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Tarso Brant (Foto: Reprodução)

Por Bianca Morais

Você já ouviu falar em Tarso Brant? Se não, provavelmente já escutou sobre Tereza Brant. Falo com tal propriedade porque ele já apareceu em muitos programas da televisão brasileira e fez participação especial na novela A Força do Querer, que está sendo reprisada pela emissora Rede Globo no horário das 21 horas.

No ano de exibição da trama o assunto surgiu ainda como um tabu na mídia e na sociedade. Até então, muito pouco se sabia sobre transexuais, que é termo usado para definir as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento. A novela foi transmitida em 2017, hoje, 2021 a aceitação continua muito baixa, porém o conhecimento do significado da sigla T de LGBTQIA + já vem se disseminando.

Tarso Brant na novela A Força do Querer (foto: reprodução)

O Brasil é um país preconceituoso. E sim,  isso é uma afirmação. Pela 13° vez, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Entre 1º de janeiro a 30 de setembro de 2018, 271 transgêneres foram mortos em 72 países. Desses, 125 foram só no Brasil. Três dessas vítimas morreram em decorrência de tortura, enquanto quatro foram decapitadas ou tiveram seus corpos esquartejados.

Mas chega de falar de algo desagradável, vamos falar de algo bom, e com bom eu quero dizer: Tarso Brant, que em meio a tantas dificuldades e intolerâncias, ele vence e luta todos os dias por igualdade. Quando se trata de aceitação trans, questionado sobre se identificar como ativista da causa, ele afirma “eu sou a causa”. E pronto, esse texto poderia acabar aqui, porque é exatamente disto que se trata, enquanto existir o Tarso Brant, o Elliot Page, o Thammy Miranda, a Duda Salabert, ou qualquer outra pessoa trans e travesti vivendo, respirando e resistindo, essas pessoas serão a causa, elas vão incomodar muitos, mas serão exemplo e inspiração para muitos outros não desistirem.

E o texto não acabou ali. Foi modo de me expressar mesmo. Aqui, agora, vamos falar de algo muito bom que é a existência de Tarso Brant. Homem trans, 27 anos, aquariano, modelo e ator, natural de Belo Horizonte. Quando chegou ao mundo no dia 7 de fevereiro de 1993, Tarso Brant se chamava Tereza Brant e ocupava o corpo socialmente dito como de “menina”.

Desde criança, Tarso, sentia esse desconforto referente a sua aparência física, não se sentia bem naquele corpo de “menina”, aquela pele lisa, cabelo comprido, nunca foi fácil se olhar no espelho e não gostar do que via, por isso, sem saber o que fazer se adaptava com o que podia, usando roupas mais largas e acessórios.

Foi na sua adolescência que veio a mudança drástica. Tereza Brant foi colocado em um grupo criado por João W.Nery, cujo nome era “FTM Brasil (feminino trans masculino Brasil)”. Para quem não sabe, João W. Nery foi um psicólogo e escritor brasileiro conhecido por ter sido o primeiro homem trans a realizar a cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Ali, o jovem Tereza Brant percebeu que não era o único. Dentro desse grupo ele teve acesso a importantes informações sobre hormônios e como poderia administrá-los para ter o efeito desejado.

Tereza iniciou essa busca por si mesmo, sozinho. Era um segredo apenas dele, não se abria nem com a família e muito menos com os amigos, até o momento em que percebeu que determinadas mudanças seriam mais acentuadas. Nesse instante tomou a decisão de que era hora de contar para seus pais. Brant não contou aos seus pais de primeira, disse apenas que estava tomando “algumas coisas” para melhorar seu desempenho na academia e isso poderia alterar um pouco seu corpo. Aos amigos, ele não fazia muita questão de dar satisfações e o diálogo era sempre o mesmo:

-“Nossa você tá diferente. O que tá tomando”?

-“Tô me alimentando bem e me exercitando”.

-“Mas a sua aparência tá diferente”.

-“Impressão sua”.

-“Você não acha que é feio para mulher”?

-“Tô me sentindo bem, não se preocupe”.

