Diversidade

Por Michele Assis e Natalia Vianini

Por vezes, ao nos depararmos com o questionamento “o que é o hip-hop?”, pensamos em figuras famosas e grandes hits, mas ele é muito mais do que isso. Para compreendermos plenamente a potência dessa cultura, é essencial revisitar suas origens e entender o que a desencadeou.

O hip-hop, um símbolo de luta e resistência nas periferias, celebrou recentemente 50 anos de existência, uma conquista que destaca sua evolução. Originado no Bronx, em Nova York, tornou-se uma poderosa ferramenta social que, por meio de expressões artísticas, deu voz aos problemas estruturais enfrentados pelas comunidades negras e periféricas nos Estados Unidos. Já no Brasil, este movimento ganhou força em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, na década de 1980. Alguns grupos de periferia de São Paulo passaram a se reunir na Galeria 24 de Maio e na estação São Bento do metrô para escutar as músicas e lançar os novos passos de dança.

Os principais pilares do hip-hop, estabelecidos por DJ Afrika Bambaataa, líder da banda Zulu Nation, reconhecido como “padrinho do hip-hop”, são: o rap, o DJing, breakdance e o grafite, além da moda e da gíria, que também compõem o conjunto. Por meio dessas manifestações artísticas, é possível conscientizar a periferia e despertar as lutas por mudanças.

O Hip-Hop no Brasil

No início, o rap era considerado um estilo musical violento e exclusivamente periférico, sofrendo muitos preconceitos e até repressões policiais. Porém o ritmo começou a se espalhar rapidamente entre as periferias da cidade, trazendo autoestima aos jovens que procuram uma forma de se integrar na sociedade da época, que vivia um regime militar.   

A coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua” foi o primeiro álbum brasileiro exclusivamente de rap, lançado em 1988. Foi nesse álbum que o público conheceu o trabalho de rappers como Thaíde e Dj Hum, Mc Jack e Código 13, nomes de grande relevância na cena. O rap conquistou espaço nas rádios de todo o país na década de 1990 e atraiu o olhar da indústria a esse estilo novo e efervescente. O “Movimento de Rua”, programa da Rádio Imprensa, foi o primeiro com programação 100% dedicada ao rap, colocado no ar pelo DJ Natanael Valêncio.

Lançamento do selo comemorativo “BH Hip-Hop 40 Anos” durante o Encontro com a Imprensa, realizado pela Fundação Municipal de Cultura. Foto: Michele Assis.

Um dos nomes de peso dentro da cena que ajudaram a difundir o rap no país é do grupo “Racionais MC’s”. Em 1997 o grupo lançou o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, que se tornou um dos maiores clássicos do rap nacional. Em 2018, o disco entrou como obra obrigatória no vestibular da UNICAMP, devido a sua relevância cultural e social.

Quatro décadas depois, o hip-hop vem quebrando várias barreiras e conquistando cada vez mais espaço no cenário musical e cultural brasilero, sem perder a sua essência de dar voz e denunciar as injustiças sociais. O movimento tem atraído também os olhares do poder público. Cada vez mais estão surgindo iniciativas no campo das políticas públicas para fortalecer o hip-hop. 

O Hip-Hop em BH

Em Belo Horizonte a cena do hip-hop tem relevância nacional, graças a eventos como o “Duelo de MCs”, que acontece no Viaduto Santa Tereza há 14 anos e artistas que conquistaram o país como Djonga, Clara Lima e Renegado. Devido a enorme presença que faz parte da cultura da cidade, o movimento tem conseguido dialogar com sucesso junto ao poder público. A cidade tem se destacado neste diálogo, sendo uma das primeiras capitais do país a propor essa ação.    

