Cultura

Por Keven Souza

É quase impossível ir à Praça da Liberdade e não sentir o astral artístico que o local permite. De fato é uma das praças mais atrativas de Belo Horizonte quando se fala em turismo transversal com belos edifícios e jardins, talvez a confluência dos prédios que abrigavam o Poder Mineiro e o Governo de Minas Gerais no final do século 19, que era antes o centro administrativo do Estado, seja a essência para tamanha área histórica e cultural.  

Desde a inauguração da Cidade Administrativa na região Norte da capital e a transferência oficial da sede do governo do Estado em 2010, os diferentes prédios históricos da Praça da Liberdade se encontravam vazios e sem grande utilidade, logo com grande vocação para cultuar a arte, a cultura, o turismo e o patrimônio. Neste panorama, foi criado o projeto que visava maior articulação dos edifícios junto ao espaço urbano, onde antes havia secretarias, hoje estão belas salas de exposições capazes de integrar e reunir um grande complexo cultural:  o Circuito Liberdade.  

A criação o Circuito Liberdade teve enorme aprovação por parte do público frequentador da praça, que se tornou um dos maiores complexos culturais do país e o único de Minas Gerais que reúne espaços com as mais variadas formas de manifestação artística e cultural como teatros, museus, biblioteca, espaço multiuso, palácio e cinema. Hoje, é um reduto de equipamentos culturais que abriga 22 instituições de enorme valor simbólico, histórico e arquitetônico, sendo algumas geridas pelo Governo do Estado e outras por meio de parcerias público-privadas ou parcerias com instituições públicas federais que apoiam a cultura do país. 

Entre as maiores de destaques estão o Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB, o Memorial Minas Gerais, o Museu das Minas e do Metal – MM Gerdau, o Espaço do Conhecimento da UFMG, a Casa FIAT de Cultura, o Centro de Arte Popular, o Museu Mineiro, entre outros. Incluindo a bela arquitetura do Edifício Niemeyer e do Palácio da Liberdade. 

O Circuito está desde outubro de 2020, sob a gestão da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) que ampliou o seu perímetro cultural, para que agregasse, de forma integrada, outros equipamentos culturais de Belo Horizonte e que por meio dele, se tornasse uma rede potente capaz de unificar ações e projetos que representem a todos os municípios de Minas Gerais. Desde então, a Secult-MG se empenha para o fortalecer em aspectos relacionados à cultura e turismo, que além de criar medidas para estimular a experiência e a economia criativa nos seus espaços, tem pensado em mobilizações para potencializar sua comunicação institucional, que em síntese, é abrangente e possui particularidades mediante as instituições que compõem. 

Praça da Liberdade

Nessa circunstância é firmada a parceria do Circuito Liberdade junto ao Centro Universitário Una, a favor de dar o devido suporte em demandas e ações pertinentes ao universo da comunicação, como uma equipe proativa, que compreende as nuances do quão grandioso é o complexo cultural e que vem a somar e construir uma comunicação mais centralizada, além de eficiente. Assim, nasce a sinergia entre a Secult-MG e a faculdade Una neste ano de 2021

“Estávamos em discussão sobre como fortalecer o Circuito Liberdade, em um certo momento, chegamos no nome da Una, primeiro por ela estar dentro do parâmetro territorial do complexo cultural e segundo porque já havia uma interação entre ela e Secult-MG para uma troca de energias e interesses em conjunto”, diz Maurício Canguçu, subsecretário de Cultura da Secult-MG, sobre a ideia de iniciarem a parceria com a Una. 

Segundo Maurício, ao se unirem com a Una, a Secult-MG confia inteiramente no trabalho de qualidade e responsabilidade da instituição. “A Una possui uma comunicação muito forte e é essa expertise que nos interessa. Precisamos de fortalecer também a do complexo cultural, ter o suporte nas redes sociais e na imprensa, e por que não se unir com uma instituição que tenha esse domínio?” explica ele. 

Nessa parceria a função do Centro Universitário Una é voltada a atuação prática da Fábrica – coletivo dos laboratórios de Economia Criativa – que por meio de seus núcleos e agências como a Una 360, Fábrica AV e Jornal Contramão irá desenvolver ações direcionadas às demandas de comunicação do Circuito, ligadas diretamente às áreas de cinema e audiovisual, jornalismo e relações públicas. Entre as funções estão em projeção a produção de podcasts quinzenais, produção de clippings, produção de vídeos e fotografias institucionais para museu e biblioteca, consultorias de transmissão ao vivo, além de releases e matérias com foco na produção de conteúdos online divulgados no portal oficial do Circuito Liberdade. 

Pedro Neves, diretor da Una Liberdade, explica que a parceira ser ligada diretamente à atuação da Fábrica, é para colocá-la em uma vitrine de exposição que irá permitir mostrar o seu trabalho e torná-la uma estrutura reconhecida com valor determinado. “Digo que essa parceria dialoga muito bem com Una. É um evento importante para chamar atenção e ‘vender’ a Fábrica enquanto componente que dinamiza as áreas da criatividade, comunicação e produção de conteúdo. Quanto mais ações externas fizermos, mais ela se tornará um precursor de oportunidades para os alunos e alunas, e irá nos permitir abrir novos caminhos”, afirma Pedro. 

A faculdade pretende também tencionar o ensino-prático dos alunos da Una campus Liberdade junto às inúmeras atividades relacionadas à disseminação da cultura, como maneira de demasiar uma formação mais ávida indo além da sala de aula. Para o coordenador dos cursos da área de Comunicação Social e Arte da Una campus Liberdade, Antônio Terra, a parceria é de grande valia para o repertório profissional dos alunos, pelo fato de ligá-los a experiências únicas junto à sociedade e ao mercado. 

“Sem dúvidas é de extrema importância para os cursos da área de comunicação social, uma oportunidade rica de vivenciarem experiências ainda na universidade acompanhada de mentores e professores. Digo que, tudo que iremos produzir para o Circuito Liberdade, reverberar pela a cidade, todos não só irão saber como também ganharão com isso e aos alunos essa divulgação é essencial para um portfólio brilhante”, explica o coordenador.

