Cultura

0 115

Projeto disponibiliza toda semana dois filmes para o público acompanhar direto de casa

Por Guilherme Sá

Sem poder receber o público em sua sala, o Cine Cento e Quatro, um dos poucos cinemas de rua ainda em operação, disponibiliza através da plataforma online vimeo obras do cinema elogiados pela crítica especializada e premiadas em grandes festivais.

A curadora do projeto Mônica Cerqueira comentou que a ideia nasceu da realocação de uma verba já capitaneada pelo espaço – “Foi uma ideia mais que natural, temos um projeto aprovado pela lei federal de incentivo à cultura e patrocinado pelo BMG, a gente tinha recursos para fazer alguma coisa, pedimos uma readequação ao Ministério tendo em vista essa coisa da pandemia e lançamos esse projeto em março.”

A escolha dos filmes, segundo Mônica leva em conta dois critérios, primeiro a vasta filmografia, no catálogo filmes de países como França, Argentina, Israel, Estados Unidos, Coréia do Sul, Canadá, Brasil e outros, e o segundo, a análise profissional. “Eu leio muito para conhecer o filme, peço lead, mas tento ser o mais abrangente possível, mais universal e mantendo essa coisa do que eu chamo de Outro Cinema, que não seja um filme de apelo estritamente comercial, não que eu tenha algo contra o cinema comercial mas é que esses já tem muito espaço, prefiro os com corte independente, autoral eu diria.” conclui.

A programação tem sido elogiada e repercutido positivamente junto ao público, com cada vez mais acessos, um exemplo é o longa ‘Arábia’ dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans, rodado em Ouro Preto e vencedor do 50º festival de Brasília, campeão de visualizações no projeto. Segundo a curadora foram cerca de 2600 clicks. Em virtude do sucesso e atendendo a pedidos, a organização adotou a estratégia de re-apresentar algumas obras as quartas-feiras. 

A exibição funciona da seguinte forma: toda quarta e sexta a partir do meio dia fica disponível nas redes sociais e no site do Cento e Quatro o link de acesso e senha para plataforma vimeo, o público tem 48 horas para assistir. 

A programação segue enquanto durar as medidas de restrição de circulação impostas devido a pandemia de Covid-19.

CENTO E QUATRO

Inaugurado em 2009 o espaço de ocupações culturais e eventos abriga cinema, restaurante e galerias multifuncionais. No casarão construído no início do século XX funcionou a primeira fábrica industrial da nova capital. Localizado no coração de Belo Horizonte, perto da estação central e o CRJ (Centro de Referência da Juventude), o edifício é tombado pelo poder público e integra o conjunto arquitetônico e paisagístico da Praça da Estação. 

Acesse as redes sociais do Cento e Quatro e fique por dentro: 

Instagram Facebook

 

 

* Matéria supervisionada por Italo Charles e Daniela Reis

 

0 206
Foto: Divulgação

Programação conta com mais de 60 apresentações explorando as possibilidades do fazer artístico dentro do cenário virtual 

Por Guilherme Sá

Ao adentrar pelas porta do casarão Estrela, a impressão é mergulhar no cenário cheio de sentimentos. Lembro-me bem da primeira vez que ali pisei, no primeiro semestre de 2019. As paredes da construção, feridas pelo tempo, mostram suas cicatrizes, a energia tem algo diferente, não é pesada, mas demonstra que um dia foram. Os artistas e colaboradores ocupantes, constroem suas entranhas mas também as deixam visíveis, não querem apagar a sua história. Transformaram o lugar escuro e sem vida em uma das maiores ações coletivas dessa cidade.

A partir dessa união, criaram-se ações como a que acontece até o dia 31 de julho. A Ocupação Espaço Comum Luiz Estrela em Belo Horizonte, realizará o 2º Festival de Inverno – Inverno Estelar – com uma programação extensa com participação de artistas, ativistas, arquitetos, psicólogos, educadores e produtores culturais locais, nacionais e estrangeiros. Neste ano a edição acontece totalmente online.

Construído por cincos mulheres produtoras, mas também de diferentes carreiras (característica bem comum do coletivo), são elas, Luciana Lanza (bailarina e produtora), Deise Eleutério (arquiteta e produtora), Gabrielle Salomão (bailarina e produtora), Mariana Angelis (designer e produtora), Maria Câmara (psicologa e produtora) e Yasmine Rodrigues (atriz e produtora). 

