Perfil

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Por Ana Clara Souza

A minha relação com o meu corpo físico sempre foi muitas coisas. É difícil resumir 24 anos de uma relação tóxica em uma só palavra além de ‘tóxica’, mas, é tudo, menos confortável. 

Sempre ouvi dizer que temos que sair do conforto e experimentar coisas novas. Neste caso, o incansável desconforto poderia dar uma trégua, afinal, a calmaria cairia muito bem em nossa relação. 

É Carnaval. A Prefeitura de Belo Horizonte anunciou o melhor e maior de todos os Carnavais. Os jornais e sites de entretenimento lotam as páginas digitais e físicas de  inúmeras matérias, notícias, dicas e reportagens sobre como aproveitar a festa, que é a cara do Brasil, da melhor forma. Depois de dois anos reclusa pela pandemia da COVID-19, eu e meu corpo não nos preparamos para estar na melhor forma para carnavalizar, mas nós iríamos todos os dias. Estávamos muitíssimos animados. Só não imaginávamos que uma parte de nós não éramos a favor de passar cinco dias na folia, minhas coxas. 

Vou chamá-las de ‘Furibundas’ – que é sinônimo de irritadas, e é um nome bem cômico, como nosso vínculo. 

Desde sempre, elas foram alvos de comentários e censuras. Acredito eu que elas queriam ser assim, normais do jeitinho que são, mas com o passar dos anos e os padrões que a mídia impõe, as Furibundas foram se sentindo diferentes do comum, mesmo sendo comum ter corpos diferentes. 

Elas não são muito fortes visualmente falando, mas acho que elas sustentam muitas coisas. Primeiro, elas abrigam o maior osso humano, o fêmur, e aguentam muitas críticas. As minhas, no caso, sempre foram muito criticadas.

Elas são grossas, lotadas de celulites, estrias e gostosuras. Há quem diga que elas são lindas e fartas, outros, que elas são exageradas, há quem deseja a ponto de tocá-las, há quem goste, há quem não goste… o fato é que, mesmo envergonhadas, elas iriam aparecer em todos os dias de carnaval. 

É 4h30 da manhã e elas se despertam de um sono de três horas. Mesmo exaustas, elas teriam que cumprir com o combinado de se esbaldar no famoso bloco belorizontino, ‘Então Brilha’. Só que nada brilhou. Inventei de decorá-las com uma fatídica meia-arrastão, o que não foi uma boa ideia, mas estava a caráter. Saímos.

Eram 6h da manhã e, até agora, eu e as furibundas se locomoviam de carro. Às 6h15, minhas coxas e as das minhas amigas resolvem começar o trajeto de mais ou menos dois quilômetros até o bloco, a pé. Não tinha dado nem 10min e comecei a perceber que a meia-arrastão não tinha sido uma boa ideia para o primeiro dia. Estressadas, as furibundas me pedem cuidado, como se fosse um cigarro para acalmar, e então, resolvi andar um pouco mais devagar. Fiquei dosando o que era confortável para as nervosinhas e tentei não ficar para trás, pois as coxas magras das minhas amigas estavam apressadas. 

Dá 12h, e as furibundas estão em um estado de estresse que fazia tempos que não presenciava. Escuras e vermelhas, lotadas de calombinhos pelo atrito e umas bolinhas como se fosse uma espinhazinha que incomoda, agora, elas pediam não só um cigarro, mas um maço. Eu ignorei. Como havia passado um grande período em casa, eu posterguei o ato que elas poderiam se irritar. Também esqueci que eram rancorosas. 

Peguei um bocado de hidratante de pele, afastei a meia e como tentativa de conciliação, “lambrequei” as coxas de hidratante. Ufa, elas fumaram e se acalmaram por cinco minutos! Se expressassem com palavras, eu imaginaria que estavam me xingando com todos os tipos de palavras ofensivas do mundo. Eram idênticas às viciadas em drogas. Passava mais hidratante e mesmo parada elas berravam com muito rancor por mais e mais.

Passei o resto do dia andando devagar e reclamando. Acho que aquele ditado “me diga com quem tu andas que direi quem tu és”, se fez jus. Eu estava estressada e sedenta para ir embora, assim como as coxas estavam por uma pomada de assadura.

