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Por Bianca Morais 

Dando continuidade a série de reportagens sobre sonhos adiados, hoje o Contramão traz a história de Enza e Jeferson. Um casal que tenta se casar desde o começo do ano, porém com a covid-19 e suas restrições têm adiado a realização desse sonho, mas como jovens apaixonados que são, não desistiram de seu casamento e apesar dos milhares de perrengues enfrentados, esperam ansiosamente a vez de subir no altar. 

A história do casal

 

Enza e Jeferson, moram no interior do Espírito Santo e se conheceram na escola. Apesar de não serem muito próximos o ciclo de amizade era o mesmo, por isso, foi questão de tempo para que o destino os unisse. Em uma noite qualquer do ano de 2015, uma amiga de Enza que namorava o amigo de Jeferson, a chamou para comer um sanduíche com eles. Depois de deixar Enza em sua casa, a garota mandou uma mensagem para ela dizendo que Jeferson havia falado dela no carro, depois de muito insistir para saber o que, a amiga revelou que naquela noite ele disse que “Essa ai eu pego hein”.

Nenhum deles sabia naquele momento, mas aquele encontro despretensioso para comer um lanche seria o início de uma linda história.

O casal está junto há 6 anos, e ano passado resolveram dar um passo a mais na relação, e antes que pensem que esse passo seria o casamento, não é, esse seriam juntos embarcarem para o Canadá e começarem uma vida a dois fora do país. 

Jovens, cheios de sonhos e planos, o casal sabia que estarem casados facilitaria o processo de tirar o visto e embarcar rumo ao futuro juntos, por esse motivo, no dia 10 de julho de 2020, eles contaram aos seus pais a decisão e comemoram o noivado moderno. Moderno porque foi decidido de última hora e as alianças ainda não estavam em mãos, entretanto, isso não diminuiu a importância daquele momento. 

“A gente comemorou o noivado, mas não teve pedido, a gente só falou a bora casar. A aliança a gente foi no dia seguinte na loja encomendar”, conta Enza.

Noivos, e agora?

Dado esse passo, agora eles tinham todo um casamento para planejar, isso, contando que ele deveria acontecer até janeiro de 2021, para que os planos que fizeram de ir para o Canadá, onde Enza iniciaria seu mestrado no meio do ano e Jeferson trabalharia, caso tudo saísse como planejado.

O dia 23 de janeiro, foi a data escolhida para acontecer o casório. Então, de julho de 2020 em diante eles teriam que escolher vestido, terno, buffet, decoração, enviar convite, contratar fotógrafo, agendar cabelo e maquiagem, entre outros. A noiva, em busca de economizar dinheiro para a viagem, decidiu assumir o papel de organizadora.

O planejamento acontecia a todo vapor, e não que tenham ignorado um fator importante, a Covid-19, contudo preferiram acreditar que na data escolhida para o casório, a questão “pandemia mundial” já não seria mais um problema.

“Eu jurei que até dezembro o mundo já ia estar melhor, que todo mundo ia estar vacinado”, comenta a noiva.

 

O primeiro adiamento

Acontece que planos e pandemia não são palavras que caminham juntas, em razão disso, cerca de um mês antes da primeira data agendada para acontecer o casamento, Enza e Jeferson acharam melhor adiá-lo para segurança de todos, afinal, na época os números de contágio ainda eram altos e o país ainda não tinha nenhuma perspectiva de começar a vacinação. 

“Quando eu vi que não tinha outra solução a não ser adiar, fiquei muito chateada, foi uma fase muito ruim, porque a gente tinha corrido atrás de tudo muito rápido, conseguimos, estava dando tudo certo e um mês antes foi tudo por água abaixo”, desabafa Enza.

A sensação de impotência tomou conta não somente do casal, mas de todos aqueles que precisaram deixar um sonho para depois em um momento tão complicado. “Ver hoje que tudo poderia ter sido diferente, que se o governo tivesse aceitado as ofertas de vacinas da pfizer lá atrás, as minhas esperanças de que muita gente já teria sido vacinada estariam vivas e que meu casamento poderia ter acontecido. É uma sensação muito ruim de impotência, porque não tinha algo que eu poderia fazer, eu não sei fazer vacina”, completa. 

 

Futuro delongado

A pandemia não adiou somente o sonho de se casar, mas também o de Enza fazer seu mestrado fora do país. O casamento dela não era apenas para mudar seu status de relacionamento, mas juntamente com o presente, ela pediu aos convidados que, ao invés de presentes, contribuíssem com uma quantia para ajudar o casal a construir o sonho de morar fora. O dinheiro que ganhariam no casório era um investimento no futuro deles, visto que, como filha única, o pai de Enza insistiu em pagar o evento.

Enza e seus pais

Além disso, a festa seria uma despedida do casal, dos parentes e amigos próximos, já que quando partirem para o Canadá, não pretendem mais voltar.

“Eu sempre quis morar fora, desde que começamos a namorar eu falava isso para ele, que ou ele ia junto ou a gente terminava. De tanto eu falar, ele começou a pesquisar e animou também, começou comigo, contudo hoje é um sonho do casal”, explica a jovem. 

 

A segunda onda da covid-19

Depois de precisar adiar o casamento pela primeira vez, o casal acreditava que a segunda data, no dia 10/04/2021, finalmente o sonhado dia chegaria, todavia, a pandemia mais uma vez iria arruinar seus planos. Se em janeiro a maior preocupação era que os convidados não estariam vacinados, para abril, as expectativas eram até muito boas, afinal a vacina já tinha chegado e a população brasileira, incluindo o grupo de risco, já havia começado a receber as doses. 

No entanto, a covid-19 é uma doença traiçoeira e quando o mundo pensou que poderia começar a se recuperar dela, ela voltou pior em uma segunda onda mais violenta. Não teve jeito, por mais que a última coisa que a jovem queria era delongar aquilo, por medidas de segurança, mais uma vez ela precisou reagendar. 

Além de toda frustração que é precisar atrasar tudo, ainda existe a dificuldade que é entrar em contato com os fornecedores, conciliar data, e até conseguir uma nova, afinal, não apenas ela como várias outras pessoas que tinham seus casamentos marcados precisaram adiar. 

Da primeira vez, Enza tinha uma data limite até julho para prorrogar, uma vez que iria embarcar para o Canadá em agosto, porém a pandemia ainda atrasou a emissão de seu visto, então a data da viagem também mudou. 

“Conciliar com todo mundo é difícil, porque sempre tem um que não pode em tal data, que não quer devolver o dinheiro, mas apesar de tudo eu ainda não perdi dinheiro”, ressalta. 

 

Contratempos no meio do caminho

Depois de três vezes adiando seu sonho e da dificuldade em encontrar a data do dia 07/08/2021, mais uma vez Enza precisou desmarcar, neste caso, a pandemia não foi o único motivo, e sim que a data conciliou com a da prova da OAB, que ela e a mãe precisam fazer. 

“Mais uma vez vou adiar, acho que dessa vez não escapo do prejuízo. A pior parte é ter que avisar todo mundo, medo de me esquecer de alguém e a pessoa aparecer no dia errado”. 

Desta vez, a noiva infelizmente teve a triste notícia que o vestido que escolheu não está mais disponível para esse ano, então ela vai precisar trocá-lo. “Estou muito triste pois gostei muito dele, mas alguma coisa precisava dar errado depois de três adiamentos”, confessa. 

 

Do amor não se desiste jamais 

Enza e Jeferson sempre tiveram uma relação intensa, com 1 mês e 4 dias ficando, eles assumiram um relacionamento sério, muito jovens, mas sempre muito responsáveis.

Depois de se formar no ensino médio na cidade de Nova Venésia, Enza voltou para São Gabriel da Palha, sua cidade natal, e os dois passaram a viver um relacionamento à distância, 40 minutos de distância, ainda assim distantes para quem se via todos os dias. O casal se encontra apenas aos finais de semana, foi difícil no começo todavia souberam lidar bem. 

Uma viagem especial do casal, Gramado (RS)

Se eles conseguiram levar durante seis anos um relacionamento a distância, não seriam pequenos perrengues encontrados na hora de casar que os fariam desistir. Em janeiro o cônjuge chegou a se casar no civil para tentar agilizar o processo do visto, porém eles seguem aguardando a partida para o Canadá para finalmente escreverem um novo capítulo em suas histórias. 

“Nada mudou, a gente se casou no papel, mas não moramos juntos, não temos uma casa só nossa. No fim de semana ele vem aqui para a minha, e aí moramos eu, ele e minha mãe, então para a gente é como se estivéssemos namorando ainda ou já estivéssemos numa vida de casados há muito tempo, tudo depende do ponto de vista, nunca teve muito essa divisão”, esclarece Enza. 

Como marido e mulher, eles ainda não tem uma casa só deles, mas a cada dia que passa esse dia se aproxima mais.

Enza e Jeferson não tem dúvidas de que querem estar juntos e construir um futuro fora daqui, por isso, não importa o tempo que leve, ou até quantas vezes o casamento precise ser adiado, eles não irão desistir. 