Terra ressalta ainda que, por mais que a colaboração seja recente e neste primeiro momento as ações estejam direcionadas a projetos extensionistas e projetos ligados à Fábrica, há um campo alastro que propicia desenvolver inúmeras ações ao longo do tempo, que existe planejamento para ampliar novos horizontes direcionados à formação universitária, como por exemplo usar a parceria para compor uma UC Dual futuramente – Unidade Curricular voltada ao ambiente profissional de empresas e companhias parceiras da instituição.

Para além disso, a expectativa é de que haja um trabalho em conjunto, envolto de uma sintonia para melhorar a comunicação, como um todo, do Circuito Liberdade. Para que a colaboração venha ser de sucesso, engajada a todo vapor, com a história e o simbólico, que o complexo cultural abrange e representa. 

 

Museu das Minas e do Metal confirma a participação em mais um ano na iniciativa mundial e convida internautas para tirar dúvidas sobre o acervo mineral

Por Keven Souza

O Ask a Curator ou Pergunte a um Curador é um evento global idealizado por Jim Richardson, fundador do MuseumNext, que convida museus do mundo todo a se mobilizarem com seus curadores para interagir com o público por meio da #AskaCurator nas redes sociais. Sendo uma ação que acontece desde 2010, se tornou um evento de sucesso que proporciona às pessoas questionarem os diferentes guardiões de patrimônios culturais, espalhadas pelo mundo, sobre os seus respectivos acervos e objetos sob seus cuidados. 

O MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, que participa da iniciativa desde 2013, estará novamente incluído na ação deste ano de 2021, com o propósito de se conectar com os internautas que se interessam sobre o universo dos minerais. A interação terá início no dia 14 de setembro, por meio das redes sociais (Facebook, Linkedin e Instagram) e vai até no dia seguinte (15) das 9 às 18 horas, para o público que quiser fazer perguntas e tirar dúvidas de assuntos relacionados às amostras minerais, critérios de guarda, atuação do setor e outros relacionados à função de curadoria, sendo direcionados a geóloga e responsável pelo acervo mineral do museu, Andrea Ferreira. Basta usar a #askacurator e marcar o @mmgerdau para participar. 

Espaço Cultural MM Gerdau

 

MM Gerdau e a curadoria de geociências 

O MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, que tem como sede o Prédio Rosa, da Praça da Liberdade, datado de 1897, é um museu de ciência e tecnologia que apresenta, de forma lúdica e interativa, a história da mineração e metalurgia. Além de ser patrimônio cultural comprometido com memórias e experiências, atende da criança ao idoso, do estudante ao trabalhador, proporcionando o conhecimento através de 20 áreas expositivas, por meio de personagens históricos e fictícios, os minérios, os minerais e a diversidade do universo da Geociências. 

Ao fazer parte do Circuito Liberdade desde 2010, integra ao lado de inúmeros museus a responsabilidade na disseminação do conhecimento e da diversidade cultural através das coleções de diferentes tipologias, temas e assuntos. Exposições estas que só acontecem por meio do trabalho afinco e de alta performance de um curador, uma tarefa que surgiu no século XX, por volta de 1950, se referindo a cuidar e conservar todo o funcionamento e administração de um patrimônio cultural. 

No caso do MM Gerdau, por ser um museu voltado à ciência e à mineralogia, o curador deve ser um profissional da área das geociências, preferencialmente um geólogo – profissional que estuda e pesquisa as ciências relacionadas à terra para atuar no cargo. Andrea Ferreira, que é geóloga e a única curadora de Geociências do MM Gerdau, informa que, para um mineral se tornar relevante a ponto de ir para uma exposição, é preciso ele estar bem formado e preservado, possuir beleza e raridade, além de tamanho, e reter uma combinação de fatores que o fazem únicos e consideradas verdadeiras obras-primas da natureza. Ela, que é a responsável apta a responder as dúvidas e perguntas na ação do museu no Ask a Curator, tem o papel excepcional relacionado ao sistema de curadoria e abrange decisões importantes no patrimônio cultural do MM Gerdau. 

Exemplo do mineral Calcita, que faz parte da coleção Minerais do Brasil e está exposto na sala Professor Dr. Álvaro Lúcio, no MM Gerdau

Seu trabalho é cuidar da concessão das coleções de pesquisa, de reserva e de atividades didáticas; implementar e supervisionar o tombamento de acervo; controlar a movimentação, o empréstimo e a retirada de elementos das coleções; realizar palestras e encontro de colecionadores de minerais; fazer triagem de acervo proveniente de doações e permutas visando o tombamento e armazenamento de peças; organizar e limpar a exposição permanente com minerais; planejar e supervisionar exposições temporárias; entre outras funções. Por definição, tem também a missão de atrair novos olhares e visitantes para o museu ao selecionar e lapidar informações e peças que sejam destinadas ao público plural que se tem no Circuito Liberdade. 

O MM Gerdau, por ter um nicho dentro do campo da ciência, tem um público crescente a cada ano da iniciativa e se junta à comunidade mundial, que usa a #askacurator com o propósito de interagir com o público ou sanar dúvidas, em mais uma edição ao convidar a todos internautas para abrir mais um canal de comunicação, que vai além das exposições do museu. Sejam eles os apaixonados pelas riquezas minerais e acervos do museu ou aqueles que queiram saber mais sobre esse universo. “A expectativa é muito boa. Vejo como uma oportunidade da sociedade, como um todo, conhecer um pouco do trabalho do curador, porque muito deste trabalho fica nos bastidores. Logo, é também uma chance de divulgação da nossa atuação”, diz Andrea Ferreira, sobre a participação do MM Gerdau na ação do Ask a Curator. 

