Diversidade

0 137

Capacitismo no ambiente acadêmico dificulta relacionamentos, aprendizados e vivências de pessoas com deficiência 

Por Milena Vieira

Ativista feminista, mestranda no programa de pós-graduação em Comunicação Social da UFMG e criadora do blog “Disbuga”, Fatine Oliveira tem distrofia muscular e é cadeirante desde os oito anos. Trata-se, hoje, de importante voz sobre a experiência da mulher com deficiência, assim como em relação às atitudes e aos comportamentos preconceituosos dentro e fora do ambiente escolar. Ao longo dos anos, houve momentos em que Fatine foi infantilizada, submetida a olhares curiosos e a excessos de elogios, por fazer atividades normais ou impedida de participar de exercícios coletivos por não serem aptos às suas necessidades. 

À forma de Fatine, milhões de brasileiros lidam, todos os dias, com situações capacitistas. O capacitismo pode ser definido como toda forma de discriminação contra as pessoas com qualquer tipo de necessidade especial, seja ela física, seja auditiva, visual, mental e/ou múltipla. Tal comportamento nasce de um sistema excludente, opressivo e preconceituoso, no qual se enxerga a diferença como tradução de indivíduos incapazes de pensar por si mesmos e de atuar em sociedade. Revela-se no cotidiano, sobretudo nos meios acadêmico e profissional, por vezes inconscientemente, como em falas ou atitudes que expõem sentimentos de pena, proteção excessiva e/ou inferioridade, o que afeta violentamente a vida desses cidadãos.

Em uma sociedade, tudo que está fora ao que é posto como “padrão normal” pode sofrer preconceito e discriminação. Pessoas que não aderem às “normas” costumam ser invisibilizadas, marginalizadas e pouco aceitas nos espaços sociais, seja de maneira óbvia e transparente, seja de forma velada e não explícita.

No ambiente acadêmico, onde muitos indivíduos passam grande parte de seu tempo, as pessoas aprendem, ensinam, trocam experiências, constroem laços e memórias, além de lidar com as diferenças. Para que isso aconteça, é preciso que tal espaço seja inclusivo e acessível a todos. 

Segundo Welder Rodrigo Vicente, líder do Núcleo de Apoio Psicopedagógico e Inclusão (NAPI) do Centro Universitário UNA, é determinado por lei que escolas e universidades tenham adaptações em seus ambientes, o que inclui materiais e metodologias, para que atendam às pessoas com deficiência (PCDs), tanto alunos quanto professores e funcionários.

“O NAPI foi pensado, inicialmente, para atender uma demanda de inclusão, a partir do movimento dos alunos com deficiência, principalmente auditiva, realizado no final de 2010, de forma mais intensa. A partir da necessidade do estudante surdo, viemos a olhar para outras necessidades. Se tenho 50 alunos com algum tipo de deficiência, tenho que atender aos 50; se não, não estarei incluindo”, destaca. 

De acordo com estudo feito pela plataforma QEdu, a partir de dados do Censo Escolar 2016, apenas 26% das escolas públicas e 35% das instituições particulares estão aptas, nas cidades brasileiras, à criação de ferramentas de inclusão e acesso, para que as pessoas possam ter um ensino de boa qualidade. 

Já para falar sobre processos inclusivos nas universidades, é preciso, antes, levar em consideração a desigualdade social, fruto do sistema capitalista e da falta de investimento nas áreas sociais, culturais, de saúde e educação. 

Fatine Oliveira, por exemplo, foi uma jovem estudante de baixa renda, e ressalta a importância de discutir o assunto: “Não posso, simplesmente, virar e falar que tive acesso, ou não tive. Quero que entendam que a deficiência não é o pior. Vários outros tópicos da questão social também são ruins. Não consegui entrar na faculdade por falta de acesso. A maioria das pessoas com deficiência pertence a classes baixas, o que interfere mais ainda em sua vivência. Muitas pessoas não conseguem ver a dificuldade estruturada na sociedade. É muito complicado não ter esse apoio político do governo” 

Além de todas as complicações para ingressar no meio escolar, as pessoas com deficiência são, por vezes, expostas a expressões capacitistas de todos os tipos, dos velados aos ostensivos. Uma das vertentes do capacitismo no ambiente escolar diz respeito ao momento em que as pessoas olham para aquelas com algum tipo de deficiência, enxergando-as como “coitadas”, “vulneráveis” ou “inocentes”.

No caso de crianças, aliás, todas são inocentes, e não só quando têm deficiência; no caso de jovens e adultos, eles acabam infantilizados. Deve-se pontuar que o capacitismo não acontece somente em situações ligadas ao corpo físico. Pessoas com deficiências não visíveis também são questionadas quanto à capacidade e à inteligência.

“Em minha vida acadêmica, só me incomodavam as pessoas que olhavam para mim fixamente. Às vezes, riam de mim e tiravam sarro, criticavam. A gente tem que passar por cima, mas havia coisas de que não gostava, mesmo. Eu ignorava, deixava para lá, pois tem coisas que precisamos superar”, conta Letícia Diniz, 22 anos, que tem Síndrome de Down e é estudante de Jornalismo no Centro Universitário UNA.

É possível que, em algum momento, qualquer um tenha presenciado ou feito declarações capacitistas. Frases do tipo “Dar uma de João sem braço”, “Você só pode ser retardado!”, “Está mais perdido do que cego em tiroteio”, dentre outras, são naturalmente usadas no dia a dia, sem que se considere o quanto reforçam a imagem da pessoa com deficiência como incapaz.

Outro gesto capacitista é tomar como superação os feitos de sucesso, esforços e conquistas realizadas por PCDs, a exemplo de frases como “Eu reclamando da vida e olha você aí, vivendo, apesar de tudo”, “Ela é tão inteligente, nem parece ser especial”, “Te acho tão guerreira por chegar até aqui”. A deficiência, porém, não impede a pessoa de alcançar seus objetivos. Exemplo disso são os Jogos Paraolímpicos, um dos maiores eventos esportivos do mundo a envolver PCDs, que mostram que qualquer indivíduo é capaz de descobrir (e superar) novos limites.