E para as noivas que se encontram na mesma situação que Enza, vários adiamentos e ainda sem muitas expectativas, o conselho da jovem é apenas um: Jogar para 2022. “Isso não é vida”, diz ela em tom de descontração, “ é ruim demais, se você pode jogar para frente só joga, se eu não tivesse o mestrado agora não estaria casando, nem noiva”, completa.

Casamento civil do casal

Fábrica de sonhos

Alexia Lorrane da Silva é uma jovem de 24 anos e influenciada pela mãe, Conceição Martins dos Santos Silva de 51 anos, criaram a empresa Ao Casar, juntas mãe e filha fabricam não apenas vestidos, mas a realização do sonho de muitas noivas. 

Há 10 anos elas começaram a vender vestidos para damas de honra e debutantes, com a queda nas vendas, acabaram ampliando para o aluguel de vestidos de noivas, madrinhas, padrinhos, festas, tudo sob medida e ainda a possibilidade de primeiro aluguel.

Alexia e a mãe, Conceição

Em entrevista, Alexia, conta um pouco como tem sido a rotina na pandemia e como tiveram que se adequar a ela. Confira. 

De onde surgiu a vontade de fazer uma loja de vestidos de noivas?

A vontade partiu do prazer do trabalho minucioso e da criatividade que se pode acrescentar a um vestido de noiva, além da valorização de um trabalho tão bonito.

 

Qual a sensação de materializar os sonhos e desejos das noivas em realidade?

Tenho prazer em realizar sonhos através do nosso trabalho, pois no fundo acabo também me sentindo realizada como profissional.

 

Como era a demanda de vocês antes da pandemia? Tinham muitos pedidos de vestidos?

Antes da pandemia nossa demanda era cerca de 20% maior, entramos na pandemia com apenas 5% da nossa demanda, atualmente, um ano depois já estamos atingindo os 90%.

 

Quando se deram conta da gravidade da pandemia e como isso poderia atrapalhar os negócios?

Logo no segundo mês já começamos a sentir o peso da pandemia, falência era algo que a gente pensava todos os dias.

 

No começo da pandemia vocês tiveram prejuízos em relação a cancelamentos de contratos? Como funcionou a negociação com as noivas?

Alguns prejuízos, adiamentos eram fato, mas os cancelamentos nos trouxeram o constrangimento da negociação mais agressiva, pois o cliente queria todo o dinheiro de volta e tínhamos que convencê-los da multa pelo cancelamento, afinal era nosso trabalho e nossas despesas em jogo.

 

Trabalhando dentro da área, você acredita que a maioria das noivas optaram pelo adiamento ou cancelamento do casamento? E por qual motivo?

Adiamento, com certeza, a maioria faz questão de comemorar.

 

O que mudou na rotina de trabalho de vocês durante a pandemia?

Tivemos que nos adequar ao agendamento para não ter aglomeração na loja. Também passamos a agilizar o atendimento prévio, fotografamos todos os vestidos e disponibilizamos as clientes os modelos disponíveis. 

 

Como tem funcionado o atendimento de vocês nesse período? Vocês são flexíveis a adiamentos ou cancelamentos? Oferecem reembolso em alguma circunstância?

Trabalhamos só com agendamento. Quanto ao reembolso, oferecemos carta de crédito para o próximo evento, ou cartão presente, que pode ser repassado para outra pessoa. Também oferecemos a devolução parcial, conforme prazos estipulados pela lei durante a pandemia.

 

Qual foi a maior dificuldade que vocês encontraram nesse momento?

Convencer os clientes a marcar horário, muitos aparecem na porta querendo ser atendidos e alguns até ficam com raiva. 

 

Em algum momento pensaram em desistir do negócio?

Jamais. 

 

No Instagram vocês têm postado diversos modelos novos de vestidos, isso significa que o mercado voltou a se aquecer?

Não exatamente, na verdade a demanda anda entre 60% e 90%. Nós tivemos a ideia de usar o tempo ocioso para criar e lançar novos vestidos.

 

A pandemia interrompeu ou adiou algum sonho de vocês como comerciantes?

Não, ao contrário, nos impulsionou a profissionalizar ainda mais os nossos serviços.

 

Vocês têm algum plano idealizado para quando terminar a pandemia?

Sim, pretendemos preparar um espaço maior para um atendimento mais personalizado.

 

Como vocês têm dado apoio às noivas?

Nós sempre procuramos incentivar apenas a adiar e não cancelar. Aconselhamos elas aproveitarem o prazo do adiamento para acrescentar algo que não seria possível a curto prazo.

 

Qual mensagem vocês deixariam para as noivas não desistirem de casar?

Sonho não se cancela e sim se adia. Paciência e foco, o resto vem com tempo.

 

Edição: Daniela Reis

 

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Por Bianca Morais 

Todo começo de um novo ano as pessoas estabelecem metas para atingir ao longo dele, alguns planejam começar uma dieta, fazer um exercício físico, entrar na faculdade ou tirar a carteira de motorista. Existem aqueles, no entanto, que diferente de metas, idealizam sonhos e sonham alto. 

Tem aquela estudante que desde pequena tem vontade de fazer um intercâmbio, onde poderá colocar em prática o inglês que aprendeu ao longo da vida, conhecer uma nova cultura e se aventurar no desconhecido. A noiva que foi pedida em casamento pelo amor de sua vida e planeja para aquele ano seu casório perfeito que irá reunir toda a família e amigos. Existe também aquela fã número 1 de uma banda, que esperou por muito tempo para finalmente assistir eles ao vivo, cantar bem alto suas canções preferidas em couro com outros milhares de fãs. 

Sonhos de uma vida inteira e tudo planejado para acontecer em um ano, 2020. Aquele era para ser apenas mais um no calendário de todos, muitos sonhadores com seus planos já agendados. Janeiro é o mês de férias, verão, sol, praia, fevereiro carnaval, o ano, pelo menos para o brasileiro começa a engrenar depois de março, porém o 2020 preparava uma desagradável surpresa que faria o sonho de muitos serem adiados. 

No final de 2019, os primeiros casos de um novo vírus de origem chinesa começaram a ser divulgados na mídia, porém muito pouco se sabia dele. Em janeiro de 2020, o mundo teve conhecimento do novo coronavírus, mas até então ele não tinha chegado ao Brasil e a vida do brasileiro continuava conforme os planos, ou seja, em ritmo de férias e carnaval. Passado essas duas grandes datas o primeiro caso de COVID-19 no país foi identificado e o resto da história todos sabem.

Pandemia, quarentena, home office, aula online, serviços não essenciais proibidos de abrir, fronteiras fechadas. Há mais de um ano o mundo vivencia um isolamento social intenso para conter a disseminação desse vírus letal que já levou milhares de vidas, adiamento de planos, cancelamentos de ações, afim, o mundo parou e a gente teve que se adaptar. 

Aos poucos a humanidade tem enxergado uma luz no fim do túnel, um fim para todo esse sofrimento. A chegada das vacinas, a diminuição no número de infectados. A frustração foi grande mas é necessário ser positivo.

Buscando por pensamento positivos em um momento de tanta incerteza, o Jornal Contramão trás a série de reportagens “Sonhos adiados”, onde apresentamos histórias de pessoas que tiveram seus sonhos interrompidos, mas que não deixaram de acreditar que uma hora vai acontecer, que o sonho não acabou apenas foi adiado.

Iremos conhecer a história de Jordania, Enza, Mayura e Isabella, quatro jovens que tiveram que adiar seus planos mas têm consciência de que nada está perdido.  

E como diria Walt Disney: “Todos os nossos sonhos podem se realizar, se tivermos a coragem de persegui-los”.

O intercâmbio dos sonhos

Jornania no Uruguai

Jordania Larissa Santos é uma jovem de 22 anos, que tem entre seus hobbies favoritos viajar, por isso, um de seus maiores anseios sempre foi fazer intercâmbio, pois além de aprender o inglês que é uma língua a qual tem muita dificuldade, ela iria adentrar em outros países e em culturas diferentes.

Ela tinha tudo preparado para embarcar com destino a Inglaterra em seu primeiro intercâmbio, no dia 11 de julho de 2020, porém um pouco antes daquela data, mais precisamente dia 26 de maio, véspera de seu aniversário, recebeu a notícia que seria impossível fazer a viagem naquele momento. Devido à pandemia, diversas passagens de avião haviam sido canceladas, países de todo o mundo fecharam suas fronteiras, a fim de conter o vírus e não foi diferente para Jordania, sua passagem foi suspensa.

Os eternos 15 dias

No começo daquele 2020, a jovem viajante fazia sua primeira viagem do ano, um cruzeiro, e jamais imaginaria que dentro de alguns meses viajar seria uma palavra bem distante de sua realidade. “Na televisão do navio passava notícias de todo o mundo, em um dos canais passou a pandemia na China, meu pensamento ali era que isso nunca chegaria no Brasil”, comenta. 

Veio o mês de março e com ele o primeiro caso no Brasil. Esperançosa, a garota ainda acreditava em uma melhora naquela situação, então veio o primeiro caso em Minas Gerais, depois em Belo Horizonte, e por fim decretado a quarentena. “Primeiramente eu disse a mim mesma, quarentena, vai ficar todo mundo em casa 15 dias e vai passar”, conta ela.