 

Circuito Liberdade

O Circuito Liberdade é um complexo cultural sob gestão da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult) que reúne diversos espaços com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. Trabalhando em rede, as atividades dos equipamentos parceiros ao Circuito buscam desenvolvimento humano, cultural, turístico, social e econômico, com foco na economia criativa como mecanismo de geração de emprego e renda, além da democratização e ampliação do acesso da população às atividades propostas.

 

Edição: Daniela Reis 

Por Bianca Morais 

Atire a primeira pedra quem nunca gostou de um artista ou banda famosa, colocou poster d pelo quarto, mandou uma mensagem no Instagram, ou foi em um show cantar bem alto suas canções. 

A série de reportagens de sonhos adiados vai contar hoje a história das amigas Isabella e Mayura, que chegaram muito perto de ver a banda que gostam ao vivo depois de muitos anos sem assisti-los, mas que com a pandemia tiveram que adiar o sonho de ver os ídolos de pertinho. 

O início 

Isabella Procópio e Mayura Rinco são amigas de infância, e por volta do ano de 2004, no auge de seus 14 anos, Isabella apresentou a Mayura uma banda que havia conhecido na internet, o Mcfly. 

“Lembro que eu estava baixando música na internet, procurando dos Beatles e apareceu um cover do Mcfly. Eu já gostei de cara, da voz de tudo, baixei mais duas músicas e me viciei, escutava o dia todo”, conta Isabela.

Logo depois que ela conheceu a banda, os artistas estouraram com por terem uma música na trilha sonora do filme “Sorte no Amor”. Isabela conheceu ali a sua maior paixão de fã. Vale lembrar que na época, conhecer músicas de artistas internacionais não muito famosos, não era uma tarefa fácil, e se não fosse a coincidência de achar o cover deles dos Beatles ou o filme, as duas jamais teriam tido acesso a eles.

“Eu nunca gostei tanto de uma banda na minha vida igual eu gostei dessa, foi um vício que assim, ninguém na minha casa estava aguentando mais, eu só ouvia eles, só falava deles”, completa ela.

Isabella não podia viver esse sonho sozinha, por isso, apresentou a melhor amiga Mayura uma música e na mesma hora ela se apaixonou também. 

“Como toda boa amiga ela empurrou para mim o conteúdo e eu tive que aprender a gostar”, relembra Mayura.

Mas no fundo não foi nenhum sacrifício, a banda formada por quatro jovens artistas ingleses, encantou as duas logo no início e de longe elas sempre sonharam em poder ir a um show dos rapazes.

 

A primeira vez a gente nunca esquece

Foi em 2008, quando as duas descobriram que eles viriam ao Brasil pela primeira vez, para as adolescentes foi algo muito emocionante, afinal a banda era algo muito distante, e por não serem muito conhecidos jamais acreditavam que conseguiriam assistir um show deles ao vivo no Brasil. 

“Era algo que a gente só via pela internet, nem na tv, eles não eram muito famosos a ponto de aparecer sempre, então quando eles vieram em 2008 fizemos de tudo para ir”, conta Mayura.

Na época, Mayura era menor de idade e trabalhava apenas meio horário na loja de seu tio, Isabella tinha acabado de completar 18 anos e mesmo com pouco dinheiro, juntaram o que tinham e embarcaram para São Paulo. O irmão de Isabella morava na cidade, por isso, as duas tiveram onde ficar, no entanto, o dinheiro que tinham para passar os dias, acabaram comprando ingresso para outro dia de show.

“Iriam ter dois dias de show, 28 e 29 de maio, o show principal era dia 29, como esgotou eles abriram outro show extra, a gente comprou ingresso para o dia 29 e chegando lá nós pegamos todo o dinheiro que tínhamos para comer e compramos ingressos para ir no dia 28 também. E passamos dois dias só comendo promoção do McDonalds”, explica Mayura

“A gente tinha 18 anos, só que assim, as duas sem trabalhar, aquela confusão, mas conseguimos juntar dinheiro e pensamos vamos. No primeiro dia ficamos quase seis horas na fila, assistimos o show e depois que acabou, voltamos para fila do segundo, tudo isso para poder assistir a banda” relembra Isabella. 

A dupla de amigas já passou por vários perrengues pela banda, dormiram na fila do show para ficar na grade, passaram frio e tomaram chuva. Mayura acabou se sentindo mal e tiveram que ir para a parte de trás. Na volta para Belo Horizonte, Mayura foi internada com amidalite. Enfim, nada que uma boa fã não faria pelo ídolo adorado.

As amigas na fila do show

No ano de 2009, Mcfly voltou ao Brasil, dessa vez para a capital mineira, Isabella e Mayura “ganharam” uma promoção da Jovem Pan, com a ajuda de um primo da Isabella que trabalhava na rádio e conseguiram conhecer a banda pela primeira vez.

“Foi o primeiro show deles em bh, foi maravilhoso, mesmo esquema, horas na fila, só que esse ano, foi mais especial porque a gente conseguiu pela primeira vez ver eles de perto, foi bem rapidinho, só deu tempo de falar oi, mas foi sensação de outro mundo”, conta Isabela.

Na época, realizar todos aqueles sonhos era algo muito inédito para as duas, redes sociais como Instagram, onde os fãs conseguem ter contato muito próximo com seus ídolos era algo que não existia. 

“Eles eram inalcançáveis e de uma hora para outra se tornaram reais. Nessa fase o máximo que nós tínhamos era orkut, então colocávamos na frente do nome um parêntese com as datas com quantos dias faltava para o show”, completa Mayura.

Mayura e Isabela com a banda Mcfly

As expectativas para o retorno da banda aos palcos

As duas jovens aproveitaram e muito o pico da banda que gostavam. Acontece, que depois de muito tempo nas paradas, o Mcfly deu uma longa pausa nos palcos, e nesse tempo Isabella e Mayura, aquelas adolescentes que dormiam na fila do show, cresceram, amadureceram, Isabella acabou saindo do país para morar um tempo fora e Mayura se formou em odontologia e seguiu a carreira de dentista.

