Educação

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Alunos do ensino médio e universitários sofrem com a falta de aulas presenciais e práticas de estudos

*Por Bianca Morais

Na semana passada trouxemos o relato de Nathália Fernandes, professora do ensino fundamental, e de Joyce Mariano, mãe do pequeno Bernardo, estudante do 2°ano do fundamental. Através da reportagem foi possível reconhecer como tem sido difícil a educação infantil através da internet.

No Brasil, de fato, foi a primeira vez que nos deparamos com crianças tendo aula online, porém muitos jovens e adultos já eram adeptos a esse método, conhecido como EAD – Ensino à Distância. O EAD sempre foi uma excelente solução para quem não tinha tempo de frequentar as aulas presenciais. E com o tempo, muitas instituições que antes eram predominantemente presenciais, passaram a aderir às aulas híbridas, uma mescla entre online e presencial, isso acontece com muitos cursos que possuem aula teórica e prática, por exemplo.

Com a pandemia, não houveram escolhas e o ensino obrigatoriamente se tornou remoto. No entanto, muitos jovens acabaram se frustrando com esse novo método. A falta de socialização com os colegas, o fato de não poder frequentar laboratórios para disciplinas práticas, não ter o professor presencialmente para tirar dúvidas e por aí vai, são inúmeras insatisfações e incertezas. 

O crescimento profissional

Micheli Cristiane dos Reis Lana, 47 anos, atua como técnica em contabilidade. Micheli iniciou seu curso de Ciências Contábeis em 2016, no Centro Universitário Una, e se formou no ano passado. Por opção, escolheu um curso EAD, para não ficar longe dos filhos, na época com 6 e 13 anos. 

A profissional se formou no técnico em 1990 e trabalhou durante 25 anos em uma construtora e foi responsável pela contabilidade do lugar, mas em 2015 a empresa fechou e ela foi demitida. Ao procurar por um novo emprego percebeu que mesmo com a experiência que tinha o mercado demandava um curso superior. Então, Micheli se deu conta que para conquistar novas oportunidades e crescer no mercado de trabalho deveria voltar a estudar.

Quando o assunto é ensino online, é fato que ele não pode ser comparado ao presencial, afinal são duas metodologias diferentes. Dentro de uma sala de aula existe a constante troca de conhecimento entre aluno e educador, esse talvez seja um dos pontos em que o online mais perde.

“Não tive a oportunidade de ter um professor para tirar as minhas dúvidas no momento em que estava estudando. Em muitos casos, tive que me virar para entender a matéria. Após um dia cansativo de trabalho, nem sempre estava com disposição para estudar” desabafa a técnica.

O aluno que escolhe um curso online, com certeza, tem um elemento a mais em sua trajetória, a dedicação. Não é fácil enfrentar, por exemplo, a falta de suporte, apesar disso quando se tem um objetivo vale a pena. Micheli garante que se tivesse a chance de escolher entre fazer uma graduação presencial ou online, mesmo com as considerações, ela encararia o online novamente.

“Quando era mais nova tive oportunidade de fazer a graduação presencial e não tive interesse. Foi através da online que me senti estimulada. É um desafio enorme, mas com disciplina consegui formar”.

A prática prejudicada pelo online

Há aqueles que não escolheram o ensino online, mas que acabaram sendo inseridos nessa nova realidade forçada. É o caso dos estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A UFMG foi uma das que mais sofreu devido ao coronavírus. Diferente de instituições particulares, a universidade pública não conseguiu continuar as aulas após a suspensão do presencial, no dia 18 de março, do ano passado. Os universitários ficaram cinco meses sem aula, perderam o semestre que voltou de forma remota apenas no mês de agosto.

Gabriela Guimarães, 23 anos, é aluna de fisioterapia na instituição. O curso escolhido pela jovem é totalmente presencial. A fisioterapia forma profissionais capazes de atuar na prevenção e na reabilitação da capacidade física e funcional das pessoas, com isso, as aulas práticas são o ponto forte de sua educação e se encontram completamente defasadas.

O fisioterapeuta precisa de muito treino para aprender, e sem dúvidas em cursos como esses, os alunos sentem na pele a falta dos laboratórios. “A fisioterapia exige um contato muito próximo com o paciente, para tratar dele eu preciso saber algumas técnicas manuais, onde pegar, de que forma fazer os exercícios” conta a universitária.

Além disso, a falta do educador ao lado também é uma preocupação. “Não ter alguém para falar se estou fazendo certo, errado, se a quantidade de força que estou usando é suficiente ou não é bem ruim” desabafa a jovem.

Por um lado, se esses alunos da área da saúde sofrem com o ensino a distância, os professores e coordenação se mostram dispostos a tentar diminuir essa defasagem. Os educadores elaboram aulas bem explicativas, utilizam diversos recursos de vídeos e monitorias.