Com tudo preparado para a viagem, roupas de calor compradas para o verão europeu e expectativas a mil, porém infelizmente aqueles 15 dias, que ela acreditava que durariam o lockdown, se estendeu mais 15 e mais 15 e no final ela foi informada que precisaria adiar aquele sonho.

“Na época eu lembro que chorei muito, fiquei extremamente chateada, eu não queria acreditar. No fundo eu sabia que isso ia acontecer, mas não queria acreditar, eu falava vou conseguir, só que em maio do ano passado a gente não tinha dimensão do que era a pandemia como temos hoje”, desabafa.  

Surto e desespero

Essas são as palavras que mais descrevem a sensação que Jordania teve quando aceitou que não teria outra escapatória a não ser adiar seu tão almejado intercâmbio. 

“Foi uma mistura de sentimentos, surto, desespero, sensação de estar velha, porque na época que eu fechei o intercâmbio, na minha cabeça era para eu estar agora no meu terceiro. Eu não queria ir para os países simplesmente para conhecer, eu queria estudar e enriquecer meu currículo futuramente”.

Nos planos da jovem incluíam um intercâmbio aos 20, 21 e outro agora aos 22 anos, mas nem tudo sai conforme o planejado, e Jordania já sabia disso, afinal não foi a primeira vez que ela que ela teve adiar esse sonho. Seu pacote havia sido fechado primeiramente no ano de 2019, porém sua faculdade entrou em greve e o calendário atrasou, por esse motivo, o final de seu semestre conciliaria com a data da viagem.

“Eu tive que escolher, ou eu ia para o intercâmbio ou abria mão do meu semestre. Na minha cabeça eu pensava, tenho uma vida inteira para vivê-lo, o mundo está normal, se eu não for nessas férias, vou nas próximas”.

As próximas férias dela eram em janeiro de 2020, verão no Brasil, porém inverno rigoroso na Europa, ela resolveu então adiar um ano. E um ano se passou, a pandemia veio e ela ainda não embarcou.

O tempo perdido

Jordania assim como milhares de adolescentes ao redor do mundo estão vendo o tempo passar e sem poder fazer nada para que ele renda. Não apenas em seu intercâmbio, mas em sua faculdade ela também sente essa perda. 

Ela faz geografia, o curso em si já tem tudo a ver com sua personalidade, e para a estudante o intercâmbio complementaria seus estudos de uma forma enriquecedora, com a troca de território, a vivência com novas culturas. A garota sempre teve dificuldades em aprender inglês em cursos e aulas, por isso, a viagem serviria para aprender na marra uma língua tão fundamental. Morando fora ela vivenciaria inglês o dia todo, então por mais que não voltasse fluente de primeira, voltaria bem melhor do que havia ido.

Em sua graduação, constantemente ela se depara com textos em inglês e se sente desamparada ao lembrar que a essa naltura, caso tivesse realizado o intercâmbio que queria, já estaria muito mais avançada.

“Eu faço licenciatura, logo vou me formar e dar aula. Só que esse é o pensamento de um estudante comum e a minha visão não é comum, eu sempre quero mais. Quando entrei na faculdade me deparei com textos que complementariam meu aprendizado, porém todos em inglês, se você sabe ler bem, se não tem que se virar”, desabafa.

O tempo segue passando, sua graduação acontecendo e a estudante ainda sem realizar o intercâmbio que tanto quer.

“Em geografia ainda existe muito material não traduzido, assuntos extremamente interessantes e que ainda não existem na língua portuguesa, sem contar que caso eu queira fazer uma pós o inglês é fundamental, por isso queria ir o mais rápido possível”, completa.

A importância de buscar auxílio profissional 

Foi sozinha, que há dois anos, a jovem começou a pesquisar sobre intercâmbios, isso sem comunicar aos pais, já que acreditava que eles não teriam condições de bancar esse sonho, que para ela era algo fora de sua realidade. “Comecei a olhar como eu deveria me planejar no meu trabalho e com meu salário, para saber o que eu precisaria para poder ir”, relata.

Posteriormente sua mãe descobriu e depois de conversarem decidiram que a melhor maneira de embarcar nessa experiência seria com o apoio de uma agência.

“Não me arrependo de ter procurado auxílio profissional, foi onde me ofereceram os melhores preços e oportunidades, me explicaram o que me esperava lá fora, vi que eles não queria apenas ganhar meu dinheiro, e sim me oferecer uma experiência inesquecível” explica ela.

Jordania também compartilha que estar respaldada por uma agência diminuiu e muito seus prejuízos. “Principalmente com a chegada da pandemia eles foram essenciais, se eu tivesse que remarcar tudo sozinha, passagem, moradia, escola, eu não daria conta”, acrescenta.

Os planos para o pós pandemia

Atualmente, alguns países voltaram a receber estrangeiros, como é o caso da África do Sul, local inclusive, para onde Jordania adquiriu um novo pacote de intercâmbio durante a pandemia. “Achei as condições bacanas, depois eu estava no meio de uma pandemia, sem o que fazer, já que não podia sair, achei que uma boa coisa seria investir em educação”. 

Como a África do Sul está aberta e a Inglaterra, por enquanto, não tem previsão de reabertura, Jordania cogita realizar a viagem para a África antes da tão sonhada Europa, porém alguns receios ainda rodeiam a mente da jovem que vive a realidade de um país onde a Covid-19 está longe do fim.

“Tenho medo de chegar lá e simplesmente não quererem me receber e eu ter que voltar para trás, ou falarem que está tendo um novo surto e vou ter que ficar de quarentena em um hotel, arcando com as despesas e ainda perder metade da minha viagem isolada”. 

Todo o mundo se encontra em uma situação bem delicada, o uso de máscara ainda é obrigatório em vários lugares e muitas pessoas ainda não foram vacinadas. A realidade de um intercâmbio consiste em imergir em uma nova cultura a fim de aprender uma nova língua, agora imagine a busca de contato em meio a uma fase que o ideal é manter distanciamento das pessoas como proteção.

“Aprender uma nova língua já é extremamente difícil, pensa numa situação dessa, tendo que conversar de máscara. Se fosse para eu ficar uma quantidade de tempo maior acharia viável, agora pouco tempo não compensa”.

Jordania na Casa Rosada – Argentina

Desistir jamais

Se antes Jordania levava inglês na brincadeira, desde que teve a maturidade de entender a importância dele a garota passou a se empenhar em seus estudos e visualizar seu futuro. Apesar de todos os perrengues que passou e de ainda não ter conseguido embarcar em seu sonho, ela nunca pensou em desistir ou cancelá-lo, ao contrário afirma que pode levar até 10 anos que ela vai conhecer a cidade de Eastbourne, no interior da Inglaterra.

Antes da pandemia, quando seu sonho ainda estava vivo, Jordania se encontrava empolgada, estudava bastante o inglês e pela primeira vez estava de fato empenhada. O foco, entretanto, se perdeu depois que ocorreu o adiamento da viagem.“Foi um pouco frustrante no início, lembro que eu fiquei 4 meses bastante abalada, tipo assim, eu vou estudar para que o mundo está acabando em pandemia”.

Com esperanças e energias renovadas depois de um período de desânimo, Jordania voltou a dedicação ao inglês, desta vez abandonou o cursinho e passou a fazer aulas de conversação. “Eu preciso me aprimorar de qualquer maneira”, completa.

A estudante de geografia sempre teve afinidade com o google maps, em função disso, quando ainda planejava a viagem, pegou o mapa de Eastbourne e marcou todos os lugares que deveria ir. “Eu gosto muito de fazer isso, ser uma pessoa planejada, ter roteiros. Quando eu pesquisei a cidade que eu iria, lá em 2019, tinha muita pouca informação, então pensei em disponibilizar isso de algum jeito”, comenta.

Dessa forma, nessa época, Jordania criou um Instagram de viagens, em um primeiro momento ela pretendia postar sobre o intercâmbio, como adiou, passou a fazer postagens sobre as diversas viagens que já fez, isso claro, para ocupar seu tempo enquanto a hora de partir para o exterior ainda não chega.

“O foco principal do Instagram sempre foi e sempre será meus intercâmbios, porque acredito que dentro dele eu posso juntar tudo que eu mais gosto: viagens, estudos e geografia”, compartilha a jovem.

Só a educação pode mudar o mundo

Para além da Inglaterra e África do Sul, ainda está guardado na gaveta de Jordania o seu sonhado intercâmbio para a Irlanda. Desde o começo era sua ideia principal, porém o país que é um conhecido destino entre os intercambistas por oferecer estudo e trabalho, é bem restrita a aceitar alunos que não irão para ficar mais de seis meses.

Como Jordania ainda está na faculdade, o período não lhe atendia, mas isso é questão de tempo. “Na teoria minha graduação terminaria no meio do ano, então eu me formo e no restante do ano vou para lá, estudar e esfriar um pouco a cabeça da faculdade, me dedicar ao inglês e trabalhar com algo que eu jamais trabalharia aqui no Brasil, aí sim voltar e ingressar na profissão que eu quero que é dar aula”, conta a garota.

Se tem algo que dá forças e incentivo para ela não desistir de seus planos é a educação. Como futura profissional, a estudante acredita que apenas ela é capaz de transformar as pessoas.