Em setembro de 2019, o grupo britânico anunciou o retorno aos palcos, nenhum show tinha sido confirmado ainda no Brasil, mas as expectativas e certezas das meninas eram altas. 

“A sensação era maravilhosa, a gente velha já, vários anos depois, não quisemos nem saber, iríamos de qualquer jeito”, confidencia Isabela.

No mês seguinte a banda confirmou, para a alegria dos fãs, os shows em março de 2020. A tour passaria pelas cidades de Belo Horizonte, Uberlândia, Rio de Janeiro, São Paulo, Ribeirão Preto, Curitiba e Porto Alegre. Em questão de segundos depois de começarem as vendas, elas já estavam com ingressos em mãos, se dependesse delas, comprariam para todas as cidades, porém acabaram adquirindo apenas para Belo Horizonte e Uberlândia.

“A gente ia ver em BH e em Uberlândia, BH porque a gente mora aqui e Uberlândia porque acreditávamos que seria mais fácil ter acesso a banda por lá, por ser uma cidade menor, encontrá-los no hotel para tirar fotos. Mas eu acho que no final das contas eu ia acabar fazendo alguma dívida e ia pro Rio de Janeiro ou São Paulo também. Eu ia fazer outra loucura igual eu fiz da primeira vez que não tinha grana para pagar”, brinca Mayura.

Para as duas, os shows seriam além de reviver toda aquela paixão pelo Mcfly, também o reencontro, já que Isabella estava morando em Portugal na época, e viria ao Brasil apenas para assistir aos shows ao lado da amiga.

“Começamos a fazer os planos e se preparar logo depois da confirmação, mesmo sem ter certeza se daria pra ir, até porque eu morava em portugal, estava estudando lá na Universidade do Porto, então eu fui na loucura, falei que ia, mas sem saber se daria certo. Foi de setembro até março nessa expectativa”, recorda Isabella. 

 

A chegada da Pandemia e o adiamento de tudo

Os shows do Mcfly no Brasil estavam programados para acontecer a partir do dia 19 de março, o primeiro inclusive, seria em Uberlândia onde as meninas já estavam com ingresso comprado e hotel reservado.

“Quando chegou janeiro e a pandemia começou a se espalhar pela Europa comecei a ficar com medo, só que eu não tinha ideia que ia chegar na proporção que chegou, porque até então o Brasil ainda estava teoricamente tranquilo” pensava Isabela. 

Acontece que desde o começo daquele mês uma grande quantidade de shows, principalmente internacionais, estavam sendo adiados ou cancelados no Brasil, já que a pandemia da Covid-19 começava a se expandir pelo país. 

Até o último momento elas não deixaram de acreditar que os shows aconteceriam, apesar de tudo ao redor dizer que não. Foi de fato no dia 13 de março, faltando menos de uma semana para que elas enfim pudessem assistir novamente, quase 10 anos, a banda favorita ao vivo, que saiu o anúncio do adiamento.

“De jeito nenhum eu imaginei que isso aconteceria, foi tanto tempo esperando, literalmente quase uma década, para faltando poucos dias ele ser adiado”, desabafa Mayura.

“Eu ainda fazia planos, Mayura e eu combinamos tudo, comprei a passagem, com muito custo, até porque eu nem podia, é muito cara viajar de lá para cá e eu já tinha vindo em dezembro, mas pelo Mcfly eu dei um jeito. Estava muito empolgada, mas o tempo passou e percebi que não ia ter o show, nem tinha como, mesmo assim eu vim na expectativa, e só quando eu cheguei aqui eu tive a confirmação de fato que ia ser cancelado”, revela Isabela.

Por fim, a pandemia não adiou apenas os shows mas também o reencontro das amigas, pois Isabela chegou a vir para o Brasil mas as duas não conseguiram se encontrar por causa do isolamento social.

Os prejuízos

Antes da pandemia, quando uma empresa responsável por um show tinha que adiar ou cancelar algum evento, geralmente cada uma tinha sua política, mas de uma maneira geral o consumidor poderia solicitar a devolução do dinheiro. No entanto, com o cancelamento em massa de shows, o governo estabeleceu uma medida provisória que dispensava essas empresas de reembolsarem em dinheiro, permitindo a devolução em créditos.

Com isso, não apenas Isabela e Mayura ficaram no prejuízo pelos ingressos adquiridos para dois shows, como todos os outros fãs ao redor do Brasil que haviam comprado ingresso para ver o ídolo. 

“Foi muito frustrante, principalmente porque não sei se foi algo adiado ou cancelado, não adiou para uma data certa, não sabemos até hoje quando eles podem vir novamente. Quanto ao dinheiro nem tento mais, apenas tenho retornos automáticos, aquelas mensagens padrão que enviam para todo mundo”, diz Mayura.

“Eu tenho esperança que vai ter o show e que eu vou poder usar esse ingresso, até porque eu tenho certeza se eu vender o ingresso, quando eles voltarem eu vou surtar e querer ir de qualquer jeito, prefiro deixar ele garantido, a esperança é a última que morre, ainda mais fã de Mcfly que está acostumado a nunca desistir”, confessa Isabella.

No caso de Isabella, o prejuízo não foi apenas do show, mas a garota veio ao Brasil exclusivamente para assisti-lo. “Comprei a passagem para o começo de março e voltaria no começo de abril, porém com a pandemia os aeroportos fecharam e não consegui voltar para Portugal”, lembra ela.

Isabella estava em período de provas e trabalhos na faculdade, mas sem condições de voltar, acabou se prejudicando. “Eu entrava em contato com a companhia aérea, com o aeroporto, com tudo, mas o mundo estava parado. E quando consegui realmente voltar a passagem estava absurdamente mais cara”.

A sensação de se adiar um sonho além de frustrante também é decepcionante, para Mayura além de estar indo ver sua banda favorito depois de ano, seria também a primeira vez que teria condições financeiras para não passar por perrengues como sobreviver a base de mcdonalds, dessa vez como adulta que se tornou poderia fazer algumas refeições a mais e ainda assistir os ídolos de perto. Também seria a primeira vez que iria viajar de carro para longe, enfim vários sonhos que foram adiados mas de forma alguma cancelados.

