Moda

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Direitos na moda, inspiração ou cópia?

Por Italo Charles

Nas últimas décadas o mercado de moda tem obtido grande crescimento e relevância nos setores econômico e de desenvolvimento social. E, devido à evolução tecnológica – que expande os processos produtivos e comerciais – a participação jurídica se faz presente para preservar os direitos que circundam essa grande cadeia.

A partir desses avanços, o setor se deparou com as adversidades que, para quem as produz, provocam mais efeitos danosos que vão além da simples concorrência. Tais práticas como plágio, cópia, falsificação, entre outras, ocasionam a desvalorização dos produtos originais, prejuízos financeiros além do enriquecimento ilícito de quem as pratica.

Os estudos de Fashion Law (Direito da Moda) surgiram nos Estados Unidos em 2006, pela professora Susan Scafidi, que lecionava a disciplina que tratava sobre a falta de proteção legal das criações da indústria da moda na Fordham University (NY). A partir de então, vários países passaram a estudar e aplicar os ensinamentos de Susan, fazendo com que o instituto ganhasse cada vez mais visibilidade.

No Brasil, o Direito da Moda começou a ser disseminado em 2011, despertando interesse de atuação por muitos advogados, que cada vez mais buscam se especializar na área, além de haver apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Associação Brasileira de Advogados (ABA) na implementação de comissões específicas de Direito da Moda por todo o país, contribuindo para a propagação de conhecimentos específicos e de estudos de casos concretos. 

O Direito da Moda foi criado como instituto jurídico que visa prestar assessoria às demandas advindas da indústria da moda em toda sua extensão, seja ela na esfera cível, criminal, tributária, trabalhista, empresarial, entre outras, sempre visando a prevenção ou a solução de conflitos já instaurados.

Propriedade Intelectual

Em meio às práticas jurídicas cabíveis a indústria fashion, a Propriedade Intelectual é vista como fator imprescindível para as criações de moda, seja pelo Direitos Autorais ou pela Propriedade Industrial.

Segundo a Advogada Simone Rocha Men, Graduada pela Faculdade Maringá – CESPAR e Pós Graduada em Direito Civil, Processual Civil e Trabalho pela PUC/PR, a Propriedade Intelectual ampara os direitos através do Direito Autoral e Propriedade Industrial.

“A propriedade intelectual é uma área do Direito que garante recursos para a proteção de invenções e inovações derivadas do intelecto humano.  O sistema da propriedade intelectual promove a proteção de direitos em duas categorias: Direito Autoral e Propriedade Industrial, que se refere a marcas; patentes; desenho industrial e indicação geográfica. 

Dessa forma, na moda é perfeitamente cabível a utilização de todos os recursos da propriedade intelectual, seja ele por meio do direito autoral (proteção da autoria sobre copyright) ou da propriedade industrial (registro de marcas; patentes; desenhos; estampas, etc.). Cada situação demandará uma proteção específica”. 

Vestido Lady Die

No último mês de janeiro os veículos de comunicação mundial repercutiram o caso “Vestido da Lady Di”. A pauta em questão aborda a disputa judicial entre os estilistas David Emanuel e Elizabeth Emanuel sobre os croquis (desenhos de moda) do vestido de casamento e outros modelos criados para a princesa.

A ação em questão visa o impedimento da alienação cometida por Elizabeth acerca dos croquis criados na época em que era casada com David. Dessa forma, David reivindica o direito sobre os desenhos alegando que a ex-parceira os alterou para venda em um leilão.

A advogada Simone Men fez uma avaliação do caso:

“No Direito da Moda tal situação tem amparo na Lei nº 9.610/1998 – Lei de Direitos Autorais.

O direito autoral para ser reconhecido como tal, independe do registro da criação em órgão específico, visto que a sua singularidade e autenticidade conferem a autoria a quem produziu a obra.  Os estilistas David e Elizabeth ficaram conhecidos mundialmente pela criação em conjunto de várias vestimentas usadas pela princesa, inclusive de seu vestido de noiva, a partir do qual os estilistas ganharam ainda mais visibilidade. 

Conforme se extrai da legislação autoral em seu artigo 15, os estilistas possuem co-autoria na criação das peças, e nenhum dos autores podem fazer uso individual da obra criada em conjunto, para quaisquer fins, sem a expressa anuência do outro, em razão das consequências jurídicas que podem ser desencadeadas. 