“Eles estão mais abertos a nos ouvir e tirar nossas dúvidas, eles fazem alguns vídeos de práticas também para que a gente consiga acompanhá-los da forma correta”, explica Gabriela.

A tolerância com prazos é outro ponto positivo que a universitária enxerga nesse momento, até porque, segundo ela, o número de atividades aumentou bastante e sua turma têm experimentado uma vivência do ensino online que demanda muita disciplina e esforço.

A cobrança do ensino online

Muito se engana quem acha que pelo fato dos alunos estarem em casa, a vida deles é mais fácil. Ao contrário, o ensino online vem sendo sinônimo de muita cobrança e sobrecarga em cima de grande parte dos estudantes.

Kamilla Antunes, 21 anos, cursa psicologia na PUC-MINAS. Segundo a jovem, estar em casa passa a impressão de que o tempo investido não é válido, em virtude da comodidade apresentada. O fato de poder escolher em qual ambiente da casa quer assistir a aula, ou até mesmo o “fazer lanchinhos” durante ela, não significa que não exista esforço ali.

“Tanto por parte dos familiares, quanto dos professores, já tive essa sensação. Os familiares que agora com mais frequência soltam o famoso, “ah, mas você só está estudando?”, como os professores, que associam o tempo em casa com maior tempo para fazer as coisas da faculdade, passando mais trabalhos e exigindo cada vez mais” desabafa a jovem.

É de comum acordo entre os estudantes, que independente das horas de aulas serem as mesmas, o aproveitamento e rendimento não são. Por mais que no começo os educadores tenham se esforçado ao máximo para se dedicarem às plataformas e ao ensino, com o tempo é possível ver um desânimo sobre suas performances.

“Me sinto prejudicada, não consigo captar tudo através da tela. Na psicologia nosso objeto de estudo é o ser humano, e essa falta de contato com práticas, mesmo com os professores me deixam insegura“, confessa.

As instituições de ensino superior, sempre graduaram alunos através do EAD, e isso não os tornaram trabalhadores menos competentes, o que faz um profissional não é apenas a faculdade, é a própria pessoa. No entanto, pela primeira vez é possível ver determinados cursos, antes com matérias específicas as quais deveriam ser feitas de forma presencial, sendo onlines, cresce, dessa forma, na cabeça do aprendiz a dúvida se ele realmente será capaz.

A faculdade de Kamilla, fez adaptações das práticas do curso, introduziu atendimentos e supervisões para o formato online, fizeram parcerias com algumas instituições e centros de ensino para articular palestras feitas pelos alunos, com o intuito de contribuir e amparar outros que passam dificuldades neste período de adequação.

As instituições de nível superior, as quais oferecem a psicologia em sua grade, sempre buscou prestar serviços à comunidade. Grande parte dos universitários da área, sonham desde que ingressaram na faculdade com esse atendimento, lidar diretamente com as pessoas, ajudar o próximo, isso se quebrou muito durante a pandemia.

Muitas vezes, o online não alcança a todos, muitas das pessoas, principalmente essa camada da sociedade a qual não tem condição, também não possui acesso a internet, o que dificulta bastante. O cenário de incertezas continua e esses estudantes da área da saúde enfrentam diariamente uma dura realidade. 

O esforço de quem ainda sonha com o ensino superior

Para quem ainda está no ensino médio, um dos momentos mais esperados, sem dúvidas, é o famoso terceirão. Ano de conclusão de uma jornada, de se despedir dos amigos, dos professores e de todo ambiente acolhedor que é uma escola. O terceiro ano é de transição, além de todo esse clima de nostalgia, existe também a pressão dos estudos, afinal, é a hora de fazer o Enem, prestar vestibular e tomar a grande decisão do que o jovem será para o resto de sua vida: escolher que profissão seguir. 

Marcela Castro Rincon, tem 18 anos, e concluiu o ensino médio no conflituoso 2020. No começo, era um afastamento de 7 dias, que se tornou 15 e finalmente se deu em tempo indeterminado. A implementação das aulas online na escola particular de Marcela, não aconteceu de forma imediata, pois os professores precisaram passar por um curso a fim de aprofundar seus conhecimentos sobre o funcionamento da nova plataforma de ensino na internet.

Com o recomeço das aulas, o que já era esperado por muitos aconteceu, o rendimento caiu muito. “O abismo entre o rendimento de um aluno no sistema presencial e no remoto é gigantesco”, conta Marcela. O ato de ficar sentado em frente a um computador por horas e tentar manter a concentração é impossível, já era difícil dentro de sala com toda a dinâmica e atmosfera criada pelos educadores, isolado em casa, ficou bem pior.