Foram 10 anos esperando a banda retornar aos palcos, as garotas já até tinham se acostumado a ideia de talvez nunca mais os ver juntos ao vivo e compartilhar aquele sentimento antigo de cantar bem alto todas as canções, cercadas de outros milhares fãs. O Mcfly voltou, elas viram de longe pelas redes sociais, os shows que aconteceram no final de 2019 em Londres e aguardavam ansiosamente pela sua vez, aquela sensação que permaneceu adormecida por uma década voltou com tudo, e elas chegaram muito próximas de reviver a juventude, dias, horas, porém a pandemia mais uma vez atrapalhou os sonhos planejados.

Nunca no último século o mundo cogitaria viver uma situação parecida com o que a pandemia da Covid-19 causou, ela abalou as crenças de muitos, mas como vimos na série de reportagens, sonhos nunca devem ser cancelados, e sim adiados, e a dupla de melhores amigas sabem disso, independente do prejuízo, elas vão manter os ingressos, porque sabem que pode demorar um, dois, ou até dez anos, como já aconteceu, mas elas vão esperar pelo Mcfly, assim como a Jordania seu intercâmbio e a Enza seu casamento. 

Pelo olhar do artista

Cantor Thiago Pinelli

Os impactos foram ainda maiores para os músicos. Muitos artistas, principalmente os independentes sofreram e muito com os efeitos causados pela pandemia. Nossa equipe entrevistou o cantor Thiago Pinelli, de 31 anos, que nos contou como tem sido superar esses obstáculos. 

Thiago é cantor sertanejo, antes do isolamento social se apresentava em bares, festas e casas de shows em Belo Horizonte e cidades de Minas. Já tocou em lugares de renome como Alambique e Observatório, agora com a retomada dos eventos está preparando muitas coisas novas para o público. Confira: 

  • Há quanto tempo você está no mercado da música e como começou nele?

Estou no mercado há dez anos. Na verdade, comecei minha carreira cantando em igreja. Em casa eu e meu irmão cantávamos de brincadeira e reuniões de família e amigos, quando numa dessas brincadeiras surgiu a vontade de formarmos uma dupla e cantar profissionalmente.

 

  • Como era a situação do mercado de shows para você antes da pandemia?

Quando dupla fazíamos bastante shows na região de Ouro Branco e Lafaiete, viemos para Belo Horizonte onde também fomos bem recebidos pelo público e casas noturnas, posso dizer que não ficávamos parado, sempre tínhamos shows e apresentações.

 

  • Tinham muitos marcados para acontecer?

Sim, estávamos com uma agenda muito satisfatória para quem tinha recém-chegado à Belo Horizonte.

 

  • Quando começou a pandemia você tinha ideia de que ela poderia atrapalhar tanto o seu trabalho como artista?

Não, Era uma doença nova e só com passar dos dias é que percebemos a gravidade disso tudo. Junto com o vírus vieram os cancelamentos das datas já marcadas, ai sim foi que a ficha caiu e passamos a perceber o que realmente estava acontecendo.

 

  • Como foi quando caiu a ficha de que os shows, todos os planos de gravações e novos projetos teriam que ser adiados?

Em Abril de 2020, quando os contratantes começaram a ligar para o escritório e cancelar as datas dizendo que estavam assustados com as reportagens e que não teriam datas certas para voltar aos shows, ai foi um baque pois no inicio da pandemia as datas eram adiadas e depois passaram a ser canceladas. Isso tanto nos shows como nos estúdios para gravações.

 

  • No começo da pandemia, quais foram as maiores dificuldades pelas quais você passou?

Largamos tudo o que tínhamos de segurança em nossa cidade para abrir novos espaços em Belo Horizonte, com a pandemia a maior dificuldade foi nos mantermos aqui na capital, sem shows e sem renda. 

 

  • O que os shows significavam para você tanto em questão de carreira quanto de realização pessoal?

Tudo! Cantar é minha paixão, eu estando no palco cantando é uma realização pessoal e profissional ou seja os dois andam lado a lado, juntos e misturados! E agora em carreira solo, significa mais ainda!  

 

  • Você teve prejuízos em relação a contratantes, quebras de contratos, atraso de salários?

Não digo prejuízo, posso dizer que deixei de ganhar. Os contratantes não tiveram culpa de algo que atingiu o mundo, não podemos cobrar deles essa conta. Mas, é complicado ficar parado, deixar de estar perto dos fãs, de fazer o que eu mais gosto!

 

  • Você trabalha apenas como músico ou tem trabalho paralelo para se manter?

 Vivo da Música, sou focado 100% na minha carreira, porém na pandemia fui ajudar meu pai na empresa de engenharia elétrica dele, precisava me manter! 

 

  • Como tem sido a sua rotina sem os shows ao vivo? Tem surgido alguma oportunidade de trabalho nesse tempo? Chegou a fazer lives?

Agora as coisas estão retomando devagar. Abri a agenda e já estou fazendo algumas apresentações em bares e casas de show em BH e Nova Lima. Mas, quando tudo estava parado, fiz apenas uma live na cidade de São Lourenço (MG). 

 

  • Pensou em algum momento em desistir da carreira?

Jamais! A música é minha vida, não me vejo fazendo outra coisa. Aproveitei esse momento para me dedicar à carreira solo, ensaiar bastante e focar em projetos para o pós-pandemia. 

 

  • E quais são esses projetos?

Bom, na verdade já comecei a colocar em prática um sonho que tenho há muito tempo, com a pandemia e os cancelamentos de shows, os trabalhos parados eu e meu irmão conversamos e resolvemos seguir caminhos diferentes. Como disse, meu sonho antigo era seguir carreira solo e venho fazendo meu trabalho gravando vídeos e movimento minhas redes sociais para que quando voltar a vida normal, o público e os contratantes já saberem desta nova fase da carreira solo.  

 

  • Quais são suas expectativas para quando voltar aos palcos?