No outro dia, eu não estava disposta a desistir do Carnaval de belô pelas minhas coxas. Super “compreendia”, acreditando que elas entenderiam que era apenas uma fase e que logo iria passar. Já que estavam estressadas, ardidas e com escoriações, o que seria mais quatro dias de Carnaval?

Elas não foram compreensivas. No terceiro dia eu cogitei o ato de não comparecer em nenhum bloquinho do quarto, tudo por conta das rancorosas furibundas.

Não tinha muito o que fazer. Eu, mais uma vez, teria de ser tóxica com elas. E fui. Já se passaram nove meses desde o Carnaval e eu continuo sendo. Imagine uma pessoa muito chata. Imagine ela te irritando. Agora, tente imaginar o porquê dela ser assim. 

Pode parecer sem sentido, mas nessa altura do campeonato você já deve perceber que somos moldados de acordo com os acontecimentos da vida. Quando proponho você a usar imaginação para ter empatia com o outro, é na tentativa de aproximar o que senti e o porquê eu mudei os meus pensamentos em relação às furibundas.

Elas nunca tiveram paz. Sempre foram alvo de sofrimento. Já se cobriram de calças extremamente apertadas, constantemente sofrem por atritos… E eu nunca parei de abusar da boa vontade delas. Hoje, entendo a irritação delas no Carnaval. 

Outro dia, resolvi sair da aula de dança e andar até minha casa com um short totalmente desconfortável para as furibundas, não bastava para mim a ocorrência de 3h usando-as de forma ferrenha, queria abusar. Resultado: tivemos uma briga. Dessa vez, a briga foi tão feia, que nem quando quis cuidar delas, tive retorno. Elas ardiam por tudo. Como ser graciosa assim?

Entendi que tinha sido rude. Na tentativa de ser mais compreensiva, estou tentando ser empática com elas. Até comprei um hidratante específico, agora, elas estão mansinhas.

Continuando, lá no Carnaval, no quinto e último dia, elas já nem tentavam dialogar comigo. Parecia que tinham entendido que estavam destinadas a sofrer. A questão nem era mais a comparação com outras coxas, elas queriam, apenas, aproveitar sem sofrimento. 

Infelizmente, não foi possível. Consternadas, coxas grandes parecem não poder ter divertimento e estilo sem dor. Mesmo na tentativa de confortá-las no último dia, a situação estava drástica. Com shorts maiores ou com shorts curtos, elas iriam mostrar que não estavam felizes com a situação que as coloquei. 

É legitimamente possível que em pleno século XXI, em 2023, não existam soluções válidas para acabar com a irritação das furibundas? Reduzir as coxas é a única alternativa?

O verbo reduzir é doloroso. Se reduzo as furibundas, tenho a impressão que sintetizo toda uma estrutura dos meus ancestrais, negros e latinos, que contam em seus corpos que somos lindos assim, com coxas fartas e fortes. Mas esse é o ponto. Não existem possibilidades para furibundas grossas, pois o capitalismo criou um mecanismo seletivo onde não quer que elas sejam aceitas, nem no carnaval e nem em outras épocas do ano. Isso reverbera de tantas formas dentro de mim que desconto nelas, minhas coxas. Elas são furibundas não é à toa, e eu compreendi.

Seguimos tendo uma relação desconfortável.

Já é Carnaval, cidade!

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Bloco Angola Janga. Foto: redes sociais (@blocoangolajanga).

Por Millena Vieira

Para além da diversão, manifestação. Assim, o bloco Angola Janga surge para resgatar a história da periferia. A dança, as cores e as canções que falam sobre o povo negro e sua cultura são usadas nas performances durante o Carnaval para representar aqueles que sustentam o movimento artístico nas ruas.

O bloco afro surgiu em 2015, devido à falta de conexão com a nova onda de blocos que estavam surgindo em Belo Horizonte naquela época. São pelo menos 200 integrantes desfilando todo ano. Bailarinos, artesãos, ritmistas, todos trabalhando em conjunto pela manutenção e preservação da cultura afro-brasileira. 