Cabe ressaltar que o direito autoral é dividido em duas vertentes: direitos morais (ligação pessoal do autor com a obra) e direitos patrimoniais (rentabilidade financeira da obra). Os direitos morais são indisponíveis e podem ser exercidos a qualquer tempo, visto que estão ligados à honra e moral do autor. Já os direitos patrimoniais podem ser negociados por meio de contratos onerosos onde se faz a transferência dos direitos do autor para a exploração daquele bem, remunerando adequadamente àquele que fez a cessão de seus direitos.

No caso concreto dos estilistas, se à época de seu divórcio não foi realizado nenhum acordo em relação ao uso das obras realizadas por eles em co-autoria, poderão agora acordar o melhor destino para os croquis, seja ele a cessão dos direitos de autor de David para Elisabeth, a qual poderia fazer uso exclusivo dos bens, pagando recompensa pecuniária devida à ele advinda da transação, ou até mesmo a destruição dos desenhos, como pretende David, desde que Elisabeth dê seu aval, seja espontaneamente ou em troca de alguma quantia pecuniária. Caso já tenha havido algum acordo sobre o tema no momento do divórcio, poderá ser caracterizada a violação dos direitos autorais por parte de Elisabeth, no momento que expôs as obras em leilão. 

Em casos como este um acordo bem planejado e executado sempre pode proporcionar a melhor solução para os litigantes”, salientou Simone.

Christian Louboutin 

O uso dos solados vermelhos nos sapatos de luxo Christian Louboutin levaram ao mundo inteiro essa característica como uma das principais da marca. Em 2008, o designer registrou sua criação como marca no United States Patent and Trademark Office (USPTO), órgão responsável pelo registro de patentes.

Em 2011, Christian entrou com uma ação contra Yves Saint Laurent alegando que o uso do solado vermelho nas criações de Yves para a temporada de inverno lembram sua marca. O caso repercutiu por alguns anos, afetando também outras marcas, inclusive a brasileira Carmen Steffens, pelo uso do solado vermelho.

Hermès

A grife francesa Hermès, criadora da icônica bolsa Birkin, processou em 2011 a marca brasileira Village 284 que criou um modelo “inspirado” na criação da marca utilizando o nome “I’m the original”. O modelo original foi criado pela Hermès em 1980 e atualmente é um dos mais raros.

A sentença do processo foi a proibição  da marca Village 284 produzir e comercializar produtos referentes ao modelo Birkin, além de pagar indenização por danos materiais e morais advindos da venda dos produtos.

Para além desses casos, há inúmeras outras movimentações judiciais promovidas nas últimas décadas que visam a proteção de direitos das marcas.

 

*A produção da matéria contou com o apoio do Numo (Núcleo de Moda da Fábrica) que é o laborátorio do curso de Moda da Una.

 

**Revisão: Daniela Reis

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O debate sobre sustentabilidade e consumo consciente de moda são fatores essenciais para a construção de uma cadeia produtiva mais justa

Por Italo Charles

Nos últimos anos a globalização e o crescimento exacerbado das mídias publicitárias têm impulsionado transformações em diversos âmbitos e no campo da moda não é diferente. Muito se fala em sustentabilidade e consumo consciente, mas poucas pessoas sabem realmente o significado desses conceitos.

Compreender o que se diverge entre moda sustentável e consumo consciente é o primeiro passo para desmistificar os processos que abraçam uma cadeia produtiva enorme como a da moda.

A indústria mundial de moda é responsável pela promoção de empregos, maior rentabilidade e produção de produtos com custos acessíveis, entretanto, não existem apenas pontos positivos nesse grande meio.

Por trás de tamanha produção estão ocultos os malefícios que o setor carrega. O uso de mão de obra barata e insalubre, insumos químicos usados no processo, descarte de resíduos e poluição do meio ambiente são alguns fatores.

A produção sustentável é pautada pelo processo de fabricação que tem como base o uso de insumos não poluentes ou que causem o mínimo impacto ambiental, uso de fibras orgânicas, reciclagem, reaproveitamento de materiais e a responsabilidade social que está atrelada à condições de trabalho dignas.

