessas bandas independentes, justamente por não conseguirem ter o dinheiro para produzir, tem outros trabalhos paralelos. Isso porque os músicos não conseguem se sustentar apenas com o cachê da banda, até porque esse dinheiro acaba sempre sendo revestido para o caixa da banda e suas demandas. Com outras ocupações e o trabalho semanal, acabam não tendo 100% do tempo para se dedicar apenas à música, atrasando seus sonhos. É possível gravar e produzir em casa, em estúdios mais simples e sair coisa boa, mas se você procura qualidade excelente é necessário investir, e esse investimento não é barato.

O tempo é limitado e muitas vezes não conseguem se encontrar como gostariam, principalmente durante a semana. Por outro lado, a demanda de conteúdo é alta, é necessário tempo para produzir as redes sociais, planejar clipes e idealizar projetos. Para uma banda conseguir se entregar totalmente ao que se propõe, precisa estar sempre junta e não é o que acontece muitas das vezes.

Paciência é a palavra-chave. Tudo tem seu tempo. Bandas como a Devise, Radiotape e Ous, por exemplo, com mais tempo de estrada, provam que é possível sustentar uma banda durante anos, mesmo tendo que fazer um paralelo com outros trabalhos, aceitar algumas consequências e encarar alguns desafios. O mais importante é não desistir.

Um outro problema que surge, principalmente quando se trata de uma banda com vocal, guitarra, baixo, bateria e teclado, é conseguir alcançar um público. Bandas de pop e rock deixaram de ser tão queridas pelo público que consome música hoje. Nos anos 80, 90 até o começo dos anos 2000 era possível encontrar muitas delas no cenário nacional e internacional. Bandas que marcaram épocas e existem até hoje, mas se você analisar principalmente no Brasil, poucas delas estão no top 10.

Nas rádios, encontramos cada vez mais artistas solos, onde a banda em si é formada por músicos que não tem visibilidade como o vocal principal, muitos sendo até freelancers.

O artista independente tem uma personalidade bem característica que é a de ser, na forma mais literal da palavra, INDEPENDENTE. Aquele que age com autonomia, não se deixando influenciar por ninguém. Por isso mesmo é tão difícil ser autoral e independente na arte convencional, entrar em uma caixinha de gênero, acompanhar o funcionamento do mercado e se adequar à indústria comercial. Além disso, as pessoas não estão preparadas para escutar o que elas não estão acostumadas.

A Daparte, por exemplo, uma das bandas desse almanaque que de fato é conhecida nacionalmente, são uma exceção. É raro encontrarmos hoje bandas de formação de quatro ou mais integrantes fazendo sucesso. Skank, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Jota Quest e outras bandas que estouraram anos atrás, não é o que se encontra hoje em dia.

Para conseguir conversar com o gosto do público dessa nova geração, as bandas precisam se desapegar um pouco do estilo individual e particular de cada integrante em prol do conjunto e dos objetivos finais. De maneira geral, para conversar a língua do momento, muitas bandas se desprendem de fragmentos das músicas ou das melodias para poder se encaixar. No entanto, há outras que não querem abrir mão e acabam não alcançando um público maior. Tem público para tudo, mas isso não quer dizer que uma banda irá se alavancar por isso.

Apesar de todas as dificuldades desse mercado da música independente, se o músico tirar da cabeça a ideia de ficar rico e convertê-la na ideia de fazer algo criativo, mesmo com pouco dinheiro, mas com dedicação e gostando do que faz, a parte de enriquecer e fazer sucesso se torna não um obstáculo, mas uma consequência.

As Gravadoras

Por muitos anos, ter uma gravadora ao seu lado significava sucesso e dinheiro garantido. Estou falando de disco de platina, daqueles que os artistas recebiam nos palcos dos programas de televisão como o Domingão do Faustão. Acontece que do mesmo jeito que esses discos se extinguiram e foram substituídos pelas plataformas de streaming, as gravadoras deixaram de ser a peça fundamental para fazer uma banda ter sucesso.

As gravadoras deixaram de ser a única porta que se abre para o sucesso de bandas. Elas ainda são as que têm o dinheiro e são, de fato, uma grande ferramenta facilitadora, mas não são mais as únicas opções. Networking, não só no mundo da música, mas como em todos os lugares, é tudo. Se você tem contatos, eles serão uma das ferramentas mais valiosas. As gravadoras, além de dinheiro, possuem contatos. Elas também têm profissionais que sabem trabalhar nas mais diversas áreas, como o marketing e a publicidade. É um caminho que eles já conhecem e tem o dinheiro para acelerar as coisas.