O desenho do festival surgiu na assembléia geral do Coletivo Estrela (grupo  responsável pela administração do espaço desde 2013) com o objetivo de manter ativa as ações que já vinham sendo desenvolvidas. “A gente se juntou, vamos ajudar, fazer juntos na cara e na coragem. Fizemos um edital e estamos aí experimentando essa coisa nova que é fazer tudo de forma virtual.” diz, Luciana Lanza.

A programação inclui, exposição de retratos e zines, apresentação musical, sarau, performances, discussões sobre patrimônio, oficina de percussão, de atuação para cinema, cerâmica, redação, fotoperformance, entre outros. Mas como fazer tudo isso dentro do ambiente virtual?

Mudar, adaptar e experimentar foram pontos chaves para o processo de criação do festival e quebra das dificuldades encontradas. Luciana Lanza comenta que, cada artista está á procura da melhor forma de expressão da sua arte e está aberto ao novo. “É um festival muito amplo, os artistas estão experimentando também junto com a gente, ninguém sabe qual é a melhor plataforma, a melhor mídia, melhor horário. Enfim, muitos desafios que a gente está encarando, quase que no escuro mas com muita vontade de fazer.”

Lançado o edital em junho, nos canais de comunicação, a seleção foi simples e natural, o que deixou claro que não haveria remuneração aos artistas, mas, ao encontrar apoio na vontade de construir coletivamente o festival. “Acontece que o estrela já tem um público de pessoas que acompanha, entendi quais são as lutas do lugar e, como é um coletivo muito grande que comporta muitas lutas, muitas temáticas, então o festival não poderia ser diferente. Ele recebe todo tipo de linguagem, de performance, música, dança, teatro, rodas de conversa, uma diversidade de pessoas que comunga das mesmas ideias.” conclui, Luciana. 

Para a mineira Anne Cruz que realizou a live show no último sábado, 25, a participação no festival foi o momento de mostrar sua versatilidade como cantora e apresentar-se para um público novo “A princípio fiquei com receio, pois seria uma live fora do meu canal, mas comprei a ideia de participar. Eu tive todo suporte da produção do evento. Live é um show virtual, eu tenho de criar um bom repertório, lidar com minha timidez para poder levar um entretenimento de qualidade para as pessoas que disponibilizaram seu tempo para poder me assistir.”

E também foi a oportunidade do público que já a segue, assistir sua estréia em um show solo. “Foi minha estreia cantando sozinha, na minha jornada eu vinha fazendo participações em  algumas rodas de samba em BH, e com essa onda de live, eu  venho fazendo minhas apresentações sozinha. A participação no festival foi um marco na minha caminhada como cantora. Foi muito gostoso, as pessoas interagiram com show virtual, foi lindo participar desse projeto.” comenta. 

Outro destaque é o artista amapaense Nau vegar, que apresentará no dia 31 ao lado de Thayse Panda e  Geisa Marins, com o perforbar no instagram – um bar online onde quem entrar na live poderá interagir com o artista, como se fosse um bate papo de buteco, e enquanto conversam sobre qualquer tema, fará o uso das ferramentas da plataforma, como os filtros, criando algo novo a partir das possibilidades e a experiência do encontro de diferentes pessoas. 

Para Nau, a participação no Inverno Estelar representa a conexão com um público novo, “Minhas expectativas na verdade é mais pelo público, o público que vamos receber será o público do Luiz estrela, então não sei como será.”  

O organizador do Mizura – Encontro de Performance e Intervenção Urbana no Amapá, um dos maiores do Brasil, o ator e performista comenta que sua arte utiliza principalmente do corpo para construir o espetáculo “Eu trabalho com a arte da Performance como pensado dentro das artes visuais, a arte do corpo, meu corpo é meu instrumento de trabalho. Eu não tenho uma forma de criação específica, se dá de diversas formas, lendo um livro, assistindo a um filme, ou as vezes sou atraído por algum objetivo, ou material e a partir daí eu crio um trabalho.” 

Em relação ao desafio de apresentar-se online, o artista enxerga a possibilidade de explorar os novos meios de criação performática. “Essa será a terceira vez que faço essa ação, mas tô aprendendo ainda, mas está sendo uma experiência maravilhosa, é também uma forma de explorar o campo da tecnologia que até então, não dava tanta atenção.” conclui. 