Mudanças 

Até o século 18, confeccionar roupas fazia parte de um processo longo ocasionado pela dificuldade de acesso a tecidos e materiais, além da mão de obra para produção, o que tornavam as peças mais caras.

Devido a tais condições as roupas tinham mais qualidade e eram feitas para durar, dessa forma, o consumo, na época, era menor e mais consciente, uma vez que se sabia a origem das peças.

Com a chegada da Revolução Industrial em 1970 e com a criação da máquina de costura, os processos para fabricação começaram a se otimizar e com isso o aumento da produção. Mas, foi em 1990 com os avanços tecnológicos que o termo “fast-fashion” foi criado.

Classificado como o padrão de produção, consumo e descarte acelerado, o fast-fashion ganhou espaço no mercado tanto pela mão de obra barata, facilidade e agilidade na produção quanto no custo de matéria prima.

E, com o tempo, o ramo foi tomando maiores proporções sendo que a cada semana eram lançadas novas tendências que imitavam a alta costura, mas com baixa qualidade, custo e durabilidade.

A partir disso, nos últimos anos, debates sobre sustentabilidade e consumo consciente tiveram mais espaço devido ao volume excessivo produzidos pelas indústrias de fast fashion, questões ambientais e principalmente após o desabamento do Rana Plaza em 2013 – prédio de uma fábrica têxtil em Blangadesh.

Dado o acontecido, surgiu o movimento “quem faz minhas roupas?”, difundido pela Fashion Revolution, organização que luta pela transparência e melhoria na cadeia de moda. As manifestações a respeito da causa suscitaram uma análise sobre os processos e padrões da moda.

Consumo Consciente

Por outro lado, enquanto a moda sustentável, de certa forma, está relacionada aos métodos de produção da indústria têxtil e aos fabricantes, a moda consciente faz com que o consumidor esteja presente e manifeste suas preocupações com os meios de produção e com os impactos ambientais.

Consumir moda conscientemente não é apenas usar peças de origem sustentável ou eco-friendly, para além disso, é ter o autoconhecimento e entender os motivos pelos quais nos leva a adquirir determinado produto.

Para se tornar um consumidor consciente é necessário observar como tem sido seu comportamento nos últimos tempos. Abrir o guarda-roupas é o primeiro passo a ser tomado, só assim, será possível identificar o que realmente é usado e o que não é.

Entender que a peça tem um ciclo e analisar a qualidade de insumos, de trabalho dos prestadores envolvidos e principalmente a forma como será usado e descartado a peça é parte principal do consumo consciente.

Ser um consumidor consciente é avaliar que  “velhos hábitos podem ser melhores”.

 

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O Papo com a Fábrica de hoje vai mostrar a evolução da moda no universo da aviação. A convidada de hoje, Leticia Dias, e ela vai mostrar uniformes de tripulações desenvolvidos por grandes estilistas e muito mais. O papo é comandado pela jornaliista Dani Reis.

A Letícia é líder do Numo (Núcleo de Moda) e esse é o último vídeo da nossa série em comemoração ao mês da aviação.

Para acessar o conteúdo completo acesse o link.

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Conheça o laboratório de moda do Centro Universitário Una

Por: Italo Charles

Moda é muito mais que vestir, é sentir, renovar, moda é criar. A moda transforma realidades, muda conceitos e otimiza processos. Todos esses atributos fazem parte do cotidiano de quem trabalha no setor. Hoje, apresentamos a você o Numo, Núcleo de Moda do Centro Universitário Una.

Fundado no ano de 2004, o curso de Moda abria espaço para uma nova realidade ao cenário ‘fashion’ em Belo Horizonte. Junto, surgia os laboratórios de Corte e Costura, Têxtil e o Studio de Fotografia para realização das atividades práticas

Atualmente, a equipe responsável pelo laboratório é composta pela líder Letícia Dias, pelas técnicas Andreza Ramos, Sheila Fonseca e pela estagiária Alda Viana. A estrutura do núcleo compõem os ambientes de Corte e Costura, Têxtil, Multiuso (utilizado para moulage e acessórios) e o estúdio de Fotografia, usado para editoriais de moda e fotografia de acessórios. Os espaços são planejados e organizados para os alunos desenvolverem as atividades de sala de aula, atividades extracurriculares e para realização das Unidades Curriculares (Uc’s).