“Não pretendo nunca desistir do meu sonho de fazer intercâmbio, demore o tempo que for, porque a educação é a única coisa que existe que pode mudar o mundo, principalmente o país, se você está procurando alguma coisa para investir, invista na educação, porque conhecimento é algo que ninguém pode jamais tirar de você”, conclui a jovem. 

Jacqueline Nayara Martins, 29 anos, é gerente de vendas da agência de intercâmbios CI, em Betim. Ela está no mercado de intercâmbios há 6 anos e em meados de 2020, viu pela primeira vez, uma pandemia mundial mudar o rumo do negócio que administra há tantos anos. 

A CI intercâmbios é uma empresa que está no mercado há muitos anos e em um momento de tantas incertezas, precisou criar estratégias para não deixar o cliente na mão. 

Em um primeiro instante, eles ofereceram a todos os intercambistas a primeira alteração gratuita, sendo assim, eles receberam um crédito no valor total de seu pacote, para usar na mesma escola que escolheram inicialmente ou também a possibilidade de trocar o programa de intercâmbio para um outro de sua escolha, já que alguns países como Austrália e Nova Zelândia, segue fechados e sem previsão de reabertura e outros como Dubai estão abertos.

Em entrevista ao Jornal, Jacqueline relata com detalhes e propriedade, de quem esteve a todo momento, desde o início da pandemia, acompanhando diversos jovens que tiveram seus sonhos de intercâmbios interrompidos, como tem sido essa fase tão difícil e como ela não desiste de alimentar as esperanças de que muito em breve eles estarão decolando em busca de todo esse tempo perdido.

Jacqueline Nayara

1. Quando você se deu conta da gravidade da pandemia do coronavírus e como isso poderia atrapalhar seus negócios?

Em março de 2020. Eu havia acabado de voltar de um treinamento em São Paulo, e na mesma semana iniciamos o lockdown no Brasil. Ainda havia muitos estudantes no exterior e começamos na mesma época um trabalho de “resgate” deles, pois muitas escolas estavam sendo fechadas por causa também do lockdown em seus respectivos países e tinham poucos voos operando naquele momento. Desde então, nossa primeira atitude foi dar assistência aos estudantes no exterior e concomitantemente iniciamos as alterações dos intercâmbios de estudantes que estavam com embarque mais próximo.

2. Trabalhando dentro da área, você acredita que a maioria das pessoas optaram pelo cancelamento ou adiamento do intercâmbio? E por qual motivo?

Felizmente, nossa taxa de cancelamento foi mínima e aumentou um pouco no início de 2021, mas no geral, a maioria alterou a data do intercâmbio. 

Acredito que viver um tempo fora, estudar e estar imerso a uma nova cultura é o sonho de vida de muitos, e apesar de não termos clareza de quando isso tudo irá passar, nós sabemos que uma hora isso vai passar. 

Muitos estudantes já estão com o intercâmbio todo pago, outros alteraram para novos destinos, pois há países que já estão abertos (como é o caso dos Emirados Árabes e da África do Sul) então, creio que é mais uma questão de tempo para que eles possam realizar esse sonho. A empresa tem mais de 30 anos de mercado e vejo que os nossos estudantes confiam muito no trabalho desenvolvido por nós.

3. Vocês da área do intercâmbio sentiram o peso financeiro causado pela pandemia? Se sim, de que forma?

Sem dúvida, o nosso setor foi um dos mais atingidos pela pandemia, vejo que vários outros setores também sofrem com os reflexos dessa situação. Contudo, é exatamente nestes momentos de dificuldade que percebemos que estamos fazendo um bom trabalho, pois após um ano de pandemia, nós ainda permanecemos no mercado, estamos assistindo nossos clientes, e estamos com os processos comerciais e de vendas ativos, nos reinventando todos os dias. Nossa demanda não cessou e as pessoas valorizam a educação internacional, elas sabem o quanto é importante essa vivência na vida e carreira delas. Vejo todos os meses a empresa crescer e estou muito feliz com os nossos resultados.

4. Quais têm sido as principais reclamações vindas dos intercambistas?

O principal ponto é a ansiedade que essa espera cria em muitos deles, principalmente nos estudantes mais jovens, alguns lidam melhor do que outros com essa expectativa. Temos uma relação muito amigável com os nossos clientes e isso ajuda a lidar com essas frustrações, vejo que eles também nos ajudam muito, se colocam em nosso lugar, pois nesta situação, não há culpados.

5. Como vocês da empresa de intercâmbio têm dado apoio a esses jovens que tiveram de adiar seus sonhos?

Como disse anteriormente, nós temos uma relação muito amigável com os nossos clientes e isso nos permite estar mais próximos deles. Trabalhamos fortemente para deixá-los atualizados sobre os seus processos, sobre as novas regras, mudanças e etc. Enquanto especialistas de educação internacional, estamos a todo momento analisando os cenários e trabalhando com transparência, para que eles possam tomar as melhores decisões sem grandes preocupações.

6. Na sua opinião, qual a importância de um intercâmbio na vida de um jovem? E o que você diria como incentivo para que eles não desistam, mesmo em um momento tão complicado?

Buscamos todos os dias tornar a educação internacional mais acessível aos diferentes tipos de público, para que todos possam ter a oportunidade de vivenciar essa experiência. 

Muitos vão em busca do desenvolvimento acadêmico, seja estudar inglês, fazer o ensino médio no exterior, ou a universidade, porém a experiência nos permite aprendizados superiores ao acadêmico, digo isso por experiência própria, há uma Jacqueline antes e uma pós o intercâmbio. Aprendemos a ser mais flexíveis, a respeitar mais o próximo, a entender as nossas diferenças e a ter mais empatia, são habilidades que só aprendemos através das experiências.  

Com muita frequência eu recebo áudios e mensagens dos nossos estudantes sobre como eles tiveram a oportunidade de se conhecerem melhor durante o intercâmbio, alguns pensam em empreender, outros começam a dar mais valor a vida que levam aqui no Brasil, e outro dia, eu ouvi uma estudante dizer o quão feliz ela fica em ver o sol, pois onde ela está morando hoje tem pouco sol. 

São coisas simples que mudam a nossa vida e o olhar que temos sobre o mundo. 

O momento é muito complicado, mas é preciso ter fé que vai passar e que as coisas vão melhorar. É momento de se planejar para realizar o seu sonho, busque mais informações, converse com especialistas da área, com estudantes que já moraram fora, pois isso tudo vai passar.  Não desista, jamais! 

 

 

Edição: Daniela Reis 

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Por Bianca Morais 

Para finalizar a comemoração do Mês das Mães do Jornal Contramão, conheça hoje a trajetória de Mariana Rocha Tavares, mãe solteira que enfrentou e abriu mão de muitos sonhos para assumir a maternidade ainda na adolescência. 

Mariana tem atualmente 32 anos, diferente de muitas meninas, seu sonho nunca foi ser mãe. Durante a infância mal brincava de boneca e idealizava com o dia em que iria crescer, trabalhar, conhecer o mundo e conquistar sua independência. 

Mas, o destino muitas vezes nos surpreende, as coisas não saem como planejamos e os projetos de vida de Mariana foram interrompidos, quando aos 17 anos veio a gravidez não planejada. A garota que sonhava em ser independente, viu sua vida virar de cabeça para baixo ao dar a luz ainda na adolescência. Agora os seus planos não eram só para ela, agora ela era responsável por uma outra vida.

Fruto de um relacionamento conturbado e da transição da pílula anticoncepcional para o contraceptivo injetável, veio ao mundo Alice. Quando descobriu a gravidez recorreu ao pai, que não é mais casado com sua mãe, e a proposta oferecida foi o aborto, pois ele acredita que uma gestação naquela idade influenciaria no seu futuro.

Engravidar aos 17 anos não é uma tarefa fácil, ainda mais quando não é uma gravidez planejada. Porém, Mariana resolveu assumir a responsabilidade, ao contrário do que seu pai aconselhou, seguiu em frente com a gestação. 

Apesar do desespero inicial, foi nos braços da mãe que Mariana encontrou a força que precisava para continuar. Ela apoiou a filha e deixou claro que não soltaria sua mão e estaria sempre ao seu lado. 

Alice no colo da avó materna

Durante a espera de Alice o que a jovem mais escutava eram comentários maldosos sobre sua situação. “Você é doida, como vai fazer isso com a sua vida?”“O que vai ser do seu futuro agora?”, “Você acabou com a sua vida!”, “ De agora em diante não existe mais você, a sua vida vai se resumir a sua filha!”,  “Esquece tudo que já planejou.”. Então, para ela que desde muito nova idealizava diversas metas que incluíam autonomia, aquele parecia o fim de tudo. 

Muitas críticas, pouco suporte, mas a partir do momento em que transformou esses julgamentos em coragem e determinação, Mariana colocou no mundo uma criança tranquila e serena, que chegou e desmistificou todas aquelas histórias assustadoras de que ela não teria mais noites de sono em paz. Alice nasceu para mostrar que seria a grande companheira da mãe e não o fardo que a sociedade queria que ela carregasse. Mariana ganhou uma filha, uma parceira e uma amiga que a partir daquele momento só iria lhe trazer alegrias. 