Em palestra sobre capacitismo, realizada na plataforma do YouTube, no canal TV FEC SC, Federação Espírita Catarinense, o pedagogo Eduardo Torto Meneghelli, mestre em educação, conta que, na Antiguidade, acreditava-se que os indivíduos que nasciam com alguma necessidade não agradavam aos deuses e não tinham alma. A deficiência era vista como castigo, e muitos acabavam abandonados, ou mortos, pelas próprias famílias.

Tal violência não acabou com o passar do tempo. No Brasil, em meio à pandemia, registrou-se crescimento de ataques contra pessoas com deficiência, sendo a maior parte vítima de familiares e conhecidos. Segundo Cleyton Borges, supervisor do Centro de Apoio Técnico da Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência em São Paulo, o isolamento fez com que tais pessoas ficassem mais expostas. Ele reforça a necessidade de conscientização da população quanto às denúncias, que podem ser feitas, de qualquer parte do país, pelo Disque 100.

Discutir o capacitismo não é somente um dever das pessoas especiais. A conscientização é popular. Para cortar as raízes estruturais do preconceito, é necessário que todos estejam dispostos a se pôr em posição de escuta e aprendizado. Além disso, é vital cobrar do Estado a garantia dos direitos humanos, para que, então, seja construída uma sociedade em que todas as pessoas consigam viver dignamente. “Um caminho para aprender mais sobre as diferenças seria assumir uma postura de abertura, em que o olhar superasse os limites do conhecido e alcançasse a potência de novos aprendizados, que só o outro pode oferecer”, destaca Fatine Oliveira. 

Manifestação pelo direito das pessoas com deficiência em 2013, na cidade de São Paulo (foto: Danilo Verpa/Folha S.Paulo)

 

 

 

 

 

 

 

Conscientização nas redes

Desde o início da pandemia, nota-se crescimento de conteúdos produzidos nas redes sociais, em apps como TikTok e Instagram. Em consequência do isolamento social, o número de visualizações e engajamento tem tido aumento relevante, se comparado aos anos anteriores. Mais do que apenas conteúdos, alguns influenciadores têm conseguido abordar assuntos delicados e importantes por meio do humor.

É o caso da influenciadora digital e psicóloga Lorrane Silva, mais conhecida como “Pequena Lô”, diagnosticada com displasia óssea. Ela tem quase 10 milhões de seguidores em suas redes sociais, e, em vídeos humorísticos, aponta os problemas sociais enfrentados por pessoas com deficiência. Além de se divertirem, as pessoas acabam conscientizadas com o conteúdo. 

“O preconceito ainda está longe de acabar. Muitas pessoas têm um pensamento muito fechado. Estou na internet para mudar essa visão em relação a nós, pessoas com deficiência. Quando comecei, impactou muito. Uma pessoa com deficiência, que dança, faz humor, formada em psicologia, não é todo dia que a gente vê. As pessoas com deficiência não ficam reunidas em um só lugar, mas, hoje, conheço muitas que estão na internet, pondo a cara à tapa para apresentar essas informações”. 

Origem do “capacitismo”

A palavra capacitismo é a tradução do inglês “ableism”, que, em português, significa “capaz”. Segundo a BBC, o termo foi usado, pela primeira vez, nos Estados Unidos, na década de 1980, e era mais conhecido dentro de organizações políticas pelo direito à igualdade. No Brasil, apesar de também existirem movimentos ativistas de pessoas com deficiência pela reivindicação de seus direitos, desde os anos 1980, o termo se popularizou em 2016, quando um grupo de jovens com deficiência se reuniu nas redes sociais e criou a hashtag #ÉCapacitismoQuando, com o objetivo de ampliar a discussão sobre a discriminação contra pessoas com deficiência. É importante que exista a denominação do preconceito, para que ele seja exposto e confrontado. 

Nas telas

Confira dicas de filmes e seriados que retratam a vivência de pessoas com deficiência e os efeitos de uma sociedade capacitista 

The Good Doctor (O bom doutor)

A série tem como protagonista Shaun Murphy, jovem autista formado em medicina, que sonha em ser cirurgião e tem suas habilidades questionadas e postas à prova o tempo todo, por colegas e superiores, após começar a trabalhar em um hospital famoso.

Extraordinário
O filme narra a história de Auggie Pullman, garoto de 10 anos, que nasceu com uma deformidade genética no rosto e precisou passar por 27 cirurgias plásticas. Com o apoio da família, Auggie começa a frequentar a escola pela primeira vez. 

Hoje eu quero voltar sozinho

Um romance brasileiro. Conta a vida de Leonardo, jovem estudante do ensino médio com deficiência visual. Aborda os desafios para a inclusão e os questionamentos sobre a própria sexualidade, após o protagonista conhecer Gabriel, novo aluno da escola. 

0 130

Por Keven Souza

A dança sempre esteve presente em todos os momentos da história da humanidade, como amiga do ser humano, desempenha papel importante na construção de várias culturas. Essa arte carrega a liberdade de se expressar, o poder de imaginar e a vontade de transformar o mundo. 

Essa responsabilidade conduzida pela dança tem sido precursora no desenvolvimento em todas as esferas da sociedade. Na Cultura Ballroom, esse princípio não é diferente. Em meio a resistência, glamour e movimentos, nasce uma comunidade que gira em torno de arte, um lugar onde ser diferente é permitido e se torna refúgio para aqueles que precisam de acolhimento.

Em conversa com o jornalista, dançarino e participante assíduo da Cultura Ballroom, Dante Alves, 26 anos, o Contramão abordou os aspectos e a importância que fazem desse movimento um ato social, político e histórico. Além disso, trazemos em detalhes como tem sido a cena ballroom no panorama de Belo Horizonte. Confira a entrevista! 

Dante Alves – Arquivo pessoal

Dante, o que seria a Cultura Ballroom para quem não conhece? 

A Ballroom é uma cultura que nasceu nos EUA em meados dos anos 70, ela surge em paralelo aos bailes drag daquela época e em um contexto social em que a população LGBTQIA+ sofria uma repressão horrivel, mas principalmente o recorte de travestis negras e latinas, que dentro da comunidade sofria com o racismo. Ela nasce a partir de suas próprias competições nos bailes, evoluindo e se criando em categorias que variam entre estética, dança, realidade, entre outras diversas. 