“Temos diversos maquinários e materiais, além de uma equipe disponível integralmente para apoiar e auxiliar os docentes no desenvolvimento das atividades e projetos. O Laboratório de Corte e Costura é o mais utilizado pelos alunos nos intervalos das aulas e nos horários vagos e se tornou um espaço colaborativo, de trocas de ideias, local de encontros para desenvolver projetos, ampliar network, fazer parcerias e ainda bater um papo saudável e construtivo em um ambiente cheio de arte e criatividade”, comenta Letícia Dias.

O lab tem como missão gerar experiência aos alunos, conectá-los com o mercado, além de apoiar a coordenação do curso, o corpo docente e o ecossistema Ânima nas demandas relacionadas ao Curso de Moda. “Sempre tentamos trazer o melhor para os alunos, oferecemos cursos, oficinas, palestras com grandes nomes da Moda, ex alunos bem posicionados no mercado como inspiração e parcerias com eventos externos”, relata Letícia.

Através de parcerias e projetos o Numo estabelece um vínculo entre os alunos e o mercado, de tal forma, fomenta o ambiente acadêmico e eleva a produção dos estudantes. “A conexão com o mercado a partir das parcerias externas, oferece a oportunidade do aluno se apresentar, mostrar seu potencial às empresas, pessoas influentes na Moda, de descobrir e desenvolver habilidades, entender melhor a área profissional, construir seu network e agregar experiência ao currículo”, salienta a Líder.

Projetos 

Entre o final de 2019 e o início de 2020 aconteceu no lab o recrutamento de alunos para atuação no backstage do Minas Trend, além disso, ocorreu a produção de figurino para o bloco Então Brilha e a confecção de looks sustentáveis para o desfile do Mood (Festival de Moda de BH produzido pela Prefeitura).

Também foi disponibilizado espaços para realização de oficinas do FeedDog Brasil com vagas exclusivas para alunos, visita a fábrica da Cedro Textil, uma das principais empresas têxteis do País, parceria com o 1º coworking de Moda de MG – Co.crie – com grandes descontos para nossos alunos e ex-alunos do curso de Moda utilizarem o espaço.

Já neste período de retorno às aulas, o lab tem oferecido oficinas Extensão, tais como: E agora, para onde vou? Conhecendo as áreas de atuação na Moda, ministrado por Letícia Dias (líder do Numo) e Handmaid:  Bordados em pedraria – Teoria e Prática, com Sheila Soares.

Por se tratar de um período de pandemia, no qual o uso das máscaras para proteção são obrigatórios, e pensando no retorno das atividades, suscitou no Numo o desenvolvimento do projeto “Máscaras de proteção Ânima”. Além de proteger e colaborar para a  proteção e preservação da saúde de todos, o projeto colabora também com a cadeia produtiva do setor da Moda, que adaptou sua produção para confeccionar máscaras de proteção. 

As máscaras serão distribuídas entre os mais de 150 mil estudantes, educadores e prestadores de serviço que fazem parte de diversas Instituições do Grupo Ânima, presentes em vários estados do Brasil, colaborando para proteção e preservação da saúde de todos.

“Sabe-se que neste momento de pandemia, a indústria da moda passa por reduções significativas em sua produção, o que coloca em risco a garantia do trabalho aos trabalhadores formais e autônomos que dependem exclusivamente da confecção de vestuários. Atualmente, nosso desafio está sendo desenvolver um modelo de máscaras inclusivas para pessoas com deficiência auditiva que não embace”, afirma Letícia.

Além dos projetos e oficinas de extensão e o projeto Máscaras de proteção Ânima, o Numo produz o Una Trendsetters, desfile tradicional que acontece todo final de semestre letivo. O evento que celebra a formatura dos estudantes, teve a 17ª edição no CentoeQuatro (no final de 2019), e já passou por grandes espaços de BH, como: Mineirão, Iate Tenis Clube, Ilustríssimo.

Depoimentos

“Quando entrei para trabalhar no Numo, eu estudava Moda e estava no último período da faculdade, vi uma oportunidade enorme de crescer, de aprender e de me ingressar no mercado de trabalho através do laboratório. Hoje, depois de 2 anos trabalhando como técnica no Numo, me surpreendi com todas as oportunidades que tive, foi muito mais do que esperava, pude compartilhar o meu conhecimento e aprender muito mais, tive experiências em eventos, cursos, oficinas que me proporcionaram  desenvolvimento pessoal e profissional, conheci pessoas maravilhosas e fiz amigos incríveis” –  Andreza Ramos – (Técnica do Numo).

