Literatura

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Por Melina Cattoni

Foi um sonho! E como todo sonho está difícil acordar. Ela prefere dormir para continuar a sonhar ou pelo menos para o tic-tac do relógio passar mais rápido. Sabe, ela está passando por tanta coisa. Tanta coisa que você não imagina e, o pior é que não imagina mesmo. Mas se imaginasse também, diria que estava certo o tempo todo. O que na realidade, você sempre está certo. Ela é teimosa e precisa apanhar muito para finalmente entender. Ela só não imaginava que seriam tantos baques – um atrás do outro, um mais forte que o outro –. Isso tudo em uma semana.

Ela está fraca e para ela admitir isso aqui dói. Ela é tão orgulhosa quanto você. Mas ela está sem força para continuar, sem força para retornar, sem força para parar. Ela está no limbo. Mas sabe, ela recebeu um aviso pesado, daqueles que esfrega a cara no asfalto mesmo – um aviso que não é daqui, se é que me entende –. Controlar os pensamentos, as palavras, que o tempo tem o tempo dele e esse tempo é diferente do nosso tempo. Então, não adianta correr, pular, retroceder. Tudo tem um propósito, basta confiar e, principalmente, fazer a sua parte. E para ela fazer a parte dela, ela tem que se consertar. Eu não sei quanto tempo isso vai levar, mas se tivesse a sua companhia seria mais fácil. Mas eu entendo que talvez seja pedir muito e se não puder tudo bem. Eu só espero que quando esse tempo acabar, você me encontre novamente.

E sobre o sonho, bom, eu sempre vou me lembrar dele. Cada momento, cada detalhe pequenininho porque eu apenas fui atrás da felicidade e eu a encontrei. E em algum dia, eu vou acordar e continuá-lo. Como um marinheiro que retoma o controle da vela do barco. Pelo menos o barco, eu já tenho.

 

 

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Por Samuel Aguiar – Poligrafias – Parceiros Contramão HUB

A vida é uma constante ilusão de continuidade. Acreditamos em tudo que vira hábito, temos fé em tudo que parece não mudar. A noite precede o dia, beber água mata a sede, dormir anula o sono. É tudo muito certo, até deixar de ser. E se, um dia, o sinal amarelar antes de ficar verde? E se, do nada, a chuva trouxer calor? E se, sem razão alguma, tocássemos nossas vidas no modo aleatório?

Não gosto de emendar canções, não gosto de saber a música que vem em seguida. Curto a volatilidade de uma playlist mal estruturada, curto a surpresa e o impulso do “pula essa”. Gosto da realidade inenarrável das incertezas e da máxima da probabilidade. Se existe uma chance, mesmo que mínima, ao tentarmos infinitas vezes, encontraremos infinitas situações em que ela se concretiza. A obviedade surpreende.

Surpreende porque temos a habilidade de pensar teoricamente. Na real, nem sei se o infinito existe. Dá pra imaginar, dá pra entender, dá pra usar. Somos bons em fugir de tudo que é instável, somos ótimos criadores de alicerces. No infinito é muito fácil, não usamos “e se…”, usamos “e quando…”. Temos certezas tão inquestionavelmente lógicas que me pergunto se somos tão racionais assim.

Pensamos na vida como quem faz contas matemáticas, usamos toda a nossa suposta inteligência para inventar máximas curiosíssimas, mas que não me parecem nada práticas. Pensamos no dia a dia como se precisássemos estar prontos pro que vier em seguida, mas não dá pra prever.

O passado a gente não muda, e é por isso que os condicionais só devem ser usados para imaginar o futuro. Não sei o que faria se o sinal ficasse verde depois de amarelo e nem se sairia de casa num dia quente de chuva. A minha rotina toca no aleatório, e é por isso que invisto uns bons trinta segundos em decidir se a música vai até o final ou se “pulo mais essa”.

A vida é bem mais divertida assim. E se tudo fosse uma constante continuidade?