O cenário, no entanto, mudou bastante. Antes as gravadoras pegavam artistas pequenos, investiam nele e esperavam o retorno financeiro que eles trariam. Hoje elas pegam artistas independentes que se consagraram dessa maneira e investem esperando o retorno. O apoio delas dá uma alavancada inicial que pode ser um fator de impulsão para a banda. Sem ela, é um caminho mais difícil, mas não impossível, considerando que a tecnologia e a internet são grandes ferramentas para divulgação.

A internet, juntamente com as plataformas de streaming, apareceu com as portas abertas para as bandas independentes mostrarem seu trabalho ao mundo. Dão aos artistas um poder de emancipação em relação às gravadoras e tem permitido fazer uma carreira mais sustentada e duradoura. Antigamente, para ser um grande fenômeno da música, você só estourava na mão de uma gravadora. Agora, com as possibilidades que a tecnologia proporciona, existe a possibilidade de você jogar sua música em uma rede social e, caso o

público goste, ajudarão na divulgação dela de forma gratuita. Assim, ela se espalha e aumenta a visibilidade dos artistas.

Um artista independente recebe pouco pela execução de sua música nas plataformas de streaming, os chamados royalties, porém ao mesmo tempo que acabam perdendo com isso, ganham a capacidade de atingir mais milhares de pessoas ao redor do mundo, gerando público e shows para conseguir cachê. Se a banda realmente for boa, as gravadoras vão ver potencial e investir.

Artistas independentes conseguem sobreviver sem apoio de gravadoras, a exemplo da Rosa Neon. Todos vivem apenas de música. Tudo bem que os diversos contatos que eles trazem de suas carreiras solos ajudam, mas provam que não somente as gravadoras possuem os respectivos contatos.

Um parêntese nessa parte para além das bandas independentes, artistas solos de Belo Horizonte, principalmente na área do rap, têm se destacado muito no mercado nacional, sobrevivendo com composições autorais e levantando públicos enormes. Estou falando do rapper Djonga, que apesar de ser um estilo muito diferente do pop e do rock, serve como influência para eles acreditarem que é possível alcançar o sucesso sozinho.

Uma dica preciosa para quem quer viver de música sem uma gravadora é estudar um pouco o panorama e se tornar um social media. Para uma banda crescer, ela precisa de público. Precisa de gente que acompanhe o trabalho e, para isso, é necessário divulgá-lo. Estudar esse meio auxilia a criar estratégias de atuação. Um dos principais papéis das gravadoras, além da parte financeira e do networking, é a de jogar você para o grande público e colocar em um status maior.

Uma alternativa para as bandas que estão começando e querem uma divulgação maior é se unir com distribuidoras, assim como faz a Chico e o Mar que trabalha com a Tratore. A empresa entrega as músicas dos artistas independentes para as plataformas de streaming, fazendo o som chegar a outros ouvintes. Aquelas playlist do Spotify, por exemplo, são muito úteis nessa divulgação, porque quem escuta outro artista acaba chegando até você. Além desse trabalho de distribuição, a empresa ajuda dando um retorno, apresentam vetores, mostram o que estão fazendo de certo, de errado e onde podem melhorar.

Se antes era difícil gravar uma música e custava muito caro, hoje você pode encontrar um estúdio bacana que cabe no bolso em qualquer lugar. Aquele seu amigo que formou em engenharia e se especializa em engenharia de áudio, vira produtor musical e constrói um estúdio muito bom. Como muitas das coisas atualmente são digitais, é muito mais fácil gravar e colocar na internet.

Independentemente de gravadora ou não, os artistas independentes sempre irão existir. Os que não permanecem nesse cenário, por vezes, são os integrantes, que justamente por isso acabam tendo um outro emprego. A vontade de fazer dar certo motiva a continuar sempre e o sonho da música não pode parar.

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Começar a semana com música e boas energias é a cara do Contramão! Hoje trazemos a última banda do Almanaque produzido pela Bianca Morais. Mas não fique triste, ainda vamos trazer conteúdos sobre o cenário das bandas independentes e muito mais!

Vamos ao show de hoje?

DAPARTE

E agora como fica Iaiá,

E agora como fico eu?

Se eu toda flor que eu tento cheirar,

O perfume é o seu.

Por um segundo fiquei sem saber

Achei que o rádio me falava de você

Numa canção de amor ouvi falar

Que eu levo a sério e você tenta disfarçar.