A OCUPAÇÃO ESPAÇO COMUM LUIZ ESTRELA

A ocupação cultural e autogestionada nasceu em 2013 através da reunião de um grupo de amigos, artistas e moradores da capital preocupados com o abandono do casarão da rua Manaus, bairro Santa Efigênia. 

O local foi usado para diversas finalidades. Sua origem remonta o início da construção de Belo Horizonte, servindo de Hospital Militar até 1945, após esse período, reformado para abrigar o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil (HNPI) que funcionou até os anos 1990, com a mudança do HNPI, o espaço foi transformado em escola para o ensino de crianças com transtornos intelectuais, escola estadual Yolanda Martins, o que perdura até o ano de 1994.

Com a escola desativada, começa então o processo de abandono advindo de diversas disputas de uso que nunca foram prosseguidas, em 20 anos de deterioração e em péssimas condições estruturais ganha uma nova chance de vida e utilidade com a ocupação. 

A organização do coletivo é composta por núcleos que atuam na restauração, preservação, administração financeira e jurídica além da implantação de atividades culturais, políticas e educacionais, devolvendo luz a construção que viu tantos horrores no passado.

Faz parte da filosofia do local a luta antirracista, em defesa da negritude brasileira, pelo direitos dos povo indígenas, LGBTQIA+, a luta antimanicomial, em defesa da população de rua, a luta pelos direitos humanos e em defesa das Ocupações do país.  

O nome do espaço é uma homenagem ao Luiz Estrela, poeta e morador de rua que foi assassinado em 2013.

Para assistir e acompanhar a programação do Festival entre nas redes sociais da ocupação:

Instagram, Facebook e Youtube

 

 

 

0 297
Elas ganham espaço nessa arte marcada pelo protesto

A arte está quebrando os tabus da sociedade e abrindo espaço para as artistas

*Por Marcelo Duarte Gonçalves Junior

A voz feminina no grafite vem ganhando forças. A arte democrática é bastante presente em Belo Horizonte e pode ser vista em muros e prédios ao longo de toda a cidade. Alguns desses trabalhos foram produzidos e executados apenas por mulheres, que inspiram-se em formas, sentimentos e protestos.  “Para mim, o grafite é empoderamento e coragem. Sempre me escondi muito e quando passei a me dedicar à essa arte de rua, me soltei mais. O grafite foi uma válvula de escape, porque eu enfrentei vários problemas com autoestima,  e as tintas foram para mim uma terapia, uma forma de reconhecer quem eu sou.”  Comenta a estudante de publicidade Samira Fernandes, conhecida no universo grafiteiro pelo seu apelido Sam.

Para a estudante, Joice Oliveira, saber que o grafite vem ganhando reconhecimento e que também as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço na arte é um indicativo de que nós estamos no caminhando para a igualdade na arte. “É muito interessante ver que o grafite à tempos vem ganhando os muros e prédios de BH, colorindo e trazendo muita diversidade,  e é extremamente importante ver que as mulheres vem ganhando espaço e podendo expressar cada dia mais que também pertencem a este movimento, que sempre foi tão predominado pelos homens”.  pontua.

Buscando sempre um olhar de inclusão o grafite é a forma de se expressar, muitas vezes com o teor de protesto, o que faz a arte sempre ser vistas sempre por várias interpretações. “O grafite é uma arte muito democrática, vai ter diversas interpretações e isso vai depender de cada um”. comenta a grafiteira Krol (Carolina Jaued).

Para Tina Funk (Marcia Cristina), artista plástica e grafiteira, a cada dia o mercado do Grafite é agraciado com a presença das mulheres, que buscam sempre inspirar umas às outras. “O reconhecimento é muito gratificante, é ótimo poder ver que as pessoas se encantam com um muro grafitado por nós.  Eu acho de extrema importância  poder grafitar e inspirar outras mulheres, no dia-a-dia”, comenta.

Mas engana-se quem pensa que ainda não existe machismo dentro da arte, muitas vezes algumas artistas são inviabilizadas dentro da arte não ganhando os devidos créditos. “Nós continuamos enfrentando barreiras, principalmente o preconceito, ainda somos vistas com olhares misóginos , como se o grafite pertencesse somente aos homens”, comenta a grafiteira Krol (Carolina Jaued).