Recentemente, no mês de agosto de 2023, a Assembléia Legislativa de Minas Gerais aprovou o projeto que reconhece a relevância cultural do hip-hop e de seus elementos na formação e fomento da identidade cultural das periferias de Minas Gerais. O projeto prevê aos elementos do hip-hop a proteção do Estado, por meio de inventários, tombamento, registro e outros procedimentos administrativos. Além disso para resguardar suas atividades manter esta política pública como patrimônio cultural, a Prefeitura instituiu o Fórum Permanente de discussões das políticas públicas do hip-hop e, através da Lei nº 10.114, de 2011, foram criados a Semana Municipal do Hip-Hop (12 a 18 de novembro) e o Dia Municipal do Hip-Hop (12 de novembro).

A Secretária Municipal de Cultura de Belo Horizonte, Eliane Parreiras, reforça sobre a ação do poder público para promover e estimular o Hip-Hop na cidade. “O prefeito Fuad Noman tem solicitado que a gente se organize e estruture essa política municipal para o hip hop, especialmente porque estamos falando de duas vertentes. Da juventude, que dialoga com aqueles que vieram construindo essa história do hip-hop e também  no aspecto da inclusão social junto à juventude negra. É por esse trabalho que temos com a sociedade civil, que estamos construindo um plano municipal que atue no eixo da memória, na salvaguarda, no fomento, na institucionalização e formação, estimulando essa produção e garantindo que tenhamos cada vez mais o hip-hop sendo o que é, essa força e potência na cidade de Belo Horizonte”, diz.  

Batalha de MC’s “FaráOeste” que acontece na Pista de Skate do Barreiro, na Praça Cristo Reina, a cada quinze dias na quarta-feira. Foto: Michele Assis.

Por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura, a prefeitura realiza durante o mês de novembro e dezembro de 2023, o programa comemorativo “Belo Horizonte Hip-Hop 40 anos”, que terá diversas atrações como shows, batalhas de MC’s, saraus, slans, entre outros. Essa é uma iniciativa organizada em conjunto com a sociedade civil para a celebração e promoção do Hip-Hop na capital mineira. Mais uma vez o movimento prova a sua força transformadora, conquistando novos espaços e transformando a vida das pessoas que acompanham a cena.  

Por Júlia Garcia

O fim de semana em Belo Horizonte está repleto de eventos para todos os gostos. Confira hoje a agenda que o Contramão separou para você curtir o final de semana.

Sexta

Para iniciar a agenda, você que adora uma comédia, poderá curtir o espetáculo Desesperados, que acontece hoje. A atração, que gira em torno de três personagens principais, aborda temas socialmente importantes, como ansiedade, depressão e solidão. E a comédia acontecerá no Teatro Marília, a partir das 20h. Para garantir seu ingresso, basta acessar o Sympla, site ou aplicativo.

Sábado

No sábado, a cantora Ana Carolina desembarca em Belo Horizonte, com a  TURNÊ  “ANA CANTA CÁSSIA – ESTRANHO SERIA SE EU NÃO ME APAIXONASSE POR VOCÊ”. A turnê é um espetáculo emocionante e conta com repertório cheio de sucessos como, “Malandragem”, “Segundo Sol”, “All Star”, “Girassol”, entre muitas outras. Após passar por diversas cidades no Brasil e no mundo, a cantora Ana Carolina se apresenta no Arena Hall, a partir das 20h. Os ingressos estão disponíveis na bilheteria do Arena Hall e pelo site Sympla.

Ainda neste sábado, os amantes de pagode poderão se preparar para o Churrasquinho Menos é Mais BH. Formado em 2017, o Menos é Mais é composto por Duzão, Gustavo Góes, Jorge Farias, Paulinho Félix e Ramon Alvarenga. O grupo ganhou notoriedade por regravar faixas antigas de sucesso de outros cantores. O Churrasquinho, que reunirá o grupo e outros convidados, acontecerá na UniBH Campus Buritis, a partir das 14h. Os ingressos podem ser garantidos através do site Ingresse.com.