Apesar de já ter completado 10 anos de carreira, acaba que nessa nova trajetória tudo ainda é novidade, mas claro que a expectativa é voltar a agenda recheada e conquistar meu espaço no mercado. Para isso, eu e meus produtores estamos realizando um trabalho intenso de preparação e produção de conteúdo. Queremos trazer muitas novidades e muita música boa para meu público. 

Conheça o trabalho do Thiago Pinelli no Instagram.

 

Revisão: Daniela Reis 

Por Keven Souza

Criada em 2009, pelos diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e pelo produtor Thiago Macêdo Correia, a produtora mineira Filmes de Pástico já foi selecionada em mais de 200 festivais nacionais como o Festival de Cinema de Brasília e a Mostra de Cinema de Tiradentes, além dos internacionais como o Festival de Cinema de Locarno, Festival de Rotterdam, Indie Lisboa, Festival de Cartagena, Los Angeles Brazilian Film Festival e entre outros, ganhando mais de 50 prêmios. 

Fundadores da Filmes de Plástico

Como uma das séries de conteúdos dos 60 anos da Una, o Contramão traz, hoje, um bate-papo com Gabriel Martins, sócio-fundador da produtora, que tem 33 anos de idade e é Diretor, Cineasta, Roteirista e Produtor Cinematográfico, formado pelo pela instuição em 2010. Martins acredita na Una como um espaço que oferece o encontro entre pessoas que amam cinema e que queiram dialogar e aprender sobre o universo cinematográfico, além de tudo foi roteirista em 2014 do filme “Alemão” e possui produções em catálogo na plataforma de streaming Netflix, com o filme “Temporada”

Nessa entrevista, Gabriel relembra sua trajetória como graduando de Cinema que possuía o anseio de realizar projetos, ainda na faculdade, e que construiu experiências formidáveis através da Una para alavancar os seus sonhos no setor de produção audiovisual. Além disso, nos conta sobre sua carreira de cineasta ao longo dos anos, junto à produtora. 

Gabriel Martins da Filmes de Plástico e ex-aluno da Una

1) Como começou a sua carreira no Cinema? 

Considero que comecei minha carreira no cinema com meu primeiro filme “4 passos” que dirigi na Escola Livre de Cinema em 2005, antes de entrar na Una. Até hoje é significativo para mim, porque através dele errei muito e pude aprender com isso, sem falar na circunstância limitada para produzi-lo, que na época, possuía poucos recursos que consequentemente forçou a minha criatividade na execução. 

 

2) O que propiciou você a escolher estudar Cinema e por quê escolheu a Una? 

Sempre quis fazer Cinema, é um sonho desde pequeno pelo universo audiovisual e me encantava ver televisão e assistir making-of, bastidores de filmes, e nunca me passou pela cabeça cursar outra coisa. A escolha de estudar na Una aconteceu em 2006, quando tentei o vestibular, minha intenção era entrar para uma universidade pública e não particular, mas realizei o vestibular na Una para testar meus conhecimentos e como resultado consegui bolsa integral e tive a oportunidade de cursar o curso, foi interessante porque a princípio, naquele época, era a única faculdade que ofertava o curso só de Cinema. 

E foi através da faculdade que consegui fazer um estágio importante no laboratório, que tive possibilidade de ter contato com muitos equipamentos da área e aprender muito sobre eles. 

 

3) Quando era aluno, você participava de projetos voltados ao curso de Cinema, como por exemplo o Lumiar? O que agregaram na sua formação profissional?

Infelizmente, quando estudei não existia o Lumiar, mas criei o Cineclube, que funcionava depois das aulas e várias pessoas iam lá para ver filmes. Nessa época frequentava muitos festivais, e antes de entrar na Una, era crítico da área e escrevia sobre cinema em uma revista, tinha um network muito forte que consequentemente ajudava a levar muitas discussões importantes pro Cineclube. Digo que foi uma parte excepcional como estudante, porque agregou muito conhecimento para mim e para o projeto, nos encontros se formavam muitas equipes que eventualmente vinham a fazer filmes juntos. 

 

4) A ideia de criar a Filmes de Plástico, veio de onde? 

A Filmes de Plástico veio de encontro entre eu e Maurílio Martins na Una, nos conhecemos no primeiro dia de aula, fomos da mesma turma, e desde o início queríamos filmar e fazer algo que possibilitava assinarmos filmes que queríamos fazer em nosso bairro. Na época, morávamos na periferia de Contagem e havia muitas ideias, uma vontade grande de produzir juntos. 

É interessante dizer também que as nossas produções não tem uma mensagem específica, só fazem parte do universo e que a partir disso, buscamos filmar personagens que trazem empatia com o público e mostram realidades diferentes, provando que, em meio às adversidades, é possível, sim, fazer cinema.

 

5) Devido ao cenário imposto pela pandemia, a cidade (o mundo) sofreu interrupções nas produções. De que forma a Filmes de Plástico se adaptou a esse desafio? 

A Filmes de Plástico teve que se adaptar à pandemia, porque diversos projetos que esperávamos filmar por agora, foram congelados e nesse meio tempo utilizamos o período para desenvolver os roteiros e preparar melhor os projetos, e não tem sido fácil, tivemos algumas questões para nos mantermos de pé enquanto produtora e efetuar outros trabalhos, mas compreendemos que o mundo em si esteve em pandemia contra a Covid-19 e nós como produtora focamos em tarefas que poderiam ser feitas a distância. 

 

6)Existe algum impasse, por causa deste cenário, em fazer crescer ainda mais a produtora?

Com certeza! São dois anos que o mundo de certa forma se estagnou, e a produtora em si mediante o cenário, interrompeu as produções de caráter físicos como a gravação de filmes de longa-metragem e ficamos um pouco impossibilitados de se movimentar mais, mas de alguma forma a pausa não foi negativa, tivemos a oportunidade analisar onde a produtora poderia chegar futuramente, repensar mesmo sobre a nossa caminhada daqui pra frente.