Todos que já cursaram colegial sabem que o volume de matérias a serem estudadas é enorme, enquanto no superior, o estudante está apenas dentro de uma área e a carga horária é bem menor, no médio, os adolescentes ainda aprendem todas as áreas juntas, as linguagens, exatas, humanas, e ciências da natureza. Para além disso, ainda sofrem o aperto dos vestibulares.

No começo das aulas, Marcela relata que os professores tentaram aliviar o impacto do novo método, as atividades avaliativas e simulados foram suspensos, tudo isso sendo pensado para que os jovens tivessem uma melhor adaptação. Slides explicativos, “quizzes”, os educadores buscaram a melhor maneira de manter os jovens acolhidos.

Com o passar do tempo, as avaliações voltaram, e com elas toda a pressão psicológica. Como se não bastasse o isolamento social, reajuste do aprendizado, distância dos amigos e escola, agora eles seriam cobrados por isso. Marcela descreve que sofreu muito em todo esse processo, passou por crises de ansiedade e teve a saúde mental diretamente prejudicada pela intimidação dessas cobranças.

Além de todas as dificuldades enfrentadas durante a jornada de conhecimento, um dos pontos que mais atingiu Marcela e outros adolescentes foi a falta de contato direto com os educadores. Eles, que são uma das maiores inspirações para os estudantes, principalmente sobre qual área seguir, acabaram tendo essa troca quebrada no momento de isolamento.

“Apesar de ainda vivermos um sistema de ensino monótono, arcaico e tradicional, a relação entre professor e aluno tem sido aprofundada, não é mais apenas uma relação de autoridade e submissão. Os professores não têm mais somente um papel de transferência de conteúdo, de explicação de matéria, eles ajudam no nosso desenvolvimento pessoal, contribuindo para a nossa formação não apenas profissional, como nossa formação humana. As conversas, os puxões de orelha, o apoio que a gente tinha deles em qualquer momento, fez uma falta que ninguém consegue explicar” desabafa a jovem.

Marcela foi uma dos milhares de alunos que sofreram com o ensino remoto em plena pandemia. A jovem reconhece a sorte que teve de estudar em um colégio particular, ter acesso a um computador e internet para acompanhar as aulas, o que não foi a realidade de muitos. Estudantes de classe baixa, matriculados na rede pública de educação resistiram muito mais, as aulas de forma remota não voltaram na mesma rapidez que no privado e também não tiverem o mesmo suporte, mas na hora de serem cobrados pelos vestibulares e pelo Enem, foram avaliados da mesma forma.

O sistema de ensino no Brasil precisa ser seriamente repensado após esse período de pandemia, quando a realidade “voltar ao novo normal”. Seja no primário, no médio ou no superior, os estudantes vêm sendo prejudicados sim, pela falta de apoio, por mais que uma instituição tente os ajudar das melhores maneiras possíveis e incomparável o vácuo de conhecimento que está acontecendo.

 

**Revisão: Italo Charles

***Edição: Daniela Reis

 

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Educadores e pais se reinventam para dar suporte às crianças nesse modelo de ensino remoto

*Por Bianca Morais

A realidade do ensino online já existe há anos, o famoso EAD (Ensino a Distância), sempre foi bem funcional principalmente para o público adulto. Cursos superiores muitas vezes eram procurados por pessoas, que sem muito tempo para frequentar uma aula presencial, optaram por realizá-la no computador.

Atualmente grande parte dos estudantes, crianças, adolescentes e adultos, do país se encontram em uma realidade forçada, tendo essas aulas de forma remota como alternativa para as cidades onde as escolas e faculdades permanecem fechadas devido à pandemia do coronavírus.

Se muitas vezes já era difícil o ensino online para adultos, que de certa forma conseguem manter o foco, imagine para as crianças?

A partir de hoje e nas próximas quartas-feiras o Jornal Contramão irá trazer uma série de reportagens sobre como esse ensino virtual está sendo visto pelos principais envolvidos na cadeia da educação.

Lugar de criança é na escola

Nathalia Fernandes Reis, 34 anos, é professora do ensino fundamental há 11 anos e hoje leciona na rede privada de ensino.

Para a educadora uma das questões mais desafiadoras tem sido a preocupação em alcançar os alunos, principalmente aquelas crianças com necessidades especiais, com dificuldades de aprendizagem, carências emocionais, entre outros diversos grupos que precisam de atenção. De acordo com ela, dentro das escolas era muito mais fácil perceber e sentir o que a criança passava e observar seu desenvolvimento, o ensino online, no entanto, criou uma barreira para isso.

“Foi como andar na escuridão”, diz a docente.