Para a aluna do ensino médio Marcelly Fernandes, buscar cada dia mais a igualdade feminina dentro da arte do grafite é o primeiro passo para quebrarmos alguns estigmas que ainda rondam a sociedade. “Quando eu vejo um grafite a primeira coisa que me chama atenção é como a arte é transmitida por cores e formas que atraem o olhar, muitas vezes, a primeira impressão que temos é de nós perguntar quem foi o grafiteiro que fez. E esquecemos que uma mulher poderia ser a autora do desenho. Temos que mudar essa visão machista sobre a arte do grafite e um dos primeiros passos para acabar com isso é sempre incentivar as mulheres a conquistar o seu espaço.”, comenta ela.

Novas gerações

O grafite é uma arte que vem sendo passada de geração para geração, sempre carregada de bastante protesto. Mesmo tomando os muros da capital mineira para Carolina ainda temos muito ainda o que aprender e também podermos ensinar sobre a arte. “A cidade de Belo Horizonte ainda é muito fechada, as pessoas tem aquele jeitinho antigo e a cultura não muda de um dia para outro. As novas gerações que veem o grafite de forma diferente, aceitam os desenhos como arte e isso colabora para o crescimento do movimento”,  comenta Krol.

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

0 311
Campanha de Popularização do Teatro e da Dança movimenta a capital e região metropolitana

A 46ª campanha de popularização do teatro e da dança acontece até o dia 16 de fevereiro

*Por Joyce Oliveira

Ahh… as férias! Uma pausa da correria do dia dia, tempo livre para fazer coisas diferentes, sair da rotina, dar uma relaxada, como não amar as férias?Porém, muitas vezes o baixo orçamento acaba sendo uma pedrinha no sapato de quem quer curtir esse período e a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança vêm como uma opção de diversão sem pesar no bolso. Com 150 espetáculos, todos montados por artistas mineiros, a campanha traz ingressos à preços populares que variam entre dez e vinte reais, o que dá margem para fazer uma programação cultural para crianças e adultos até o dia 16 de fevereiro.

A 46ª edição tem como novidade a extensão da campanha para além de Belô. Agora as sessões também acontecem em Betim, Contagem, Confins, Juiz de Fora, Ribeirão das Neves e Sete Lagoas.

Na edição anterior 460 mil pessoas estiveram presentes nos espetáculos oferecidos. Para bater esse público, o Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc) conta com 52 atrações estreantes e também com a proximidade do carnaval que atrai muitos turistas desde o aquecimento da folia ainda em janeiro.

Com peças para todos os gostos e idades, a programação conta com espetáculos de comédia, dança contemporânea e clássica, drama, infantis, mostras especiais, stand-ups e teatro de rua. Sendo os de humor os mais procurados. O slogan “Você na Campanha” traduz a intenção de atrair ao teatro pessoas que não frequentam espaços culturais e divulgar artistas e produções mineiras não só no período da campanha, mas durante todo o ano.

As montagens agradam o público, um exemplo é a peça veterana Um Espírito Baixou Em Mim, do ator e diretor Maurício Canguçu que está em cartaz e detém a maior bilheteria do evento há 21 anos. O artista também está envolvido em mais três peças desta edição.

Como comprar 

Os valores de dez e vinte reais são válidos apenas para as compras nos postos Sinparc e na internet. Nas bilheterias dos teatros, são cobrados os valores integrais dos ingressos. Na internet você compra no site https://www.vaaoteatromg.com.br/  ou no aplicativo Vá ao Teatro, com pagamentos somente no cartão. Nos postos oficiais é possível adquirir os ingressos com dinheiro e cartão de débito. O posto do Shopping Cidade também aceita Dotz e Vale Cultura.

Qualquer dúvida basta entrar em contato no (31) 25517758 de segunda a sábado das 10h às 19h, e aos domingos até às 18h. As dúvidas sobre vendas on-line podem ser esclarecidas no atendimento@vaaoteatromg.com.br

Aqui você encontra o guia de toda a programação: https://www.vaaoteatromg.com.br/files/7da1c16303feda6ee936236746badb46.pdf

Você pode comprar também nos postos físicos oficiais:

Belo Horizonte

  • Posto Mercado das Flores (avenida Afonso Pena, 1055, esquina com Rua da Bahia, centro)

Seg a Sáb das 10h às 19h, Dom das 10h às 18h.