O coletivo preza pelo respeito à diversidade e a convivência harmônica, e é formado majoritariamente por mulheres, LGBTQIA+, negros, indígenas e quilombolas. O peso da importância de Angola Janga começa pela escolha do nome que faz referência ao Quilombo dos Palmares, espaço de refúgio, luta e resistência para pessoas escravizadas no período colonial brasileiro. Angola é a lembrança de casa, de um lugar seguro.

Para eles, o carnaval representa o parto, é quando o bloco nasce na rua com toda sua percussão e ritmo para celebrar. No entanto, não pode ser reduzido a um só momento, ao longo de todo ano o bloco segue fazendo grandes iniciativas para suas comunidades. Não se acomodam, tomam a linha de frente na criação de projetos que prezam pela emancipação do povo negro, chamando a atenção do poder público para ações em diversas áreas como educação, cultura, afetividade e cidadania. Seguem sem esquecer o ontem, para a construção de um futuro melhor. 

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Renan O. Carvalho no Rio de Janeiro. Foto: arquivo pessoal.

Por Edilane Carvalho

Renan O. Carvalho (38), homem preto, pobre e gay, nasceu em Belo Horizonte em 1984. Aos 07 anos foi morar no interior de Minas Gerais, neste período, ele teve a influência da sua tia, que era professora e que deu aulas para ele na 4ª série. Carvalho diz que ela  era  a única pessoa que o tratou com respeito, e talvez por isso,” decidiu no futuro” queria ser professor igual a ela. “ Em 2002, quando estava concluindo o ensino médio, prometeu a si que até os 30 anos deveria: iniciar uma faculdade; ter estabilidade financeira; ter casa própria; filhos. Na busca por sua graduação em 2003, fez cursinhos pré-vestibular, e tentou entrar nos cursos de Publicidade e Propaganda, e  Arquitetura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas ele não conseguiu a aprovação.

Em 2004

Ainda em busca da realização profissional, por intermédio de sua tia paterna Vera Lúcia, foi apresentado ao curso de magistério no Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG). Não era curso superior, mas entre não estudar e ter a chance de ser professor, iniciou os estudos. Porém, Renan sofreu nessa época algo que lhe marcaria por muito tempo.  Durante o seu período de estágio ele foi barrado por ser homem e preto de trabalhar em escolas infantis, as escolas desse nível de aprendizado são  compostas, em geral, por mulheres e não lhe foi permitido o contato com as crianças nessa época. . Essa experiência fez ele desistir do seu antigo sonho de se tornar professor.

O período foi muito difícil para Renan aliado a outras questões ele até mesmo tentou várias vezes tirar a própria vida entre 2004 a 2008. Refletindo hoje sobre o período ele vê uma forte experiência religiosa a partir do que aconteceu.  “Hoje ele entende porque Deus insistiu que continuasse vivo. Tinha que chegar ao Rio para cumprir a missão de cuidar do meu marido”.

Em 2011

Devido aos transtornos causados por seu irmão Lucas, sequelado pelo uso de drogas e as chantagens emocionais feitas por sua mãe. Fazendo com que os problemas de seu irmão começassem a fazer parte da sua vida, resolveu ir morar no Rio de Janeiro. Apesar do fim do periodo tentativas de suicídio, se sentia extremamente solitário, mesmo rodeado de familiares e amigos. Era uma solidão que não se justificava. Neste período, ele fazia acompanhamento na ONG vHIVer e o psicólogo receoso com uma decisão impulsiva de sua parte, fez uma semana reforçada de atendimento psicológico. Pesquisou uma rede de apoio de ONGs lgbts a quem pudesse procurar caso algo desse errado. 

Como nunca escolheu seu plano B: que se essa mudança desse errado certamente pularia da ponte Rio-Niterói ou trocaria suas coisas por uma arma para se matar.Isso se somava ao término de um relacionamento com um carioca pilantra que morava em BH que lhe explorava e traia. Então, procurou um amigo da Internet (Mário) que morava em Realengo (Bairro do Rio). Perguntou se ele poderia te receber e ele disse que sim, então combinaram a data.

Porém na noite da véspera da viagem aconteceu a tragédia no morro do bumba em Niterói, que desabou uma comunidade construída em cima de um lixão. Veja no Google.

A prima dele morava lá. Eu na rodoviária com a minha mãe, entrei em pânico. Porque larguei o emprego larguei tudo e desistir fácil não era uma opção.