“Acredito que a nossa relação com o aluno seja mais próxima por termos um espaço físico onde eles podem ir, fazer trabalhos, conhecer pessoas. Temos sempre um contato bem direto com eles e estamos sempre procurando melhorar as formas de trazer coisas novas para dentro do curso e para os alunos.”-  Alda Viana  (Estagiária do Numo).

“Como ex aluna, foi no Numo que coloquei em prática muitas teorias aprendidas em sala de aula, criei minha primeira bolsa e minha primeira peça de roupa. Alguns dos momentos mais divertidos da faculdade aconteceram lá, e sempre que o estresse batia, era para lá que ia tirar uns minutos para dar uma aliviada.” – Sheila Fonseca  (Técnica do Numo).

Com a palavra, a líder

“O contato constante para com o aluno e os próprios alunos entre si  fora da sala de aula, em um ambiente disruptivo, criativo e sem rótulos, faz com que o resultado não seja menos que produtivo e engrandecedor para todos.” – Letícia Dias

Serviços extras

O Numo fomenta a conexão entre o aluno e o mercado a partir de oficinas, palestras, dicas, participação em eventos, recrutamento de alunos para realizar projetos externos relacionados a área, como por exemplo: alunos para trabalhar no backstage dos desfiles de um dos maiores salões de negócios de Moda da América Latina – MINASTREND – produzido pela Fiemg, que agora é parceira da Una.

Além de produzir conteúdos e vídeos diariamente para as redes sociais com temas sugeridos pelos próprios alunos.

A monitoria online como apoio aos alunos para realização das atividades solicitadas em sala de aula.

Para acompanhar os conteúdos e trabalhos ofertados siga o Instagram.

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

 

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*Por Ana Carolina Nunes Abreu

Por muito tempo – e principalmente antes da Segunda Guerra Mundial – a ideia de moda se concentrou na Europa, oriunda de maisons luxuosas na elite europeia, com tecidos raros, vindo das melhores grifes e produção feita à mão pelos estilistas, para os nomes da mais alta sociedade. Até hoje, por exemplo, a rainha Maria Antonieta é vista como o símbolo do pioneirismo da moda.

Com as guerras, os estilistas precisaram migrar para regiões pouco afetadas economicamente, como os Estados Unidos. Por esse motivo, foi necessária a criação de um modelo de compra e venda de peças que facilitasse tanto a produção, quanto a recepção dos artigos de moda. Assim, surgiu o prêt-à-porter. Pierre Cardin, estilista francês, criou este termo para denominar sua primeira coleção para uma loja de departamento. Ou seja, a primeira ideia de peças de roupas feitas de forma idêntica, apenas com tamanhos diferentes para a clientela. Foi o primeiro passo para o Fast Fashion e, também, para a democratização da moda.

O termo Fast Fashion foi criado em 1990, para denominar a produção massiva e industrial de artigos de moda, em grande escala, grande margem de lucro e baixa qualidade. Lembra das calças e jaquetas jeans que sua mãe usava e se gabava dizendo que duravam 10, 20 anos? Pode esquecer.

A ideia é criar lançamentos frequentes, sazonais e que buscam suprir o mercado com as tendências atuais e que, com a mesma velocidade que é feita, pode ser descartada. A cada segundo no mundo, o equivalente a um caminhão de lixo de roupas é descartado ou queimado em aterros sanitários no mundo inteiro. Em 2014, um consumidor médio comprou 60% mais artigos de moda do que em 2000.

A revista Environmental Health realizou, em 2018, uma pesquisa apontando que aproximadamente 85% das peças de roupa consumidas pelos norte-americanos são enviadas para o aterro sanitário como resíduo sólido.

Você consegue imaginar o impacto ambiental de tudo isso? Apenas para ilustrar: para fabricar uma camisa de algodão, são necessários 2.700 litros de água. O bastante para uma pessoa beber por 2,5 anos. Toda produção de roupa enquadrada no modelo de “moda rápida” exige gastos em água, emissão de poluentes e desmatamento, para a plantação de algodão, por exemplo.