Existem dois grupos de alunos dentro de uma sala de aula, aqueles que conseguem aprender de forma e tempo natural e os que necessitam de um olhar mais sensível e uma maior atenção. Em sua vivência educacional, Nathália percebeu que essas crianças que inspiram cuidados neuropsicopedagógicos sofreram grandes déficits e acumularam lacunas no processo de aprendizagem durante esse momento de aulas pela internet.

A forma de ensino precisou ser repensada nesse momento de pandemia, lugar de criança é na escola, com um profissional qualificado ao seu lado, para lhe orientar e dar todo o suporte necessário. Além da presença do educador, é claro, que os pequenos precisam dos colegas,afinal são entre eles que acontece a troca de experiências, a criação de laços e o mais importante, o crescimento e a diversão. A realidade enfrentada agora é outra e ficou nas mãos desses profissionais buscas novas ferramentas para rever e inovar o ensino, pois nem todas as práticas que funcionavam anteriormente se aplicam no sistema remoto.

 

“Nesse período, comprovamos que o professor precisa mesmo elaborar um “circo” para atrair as crianças. Brincadeiras à parte, o que percebemos é que a ideia de que o professor precisa envolver o aprendiz ao que se propõe a ensinar nunca fez tanto sentido como agora. É preciso colocar o estudante dentro do contexto do conteúdo e mostrar o sentido daquilo tudo em sua vida, seja do Português, da Matemática, da Geografia, etc. Para isso, foi necessário utilizar ferramentas que despertavam o interesse das crianças, como os jogos online ou os passeios virtuais, por exemplo” conta Nathália.

Para o momento atual, além da alfabetização das crianças, os profissionais da educação tiveram também toda uma mudança em sua rotina, precisaram se adaptar a como dar aula online. Aqueles que não eram habituados a ferramentas digitais precisaram se recriar para esse novo mundo.

“Professores são heróis e seu principal poder é o conhecimento”. Essa frase nunca foi tão forte. Em meio a uma pandemia mundial, eles não desistiram de levar aprendizado a quem precisa, mesmo com os obstáculos do home office, às condições de cobertura digital doméstica (que muitas vezes não é suficiente para sustentar tantos dados e programas por tantas horas de trabalho). Se a realidade agora é essa, eles procuram a melhor maneira de lidar com ela.

Nathália relata como esse momento foi de grande crescimento em sua vida.  Ao invés de se desmotivar, ela procurou se reinventar para fazer a diferença. Mas reconhece, que na realidade, nem todos os profissionais pensam por esse lado. “Desejo que mais profissionais carreguem essa vontade para alcançar as crianças de todos os cantos”, desabafa. 

Um outro ponto que muito é discutido no que diz respeito às aulas remotas, mais particularmente no ensino privado, é o valor da mensalidade, que além de não ter descontos ainda sofreu reajustes neste ano. Nathália explica um pouco dessa situação e de início ela entende que a atual situação financeira do país não é fácil, o Brasil vive sim um momento de crise e desemprego, porém é necessário analisar o valor da hora/aula dos professores, assim como os materiais utilizados.

“Além desses aspectos, é importante considerar a readequação que as escolas precisaram realizar para essa nova experiência: não há os mesmos custos de manutenção com o espaço da escola, mas em muitas instituições aplicaram grandes investimentos em equipamentos para professores e plataformas para permitir o ensino remoto”.  

O sistema de educação no Brasil vive um momento bem delicado, não é hora de apontar dedos e procurar desentendimentos, é momento de se unir e buscar formas que diminuam ao máximo o impacto das crianças não irem às escolas. Muitas delas passaram a ter atendimento especializado com as famílias e algumas fizeram até drive-thru com a proposta de alunos matarem as saudades dos professores.

Na instituição em que Nathália leciona os profissionais tentaram manter alguns eventos de formas alternativas para não quebrar o laço do aluno com o lugar.

“A escola tentou manter suas atividades de forma adaptada ou representativa, como um evento cultural on-line no formato cada um faz o seu em casa, aula comemorativa sobre a tradição da vida no campo e a Festa Junina, campanhas de Natal no formato drive-thru”.

O caos do ensino público

Joyce Mariano, 48 anos, manicure e depiladora, vive uma realidade muito diferente da contada por Nathalia. Joyce é mãe de Bernardo Henrique, de 7 anos, aluno do ensino fundamental da rede pública de ensino.

Durante a pandemia, Joyce teve que virar uma espécie de professora para o filho. Diferente do suporte que o ensino privado disponibilizou, a escola pública apenas enviava às aulas por áudio no whatsapp e uma apostila. Ficava a cargo dos responsáveis repassá-los da melhor maneira à criança. A mãe recebia o material para orientar o ensino ao filho e a única cobrança da professora e da instituição era que as respostas estivessem escritas no caderno.