 

7) O que podemos esperar sobre os próximos lançamentos?

Com ineditismo, por agora, temos dois filmes a serem lançados comercialmente, um deles se chama “A felicidade das coisas” dirigido por Thais fujinaga, que é um filme estreado no International Film Festival Rotterdam (IFFR) neste ano e que ano que vem pretendemos colocar em cartaz. O outro é o meu próximo longa-metragem que se chama “Marte Um”, que está em pós-produção e com lançamento, também, previsto para o primeiro semestre do ano que vem.

 

8) Como você entende a evolução do Gabriel que estudou Cinema na Una, para o Gabriel de hoje? 

Minha evolução é nítida, ao longo da trajetória aprendi e errei ao fazer filmes de longa ou curta-metragem, e também em produções de outra pessoas, acho que a experiência me trouxe mais serenidade, me ensinou a entender que às vezes é melhor ter menos urgência e obter mais calma no passo a passo, dando tempo ao tempo.

 

9) Qual conselho você daria aos graduandos do curso de Cinema e Audiovisual em relação às oportunidades de mostrarem o seu trabalho, em um festival como o Lumiar?

O conselho é que as pessoas se joguem nos projetos, criem novos, como o Lumiar foi criado, porque é a partir deles que muitos alunos podem sair da faculdade tendo sua própria produtora. É necessário pensar no seu caminho a seguir, filmar incansavelmente mesmo que você não tenha todos os recursos suficientes, colocar suas ideias em prática e cultivar o ato de fazer cinema é necessário. 

É importante aproveitar também todas as oportunidades de festivais universitários que vier a ter, absorver o máximo que puder desses ambientes para adquirir informações, conseguir ter contato com mais filmes brasileiros e conhecer pessoas que estão em um lugar mais próximo que você, em uma mesma fase da vida que estudam e tentam fazer filmes.

 

Edição: Daniela Reis

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Por Tales Ciel 

Todo grande cineasta tem que começar de algum lugar, e o audiovisual, como toda forma de arte, consegue aproveitar bastante a universidade para iniciar suas experimentações e produções. Guilherme Jardim é co-diretor e roteirista do curta-metragem “Dois”, junto com Vinícius Fockiss. Jardim também é aluno do Centro Universitário Una e integrante da agência Una 360.

O curta conta a história de Bernardo e Luix, que buscam aproximação afetiva durante o período de distanciamento social e, em meio ao caos, tentam descobrir outras formas de amar. Foi contemplado pela 6ª Edição do Prêmio BDMG Cultural, nomeado Melhor Filme pelo Júri do Festival Kinolab Tela Digital 2021, e mais. Guilherme Jardim conta um pouco sobre o seu processo de criação de um filme independente e as algumas das dificuldades de produção em meio ao isolamento social.

Em parceria com o Contramão, o Núcleo de Relações Públicas e Cultura traz o Palco 360: onde os estudantes que integram a equipe podem exibir suas produções e trabalhos. Guilherme concedeu uma entrevista sobre seu filme e nos contou sobre sua vida profissional e a produção de “Dois”.

Como é o processo de produção de um filme?

Esse processo de elaboração de filme, pra mim a princípio é um processo muito aberto. Porque, normalmente, pode ser uma frase que me motiva a escrever um roteiro, pode ser uma imagem que eu vi e que tive vontade de fazer uma história baseada nela, pode ser de alguma história que já escutei. Então depende do caso.

O filme “Dois”, por exemplo, que é o filme que eu faço roteiro e direção, surgiu a partir de uma frase que tinha anotado num tipo de bloco de notas do celular. E a partir dali, fui moldando essa história junto com o Vinicius Fox, que é meu amigo e fez esse filme junto comigo. E a gente chegou onde o “Dois” é hoje.

 

Quais as dificuldades que mais te testaram durante o projeto de “Dois”?

As maiores dificuldades que eu enfrentei durante o processo de criação do “Dois” foram, primeiro: o filme foi idealizado e desenvolvido durante a pandemia do coronavírus; o início da pandemia. Então a gente já tinha a primeira dificuldade de produção que seria fazer um filme em dupla à distância. Não podendo nos encontrar e tudo mais.

E aí, depois, também de direção à distância. Porque é um filme que envolve dois atores, o Bernardo Rocha e o Luis Gabriel, e que se fala muito sobre amor em meio ao caos. Então tinha também essa diferença entre a realidade que estávamos vivendo e o que queríamos propor junto ao filme.

Fazer esse direcionamento, tentar se aproximar dos atores e criar essa relação mais íntima mesmo à distância, acho que foi a maior dificuldade. Mas ao mesmo tempo, também, foi a maior alegria, assim, dentro do filme. Porque, eu acho que todo esse processo acabou fortalecendo a mensagem que a gente queria passar com o “Dois” e o queremos propor com essa história. Então, até no meio dessas dificuldades, a gente acabou conseguindo criar novos caminhos, para que as coisas fossem possíveis mesmo de acontecer.

E eu acho que se fazendo cinema universitário independente, precisa ter muita dessa força; de tipo, tem que querer um pouquinho mais do que o normal. Porque qualquer coisa desanima e, enfim, a gente precisa ter essa consistência e acreditar nas coisas que a gente faz.

 

Como é conseguir/ter o apoio da instituição?

É, ter a universidade como apoio no processo facilita alguns passos, principalmente quando a gente tá desenvolvendo a escrita do projeto. Nas aulas a gente tem as orientações dos professores, que têm experiências diversas. Então, isso acaba agregando muito nesse processo de criação e eu acho que é um facilitador também. Muitas vezes nós ficamos em dúvida, inseguros com o que estamos propondo e é bom ter esse apoio junto aos professores, de mostrar a sua ideia e compartilhar e ir construindo juntos.

Acho que um ótimo exemplo no processo do “Dois” foi a nossa relação com a Mariana Mól, que era professora na época da disciplina de P.I. de ficção, e a gente tinha um diálogo muito aberto, muito horizontal. Muitas vezes nós chegávamos com uma ideia e – uma ideia embrionária, que seja – e conversava, e acabavam surgindo novas ideias no meio disso.