Quer música romântica? De sentimento? Baseadas em histórias reais? Melódica? Que fica na cabeça?

Apresento eles, a Daparte.

A Daparte tem contrato com a Sony;

A Daparte já tocou no altas horas;

A Daparte já gravou em estúdio famoso;

A Daparte já tocou no Circo Voador (um dos palcos mais tradicionais do Rio, em plena conquista do título da libertadores pelo Flamengo)

A Daparte já tocou em palco com gigantes da música;

A Daparte já tocou no Planeta Brasil;

A Daparte tem conta verificada no Instagram;

A Daparte já abriu show pro Skank e para o Cachorro Grande;

A Daparte fechou o último show do Cachorro Grande.

Se lendo isso você acha que a Daparte com toda essa bagagem tem lá seus mais de 10 anos de estrada, você está errado, a banda tem somente 4 anos e os meninos são todos jovens (nem todos) e sonhadores. João Ferreira (vocal e guitarra), Juliano Alvarenga (vocal e guitarra) e Bernardo Cipriano (tecladista) estão na casa dos 20 e poucos anos, Daniel Crase (baterista) uns 25 e o mais velho Túlio Lima, conhecido também como Cebola.

O Crase vem de crazy (aportuguesado) porque segundo os meninos ele é meio doido. O Cebola, quando criança, tinha planos mirabolantes e infalíveis, aí o irmão o apelidou assim.

Mas como uma banda tão nova conquistou tanta coisa importante que outras bandas mega famosas realmente levaram 10 anos para conquistar, eu vou contar agora.

O começo de tudo

O ano era 2015, João tinha uma banda com o Crase, a Gramofone; e o Juliano outra com o Bernardo, a Twig. As duas bandas terminaram na mesma época, porém a Twig tinha um show marcado na data do St. Patrick’s Day. Resolveram chamar o Crase, que já era amigo do Juliano, para tocar. O Crase chamou o primo, o Cebola. O João, que já conhecia o Juliano (por namorar a melhor amiga dele) pediu para entrar. E foi assim que a Daparte se apresentou pela primeira vez, mesmo ainda não sendo de fato a Daparte.

Sabe aquele grupo do Whatsapp que você tem com seus amigos? Essa é a Daparte. Todo mundo se zoa, de vez em quando briga, mas quem nunca? As personalidades diferentes se encaixam para formar a banda. Crase maluco, Bê caladão, Cebola o dentista, Ju o fofo e o João um pouco de todos e um pouco mais.

Ok, mesmo sendo um pouco de todos, talvez o João não seja dentista de fato. Mas o Cebola com certeza é formado e atuante. Nem todo mundo que está de fato em uma banda autoral consegue se sustentar somente com a música, mas isso a gente já está cansado de saber.

Agora imagina se você é fã da Daparte e se consulta com o Dr. Cebola. Privilégios.

Daparte de quem?

Quando foram tocar juntos pela primeira vez, decidiram que precisavam de um nome. O Cebola inventou um na hora, eles se apresentariam como “Seu Zeed”. Era um nome realmente muito ruim e a banda percebeu, por isso em outro show viraram o “Um Quinto”, outro nome também não muito bom.

Mas a busca pelo nome perfeito continuava. O acerto viria na terceira tentativa.

Em um show do Samuel Rosa com Lô Borges, onde estava à venda um livro que contava curiosidades do Clube da Esquina. Em um determinado capítulo contava a história do apelido entre os irmãos Lô Borges e Márcio Borges.

Um dia uma fã ligou para a casa do Márcio Borges e questionou se determinada música era “da parte de Mário Lô Borges”. Os irmãos acharam legal ela ter misturado o nome dos dois achando ser uma pessoa só e, dali em diante nasceu um apelido interno deles: “Da parte”.

Os garotos ao lerem isso acharam um nome interessante e o adotaram para a banda.

Escolha certeira (pela terceira vez).

Outra curiosidade: durante a infância, Juliano conviveu com Lô Borges e sempre via ele se referir a seu pai como da parte. Via naquilo um charme, então quando entendeu o nome não teve dúvidas. Era para ser aquele.

Se você chegou até aqui e ainda não sabe, o Juliano Alvarenga é filho do Samuel Rosa, vocalista do Skank.

Pois bem. Nome da banda ok.

Estilo musical

Influenciados pelo Clube da Esquina não apenas no nome da banda, mas em seu estilo musical, a banda carrega influência de muito rock e MPB dos anos 70. Beatles é uma das bandas favoritas em comum de todos eles.