Bernardo ainda não é uma criança alfabetizada, por isso, a mãe usava todas suas tardes, de 13 até às 17 horas para ajudar o menino com seus exercícios. Joyce não tem nenhuma formação na área e acabou sendo atingida por uma das maiores dificuldades dos pais em circunstâncias como essa, ela não soube lidar com a situação e o desgaste fez com que ela desistisse.

“Chegou um momento que assim, eu encerrei, eu não conseguia mais, porque ele ficava estressado, eu ficava estressada. Eu gritava muito com meu filho, eu vou ser muito sincera, eu tive momentos de pânico”, desabafa.

Joyce não era responsável por ensinar Bernardo mas o peso caiu sobre ela, o ambiente doméstico tira muito a atenção das crianças, e ainda têm as suas responsabilidades diárias de uma chefe de família, seu emprego e cuidar da casa e dos outros filhos. Jamais se pode culpar uma mãe por não ter se esforçado. Escolas e professores existem para passar conhecimento, para ensinar, e a pandemia tirou isso de muitos.

O sentimento de impotência tomou conta de Joyce por muitas vezes, a falta de recursos, o fato de não conseguir matricular seu filho em uma escola particular em meio ao caos da educação pública. A falta de suporte é algo que atinge diretamente esses pais que sem outras opções são obrigados a aceitar aquilo que o governo oferece. Além disso, Joyce tirou o dinheiro de seu bolso para imprimir os exercícios enviados pelo aplicativo Whatsapp, pois acreditou ser uma forma de facilitar para o filho, e mais,  ainda teve que investir na instalação da internet na sua casa, pois não tinha.

Bernardo hoje está no terceiro ano do ensino fundamental, mas a mãe afirma que não viu evolução no filho desde quando começou o isolamento social e Bernardo ainda cursava o segundo ano. 

“No final eu tive que acelerar, fazer algumas respostas para ele, para conseguir entregar o material lá na escola da data marcada”, confessa a mãe.

A questão a se pensar agora é muito séria. Em algumas cidades brasileiras as aulas presenciais estão de volta, o que se torna um grande alívio para os que poderão entregar a alfabetização dos filhos a quem realmente entende do assunto. Porém, ao mesmo tempo que as aulas presenciais são essenciais a crianças em formação, o medo da exposição ao Coronavírus é real. A vacina chegou para alguns, mas não para as crianças, fazer com que elas não tirem a máscara, por exemplo, será um grande desafio a se enfrentar. A certeza de que desde pequenos o ensino é fundamental na vida de qualquer um irá ser a chave para se alcançar o mais rápido possível a segurança para todos voltarem à escola, quanto a quando isso será de fato realmente cem por cento garantido apenas o tempo irá dizer.

 

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*Por Bianca Morais

O projeto Jovens Jornalistas foi criado pela Assprom, Associação Profissionalizante do Menor de Belo Horizonte. No segundo semestre de 2020 o programa contou com a parceria do Centro Universitário Una, através de oficinas e atividades desenvolvidas pela Fábrica (coletivo dos laboratórios de Economia de Criativa).  O projeto Jovens Jornalistas tem o objetivo de ensinar técnicas de produção de texto, desenvolvimento de material para redes sociais e fotografia. 

O objetivo da parceria com a Fábrica é auxiliar através de conteúdo teórico e prático, ensinando a desenvolver a escrita, gravar vídeos e tirar fotos através do celular, além de técnicas de produção de conteúdo e monitoramento de redes sociais. Essa edição do 

projeto aconteceu 100% on-line, devido à pandemia do coronavírus. 

A Associação e o projeto 

A Assprom é uma associação que desde 1975 que orienta a vida profissional de jovens e adolescentes de famílias em situação de vulnerabilidade social por meio de programas socioassistenciais. O programa tem como objetivo a inclusão social do jovem e projetos dentro dele como o Jovens Jornalistas contribuem para isso.

O projeto foi idealizado pela pedagoga Flávia Fontelene com a colaboração da letróloga Alenir Maria,  tem como a proposta de estimular o protagonismo dos aprendizes, oferecendo aprendizado na elaboração de pautas jornalísticas na produção de uma página do Jornal da Assprom e de textos para as redes sociais. As oficinas apoiam os jovens na construção dos textos jornalísticos, realização de entrevistas, gravação de vídeos e fotos. Ações como essas ampliam o conhecimento dos adolescentes na área de comunicação, ajudando inclusive a enriquecer seus currículos.O projeto é tão bem visto que em 2019 ficou em 3º lugar no concurso “1º Prêmio Educador Social do Fectipa/MG”.

A cada semestre é selecionada uma turma do Programa de Aprendizagem para participar do Projeto Jovens Jornalistas. Flávia Fontenele, vê em todo o projeto uma grande responsabilidade social e acredita muito em sua importância na vida dos jovens.