Daí entrei numa lan-house. Num bate papo de pegação do UOL. Joguei meu problema em uma frase e esperei… o primeiro que disse Oi. Eu já perguntei se podia me receber numa emergência e ele disse que sim, mas  morava em volta redonda.

Eu não peguei contato, não perguntei o nome dele e não pesquisei onde ficava volta redonda… eu só troquei a passagem e entrei no ônibus com toda a minha mudança.”

Como tinha ido passear pela primeira vez no Rio em 2008, sabia que em Três Rios o ônibus virava à esquerda para Petrópolis, mas o ônibus virou pra direita e viu a placa escrito Resende /São Paulo. Neste momento ele entrou em pânico internamente, mas consciente que não haveria retorno. Ao olhar pela janela do ônibus uma placa escrito “VASSOURAS”. Se perguntou o que vem depois? Rodo? Aspirador de pó?

Chegada ao Rio

Chega em volta redonda e desse um monte de gente. Sua mudança é jogada na calçada. E somente nessa hora deu conta que não sabia quem era o cara da Internet e não tinha nenhuma alma ao alcance dos olhos para pedir informações. Ao longe tinha um senhor de cabelo branco que parecia procurar alguém. Ele se aproximou e perguntou se ele era o rapaz que veio de BH, já que não chegou a se identificar na conversa pela internet.

Renan O. Carvalho no Rio de Janeiro. Foto: arquivo pessoal.

Sua vontade era tanta de sair dali que não se apresentaram, colocaram a mudança no táxi imediatamente e tinham caixa até no colo do motorista. Quando chegaram na casa dele é que apresentaram. Nesta hora se deram conta da maluquice que estava acontecendo. Renan achava que Volta Redonda era um bairro do Rio de Janeiro, mas na verdade é um município, chegando no Rio mesmo 5 meses depois de sua partida de Belo Horizonte, onde mora até hoje.

Como precisava se manter, trabalhou em call centers, até surgir a oportunidade de mudança para o Rio de Janeiro onde uma amiga lhe apresentou um programa de descontos por indicação na faculdade que ela estudava. Ele já tinha desistido de fazer uma graduação e investia seu tempo em  cursos profissionalizantes visando a independência financeira.

Graduação e descobertas

Apaixonado pelo curso de design, já que não tinha a opção de arquitetura, concluiu sabendo que só o curso superior não era o suficiente. Começou a fazer cursos de programação que foi um diferencial para ganhar uma bolsa de estudos em Processos Gerenciais na FGV. Como se não bastasse tudo que passou, em 2019 descobriu um câncer que quase causou sua morte e que te lembrou que ainda tinham sonhos a serem realizados e um deles é o de infância: arquiteto.

Por ser assumidamente gay, acreditou ser “Trans” dos 7 aos 9 anos, mas a partir dos  14 anos ele começou a ter certeza que era um homem cis e homossexual.  Renan teve muita dificuldade nesse processo identitário, pois ele não tinha referência (na família), nem na escola, para orientar sobre “como o mundo funciona” e não tinha internet acessível na época, não para ele que só conhecia o machismo na família.

Na segunda graduação foi um dos 21 selecionados para ser cotista, mas o curso precisou ser interrompido devido ao câncer, e a FGV lhe apoiou acadêmica e socialmente. A terceira graduação está bem no início, mas como está em remissão do problema de saúde, torce para conseguir  finalizar.

Sua grande frustração, nas  três graduações, é que não é igual aos filmes que você conhece um monte de gente e leva amizades para  vida toda. Foi uma coisa bem solitária e monótona na primeira, menos pior na segunda porque tinha os colegas bolsistas, mas em cursos diferentes, e a terceira é online, então.

Em busca de resposta

Nunca escutou quem tentou lhe fazer desistir. Pois quando conseguiu, as pessoas que te desmotivaram, foram as primeiras a te aplaudir e pedir conselhos. Problemas vão acontecer, e todo problema tem solução, quando não tem, é porque não é um problema. Chorar não muda a vida de ninguém. Sentiu que sua vida só melhorou, quando começou a gastar o tempo que tinha reclamando, chorando e querendo morrer e foi em busca de resposta de como sair daquela situação.