A verdade é que nada daquilo interessava a ninguém a não ser a ele mesmo. Tarso sentia uma vontade que o movia incessantemente, não ligava para obstáculos ou criticas. Desistir? Jamais. Ele queria se encontrar e faria o que fosse necessário para aquilo acontecer.

Amar é aceitar o outro como ele é. E foi isso a base da força que o moveu. Os pais não sabiam detalhes desse tratamento, mas sabiam que não iriam lhe fazer mal, que ele estava tendo o acompanhamento necessário, então o que ficava a cargo dos pais era dar amor, carinho e apoio, isso nunca faltou. Se você  é pai de um ser humano, sua obrigação é estar ali para o seu filho, amar independente, se o seu filho não está fazendo nada que o prejudique ou prejudique outra pessoa, ele não está fazendo nada de errado, por isso, sua única missão é amá-lo.

Você é homem ou mulher? Nunca precisou disso. Nunca foi necessário. Os pais de Brant sempre tiveram esse tato com ele, uma sensibilidade de estar ali e dar apoio.

Foi com muito amor que Tarso iniciou seu processo de transição hormonal.

Lá entre os seus 19 e 20 anos ele começou o uso de hormônio, essa fase inicial foi sem dúvidas para o jovem algo desafiador e muito conturbado. Hormônios são por natureza substâncias importantes para o controle e bom funcionamento do organismo. Esses hormônios fizeram com que características psicológicas afloracem de uma forma incrível, o que fez com que Brant se redescobrisse. Os três primeiros meses foram marcados por picos de excessos: humor, libido, confusões mentais, uma verdadeira explosão de energia sem igual.

Conforme os meses iam se passando as características físicas apareciam mais e mais. No quinto mês já era possível ver os pelos no rosto, a voz mais grave, músculos rígidos e muita fome. Que bom que os pais do jovem são cozinheiros de mão cheia e além de dar todo amor e apoio davam também algo muito relevante nesse processo, comidinhas boas. Filho único e mimado pelos pais. Bom demais.

Do sexto mês adiante o rapaz já estava mais adaptado àquele processo invasivo, dessa forma estava na hora de cuidar de mais um detalhe importante, a mente. Ele buscou um pouco de paz no espiritismo e seus ensinamentos. O processo de autoconhecimento é algo bem extenso e que dura a vida inteira, manter contato com terapeutas, prezar por saúde mental é de suma importância para qualquer indivíduo.

Agora se você leu isso tudo até aqui e se lembrou de algumas das cenas da novela A força do querer é porque Tarso Brant (na época com nome Tereza), foi consultor exclusivo de Glória Perez para escrever a personagem Ivana, e pode ter certeza que assim como nas novelas ele terá um final feliz.

Depois do final de seu primeiro ano de tratamento, a aparência já estava completamente do gênero masculino. Brant já se via no espelho com seu jardim particular, que deve ser aparado no mínimo uma vez por semana, e sim, eu estou falando de sua barba.

Tereza Brant sempre vai fazer parte do Tarso Brant, mas chegou uma hora que aquele nome feminino não cabia mais, com tantas mudanças e evoluções estava na hora de assumir de vez uma nova identidade. Tarso entrou com o processo de pedido para averbação referente ao seu nome e gênero, após oito meses teve o retorno. Tarso foi o nome que sua família lhe deu.

Tarso Brant é um ser inquieto, aventureiro, destemido, curioso, pensante. Gosta de tocar com DJ em festas, jogar basquete, andar de patins, correr, dançar, cantar, tocar instrumentos, escrever. Tarso já namorou menino antes da transição, Tarso já fugiu correndo da mãe de uma ex-namorada enquanto ela o perseguia de carro tentando atropelá-lo. Tarso gosta de ouvir bem alto Power of two, música da sua banda favorita Indigo Girls. Tarso é grato por tudo que já conquistou na sua vida. Tarso ri, Tarso chora, Tarso é igual a mim e a você que está lendo esse texto. Tarso erra e acerta. Tarso está todos os dias em busca de ser melhor como ser humano.