Domingo

E no domingo pode separar sua fantasia de HALLOWEEN, para a The Choice Belo Horizonte. Serão muitas diversões com um toque assustador. Shows com DJ WS DA IGREJINHA, DJ GORDÃO DO PC, SACI, SIDOKA e DJS PETTRUS. Ah, e o traje é super obrigatório hein?! Precisa ser da cor PRETA ou ir FANTASIADO com tema Halloween. Preparados para uma tarde de sonhos e pesadelos? A The Choice acontecerá no Clube Labareda, a partir das 15h. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.

Por Júlia Garcia

O fim de semana em Belo Horizonte está repleto de eventos para todos os gostos. Confira hoje a agenda que o Contramão separou para você curtir o final de semana.

Sexta

Para iniciar a agenda desta semana, nesta sexta-feira, o cantor Toquinho celebra seus 55 anos de carreira em um grande show. O músico, compositor e intérprete, estará acompanhado pela cantora Camilla Faustino, baixo e bateria. O espetáculo homenageará grandes influências e destacará parcerias. O show será realizado no Palácio das Artes, a partir das 21h. Os ingressos estão disponíveis no Eventim. Mas corre, já está acabando. 

E Santa Luzia recebe o 1º Festival de Stand-Up Comedy, que inicia hoje e vai até domingo. Pela primeira vez na cidade, o público poderá curtir três noites incríveis voltadas exclusivamente para o Stand Up Comedy. O elenco do evento é composto por grandes comediantes que integram a cena mineira. E hoje quem se apresenta são os comediantes Joel de Carvalho, Bruno Costoli e João Basílio. O Festival acontece no Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida, a partir das 21h. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.

 

Sábado

Sábadou com previsão de 33° em BH. E o calor pede um evento que reúne música, bebidas e boa localização. Então pode separar seu look preferido, para curtir o Super Baile da Land. E nesta edição inédita e super limitada, preparou um line-up com grandes nomes do Trap, Hip Hop e Funk nacional. Isso mesmo! Shows com Matuê, L7nnon, Filipe Ret, Papatinho, Dj Kingdom, Lucas Beat e muito mais. E além dos artistas, o Baile da Land conta com uma Cenografia e produção diferenciada. ‘Tá’ preparado? O evento acontece no Mirante Beagá, a partir das 16h e os ingressos estão disponíveis no Ingresse.com.
 

Ainda neste sábado, Belo Horizonte vai receber a cantora de rap, Flora Matos. A artista, que é dona de diversos hits, desembarca na capital mineira, para agitar o público. Além dela, a Dj Famynta e Mangaia, também se apresentarão. O show acontecerá na A Autêntica, a partir das 21h. E para garantir seu ingresso, basta acessar o site autentica.byinti.com

 

Domingo

Para fechar nossa agenda e encerrar o final de semana, no domingo você poderá curtir o Festival Viva Brasil. O evento promete uma experiência única em uma jornada na história da música brasileira. Em formato mais intimista e com ingressos limitados, quem se apresenta são os cantores: Maria Bethânia, Jorge Ben Jor, Gilsons & Gilberto Gil e Natiruts & Iza. Os artistas farão quatro shows icônicos, em apenas um grande palco. Além da música, o Viva Brasil oferecerá uma explosão de sensações em sua Villa Gastronômica. O Festival acontece no Mirante Beagá, a partir das 13h. Os ingressos estão disponíveis no site GlobalTickets.

Espaço em 3D do The Town. Foto: divulgação.

Dos mesmos criadores do Rock in Rio, festival em São Paulo promete ser um dos maiores do país.

Por Gustavo Meira

A partir dessa semana, São Paulo vai parar por conta do The Town. O festival de música acontece nos dias 2, 3, 7, 9 e 10 de setembro, no Autódromo de Interlagos. Atrações nacionais e internacionais compõem o line-up. 

A organização espera mais de 500 mil pessoas (100 mil por dia) espalhadas pelos seis palcos, distribuídos nos 360 mil metros quadrados, com mais de 230 horas de músicas. Além de quatro atrações para o público se divertir durante os dias de festival: a tradicional roda gigante, uma tirolesa sobre o público, montanha russa e ‘mega drop’ – com queda livre.