Também tem muito haver com o se questionar, sabe? Acho que a universidade dá também essa oportunidade para sermos mais críticos com os trabalhos que fazemos. Colocam a gente pra pensar: ‘Que história é essa?’; ‘Onde que a gente quer chegar com essa história?’; ‘Por que que a gente tá contando ela?’. E ter argumentos plausíveis e profundos. Ao meu ver, acho que cada caso é um caso, e pro “Dois” foi muito importante se questionar várias coisas, acessar memórias afetivas e ter essa troca mesmo; essa relação coletiva e horizontal com todo mundo que estava, de alguma forma, desenvolvendo esse projeto.

Até teve um caso muito marcante, que eu amo, que foi quando estávamos tendo uma das orientações com a Mariana e ela lembrou de um livro da Ana Maria Martins – Como Se Fosse A Casa. Ela lembrou de um poema específico e falou: “Olha, pelo que vocês estão me falando, me lembrei disso aqui!”. E nós estávamos numa reunião ao vivo e ela meio que abriu o guarda roupa, pegou o livro na hora e leu pra gente. Depois mandou as fotos, para termos o acesso, também, digitalmente, caso fosse interessante usar. Enfim, [usar] como uma inspiração e acabou virando, sim, uma das coisas que usamos de referência. E acho que, também, essa construção afetiva, sabe? Do filme, junto aos professores; acaba criando um corpo que [vai] além do que a gente consegue imaginar e querer. É muito natural e muito bonito.

 

Se pudesse citar um dos seus projetos favoritos, qual seria?

O “Dois” foi um processo muito íntimo pra mim. Tanto pela troca com o Vinicius, de pensar nisso juntos, sabe? Tanto [quanto] fazer um filme para que eu acreditasse no meu potencial. Eu estava vindo, antes do Dois, de um processo que eu me desacreditava muito. Das coisas que eu poderia propor. Eu não me via muito nesse lugar, principalmente de roteiro; tinha muita dificuldade de me enxergar ali. Acho que o “Dois” veio como esse “clareamento das retinas”, “uma correção da miopia”, onde era tudo embaçado pra mim. Acabou ficando mais claro, mais amplo; consegui enxergar mais longe. Eu consegui criar possibilidades a partir do que eu tinha.

O “Dois” também vem muito junto com o meu entendimento com o cinema, que tipo de cinema eu quero fazer. E tem muito haver com um termo que eu gosto de usar, que se chama: auto-ficção. Que é o compartilhamento das coisas que eu vivi e que vivo, e ao mesmo tempo, das coisas que eu invento. Como eu consigo pegar da experiência e transformá-las, também, a partir das coisas que eu queria viver.

 

Qual dica você daria pra si mesmo e os outros?

A dica que eu daria, tanto pra mim e pra outras pessoas seria de ficar sempre atento. Eu acho que o cinema se dá muito ao olhar. Pra quem curte esse tipo de produção hereditária, uma produção que fala sobre nós (eu com um realizador, não-binário, lgbtqia+), é da minha vontade criar imagens pensado nesses corpos e como que eu posso representá-los. É mais sobre a representação do que a representatividade. E como que, a partir da minha vivência e das coisas que eu acredito, posso propor novos imaginários e fazer esse processo de abrir caminhos; abrir mentes.

Enfim, para quem gosta desse tipo de cinema, a dica é estar atento às suas memórias, as coisas que você está vivendo no agora. Eu acho que tem muita coisa que a vida acaba trazendo e a partir [disso], talvez, igual o “Dois”, uma frase que se escreve num bloco de notas, acabe virando filme.

 

Edição: Daniela Reis

Revisão: Keven Souza

 

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Por Italo Charles

Pela primeira vez Belo Horizonte recebe o festival Semana de Cinema Negro. O evento, que acontece de forma online e gratuita, promove uma perspectiva sobre memórias e registros pessoais e coletivos.

Com programação extensa, o festival é dividido em cinco mostras temáticas e traz aos espectadores 50 filmes nacionais e internacionais produzidos por pessoas negras brasileiras, africanas e diapóricas. 

Para além dos filmes exibidos, o festival  apresenta uma gama de debates, homenagens e oficinas. As obras podem ser  acessadas na plataforma de streaming todesplay.com.br, e os debates pelo canal do festival pelo Youtube.

A mostra principal comemora os 51 anos do FESPACO – Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, considerado o maior festival do continente africano, com curadoria da pesquisadora Janaína Oliveira. 

A idealizadora do festival, Layla Braz – formada em Cinema e Audiovisual -, aponta que durante a graduação sentiu muita falta da cinematografia negra e africana e diante da situação, em 2018, começou a projetar o festival, porém só em 2019 conseguiu apresentar o projeto para a Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

“Eu sentia muita falta de explorar a cinematografia africana, na universidade eu não tive acesso a esses conteúdos, mas, principalmente, senti falta de não ter a divulgação aqui em Minas. Daí então, surgiu a ideia de criar um festival que levasse um olhar diferenciado para essa cinematografia”, comenta Layla Braz.

Ainda segundo Layla, o festival tem grande importância para a comunidade, uma vez que existe a falta de acesso a conteúdos cinematográficos relacionados à cultura negra. “Nós consumimos muitos filmes, estrangeiros e até brasileiros, mas não sob a ótica e construção negra, então o festival possibilitará ao público a aproximação com a cinematografia negra. 

O evento deixará como memória permanente um catálogo com cerca de 250 páginas com informações sobre a programação, textos inéditos e ensaios que completam os pensamentos acerca dos filmes. O catálogo tem como destaque memórias do FAN-BH – Festival de Arte Negra, um dos mais importantes eventos do segmento fora do continente africano.

Confira a programação (online e gratuita):

Instagram: https://www.instagram.com/semana.cinemanegrobh/

Site: www.semanadecinemanegro.com.br

 

A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis