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Por Italo Charles

No Brasil, janeiro tem sido marcado pelas manifestações de pessoas transexuais e travestis. O mês se tornou referência em 2004 através de um movimento de Trans Ativistas na porta do Congresso Nacional e, desde então, o Ministério da Saúde estabeleceu o dia 29 de janeiro como Dia da Visibilidade Trans.

Em meio a todas as manifestações políticas que a causa carrega, que tem como objetivo dar espaço as pessoas transexuais e travestis, há ainda alguns tabus a serem desvendados, por exemplo, o entendimento acerca da “identidade de gênero”. Mas, para começar, precisamos entender o que significa gênero. 

As discussões sobre gênero começaram, no Brasil, por volta dos anos 70 através de grupos feministas que lutavam por igualdade de direitos em pleno período de ditadura militar e, a partir desse período, os movimentos se intensificaram e têm ganhado forças dia após dia.

Nesse contexto, o conceito de gênero refere-se sobre os aspectos sociais atribuídos ao sexo. Ou seja, gênero têm relação às construções sociais e não a condições naturais (biológicas). Dessa forma, gênero é compreendido como tudo que foi definido socialmente ao longo da história e que se atribui como função ou comportamento designado a alguém baseado no seu sexo biológico.

É entendido também que, o gênero faz parte de relacionamentos de grupos de determinada cultura e que impõe certas características  sejam designadas ao homem ou a mulher. 

Há quem já tenha ouvido “isso é coisa de mulher” ou “cuidar da casa e dos filhos é dever da mulher”. Ao observar essas situações fica claro que existe por trás dessas falas alguns estigmas atribuídos ao “ser mulher”. Dessa forma, é possível entender que o gênero extrapola as percepções acerca do sexo biológico e se torna uma construção social.

Identidade de gênero

A identidade de gênero está relacionada à construção do indivíduo perante a sociedade, ou seja, como este mesmo indivíduo se enxerga e em qual gênero ele se identifica. Sendo assim, o sexo biológico não está relacionado a identidade de gênero, mas sim na relação ao masculino, feminino e gênero fluido.

Geralmente, ao nascer as pessoas são designadas a determinado gênero a partir da genitália com a qual nasce, sendo assim, os pais e a sociedade escolhem os caminhos que o indivíduo deve seguir a partir disso.

Entretanto, algumas pessoas ao passar do tempo se identificam com um gênero que difere com o qual lhes foi imposto ao nascimento tendo em conta o sexo biológico e através das relações sociais, portanto, isso é a identidade de gênero.

Existem três principais identidades de gênero, mas é importante destacar que uma pessoa pode apresentar características apontadas como ‘masculina’ e ‘feminina’ em todos os casos. 

São: cisgênero, transgênero (Transexuais e Travestis), e não-binário.

Cisgênera é a pessoa que se identifica com o sexo biológico que lhe é designado no momento do nascimento.

A pessoa transgênera é aquela que se identifica como não pertencente ao gênero que lhe foi designado através da sua genitália durante o nascimento.  Entre trangeneres estão, homens e mulheres trans e travestis.

A pessoa não-binária é aquela que não se identifica completamente com o gênero designado no nascimento nem com o outro. Dessa forma, a pessoa não-binária pode não se ver em nenhum dos papéis atribuídos a mulheres e nem ao dos homens, mas também pode vivenciar entre os dois.

Vale ressaltar que muitas pessoas ainda se perguntam como um “homem ou mulher” podem nascer no corpo errado ou então como não se identificam com nenhum ou ambos gêneros. É possível dizer que não existe um aspecto causador.

Orientação afetivo sexual

Outro ponto importante nessa leitura é sobre as características que diferem a identidade de gênero com a orientação sexual. Muitos não sabem, mas não existe uma relação entre ambos conceitos.

De maneira fácil de ser interpretada, diz-se que orientação sexual é o desejo sexual que uma pessoa sente pela outra. Sendo assim, existem algumas características de orientação sexual principais.

Estas são: assexual,  bissexual, demissexual,  heterossexual, homossexual e pansexual.

Vamos lá!

A pessoa assexual é aquela que não manifesta interesse sexual por outra pessoa, entretanto é capaz de manter um relacionamento amoroso/romântico com outro indivíduo.

A Bissexualidade é compreendida como orientação afetivo-sexual a partir de um indivíduo seja ele cisgênero, transgênero ou não-binário que se sente atraído sexualmente ou romanticamente por pessoas dos gêneros masculino e feminino.

Os demissexuais, são pessoas que sentem atração afetiva, sexual e romântica somente quando há um envolvimento e laço emocional ou intelectual. De tal modo, pessoas demissexuais precisam estar “conectadas” para que haja algum tipo de relação. 