“Meu maior troféu, foi ouvir de pessoas que em demonstraram em algum momento terem vergonha de mim, por ser gay, falarem hoje, até para os filhos: “Sigam o exemplo do Renan”, “Ele é meu maior orgulho”, “Ele fez coisas que eu sempre quis fazer mas nunca tive coragem”.

Em conversa com Gilson Carvalho Bacellar, bacharel em turismo e companheiro do Renan, mesmo em meio às correrias do dia-a-dia em busca da realização de seus sonhos, encontram tempo para irem ao cinema e em exposições de arte nos diversos centros culturais da cidade, fazer passeios em antiquários, livrarias, sebos, brechós, bazares. Admira em seu companheiro o esforço para conseguir suas coisas, estudioso, inteligente e habilidoso,  capaz de realizar muitas coisas maravilhosas.

Além dessas qualidades já citadas , ser criativo e ter essa vontade de sempre obter mais conhecimentos e especializações. Quando perguntado sobre a rotina para conseguir administrar o tempo com os estudos, trabalho e o relacionamento, que muita das vezes é deixado por último, diz que tudo é sempre feito com muito esforço e dedicação principalmente da parte de seu, com uma  grande habilidade de organização do seu tempo, inclusive para poder resolver questões pessoais e as extras que aparecem na rotina cotidiana.

Eu sempre o encorajo a alongar as suas asas e alçar vôos maiores. Nosso relacionamento é baseado na cumplicidade. Temos os  nossos projetos de uma vida juntos.”

Depois de todo processo

E depois de tudo que passou em sua vida nesses quase 39 anos de vida, o que considera mais importante é que, “quem você menos espera é quem te joga para cima”. Toda vez que se esforçou para conseguir algo, alguém te observava e te indicava numa direção onde encontraria a resposta. Ter uma boa índole, ser verdadeiro, gentil e focado num futuro melhor, gera admiração e tudo que faz é visto por alguém que às vezes não vemos. Graças a isso, até o câncer venceu. Não é mais importante na vida que o nosso “nome”, nossa reputação.

“Depois do câncer eu não quero deixar de realizar nenhum sonho, estou no primeiro mês do curso de arquitetura, semipresencial e já fiz minha primeira maquete.

E comecei uma pós graduação em Ux/Ui design para tentar aumentar o salário para bancar o pagamento da faculdade de design. Mas fiquei desempregado em vez de ser promovido. Após 10 min depois de perder o emprego,  fui contratado como MEI.

Então vou conseguir finalizar a pós e continuar a faculdade de arquitetura até avaliar o momento de trocar de profissão.

Sei que pra um negro no glamuroso mercado de arquitetura. Será outro desafio na minha vida. Mas como estou tão empolgado e feliz que nem ligo. Pois já sobrevivi a tanta coisa.”

Renan O. Carvalho. Foto: arquivo pessoal.

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Por Maria Eduarda Araújo

Edilane de Carvalho Lopes da Silva, 32 anos,  enfrenta o desafio de  conciliar a maternidade e os estudos. Ela é mãe do Álvaro Antônio, de 3 anos, e cursa jornalismo no Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte, cidade onde nasceu e vive atualmente.

Edilane e família. Foto: Barrigulindas.

Para a universitária, além de cuidar de Álvaro, ela precisa também conciliar a vida acadêmica com o seu trabalho. Ela atua como assessora de imprensa. Com isso, afirma que  “lamenta não poder acompanhar o crescimento, o desenvolvimento e as atividades da escola de seu filho, assim como nem sempre é possível participar de reuniões presenciais, levar ao médico ou dar a atenção que ele precisa.”

A rotina de Edilane é intensa: acorda às 05h10 e pega 3 ônibus para se deslocar até a Prefeitura Municipal de Ribeirão das Neves, local em que trabalha. Depois sai  às 17h para conseguir às 19h na faculdade, para chegar lá ela ainda precisa pegar mais 4 ônibus. Às 21h30, sai da universidade e chega em casa às 23h15. Só consegue dormir após 1h da madrugada. Essa rotina é de segunda a sexta-feira. Edilane passa mais de 20 horas por semana se deslocando para casa, trabalho, faculdade.