Alice foi criada em um ambiente cercado de adultos, por isso, tinha uma maturidade maior ao que correspondia à sua idade. Mãe e filha frequentemente conversavam questões de ideais e realizações pessoais, a menina constantemente incentivava a mãe a correr atrás daqueles sonhos que havia deixado de lado após seu nascimento. 

Depois de ter a filha, a prioridade de Mariana passou a ser o trabalho, pois seria através dele que ela daria o melhor à Alice. “A minha criação foi baseada no ensinamento e na filosofia da independência financeira. Logo, trabalhei arduamente, e tive muitas alegrias e muito sucesso na minha carreira. Sempre dei o meu melhor como profissional e colhi os frutos disso. Porém, de uns três anos pra cá, assumi cargos de mais responsabilidade, tendo como papel na empresa a figura que representava a gestão, e comecei a sentir muita falta de conceitos, de processos baseados em estudos” relata.

Apesar do sucesso profissional, Mariana sentia falta de um curso superior. Ela deixou os estudos de lado, pois queria dedicar o máximo de tempo livre à filha. A jovem mãe presenciava pessoas próximas se formarem e sentia a vontade de alcançar essa realização acadêmica. 

“Em nossas conversas ela se posicionava muito a favor de eu me realizar, e me dava força nos momentos difíceis. Nesse período, entrei em um conflito interno pela necessidade de uma especialização mais técnica na minha carreira e ela dizia a cada instante que eu não precisava me preocupar, porque ela estaria aqui me esperando da aula, e quando fosse final de semana não ia sair do meu lado”, compartilha Mariana.

Alice e Mariana em um momento de descontração

Alice, mesmo sendo apenas uma criança, conseguiu passar a segurança que a mãe precisava para ingressar na faculdade. “Ela sempre ficou nessa função de me reafirmar, que eu era uma boa mãe e que tinha orgulho de mim, isso fez total diferença”, completa.

Com o apoio da pessoa mais importante da sua vida, Mariana, venceu o medo e entrou para o curso de Administração que sempre quis. A mulher que sempre trabalhou na área, encontrou a oportunidade de se aprimorar. 

O dia a dia

Além de mãe e filha, as duas são amigas inseparáveis. Diariamente, durante a aula de Alice na parte da manhã, a mãe organiza a casa e faz o almoço. À tarde, a louça fica com a filha, enquanto Mariana estuda e organiza as responsabilidades que assumiu na faculdade. Ela é líder de turma, fornece suporte ao Instagram do curso, participa da direção de grupos de estudos e à noite assiste às aulas remotas.

As duas compartilham do momento de estudos juntas, Mariana está sempre perto para auxiliar a filha em alguma matéria nova e divide com ela conteúdos que aprende na faculdade. “Da minha parte sempre compartilho as matérias de marketing, porque ela é blogueirinha”, brinca a mãe. 

Mariana fez-se dona do seu destino e aos 32 anos resolveu voltar aos estudos, mas o apoio de Alice é o que movimenta sua vida e sem a filha ela não viveria nada disso.

A pequena grande Alice

A grande menina Alice

Alice é uma pré-adolescente de 13 anos e assim como a mãe sempre comportou-se de forma muito independente. Como a maioria das meninas de sua idade, reclama diariamente da pandemia e de não poder sair de casa e ter contato com as pessoas. Tem conta no Instagram e no TikTok, conversa por Whatsapp e videochamada com as amigas. Na escola, sempre teve boas notas, e apesar de nas aulas remotas precisar de um pouco mais de foco, nunca deu muito trabalho.

A menina tem uma mãe muito jovem, mas com uma extensa bagagem, e por esse motivo, ao longo de sua história já passou por muitas dificuldades e precisou ser adulta em muitos momentos em que ainda era uma criança.

O maior exemplo de Alice, sem dúvidas, é a mãe e talvez esse seja o principal motivo de tanto amadurecimento por parte da menina, que desde muito nova assistiu sua mãe batalhar a fim de lhe dar a melhor educação, mesmo com o mundo dificultando as coisas para as mães solos. 

“Alice é muito humana, educada, carinhosa e sensível. Ela sempre se importa com os outros, sem passar por cima dela. Apesar de tudo que passou nunca se revoltou, ou se quer descontou em alguém as frustrações que eu sei que surgiram dentro dela. Ter que administrar conflitos que nem eram dela. Isso a fez uma pessoa mais madura com certeza”, diz a mãe sobre a filha.

A relação mãe e filha

Mãe e filha em momento de diversão

Mãe e filha trocam informações e descobrem constantemente experiências novas juntas. As duas dialogam bastante e Mariana busca sempre estar presente no meio da filha, até mesmo entre as amigas, a fim de saber com quem ela está se relacionando.

Para Mariana, a base da educação da filha é essa troca, ela veio de uma criação de muito amor, porém estruturada no autoritarismo materno e pouco caso do lado paterno, com isso, desde que engravidou de Alice quis dar uma base diferente da que . “Quero que ela nunca precise fazer nada às escondidas, passar por dificuldades sozinhas por medo de conversar e pedir ajuda, que ela nunca sinta que é um peso na vida de ninguém”. 

Considerando que nunca planejou ser mãe, Mariana tem se virado muito bem, muitas vezes se questiona se ter assumido a posição de mãe-amiga pode ter sido equivocada, mas logo em seguida se reafirma e acredita estar dando o melhor de si.

“Eu cometi grandes erros na criação dela, porém tenho orgulho de ter chegado até aqui e me enxergar como mãe. Tudo que faço é com muito amor, então por mais que dê algo errado, sei que ela vai se sentir sempre muito amada e principalmente respeitada como ser humano”, confessa a mãe.

A mãe batalhadora

Mariana, mãe da Alice

Mariana é mãe, filha, gerente, namorada e amiga, todos esses papéis que ela assumiu ao longo da vida, são constantemente questionados por ela ser, acima de tudo isso, mulher. Ser mulher em uma sociedade machista é ter que se reafirmar diariamente, provar sua capacidade aos outros. Apesar da pressão que vive, Mariana tem conseguido vencer o desafio.

Há 15 anos, na época em que assumir o papel de mãe solteira, a única coisa que ela pensava era como daria uma boa vida à sua filha, acabou por adiar alguns planos, e hoje com o apoio da menina, de sua família, e motivada pela vontade de se tornar uma profissional melhor, voltou a acreditar no seu potencial. Deu início aos seus estudos, porém não para agradar a sociedade que duvida de sua competência, mas a si mesma. 

“A faculdade me mostrou que não existem limites quando se quer algo de verdade algo. Todo esforço e dedicação se para por si, demore o tempo que demorar.” 

Para as mães que têm medo de voltar aos estudos e deixarem os filhos, Mariana aconselha: “Respeitem o seu tempo. Sintam-se livres para serem melhores profissionais, melhores pessoas e não associem isso a dinheiro nunca, e nem ao que os outros falam. Ouçam o seu coração. Você é mãe, mas é um ser humano, tem suas necessidades e seus objetivos particulares. Você existe no mundo para além do outro. Você existe pra você, e isso não é egoísmo”.

O regresso aos estudos enriqueceu não apenas intelectualmente a Mariana, começar uma faculdade serviu muito além de um mero diploma e melhores oportunidades no mercado de trabalho, foi crescimento pessoal, de vencer dificuldades e ser o que ela quiser.

Nesse mês das mães, o Jornal Contramão contou histórias de diferentes exemplos delas, porém todas com um ponto em comum, são todas mulheres que enfrentam todos os dias batalhas e fardos de serem mulheres e mães. Romantizar a maternidade seria uma banalidade se pensar no fato de que essas mães precisam se desdobrar para dar o melhor ao filho, trabalhar e ainda cuidar da casa. Ser mãe é uma grande responsabilidade, são elas que vão educar e servir de exemplo para seus filhos, determinar, na maioria das vezes, quem eles vão ser quando crescer.

Em comemoração a esse mês das mães vamos celebrar, mas também refletir, como você enxerga a sua mãe? Você tem dado o devido valor e consideração a mulher que tanto lutou para você se tornar quem é hoje?

*Edição: Daniela Reis

Por Bianca Morais 

Dando continuidade a comemoração ao mês das mães, o Jornal Contramão traz hoje a história de Vanessa. Mostraremos os prazeres e os desafios de conciliar a rotina profissional com a maternidade durante a pandemia.

Vanessa Cristina Lopes Santos, tem 46 anos e é professora do curso de Engenharia Elétrica da Una Cristiano Machado e do Uni-BH. Além de exercer o papel como profissional da educação, também atua em um outra área muito importante, a maternidade. Vanessa é mãe de três crianças, Fernando, o mais velho, e as gêmeas Isabela e Letícia.

Para a professora, ser mãe sempre foi mais que um sonho, foi uma realização como mulher. Casada há 15 anos, ela sempre teve o desejo de ter no mínimo dois filhos. “Na realidade, sempre enxerguei a maternidade como um empréstimo em confiança. É uma missão que Deus nos confia”. E Deus confiou e muito nela, dando-lhe três filhos, pois sabia que ela seria capaz.

 

Começa uma história de amor

Vanessa e o marido fizeram Engenharia na mesma faculdade, porém não se conheceram nessa época. O encontro aconteceu apenas no mestrado, anos depois. Podemos dizer que foi obra do destino, pois logo se apaixonaram e estão juntos até hoje. 