A Ballroom é extremamente importante, porque ela é feita por e para as travestis negras e latinas e acima de qualquer coisa, ela celebra os corpos marginalizados que estão dentro da comunidade LGBTQIA+, que por muito tempo, e até hoje, sofre de uma higienização e embranquecimento quando é representada no mainstream. Essa cultura é muito mais do que um baile e uma festa, é sobre resistência.

Qual é o estilo de dança dentro dessa cultura? 

A dança dentro da Ballroom é muito forte e diz muito sobre a liberdade. Ela é bem específica, pegando elementos de vários outros tipos de dança e, literalmente, não é necessário você ser o padrão de dançarino para se divertir dançando vogue. Essa autonomia que a ballroom permite é sensacional, pois abre um espaço de liberdade para você ser quem você realmente é.

Particularmente, eu sempre fui uma pessoa que ama dançar, desde criança nos churrascos de família ou fazendo as coreografias no meu quarto assistindo clipes na TV. A dança sempre foi um momento de diversão, de me conectar com a música e de me sentir bem com meu corpo.

Lembro que comecei a dançar na ballroom em 2017, mas já participava da comunidade como espectador desde 2014, neste ambiente me sinto confortável para dançar e me expressar. Como uma pessoa gorda, dançar pra mim é isso, liberdade! 

Normalmente, as pessoas tendem a confundir a Ballroom com a Dança Vogue, por serem estilos de danças marcados por poses e movimentos expressivos. Há diferença entre as duas? Por que as pessoas as confundem?

O Vogue é apenas uma parte da Ballroom, um estilo que nasce da dança de rua inspirada nas poses das modelos da revista Vogue. As pessoas se confundem principalmente pelo vogue ter saído da ‘bolha’ e isso se deve muito a Madonna nos anos 90 que levou a dança ao mainstream, onde as músicas são feitas para a massa. 

Há uma problemática com essa questão, é muito visto a apropriação da dança sem respeitar e ao menos saber da história da comunidade que há por trás, principalmente por pessoas brancas e não lgbts. O Vogue é muito mais que uma dança pra quem faz parte da ballroom e a ballroom é, definitivamente, muito mais do que o Vogue. 

Você é bastante atuante no cenário Ballroom aqui de BH, como funciona este estilo de dança aqui na capital? Possuem espaço ou ainda existe preconceito? 

Geralmente ocupamos espaços públicos, como o CRJ por exemplo, e acho que por mais que tenham pessoas preconceituosas e que não entendem o que está acontecendo ali, a gente se protege bem e sabemos onde vamos ser bem recebidos.

A cidade tem abraçado projetos, ideias e os eventos desse nicho?

Não acho que o governo de Belo Horizonte seja o maior exemplo de apoiar projetos desse tipo, mas a comunidade se movimenta bastante para conseguir alguns projetos e coisas desse nicho. Falando em questão de público, as balls estão sendo sempre muito bem recebidas, principalmente com o sucesso que a ballroom voltou a fazer com os programas de tv e etc. Então depende do ponto de vista.

Dentro da Ballroom existem as Houses, que são espaços que representam o acolhimento e vão além de um local físico. Qual a importância delas para a comunidade LGBTQIA +?

As houses são como nossas famílias dentro da ballroom, como se fossem nosso “time” nas competições. Mas para além disso, são grupos que se apoiam e que têm um sentimento familiar, tem toda uma estrutura de mother, father, princess e etc, e são criadas através das conexões de seus membros. 

Antigamente as houses poderiam até serem físicas, onde as mães e pais acolhiam aqueles que não tinham onde morar, especialmente aqueles em que os pais não aceitavam ser da comunidade e colocavam para fora de casa. Mas, no contexto atual da ballroom é algo mais abstrato do que físico, são “espaços” que representam o acolhimento. 

É a partir das houses que acontecem as competições, as disputas de danças, os desfiles. De que modo são organizados esses eventos?  

Os eventos são chamados de balls, que em tradução significa bailes, esses balls são organizados geralmente por uma house ou pessoas de maior movimentação. Normalmente, existe um painel de jurados que são pessoas influentes e importantes na ballroom, um MC que organiza as batalhas e se comunicam com o público, um chanter que é uma pessoa que faz o chant – que é como se fosse uma ‘letra’ que dita a batalha –  e claro um DJ para soltar os beats. 

Cada categoria é aberta e todos que querem competir ganham os tens (aprovação) ou o chop (eliminação). Essa etapa acontece antes de começar as batalhas, onde você se apresenta para os jurados e a partir disso, se eles acham que você está apto a participar dessa categoria, você ganha os tens, mas se algum deles acharem que você não está e te dá um chop, você está fora, não passa para a fase das batalhas. Isso tudo faz parte dos eventos.  

Hoje, você faz parte de uma dessas casas, o que ela representa para você? 

Sou membro da House of Barracuda, uma casa que foi e é muito importante para meu crescimento dentro da ballroom, além do meu desenvolvimento pessoal. Estou na Barracuda desde a sua fundação, onde surgiu a partir de um sentimento das mother’s, o Trio Lipstick, de transformar aquele grupo que estava muito unido em uma família. Elas reuniram todos nós e expuseram a vontade de construir uma house, e de uma forma bem colaborativa a Barracuda surgiu.

Hoje, temos diferentes membros, onde cada um compartilha suas experiências e apoia um ao outro. É como uma família mesmo! Quando estamos juntos, seja em um almoço, treino ou na ball gritando e apoiando, me sinto livre para ser eu mesmo. 

Por fim, qual dica você daria para quem não conhece o cenário de dança LGBTQIA + de BH, especificamente a Ballroom, mas tem curiosidade de participar dos eventos? Qual seria o lugar ideal de procurar para quem se interessa?

Uma frase muito dita na Ballroom é “procurem saber”. Procurem saber da história, da importância, da necessidade dessa comunidade. Busque entender quem começou, de como surgiu. A história é muito importante para a Ballroom, então antes de começar a se jogar na dança, minha dica seria estudar sobre. Tem ‘Paris is Burning’ para ver na internet, além de diversas páginas no instagram que se propõem a serem didáticos para quem está interessado. 