Heterossexuais são pessoas que sentem atração afetiva e sexual por pessoas do sexo oposto.

Homossexuais são os indivíduos que se sentem atraídos tanto sexualmente como romanticamente por pessoas do mesmo sexo. Gays e lésbicas se encaixam neste conceito..

Já a pansexualidade é compreendida como uma pessoa que sente atração afetiva sexual por um indivíduo independente do seu sexo e gênero.

 

*Edição: Bianca Morais e Daniela Reis

**A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

 

 

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Por: Helen Oliveira

A imagem dos avós  na cadeira de balanço a espera dos netos perdeu-se no tempo. O time da terceira idade está, cada vez mais, ativo. Eles trabalham, saem para encontrar os amigos, dançam, divertem-se e conseguem compartilhar momentos com a família. Administram o tempo de forma a aproveitar todas as oportunidades oferecidas pela vida. No Dia Nacional dos avós, o Contramão  conversou com dois deles, José Teixeira Alves, de 63 anos, e Ivany Alves Leite, de 66, que se mantêm em atividade.

De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), divulgados pelo Ministério do Trabalho, o número de pessoas entre 50 e 64 anos, no mercado formal de trabalho, cresceu quase 30% entre 2010 e 2015. É o caso de José Teixeira Alves, mais conhecido como Zezinho. Avô de oito netos, o senhor faz dupla jornada: cuida da família em casa e da família que criou no ambiente de trabalho.

O idoso trabalha como auxiliar de manutenção, há 14 anos. Apesar de ter idade para se aposentar e ter dificuldades de locomoção, Zezinho não tem intenção de parar de trabalhar. Ele costuma percorrer longo trajeto de casa ao trabalho,  “São três ônibus para ir e três para voltar. Não é fácil, mas quero continuar trabalhando, enquanto tiver vida e saúde”, ressalta.

José assumiu o papel de conselheiro, atendendo às pessoas que o procuram para desabafos e conselhos, confiantes na vivência e maturidade dele. Em casa, os filhos e netos de Zezinho “tem que andar na linha”.  Ele não dá colher de chá, mas, sempre que necessário, está disposto a estender a mão.

“Como o tempo é curto, não consigo estar 100% com os netos, mas, no final de semana, a minha casa fica cheia. Nas férias, eles passam comigo e minha esposa. Procuro levá-los em passeios e viagens para ficar perto”, finaliza o avô.

Ivany Alves Leite é avó moderna. Com nove netos, ela não deixa transparecer a idade que tem. Cuida muito bem da saúde para manter-se, a cada dia, mais jovem. Nunca dispensa batom para realçar a beleza.

Para a senhora a idade chegou, mas ela se mantém com vigora. Ela foge dos padrões de avó que faz tricô. Garante que os netos se mantêm bem próximos por ela ser assim. É vista como amiga. Ivany sempre foi dona de casa e passou anos cuidando da casa e família. Agora é o momento de aproveitar os dias “de folga”. A dona de casa levanta todos os dias bem cedo para fazer caminhada, “manter a forma e saúde é primordial”. Realiza consultas periódicas para saber suas necessidades e limites.

A avó é exemplo para as amigas que procuram mudar o modo de vida. Sempre muito alegre, a senhora aconselha a todas a viverem como se sentem bem. “A idade chegou apenas no corpo. A cabeça tem que ficar jovem. Meus netos precisam de mim e eu deles, e é dessa forma que me mantenho próxima a eles”, conclui.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

No ano que se comemora 80 anos de tombamento cultural, a histórica cidade de Ouro Preto recebeu a 13ª edição da Mostra de Cinema. O evento que dedica e apresenta a sétima arte como patrimônio, escolheu para sede a charmosa cidade que já foi cenário de muitas produções cinematográficas. A proposta da Mostra junto à cidade faz todos os envolvidos pensarem sobre a história do cinema e do audiovisual de maneira especial. Questionamentos importantes sobre preservação e patrimônio são colocados em diálogo durante o período.

A 13ª Cine OP aproveita da conscientização da cidade e encerra o evento com a certeza que diversas temáticas foram discutidas com todos os públicos. A Universo Produção se despede e segue em frente com a 12ª edição da CineBH.

 

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

Cerca de 80% do Cinema Mudo produzido se perdeu. Ao se discutir sobre patrimônio e preservação, história e memória são questões envolvidas, principalmente na indústria cinematográfica, uma vez que todo projeto ou produção gera um produto. A 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sobre o tema em Seminário | Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Patrimônio no Âmbito Universitário.

Com o seminário a proposta da CineOP é debater e expor estudos de caso universitários, apresentar novas ideias e caminhos que a universidade trabalha para manter o acervo e a cultura do cinema permanente. Foi ressaltado também que produções cinematográficas são uma projeção a partir de películas, mas que existem diversos materiais que compõem este universo, como o roteiro, por exemplo, que ao preservá-lo, ali, pode-se ver as primeiras ideias de uma produção.