Depois de casados, os dois planejavam o futuro. Queriam dois filhos, para eles o número ideal para ter uma vida tranquila e confortável. Fernando, 11 anos,  é primogênito. Um menino muito calmo e que sonhava com a companhia de um irmão. Para os pais, o cenário perfeito, pois sempre idealizaram um ambiente de partilha, uma criança sendo companheira da outra.

Na época em que descobriu a segunda gravidez e contou ao filho, Fernando já sabia que viriam dois, isso sem ao menos a mãe ter feito o ultrassom. “O mais interessante é que quando soubemos da gravidez, fomos perguntar ao Fê se ele iria ter irmão ou irmã, qual seria o presente que  o Papai do Céu mandou. Para surpresa de todos, ele  nos disse que ganharia dois irmãos e contou na escola, para a família e a todos que ele conhecia. Nós achamos aquela situação engraçada”.

Fernando foi preciso em sua intuição! A mãe realmente estava grávida de dois bebês, só que esperava dois irmãos, porém na realidade eram duas meninas: Isabela e Letícia, atualmente com 7 anos . 

“No dia da ultrassonografia, quando o médico disse que tinha uma surpresa, eu e meu marido nos surpreendemos mais ainda com a sensibilidade do Fernando. Este acontecimento aumentou demais nossa fé e nos uniu muito como família, acreditamos que a sensibilidade dele foi uma forma de Deus nos mostrar o quanto ele estava depositando confiança em nossa fammília”.

O cotidiano antes da pandemia

Passeios em família eram constantes

Antes do isolamento, a família vivia a mesma rotina diariamente. Na parte da manhã, as crianças tinham uma cuidadora, à tarde iam para a escola e à noite ficavam com o pai, pois Vanessa tinha que se dividir em seus empregos, em uma empresa privada e nas faculdades.

“Eu saía para trabalhar cedo,  no horário do almoço levava as crianças para a escola e voltava ao trabalho. Chegava em casa por volta das 23h, a essa altura meus filhos já estavam dormindo. No outro dia, eu saía às 6h30 e eles ainda não tinham se levantado.Assim, nossos encontros eram no horário do almoço e no caminho da escola”, relembra.

Era aos finais de semana que Vanessa de fato conseguia aproveitar e passar um tempo maior com os filhos, e ela fazia questão de aproveitar cada minuto. Ia com os garotos passear em praças, clubes, andar de bicicleta, enfim, tirava o atraso da semana.

Mudança radical

Com o início da quarentena, Vanessa passou a trabalhar em home office, as crianças passaram a ter aula online, foi quando a rotina mudou completamente. Se antes a mãe pouco via os filhos, agora ela acompanhava de perto cada momento.

“Atualmente,  o tempo todo estou a conciliar e encaixar tarefas. Os horários se sobrepõem e a rotina é uma palavra quase em desuso em casa. Me tornei uma mãe mais dedicada em tempo, mas também percebo que às vezes tomo muito controle da situação. Assim, tento deixar as crianças desenvolverem sua autonomia, mas me freio muito”, explica.

Dentro de casa, 24 horas com os filhos, Vanessa consegue acompanhar de perto a alfabetização deles, estar perto nessa fase de construção de conhecimento dos filhos, por ser professora, é capaz de ser mais compreensível e intervir de forma mais assertiva no que diz respeito à rotina escolar.

O ensino remoto dos filhos

No início foi necessário um período de adaptação para toda família, diferenciar os dias das semana dos fins de semana, explicar à eles que mesmo em casa, não era tempo de férias,  foi uma missão desafiadora.

“Passamos por um período de conscientização das responsabilidades e de entendimento da situação. Para ajudar na compreensão das crianças, fomos explicando, juntamente com os professores, que estávamos passando por uma situação crítica e enfrentando uma doença desconhecida e severa. Assim, eles conseguiram se adaptar ao confinamento e se protegerem”. 

As gêmeas estão em fase de alfabetização e em nenhum cenário Vanessa previa viver esse momento tão próxima delas. A mãe consegue muitas vezes assistir  parte das aulas com as pequenas e ajudá-las. Sem contar, que apesar de trabalhar durante as aulas delas, a mãe precisa se transformar em duas, é um olho no trabalho e outro dividido entre as meninas.

“Coloco elas em cômodos diferentes, porque são gêmeas e se ficam juntas vira palhaçada, brincadeira atrás de brincadeira. Fico em um cômodo intermediário, onde eu consigo ver as duas”.

Se já dá trabalho dar conta de uma criança em aula online, imagine duas meninas sendo alfabetizadas. A mãe relata que há  dias tranquilos e outros bem agitados. “Tem dia que o lápis quebra a ponta, aí pega o lápis da outra e se torna motivo de briga”. Vanessa, ao invés de perder a cabeça, enxerga ali a oportunidade de ensinar as duas a partilhar. “Eu consigo ver onde elas estão tendo uma dificuldade, intervir, uma coisa que eu não veria se eu não estivesse participando”.

Diferente das mais novas, o filho mais velho é bem independente e sossegado, porém não gosta muito de estudar e como grande parte dos pré-adolescentes prefere jogar bola e passa um bom tempo no Tik Tok. Para cumprir as tarefas escolares, a mãe precisa ficar no pé, porém vê com bons olhos a chance que tem de estar dentro de casa, acompanhar de perto e poder mostrá-los as consequências das escolhas que ele faz. 

“Sinto que está sendo um período muito difícil para o mundo inteiro, mas me trouxe chances únicas e indispensáveis”, revela.

Em relação ao método de ensino remoto dos filhos, a mãe avalia que apesar de a distância, são aulas muito boas. “Os professores acompanham as atividades, exploram o conteúdo, conversam com as crianças, mantêm os intervalos para levantar e descansar a vista da tela. As aulas que me deixam de cabelo em pé são as de educação física. A casa vira de pernas para o ar”.

A profissional

No horário em que ministra suas aulas, Vanessa conta com o apoio do marido. É ele quem consegue manter as crianças em silêncio, aproveita o momento para dar banho e lanche. A professora tem uma placa de “mamãe em aula”, que deixa na porta e se fecha no quarto de estudos. Nessa hora eles sabem que a mãe está no trabalho, por isso, não interferem muito. Mas foi preciso orientá-los sobre a seriedade do silêncio durante esse período em que ela está com seus alunos. 

“Na hora dos intervalos,  eu abro a porta e todos entram como um furacão. Mãe eu quero pizza, mãe eu quero isso, mãe eu quero aquilo. Aí eu respondo que  daqui uma horinha ou duas a mamãe está fazendo tudo que vocês querem”.

Se surpreende quem pensa que o dia de Vanessa acaba depois de dar sua última aula. Ali, a noite na verdade está apenas no começo. Depois de colocarem as crianças na cama, ela e o marido separam as atividades das meninas e já preparam tudo para o dia seguinte.

“Como são crianças, nem sempre eles conseguem acompanhar e fazer tudo, sempre tem um para casa que passa despercebido. A gente tem que aproveitar para colocar tudo em ordem no sábado ou no domingo. Também é nos finais de semana que fazemos as leituras, treinamos as sílabas, as letras, a pontuação, a acentuação, e prepararmos as tarefas que segunda-feira”.

Diversão em casa

As aulas das crianças terminam por volta do meio-dia, e é a partir daí que inicia-se o momento de brincar. Os três filhos sempre se divertiram muito entre si. Em meio a pandemia e o isolamento social, Vanessa encontrou uma forma de driblar a falta de rotina com outros amigos e trouxe  novo membro para a família: o Flash, um cãozinho. “Flash é um cachorrinho lindo e sapeca, a hora de levá-lo para passear é um dos melhores momentos do dia, é uma algazarra”.

Flash, o amiguinho especial

Outro momento que a família também tira para descontrair é quando Vanessa tem provas para corrigir, ela reúne todos na mesa e é “hora da escola”, cada um faz sua tarefa e aproveitam para passar o tempo juntos. “Logicamente que uma coisinha ou outra sai da linha né. Se é uma tarefa que dava para fazer de manhã, ela gasta de manhã e  à tarde, mas aqui com saúde, fé, boa vontade, às vezes a polêmica a gente contorna”.

Os desafios da pandemia em família

Na rotina da mãe e professora existem dias mais difíceis, em que as tarefas não são concluídas e o cronograma não é cumprido, mas mesmo assim ela  garante que não se deixa abalar e que sua fé a faz acreditar sempre que tudo na vida é um aprendizado. Paciência, confiança e fé são suas palavras de ordem. 

“Daqui um tempo vamos poder parar, olhar para trás e espero que possamos agradecer por ter saúde, por ter o desafio vencido e ter crescido como ser humano, como família e estarmos mais fortes e mais preparados. Acredito que a pandemia me mudou como pessoa em muitos aspectos, principalmente em reconhecer os meus  limites e dos outros, entender que todos estamos sujeitos a problemas e ninguém está livre de mazelas. Assim, a fé aumenta e a gente aprende a confiar mais, confiar na vida, na proteção de Deus”.