Hoje, as lideranças da ballroom também estão dispostas a ensinar e acolher, então se aproxime das pessoas e estude! Isso é legal para um primeiro passo. E para quem tem vontade de frequentar, o CRJ é um lugar onde a gente sempre está se encontrando e tendo treinos abertos, que estão voltando aos poucos devido a pandemia, mas na pagina @mgballroom é dito todas as movimentações da cena mineira, balls, treinos e etc, então ao seguir a página você vai saber onde estamos. 

 

0 146

Por Bianca Morais 

Janeiro é o mês da Visibilidade Trans e o Jornal Contramão traz hoje uma reportagem especial com Thabatta Pimenta, a primeira mulher trans no poder legislativo do estado do Rio Grande do Norte. Confira a história surpreendente.

Conheça Thabatta

Thabatta Pimenta tem 30 anos, é do interior do Rio Grande do Norte e é uma mulher trans. Desde pequena Thabata já percebia que não pertencia àquele corpo ao qual ela nasceu. Sem se entender ainda como trans, durante a juventude sofreu muito bullying por ser um “menino afeminado”, foi apenas na adolescência depois de participar de um concurso de miss de sua região e se olhar no espelho caracterizada como mulher que teve a certeza de que era uma.

Apesar do bullying, Thabata carrega uma boa lembrança da infância, de quando ainda em transição foi fazer uma peça de teatro do clássico da literatura brasileira, A Moreninha, e fez o papel da menina, na época o rapaz que contracenou com ela não teve problemas em aceitá la e ser seu par, naquele momento ela pode ser quem era e ter um “príncipe” pela primeira vez.

“Eu acho que a transexualidade é uma descoberta do dia a dia, a gente nasce assim, então com o tempo vamos desabrochando como uma flor, percebendo e se entendendo, comigo foi assim, durante a infância eu percebia, eu tinha meus amigos gays, mas eu via que eu era algo a mais”, conta ela.

A norte-rio-grandense nunca precisou se explicar para família, desde cedo sua mãe e irmãos já notavam sua diferença, sempre foi algo natural e seus entes sempre a apoiaram em todo o processo de transição.

“Um dos meus hobbies é treinar e minha transição física veio com o tempo e me aceitando. Inicialmente, comecei para conseguir forças e cuidar do meu irmão, mas com o tempo meu corpo foi mudando, nunca fui de deixar meu corpo de um jeito de outro, eu fui na questão de olhar no espelho e me gostar. Nunca tive problemas com ele em si, muito menos com meu órgão genital, essa questão da transexualidade vai além do corpo físico, é uma questão mais psicológica”, explica Thabatta.

Um dos momentos mais importantes nessa trajetória foi poder fazer a retificação de seu nome, foi no dia de seu aniversário que ela alterou o nome e ali ela comemorou não apenas o dia que sua mãe lhe pôs no mundo, mas também o dia em que colocou o nome que ela escolheu para si, de se reconhecer dentro de seu gênero. Thabatta é uma mulher trans e torce pelo dia que vai poder ser chamada apenas de mulher.

“Hoje ainda é necessário dizer que sou uma mulher trans, principalmente para mostrar que estamos naquele espaço onde outras deveriam estar. Mulher trans, travesti, na realidade é a mesma coisa, o fato de ser uma travesti é um ato político, um termo político de nos mostrarmos a muito tempo na sociedade, para mim o que eu acho preconceito é se referir travesti no masculino, afinal todas nós somos mulheres”, esclarece ela. 

Thabatta nunca abaixou cabeça para ninguém, toda discriminação que sofreu ao longo da vida ela batia de frente e não deixava a pessoa que cometeu o preconceito sair sem refletir sobre a fala, e foi nessas voltas da vida e buscando pela direito de ser a voz de sua comunidade que a mulher resolveu entrar na vida politica.

Thabatta na política

Thabatta é muito conhecida em sua cidade natal, Carnaúba dos Dantas, é locutora em uma das rádios mais populares da região e querida por muitos devido a sua simpatia.

Em 2016 se candidatou pela 1ª vez a vereadora e apesar de sua alta popularidade, encontrou por dificuldades para encontrar um partido que a aceitasse, isso porquê Thabatta é uma mulher trans, quando um a aceitava, os outros da coligação diziam não querer ter sua imagem associada a uma trans.

Depois de muitas lutas, Thabatta conseguiu se candidatar, no entanto, não foi eleita, sua campanha inclusive, foi duramente atacada, principalmente por partidos mais conservadores.

Ela sempre foi dona de si, corajosa e destemida, quatro anos depois da primeira tentativa, ela voltou às urnas, dessa vez pelo Partido Republicano da Ordem Social, o PROS, e com 267 votos foi eleita a primeira mulher trans no Poder Legislativo do Rio Grande do Norte.

A vereadora é uma mulher trans no país onde mais se matam pessoas trans no mundo, Thabatta porém não deixou se abalar pelo preconceito, ao contrário, transformou todo aquele ódio vinculado ao que ela representa em força para não desistir.

De acordo com o levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), no Brasil, 90% dessa população tem a prostituição como fonte de renda, muitos não gostariam de permanecer nessa situação, mas o preconceito ainda fala alto na sociedade, e se o desemprego já é uma realidade no país, para o público trans ele é ainda maior.

Thabatta conseguiu vencer as expectativas, alcançou um cargo que poucos de seu grupo conseguem, e além disso, ainda tem que provar diariamente sua competência, trabalhar dobrado para mostrar que merece estar ali, afinal, quando se alcança um local onde poucos dos seus chegaram por preconceito, os outros querem te derrubar.

“Na política hoje eu calo a boca de muitos que duvidaram, sofri preconceito e na primeira campanha fui sozinha e mostrei que eu era capaz, a população também me deu essa resposta, as dificuldade não me abalaram só me fizeram mais forte, entender que era esse caminho que eu tinha que seguir, fazer não só por mim mas por outras pessoas trans, pela minha comunidade lgbt”, diz a vereadora.