Quando você pergunta à Daparte o estilo musical deles, a resposta vai ser Pop Rock. Agora, se você for tentar encaixar a Daparte no Pop Rock brasileiro, aquele que conta com grandes bandas como Skank, Barão Vermelho e Nando Reis, você vai se decepcionar. O som deles carrega sim essa influência, mas depois de quatro anos de muita dedicação a seu trabalho autoral, a banda vem criando uma identidade própria.

Mais próximos do que hoje chamamos de Pop Leve, aquele representado por Lagum, Vitor Kley, Anavitória e Melim, a banda mescla esses grandes sucessos atuais com a paixão pelo rock dos anos 90, como Oasis, Radiohead e Supergrass. É inspiração de todos os lados que os ajudam a criar, cada vez mais, a identidade jovial deles.

Manual de composição de João Ferreira

O ex relacionamento do João pode até ter partido seu coração, mas também serviu para boas canções. Principal compositor da banda, o músico tem consigo um caderninho em que anota seus sentimentos mais profundos e, quando necessário (ou quando o Juliano aparece com uma melodia), transformam aquilo em canção.

Assim aconteceu com a maioria das músicas desse novo disco que, por hora, está sem data de lançamento, mas com alguns singles já lançados.

Iaiá é um deles. Ela nasceu de uma melodia cantarolada que o Juliano mandou para o João e ele escreveu a letra inspirado no seu rompimento.

Iaiá é a música mais triste e mais alegre de todas. Ao mesmo tempo que você se pega cantando alto e dançando um som animado, você chora com a letra que conta como aquele alguém que você quer, não te quer.

Poxa João, eu e todo mundo que gosta de Daparte te entende e por isso que a gente gosta tanto. Quem nunca sofreu de amor nem precisa continuar, porque se em Iaiá você ainda dança, em 3 da manhã você chora junto com ele. Sabe aquela insônia que você teve quando brigou com a pessoa que gostava? Tá cantada ali.

A dupla João e Juliano, depois de trabalharem letra e melodia, mostram pro Cebola, pro Crase e pro Bê, que sempre acabam concordando.

Diferentemente desse novo disco em que os garotos se uniram para construir juntos com o estilo da banda, unindo comprometimento com a vontade de crescer, o primeiro álbum, o Charles, foi uma bagunça organizada. A banda já existia e a vontade de ser autoral sempre os motivou a escreverem suas próprias músicas, lançando seu próprio material. Foi então que os cinco decidiram que iriam lançar um disco para que as pessoas fossem aos shows e cantassem músicas deles.

Como já tinham as músicas escritas em seu particular, apenas juntaram e lançaram. Não foi um acordo de “vamos compor um disco”, foi mais para “vamos gravar um disco”.

Neste álbum, encontramos desde Guarda-Chuva, que é um pedido de desculpa do João a sua ex-namorada; A Cidade, canção que o Cebola fez com o pai; até a letra do Bê, Fênix, que não tem muito sentido, é mais uma viagem que o tecladista teve. 

No conjunto da obra, o disco ficou muito bom, fez sucesso e abriu portas para que os garotos tocassem Brasil afora.

A evolução

Sem medo do sucesso, a banda se preocupa apenas em fazer a sua arte chegar às pessoas. A cada dia que passa, evoluem mais como músicos e pessoas. A grande quantidade de shows e gravações fizeram os garotos evoluírem desde a maneira de se portar em frente a um público até em suas composições.

Quando a banda começou, João beirava os seus 15 ou 16 anos. Hoje mais velho e com mais vivências, amadureceu até mesmo em suas composições. A fase de transição da adolescência para a vida adulta deu uma visão bem diferenciada para ele, que acabou absorvendo novas inspirações e mudou principalmente a sua forma de pensar e produzir. O crescimento pessoal unido ao profissional fez todos eles criarem uma identidade única e original para a banda. Um som mais a cara deles.

A banda tem uma visão de onde querem chegar e trabalham cada dia mais para alcançar isso. Com o sonho de viver disso, a banda corre atrás de produzir material de qualidade, original e verdadeiro para, dessa forma, ganhar o mercado nacional.

E é então que aqui aparece para eles também a Sony. Diferente do trabalho que prestam para a Papa Black de distribuidora, a Sony tem um papel de gravadora para a Daparte. Esse último disco está sendo gravado com apoio de grandes produtores musicais e em um estúdio incrível.