  • Posto Shopping Cidade (rua Tupis, 337, G5, centro)

Seg a Sáb das 10h às 19h, Dom das 10h às 18h.

  • Posto Shopping Pátio Savassi (Av. do Contorno, 6.061, Piso L3, Funcionários)

Seg a Sáb das 12h às 19h, Dom das 14h às 18h

  • Posto Shopping Estação BH (avenida Cristiano Machado, 11.833, Piso 2, Venda Nova)

Seg a Sáb das 12h às 19h, Dom das 14h às 18h

  • Posto Shopping Oiapoque BH (avenida Oiapoque, 156, Piso 2, Box J106, centro)

Seg a Sáb das 10h às 19h, Dom das 09h às 15h

Betim

  • Posto Partage Shopping Betim (rodovia Fernão Dias, KM 492, 601, 3º Piso)

Seg a Sáb das 12h às 19h , Dom das 14h às 18h

Contagem

  • Posto ItaúPower Shopping (avenida General David Sarnoff, 5160, 2º piso, Cidade Industrial)

Seg a Sáb das 12h às 19h, Dom das 14h às 18h

  • Posto Shopping Oiapoque Contagem (Térreo- Box 275) (rua Mario vital, 168, Térreo, Box 275, Eldorado)

Seg a Sáb das 10h às 19h, Dom das 09h às 15h

 

  • A matéria foi realizada sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

0 720
Foto: José Sérgio

A peça fica em cartaz até dia 19 de dezembro com entrada franca

  • Por: Italo Charles

Transitar entre o individual e o coletivo, transmitindo pensamentos sobre modos de existência, levando ao público uma parcela de desconstrução e referências do que permeia na cidade de Belo Horizonte, possibilitou a criação  de “Vinte”, peça encenada pelos alunos formandos do 3ª ano do curso Técnico em Teatro do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart).

 

Dirigida por Márcio Abreu, diretor da Companhia Brasileira de Teatro, e com os diretores assistentes Lydia Del Picchia e Rafael Bacelar, a obra apresenta aos espectadores um aclamo à sociedade que se desenvolve a partir de movimentos do mundo atual.

 

O processo de construção do espetáculo surgiu de forma orgânica após o convite dos formandos à Márcio em 2018. “Partimos de dois princípios, investigar as impossibilidades e a partilha, como um campo possível de convivência, de pensamentos a respeito do que é comum dentro de uma experiência artística quanto pública, na dimensão que isso se dá nas nossas relações sociais”, comentou Tomás Sarquis.

 

De acordo com Rafael Bacelar os atores foram divididos em núcleos e participaram de todo processo. “Os alunos estiveram presente desde a elaboração e construção dos textos que se deu de forma individual e coletiva até a execução do espetáculo no palco”. Para o ator Davds Lacerda a divisão da turma em núcleos foi uma oportunidade muito rica de estar imerso no trabalho para além da atuação. “Participei do núcleo de produção por pedido meu, por interesse na área e foi uma experiência muito interessante”, completa.

 

Já o ator Arthur Barbosa participou do núcleo de cenografia e afirma: “Em primeiro momento fiquei em dúvida entre dois núcleos, o de cenografia e figurino. Mas por ter muito interesse na área de cenografia e já ter formação em Edificações, o Márcio sugeriu que eu ficasse no de cenografia”.

 

Encenado por vinte atores e atrizes, a montagem tem início no exterior do Teatro. Uma performance dá vida a primeira cena interpretada por Arthur, nela os espectadores são convidados a percorrerem um trajeto com destino ao Palácio das Artes. “O texto dessa cena partiu de um pedido do Tomás Sarquis (participante do núcleo de dramaturgia), como um exercício. Fiquei responsável por inserir o meu contexto diário dentro do trajeto, brincando com a questão de existir tantos palácios, porque nossa turma sempre esteve conectada com Palácios”,  comentou Arthur.

 

Já no interior do Teatro, as luzes se apagam e uma voz surge, “ouve, ouve  o rumor?”, uma súplica à sociedade sobre o que está acontecendo ali dentro e lá fora. Marcados pelo espaço e tempo, as cenas partem da particularidade  para multidão. Fragmentos da dança, música e performance tomam conta do palco.