Representatividade importa

Depois de eleita, a vereadora aumentou seu número de seguidores nas redes sociais, não só apenas o Rio Grande do Norte conheceu ela, como todo o país. Nascida de uma família humilde do interior, acabou conquistando todos os cantos do Brasil.

Thabatta não apenas levanta a bandeira do LGBTQIA +, mas outra causa que também a motiva e a destaca é a de pessoas com deficiência. Ryan Ricelle, irmão de Thabata, tem 32 anos e paralisia cerebral, ela é responsável por seus cuidados por ele, a “irmãe” enfrenta todos os dias as dificuldades de acessibilidade ao ter que levar seu irmão nos locais, ruas esburacadas, falta de rampas, entre outros. 

Os desafios de Thabatta

Maria Aparecida de Medeiros Silva é mãe de Thabata Pimenta, a vereadora sempre se orgulhou da diversidade de sua família, ela mulher trans, a mãe lésbica, Ryan cadeirante e assexual e Ramon, o hétero. Ela nunca deixou de mostrar tanto em suas campanhas, quanto em suas redes sociais, o amor incondicional a sua família e o amor deles por ela, todos se aceitando como são.

Thabatta e a família

Não é de se surpreender que no dia 29 de dezembro de 2020, quatro dias antes de sua posse, um pedaço de Thabatta se foi, sua mãe, técnica de laboratório no Hospital Regional Mariano Coelho, em Currais Novos, faleceu de covid-19. A mulher que sempre esteve ao lado dela, lhe apoiando e cuidando dela e de seus irmãos morreu, e naquele momento Thabatta que tanto precisa ser forte para encarar a constante cobrança de ser uma vereadora trans precisou ser ainda mais, pois agora a responsabilidade de cuidar de sua família recaia sobre ela, e mesmo precisando ser tudo, ela conseguiu.

Thabatta é sinônimo de fortaleza, durante todo seu mandato vem lutando em favor das minorias, é uma super mulher que carrega muitas causas em suas costas.

A voz da minoria

Ryan, o irmão da vereadora tem um grande talento, o da pintura. Com um suporte na cabeça e um pincel, o rapaz pinta quadros representando as paisagens do nordeste. 

Depois da morte de sua mãe, Thabatta é quem sustenta a família, na casa onde mora vivem Ryan, Ramon, a cunhada e sua sobrinha. Sendo vereadora ela ganha 3 mil reais que precisa ser suficiente para todas as contas. Foi então que através do conhecido site “Razões para acreditar” e de uma vaquinha virtual feita por eles, que a família conseguiu arrecadar 40 mil reais para custear uma nova cadeira para Ryan, uma vez que sua antiga já estava o machucando.

Thabatta desde cedo lida com o preconceito, é uma mulher trans e tem um irmão cadeirante, segundo ela, o irmão é um dos responsáveis pela força que ela tem para enfrentar as dificuldades, que são muitas. Thabatta enfrenta todos os desafios de ser uma mulher trans e mesmo assim ainda consegue cuidar do irmão como se fosse a própria mãe, luta pela educação inclusiva, acessibilidade e direito às pessoas com deficiência, carrega seu irmão, literalmente, todos os dias para diversos lugares para que ele se sinta parte da sociedade, que muitas vezes, exclui o diferente.

Thabatta e o irmão

A busca por políticas públicas para os trans e travestis

Dentro do mercado de trabalho, Thabatta se encontrou e é muito feliz em suas atuais posições, tanto na área da comunicação quanto na política, porém não são todas as mulheres trans e travestis que têm a mesma sorte dela, por isso, uma das principais lutas que ela trava dentro do governo é a de colocação desse público na sociedade.

Uma dessas questões é a da hemoterapia, muitas mulheres trans e travestis por falta de condições acabam se harmonizando sem uma ajuda médica e tendo vários problemas de saúde em consequência disto.

“Eu custei a tomar hormônio, essa é uma questão delicada no cenário trans, no cargo que ocupo hoje eu venho lutando para que essa política pública, a da hemoterapia e da transição em si chegue a mais pessoas trans aqui no meu estado”, comenta a vereadora.

Thabatta é ativista e faz questão de dar voz a seus iguais, já que eles ainda não alcançaram esse espaço, ela como primeira mulher trans e travesti eleita parlamentar do estado fala por eles.

“Eu acho que o que nos falta é cada vez mais políticas públicas que nos incluam, que entendam que a gente existe de verdade sendo na educação, que chamem mais pessoas trans para estudar, cursar uma faculdade futuramente, sou muito a favor das cotas. Hoje a minha luta é principalmente para isso, moro em uma cidade pequena do interior do estado lutando para que a política da mulher seja fortalecida, que a gente tenha cada vez mais acesso ao sistema de saúde, tenhamos um ambulatório para nos tratar, e que com o tempo se entenda que apenas queremos viver e passar dos 35 anos”, posiciona-se.

Nesse mês da visibilidade trans, histórias como a de Thabatta mostram que apesar de muito a se percorrer na luta pela igualdade, é sim possível vencer e reconhecer em Thabatta uma figura tão forte que ajuda milhares de pessoas a não desistir é muito importante, ela é prova que é possível sim vencer as barreiras do preconceito e conquistar seu espaço.

“Na política e como figura pública eu faço o máximo para que as pessoas nos enxerguem, acolham, entendam, e respeitem porque o que mais vemos notificando é as mortes de pessoas trans e travestis e isso dói em mim, não quero que isso aconteça com o futuro de outras trans, quero mudar hoje e amanhã o futuro dessas pessoas que é algo que eu posso fazer”, finaliza a vereadora.

Com a palavra, Thabatta Pimenta

“A população não pode dizer ‘eu não entendo muito, você tem que me explicar’, isso acontece muito, as informações estão ali, a internet está aí, você ser preconceituoso hoje é porque você quer, você entender o direito do outro de ir e vir é muito importante, você tem que respeitar porque isso é o mínimo. A sua obrigação é respeitar o outro, seja qual for a orientação sexual, a identidade de gênero, a cor, a religião, você tem que respeitar o outro. 