Vanessa é uma mãe muito dedicada e grata a família que tem. No momento em que uma doença assola o mundo, ela enxergou a chance de ouro de se aproximar de seus filhos. Em meio a correria do dia a dia ela tenta dar atenção a cada um individualmente e educá-los da melhor forma possível. Ao estar diariamente presente, ela percebe as necessidades de cada um e entende a hora certa de interferir.

“Às vezes no momento em que você não pode intervir numa determinada situação, no momento exato do acontecimento, outra acontece e te dá a oportunidade de fazer uma abordagem mais madura. Nós somos muitos transparentes aqui em casa e fica mais fácil a percepção de como está cada um. Como eu via muito pouco meus filhos, apenas quando íamos para a aula, eu conversava muito com eles e explicava como é importante sermos sinceros e contarmos uns com os outros”, finaliza.

 

*Edição: Daniela Reis

Por Bianca Morais

Se o amor já é difícil de descrever, amor de mãe é impossível. Amor de mãe não se explica, não se julga, não questiona. É um sentimento que nasce ainda na gestação, quando o filho é carregado no ventre, ou mesmo naquela expectativa da adoção. O amor de mãe é capaz de superar tudo,de enfrentar qualquer barreira para apoiar a cria. 

A partir do momento em que a mulher se torna uma mãe, ela cria planos para o futuro daquela criança, ela acompanha os primeiros passos, o vê entrar na escola, na faculdade, ela consegue idealizar seu futuro, imaginar situações e traçar objetivos. 

Mas, nem sempre o filho vai seguir ou corresponder aos projetos que a mãe idealizou. Alguns não vão cursar a faculdade, outros talvez não irão ter filhos, entretanto, o sentimento daquela que o criou não irá mudar, vai se adaptar às escolhas daquele jovem adulto que um dia ela carregou no colo. 

Agora, um dos maiores medos, senão o maior de uma mãe, é ver o filho sofrer. A dor e a frustração de um filho talvez seja o maior desencantamento de uma mãe. 

Hoje, em homenagem ao Dia das Mães, o Jornal Contramão traz a história de Karen de Oliveira Carvalho, 23 anos, e Marilene Oliveira Ferreira, 49. Um exemplo de amor, empatia e proteção. 

Karen é bissexual e se assumiu para a mãe. Descobrir que seu filho não é o que planejava pode ser frustrante, agora perceber que a sexualidade dele pode ser algo que vai interferir em sua segurança é desafiador.

O Brasil é um país intolerante em relação ao público LGBT’S. E nesse grupo tão marginalizado pela sociedade, é a figura materna que pode fazer a diferença. Aceitar, amar, compreender e acolher um filho pelo que ele realmente é, é muito importante para que ele tenha força para lutar todos os dias contra o preconceito. 

E foi exatamente o amor de Marilene que fez toda a diferença na vida de Karen. 

Karen é uma menina alegre, sempre foi. Para a mãe, Marilene, é uma garota de personalidade forte, estudiosa, vaidosa e que adora dançar. Karen tem uma capacidade incrível de animar qualquer ambiente e tenta fazer todas as pessoas ao seu redor se sentirem especiais e únicas.

A relação entre mãe e filha não poderia ser melhor. A mãe, sempre muito atenciosa com a garota, sabe exatamente o que ela sente, quando precisa conversar, às vezes até quando a Karen está confusa e perdida, é a mãe que lhe dá o norte.  

“É uma ótima relação, a Karen é uma filha muito carinhosa, tem um jeito de gatinho manhoso que acaba conquistando todo mundo”, conta Marilene.

Mãe e filha sempre foram muito próximas, é aquele sentimento natural que só quem tem conhece, porém apesar dessa proximidade, por anos Karen escondeu um segredo de sua mãe, não por medo, mas receio de que de alguma forma isso mudasse algo o relacionamento das duas. 

Karen, a mãe e os irmãos

Karen tem uma orientação sexual que não é considerada tradicional por boa parte da população. Ela é bissexual, se relaciona com homens ou mulheres. Sempre sofreu com o estigma de que a bissexualidade é promiscuidade. “Sou constantemente sexualizada por homens em geral. A bissexualidade muitas vezes é confundida com bagunça. Dizem que somos confusos, que é só uma fase. Que somos mais propensos a traição, a realização de fantasias, etc. Isso incomoda bastante e enche a paciência”, desabafa. 

Devido a  todo esse preconceito, Karen carregava com ela a insegurança em contar para a mãe a verdade sobre ser quem é. “Esperei até meus 22 anos e sei que não é fácil. Eu ainda estava com o receio que quase todos temos quando estamos pra sair do armário. É algo bem individual de cada um e não culpo quem não consegue, a pressão é bem grande quando ficamos sem apoio”, ressalta a estudante de Direito do Centro Universitário Una.

Além disso, ela já havia presenciado experiências ruins com amigos próximos e conhecidos e famílias preconceituosas. E mesmo que conhecesse o jeito e a personalidade da sua mãe, ainda se sentia apreensiva. Compartilhou primeiro com a irmã, que já desconfiava de suas escolhas. “Eu não me preocupava em me esconder dela porque sabia que me apoiaria de qualquer forma”, diz ela. Foi apenas quando se sentiu segura e confortável que resolveu compartilhar com outras pessoas próximas dela. 

“Ela contou na mesa do almoço “Mãe, eu sou viada! Gosto de garotos e garotas!” Todo mundo riu bastante e foi algo bem natural”, contou Marilene.

Se Karen pudesse prever o futuro e a reação da mãe após assumir sua sexualidade, com certeza, jamais sofrido para se libertar. “Pra mim, é algo natural, não faz diferença a sexualidade da minha filha. Tenho consciência que existe muito preconceito em relação à orientação sexual dela e sei que ela é boa em se defender”, relata a mãe.

Para Marilene, seu amor de mãe sempre vai falar mais alto e está acima de tudo. De acordo com ela, o que importa é ver sua filha bem, feliz. E quanto a opinião dos outros, eles que procurem o que fazer. “Não dou liberdade para ninguém falar da minha filha. Se algum dia alguém ousar em perguntar, eu mando cuidar da própria vida” completa.

Marilene é mãe, e para ela apoiar e amar o filho é dever de todas. Segundo ela, as barreiras de qualquer discriminação devem ser vencidas com o amor e não com a ignorância. Marilene estudou para entender a sexualidade da filha e o porquê dela ter demorado a ter coragem de se assumir. 

“A falta de apoio desestrutura os LGBT’s, e pode levar a insegurança, situação de rua, consumo de drogas, problemas psicológicos e a prostituição por falta de alternativas. Eu acho que pais que não apoiam seus filhos só contribuem para perpetuar o sofrimento deles, sua casa tem que ser o seu porto seguro, se a família não apóia, fica triste e complicado. O acolhimento evita a vulnerabilidade dos filhos”, explica. 

* Karen Carvalho participa do Projeto de Extensão Una-se contra a LGBTFOBIA.

 

**Edição: Daniela Reis

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Tarso Brant (Foto: Reprodução)

Por Bianca Morais

Você já ouviu falar em Tarso Brant? Se não, provavelmente já escutou sobre Tereza Brant. Falo com tal propriedade porque ele já apareceu em muitos programas da televisão brasileira e fez participação especial na novela A Força do Querer, que está sendo reprisada pela emissora Rede Globo no horário das 21 horas.

No ano de exibição da trama o assunto surgiu ainda como um tabu na mídia e na sociedade. Até então, muito pouco se sabia sobre transexuais, que é termo usado para definir as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento. A novela foi transmitida em 2017, hoje, 2021 a aceitação continua muito baixa, porém o conhecimento do significado da sigla T de LGBTQIA + já vem se disseminando.

Tarso Brant na novela A Força do Querer (foto: reprodução)

O Brasil é um país preconceituoso. E sim,  isso é uma afirmação. Pela 13° vez, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Entre 1º de janeiro a 30 de setembro de 2018, 271 transgêneres foram mortos em 72 países. Desses, 125 foram só no Brasil. Três dessas vítimas morreram em decorrência de tortura, enquanto quatro foram decapitadas ou tiveram seus corpos esquartejados.

Mas chega de falar de algo desagradável, vamos falar de algo bom, e com bom eu quero dizer: Tarso Brant, que em meio a tantas dificuldades e intolerâncias, ele vence e luta todos os dias por igualdade. Quando se trata de aceitação trans, questionado sobre se identificar como ativista da causa, ele afirma “eu sou a causa”. E pronto, esse texto poderia acabar aqui, porque é exatamente disto que se trata, enquanto existir o Tarso Brant, o Elliot Page, o Thammy Miranda, a Duda Salabert, ou qualquer outra pessoa trans e travesti vivendo, respirando e resistindo, essas pessoas serão a causa, elas vão incomodar muitos, mas serão exemplo e inspiração para muitos outros não desistirem.

E o texto não acabou ali. Foi modo de me expressar mesmo. Aqui, agora, vamos falar de algo muito bom que é a existência de Tarso Brant. Homem trans, 27 anos, aquariano, modelo e ator, natural de Belo Horizonte. Quando chegou ao mundo no dia 7 de fevereiro de 1993, Tarso Brant se chamava Tereza Brant e ocupava o corpo socialmente dito como de “menina”.