“É muito importante ensinar provocando o protagonismo juvenil, pois assim o adolescente desenvolve habilidades necessárias para o mundo do trabalho, como: tomada de decisão, criatividade, desenvolvimento da escrita e leitura, senso questionador, além de sensibilizá -los sobre a importância das notícias para a sociedade” conta a pedagoga.

A Assprom trabalha desde 2019 em parceria com a Faculdade Una, no ano anterior chegou a levar uma turma para conhecer os laboratórios de comunicação do curso. Esse ano por conta da pandemia as oficinas foram oferecidas de forma online. A Líder do laboratório de jornalismo, Daniela Reis, ficou responsável pelas oficinas de texto, de ensinar a postura de um repórter, a Técnica do laboratório Fábrica Audiovisual,Isabela Fonseca Novaes, deu orientações de gravações de vídeo, e a Líder Larissa Santiago, do laboratório de publicidade e propaganda entrou orientando os jovens com dicas para o instagram. 

Larissa Santiago acredita que a capacitação transforma o ser individual, pessoal e profissional. “É nisso que acredito. Poder dividir  o conhecimento que adquiri ao longo da minha trajetória profissional com jovens interessados em se comunicar com a sociedade e comunicar a ela é gratificante. Aprender é transformar seu próprio futuro e espero ter contribuído com a trajetória deles”, completa a líder.

Os jovens participantes do projeto se empenharam muito durante todas as oficinas e o conhecimento adquirido será útil tanto para eles quanto para o jornal da Assprom que é produzido por eles. Larissa Alves da Rocha, 17 anos, foi uma das participantes do projeto, a adolescente no começo teve uma insegurança em participar por conta da sua dificuldade em escrever, porém conta que logo na primeira aula já se apaixonou.

“Foi uma oportunidade única para todos nós que participamos, com muito aprendizado com todas as oficinas que tivemos, como a de fotografia, instagram, responsabilidade e outras. Esse projeto não contribuiu apenas na minha trajetória na Assprom, mas também no meu dia a dia, me ajudando a descobrir um pouco mais de mim sem contar o quanto nos ajuda no âmbito profissional” relata.

O projeto Jovens Jornalistas é enriquecedor para ambas as partes, de quem ensina e quem aprende, a faculdade Una pretende levar a parceria em frente e no próximo ano receber novos jovens.

 

**Edição: Daniela Reis

 

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Jeduca (Associação dos Jornalistas de Educação) e o Itaú Social estão realizando o Edital de Jornalismo de Educação categoria estudante. O objetivo é fomentar a produção de material jornalístico de qualidade sobre temas relevantes da educação pública brasileira. Serão premiados os três melhores trabalhos de conclusão de curso (TCC) de graduação em Jornalismo para formandos em 2020 e trabalhos concluídos em 2018 e 2019.

Serão admitidos trabalhos em diferentes formatos jornalísticos, como livro-reportagem, especial multimídia, programa de rádio, documentário e monografia. Originalidade, qualidade e relevância social serão os pilares para a avaliação.

Os prêmios serão de R$ 3 mil para o primeiro lugar, R$ 2 mil para o segundo lugar e R$ 1mil para o terceiro lugar.

As inscrições podem ser feitas até 31 de janeiro de 2021 pelo site http://jeduca.org.br/edital.

Participe!

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Neste mês de outubro, o Centro Universitário Una celebra uma década dos cursos Manutenção de Aeronaves e Pilotagem Profissional de Aeronaves

*Por: Italo Charles

Anualmente, 23 de outubro é marcado pelo Dia do Aviador, data instituída em homenagem a Alberto Santos Dumont, que no mesmo dia em 1906 se tornou o primeiro homem a voar a bordo do seu 14-Bis. No entanto, foi apenas em 1936, que a lei que decretava a data como comemorativa. 

Com o passar dos anos, o setor da aviação vivenciou grandes mudanças e evoluções até chegar no que é conhecido hoje, com cursos profissionalizantes e constante evolução tecnológica. Sempre de olho nas tendências, em 2010, foram inaugurados os cursos de Manutenção de Aeronaves e Pilotagem Profissional de Aeronaves pelo Centro Universitário Una.

Neste ano, 2020, os cursos completam uma década de atuação, instruindo e formando pessoas para o mercado de trabalho. Ao longo do tempo, os cursos passaram por grandes transformações e adequações. Segundo o coordenador dos cursos de Manutenção de Aeronaves e Pilotagem Profissional de Aeronaves, Kerley Alberto, as maiores mudanças durante esse período foram o corpo discente e docente.

“Acredito que a principal evolução foi no corpo discente, o perfil dos alunos foi mudando. No início tínhamos muitos estudantes que trabalhavam na área mas não possuíam uma graduação e com o passar do tempo, chegaram alunos que iriam iniciar sua carreira na aviação”, explica.