 

Repleto de cenas reflexivas, a montagem leva ao público o contexto da nudez como quebra de paradigmas. A cena em que o ator Davds aparece nu sobre uma bicicleta durante a fala de Vinny sá, leva a plateia uma experiência de observação. “Acho que a imagem gerada nessa cena é muito bonita. Me instiga a forma como o teatro traz a nudez para um lugar de naturalidade, são apenas corpos, como o meu e o seu, é importante ao meu ver, que saibamos observá-los com naturalidade e respeito”, comentou Davds.

 

A partir de uma cartografia de Belo horizonte, com mapas, ruas e histórias ocultas a cena central acontece. Segundo Tomás, “A passagem pode representar três críticas”. Marcado por grandes acontecimentos da cidade, a cena é narrada por seus moradores contando as histórias não oficiais.

 

“Silêncio por favor, enquanto esqueço um pouco a dor no peito”, trecho da música “Para ver as meninas de Marisa Monte”, marca a passagem em uma das cenas finais, com o desejo que o público ouça o que está acontecendo no contexto atual.

 

Serviço

 

A peça fica em cartaz até o dia 19 de dezembro. Sendo terça, quarta e quinta às 20h, na Sala João Ceschiatti – Palácio das Artes

A entrada é franca, com retirada de ingresso uma hora antes do espetáculo.

*A matéria foi realizada sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

0 203

 

Por: Patrick Ferreira

Foto/reprodução: Guto Muniz

O dramaturgo João das Neves, fundador do Grupo Opinião, faleceu em sua casa, na cidade de Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte, nesta sexta-feira, aos 84 anos. O seu nome era simples e curto, mas a sua carreira foi longa e profícua, elevando o nome do teatro brasileiro. A sua biografia foi construída a partir de histórias de luta e resistência política.

O artista deixou duas filhas, Maria Íris, de 17 anos, fruto do relacionamento com a cantora Titane, e Maria João, de 29 anos, do relacionamento com sua ex-esposa. A morte foi causada por uma metástase óssea.

João dedicou mais de 60 anos às artes cênicas, foi um dos principais agitadores do teatro brasileiro. Participou dos Centros Populares de Cultura (CPC), foi fundador do grupo Opinião ao lado de nomes como Ferreira Goulart e Vianinha. Ele foi também diretor, iluminador, cenógrafo e ator. Realizou obras de impacto no período da ditadura militar como “A Saída, onde é a saída? ”, de 1967, e “O último carro”, de 1976. Outra obra significativa foi “Mural Mulher”, de 1979, que trazia questões como igualdade de gênero, lutas sociais e questões LGBT, isso durante o período ditatorial.

O dramaturgo também produziu obras voltadas ao público infantil como “O leiteiro e a menina noite”, de 1970, que trouxe o racismo como uma das temáticas. Inovou ao inverter a plateia no espetáculo “O Último Carro”. O público assistia do centro do teatro, enquanto os atores encenavam em torno deles. O espetáculo foi assistido por mais de 200 mil pessoas e foi um dos mais premiados de sua carreira.

João se mudou para Rio Branco, no Acre, nos anos 1980, lugar onde encontrou novas inspirações para o seu trabalho. O contato com os índios Kaxinawá lhe rendeu uma outra visão de Brasil, em contraponto à que tinha da região sudeste do país. No início da década de 1990, o diretor decidiu viver em Minas Gerais, com sua esposa Titane. Em parceria com ela, dirigiu shows e projetos musicais, sempre ligados à cultura afro-brasileira como “Zumbi”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, em 2012, e Madame Satã, de 2015, em parceria com Rodrigo Jerônimo. A montagem “Tributo a Chico Mendes”, em que ele narrou conflitos entre índios, latifundiários e governo, foi um grande êxito de sua carreira.