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Por Débora Gomes – . as cores dela . – Parceira Contramão HUB

 


queria eu, escrever bonito, uma coisa qualquer que cê pudesse ler. que tivesse passarim na janela, rima de jardim, perfume de roseira, cor de girassol. que te fizesse sentir daí, d’onde cê tá e que eu nem sei, uma vontade danada de ler minhas palavras, ficar vidrado nelas, se apaixonar lentamente pelo sentimento que elas brotariam n’ocê. que te desse, ainda, uma vontade de me dizer de volta, de me mandar um bilhetinho, de se ver que nem as constelações todas, que desenho só procê.

mas eu (vê só, que besteira!), quando dano a escrever procê, só sei dizer dessas coisas de amor e que cê nunca vai ler, eu bem sei. enfeito tudo de cor e purpurina, encho o verso de rodeios pra ficar bonito, uso entrelinhas e quase esbarro em desejos que cê jamais entenderia. por isso fico aqui: cabisbaixa, nuns dias meio turvos sem notícias suas, num descaminho doído que nem caco de vidro na sola de pé descalço.

meu sonho mesmo era que cê lesse alguma coisa que eu escrevi… fosse escrito procê ou jogado no vento, de raras vezes que a escrita muda de tom. e se apaixonasse por um versinho só, que cai sempre de ter bem mais do meu coração, do que eu mesma posso ser. se acontecesse isso, d’ocê me gostar primeiro pelas palavras e só depois pelos olhos, mesmo que cê fosse embora, de cá eu saberia que cê iria levando a melhor parte que é de mim…

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Por Lenilson Nascimento – Poligrafias – Contramão HUB

Sabe, não é nada pessoal. Não é nada, na verdade.

A questão é que não sei viver assim, e nunca vou saber.

Nunca fui avesso a mudanças, e não será você a pessoa capaz de mudar isso em mim. Ninguém será.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

Saber que amo mudar, que sou apaixonado por novidades. Você deveria estar preparada para este dia, o dia em que você se tornou rotina.

Não há nada que eu odeie mais, repetir me causa tédio.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

O problema é que você não sabe nada sobre mim, e nem teria como saber. Eu nunca te mostraria esse meu lado.

Na verdade, esse meu lado é quem sou. O ser por trás da máscara que você acreditava conhecer.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

O que me resta é fazer o que sei de melhor: mudar. Tornar-me novidade e me livrar das rotinas.

Desculpe-me, mas eu desisti de você.

Mas você já deveria saber disso, não é mesmo?

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Por Larissa Ohana – Parceira Contramão HUB

Duas, quase às três

As horas parecem correr

Coração continua a bater no ritmo do pensamento

Sentimentos que em mim moram

Libertam-se com facilidade

Pois já está tarde

Tarde talvez para dormir

Mas será tarde para acordar?

Quero abrir os olhos, mas já os sinto mais do que atentos

Então percebo

Devaneios

Sonhar sem precisar despertar

Acordada estou

Devia estar no mundo do inconsciente

Porém consciente estou de consciências da realidade

— pausa para respirar fundo —

Chega

Já pensei no mundo

Já pensei em mim

Já pensei nele, de novo

Ponto final para isto

Espaço

Preciso

Me pede

Dou

Tudo parece insuficiente

Tantos deles

Tantas pessoas envolvidas

E no fim

Me resta apenas eu à mim

Eu me tenho

Eu me amo

Satisfação

Tranquilidade

Olhos fechados

breu.

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Por Giovanna Silveira – Metrica Livre – Parceira Contramão HUB

Olhou por cima do ombro várias vezes, movimento involuntário dos que esperam demais. Não imaginava também chegar tão cedo, se de prévia julgava o motivo de estar ali, mas ficou.

Ninguém a um raio ilusório de vinte metros de distância, somente ele e a presença estática dos arbustos enfileirados, que de certa forma o faziam companhia. Bateu os pés, estralou os dedos, olhou o relógio e o celular, num movimento de marcha atlética contínua, e fazia um movimento com os lábios como se fosse assobiar, mas se havia algum som, saía em decibéis de ar reprimido.

Ouviu ruído abafado de passos rompendo as folhas ressecadas no chão, ergueu a postura e olhou em 6 direções diferentes… logo voltou a posição que mais lhe familiarizava, o aguardo.
E assim foram dez, vinte, trinta, quarenta e sete minutos de pequenos exercícios de paciência; e quando se cansou de todos os possíveis espectros de tempo que o cercavam, olhou o relógio. Fez como quem toma um longo ar para si, espiou uma última vez por sob os ombros, e enxergou que nunca houve um motivo para estar e esperar ali.

Pôs-se nos pés largos, de uma forma simples sorriu para ninguém e se foi. E em um perímetro imperceptível de alguns longos metros de distância, eu o observei, enquanto também esperava. Naquele dia por alguns instantes, o estranho do tempo e eu, divimos o espaço, o tempo e a espera.