Adauri de Jesus da Conceição Nogueira, com quem está junta há sete anos, é seu companheiro e a ajuda a cuidar do filho. Ele admira a forma como ela lida com a relação entre os estudos, o trabalho e a família e o fato de ela não reclamar da rotina cansativa. Em uma entrevista, ele diz que ela “é uma super mãe protetora.”

Outra admiradora é sua amiga Mayra Luísa, que acompanhou todo o período de gravidez de Edilane. Segundo ela, a assessora, com a chegada de Álvaro, ficou ainda mais forte. Ela deu um depoimento no qual afirma: “Tenho uma admiração imensa por ela por saber lidar com isso tudo da melhor forma possível. Uma mulher Incrível!

Graziele de Jesus Araújo, amiga de Edilane há 9 anos,  está no 8° período do curso de Assistente Social, trabalha de segunda a sexta-feira e também está entre as mulheres que precisam conciliar os estudos, o trabalho e a maternidade. Ela se identifica com a rotina da amiga e reconhece que não é fácil, mas, segundo ela, a vontade de dar o melhor para os filhos a incentiva a também fazer o melhor, ainda que esteja cansada.

Edilane e filho. Foto: Jaqueline Oliveira.

Em um relato para incentivar outras mães e/ou pais que pretendem conciliar a família com a carreira, Edilane diz: “Independente do que os outros dirão faça o que achar certo. Se você não fizer, vão te criticar por ter parado sua vida por causa do filho. Se fizer, irão criticar por você terceirizar a criação do seu filho para ir em busca dos seus sonhos. Lembre sempre que, alcançando seus objetivos, seu filho estará sempre ao seu lado. Como diz o ditado: Se Ele fizer, ele é Deus, se não fizer, continua sendo Deus. Você não será mais ou menos mãe por ir em busca das suas realizações.”

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Foto: arquivo pessoal.

Por Ana Clara Souza 

“Quando me descobri como artista, foi uma fronteira pra mim. Uma fronteira que me ajudou a pensar e a utilizar a dança de muitas maneiras. Estar sempre inquieto, procurando diferentes formas de, não só de expressar, mas também, de construir o movimento com diferentes corpos e fazer leituras diferentes das situações. Então eu trabalho assim.   Diversas metodologias em uma aula só! (…) Eu me considero uma pessoa aberta e disposta a criar novas realidades não postas, sabe?”

Dentro de uma entrevista de 19 minutos com o meu Diretor Artístico, Dadyer Aguilera, resolvi começar com esse trecho que é uma fala que me impacta. Sempre ouvi coisas semelhantes vindas deste cubano. Por isso, talvez, eu ainda danço.

Este cubano é o artista mais intenso que já conheci. Esse latino é Dadyer Aguilera.

Foto: arquivo pessoal.

O ano era 1969 e passaram 10 anos do famoso Triunfo da Revolução Cubana (1959). Na cidade caribenha de Guaimaro, em Camaguey – Cuba, nasceu do amor de um casal,  um menino miscigenado, cujo entusiasmo e espontaneidade veio junto ao primeiro choro de vida. Brota naquele momento o que só poderia nascer de um sol em sagitário, Dadyer Aguilera. 

Conheci o Dadyer através de uma professora, Danielle Pavam – que é sua esposa e que era a coordenadora de um grupo experimental de dança ao qual participava. Atualmente, é minha diretora na Cia que danço -. Ele foi ensaiar com a gente para uma performance. Na época, confesso que fiquei muito perdida. Ali já nascia uma visão de incompreensão sobre o Dadyer.  

No mundo elitista, branco e magro da dança, pessoas como eu, gordas, baixas, normais, porém,  diferentes, não são comuns. Nem as multiplicidades de corpos, cores, tamanhos, formatos, jeitos e trejeitos existentes no Brasil fizeram a arte da dança ser diversa corporalmente falando. Não que a dança não tenha dançarinos diversos, eu sou a prova viva que tem. A verdade é que, quando se imagina uma carreira de sucesso no meio artístico (especificamente, a dança), quais são as características que te vem à mente? 