A mídia também tem que continuar essa visibilidade, a gente não quer só ser a primeira, ser a primeira trans vereadora, primeira trans médica, primeira trans professora, queremos que cada vez mais tenha outras, mas para isso acontecer as oportunidades tem que chegar até nós, a sociedade tem que nos acolher, nos empregar, tem que nos dar a chance de mostrar que somos capazes.

Hoje lutamos muito na questão da capacitação desses espaços públicos, seja em hospital, escola, banco, que não nos respeitam, quando chegamos nesse espaço que o povo não quer nos aceitar quer te chamar no masculino mesmo vendo uma mulher na sua frente é um absurdo. A sociedade tem que cada vez mais se capacitar e entender o outro, o direito do outro, o respeitar o outro”.

 

0 367

Por Keven Souza

Ao longo das inúmeras reportagens já produzidas no nosso jornal, demos vozes a diferentes ações, projetos e vivências. Tivemos a oportunidade de apresentar pessoas e personalidades, cuja narrativa é ímpar e para lá de especial. 

E hoje, em comemoração ao Mês da Visibilidade Trans, é dia de contar a história de Gabriel Carneiro, homem trans, que passou pelo processo transitório com determinação e representa todos aqueles que não se identificam com o gênero que lhe foi atribuído em seu nascimento. O jovem detém uma trajetória de vida que irradia coragem, além de superação. Conheça-o!

Quem é Gabriel 

Gabriel Carneiro Campos é belo-horizontino, empresário, criador de conteúdo digital e ativista assíduo do movimento LGBTBQIA+. Com 27 anos de idade, é um rapaz apaixonado por acampamento, trilha, viagem e como grande parte dos mineiros, pelo Atlético/MG. Gabriel um dia fora Gabriela. Gabi, como ele a chama, fez parte da sua história enquanto indivíduo e moldou a personalidade do imponente ser que se tornou hoje. 

“O Gabriel é a junção do que a Gabriela construiu até uma determinada parte do caminho. Então, muito do que me tornei é sobre a Gabi”, conta ele, que apesar de ser um grande homem atualmente, sua história com a incongruência de gênero é antiga, quando ainda estava na adolescência. 

Aos 15 anos, em 2010, ardia em seu peito alguns instintos da não identificação com o seu gênero designado biologicamente, na época, o rapaz não entendia muito bem os ensejos do seu próprio eu, mas ia compreendendo os sinais que surgiam e de forma natural, e inconsciente, acabou ouvindo a sua real identidade. “Consigo entender perfeitamente que naquele momento algo já estava sendo reproduzido, mesmo que inconscientemente”, conta.

Durante essa fase havia pouco acesso e representatividade acerca do tema transsexualidade, no entanto, mesmo com a falta de informação sobre o assunto, a boa relação com si próprio trouxe a confiança e a firmeza de dar pequenos passos para se conectar com o universo masculino. 

A partir daí, Gabriel começou a discernir que não se encaixava naquele corpo feminino, a entender que os questionamentos eram apenas a inquietude de quem estava em busca da sua verdadeira identidade e que, desde sempre, se enxerga como homem. 

Relação com família e transição 

Seu vínculo com a família é uma exceção com base nos históricos de relacionamento familiar de transexuais no Brasil. O jovem, criado pelos pais, obteve o companheirismo e a empatia dos seus entes queridos durante todo processo de transição. Dentro de casa, estudou a melhor forma de contar que tinha tido coragem de ser quem ele realmente era. 

“Busquei a forma mais didática para falar com eles, entendi que eu teria que abordar o assunto de formas diferentes… não teria como ter a mesma conversa com minha avó e minha prima de 8 anos, por exemplo”, explica ele. 

Quando começou a obter independência financeira, deixou de raspar os pelos de seu corpo e iniciou a troca das peças de roupas femininas pelas masculinas. Uma decisão crucial, pois acreditava realçar sua masculinidade. “Com minha ‘liberdade financeira’ iniciei a troca do meu guarda roupa, não usava mais peças íntimas femininas, não tinha mais roupas daquele universo”. 

Na época, o menor dos problemas de Gabriel era dizer sobre o desejo de transacionar, já que o assunto vinha sendo trabalhado para não haver certas emoções. “Não tive problema! Era algo que eu deixava bem claro e muito certo do que estava fazendo, não queria e nem aguentava usar nada feminino mais”.

Foi próximo aos 22 anos que deu início ao tratamento hormonal. A aceitação da família foi fora da curva, de modo leve, pautado por trocas e descobertas. “Eles não entendiam nada sobre o assunto, porém estavam lá se esforçando dia após dia para me acolher da forma mais honesta possível. Havia alguns deslizes, mas eu entendia que acabaria com o tempo e foi assim, com respeito, que fui levando e recebendo todo apoio.”

O processo, a priori, foi libertador e tranquilo. Em 2018, custeava cerca de duzentos reais mensais para a terapia de reposição hormonal que acontecia através do atendimento particular. Durante esse período, após um ano de acompanhamento médico, Gabriel acabou perdendo o emprego – que era sua principal fonte de renda na época – e teve que continuar o tratamento através do Sistema Único de Saúde (SUS), no Ambulatório Trans do Hospital Eduardo de Menezes em Belo Horizonte, oferecido gratuitamente. 

O rapaz sentiu grandes emoções com a demissão, mas jamais pensou abrir mão da terapia. “Em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir. Muito pelo contrário, estava ciente de tudo que eu poderia perder com minha escolha, mas nada no mundo me assustava mais do que não ser eu, então desistir nunca foi uma opção!”

Hoje em dia, Carneiro mantém o acompanhamento médico, uma vez que o processo tende a durar toda a vida, e para ele chegar onde chegou é dar valor à sua própria trajetória. “Eu sempre deixo claro sobre ser um homem trans e o orgulho que sinto disso”.

Gabriel e a família

Empenho à luta trans

Ser uma pessoa trans no Brasil não é fácil – o país mantém liderança no ranking mundial de estado que mais mata transexuais, de acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU). Mas Gabriel, mesmo com tantas adversidades e talvez certos privilégios, se empenha pela causa, na qual tem orgulho e enxerga importância. 