Quando o assunto é transexualidade, um dos pontos que mais devemos nos lembrar é que todos somos humanos, de carne e osso. Erramos e acertamos. Se você encontrar o Tarso na rua, ficar confuso e acabar o chamando de ela por nervosismo, ele não vai te xingar ou te ofender, ele vai dar uma risada descontraída e te orientar do que é certo. Todo dia é um novo dia para aprender e se tornar uma pessoa melhor.

Hoje, Tarso Brant está bem consigo mesmo, mais consciente e mais maduro. Se arrepende apenas do que ainda não fez, e isso tudo porque ele é quem ele sempre sonhou ser.

“Nunca diga nunca, pois os limites são como os medos: sempre são apenas ilusões”. Quem disse isso foi uma das inspirações de Tarso e o nome dele é Michael Jordan. Ex-jogador na NBA, Jordan é também um grande motivador, autor de vários livros sobre superação, ele ensina que é preciso tentar e fazer acontecer.

Foto: Reprodução

A liberdade de ser quem se é de verdade não tem preço.

Vamos voltar um pouco no exemplo da Ivana de A Força do Querer. Uma das cenas que eu mais gosto de toda sua jornada é o momento em que ela se assume trans para os pais e finalmente vira ele. O grito que solta, o grito que ficou anos entalado dentro de si e que finalmente pôde pôr para fora. Ver aquilo me passou uma sensação tão boa, tão libertadora, é aquelas cenas de arrepiar, sabe? Quando a ficção se mistura com a realidade, aquilo que nos faz sentir.

Durante essa cena existe outro detalhe importante a ressaltar, a mãe de Ivana chorando após ver a filha com os cabelos curtos, chorando de tristeza por estar perdendo sua filha, sua princesinha como ela dizia. Não era tristeza que ela deveria estar sentindo, mas isso a personagem entenderá mais para frente.

Sabe quem devemos nossas lágrimas de tristeza? A cena da Camila de laços de família. Ok leitores aqui vocês percebem que sou uma noveleira, mas não vamos perder o raciocínio. Em um dos maiores sucesso de Manoel Carlos, a personagem Camila tem leucemia, um câncer, uma doença que mata milhares de pessoas todos os anos, isso sim era cena de chorar de tristeza, inclusive você também consegue revê-la no a tarde no vale a pena ver de novo. Agora tratando de Ivana, a única lágrima que pode ser derrama pelas madeixas perdidas pela personagem é de alegria e felicidade, por ver ele finalmente se olhando no espelho e se reconhecendo como sempre quis.

Ser transexual não é doença, mas mesmo assim acaba matando milhares de pessoas no Brasil todos os anos. Lamentável se pensar nisso. Deplorável saber que a perspectiva vida de um indivíduo trans é de 35 anos, e isso não é por conta dos hormônios e toda essa mudança, porque sabendo cuidar a estimativa de vida é muito maior, o que mata transexual no Brasil é a transfobia, atos de violência física, moral ou psicológica. É preciso ter mais compreensão sobre a causa, é necessário mais educação sobre esse tema nas escolas e dentro de casa, é imediato a necessidade de romper o preconceito.

A sua verdade não é absoluta, respeito se deve a todos. “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Essa frase poderia ter sido dita pelo M.Jordan mas é um pouco mais antiga que ele, e, na verdade, foi dita por um ídolo também muito conhecido por muitos. Essa frase e seu autor eu deixo no ar, mas adianto que para ela só existe uma interpretação e não está relacionada a preconceitos.

O mês da visibilidade trans foi em janeiro, mas o respeito deve ser praticado todos os dias.

*Agradecimento especial a Tarso Brant por ter colaborado com a matéria.

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Por Italo Charles

No Brasil, janeiro tem sido marcado pelas manifestações de pessoas transexuais e travestis. O mês se tornou referência em 2004 através de um movimento de Trans Ativistas na porta do Congresso Nacional e, desde então, o Ministério da Saúde estabeleceu o dia 29 de janeiro como Dia da Visibilidade Trans.

Em meio a todas as manifestações políticas que a causa carrega, que tem como objetivo dar espaço as pessoas transexuais e travestis, há ainda alguns tabus a serem desvendados, por exemplo, o entendimento acerca da “identidade de gênero”. Mas, para começar, precisamos entender o que significa gênero. 