Eu duvido que tenha sido uma pessoa gorda ou uma pessoa com deficiência (PCD), entre tantas outras diversidades. Relaxa! Eu não penso que você seja uma pessoa preconceituosa ou algo do tipo. Entendo que é o reflexo de uma estrutura colonizada, esteticamente branca, magra como, Ana Botafogo, Natalia Osipova, Marianela Nunez, Mikhail Baryshnikov e outros tantos padrões que sempre estavam nas capas e dentro das revistas, novelas, filmes, séries, e, hoje, em qualquer rede social.

É muito complicado viver em uma sociedade que não nos representa. É doloroso pensar que quase ninguém semelhante a mim irá chegar em um lugar de destaque nacional ou até mundial porque não é aceito nas normas. Afinal, eu preciso mesmo ficar nessa luta interna de tentar me enquadrar  nesse molde? 

Foto: arquivo pessoal.

Dito isso, nas minhas andanças por encontros confortáveis e seguros para o meu corpo e mente, me esbarrei com uma figura graciosa. Uau! Que estranho não ter que lutar contra as minhas curvas. Que louco poder dançar! Porque, como essa figura mesma diz (com seu sotaque fortíssimo cubano), basta ter um corpo para isso. 

Gozar de prazeres, diversões e autenticidades, sempre foi a característica desse menino de pele escura, pernas compridas, rosto quadrado, pescoço curto e uma mente borbulhante que adora metáforas. Nos tempos de ouro de Cuba, onde a vida era relativamente tranquila, a alimentação era gratuita, todos trabalhavam para o governo, tinham uma boa saúde pública e educação também gratuitas, além do direito a uma moradia.

Foto: arquivo pessoal.

Parte dessa estrutura pública de Cuba,  e a mais significante para Dadyer, foram  seus estudos no Ballet Clássico. De forma gratuita e com muita qualidade, ele viveu a primeira parte de sua formação em um internato artístico com influências do Ballet russo e norte-americano, trazidos no retorno da bailarina Alicia Alonso à Cuba, que modernizou e adaptou as metodologias e transpôs para corpos latinos, diferentes da cultura europeia.

Com essa ressignificação, Dadyer entendeu  seu corpo e sua cor. Tinha ídolos parecidos com ele, e isso era o máximo. Cuba também tinha um racismo estrutural, mas ainda assim, mais consciente do que no nosso Brasil, brasileiro.

Aos 18 anos 

Na maioridade ele se forma. Era um bailarino profissional que rodopiava pelos palcos de Cuba. Porém, a situação econômica e política da sua amada Ilha caribenha não ia tão bem. É que na contagem regressiva de seu 20º aniversário, no dia 9 de novembro de 1989, caía por terra a “divisão” socialista e capitalista na Europa. O muro que se estendia em toda a Berlim ocidental, teve sua queda. Com falta de apoio financeiro da URSS Cuba entrou em decadência devido ao forte embargo imposto pelos americanos.

Cuba foi de um país desenvolvido cultural e economicamente, para um país com racionamento de energia elétrica, sem gasolinas nos postos, saques e roubos de animais com bastante frequência, dentre muitas coisas. No auge de seus 25 anos, já bailarino profissional, o cubano teve que se reinventar. Foi aí que veio para o Brasil em busca de melhorias. “Entrei na Companhia do Palácio em 99, com 28 anos. Foi uma mudança muito dolorosa para o meu corpo.” 

No Brasil, Dadyer começa a descobrir novas possibilidades e facetas. Se redescobre. Conhece duas de suas paixões, a dança contemporânea e o amor da sua vida – com quem se casou  e teve  sua segunda chica. Ele re-molda seu corpo e mente. Do en dehors, com os pés para fora, ele vai para os pés paralelos. Passa, em parte, pela novidade de pesquisa e, em outra, pela nova cultura que agora adentra seu coração cubano. 

Os negros já tinham conquistado dignidade em Cuba. No Brasil, nem na década de 90 e nem hoje. Isso foi um baque para ele e, ao mesmo tempo, uma nova porta para estudos, resistência e representação. Tudo através da arte. 

Foto: arquivo pessoal.

Assim, reverbera na sua dança uma potência inenarrável. Com uma infinita inquietude, não acha certo o monopólio de conhecimento e busca expandir e plantar toda sua sapiência nos que circundam. Talvez, por crescer em um país comunista ou talvez por ver r nas pessoas coisas que nem elas mesmas enxergam.