Sua luta pode parecer única, invisível, diante de tantas outras, porém, a coragem de ser quem realmente é realça o desejo permanente pelo reconhecimento e a liberdade de existência da sua população. Por isso, participar de projetos, ações e movimentos ligados à transexualidade é um ato constante que faz parte de seu propósito. “Meu corpo é político e a urgência dessa luta é enorme, já que o nosso país é o que mais mata pessoas trans no mundo”, desabafa. 

Atualmente, Gabriel tem sido voluntário ativo de uma ação para pessoas trans que foram afetadas pelas fortes chuvas em BH. Trabalho significativo que representa a sensibilidade pelo outro. “A pessoa que eu ajudo, de algum modo, fortalece outro companheiro(a) de caminhada e juntos vamos tendo acesso, chegando em lugares que nossos corpos não tem espaço para ocupar”.  

Nas redes sociais não é diferente! Com serenidade, seu trabalho social ganha voz, corpo e imagem através de vídeos de conscientização e publicações voltadas à causa. Onde busca de forma politizada dar fim a preconceitos, baixa representatividade trans e atuar na falta de informação. “A maioria das pessoas têm acesso à internet, por isso o objetivo central é criar uma rede de apoio e conhecimento de forma didática, além de levar acesso às pessoas trans e aqueles aliados ao nosso universo”. 

Recado para marcar o Mês da Visibilidade

“Ser você é o maior presente que você pode lhe dar. Então se acolha, se permita e seja carinhose com você mesmo. A transição é a maior universidade da existência, a viagem muitas vezes é dura, o caminho incerto, mas pode ter certeza que o trajeto começa aparecer à medida que você vai dando seus passos. Para este mês da visibilidade deixo uma frase autoral que diz assim: ‘Que sua imensidão não seja limitada por pessoas vazias’. Então, fique firme!”, diz Gabriel.

0 254

Por Daniela Reis 

O TBT de hoje é uma grande conquista para os casais homoafetivos do mundo e vem para fechar a última quinta-feira do mês do Orgulho Gay.

No dia 26 de junho de 2016, a Suprema Corte dos Estados Unidos aprovava, em decisão histórica, a união de pessoas do mesmo sexo em todo o país. Naquela época 13 estados ainda proibiam o casamento gay, mas a votação de cinco votos contra quatro determinou a sentença para todos os 50 estados americanos.

A luta dos movimentos LGBT para oficializar o casamento entre pessoas do mesmo sexo já perdurava por mais de 40 anos. Em 1971, a Suprema Corte recebeu pela primeira vez um caso do tipo por parte de um casal homossexual de Minnesota. Em 1996, o Congresso americano aprovou a lei – depois assinada pelo então presidente Bill Clinton – da Defesa do Casamento, que proibia o reconhecimento federal de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O Estado de Massachusetts se tornou em 2004 o primeiro do país a legalizar o casamento homossexual.

A decisão

Os juízes tinham que considerar se os estados americanos seriam constitucionalmente obrigados ou não a emitir licenças matrimoniais e a reconhecer casamentos gays realizados fora das fronteiras estaduais.

Até então, a Lei de Defesa do Casamento impedia o governo federal de reconhecer casamentos de pessoas do mesmo sexo. Esses casais eram proibidos, por exemplo, de desfrutar de benefícios de programas federais, como pensões públicas e outros benefícios sociais, se seus parceiros morressem.

Comemoração entre famosos

Barack Obama, presidente dos EUA, no Twitter: “Casais de gays e lésbicas têm agora o direito de se casar, como todas as outras pessoas. #Oamorvence”.

Ellen DeGeneres, humorista e apresentadora, no Twitter: “O amor venceu. #Igualdadeparacasamentos”.

Hillary Clinton, pré-candidata democrata à presidência dos EUA, no Twitter: “Nosso novo mapa favorito. Dá RT se você mora em um estado em que o casamento gay é lei”. [No post, havia uma mapa dos EUA em que todos os estados são indicados como favoráveis ao casamento gay.]

J.K. Rowling, escritora conhecida por “Harry Potter”, no Twitter: “Uau. Mais um dia histórico para #IgualdadeParaCasamentos”.

Mark Zuckerberg, criador do Facebook, no Facebook: “Nosso país foi fundado sob a promessa de que todas as pessoas são criadas igualmente, e hoje nós demos mais um passo na direção de cumprir essa promessa. Estou muito feliz por meus amigos e todos da nossa comunidade que finalmente podem celebrar seu amor e ser reconhecidos como um casal perante a lei. Ainda temos muito o que fazer para atingir a igualdade total para todos em nossa comunidade, mas estamos caminhando na direção certa”.

Matt Bomer, ator assumidamente homossexual, no Twitter: “#Oamorvence. Hoje aconteceu um gigantesco passo adiante para o nosso país, e para minha família. Estou tão grato e feliz!”.

Mia Farrow, atriz, no Twitter: “Estou aqui sentada e chorando, e eu nem tenho uma mulher incrível com quem me casar. Ainda. Mas eu estou TÃO feliz por todos. E orgulhosa dos EUA #Igualdade”.

Shonda Rhimes, criadora de séries como ‘Grey’s anatomy’, no Twitter: “Igualdadeparacasamentos!!! Um passo gigante para que nosso país seja um lugar melhor para se viver”.

Neil Patrick Harris, ator de “How I met your mother”, no Twitter:
“É um novo dia. Obrigado à Suprema Corte. Obrigado ao juiz Kennedy. Sua opinião foi intensa, em mais formas do que você sabe”.

Cyndi Lauper, cantora, no Twitter:
“E sim! O amor vence! Obrigada”

Ricky Martin, cantor, no Twitter:
“URGENTE! Acaba de ser anunciada a igualdade para casamentos neste país”

Anna Kendrick, atriz, no Twitter:
“Hoje é lindo”

Tim Cook, CEO da Apple, no Twitter:
“Hoje marca uma vitória para a igualdade, perseverança e amor. As pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são aquelas que mudam”

Michael Moore, cineasta, no Twitter:
“NUNCA MAIS vamos chamar de ‘casamento gay’. Agora chamamos de ‘casamento’.”