A luta para conscientizar e diminuir o consumo do Fast Fashion começou há pouco tempo. Para amenizar os danos, foi criado um movimento, em 2004, que vai de encontro com o modelo anteriormente citado: O Slow Fashion.

Promovendo uma consciência socioambiental, valorizando e priorizando comércios e recursos locais,  essa produção visa a prática de confiança entre os produtores e seus respectivos consumidores, praticando preços reais, muitas vezes com os custos sociais, estimulando uma criação de pequena e média escala. De acordo com a professora Valesca Sperb Lubnon do curso de Design de Moda do Unipê, “Assim como houve na primeira Revolução Industrial, quando saímos do artesanal e fomos para a produção em escala, agora estamos em um início de uma nova era, na qual voltamos nossa atenção à qualidade do produto, à valorização do profissional e do conhecimento”. 

Este novo cenário fez as gerações mais atuais repensarem o conceito de moda, principalmente a facilmente descartada. E bem antes desse movimento ser considerado, já havia um modo de consumo que partia da sustentabilidade, baixo preço e apreciação do comércio local, os brechós e bazares.

Existentes desde o final do século XIX, esses comércios visavam atender a população mais carente, que não tinha condições financeiras de ostentar produtos de departamentos, mesmo aqueles com preços mais baixos. Com peças e artigos usados e de segunda mão, os brechós eram, antes de tudo, a única forma de consumo de roupas que muitas pessoas tinham.

Vislumbrando as décadas mais antigas, os comércios de segunda mão passaram a ser vistos como espaços retrôs e vintages, usado por jovens para reconstruir o estilo de gerações anteriores. Isso mesmo, roupas de cós alto, alfaiataria, oxfords, blusas estampadas de botões, jaquetas jeans e outros acessórios que compõem looks conhecidos como “anos 80”, já faziam parte do vestuário de quem não podia consumir em lojas conhecidas em shoppings e demais malls, mas não com a visão crítica da moda, e sim por necessidade.

Uma reflexão acerca desse estilo de vida se baseia nas estruturas excludentes das lojas de departamento aliadas ao Fast Fashion. E por mais informal que a loja seja, ainda tem, em si, atributos capazes de afastar a população de classes mais baixas. Desde a modernização das lojas aos acontecimentos cotidianos e estruturais, como pré conceitos estabelecidos de acordo com o padrão de consumidor que a loja espera. Frequentemente você pode ouvir um atendente falando para outra pessoa “é pra parcelar de quantas vezes?”, mesmo diante de uma compra com o valor baixo. Já parou pra pensar nisso?

Com a ascensão do brechó, muitas vertentes da discussão acerca da moda surgiram. “Por que eu compraria uma peça por R$100,00, se eu posso comprar por R$10,00 em um brechó?”, questionam os novos consumidores. Esse comportamento, apesar de contribuir para os pequenos comerciantes e donos de brechós, traz consigo a problemática de outro consumo massivo e vazio, aquele no qual você usa de pretexto a sustentabilidade, mas consome o dobro de peças por ser mais acessível, por ser mais “cool” e por ser pauta de elogio dos seus amigos em bares.

Esse tipo de consumo pode, consequentemente, encarecer os brechós, que entendem que seus consumidores atuais são, na verdade, pessoas mais preocupadas com a estética do que realmente um público que tenha a necessidade de comprar ali.

As vendas diretas no mercado de peças usadas passa por um momento de aumento expressivo no Brasil. Nestes últimos 10 anos, o consumo cresceu de forma quase exponencial. O mercado dos brechós, conhecido também como second hand, deve dobrar até 2025. De acordo com a pesquisa do GlobalData, o valor desse segmento deve ir de US$ 24 bilhões para US$ 51 bilhões.

Você, consumidor de brechó ou apenas um curioso, já entrou em uma loja com essa denominação, mas ao conferir os produtos e os preços percebe que, além de terem em sua maioria peças de primeira mão, precificam as roupas de forma a beirar o absurdo com o pretexto de “curadoria e garimpo bem feitos”? É o reflexo do consumo acelerado, que dita aos proprietários dos brechós a glamourização daquele ambiente, já que atualmente é tendência.