A Daparte não quer atingir um público específico, o objetivo é alcançar pessoas acima de 0 anos e abaixo de 120, pessoas que vivem, que se identificam com as músicas. Talvez atinjam mais o público dos 20 e poucos anos que é a idade deles, mas qualquer um que já viveu uma história de amor cabe aqui.

 

*Esse produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.

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*Por Bianca Morais

A Mostra de Cinema de Tiradentes chega à sua 24°edição com versão totalmente online e gratuita, devido a pandemia do novo Coronavírus. A programação diversificada estará em cartaz de 22 a 30 de janeiro.  

O evento é considerado o maior do cinema brasileiro contemporâneo e apresenta sempre o que há de mais inovador e promissor na produção audiovisual brasileira, em pré-estreias mundiais e nacionais, uma trajetória rica e abrangente que ocupa lugar de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.

A Mostra Tiradentes deste ano exibirá um total de 114 títulos de 19 estados brasileiros. Os filmes estão em pré-estreias nacionais e foram selecionados por um forte grupo de críticos e pesquisadores. Os longas-metragens ficaram a cargo dos críticos Francis Vogner dos Reis e Lila Foster. A curadoria dos curtas foi assinada por Camila Vieira, Tatiana Carvalho Costa e Felipe André Silva.

Felipe André Silva é um dos curadores do evento, para ele essa experiência tem sido muito instigante e curiosa, principalmente por se diferenciar das que já trabalhou. Felipe já foi cineclubista por alguns anos e depois colaborou na seção de longas do Janela  Internacional de Cinema do Recife.

“Esses dois trabalhos têm em comum o processo intuitivo e complexo de ir buscar os filmes, pesquisar o que acontece de interessante, tentar criar uma linha coerente a partir de uma proposta puramente pessoal. Já Tiradentes é um trabalho mais “tradicional”, no que diz respeito a seguir o protocolo de avaliar apenas filmes inscritos, e a partir desse universo restrito tentar dar conta do que acontece de interessante na produção nacional durante aquele período”, conta ele.

O curador acredita que a seleção de curtas deste ano conseguiu cumprir sua missão apesar dos diversos problemas que vive tanto o cinema brasileiro quanto do resto do mundo. “Felizmente ainda estávamos num período transicional, por assim dizer, então muitos filmes tradicionalmente narrativos, e experimentos curiosos surgiram para nós, mas fica a dúvida do que será essa próxima etapa do cinema brasileiro, estagnado tanto pela pandemia quanto pelo desmonte das políticas de fomento” complementa.

A Mostra de Cinema é um evento muito além do audiovisual, é uma manifestação artística que conta com uma programação cultural extensa. Mostras temáticas, homenagem, oficinas, debates, seminário, mostrinha de cinema, exposições, live-shows, performance audiovisual, encontros e diálogos audiovisuais e atrações artísticas são alguns dos exemplos do que está presente.

Assim como nos anos anteriores, a mostra irá contar com o Encontro com o filmes e os debates. Nos Encontros com os Filmes, críticos e pesquisadores convidados irão discutir alguns filmes em exibição com a presença dos realizadores e dos espectadores. Nos debates, discussões conceituais em diálogo com a temática deste ano e a produção brasileira contemporânea.

O tema desta edição é “Vertentes da Criação”, proposto pelos curadores Francis Vogner dos Reis e Lila Foster, reflete como realizadores audiovisuais se relacionam com a construção das imagens e sons na busca pela poética de seus filmes.

“O convite a esse exercício de pensar os caminhos do cinema pode criar um léxico, novas palavras, acionar o campo de expressão das experiências particulares do trabalho de criação, um trabalho que não está isolado dos processos mais amplos do mundo (econômicos, técnicos, políticos), mas dele toma parte ativa com mais proximidade ou com uma calculada e necessária distância”, afirma Francis Vogner dos Reis.

A abertura do evento terá a exibição do filme inédito e em finalização “Obstinato”, dirigido pela homenageada Paula Gaitán. A cineasta é uma artista incontornável do cinema brasileiro, ela é a pura representação do tema da edição, uma vez que seus filmes se empenham sempre em buscas distintas. Além de cineasta é também artista plástica, fotógrafa e poeta. Paula está por trás de grandes obras cinematográficas, Vida, Agreste, Exilados do Vulcão, Memória da Memória, Noite, o videoclipe Mulher do Fim do Mundo da Elza Soares, É Rocha e Rio, Negro Léo, Sutis Interferências, entre outras.

O encerramento, no dia 30, terá a pré-estreia de Valentina, de Cássio Pereira dos Santos.

A programação completa do evento já está site oficial, confira.