Literatura

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Por Yamí Couto – Poligrafias – Parceiros Contramão Hub

Tá pronta para ter disciplina? Ser uma boa menina como todo mundo acha que você deve ser? Você está preparada? Preparada para falar sem questionar, aceitar o que o sistema te falar, rir e perguntar na hora que qualquer outra pessoa mandar? Ah, mas que beleza! Temos mais uma pessoa para mandar. Mais uma força que vai fazer tudo sem questionar. Que vai entender que pensar é apenas mais uma forma de perder tempo de uma coisa que você nunca vai conseguir assimilar. Perfeito. Temos mesmo mais uma pessoa pronta para essa famosa vida adulta. Que sinta culpa se você tiver dificuldade em encontrar um bom emprego, pois não é boa o suficiente para poder entrar numa faculdade que sempre vai estar em greve, pois a cota da educação foi a primeira a ser cortada depois de não conseguirem cortar as cotas para político ladrão. Ah, mas é claro que não. Você é mais um peso para esse Estado, mina. Você tem que aceitar o seu papel de submissão. Pois quem rouba é quem faz o melhor por essa nação. Se hoje somos o país do carnaval é por deixarmos de lado pessoas mais cultas que nunca terão apoio da Elite, o que dirá do pessoal. Ah, menina… Eu fico mesmo feliz que você esteja preparada para experimentar a sua primeira cachaça depois dos dezoito anos, que agora você possa entrar nas festas para maiores e esquecer do seu nome. Fico feliz de verdade que você jamais se encontre e ouça o que as pessoas têm mais falado do que olhar para o lado de dentro e escutado. É assim mesmo.

Bem vinda mesmo, menina. Bem vinda a vida adulta onde você acha que vai se encontrar, mas é uma cilada para você continuar perdida.

Bem vinda a vida adulta onde você será mais uma nessa multidão de pessoas sorrindo por fora, mas por dentro estão mortalmente feridas. Bem vinda ao mundo adulto onde sempre vai ter alguém de fora dizendo o que vestir, o que comer ou qualquer outra coisa que você decida. Bem vinda ao mundo adulto, mina, onde você só chega a algum lugar se for tão sujo quanto eles e minta. Nós estaremos te recebendo de braços abertos e esperando roubar a sua mente e a sua língua até o momento que você não será mais útil para a nossa “humilde” carnificina.

Eu espero que você seja capaz de entender no meu texto a quantidade de ironia.
Caia fora enquanto há tempo.

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

 

querido Salvador,

diz meu coração, que cê só anda um pouco perdido, sem saber como voltar. sem muito jeito pra crer nessas ideias dele, apenas lhe pedi: ‘não se engane, coração. não acredite em tudo que sente’.

existem muitos caminhos, Salvador. estradas curtas, estradas longas, estradas com poucas ou infinitas curvas. aprendi, ainda muito pequena, que quando a gente tem pouca certeza, mas alguma fagulha no coração, a gente consegue chegar onde se deve, aprendendo a amar a trajetória inteira.

não sei o que te aconteceu… se cê cansou dessa brincadeira de longitudes, se seu tempo anda desencontrado, se cê esqueceu minhas poesias, se cê achou melhor seguir, me deixando dentro desses vazio. mas seja lá o que for, não tenha medo. a gente não deve culpar destino algum, nem dizer desses agoras, que às vezes se fazem tarde demais.

mas me escreva quando sentir saudade. as portas vão estar sempre abertas pr’ocê.

com amor,
Alice.

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Different side is desert with a dead tree, Concept of changes.

Por Cássio Leonardo

Nas idas pro interior para visitar os pais voltou com um pé de manjericão, feio que só. A ideia era plantar no apartamento que dividia e ver se dava para colocar em algumas das receitas que tentava fazer, cozinhar era bom.

A muda arrancada pelas mãos experientes da mãe era a mais feia possível, mas aceitou de bom grado, cavalo dado não se olha os dentes, agora tinha era aquele inferno de pegar o ônibus com aquelas folhinhas verdes que cheiravam de longe, que preguiça meu deus.

Preguiça e um certo desconforto, achava horrível incomodar os outros, mas foi assim mesmo, mochila nas costas e o pé de manjericão na mão. As instruções da mãe eram claras: Chegando em casa, já planta, deixa a terra bem fofinha e não desfaz o torrão, se não morre. Em casa fez isso, não desfez o torrão, preparou a terra, plantou, adubou, e regou, deixou lá. O problema era a ansiedade, que angústia senhor, esperar aquilo crescer para poder usar, enquanto olhava a planta pensava que podia ter descido e comprado um maço no sacolão e estaria pronto, mas não, a história era mesmo cuidar.

Mas aí, deu formiga, elas trabalhavam incessantemente com um objetivo claro, devastar aquele manjericão feio, era difícil não descer para comprar, mas resistiu. No telefone com a mãe: Como é que a senhora mata as formigas? Folha de fumo, onde eu vou arrumar isso? tá, mas e aí faz o ‘que? Entendi.

Era simples, mistura na água e rega, as formigas vão embora, funcionou, porém, as folhas ficaram ainda mais feias, e agora estavam começando a empretecer, ia morrer, jeito não tinha mais.