Em nota emitida à imprensa, a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Fundação Clóvis Salgado lamentam a morte do dramaturgo:

Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte: “João das Neves não nos deixou. Tornou-se uma estrela no céu que continua a nos iluminar. Cada um de nós carrega um pouco do que com ele aprendeu. Todos nós sabemos o quanto a cultura brasileira lhe deve de inspiração, exemplo de dedicação à arte e de compromisso com o outro. Podemos dizer que Minas Gerais é uma terra privilegiada por ter sido escolhida por João das Neves. Depois de tanto percorrer o Brasil, foi aqui que ele viveu seus últimos anos, uma vida de incansável dedicação à arte, especialmente ao teatro, tomado como uma arma de luta e com tanta brasilidade. Descanse em paz, João, a marca que por aqui você deixou por aqui nunca se apagará. Hoje, você somos nós. “

Fundação Clóvis Salgado“Para o teatro, sua contribuição é imensurável, além de representar um novo fazer artístico, nos ajudando a ver o teatro como uma ferramenta de resistência, valorização e ressignificação da arte. ”

Através do Facebook, políticos, artistas, produtores culturais e jornalistas de Belo Horizonte deram um último adeus a artista e amigo João das Neves, uma referência dentro de fora do teatro:

Márcia Maria Cruz (Jornalista): “Conversei com João das Neves há pouquíssimo tempo sobre o livro de poesia que escreveu “Diálogo com Emily Dickinson”. Foi a primeira vez que o entrevistei e lembro que, no dia, fiquei bem feliz por ter falado com ele. Mais do que extremamente culto, ele é uma alma delicada. Daquelas que tranquilizam a gente. Que faça uma boa passagem! ”

Nilmário Miranda (Candidato a deputado federal por Minas Gerais pelo PT): “Um dia triste para as artes e principalmente o teatro brasileiro. Parte João das Neves. Dramaturgo, ator, ativista, mil coisas que nos emocionaram e ainda vão emocionar muito mais. Engajado, lutou contra a ditadura, em várias frentes. Entre elas os Centros Populares de Cultura (CPC) e o Grupo Opinião. Fará muita falta nestes tempos em que temos de lutar novamente contra um golpe. Fica o desejo de muita força aos familiares e amigos. Seguimos na luta por aqui João, sua obra fica. ”

Carlandréia Ribeiro (atriz e produtora): “João das Neves, gratidão por tudo. Pelos ensinamentos, pela coragem amorosa e coerente com que viveu seus 84 anos nesse mundo. Sua passagem por aqui deixa um rastro de luz a ser seguido.

A história de um homem-artista-criador que como poucos soube que a arte é muito mais que firulas e arrebatamentos do ego. João das Neves, sim, fez do teatro espada e caminho para a gente compreender e lutar para mudar o mundo. ”

Áurea Carolina (Candidata a deputada federal por Minas Gerais pelo PSOL)“João das Neves transcendeu. Agora são as estrelas que fazem companhia ao mestre! João das Neves, presente! ❤”

Cida Falabella (vereadora de Belo Horizonte — PSOL)“O mestre dos mestres do teatro brasileiro se encantou hoje. João das Neves. Com ele aprendemos mais do que Arte: aprendemos luta, generosidade, parceria, bem viver. Aprendemos o país que desejamos. Aprendemos uma forma de amor que transforma, persiste e afeta. Te amamos. Vamos honrar seu legado, sua memória, sua paixão pelo teatro. Voa, João!”

Afonso Borges (escritor e produtor cultural): “Plagiando Drummond, “Morreram João das Neves”. O mais completo homem de teatro do Brasil: ator, diretor, ator, cenógrafo, figurinista, iluminador. Morreram com João das Neves uma mentalidade de dramaturgia. Ficou a lembrança de um artista completo, integrado ao mundo contemporâneo e suas adversidades. À querida Titane, sua companheira de tantos anos, meu abraço de urso, demorado, calmo, solidário. Que ele descanse em paz e para onde for, e estiver, promova esta renovação à revelia, como fez com todos nós. A.”

Marcelo Veronez (cantor)“Falávamos de João esses dias pra trás. Sobre a sua fragilidade e imensa força e o quanto ele merecia todas as homenagens possíveis, ainda em vida. João, obrigado. ”

Cícero Miranda (Artista Visual, Cenógrafo e Figurinista)“Adeus João das Neves! Em minhas lembranças sua forma firme e generosa ao dirigir os espetáculo Madame Satã… Só gratidão!”

Joy A Ti (jornalista e crítica de teatro)“Um salve para a grandiosidade desse homem! “

Marcelo Bones (diretor de arte)“João das Neves. Sexta feira triste. Foi-se um GUERREIRO. O teatro e a cidadania devem muito a ele. “