As discussões sobre gênero começaram, no Brasil, por volta dos anos 70 através de grupos feministas que lutavam por igualdade de direitos em pleno período de ditadura militar e, a partir desse período, os movimentos se intensificaram e têm ganhado forças dia após dia.

Nesse contexto, o conceito de gênero refere-se sobre os aspectos sociais atribuídos ao sexo. Ou seja, gênero têm relação às construções sociais e não a condições naturais (biológicas). Dessa forma, gênero é compreendido como tudo que foi definido socialmente ao longo da história e que se atribui como função ou comportamento designado a alguém baseado no seu sexo biológico.

É entendido também que, o gênero faz parte de relacionamentos de grupos de determinada cultura e que impõe certas características  sejam designadas ao homem ou a mulher. 

Há quem já tenha ouvido “isso é coisa de mulher” ou “cuidar da casa e dos filhos é dever da mulher”. Ao observar essas situações fica claro que existe por trás dessas falas alguns estigmas atribuídos ao “ser mulher”. Dessa forma, é possível entender que o gênero extrapola as percepções acerca do sexo biológico e se torna uma construção social.

Identidade de gênero

A identidade de gênero está relacionada à construção do indivíduo perante a sociedade, ou seja, como este mesmo indivíduo se enxerga e em qual gênero ele se identifica. Sendo assim, o sexo biológico não está relacionado a identidade de gênero, mas sim na relação ao masculino, feminino e gênero fluido.

Geralmente, ao nascer as pessoas são designadas a determinado gênero a partir da genitália com a qual nasce, sendo assim, os pais e a sociedade escolhem os caminhos que o indivíduo deve seguir a partir disso.

Entretanto, algumas pessoas ao passar do tempo se identificam com um gênero que difere com o qual lhes foi imposto ao nascimento tendo em conta o sexo biológico e através das relações sociais, portanto, isso é a identidade de gênero.

Existem três principais identidades de gênero, mas é importante destacar que uma pessoa pode apresentar características apontadas como ‘masculina’ e ‘feminina’ em todos os casos. 

São: cisgênero, transgênero (Transexuais e Travestis), e não-binário.

Cisgênera é a pessoa que se identifica com o sexo biológico que lhe é designado no momento do nascimento.

A pessoa transgênera é aquela que se identifica como não pertencente ao gênero que lhe foi designado através da sua genitália durante o nascimento.  Entre trangeneres estão, homens e mulheres trans e travestis.

A pessoa não-binária é aquela que não se identifica completamente com o gênero designado no nascimento nem com o outro. Dessa forma, a pessoa não-binária pode não se ver em nenhum dos papéis atribuídos a mulheres e nem ao dos homens, mas também pode vivenciar entre os dois.

Vale ressaltar que muitas pessoas ainda se perguntam como um “homem ou mulher” podem nascer no corpo errado ou então como não se identificam com nenhum ou ambos gêneros. É possível dizer que não existe um aspecto causador.

Orientação afetivo sexual

Outro ponto importante nessa leitura é sobre as características que diferem a identidade de gênero com a orientação sexual. Muitos não sabem, mas não existe uma relação entre ambos conceitos.

De maneira fácil de ser interpretada, diz-se que orientação sexual é o desejo sexual que uma pessoa sente pela outra. Sendo assim, existem algumas características de orientação sexual principais.

Estas são: assexual,  bissexual, demissexual,  heterossexual, homossexual e pansexual.

Vamos lá!

A pessoa assexual é aquela que não manifesta interesse sexual por outra pessoa, entretanto é capaz de manter um relacionamento amoroso/romântico com outro indivíduo.

A Bissexualidade é compreendida como orientação afetivo-sexual a partir de um indivíduo seja ele cisgênero, transgênero ou não-binário que se sente atraído sexualmente ou romanticamente por pessoas dos gêneros masculino e feminino.

Os demissexuais, são pessoas que sentem atração afetiva, sexual e romântica somente quando há um envolvimento e laço emocional ou intelectual. De tal modo, pessoas demissexuais precisam estar “conectadas” para que haja algum tipo de relação. 