Todos os anos, acontece a Semana da Aviação, com uma  programação recheada de atividades, palestras e oficinas que tem por objetivo a troca de conhecimento, possibilitando a integração entre a academia e o mercado.

Para as comemorações dos dez anos dos cursos, uma programação diferenciada foi proposta. Além das palestras, oficinas e debates que ocorrem anualmente, dessa vez será marcado pela inauguração do selo Dr. Ozires Silva – Patrono da Aviação Ânima.

Homem para além da aviação brasileira

Ao se falar da aviação brasileira, não se pode deixar de citar o marco que o Doutor Ozires Silva representa para o setor. Engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico Aeronáutico (ITA), contribui para grandes feitos na concepção da aviação hoje.

Dr. Ozires foi um dos fundadores da Embraer, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo. Além do grande alcance no setor aeronáutico, presidiu a Petrobrás e foi ministro da Infraestruturae das Comunicações. Em 2008, iniciou sua trajetória no grupo Ânima. Hoje, atua como Presidente de Inovação e é considerado o Patrono dos cursos de Aviação do grupo. 

Para Kerley, ter o Dr. Ozires como Patrono gera aprendizado, grande reconhecimento e para além do apoio dado aos cursos. “Falar em Dr. Ozires no meio aeronáutico é sinônimo de qualidade, seriedade, paixão. A presença dele só vem a chancelar a qualidade dos nossos cursos ”.

Representatividade

O espaço ao qual se tange o setor da aviação, é visto como majoritariamente masculino. Contudo, a ascensão das mulheres dentro da área tem crescido, não como sentido de igualdade, mas, estas estão conquistando espaços que há décadas atrás não podiam sequer ingressar.

Pensar que, uma mulher negra, advinda de uma família a qual não teria condições de sustentar os custos com um curso superior e, não somente, nesta mesma família não havia nenhuma pessoa que tivesse formação em uma ‘faculdade’, pode parecer longe, mas é realidade para muitos.

Mesmo com a indecisão em qual rumo tomar, Raphaella Menezes, 29, após formada no ensino médio, sabia que queria entrar para faculdade. Por alguns anos tentou o ENEM para que pudesse ter a oportunidade de conquistar uma bolsa, uma vez que não teria condições de custear as mensalidades do curso ao qual enfrentaria.

Foi em 2012 que, a atual Mecânica de Aeronaves, conquistou uma bolsa integral para ingressar no curso ofertado pelo Centro Universitário Una. Durante o período de estudo, Raphaella decidiu fazer um intercâmbio, o que a fez não conseguir formar com sua turma, e foi em 2017 quando concluiu seu curso.

“Eu sempre gostei muito de máquinas, sabe como elas funcionam. Inicialmente pensei em fazer um curso de mecânica de autos, eu sempre gostei de carros. Entretanto, pensei que deveria escolher algo diferente e foi nesse momento que pensei na Manutenção de Aeronaves. Hoje, sinto que fiz a escolha certa”.

Após ter passado por grandes desafios, estes que implicam em uma mulher alcançar altos patamares na carreira, e em setores que são de sua maioria dominado por homens, Raphaella superou as barreiras e conquistou seu espaço através da dedicação ao seu trabalho e sua formação. Para além da graduação em Mecânica de Aeronaves, concluiu  também uma pós em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, e atualmente atua como Mecânica Aeronáutica na Indústria de Aviação e Serviços (IAS).

Desafios 

Falar em desafios na aviação é uma grande abordagem. As questões financeiras em alguns momentos, pode ser considerada primordial para uma formação ideal. A área é considerada de alto custo, sendo que os cursos e as práticas precisam de capital para serem adquiridos e praticados.

Para Vitória Fonseca, formada em Pilotagem Profissional de Aeronaves, uma das maiores adversidades foi, e ainda é, a questão financeira. Durante a graduação, seus pais com muita perseverança a ajudaram e pagaram seu curso, entretanto, para a conquista e validação de horas de voo são necessárias as práticas para além da faculdade.

“O desafio maior durante a faculdade era dar o melhor de mim, por vários motivos. Meus pais pagavam a faculdade, e eu queria honrar o que a mim era atribuído. Por outro lado, acho que a parte financeira para muitos, como foi para mim, é um grande obstáculo”.