Para a realização deste grande festival, foram investidos nada mais, nada menos do que R$240 milhões. Em entrevista ao G1, o empresário e criador do The Town, Roberto Medina, afirma que o festival é muito transversal. “O The Town vai ser aqui um grande cartão de visita internacional de São Paulo para a gente mostrar essa riqueza cultural e isso vai estar representado dentro do festival, das músicas, mas vai ser muito transversal do pop ao rock, muito do rap, o trap, do hip-hop, da cultura urbana que tem muito forte em São Paulo”, afirma.

Roberto Medina, idealizador do The Town e Rock in Rio. Foto: Alamy Stock Photo.
Atrações 

Bruno Mars, Post Malone, Maroon 5 e Foo Fighters são as atrações internacionais mais esperadas para esta primeira edição. Existe também uma grande expectativa para a apresentação da cantora Ludmilla, que prometeu fazer o maior show de sua carreira, superando a performance que fez no Rock in Rio, no ano passado. Além da funkeira, outras atrações nacionais de peso estarão presentes no festival como Seu Jorge, Ney Matogrosso, Iza, Alok, Racionais MC’s, Luisa Sonza, Pitty, entre outros.

Ludmilla, Adam Levine do Maroon 5 e Bruno Mars são atrações mais aguardadas. Foto: Gustavo Meira.
Os palcos

Os palcos são um show à parte e chamam atenção assim como os artistas . O Skyline é o maior do festival, com design inspirado em prédios referências da arquitetura paulistana, como o da Fiesp, Copan, Edifício Martinelli e a Oca do Parque do Ibirapuera.

O The One é inspirado na arte urbana de SP. Espaço que receberão conteúdos exclusivos, através de encontros e apresentações com bandas consagradas e novos artistas.

O Factory tem como inspiração a cultura urbana e terá performances de street dance e shows de trap, hip hop e rap – que estão entre os gêneros mais consumidos da capital.

A São Paulo Square vem inspirada na região em que a cidade foi fundada, embalada ao ritmo de muito jazz e blues, com performances artísticas, música, dança e o colorido das obras. J

Já o New Dance Order é um palco dedicado à música de pista, que fez sua estreia na última edição do Rock in Rio.

Mapa da estrutura do The Town, que acontece no autódromo de Interlagos. Foto: divulgação.
Ingressos

Até o fechamento desta matéria, somente as datas 2 (shows de Post Malone, Demi Lovato e Iggy Azalea) e 7 (shows de Maroon 5, The Chainsmokers e Ludmilla) de setembro ainda estão com ingressos disponíveis. O valor está em R$815,00 a inteira e R$407,50 a meia-entrada. A compra pode ser feita até 4 ingressos por CPF, sendo no máximo uma meia-entrada. 

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Renan O. Carvalho no Rio de Janeiro. Foto: arquivo pessoal.

Por Edilane Carvalho

Renan O. Carvalho (38), homem preto, pobre e gay, nasceu em Belo Horizonte em 1984. Aos 07 anos foi morar no interior de Minas Gerais, neste período, ele teve a influência da sua tia, que era professora e que deu aulas para ele na 4ª série. Carvalho diz que ela  era  a única pessoa que o tratou com respeito, e talvez por isso,” decidiu no futuro” queria ser professor igual a ela. “ Em 2002, quando estava concluindo o ensino médio, prometeu a si que até os 30 anos deveria: iniciar uma faculdade; ter estabilidade financeira; ter casa própria; filhos. Na busca por sua graduação em 2003, fez cursinhos pré-vestibular, e tentou entrar nos cursos de Publicidade e Propaganda, e  Arquitetura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas ele não conseguiu a aprovação.

Em 2004

Ainda em busca da realização profissional, por intermédio de sua tia paterna Vera Lúcia, foi apresentado ao curso de magistério no Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG). Não era curso superior, mas entre não estudar e ter a chance de ser professor, iniciou os estudos. Porém, Renan sofreu nessa época algo que lhe marcaria por muito tempo.  Durante o seu período de estágio ele foi barrado por ser homem e preto de trabalhar em escolas infantis, as escolas desse nível de aprendizado são  compostas, em geral, por mulheres e não lhe foi permitido o contato com as crianças nessa época. . Essa experiência fez ele desistir do seu antigo sonho de se tornar professor.