Entenda: não é para você parar de consumir em brechós e bazares. Mas esses dados aqui servem para abrir seus olhos diante do seu consumo. Ele é consciente, ou você só compra usando o conceito e a tendência como seus aliados?

Outra forma de mudar seus hábitos de consumo é, também, conhecer lojas e comércios que buscam a produção desacelerada e sustentável dentro do Slow Fashion. Não só roupas, mas também produtos de beleza, sapatos, acessórios etc. Esses ambientes podem, muitas vezes, apresentar um preço maior, mas em troca oferecem um produto eco consciente, sem grandes danos ao meio ambiente e, muitas vezes, não testados em animais.

Como dica para se inserir nesse movimento e conhecer ainda mais sobre essa proposta, listamos algumas lojas com a política Slow Fashion.

Confere aí:

Gioconda Clothing 

Comas

Pântano de Manga

Nuu Shoes 

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

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Festival de Moda de Belo Horizonte traz programação extensa e aberta ao público

O evento acontece entre os dias 20 e 23 de novembro e conta com a participação de alunos da Una

*Por: Bianca Morais

Que Belo Horizonte já é um dos polos da Moda do Brasil, já sabemos. A cidade tem recebido muitos eventos na área e um exemplo recente foi o Minas Trend, que agitou a capital no final de outubro apresentando tendências e gerando negócios.

Agora chegou a vez MOOD – Festival de Moda 2019. Em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Belotur e Mumo (Museu da Moda), o evento acontece entre os dias 20 e 23 de novembro trazendo dezenas de atividades.

BH reúne grandes nomes da indústria da moda e se reinventa constantemente com a chamada economia criativa, o que serviu de inspiração para os debates que visam reafirmar esse posicionamento da capital como ambiente de moda, inovação e criatividade.

O Mood  apresenta uma programação robusta com desfiles, palestra e oficinas que prometem estabelecer vínculos entre indústria, atacado, varejo e consumo. As ações coordenadas com projetos e intervenções com capilaridade pelas diferentes regiões, tem o objetivo de promover a moda mineira, o acesso e a inclusão.

Una marca presença no Mood

Os eventos estarão espalhados por toda a cidade e o desfile de encerramento acontece no dia 23 de novembro, no Mercado Central, e conta com a produção do renomeado estilista Renato Loureiro. O Curso de Moda do Centro Universitário Una é um dos convidados para participar desse desfile, ao todo, quatro alunos e ex-alunos da instituição irão apresentar dez “looks” (desenhados e produzidos por eles). Além disso, outros três alunos participarão como assistentes de produção, auxiliando estilistas e modelos.

De acordo com a Líder do Numo (Núcleo de Moda da Una), Letícia Dias, eventos como esse são de extrema importância para os alunos, uma vez que é de grande visibilidade e proporciona uma conexão com o mercado:

“Aceitamos de imediato a participação com o objetivo de promover aos alunos experiências que proporcionem desenvolvimento, networking, prática do conteúdo das disciplinas e vivência fora no ambiente acadêmico. O Numo esteve aberto a todos os momentos para recebê-los e acompanhá-los nesse processo. Participar de desfiles é o sonho de muito alunos, principalmente aberto ao público, com a presença de grandes nomes da moda e da imprensa.”

A ex aluna da Una, Maria Cepellos, convidada a participar do desfile, irá apresentar 5 looks. Inspirada em Arquitetura, comidas e bebidas típicas sua coleção está dividida em três linhas:

“Trabalhei a arquitetura da fachada, criei uma tela em viés e crochê aplicado representando o artesanato. Com estampas inusitadas de queijo com azeitonas, pimentas com a data que surgiu o mercado, garrafas em forma de mandala e galhinhos de cevada. Criei uma estampa inspirada nas cerâmicas do Jequitinhonha que são vendidas no Mercado Central e trabalhei as tramas dos balaios em barbante. Também tem a linha que traz max estampas de orquídeas e a trama do restaurante exatamente em suas formas no viés. Toda a coleção em tons terrosos que são típicos do mercado, como ocres, cobre, laranja e vermelho”.

Assim como Maria, outros artistas estarão expondo a criatividades na passarela, o evento será gratuito e aberto ao público, confira a programação completa no site oficial.

 

  • A aluna escreveu a matéria sob a supervisão da jornalista Daniela Reis