 

*Edição: Bianca Morais

** A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis 

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Cleuza Maria Teixeira Reis - Professora e supervisora da rede pública de educação

As aulas online são uma saída para a educação durante a pandemia, mas a rede pública ainda enfrenta problemas com famílias carentes

*Por: Jéssica Reis, Marcelo Duarte e Mariana Aroni

A inesperada pandemia de Covid-19 afetou todos setores importantes do Brasil, e a educação é um dos mais afetados. Segundo a Unesco, estima-se que cerca de 776,7 milhões de crianças e jovens estão sem aula em 85 países que adotaram o isolamento social. Na rede pública os desafios diários, como falta de acesso à internet, à computadores e telefones, têm sido enfrentados pelos professores, que tentam diminuir o impacto no ensino dos alunos.

Novas medidas tiveram que ser acionadas para que o ano letivo pudesse continuar a ser ministrado. A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) preparou uma metodologia integrada com suporte de três ferramentas para utilização de um material construído por professores da própria rede pública para este momento. Os materiais disponibilizados são: o Plano de Estudo Tutorado (PET), o programa de TV Se Liga na Educação e o aplicativo para telefone Conexão Escola.

A professora e supervisora da rede pública, Cleuza Maria Teixeira Reis, pós-graduada em psicopedagogia e especialista em educação inclusiva, falou ao Jornal Contramão um pouco das dificuldades e barreiras que este momento de isolamento social tem trazido para os professores.

 

 Como estão sendo ministradas as aulas para os alunos da rede pública?

As aulas estão sendo ministradas de maneira remota, através da formação de grupos no WhatsApp com cada turma, através do “Conexão Escola”, aplicativo do governo, e pela Rede Minas,com o programa “Se Liga na Educação”. E também, por meio de grupos em facebook, blogs da própria escola, etc

 Quais os maiores desafios que as aulas online trouxeram para a educação? Como está sendo o processo de adaptação para todos os envolvidos?

As aulas online trouxeram mudanças bruscas para o setor público educativo,  levando a mudanças em nossa rotina para que pudéssemos nos adaptar a esta nova versão de ensinar. Quanto ao processo de adaptação, depende do querer de cada um envolvido. Para o servidor público são muitas indagações, principalmente no que se refere à valorização dos nossos serviços. De como se dará isto, já que nas aulas presenciais era preciso ir para as ruas adquirir direitos que nos foram negados. Agora, em casa com a pandemia, a luta só fica nas redes sociais. Quanto às famílias, percebemos uma grande dificuldade de adaptação pois, muitas vezes, a falta de acesso à internet e [baixas] condições financeiras, impossibilitam que o material chegue até elas. Outras famílias não querem saber deste novo jeito, acham que a escola é obrigada a ensinar e não elas.

 Você acha que o sistema de aulas remotas será capaz de suprir as necessidades e trazer um conhecimento efetivo para os alunos?

Acredito que se houvesse uma adaptação melhor por ambas as partes poderíamos à longo prazo, sim. Mas… como temos visto, há dificuldade para chegar naquela criança sem telefone, sem televisão, até mesmo [sem] o que comer em casa. Impossível haver efetividade de ensino diante de tantas desigualdades sociais e educacionais.

 Vocês, professores, diretores e comunidade escolar, participaram da elaboração do material e dos conteúdos que estão sendo ministrados por meio das videoaulas e da apostila da Secretária de Educação? Como foram feitos?

Como professora, não. E acredito que uma parcela muito pequena dos servidores tivesse informações sobre este material.

 Desde o começo do ano letivo de 2020 a rede estadual está em greve. Em meio à greve surgiu a pandemia e, logo em seguida , as diretrizes de isolamento. Você acha que este ano letivo está perdido ou vê saída

Talvez, depende de vários fatores que nos ligam. O problema maior são nossas famílias que não possuem condições de terem telefones com internet, muitas vezes também não querem ter trabalho… Enfim, o novo é sempre difícil, mas o querer sair de onde estamos precisa acontecer de ambas as partes.

 Assim como estudantes, os professores também são prejudicados por falta de estrutura na migração das aulas presenciais para online. Como vocês têm sido afetados?

Com certeza, ambas as partes saem prejudicadas. Principalmente o professor por ser cobrado e não ter condições de pagar a própria conta por atraso do pagamento salarial e continuar ministrando suas aulas. Quanto à mim, sou afetada somente quando a internet não pega na região. Tenho buscado me adaptar.

 Além do atraso nos salários e no décimo terceiro, os professores da rede pública enfrentam ainda a dificuldade de trabalhar com escolas sem estrutura e alunos carentes, que por vezes não têm o básico para estudarem. Como esse cenário tem se agravado neste período de quarentena?

Cenário triste das periferias, onde as condições são precárias e a estrutura familiar sofre com a falta do que comer. Há crianças que iam à escola para se alimentar. Agora, com toda a situação de pandemia, são obrigadas a se virarem pelo pão de cada dia. Ficam sem condições de estudar, não se encaixam ao novo.

 

* A entrevista foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis e do professor Maurício Guilherme Silva Jr.