 

Revisão: Bianca Morais

Por Bianca Morais

Se o amor já é difícil de descrever, amor de mãe é impossível. Amor de mãe não se explica, não se julga, não questiona. É um sentimento que nasce ainda na gestação, quando o filho é carregado no ventre, ou mesmo naquela expectativa da adoção. O amor de mãe é capaz de superar tudo,de enfrentar qualquer barreira para apoiar a cria. 

A partir do momento em que a mulher se torna uma mãe, ela cria planos para o futuro daquela criança, ela acompanha os primeiros passos, o vê entrar na escola, na faculdade, ela consegue idealizar seu futuro, imaginar situações e traçar objetivos. 

Mas, nem sempre o filho vai seguir ou corresponder aos projetos que a mãe idealizou. Alguns não vão cursar a faculdade, outros talvez não irão ter filhos, entretanto, o sentimento daquela que o criou não irá mudar, vai se adaptar às escolhas daquele jovem adulto que um dia ela carregou no colo. 

Agora, um dos maiores medos, senão o maior de uma mãe, é ver o filho sofrer. A dor e a frustração de um filho talvez seja o maior desencantamento de uma mãe. 

Hoje, em homenagem ao Dia das Mães, o Jornal Contramão traz a história de Karen de Oliveira Carvalho, 23 anos, e Marilene Oliveira Ferreira, 49. Um exemplo de amor, empatia e proteção. 

Karen é bissexual e se assumiu para a mãe. Descobrir que seu filho não é o que planejava pode ser frustrante, agora perceber que a sexualidade dele pode ser algo que vai interferir em sua segurança é desafiador.

O Brasil é um país intolerante em relação ao público LGBT’S. E nesse grupo tão marginalizado pela sociedade, é a figura materna que pode fazer a diferença. Aceitar, amar, compreender e acolher um filho pelo que ele realmente é, é muito importante para que ele tenha força para lutar todos os dias contra o preconceito. 

E foi exatamente o amor de Marilene que fez toda a diferença na vida de Karen. 

Karen é uma menina alegre, sempre foi. Para a mãe, Marilene, é uma garota de personalidade forte, estudiosa, vaidosa e que adora dançar. Karen tem uma capacidade incrível de animar qualquer ambiente e tenta fazer todas as pessoas ao seu redor se sentirem especiais e únicas.

A relação entre mãe e filha não poderia ser melhor. A mãe, sempre muito atenciosa com a garota, sabe exatamente o que ela sente, quando precisa conversar, às vezes até quando a Karen está confusa e perdida, é a mãe que lhe dá o norte.  

“É uma ótima relação, a Karen é uma filha muito carinhosa, tem um jeito de gatinho manhoso que acaba conquistando todo mundo”, conta Marilene.

Mãe e filha sempre foram muito próximas, é aquele sentimento natural que só quem tem conhece, porém apesar dessa proximidade, por anos Karen escondeu um segredo de sua mãe, não por medo, mas receio de que de alguma forma isso mudasse algo o relacionamento das duas. 

Karen, a mãe e os irmãos

Karen tem uma orientação sexual que não é considerada tradicional por boa parte da população. Ela é bissexual, se relaciona com homens ou mulheres. Sempre sofreu com o estigma de que a bissexualidade é promiscuidade. “Sou constantemente sexualizada por homens em geral. A bissexualidade muitas vezes é confundida com bagunça. Dizem que somos confusos, que é só uma fase. Que somos mais propensos a traição, a realização de fantasias, etc. Isso incomoda bastante e enche a paciência”, desabafa. 

Devido a  todo esse preconceito, Karen carregava com ela a insegurança em contar para a mãe a verdade sobre ser quem é. “Esperei até meus 22 anos e sei que não é fácil. Eu ainda estava com o receio que quase todos temos quando estamos pra sair do armário. É algo bem individual de cada um e não culpo quem não consegue, a pressão é bem grande quando ficamos sem apoio”, ressalta a estudante de Direito do Centro Universitário Una.

Além disso, ela já havia presenciado experiências ruins com amigos próximos e conhecidos e famílias preconceituosas. E mesmo que conhecesse o jeito e a personalidade da sua mãe, ainda se sentia apreensiva. Compartilhou primeiro com a irmã, que já desconfiava de suas escolhas. “Eu não me preocupava em me esconder dela porque sabia que me apoiaria de qualquer forma”, diz ela. Foi apenas quando se sentiu segura e confortável que resolveu compartilhar com outras pessoas próximas dela. 

“Ela contou na mesa do almoço “Mãe, eu sou viada! Gosto de garotos e garotas!” Todo mundo riu bastante e foi algo bem natural”, contou Marilene.

Se Karen pudesse prever o futuro e a reação da mãe após assumir sua sexualidade, com certeza, jamais sofrido para se libertar. “Pra mim, é algo natural, não faz diferença a sexualidade da minha filha. Tenho consciência que existe muito preconceito em relação à orientação sexual dela e sei que ela é boa em se defender”, relata a mãe.

Para Marilene, seu amor de mãe sempre vai falar mais alto e está acima de tudo. De acordo com ela, o que importa é ver sua filha bem, feliz. E quanto a opinião dos outros, eles que procurem o que fazer. “Não dou liberdade para ninguém falar da minha filha. Se algum dia alguém ousar em perguntar, eu mando cuidar da própria vida” completa.

Marilene é mãe, e para ela apoiar e amar o filho é dever de todas. Segundo ela, as barreiras de qualquer discriminação devem ser vencidas com o amor e não com a ignorância. Marilene estudou para entender a sexualidade da filha e o porquê dela ter demorado a ter coragem de se assumir. 

“A falta de apoio desestrutura os LGBT’s, e pode levar a insegurança, situação de rua, consumo de drogas, problemas psicológicos e a prostituição por falta de alternativas. Eu acho que pais que não apoiam seus filhos só contribuem para perpetuar o sofrimento deles, sua casa tem que ser o seu porto seguro, se a família não apóia, fica triste e complicado. O acolhimento evita a vulnerabilidade dos filhos”, explica. 

* Karen Carvalho participa do Projeto de Extensão Una-se contra a LGBTFOBIA.

 

**Edição: Daniela Reis