O período foi muito difícil para Renan aliado a outras questões ele até mesmo tentou várias vezes tirar a própria vida entre 2004 a 2008. Refletindo hoje sobre o período ele vê uma forte experiência religiosa a partir do que aconteceu.  “Hoje ele entende porque Deus insistiu que continuasse vivo. Tinha que chegar ao Rio para cumprir a missão de cuidar do meu marido”.

Em 2011

Devido aos transtornos causados por seu irmão Lucas, sequelado pelo uso de drogas e as chantagens emocionais feitas por sua mãe. Fazendo com que os problemas de seu irmão começassem a fazer parte da sua vida, resolveu ir morar no Rio de Janeiro. Apesar do fim do periodo tentativas de suicídio, se sentia extremamente solitário, mesmo rodeado de familiares e amigos. Era uma solidão que não se justificava. Neste período, ele fazia acompanhamento na ONG vHIVer e o psicólogo receoso com uma decisão impulsiva de sua parte, fez uma semana reforçada de atendimento psicológico. Pesquisou uma rede de apoio de ONGs lgbts a quem pudesse procurar caso algo desse errado. 

Como nunca escolheu seu plano B: que se essa mudança desse errado certamente pularia da ponte Rio-Niterói ou trocaria suas coisas por uma arma para se matar.Isso se somava ao término de um relacionamento com um carioca pilantra que morava em BH que lhe explorava e traia. Então, procurou um amigo da Internet (Mário) que morava em Realengo (Bairro do Rio). Perguntou se ele poderia te receber e ele disse que sim, então combinaram a data.

Porém na noite da véspera da viagem aconteceu a tragédia no morro do bumba em Niterói, que desabou uma comunidade construída em cima de um lixão. Veja no Google.

A prima dele morava lá. Eu na rodoviária com a minha mãe, entrei em pânico. Porque larguei o emprego larguei tudo e desistir fácil não era uma opção.

Daí entrei numa lan-house. Num bate papo de pegação do UOL. Joguei meu problema em uma frase e esperei… o primeiro que disse Oi. Eu já perguntei se podia me receber numa emergência e ele disse que sim, mas  morava em volta redonda.

Eu não peguei contato, não perguntei o nome dele e não pesquisei onde ficava volta redonda… eu só troquei a passagem e entrei no ônibus com toda a minha mudança.”

Como tinha ido passear pela primeira vez no Rio em 2008, sabia que em Três Rios o ônibus virava à esquerda para Petrópolis, mas o ônibus virou pra direita e viu a placa escrito Resende /São Paulo. Neste momento ele entrou em pânico internamente, mas consciente que não haveria retorno. Ao olhar pela janela do ônibus uma placa escrito “VASSOURAS”. Se perguntou o que vem depois? Rodo? Aspirador de pó?

Chegada ao Rio

Chega em volta redonda e desse um monte de gente. Sua mudança é jogada na calçada. E somente nessa hora deu conta que não sabia quem era o cara da Internet e não tinha nenhuma alma ao alcance dos olhos para pedir informações. Ao longe tinha um senhor de cabelo branco que parecia procurar alguém. Ele se aproximou e perguntou se ele era o rapaz que veio de BH, já que não chegou a se identificar na conversa pela internet.

Renan O. Carvalho no Rio de Janeiro. Foto: arquivo pessoal.

Sua vontade era tanta de sair dali que não se apresentaram, colocaram a mudança no táxi imediatamente e tinham caixa até no colo do motorista. Quando chegaram na casa dele é que apresentaram. Nesta hora se deram conta da maluquice que estava acontecendo. Renan achava que Volta Redonda era um bairro do Rio de Janeiro, mas na verdade é um município, chegando no Rio mesmo 5 meses depois de sua partida de Belo Horizonte, onde mora até hoje.