Desde criança, Tarso, sentia esse desconforto referente a sua aparência física, não se sentia bem naquele corpo de “menina”, aquela pele lisa, cabelo comprido, nunca foi fácil se olhar no espelho e não gostar do que via, por isso, sem saber o que fazer se adaptava com o que podia, usando roupas mais largas e acessórios.

Foi na sua adolescência que veio a mudança drástica. Tereza Brant foi colocado em um grupo criado por João W.Nery, cujo nome era “FTM Brasil (feminino trans masculino Brasil)”. Para quem não sabe, João W. Nery foi um psicólogo e escritor brasileiro conhecido por ter sido o primeiro homem trans a realizar a cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Ali, o jovem Tereza Brant percebeu que não era o único. Dentro desse grupo ele teve acesso a importantes informações sobre hormônios e como poderia administrá-los para ter o efeito desejado.

Tereza iniciou essa busca por si mesmo, sozinho. Era um segredo apenas dele, não se abria nem com a família e muito menos com os amigos, até o momento em que percebeu que determinadas mudanças seriam mais acentuadas. Nesse instante tomou a decisão de que era hora de contar para seus pais. Brant não contou aos seus pais de primeira, disse apenas que estava tomando “algumas coisas” para melhorar seu desempenho na academia e isso poderia alterar um pouco seu corpo. Aos amigos, ele não fazia muita questão de dar satisfações e o diálogo era sempre o mesmo:

-“Nossa você tá diferente. O que tá tomando”?

-“Tô me alimentando bem e me exercitando”.

-“Mas a sua aparência tá diferente”.

-“Impressão sua”.

-“Você não acha que é feio para mulher”?

-“Tô me sentindo bem, não se preocupe”.

A verdade é que nada daquilo interessava a ninguém a não ser a ele mesmo. Tarso sentia uma vontade que o movia incessantemente, não ligava para obstáculos ou criticas. Desistir? Jamais. Ele queria se encontrar e faria o que fosse necessário para aquilo acontecer.

Amar é aceitar o outro como ele é. E foi isso a base da força que o moveu. Os pais não sabiam detalhes desse tratamento, mas sabiam que não iriam lhe fazer mal, que ele estava tendo o acompanhamento necessário, então o que ficava a cargo dos pais era dar amor, carinho e apoio, isso nunca faltou. Se você  é pai de um ser humano, sua obrigação é estar ali para o seu filho, amar independente, se o seu filho não está fazendo nada que o prejudique ou prejudique outra pessoa, ele não está fazendo nada de errado, por isso, sua única missão é amá-lo.

Você é homem ou mulher? Nunca precisou disso. Nunca foi necessário. Os pais de Brant sempre tiveram esse tato com ele, uma sensibilidade de estar ali e dar apoio.

Foi com muito amor que Tarso iniciou seu processo de transição hormonal.

Lá entre os seus 19 e 20 anos ele começou o uso de hormônio, essa fase inicial foi sem dúvidas para o jovem algo desafiador e muito conturbado. Hormônios são por natureza substâncias importantes para o controle e bom funcionamento do organismo. Esses hormônios fizeram com que características psicológicas afloracem de uma forma incrível, o que fez com que Brant se redescobrisse. Os três primeiros meses foram marcados por picos de excessos: humor, libido, confusões mentais, uma verdadeira explosão de energia sem igual.

Conforme os meses iam se passando as características físicas apareciam mais e mais. No quinto mês já era possível ver os pelos no rosto, a voz mais grave, músculos rígidos e muita fome. Que bom que os pais do jovem são cozinheiros de mão cheia e além de dar todo amor e apoio davam também algo muito relevante nesse processo, comidinhas boas. Filho único e mimado pelos pais. Bom demais.

Do sexto mês adiante o rapaz já estava mais adaptado àquele processo invasivo, dessa forma estava na hora de cuidar de mais um detalhe importante, a mente. Ele buscou um pouco de paz no espiritismo e seus ensinamentos. O processo de autoconhecimento é algo bem extenso e que dura a vida inteira, manter contato com terapeutas, prezar por saúde mental é de suma importância para qualquer indivíduo.

Agora se você leu isso tudo até aqui e se lembrou de algumas das cenas da novela A força do querer é porque Tarso Brant (na época com nome Tereza), foi consultor exclusivo de Glória Perez para escrever a personagem Ivana, e pode ter certeza que assim como nas novelas ele terá um final feliz.

Depois do final de seu primeiro ano de tratamento, a aparência já estava completamente do gênero masculino. Brant já se via no espelho com seu jardim particular, que deve ser aparado no mínimo uma vez por semana, e sim, eu estou falando de sua barba.

Tereza Brant sempre vai fazer parte do Tarso Brant, mas chegou uma hora que aquele nome feminino não cabia mais, com tantas mudanças e evoluções estava na hora de assumir de vez uma nova identidade. Tarso entrou com o processo de pedido para averbação referente ao seu nome e gênero, após oito meses teve o retorno. Tarso foi o nome que sua família lhe deu.

Tarso Brant é um ser inquieto, aventureiro, destemido, curioso, pensante. Gosta de tocar com DJ em festas, jogar basquete, andar de patins, correr, dançar, cantar, tocar instrumentos, escrever. Tarso já namorou menino antes da transição, Tarso já fugiu correndo da mãe de uma ex-namorada enquanto ela o perseguia de carro tentando atropelá-lo. Tarso gosta de ouvir bem alto Power of two, música da sua banda favorita Indigo Girls. Tarso é grato por tudo que já conquistou na sua vida. Tarso ri, Tarso chora, Tarso é igual a mim e a você que está lendo esse texto. Tarso erra e acerta. Tarso está todos os dias em busca de ser melhor como ser humano.

Quando o assunto é transexualidade, um dos pontos que mais devemos nos lembrar é que todos somos humanos, de carne e osso. Erramos e acertamos. Se você encontrar o Tarso na rua, ficar confuso e acabar o chamando de ela por nervosismo, ele não vai te xingar ou te ofender, ele vai dar uma risada descontraída e te orientar do que é certo. Todo dia é um novo dia para aprender e se tornar uma pessoa melhor.

Hoje, Tarso Brant está bem consigo mesmo, mais consciente e mais maduro. Se arrepende apenas do que ainda não fez, e isso tudo porque ele é quem ele sempre sonhou ser.

“Nunca diga nunca, pois os limites são como os medos: sempre são apenas ilusões”. Quem disse isso foi uma das inspirações de Tarso e o nome dele é Michael Jordan. Ex-jogador na NBA, Jordan é também um grande motivador, autor de vários livros sobre superação, ele ensina que é preciso tentar e fazer acontecer.

Foto: Reprodução

A liberdade de ser quem se é de verdade não tem preço.

Vamos voltar um pouco no exemplo da Ivana de A Força do Querer. Uma das cenas que eu mais gosto de toda sua jornada é o momento em que ela se assume trans para os pais e finalmente vira ele. O grito que solta, o grito que ficou anos entalado dentro de si e que finalmente pôde pôr para fora. Ver aquilo me passou uma sensação tão boa, tão libertadora, é aquelas cenas de arrepiar, sabe? Quando a ficção se mistura com a realidade, aquilo que nos faz sentir.

Durante essa cena existe outro detalhe importante a ressaltar, a mãe de Ivana chorando após ver a filha com os cabelos curtos, chorando de tristeza por estar perdendo sua filha, sua princesinha como ela dizia. Não era tristeza que ela deveria estar sentindo, mas isso a personagem entenderá mais para frente.

Sabe quem devemos nossas lágrimas de tristeza? A cena da Camila de laços de família. Ok leitores aqui vocês percebem que sou uma noveleira, mas não vamos perder o raciocínio. Em um dos maiores sucesso de Manoel Carlos, a personagem Camila tem leucemia, um câncer, uma doença que mata milhares de pessoas todos os anos, isso sim era cena de chorar de tristeza, inclusive você também consegue revê-la no a tarde no vale a pena ver de novo. Agora tratando de Ivana, a única lágrima que pode ser derrama pelas madeixas perdidas pela personagem é de alegria e felicidade, por ver ele finalmente se olhando no espelho e se reconhecendo como sempre quis.

Ser transexual não é doença, mas mesmo assim acaba matando milhares de pessoas no Brasil todos os anos. Lamentável se pensar nisso. Deplorável saber que a perspectiva vida de um indivíduo trans é de 35 anos, e isso não é por conta dos hormônios e toda essa mudança, porque sabendo cuidar a estimativa de vida é muito maior, o que mata transexual no Brasil é a transfobia, atos de violência física, moral ou psicológica. É preciso ter mais compreensão sobre a causa, é necessário mais educação sobre esse tema nas escolas e dentro de casa, é imediato a necessidade de romper o preconceito.

A sua verdade não é absoluta, respeito se deve a todos. “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Essa frase poderia ter sido dita pelo M.Jordan mas é um pouco mais antiga que ele, e, na verdade, foi dita por um ídolo também muito conhecido por muitos. Essa frase e seu autor eu deixo no ar, mas adianto que para ela só existe uma interpretação e não está relacionada a preconceitos.

O mês da visibilidade trans foi em janeiro, mas o respeito deve ser praticado todos os dias.

*Agradecimento especial a Tarso Brant por ter colaborado com a matéria.