Mas ainda tinha a experiência estética, tomou como objetivo pessoal e intransferível salvar aquela planta, salvar era muita pretensão, só deixar mais bonita estava bom. Pegou a tesoura, não tinha a de poda, eram aquelas que sempre tem em casa, e cortou tudo que estava feio, quase o manjericão todo.  A ‘experienciação’ estética o tinha salvado, a planta ficou boa, bonita até. Depois de um tempo, com regas regulares e sol na medida certa, a planta cresceu, era um pé de manjericão bonito que só, e ele nada de perceber, percebeu mesmo quando num dia de angústia enquanto regava, sentiu o cheiro de vida vindo da terra, eram das folhas verdes. No outro dia raspou a cabeça, enquanto o cabelo caia o sorriso ia ‘enlarguecendo’ e a vida dentro dele ia nascendo.

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Por Geovanna Silveira – Metrica Livre – Parceira Contramão HUB

 

Quero ser dona logo.

Dona antiga, vivida, vencida

Dona respeitada, feita e ferida

Arrependida das más decisões mas

certa de vida

Dona do próprio tempo e do próprio gasto

Dona do amor e do marasmo

Talvez quem sabe

Dona de um espaço

Espero ser dona logo.

Não pra contar a mesma história de monólogo

Dona de mim, do eu lírico, ópio

Quero ser dona do meu real ilusório.

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

aquele desejo que tens, no fundo do teu peito, vai se tornar real à medida em que acreditares em teu coração. 
e todo o silêncio que faz vento aí dentro, vai preencher seus vazios com a delicadeza e a simplicidade dos recomeços.
vais escrever novas canções, compôr outros poemas, aprender a fazer rimas e descobrir que ser feliz é tão caminho, quanto as trajetórias tortas do teu coração.
vais aprender a perdoar. e sorrir sem ter medo. e renascer em pequenas coragens diárias, mais fortes que aquela tristeza de ontem e que aquela mágoa de amanhã.
e então vais compreender:
que todo passo carrega uma chance de amor;
que tudo que parte é porque deveria mesmo ir;
que aquilo que teu coração grita, deve ser tua primeira verdade;
que teu sonho vale mais que qualquer carnaval;
que a saudade sempre vai doer mais nos dias de chuva;
e que tudo aquilo que vale teu sorriso, deve receber tua gratidão.
e eu desejo que nem teu coração partido, seja maior que tua vontade de mar.
e que até teu jardim em flor, resista a todo esse verão.
porque quando chegar o outono, cê vai conseguir acreditar de novo.
e como nos contou, com amor, Cris Lisbôa, 
“não te tornarás aquilo que te feriu”.


(para ouvir “a pele que há em mim”, márcia santos e jp simões)




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Por Larissa Ohana

Em geral é esperado de nós que gostemos muito mais dos outros. Fala-se em empatia, em amor ao próximo e sobre cuidar dos outros. Isso tudo só vale a pena quando vem de dentro, quando o sentimento de fazer bem a si mesmo é tão natural que mal se percebe a real proporção que aquilo atinge ao mundo exterior, contagiando todas as relações que se tem.

Se amar parece tão utópico. De fato é, pensando no sentido de que é preciso sustentar muitas de suas próprias decisões em meio à opinião de tantas pessoas, inclusive muitas que te amam e discordam do seu olhar em relação à vida e à você. É, é difícil sim, mas já ouviu falar em desafio?

Parece que se amar é um fardo. Mas eu te digo, não é! Não é, porque você se sente tão vivo que nem as mortes internas que vivemos diariamente nos afeta. Não é, porque você exercita o “olhar em seus próprios olhos” e enxergar muito mais do que suas características físicas, aprofundando até ver o próprio brilho que ali existe. Não é, porque você para de reclamar do que não tem e passa a valorizar as mínimas conquistas que te fizeram chegar até ali. Sabe porque não é? Porque mesmo triste, a plenitude que toma conta do seu corpo te faz respirar fundo e, perceber os detalhes de tudo com clareza e admiração. A verdade é que não é, porque você sorri tanto (estando sozinho inclusive), que vira simplesmente um hábito fazer coisas para você e com você.

É que a gente sempre se gostou, mas algumas fases da vida fazem isso parecer se esvair, parece que a delícia de “se achar” (ou ter certeza mesmo, e tenha!) passa, ficando bem mais simples perceber com mais frequência as qualidades alheias.

O caminho inicialmente é trabalhoso sim e pode até parecer algo inútil, afinal há quem nunca tenha experimentando a sensação de ter uma auto estima forte. Mas mesmo duvidando, mesmo sem ter certeza, faça o que for em prol dos seus desejos mais loucos (loucos pra quem?), porque esses desejos são só seus, só você sabe o porque deseja aquilo. No fim, você acaba tomando gosto pelas realizações que isso te proporciona, uma vez que traz uma sensação inexplicável de preenchimento. Preenchimento esse que nem mesmo a pessoa mais incrível do mundo vai poder te garantir.

Imagina então, que loucura acordar todos os dias sem ter que esperar nada dos outros porque você mesmo já completa todas as suas expectativas? Não é loucura, é segurança.