Como precisava se manter, trabalhou em call centers, até surgir a oportunidade de mudança para o Rio de Janeiro onde uma amiga lhe apresentou um programa de descontos por indicação na faculdade que ela estudava. Ele já tinha desistido de fazer uma graduação e investia seu tempo em  cursos profissionalizantes visando a independência financeira.

Graduação e descobertas

Apaixonado pelo curso de design, já que não tinha a opção de arquitetura, concluiu sabendo que só o curso superior não era o suficiente. Começou a fazer cursos de programação que foi um diferencial para ganhar uma bolsa de estudos em Processos Gerenciais na FGV. Como se não bastasse tudo que passou, em 2019 descobriu um câncer que quase causou sua morte e que te lembrou que ainda tinham sonhos a serem realizados e um deles é o de infância: arquiteto.

Por ser assumidamente gay, acreditou ser “Trans” dos 7 aos 9 anos, mas a partir dos  14 anos ele começou a ter certeza que era um homem cis e homossexual.  Renan teve muita dificuldade nesse processo identitário, pois ele não tinha referência (na família), nem na escola, para orientar sobre “como o mundo funciona” e não tinha internet acessível na época, não para ele que só conhecia o machismo na família.

Na segunda graduação foi um dos 21 selecionados para ser cotista, mas o curso precisou ser interrompido devido ao câncer, e a FGV lhe apoiou acadêmica e socialmente. A terceira graduação está bem no início, mas como está em remissão do problema de saúde, torce para conseguir  finalizar.

Sua grande frustração, nas  três graduações, é que não é igual aos filmes que você conhece um monte de gente e leva amizades para  vida toda. Foi uma coisa bem solitária e monótona na primeira, menos pior na segunda porque tinha os colegas bolsistas, mas em cursos diferentes, e a terceira é online, então.

Em busca de resposta

Nunca escutou quem tentou lhe fazer desistir. Pois quando conseguiu, as pessoas que te desmotivaram, foram as primeiras a te aplaudir e pedir conselhos. Problemas vão acontecer, e todo problema tem solução, quando não tem, é porque não é um problema. Chorar não muda a vida de ninguém. Sentiu que sua vida só melhorou, quando começou a gastar o tempo que tinha reclamando, chorando e querendo morrer e foi em busca de resposta de como sair daquela situação.

“Meu maior troféu, foi ouvir de pessoas que em demonstraram em algum momento terem vergonha de mim, por ser gay, falarem hoje, até para os filhos: “Sigam o exemplo do Renan”, “Ele é meu maior orgulho”, “Ele fez coisas que eu sempre quis fazer mas nunca tive coragem”.

Em conversa com Gilson Carvalho Bacellar, bacharel em turismo e companheiro do Renan, mesmo em meio às correrias do dia-a-dia em busca da realização de seus sonhos, encontram tempo para irem ao cinema e em exposições de arte nos diversos centros culturais da cidade, fazer passeios em antiquários, livrarias, sebos, brechós, bazares. Admira em seu companheiro o esforço para conseguir suas coisas, estudioso, inteligente e habilidoso,  capaz de realizar muitas coisas maravilhosas.

Além dessas qualidades já citadas , ser criativo e ter essa vontade de sempre obter mais conhecimentos e especializações. Quando perguntado sobre a rotina para conseguir administrar o tempo com os estudos, trabalho e o relacionamento, que muita das vezes é deixado por último, diz que tudo é sempre feito com muito esforço e dedicação principalmente da parte de seu, com uma  grande habilidade de organização do seu tempo, inclusive para poder resolver questões pessoais e as extras que aparecem na rotina cotidiana.

Eu sempre o encorajo a alongar as suas asas e alçar vôos maiores. Nosso relacionamento é baseado na cumplicidade. Temos os  nossos projetos de uma vida juntos.”