Heterossexuais são pessoas que sentem atração afetiva e sexual por pessoas do sexo oposto.

Homossexuais são os indivíduos que se sentem atraídos tanto sexualmente como romanticamente por pessoas do mesmo sexo. Gays e lésbicas se encaixam neste conceito..

Já a pansexualidade é compreendida como uma pessoa que sente atração afetiva sexual por um indivíduo independente do seu sexo e gênero.

 

*Edição: Bianca Morais e Daniela Reis

**A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

 

 

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Por: Helen Oliveira

A imagem dos avós  na cadeira de balanço a espera dos netos perdeu-se no tempo. O time da terceira idade está, cada vez mais, ativo. Eles trabalham, saem para encontrar os amigos, dançam, divertem-se e conseguem compartilhar momentos com a família. Administram o tempo de forma a aproveitar todas as oportunidades oferecidas pela vida. No Dia Nacional dos avós, o Contramão  conversou com dois deles, José Teixeira Alves, de 63 anos, e Ivany Alves Leite, de 66, que se mantêm em atividade.

De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), divulgados pelo Ministério do Trabalho, o número de pessoas entre 50 e 64 anos, no mercado formal de trabalho, cresceu quase 30% entre 2010 e 2015. É o caso de José Teixeira Alves, mais conhecido como Zezinho. Avô de oito netos, o senhor faz dupla jornada: cuida da família em casa e da família que criou no ambiente de trabalho.

O idoso trabalha como auxiliar de manutenção, há 14 anos. Apesar de ter idade para se aposentar e ter dificuldades de locomoção, Zezinho não tem intenção de parar de trabalhar. Ele costuma percorrer longo trajeto de casa ao trabalho,  “São três ônibus para ir e três para voltar. Não é fácil, mas quero continuar trabalhando, enquanto tiver vida e saúde”, ressalta.

José assumiu o papel de conselheiro, atendendo às pessoas que o procuram para desabafos e conselhos, confiantes na vivência e maturidade dele. Em casa, os filhos e netos de Zezinho “tem que andar na linha”.  Ele não dá colher de chá, mas, sempre que necessário, está disposto a estender a mão.

“Como o tempo é curto, não consigo estar 100% com os netos, mas, no final de semana, a minha casa fica cheia. Nas férias, eles passam comigo e minha esposa. Procuro levá-los em passeios e viagens para ficar perto”, finaliza o avô.

Ivany Alves Leite é avó moderna. Com nove netos, ela não deixa transparecer a idade que tem. Cuida muito bem da saúde para manter-se, a cada dia, mais jovem. Nunca dispensa batom para realçar a beleza.

Para a senhora a idade chegou, mas ela se mantém com vigora. Ela foge dos padrões de avó que faz tricô. Garante que os netos se mantêm bem próximos por ela ser assim. É vista como amiga. Ivany sempre foi dona de casa e passou anos cuidando da casa e família. Agora é o momento de aproveitar os dias “de folga”. A dona de casa levanta todos os dias bem cedo para fazer caminhada, “manter a forma e saúde é primordial”. Realiza consultas periódicas para saber suas necessidades e limites.

A avó é exemplo para as amigas que procuram mudar o modo de vida. Sempre muito alegre, a senhora aconselha a todas a viverem como se sentem bem. “A idade chegou apenas no corpo. A cabeça tem que ficar jovem. Meus netos precisam de mim e eu deles, e é dessa forma que me mantenho próxima a eles”, conclui.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

No ano que se comemora 80 anos de tombamento cultural, a histórica cidade de Ouro Preto recebeu a 13ª edição da Mostra de Cinema. O evento que dedica e apresenta a sétima arte como patrimônio, escolheu para sede a charmosa cidade que já foi cenário de muitas produções cinematográficas. A proposta da Mostra junto à cidade faz todos os envolvidos pensarem sobre a história do cinema e do audiovisual de maneira especial. Questionamentos importantes sobre preservação e patrimônio são colocados em diálogo durante o período.

A 13ª Cine OP aproveita da conscientização da cidade e encerra o evento com a certeza que diversas temáticas foram discutidas com todos os públicos. A Universo Produção se despede e segue em frente com a 12ª edição da CineBH.