O primeiro questionamento ao conversar sobre a temática é por que preservar e, principalmente, o que se deve preservar. Não se sabe o motivo, mas pode-se citar desde a importância que detêm aquela obra ao simples ato de guardar para a posteridade. Já o que se deve preservar é mais complexo, cada instituição pesquisa e escolhe as obras de acordo com o seu perfil. Outra questão também discutida nas salas de aula e na CineOP é o avanço das tecnologias de produção das obras, uma vez que o digital será substituído e não se sabe a próxima evolução. Por isso, ao sair daquela discussão conscientiza-se que mais que formar novos preservadores é prepará-los para o desconhecido.

Por Ana Luísa Arrunátegui e Melina Cattoni
Fotografia: Jackson Romanelli | Universo Produção

 

Uma das temáticas da 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto é a Preservação do Audiovisual. Para ilustrar o tema, além da exibição do longa documental Dawson City – Tempo Congelado, de Bill Morris, a CineOP promoveu uma Coletiva com o diretor para discutir sobre o que torna uma obra ou documento patrimônio.

A obra consiste na reconstituição da história da Corrida do Ouro no Ártico Canadense, por meio de mais de 530 rolos de película produzidos entre as décadas de 1910 e 1920, mas que só foram encontrados, soterrados e congelados, em uma escavação na cidade, em torno dos anos de 1950.

Em nenhum momento do filme Morris fala diretamente sobre a importância e a necessidade da preservação, porém basta olhar para o destino final desses filmes – que, em parte, foram jogados no rio, destruídos em incêndios, viraram combustível de fogueira ou serviram para dar volume e reduzir a quantidade de água necessária para transformar uma piscina em um ringue de hóquei – e sua importância para a desmistificação desse trecho da História. Fica mais do que óbvio que a preservação é necessária e vai muito além dos filmes de Hollywood.

Chegamos então na grande questão: O que deve ser ou não ser preservado? Por qual motivo se deve guardar ou não os Stories que se posto no Instagram? Que fim se deve dar para as gravações de quando criança?

Por mais que não pareça importante, sem a preservação de gravações pessoais e de arquivos familiares, filmes excelentes como Pacific, de Marcelo Pedroso, e La Casa de Los Lúpulos, de Paula Hopf, seriam impossíveis. Hoje em dia, uma filmagem que foi feita há uma semana em uma avenida movimentada da sua cidade não representa nada. Mas, agora imagine se você tivesse uma filmagem dessa mesma avenida, porém feita cem anos atrás?

Ao ser questionado se, mesmo depois de tudo que Bill produziu e trabalhou, ele tinha chegado pelo menos próximo de uma resposta, ele comenta que a primeira barreira é a dificuldade da preservação do digital em relação ao filme e, que a pergunta não é o que deve ser preservado, mas sim, o que é possível ser preservado.

Estima-se que entre 75 e 80% de todo o cinema mudo que já foi produzido, também já foi perdido. E se engana quem acha que isso se deve somente ao descuido ou a falta de espaço físico para o armazenamento apropriado dessas películas. Grandes nomes como George Méliès, considerado um dos pais do cinema, queimou propositalmente grande parte de seu acervo, simplesmente por não ter o que fazer com aquilo e por não acreditar que seu trabalho era bom o suficiente para ser guardado.

Por Melina Cattoni e Ana Luísa Arrunátegui
Fotografia: Ana Luísa Arrunátegui

 

A tendência de exaltar a cultura do exterior também se aplica ao Cinema. Por algum tempo o Brasil tentou basear sua produção em estúdios, formato esse utilizado nos países como Estados Unidos, Índia e Japão. Nessa época, os críticos da sétima arte defendiam a produção de um cinema mais industrial, mas a partir dos anos 1960 o cenário se modifica, ao descobrir formas de imprimir a identidade verdadeiramente brasileira nas telas.

Esta transformação da linha de pensamento do Cinema Novo Brasileiro proporcionou produções que trabalhassem com as histórias nacionais – incluindo mitos e folclores – e complexidades políticas nunca antes trabalhadas dentro das dinâmicas brasileiras. O movimento tropicalista reforçou a ideia ao inserir essas dinâmicas nas músicas e expressões artísticas da época. A 13ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto abre espaço para discussão com o Seminário | Vanguarda Tropical: O Cinema e as Outras Artes.

A conversa apontou a Tropicália como um período de experimentação política e estética e, que a partir disso a linguagem das vanguardas despontaram nas produções cinematográficas, como o longa-metragem Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla. Em suma, o movimento tropicalista foi de extrema importância para início da circulação de produtos com a identidade nacional nos Cinemas e Outras Artes.