Depois de todo processo

E depois de tudo que passou em sua vida nesses quase 39 anos de vida, o que considera mais importante é que, “quem você menos espera é quem te joga para cima”. Toda vez que se esforçou para conseguir algo, alguém te observava e te indicava numa direção onde encontraria a resposta. Ter uma boa índole, ser verdadeiro, gentil e focado num futuro melhor, gera admiração e tudo que faz é visto por alguém que às vezes não vemos. Graças a isso, até o câncer venceu. Não é mais importante na vida que o nosso “nome”, nossa reputação.

“Depois do câncer eu não quero deixar de realizar nenhum sonho, estou no primeiro mês do curso de arquitetura, semipresencial e já fiz minha primeira maquete.

E comecei uma pós graduação em Ux/Ui design para tentar aumentar o salário para bancar o pagamento da faculdade de design. Mas fiquei desempregado em vez de ser promovido. Após 10 min depois de perder o emprego,  fui contratado como MEI.

Então vou conseguir finalizar a pós e continuar a faculdade de arquitetura até avaliar o momento de trocar de profissão.

Sei que pra um negro no glamuroso mercado de arquitetura. Será outro desafio na minha vida. Mas como estou tão empolgado e feliz que nem ligo. Pois já sobrevivi a tanta coisa.”

Renan O. Carvalho. Foto: arquivo pessoal.

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Por Eduarda Boaventura e Pedro Soares 

“A festa Dengue foi muito legal, comemorando seus 10 anos de marco, muita tradição, do vogue no Brasil, especificamente em Belo Horizonte onde que começou no nosso país. Como sempre foi bem alegre, animado, as pessoas gostam de estar ali e ver. Fico encantada com as possibilidades de improviso que as pessoas têm e como, mesmo sendo um duelo, não parece ser uma competição. É muito bonito ver a reciprocidade que as pessoas têm umas com as outras.”

Essa fala foi de Ana Clara Souza, que participou de umas das maiores referências de Ballroom no Brasil, a Dengue. Você já ouviu falar do Ballroom? E da cultura do vogue? Vogue não só da música da Madonna mas de toda uma história de luta e pertencimento. Uma comemoração por um grupo excluído que finalmente achou seu lugar em uma sociedade tão julgadora e maldosa.

De acordo com o google, a Ballroom é descrita como “um movimento político e de entretenimento que celebra a diversidade de gênero, sexualidade e raça, eventos nos quais as pessoas se reúnem e performam categorias e ganham prêmios por elas”

Criado por drag queens negras e latinas nos EUA no final da década de 80 e início da década de 90, a cultura Ballroom surgiu como meio de refúgio para pessoas que naquela época sofriam não só com a homofobia, mas também com o racismo e xenofobia. Uma personagem muito importante pela luta contra os padrões raciais no mundo da Ballroom foi a Crystal Labeija, que além de drag queen era uma mulher trans negra, que se revoltou e, criou o primeiro baile exclusivo para queens negras e foi a pioneira em fazer um ball feito por uma house.

Foto/Divulgação: Chantal Regnault/Alma Preta
Houses e Balls

Essa cultura é dividida pelas houses e as ball, onde a primeira, assim como sua tradução, são as casas dos participantes, em todos os sentidos. As houses é onde se encontra o acolhimento e pertencem a uma família, com a mesma hierarquia: mothers e fathers, principalmente nesta época em que muitos jovens eram expulsos de casa e se sentiam envergonhados pelas pessoas com quem conviviam. As balls são espaços para celebrar a beleza que tanto foi marginalizada, admirar o que era comum esconder, criando um ambiente único para aqueles que se sentiam diferentes do restante da sociedade.

Na Ballroom, não é só uma competição relacionada à moda e dança, é muito mais do que só o seu “jeito de se vestir” ou sua forma de performar, e sim de como você quer se mostrar ao mundo. Um ball é além de uma festa convencional, onde se tem as competições sendo as mais famosas o Runway (categoria de desfile), Face (rosto mais expressivo), Best Dressed (melhor caracterização) e Sex Siren (avalia a sexualidade dos participantes).