 

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

Cerca de 80% do Cinema Mudo produzido se perdeu. Ao se discutir sobre patrimônio e preservação, história e memória são questões envolvidas, principalmente na indústria cinematográfica, uma vez que todo projeto ou produção gera um produto. A 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sobre o tema em Seminário | Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Patrimônio no Âmbito Universitário.

Com o seminário a proposta da CineOP é debater e expor estudos de caso universitários, apresentar novas ideias e caminhos que a universidade trabalha para manter o acervo e a cultura do cinema permanente. Foi ressaltado também que produções cinematográficas são uma projeção a partir de películas, mas que existem diversos materiais que compõem este universo, como o roteiro, por exemplo, que ao preservá-lo, ali, pode-se ver as primeiras ideias de uma produção.

O primeiro questionamento ao conversar sobre a temática é por que preservar e, principalmente, o que se deve preservar. Não se sabe o motivo, mas pode-se citar desde a importância que detêm aquela obra ao simples ato de guardar para a posteridade. Já o que se deve preservar é mais complexo, cada instituição pesquisa e escolhe as obras de acordo com o seu perfil. Outra questão também discutida nas salas de aula e na CineOP é o avanço das tecnologias de produção das obras, uma vez que o digital será substituído e não se sabe a próxima evolução. Por isso, ao sair daquela discussão conscientiza-se que mais que formar novos preservadores é prepará-los para o desconhecido.

Por Ana Luísa Arrunátegui e Melina Cattoni
Fotografia: Jackson Romanelli | Universo Produção

 

Uma das temáticas da 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto é a Preservação do Audiovisual. Para ilustrar o tema, além da exibição do longa documental Dawson City – Tempo Congelado, de Bill Morris, a CineOP promoveu uma Coletiva com o diretor para discutir sobre o que torna uma obra ou documento patrimônio.

A obra consiste na reconstituição da história da Corrida do Ouro no Ártico Canadense, por meio de mais de 530 rolos de película produzidos entre as décadas de 1910 e 1920, mas que só foram encontrados, soterrados e congelados, em uma escavação na cidade, em torno dos anos de 1950.

Em nenhum momento do filme Morris fala diretamente sobre a importância e a necessidade da preservação, porém basta olhar para o destino final desses filmes – que, em parte, foram jogados no rio, destruídos em incêndios, viraram combustível de fogueira ou serviram para dar volume e reduzir a quantidade de água necessária para transformar uma piscina em um ringue de hóquei – e sua importância para a desmistificação desse trecho da História. Fica mais do que óbvio que a preservação é necessária e vai muito além dos filmes de Hollywood.

Chegamos então na grande questão: O que deve ser ou não ser preservado? Por qual motivo se deve guardar ou não os Stories que se posto no Instagram? Que fim se deve dar para as gravações de quando criança?

Por mais que não pareça importante, sem a preservação de gravações pessoais e de arquivos familiares, filmes excelentes como Pacific, de Marcelo Pedroso, e La Casa de Los Lúpulos, de Paula Hopf, seriam impossíveis. Hoje em dia, uma filmagem que foi feita há uma semana em uma avenida movimentada da sua cidade não representa nada. Mas, agora imagine se você tivesse uma filmagem dessa mesma avenida, porém feita cem anos atrás?

Ao ser questionado se, mesmo depois de tudo que Bill produziu e trabalhou, ele tinha chegado pelo menos próximo de uma resposta, ele comenta que a primeira barreira é a dificuldade da preservação do digital em relação ao filme e, que a pergunta não é o que deve ser preservado, mas sim, o que é possível ser preservado.

Estima-se que entre 75 e 80% de todo o cinema mudo que já foi produzido, também já foi perdido. E se engana quem acha que isso se deve somente ao descuido ou a falta de espaço físico para o armazenamento apropriado dessas películas. Grandes nomes como George Méliès, considerado um dos pais do cinema, queimou propositalmente grande parte de seu acervo, simplesmente por não ter o que fazer com aquilo e por não acreditar que seu trabalho era bom o suficiente para ser guardado.