Através da conectividade de suas raízes, se tornou um bailarino intérprete que aprofunda o âmago de qualquer um que o assiste. Isso criou tantas possibilidades para ele, que a sua própria esposa me contou que é difícil acompanhar sua criatividade ao expressar as problemáticas do mundo através do corpo. “Bom, no dia a dia essa criatividade me mata. Mas eu tive que aprender a lidar com ela porque eu, na verdade, sou outro extremo, sou a pessoa que repete, que gosta da rotina e gosta de tudo já  conhecido. Lidar com o desconhecido, para mim, é muito diferente, muito desafiador. Eu aprendi que, às vezes, as coisas que eu achava loucura dele funcionavam. Descobrir algo novo o tempo todo pra ele, porque isso é natural dele, tá sempre inventando coisa nova, pra mim não era. E aí eu fico vendo gente, por que não, né? Coisas novas são tão necessárias.” Fala Danielle.

No Brasil
Foto: arquivo pessoal.

Se ele já era muito autêntico e bom na dança, o Brasil despertou ainda mais seu jeito único. Eu já tinha alguns atributos que descreviam esse homem de cabelo cacheado, alto, esbelto, classudo com uma postura de invejar e um cavanhaque, que para mim, é a marca registrada do Dadyer.

Na tentativa de explicar esse evento que nasceu lá em 1969, perguntei para algumas alunas dele como o descreveriam. Vale ressaltar que todas são brancas e magras. Tanto Janine, quanto Silvia, acabaram desenvolvendo uma resposta muito semlehante. Antes de qualquer adjetivo, vinha sempre um “Descrever o Dadyer, nu! Que difícil.” No final, saía talentoso, criativo, teimoso, desafiador, livre. O que mais eu posso falar… Hum… autêntico. Eu acho uma pessoa bem autêntica.” “Generoso, preciso, minucioso, gente boa. Ai, queria falar exigente, mas não é a palavra. Aí, a pessoa que te cobra porque ela sabe que você tem pra dar, sabe?” 

Resumir uma pessoa em algumas palavras é rude. Resumir o Dadyer em algumas palavras é padronizá-lo à todas as pessoas que têm as mesmas características que ele possui. Ele não é passível de definição, muito menos de comparação, as próprias entrevistadas entendem isso quando tentam. Tá tudo bem! Ele realmente é um extraterrestre inexplicável. 

Ele consegue te abraçar sem encostar em você. O remédio que ele mais faz propaganda é a ciência da dança. Para nós, alunas desse E.T, suas aulas são difíceis, são terapias, são alinhamento de chakras, são doloridas e o melhor de tudo, PARA TODOS!

Desde a Escuela Provincial de Arte de Camaguey, onde já vivenciava uma cultura onde arte é para todos, até hoje, com 53 anos, o brasileiro de alma e coração reforça o poder que a dança tem de transformar vidas. Sua forma de ver o mundo e ensinar  é refúgio de uma sociedade que ainda não entendeu muito bem o que de fato é a diversidade. Sua dança atravessa as pessoas como uma navalha afiada. Ele desafia qualquer esfera de proximidade. Ele é apaixonante.

Nos dias de hoje

Atualmente, ele reforça todas as possibilidades de mexer o corpo como crítica, política e sentimento através de suas experimentações e da Coaduna Cia. de dança ao qual é diretor artístico. Basta ter corpo, estar aberto para acessar outras perspectivas e ter vontade. Ele sabe da importância disso na vida de muitas pessoas, principalmente na dele, entretanto, quero reforçar que não se trata apenas de importância e sim de uma mente que não se rotula.

Tudo que é oriundo dos colonizadores, Dadyer faz o possível para fugir. Ele não quer mais o mesmo, ele quer corpos como o meu, como o seu – que está lendo essa revista porque de certa forma se identificou – , quer a diversidade abundante do nosso país. Na Coaduna não existe ninguém parecido. Tem gente alta, magra… mas também tem gente gorda, negra, mais velha. Para ele isso é dança, possibilidades infinitas de pensamentos, formas, trejeitos e jeitos. 

Foto: arquivo pessoal.