Ball Vera Verão. Foto/Divulgação: Instagram.
Dengue, umas das pioneiras na América Latina

Em 17 de junho, aconteceu o evento que foi descrito no início da reportagem, a Dengue, um fenômeno que esse ano está comemorando seu décimo evento. A festa é umas das pioneiras da cena vogue na América Latina e coloca Belo Horizonte como a capital nacional da dança em um cenário antes inimaginável. A capital mineira é referência quando se fala do Ballroom, com um crescimento forte e a cultura já sendo conhecida fora da bolha que antigamente tinha, não restringindo a quem pode assistir e enaltecer sua riqueza.   

Aqui em Belo Horizonte, a cultura Ballroom ganha vida em 2013, através desta mesma festa, que acontecia em um espaço de arte colaborativa que tem como objetivo difundir a arte contemporânea. O ‘Espaço Cultural Gruta’ pode ser chamado de berço da Ballroom em BH e fica localizado no bairro Horto.

A Dengue não é uma house, mas sim uma ball, que acontece mensalmente. Cada uma das festas tem um tema diferente, e cada edição é marcante para os participantes de formas distintas. Para Iara, de 24 anos, é considerado o nascimento de seu alter ego Amerikana.

“Eu considero que o aniversário da Amerikana é no Halloween.”

Amerikana para o Halloween da festa Eleganza. Foto: Instagram/Divulgação.

Esse foi o tema de sua primeira participação em uma categoria em uma ball, que inclusive foi coroada com a vitória.

Disputas de voguing

Com a popularização da Dengue e a expansão das disputas de voguing, dois anos depois surgiu o BH Vogue Fever, organizado pelo Trio Lipstick (Maria Teresa Moreira, Paula Zaidan e Raquel Parreira). O festival promoveu workshops com referências internacionais da dança voguing e trouxe influências diretas da ‘ballroom scene’, como é chamada em Nova York.

A organização do festival chamou a atenção de toda a comunidade vogue do Brasil e também atraiu olhares internacionais, principalmente após confirmarem a presença de Archie Burnett, conhecido como “Grandfather” da House of Ninja é considerado uma das maiores lendas do vogue mundial. Ele também é um dos responsáveis por essa cultura acontecer em BH, já que é padrinho do Trio Lipstick.

Archie foi um dos motivos do sucesso do evento, fazendo com que dançarinos de diversos lugares do Brasil e da América Latina estivessem presentes na capital do estado, que tem 42% dos eleitores conservadores. Em entrevista para o jornal O Tempo, Maria Teresa Moreira, uma das fundadoras do Trio Lipstick, comenta sobre esse grito de resistência que é a Ballroom. 

“Acho fantástico que isso aconteça logo em nosso Estado, terra da tradicional família mineira, onde ainda há muito conservadorismo. Porque o vogue é esse grito, essa vontade de se expressar e exigir respeito.”

Trio Lipstick. Paula Zaidan, Quel Parreira e Tete Moreira. Foto: Instagram/Divulgação.
Capital do vogue

Em 2019, a festa Dengue deixou de ter uma sede fixa, levando seus eventos para diversos lugares diferentes da capital mineira, como o Sesc Palladium, Galpão Cine Horto, Casa Matriz, Mineirão, Parque Municipal, Viaduto Santa Tereza, Praça da Liberdade, FIT – Festival Internacional de Teatro, Virada Cultural, entre outros. Essa descentralização da festa, somada ao sucesso do BH Vogue Fever, fez com que a cultura se expandisse cada vez mais na capital, ecoando ainda mais alto esse grito de resistência.

Após tanto sucesso nos eventos realizados aqui e ao alto nível de engajamento na comunidade brasileira, Belo Horizonte começou a ser chamada de capital do vogue. Para celebrar ainda mais esse grupo de pessoas, no mês de junho deste ano, em que a festa Dengue comemora seus dez anos de existência, o Memorial Vale anunciou a festa e uma série de programações como parte do memorial, apoiando a realização da festa e uma série de workshops e oficinas gratuitas.